Poesias

Chapter 6

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E em meio do fogo, Do fumo alvacento, Em rolos ondeando Nas asas do vento,

De agudas baionetas A renque brilhante Tremente avançava, Ao brado de--ávante!»

E ao baço ruí­do Dos leves ginetes, No plaino calcando Da relva os tapetes,

Os ferros cruzados Luctavam tinindo, Peões, cavalleiros De involta ruindo,

E a ferrea granada Nos ares zumbia, E aos seios das alas Qual raio descia.

E aos ares, revolta, A terra espirrava, E o globo encendido Um pouco se alçava,

E prenhe de estragos, Com fero estampido, Mandava mil golpes, Em rachas partido.

E as horas passavam Em scenas de morte; E o abutre mirava Os trances do forte.

Na garganta da serra ou sobre o outeiro, Pelo pinhal da encosta ou na campina, Nesse dia de atroz carnificina, Negros uns vultos vagueiar se viam: A cruz do Salvador na esquerda erguida, Na dextra o ferro, preces blasphemando, «Não perdoeis a um só!--feros bradando, Entre as fileiras rapidos corriam: E era o monge que bradava, E era o monge que corria, E era o monge que, blasphemo, Preces vans a Deus fazia; Vans que, á tarde, nesse plaino No sangue d'irmãos retincto, Só restava o moribundo, O cadaver só do extincto. E por gandras e por montes, Aterrados, perseguidos, Em desordenada fuga Retiravam-se os vencidos. E os vencidos eram esses Que a esperança da victoria Arrastára, miserandos, A uma guerra i­mpia, sem gloria! Lá dos gritos de raiva baldada Restrugia o confuso clamor, E o gemido do mau desgraçado Na alma oppressa gerava terror.

Cáia em pó o mosteiro; e maldicto O que ergue-lo outra vez intentar, Se não treme ante as nuas cáveiras, Que insepultas verá branquejar!

III.

Surge a luz da alvorada. Podessem Dessas campas geladas que vejo Os bons monges dos tempos antigos Surgir vivos á voz de um desejo!

E que ao longo das vastas arcadas Se escutassem seus passos serenos, Como se ouve o tranquillo regato Sussurrar nestes campos amenos!

Quem então não curvára ante o velho? Quem a bençam da mão descarnada, Como a bençam do céu, não pedíra Da virtude ao poder confiada?

Quem ousára soltar no deserto Estridente clangor da trombeta, E fazer scintillar pela noite A cruel decisiva baioneta?

Quem ousára o sorriso do insulto Juncto ao negro edificio soltar, E com goso, na mente, por terra Suas grimpas jazendo pintar?

Mas ha muito que os bons se finaram; Mas ha muito que ás dores fugiram, E depois, nesses velhos sepulchros Quantos maus inquietos dormiram!

Quem o sabe? Quaes foram? Seus nomes Pereceram: ninguem o dirá. O que o sabe os julgou; e do abysmo Nem um ai o cantor tirará.

Mas, oh harpa, transmitte as saudades Do que foi em legado ao porvir, E o presente, que em breve ha-de o olvido Com o seu amplo manto cubrir.

Contarão as canções do poeta Tão-sómente do claustro o segredo. Vai a hera vestir estas pedras: Cahirá este annoso arvoredo.

Sim, virá a segure insensata Da montanha o senhor derribar! Rei deste ermo, que os curos insultas, Tu serás o ludibrio do mar.

Bem antigo é teu cepo. Tu viste O mosteiro da encosta crescer; Viste o colmo do humilde retiro Em arcadas, em torres volver.

Tambem nasce o regato na origem Pobre e puro: cem valles passou; Vai já rico, mas turvo e suberbo; Que a torrente desceu e o turbou.

Como esta aura suave suspira Pelos bosques, e as ramas meneia! Como a limpha murmura na fonte, Sobre a qual pende o merlo e gorgeia.

Cala, oh ave! Que importam teus cantos? Quem vens tu saúdar, cantor do ermo? É aos mortos? Aos gosos mais puros Pôs-lhe a lousa, na terra, já termo.

Tua voz costumava o eremita Nos bons tempos folgando sentir: Era imagem do céu, que entre as dores Do desterro lhe vinha sorrir.

Mas depois affligiu o malvado Da avesinha innocente a cantiga; Tal os olhos affeitos a trévas A cerrar-se luz subita obriga.

