Poesias

Chapter 8

Chapter 83,782 wordsPublic domain

Cedo se ergue dom Sueiro; Cavalga no seu cavallo, E para caçada alegre Passa áquem do extremo vallo. Por essas margens do Lima, Debaixo de puro céu, O nobre senhor alcaide Á rédea solta correu. Veredas segue torcidas, Até descubrir o outeiro, Que revestem pela encosta O zimbro, a urze e o pinheiro. Soam sonoras buzinas, Ri do dia o lindo alvor, E no meio da paizagem Uma brilha e outra flor. Dom Sueiro o seu cavallo Incita com ferrea espora; Que no logar aprazado Deve estar dentro de um' hora. Nada lhe põe embaraço; Nem resonantes ribeiros, Nem as chans apaúladas, Nem escarpados outeiros. Mas ao sair da floresta, Ainda perto do rio, Viu ir formosa donzella Buscando do ermo o desvio. Celestes são seus meneios: Não mortal, anjo parece: Da sua tez a brancura Alva açucena escurece. O seu corcel dom Sueiro Fez parar. Já se esquecera Da caçada; e que no monte Em breve estar promettera. --Dizei-me vós, oh donzella, Quem sois, que nunca vos vi; Que por minha alma vos juro Sois já senhora de mi.» Resposta nenhuma teve, Que ella não lhe respondia, E, sempre guiando ao valle, A curva senda seguia. --Não me fugireis assim: Bofé que não fugireis! Um momento, um só momento, Dom Sueiro escutareis!» Disse: desmonta, e persegue-a, Nos braços para a estreitar; Mas ella furta-lhe o corpo, E elle abraça o subtil ar. --Dizei-me vós, oh donzella, Pela vossa alma dizei, De que procede tal susto, Que a meu pesar vos causei? Que, pelos céus o asseguro, É verdadeiro este amor. Não me fujaes, bella dama: Não ha de que ter pavor. De esposo, se vós quereis, Dar-vos-hei, contente, a mão: Sereis dona de um castello, Dona do meu coração.» --Dom Sueiro, oh dom Sueiro-- Tornou a dama formosa-- Eu sei quem és, qual teu nome, E eu seria tua esposa: Mas como crer nos teus dictos, Dictos de homem fraudulento? Conheço tuas perfidias, E qual é teu vil intento. Dês que morreu dona Dulce, A tua infeliz mulher, A linda Elvira roubaste Para teu ludibrio ser. Com promessas refalsadas Enganaste uma innocente. Quem crerá juras de um ímpio, Que só jura quando mente? Ella te creu, desditosa! Porém não te creio eu: Nem, qual de Elvira o destino, Será o destino meu. E como soffrera, esposa Tua sendo, uma rival? Folgáras tu nos meus zelos; Folgáras della no mal? Ousáras tu, dom Sueiro, A pobre Elvira expulsar, E dias de angustia e pejo, Misera, vê-la tragar?-- «Oh, voto a Christo, que sim!-- O nobre alcaide atalhou: E desfazer-se de Elvira, Com mil pragas, protestou. --Mas dizei vós, dama linda, Quem sois? quem são vossos paes? Que eu vos direi de mim tudo, Se tudo me perguntaes.-- «Nunca!--tornou a donzella:-- Quem eu sou não te direi. Nada te devo por ora: Quando dever pagarei. Mas pódes estar seguro, Que, bem que nobre senhor. Não é que o meu o teu sangue Sangue de maior primor.-- «Pois sim, querida, pois sim!-- Dom Sueiro proseguia; E algum signal de ternura Á bella dama pedia. «Não, oh não, meu cavalleiro! Quando a mim te vir ligado Tua serei; que antes disso Fôra horroroso peccado.-- «Porém dizei-me, oh donzella, Onde vos hei-de encontrar? Que, pela cruz, ahi juro Nossas nupcias celebrar.-- «Oh, que não será de dia; Que mal de nós julgarão!-- Tornou a dama--e os praguentos Certo de mim se rirão. É pela noite que eu voto; De noite no cemiterio, Quando soar doze vezes O sino do presbyterio. Sob o teixo solitario, Onde ninguem nos não veja; E aonde nunca chegar-se Quem passar ousado seja.-- «Vivam meus lindos amores!-- Interrompeu dom Sueiro:-- Sob o teixo, á meia noite?... Veremos quem vae primeiro.-- «Sim!--volveu ella--a ess' hora. Nenhuma fôra melhor; Porém, da tua palavra Que me darás em penhor?-- «Minha paixão em seguro Do que promettí te dou: Nunca promessas mentidas Fez quem devéras amou. Curvando o joelho, eu juro Teus grilhões sempre rojar: Meu corpo e alma são teus; E o tempo o ha-de provar.-- «Basta!--a donzella lhe disse.-- Dom Sueiro, sou contente. São meus teu corpo e tu' alma: Meus serão eternamente.-- Dicto isto, ao longo do rio Ligeira a senda seguiu, E elle aos outros caçadores Alegre se reuniu.

