Chapter 7
O que ao mouro no trance tremendo De destino cruento remiu, Esta noite, a quem nunca mentiu De mentir uma vez salvará.
D. PEDRO.
Com grande jubilo.
Oh sim! sim! Velae guardas de Ceuta! Outras portas o amor nos abriu; Nossa estrella dos céus nos sorriu; O caminho, o caminho é por lá!
D. HENRIQUE E D. PEDRO.
Noite placida e formosa, Noite grata a um vivo affecto, Para nós no torvo aspecto Te deslisa almo prazer!
Bella noite silenciosa, Sê propicia ao nosso intento; Com teu véu cobre o momento Do partir e do volver!
SCENA III.
Sala nos paços do wali Bensalá n'uma aldeia das vizinhanças de Ceuta. Um candelabro, que derrama uma luz frouxa, pendente do tecto. No fundo, sobre uma especie de coxim elevado, Gulnar reclinada. Côro de donzellas arabes cantando ao som de harpas.
CÔRO.
Dorme, dorme desgraçada! Dorme, filha do wali! Possa o somno sobre ti O consolo derramar.
Quando dormes é teu gesto Brando e meigo qual de huri; Mas vingança nelle ri Ferozmente ao despertar.
GULNAR.
Erguendo-se lentamente.
Oh, como é doce o som de vossas harpas, Desterradas de Ceuta!.. Adormecestes Um pouco minha dor. Senti correrem Destes olhos as lagrymas... Ai! breve, Repentino terror veio enxuga-las. Meu pae... Que diz Levi?
CÔRO.
Oh Deus!
GULNAR.
Entendo: Não tenho que esperar?..
CÔRO.
Delira. Golfa o sangue Da profunda ferida, Por onde foge a vida Do inerte corpo exangue.
GULNAR.
Com gesto ameaçador, e erguendo-se.
Oh, basta! Inulto, Senhor de Ceuta, em cemiterio estranho Não dormirás! Meu pae, Gulnar t'o jura! Lobna e Haleva onde estão?
SCENA IV.
LOBNA E HALEVA.
Entrando apressadamente assustadas.
LOBNA.
Eis-nos, princesa! Os espias voltaram: tumultuando Na marinha de Ceuta homens, ginetes, Ao pôr do sol: as naus soltando as vélas, Proas á terra: o esquife após o esquife Entre a praia e as galés cruzando as ondas; Tudo do amir christão mostra a partida.
GULNAR.
O tigre português volta ao seu antro! Mas Ceuta...
Com amargura.
Profanada e serva és Ceuta! O que te amou qual pae jaz moribundo No seu leito de dor. Foi por salvar-te Pérola rica do Moghreb. Inutil O sangue se verteu! Oh, sem vingança Não ficaremos nós: nós ambas orphans, Eu desterrada e tu escrava. O nobre Teu senhor e meu pae, talvez, da aurora Não veja mais a luz. Mas trema o fero Amir de Portugal! Gulnar, a filha Do vencido wali, ha-de vinga-lo. Lobna e Haleva esta noite...
HALEVA.
Hesitando.
E quem vos disse Que elles hão-de voltar?..
GULNAR.
O juramento: O juramento seu!.. Já não sois servas, Bellas filhas do Caucaso; sois socias Da implacavel Gulnar. A vós a gloria De tornar mais cruel su' hora extrema. Quanto ardente paixão tem de ternura Quantas fascinações ha no amor virgem: Quanto o meigo sorrir, quanto as promessas, O pranto, o resistir tem de delirio; Tudo, tudo empregae! Raio de morte, Juncto ás portas do céu, lance-os no inferno.
Erguendo as mãos.
Escuta, emfim, meu pranto, Dos impios vencedor: Manda, propheta sancto, O anjo exterminador.
Chore a roubada prole O português amir: Que o sangue me console Antes de o sol surgir.
Cercae-os vós de goso: Sintam que é bom viver: Será mais horroroso Meu brado:--Ide morrer!»
Vem, oh terrivel hora, Hora do meu folgar, Hora em que vingadora Triumphará Gulnar.
Dirigindo-se ao côro.
Ide; patente Do alcacer seja o ádito: silencio Profundo reine em toda a parte: os gritos Dos moribundos só... hão-de quebra-lo! Vingança a Bensalá.
CÔRO.
Vingança á patria!
GULNAR.
A Haleva e Lobna com gesto terrivel.
Em breve me vereis!...
SCENA V.
LOBNA E HALEVA.
Olham aterradas para Gulnar, que sai precedida do côro, e depois correm a lançar-se nos braços uma da outra.