III.

Já da larga montaria O folguedo se acabava, E dom Sueiro ao castello, Ao seu castello voltava. Arde-lhe na alma o desejo Com as imagens do goso, E róe-lhe idéa damnada O coração criminoso. Infeliz e linda Elvira, Nos dias da juventude, Perdera nos braços delle Flor de innocencia e virtude. Mas gosos faceis não duram; Breve após o tedio chega: Elvira é já enfadonha: Novo amor o alcaide cega. Cumpre de si afasta-la: O caso difficil é: Ajunctará crime a crime? Elle outro meio não vê. Emfim decidiu-se: a morte Em aurea taça lhe deu. Nobre senhor, folgar pódes, Teu crime a terra escondeu! Era noite: e dom Sueiro Para o adro ermo partia. Logar, horas ou remorsos, Nada terror lhe infundia. Brilha a lua em seu crescente: Passa a noite silenciosa; E só lhe quebra o socego O mocho e a fonte ruidosa. Ao cabo o adro elle avista: No meio o teixo lhe avulta: Não deu meia noite ainda; A dama ainda se occulta. Mas troa o sino! Uma!... Duas!... Contou; contou: mais dez são: E uma donzella, de branco, Surge da lua ao clarão, E está debaixo do teixo. Para lá o alcaide corre. Não enganou seus desejos Essa por quem elle morre. Porém que é isto? Recúa? Para trás a face vira? Sim; que não era a donzella, Mas o phantasma de Elvira. «Maldicto!--clamou o espectro-- Pune a traição o traidor. Negro o sepulchro te espera. De teu mal és só o auctor. Pensa, monstro, emquanto é tempo; Que não tardará teu fim. Teu nome apagou-se. Agora, Recorda-te bem de mim!-- Não disse mais; e esvaeceu-se. Dom Sueiro, espavorido, Fugiu: sem volver os olhos, Sem parar, sempre ha corrido. Brilha a lua em seu crescente: Passa a noite silenciosa; E só lhe quebra o socego O mocho e a fonte ruidosa. Á porta do seu castello Já dom Sueiro chegava. Alli, vestida de branco, Do bosque a donzella estava. «Mal-hajas tu, cavalleiro:-- Apenas o viu lhe disse:-- O ter de mulheres medo É signalada pequice. Fui eu que fiz de phantasma: Teu valor conhecer quiz. Tremer como tu tremeste É só proprio de homens vís.-- As faces do nobre alcaide De vermelho se tingiram; Mas voltou logo a ternura; Passados sustos fugiram. «Vinde a meus braços, querida! Vinde: não vos detenhaes, Digna de ser minha esposa Só vós sois, e ninguem mais. Neste sitio, hoje vos juro Amor firme e puro e ardente: Em corpo e alma sou vosso; Sê-lo-hei eternamente.»-- «Em corpo e alma!?--ella clama, Com uma voz sepulchral.-- Certo será graciosa Nossa união conjugal!» Então, qual bravo terçol, Que em sua presa poz mira, Ao mesquinho dom Sueiro, Abrindo os braços, se atira. «Arredo! Filha do inferno!-- Grita o alcaide.--Isto o que é?» Ai!... olhou... É dona Dulce, Não a donzella, quem vê. Com os braços descarnados Ella o collo lhe estreitou, E os labios apodrecidos Aos labios delle chegou. Mortal halito de serpe Seu halito assemelhava: Sua figura era horrivel: Tocada apenas gelava. «Deixa-te agora de medos:-- Disse o espectro a dom Sueiro.-- Que é da audacia que mostravas, Audacia de cavalleiro? Tremes?... De quê, assassino? Antes devêras tremer, Quando envenenaste Elvira, E a tua pobre mulher. Meu amor e meus encantos Pouco tempo te prenderam: Em mim do sepulchro os vermes Por tua mão se pasceram. Depois, a amar-me tornando, Repetiste um crime horrivel... Teu amor é frouxo sempre; Teu odio sempre terrivel! Mas agora, odiada ou grata, Não sairei de teu lado: Nada quebra no outro mundo Dos mortos negro noivado. Alma e corpo me cedeste: O corpo aqui dormirá: Porém tua alma comigo Mais longe se acolherá!» Não lhe respondeu o alcaide, Que a morte empallidecera, E, ao som de arranco profundo, No chão, extincto, batera. Mas contam 'inda os pastores, Que á meia-noite vagueia Nas margens do ameno Lima, Que murmurando serpeia; E que, gritando e gemendo, O seguem duas figuras, Ambas com brancos vestidos E tisnadas cataduras.

O CANTO DO COSSACO.

(_Béranger_).

Vem, meu ginete: oh vem, meu nobre amigo! Chama-te em altos sons tuba do norte. Prestes no saque, intrepido nas brigas, Dá, guiado por mim, asas á morte.

Os teus jaezes não arreia o ouro; Mas de meus feitos o terás em paga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga.

Tuas rédeas me entrega a paz que foge. Ei-los por terra os europeus baluartes! Meus aureos sonhos realisa agora; Terás repouso na mansão das artes.

Volve a terceira vez ao Sena inquieto, Que te lavou sangrento, e a sede apaga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga.

Reis, sacerdotes, grandes nos clamaram, Entre o choro de mi­seros humanos: --Cossacos, vinde ser de nós senhores! Servos seremos, por ficar tyrannos.»

E a cruz e o sceptro quebrarão meus fortes; Que eu hei tomado minha lança e adaga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga.

De um enorme gigante vi o espectro Nosso campo correr co' a vista ardente; E, gritando:--meu reino outra vez surge!»-- Mostrar com a acha d'armas o occidente.

A sombra era immortal do rei dos Hunos; D'Áttila a voz, qual maldicção aziaga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga.

De que serve seu brilho á velha Europa? Que lhe presta o saber para salvar-se? Os turbilhões de pó, que hão-de sumi-la, Debaixo de teus pés vão levantar-se.

Templos, palacios, leis, memorias, usos, Na correria extrema, e pisa e estraga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga.

O CAÇADOR FEROZ.

(_Burger_).