HALEVA.
Ai, como foi mesquinha A nossa escura sorte! Porque a terrivel morte Os tristes conduzir?
LOBNA.
Oh, se Gulnar os víra, De sangue inda banhados, Vencidos, humilhados, A nossos pés cahir!
HALEVA.
Que lhes valêra? Sangue, Sangue só quer a hyena: A cólera a aliena: Não póde perdoar!
LOBNA.
Haleva, minha Haleva, De susto eu titubeio: Tu imagina o meio De as victimas salvar.
HALEVA.
Miseras! Só nos resta, Em festa sanguinosa, Sob a traidora rosa O aspide esconder.
LOBNA.
Que importa a pobre escrava De susto e de amor trema? Embora chore e gema, Cumpre-lhe obedecer.
HALEVA E LOBNA.
Sólta o suave canto Captivo rouxinol, Quando o nascente sol Derrama seu fulgor;
E as aves vem, correndo, Pousar no umbroso til, Onde com arte vil As prende o caçador.
O canto da avesinha Foi nosso amor fatal! E elles... destino igual Lhes reservou o amor!
SCENA VI.
Terrado no primeiro plano da Torre de Fez, cujo corpo superior se alevanta ao lado esquerdo no fundo, seguindo para a direita a linha das ameias. Ao longe o facho de uma atalaia exterior. No cimo da torre, tambem ameiada, outro facho, cuja claridade allumia a scena, onde se vêem tres ou quatro vigias encostados ás ameias do plano inferior. Sobre a porta do corpo superior da torre lê-se a seguinte inscripção:==_Esta torre de Fez ffoy combatida e entrada pollo muy eyscelente e esforçado Iffante Dom Anrigue a 21 Dagosto de 1415 annos._==É noite.
D. DUARTE.
Saíndo seguido de um sobrerolda, ambos apressados.
Viste-los vós?...
SOBREROLDA.
Jura-lo Posso. Dous cavalleiros: Negras armas: cavallo Negro ambos. Ligeiros Voam... Ouví!...
D. Duarte chega ás ameias escutando.
Ao largo Ainda soa o tropel.
D. DUARTE.
Áparte com afflição e despeito.
Oh pensamento amargo! Oh receiar cruel!
Ao sobrerolda.
E os homens d'armas?
SOBREROLDA.
Velam: Não falta um só.
Escutando para a campanha.
Dir-se-hia, Ao seu correr, que anhelam Voltar antes do dia.
D. DUARTE.
Não mais...
Chegando-se ás ameias, e apontando para baixo.
Para a barreira Cem lanças o adail Conduza: da dianteira Todos; que valem mil! E eu lá serei em breve: E elles hão-de seguir-me. Sabe-lo elrei não deve. Ai do que ousar trahir-me!
O sobrerolda sai.
Sob o seu gesto candido O engano se escondia! Era uma idéa perfida Que na alma lhes surgia, Quando de Ceuta as portas Juravam não transpôr! Creram que a noite lobrega Seu crime esconderia! Perante o céu, oh miseros, Que importa a noite, o dia, Se de ira se ha turbado A face do Senhor?
Pausa: com terror.
Mas se a suprema cólera Terrivel já descesse!... Se, em vez do goso vívido, A morte os acolhesse!...
Erguendo as mãos.
Meu Deus perdoa aos tristes; Cede á fraterna dor!
Oh minha mãe, da placida Morada da ventura, Guia-me os passos tremulos Por esta noite escura, Para salvar teus filhos, Filhos de tanto amor!
SCENA VII.
A mesma sala da scena II mal allumiada pelo candelabro onde apenas arda um ou dous lumes: a gelosia está aberta: é noite escura. Lobna e Haleva saíndo pela direita, e parando de quando em quando, lançam os olhos inquietos ora para a gelosia, ora para o portico da esquerda.
LOBNA.
No seu rapido gyro foge a noite Ligeira e socegada: Fulgor da madrugada Em poucas horas subirá d'oriente. Não poderam voltar!... Respiro...
HALEVA.
Aproximando-se da gelosia.
Escuta! Ouviste um silvo agudo? É o signal!...
LOBNA.
Eu tremo... Porém não... Quedo é tudo; Salvo um ruído sussurrando ao perto, De almogavar talvez...
HALEVA.
De dous ginetes O tropeiar parece... Elles!... São elles! Sobre trajos de ferro espadas tinem! Não ha que duvidar...
LOBNA.
Oh! desfalleço!
Ouve-se um sibillo já perto.
HALEVA.
Ei-lo o triste signal, signal de morte! Á sua esquiva sorte Não poderão fugir! Meu Deus!
LOBNA.
Patente Ante si tudo hão-de encontrar. Se ao menos Suspeitassem de nós!
HALEVA.
Ei-los! Silencio!
SCENA VIII.
D. Pedro e D. Henrique entrando dirigem-se para Lobna e Haleva, que recuam aterradas.
D. PEDRO.
Lobna!
D. HENRIQUE.
Haleva!
D. PEDRO.
O juramento O momento é de cumprir! De partir não tarda a hora: Ha-de a aurora Refulgir-nos juncto ao mar.
D. HENRIQUE.
Sobre os rapidos corceis Nós fieis vos guiaremos Aonde achemos mil delicias Nas caricias De que amor nos vai cercar!
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Vinde! a noite nos protege: Dorme tudo pela aldeia; E este braço não receia, Quando cumpre, o pelejar.
Vinde ser enlevo d'almas, Sob um céu meigo e sereno; Que nunca ha-de o sarraceno Como nós saber amar!
LOBNA.
Correndo ao portico da direita, e voltando com afflicção e energia.
Fugí breve, oh desgraçados, Que cercados sois da morte! Queira a sorte que um momento Seu intento A cumprir tarde Gulnar!
HALEVA.
De ninguem serdes sentidos, Já perdidos, ainda creis! Mal sabeis vos esperava Quem velava Para em vós um pae vingar!
LOBNA E HALEVA.
Triste umbral haveis cruzado, Do wali ultimo abrigo, Que no extremo do perigo Jaz a ponto d'expirar.
Por seu sangue a feroz filha, Que essas portas franqueiou, Vingativa aos céus jurou Vosso sangue derramar.
D. PEDRO.
A perfidía em recompensa Só achou o nosso ardor?! Desleaes! Porque o furor De mulher cruel servir?
D. HENRIQUE.
Porque a vida nos pedieis, No olhar terno amor pedindo, Quando os golpes retinindo Era livre inda o fugir?
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Porque em noite deliciosa De delirios seductores, Generosos vencedores Só pensaveis em trahir?!
LOBNA.
Uma idéa tenebrosa De Gulnar surgiu na mente Nessa noite, em que estridente Veiu a espada aqui luzir:
HALEVA.
«Ide:--disse-nos--sois bellas: Fascinae os nazarenos, Talvez possa assim, ao menos, Da vingança a senda abrir!»
LOBNA E HALEVA.
A leôa do deserto Entre as cervas se escondia: Seu aceno constrangia Pobre escrava a amor fingir.
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Com vivacidade e despeito.
Era pois um falso affecto?!...
LOBNA.
Foi-o só um breve instante...
HALEVA.
Hoje puro, hoje constante
LOBNA E HALEVA.
Far-nos-ha por vós morrer.
D. PEDRO.
Pondo a mão sobre o punho da espada.
Que ella venha, pois, e a cerquem Seus escravos traiçoeiros! Portugueses, cavalleiros Somos nós: ha-de tremer!
D. HENRIQUE.
Sabe o forte nos combates Se este braço é prompto e duro; O covarde, que no escuro Fere só, o ha-de saber!
LOBNA E HALEVA.
{ Oh, fugi; que ainda é tempo, { Antes de ella aqui volver! { 4 { D. PEDRO E D. HENRIQUE { { Partiremos! Dentro em breve { Nos vereis aqui volver!
O exterior da sala illumina-se de repente: a luz penetra pela gelosia, e pelos porticos da direita e da esquerda. Os infantes, que vão a sair, param e escutam.
CÔRO DE GUERREIROS MOUROS, _fóra_.
Gloria ao sancto propheta que aos impios A cerviz insolente vergou, E do amir português crueis filhos Do muslim ao punhal entregou!
LOBNA E HALEVA.
Bateu funerea hora... Morreu nossa esperança!
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Resta-nos a vingança... Sangue por sangue... Embora!
SCENA IX.
Eunuchos negros armados de punhaes, que se precipitam na scena e vão collocar-se no fundo do theatro. Gulnar, saindo da direita, encaminha-se vagarosamente para as escravas e para os infantes.
GULNAR.
A Lobna e Haleva.
Fugir?!... É tarde, infames! Vós me trahieis, vís! Tremei! Gulnar velava... E eu sou vosso juiz!
Aos infantes.
Deponde inuteis ferros, De Ceuta vencedores! Lá fóra meus guerreiros...
Apontando para os eunuchos.
Alli meus vingadores.
LOBNA. HALEVA.