Sua buzina tocára O conde, altivo senhor: «De pé, de cavallo, álerta!-- Disse; e monta o corredor. O nobre animal relincha: Pula e parte; e a turba após. Ei-los vão! Quem era o conde? Era o _caçador feroz_. Por estevaes e por sarças, Por campinas cultivadas, Voam rapidos. Resoam Motejos, gritos, risadas. O sol que vinha rompendo Em luz as veigas banhava, E do zimborio do templo O lanternim scintillava. «_Tlim, tlão!_--convocando á missa, Tangia o sagrado sino; E involto nos sons de um orgam, Do côro se ouvia o hymno. Duas sendas lá se cruzam; E a turba chegára lá. Da direita um cavalleiro, E outro da esquerda está. Nedio ginete, qual neve Alvo, guiava o primeiro; O segundo, á rédea solta, Esporeava um fouveiro. Quem taes cavalleiros eram Creio certo adivinha-lo, Bem que ainda com certeza Não me atreva a declara-lo. Da direita ao cavalleiro Fulgia o rosto formoso; Porém no olhar do da esquerda Fulgor havia horroroso. «Bem vindos sois, cavalleiros; Bem vindos á montaria! Qual prazer, no céu, na terra, Ao nosso se igualaria!-- Assim disse o conde, e rija Palmada na côxa deu. Atirando pelos ares A grande altura o chapeu. «O som da tua buzina-- Tornou logo o da direita-- Nem aos canticos do côro Nem do sino ao som se ageita. Ruim caçada te espera! Atrás te cumpre voltar. Contra ti a ira celeste Não queiras desafiar.» «Nobre conde monteae-- Prestes o outro atalhou-- Que importa a bulha do côro, E se o sino badalou? Deixae ao povo o seu medo: Que para a relé foi feito. Não são palavras sandías Das que merecem respeito.-- «Ah, bem dicto! Oh tu da esquerda, Um heroe és quanto a mim. Só padre-nossos empecem A algum caçador ruim! Que tem missas, que tem resas Com o montear, sandeu? Se medo queres metter-me, Falhou o calculo teu.-- Disse o conde. Ávante correm: Vão por campinas e outeiros. Sempre da direita e esquerda Estão os dous cavalleiros. Eis, lá em distancia, um cervo Branco transpõe a assomada, Tendo de pontas galhosas A erguida fronte adornada. Então o conde a buzina Com mais alento assoprou, E tudo, a pé, a cavallo, Com mais rapidez voou. Ora dos que por diante, Ora dos que de trás vão, Um ou outro rebentado Fica no meio do chão. E o conde:--Cahem? No inferno Baqueiar podesseis vós! Os que desalentam fiquem: Sem elles bem vamos nós.-- N'uma seara guarida, Fugindo, o cervo buscou: O pobre dono do campo, Triste, ao conde se chegou: «Meu bom senhor--clamou elle-- Compaixão, meu bom senhor! Ah, poupae mesquinhos fructos De um abundante suor.-- Da direita o cavalleiro O conde amoestou então: Cortezes eram seus dictos, Cortezes e de razão: Mas, atiçando-o o da esquerda Á maldade perpetrar, Desprezou o da direita Para o maldicto o enredar. «Fóra cão!--ao camponez Grita o conde esbravejando-- Quando não, com mil diabos, Soltar-te a matilha mando. Álerta, socios! O açoute Pelas orelhas chegae-lhe; E que sou fiel ás juras Dessa maneira provae-lhe.» Dicto e feito. O conde salta Por cima os vallos fronteiros; E atrás delle, estrepitando, Homens, cavallos, balseiros. O tropel, com grita horrenda, Pisa e destroe a seara; Que ninguem do lavrador Dorido choro escutára. Pelo estridor acossado, Que já bem perto sentia, O cervo os crueis intentos, Veloz fugindo, illudia. Através de montes, valles, Perseguido e não tomado, Manhoso se foi metter Entre um rebanho de gado. Entrando do campo ao bosque, Saindo do bosque ao claro, Seguiram-no os cães, e em breve Lhe acharam da pista o faro. Cheio de angustia o pastor, Por seu rebanho temendo, Por terra se arremessou Aos pés do conde, tremendo. --Deixae meu pobre rebanho; Senhor, tende dó de mi: De muitas tristes viuvas O gado retouça aqui. Cada qual das pobrezinhas Tem das rezes uma só: Eis toda a sua riqueza: Senhor, tende dellas dó.» Da direita o cavalleiro O conde amoestou então: Cortezes eram seus dictos, Cortezes e de razão: Mas a maldade do conde Sempre atiçava o da esquerda, E elle, o bom ludibriando, Corria á ultima perda. «Cão! A mim oppôr-te queres? As contas vou-te eu fazer. Quem me déra entre essas vaccas Comtigo as taes velhas ver; Que seria o mais suave Prazer do coração meu Montear-vos, mais que fosse Pelas campinas do céu. Álerta, socios, ávante! Cães, avança! csê! perdido!-- E os cães no que acham mais perto Saltam com fero latido. O pegureiro por terra Cái em seu sangue banhado, E sanguento o gado fica Todo alli atassalhado. Á morte escapou a custo O veado, que fugia Cada vez menos ligeiro, N'uma floresta sombria. Cuberto de escuma e sangue, Perdida a respiração, Do bosque em meio salvou-se No alvergue de um ermitão. Segue-o o tropel incançavel: Estala o açoute incessante: Soam buzinas; retinem Os gritos de--abóca! ávante!» O solitario piedoso Da cabana então saíu, E ao conde, com brando gesto, Taes palavras dirigiu: --Senhor, deixa teus intentos, E o sacro asylo venera: A creatura ao céu se queixa; Delle teu castigo espera. Aos bons avisos, oh conde, Cede pela ultima vez; Quando não, na perdição, Certo, abysmado te vês.» Cuidadoso o da direita Ao conde correu então: Cortezes eram seus dictos, Cortezes e de razão. Mas o da esquerda atiçando Nelle o animo damnado, Do bom apesar do aviso, Ai, do mau foi enganado! «Perdição?! Disso me rio, Não cuideis que eu tenha susto. No terceiro céu que fôra Me escapára o cervo a custo. Que me importa a ira divina? Vae-te prégar ao deserto. Teus sermões a montaria Não farão falhar, por certo.-- Assim disse o conde. O açoute Sacode; as buzinas soam. «Csê! abóca!..--Ui! de diante Homens e cabana voam. De trás corceis, homens fogem: Sons e gritos de caçada Se esvaecem de repente Da morte na paz gelada. Pávido o conde olha em roda: Tóca a buzina... não soa: Grita... em vão: nada ouve: o açoute Vibra: mas no ar não toa. Para um e para outro lado O seu cavallo esporeia... Nem para trás voltar póde, Nem àvante se meneia. Então escurece emtorno: Cada vez mais de ennegrece: Qual sepulchro fica: ao longe Bramir triste o mar parece. Lá troa voz de trovão! Que era o que dizia a voz? Era a sentença do conde, Sentença medonha e atroz. «Genio infernal, atrevido Contra Deus, homens e feras! Das creaturas os gemidos Resoaram nas espheras. Tuas maldades e insultos Alto pedem punição, Onde da vingança o facho Ondeia erguido clarão. Malvado, foge; que os monstros Do inferno te vão seguir, Para que sejas exemplo Aos tyrannos do porvir!» Qual d'aurora boreal, Flavo pallido fulgor Tingiu então na floresta Das folhas a verde côr. Immovel, pasmado, mudo, Gelado o conde ficou; Trépida angustia dos ossos Á medulla lhe chegou. Frio susto pela frente Contra elle arroja o terror: Pelas costas o persegue O trovão atroador. O susto o gela; o céu ruge... Da terra vai-se elevando Negra agigantada mão, Ora abrindo, ora fechando. Pelos cabellos da fronte, Ai, quer o conde prender!.. Elle atrás o rosto volta; Nem mais o pôde volver. Em roda chammeja a terra Verde, azul, vermelho fogo: Delle um mar rodeia o conde: Surge o inferno em peso logo. Lá dos abysmos profundos Sáem mil mastins raivosos, Que, pelo averno açodados, Se tornam mais furiosos. Toma alento o conde, e foge: Por montes, por campos vai, Do seio arrancando a espaços Do espanto terrivel ai: Mas por todo o largo mundo Atrás delle ruge o inferno, De dia do orbe no centro, De noite no ar superno. Ficou-lhe a face voltada, Por mais que ávante corresse, Sem que dos horridos monstros Os olhos tirar podesse. Eis como a caçada foi Do tropel desenfreiado, A qual até nossos dias Tão constante tem passado, Que, muitas vezes, durante As horas da noite escura, Ainda ao dissoluto causa Do medo o horror e amargura De bastantes caçadores Podia a boca dize-lo, Se antes não lhes conviesse Calado comsigo te-lo.