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«Ide trahi-los-- Para trahi-los Impia,disseste... Nos escolheste!.. Mui facil creste Se nos venceste Fingir amor. Foi por temor.
LOBNA E HALEVA.
Morrer com elles É grata pena... Feroz hyena, Temos-te horror.
D. PEDRO. D. HENRIQUE.
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Aos teus escravos, Os teus escravos Mulher infida, Com mortal lida Mais larga vida A nossa vida Deixa gosar! Tem de comprar!
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Que nunca o susto Nos fez no p'rigo O ferro amigo Abandonar.
Começa a ouvir-se um ruído como de golpes de machado.
GULNAR.
Da louca audacia, Da van affronta Vingança prompta Gulnar vai ter.
O ruído augmenta: tinir d'armas, gritos confusos.
Mas qual ruído Confuso soa? Porque reboa Voz do adail?!...
Ao chefe dos eunuchos, apontando para o portico da esquerda.
Hussein!.. O ferro Retine!.. Gritos! Gemer d'afflictos! Sons de anafil!..
Toque de trombeta fóra. Hussein sai correndo pela esquerda: Gulnar fica suspensa.
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Que escuto?! Lá bradaram: --São Jorge! Ávante, ávante!» Oh jubiloso instante! Restruge o pelejar.
GULNAR.
Acenando aos eunuchos.
Morram os impios! Morram! Servos, rasgae seu peito. Sintam, emfim, o effeito Dos odios de Gulnar.
Os infantes dirigem-se para o portico da esquerda: os eunuchos apinham-se diante delles com os punhaes erguidos: o côro das donzellas arabes precipita-se na scena pela direita com gestos de assombro e terror: no mesmo tempo pela esquerda guerreiros mouros fugindo desordenados diante dos cavalleiros portugueses, que rompem por entre os eunuchos e os dous infantes.
SCENA X E ULTIMA.
Os dictos: D. Duarte: córos de cavalleiros portugueses e mouros: côro de donzellas arabes. Os mouros fugindo param no fundo da scena, e os cavalleiros portugueses prolongam-se pela esquerda. Gulnar, recuando, fica rodeada dos eunuchos e das donzellas. Lobna e Haleva refugiam-se juncto dos infantes.
CÔRO DE DONZELLAS.
Que horrivel espectaculo! Por toda a parte a morte...
CÔRO DE GUER. MOUROS. CÔRO DE CAVALLEIROS.
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Ferros inuteis, ide-vos: Cede o agareno timido: Cumpra-se a nossa sorte! Honra ao valor do forte!
Depondo os alfanges no chão. Brandindo as armas.
D. DUARTE.
Lançando os olhos para os eunuchos armados de punhaes estremece, e correndo para os infantes, ergue as mãos ao céu.
Vivos ainda, e incólumes! Graças te dou, Senhor! Laços de um impio amor Vinha-lhes eu partir... E a morte ia-os ferir!.. Graças, oh meu Senhor!
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Curvando o joelho aos pés de D. Duarte.
Foste enganado, e salvas-nos!.. Perdoa, nobre infante! Foi de delirio instante, Que ao erro nos levou.
LOBNA E HALEVA.
Agita ancioso o seio Insolito pulsar; Mas d'horrido receio Não é este agitar!
D. DUARTE.
Abraçando successivamente os irmãos.
Pedro, Henrique, sois salvos! Invencivel A espada portuguesa, Mais uma vez, terrivel, A barbara fereza Dos infiéis domou. O perfido punhal, Da vingança guiado, em vão se alçou...
GULNAR.
Adiantando-se.
Vencestes, nazarenos! Folgae na vossa gloria... Seguí facil victoria. Puní-me! Eis-me captiva... Do vosso amir na prole Vingar meu pae eu quiz... Pensando-o era feliz: Agora infeliz sou. Morrer é a esperança, Que o fado me deixou.
CÔRO DE CAVALLEIROS.
Interrompendo Gulnar, e brandindo de novo as armas.
Pune, oh principe, infames traidores: Lava a affronta do sangue real! Dos covardes, em trance fatal, Tinja as faces da morte o pallor!
CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.
Com gesto supplicante.
Por piedade, dos teus seguidores Não escutes o voto lethal! Generoso, o seu odio infernal, Por piedade, não ouças, senhor!
D. DUARTE.
Aos cavalleiros.
Silencio!
Aos mouros.
Livres sois.
Aos cavalleiros.
Nunca aos vencidos Sangue pediu meu pae. Eu serei digno Filho do vosso rei.
A Gulnar.
Mulher, és livre.
GULNAR.