O CÃO DO LOUVRE.

(_Delavigne_).

Tu que passas, descobre-te! Alli dorme O forte que morreu. Dá ao martyr do Louvre algumas flores; Dá pão ao seu lebreu. Da batalha era o dia. O canhão troa: E o livre corre á morte, e juncto delle O seu cão vai: A mesma bala ambos feriu: o martyr Não deploreis: o amigo seu que vive Só pranteai! Tristonho, sobre o forte elle se inclina, Affagando-o e gemendo; e a ver se acorda Põe-se a latir; E do seu companheiro no combate Sobre o cadaver sanguinoso o pranto Deixa cahir. Essa gleba guardando onde repousam As cinzas dos heroes, nada o consola No seu gemer; E ao que o ameiga triste repellindo, «Oh, que não és meu dono!--o cão parece Tentar dizer. Quando sobre as grinaldas de perpetuas O matutino alvor da aurora o orvalho Faz scintillar, Os olhos abre vívidos, e pula Para affagar seu dono, que elle pensa Ha-de voltar! Quando da noite a viração as c'roas Fez ranger sobre a cruz do monumento, Desanimou: Elle quizera que seu dono o ouvisse; E ladra e uiva; mas o adeus de á noite Lá lhe faltou! O inverno chega, e a neve, com violencia, Cái, e branqueia, e esconde esse gelado Leito de morte: Ei-lo que sólta um lugubre gemido, E busca, alli deitando-se, ampara-lo Do frio norte. Antes que os membros lhe entorpeça o somno, Mil tentativas para erguer a campa Inuteis faz: Depois comsigo diz, como hontem disse, --Quando acordar, por certo, ha-de chamar-me.» E dorme em paz. Mas, na alta noite, em sonhos vê trincheiras, E seu dono entre as balas encontradas Cahir ferido: E ouve-o que o chama com sibillo usado; E ergue-se e corre após uma van sombra, Dando um bramido. É alli que elle espera horas e horas, E saudoso murmura: alli pranteia, E morrerá. O seu nome qual é? Todos o ignoram. O que o sabía, o dono seu querido, Nunca o dirá!.. Tu que passas, descobre-te! Além dorme O forte que morreu. Dá ao martyr do Louvre algumas flores, E esmola ao seu lebreu.

LEONOR.

(_Burger_).

Ralada de ruins sonhos Já desperta está Leonor, E 'inda agora os céus d'oriente Da manhan tingiu o alvor. «Guilherme, és morto?--ella exclama-- Ou trahiste a pobre amante? Se vives, porque retardas De te eu ver feliz instante?» Nas tropas de Friderico Tempo havia que partíra Para a batalha de Praga, E cartas delle quem vira? Mas a imperatriz e o rei[1], De guerras, emfim, cansados, Depondo os animos feros, De paz faziam tractados. Já aos seus lares tornavam Ambas as hostes folgando. Cingem frentes ramos verdes; Vem atabales rufando. E por montes e por valles Velhos e moços chegavam, Dando brados de alegria, A encontrar os que voltavam. «Boa vinda! Adeus!--diziam As filhas, noivas, e esposas. E Leonor? Nenhum dos vindos Lhe faz caricias saudosas. Por Guilherme ella pergunta; Por qual estrada viria. Vão trabalho; vans perguntas: Novas delle quem sabia? Não o vê. Passaram todos... Em furioso devaneio, Ei-la arranca as negras tranças; Fere crua o lindo seio. Sua mãe, correndo a ella: «Valha-me Deus!--lhe bradou.-- Minha filha, pois que é isso?!» E entre os braços a apertou. «Minha mãe, perdeu-se tudo! O mundo, tudo perdi: De nada Deus se condoe... Oh dor, oh pobre de mi!-- «Ai! Jesus venha á minha alma! Filha, um padre-nosso resa. Deus é pae: sempre nos ouve: Nunca a humana dor despreza.-- «Minha mãe, inutil crença! Que bens me tem feito Deus? Padre-nossos!.. padre-nossos!.. Que importam resas aos céus?-- «Ai! Jesus venha á minha alma! Pois não é quem resa ouvido? Busca da igreja o consolo Verás teu pesar vencido.-- «Mãe, oh mãe, esta amargura Nenhum sacramento adoça: Não sei nenhum sacramento, Que aos mortos dar vida possa.-- «Filha, quem sabe se, ingrato, Elle ás promessas faltou; E lá na remota Hungria Novo amor o captivou? Se, mudavel, te abandona, Do crime o premio terá: Do ultimo trance na angustia O remorso o punirá.-- «Morreu-me, oh mãe, a esperança. Perdido... tudo é perdido! Morrer, tambem, só me resta. Nunca eu houvera nascido! Foge, oh sol resplandecente! Manda a noite e os seus terrores... Deus, oh Deus, que nunca escutas O gemer de humanas dores.-- «Meu Senhor! A desditosa Não pensa o que a lingua exprime. Não julgues a filha tua: Nem te lembres do seu crime. Vans paixões esquece, oh filha: Cogita no goso eterno, No sangue que te remiu, E nos tormentos do inferno.-- «O que é goso eterno, oh mãe, E o inferno em que consiste? Com Guilherme ha goso eterno, Sem Guilherme o inferno existe. Sem elle, que a luz fugindo, Se troque em nocturno horror; Sem elle, no céu, na terra Só conheço acerba dor!» Assim no sangue e na mente Furia insana lhe fervia: Cruel chamando ao Senhor, Mil blasphemias repetia. Desde o sol brilhar no oriente Até que o céu se estrellava, As mãos, louca, retorcia, O brando seio pisava.