Tua clemencia hypocrita, Tyranno, vem mui tarde! Pensas apagar, barbaro, Fogo que immortal arde?!
Dá-me Ceuta, a miserrima: Torna-me um pae que expira: Foge das praias d'Africa Serva, que mal respira!
Foras assim magnanimo: Grata Gulnar te fora: Sem isso, um favor unico, Prompto morrer te implora!
CÔRO DE MOUROS E DONZELLAS. CÔRO DE CAVALLEIROS.
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Turba-te a dor e a cólera, Da perfida a van cólera Filha de Bensalá: Inutil brame já: A tua raiva indomita Do seu cruel proposito É van e inutil já! Ella nos vingará.
Em quanto duram os córos o principe e os infantes falam em voz baixa: os infantes apontando para Lobna, e Haleva: D. Duarte mostra-se agitado, e depois dirige-se rapidamente para ellas.
D. DUARTE.
Tomando pela mão as duas escravas.
Não!... Innocentes victimas D'impios não deveis ser! O vosso amor ingenuo Cumpre-vos esquecer; Mas a vingança barbara Não vos entregarei. A Portugal seguindo-nos
Olhando para os infantes com aspecto severo.
Eu vos protegerei!
LOBNA E HALEVA.
Só ir nos concede O fado inhumano Além do oceano De amor expirar!
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Nest'hora solemne Do peito no arcano Nosso amor insano Juramos calar.
D. DUARTE.
Da nossa clemencia Aprenda o africano A ser nobre e humano, E o que é perdoar.
GULNAR.
Do meu odio immenso Cruel desengano!.. Feroz lusitano Se ri de Gulnar!
CÔRO DE CAVALLEIROS.
Risquemos da mente O perfido engano; Que o principe humano É bello imitar.
CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.
A nobre clemencia Do heroe lusitano Áquem do oceano Sempre ha-de lembrar.
LIVRO TERCEIRO
VERSÕES.
O SECCAR DAS FOLHAS.
(_Millevoye_).
Das ruinas destes bosques O outomno alastrou o chão: A selva perdeu seus mimos; Os rouxinoes mudos são.
No bosque, amigo da infancia, Triste um joven vagueiava; Na sua aurora a doença Para o sepulchro o inclinava.
«Adeus floresta querida! Vestes lucto por meu fim? Como te cai folha e folha A morte me segue assim.
Intima voz, que revela Seu fado extremo aos mortaes, Me diz:--vês cahir as folhas? São essas só: não ha mais!
Sobre esta pallida fronte O torvo cypreste ondeia, Como o que, pharol de mortos, Sobre campas se meneia.
Antes da vide na encosta, Antes da relva no prado, Os dias da juventude Terão para mim murchado!
Minha linda primavera Qual a van sombra passou! Eu morro: o euro gelado Da vida a seiva mirrou.
Cáe, oh passageira folha; Vem esta senda cobrir; Esconde ao pranto materno Logar onde vou dormir.
Mas se vier minha amante, Involta em véu luctuoso, Ao pôr do sol, na lameda, Dar-me um suspiro saudoso,
Com o teu leve rugido Desperta, oh, desperta o morto; Que assim sua sombra tenha Ainda allivio e conforto!»
Disse: afastou-se, e não volve: Ultima folha cahiu: Era o signal: seu sepulchro Sob o carvalho se abriu.
Mas sua amante não veio: E só do valle o pastor Quebrou com som de passadas Repouso do trovador.
A NOIVA DO SEPULCHRO.
(_Imitado do inglez_).
I.
Juncto da raia d'Hespanha, Em monte calvo e deserto, Vê-se um vulto negro ao longe, Castello é, vendo-se ao perto: Mas castello derribado, De bons tempos, de outras eras, Hoje abrigo escuro e triste De reptis e bravas feras. Foram formosos e fortes Esses muros derrocados, Por onde trepam as heras; Que cingem bastos silvados. A voz delrei nelle tinha Nobre alcaide dom Sueiro; Nobre por sua linhagem, Nobre por bom cavalleiro. Noivados, torneios, festas, Ninguem sem elle fazia: Ninguem, sem o convidar, Ajustava montaria; Que nunca da sua bésta Viróte partiu em vão; Como nunca os justadores O viram perder o arção. Mulher, que elle muito amara, Lh'a roubara a sepultura; Mas por este golpe o alcaide Não mostrou grande tristura. Até corria entre o povo Um mysterio de maldade... Suppunham uns ser mentira; Criam outros ser verdade. Mas o que? Cubria a terra Esse caso mysterioso; E só o povo sabía Ser viuvo o que era esposo.
II.