Nunca ao i­mpio na dor deu consolo Meigo som de cadente gorgeio. Que harpa eolia lhe adoça o azedume De que seu coração está cheio?

Ai do mau, cuja vida travada Vai de sustos mandados do céu! Nunca o sol a acorda-lo tranquillo Em seu brilho dos montes desceu.

Mas duas vezes ai delle, se na alma Não lhe soa uma voz pavorosa, Que o atterre, quando o ermo o rodêa, Ao passar da procella ruidosa!

IV.

É tão doce esta vaga saudade, Na soidão das montanhas colhida, Para quem entre mil tempestades Transitou pelos campos da vida!

Foge a luz: é sol-posto: na aldeia Dá o sino esse triplo signal, Com que o espirito, erguendo-se a Deus, Diz ao dia seu ultimo val;

E o pastor, que o rebanho guiava Á malhada, descendo do outeiro, Parou lá, e ajoelhou descuberto Juncto ao velho sósinho pinheiro.

Gloria a Deus! A oração do crepusculo Pelo tronco elevado se ergueu. E a guia-la ante o throno do Eterno Sancto archanjo das preces desceu.

Ao piedoso pastor no chão duro Brando a noite o repouso trará E por certo em seu leito da morte Mais tranquillo inda o somno será.

A estas horas, talvez, nos combates Um atheu expirante caíu: Oh, eu vejo-o voltear-se entre as ancias! O seu grito final já se ouviu!

A luz foge-lhe aos olhos: a espada Apertou: ainda a tenta esgrimir: Não a sente: conhece que morre, Sem, comtudo, deixar de existir.

Não o crê: abre os olhos a custo: Nada o ceu, que se enluta, lhe diz: Fecha-os breve; e no extremo soluço Pensa e existe, e a existencia maldiz.

E o atheu, que era grande na terra, Uma campa terá magestosa; E ao pastor naquelle adro da aldeia Cubrirá uma gleba relvosa.

Como o atheu e o pastor, nas batalhas Mil e mil sem alento caíram; Mil e mil, que em seu sangue este solo, Nas fraternas discordias, tingiram!

Essas scenas de pranto e de lucto Quem as trouxe a esta terra querida? Foi o monge, que em animos rudes Instillou o furor fratricida.

Que pediamos nós? Ver abrir-se Ante nós da familia o larario, E dormir juncto aos ossos paternos Somno extremo n'um pobre sudario:

Sim, poder, ao mandar-nos a morte Nossos corpos aos vermes ceder, Ao sol bello, e tão bello, da infancia Com saudade, inda os olhos volver.

Respondeu-nos da balla o sibilo; Respondeu-nos o brado da guerra! Combatemos. Pertencem na patria A qualquer sete palmos de terra.

Isso, ao menos, tê-lo-hemos! Da lucta Sabe Deus qual a sorte será: Mas á sombra do teixo da infancia O proscripto infeliz dormirá.

Cáis em pó o mosteiro; e maldicto O que ergue-lo outra vez intentar, Se não treme ante as núas caveiras, Que insepultas verá branquejar!

A VOLTA DO PROSCRIPTO.

I.

Já suave a sorte dura Mostra a face ao desterrado: Porque surge ainda a amargura Em seu rosto carregado?

Vento amigo ao patrio solo Pelo mar guia o proscripto, E um sorriso de sonsolo Não lhe luz no rosto afflicto?

Corta a proa o mar fremente; O cantor lá se assentou E sua torva e altiva frente Sobre a dextra reclinou.

Vem-lhe idéa após idéa, Já tristonha, já serena; Que no gesto lhe vaguêa Ora o goso, logo a pena.

Coração affeito á mágoa Da esperança desconfia: Desalenta, e em viva frágoa, É-lhe negra a noite, e o dia.

Mas se, emfim, lhe tece a sorte Á existencia um aureo fio, E vencendo o mar e a morte O conduz ao patrio rio,

A que mais agora aspira O mancebo trovador? É por gloria que suspira? Não lhe ri propicio o amor?

Não vê perto a terra cara, Que chorou de dor absorto, E nos braços dos que amára Não terá paz e conforto?

Mas silencio!--A fronte erguendo, Elle os olhos poz nos ceuz, E a canção da alma rompendo Sussurrou nos labios seus.

II.

«Rasga as ondas do pégo indomado Leve barca: já freme o galerno: Susta as iras o rabido hynverno: Torna á patria infeliz trovador.

Como bate no seio ancioso Coração que opprimiu a amargura, Quando meiga sorrí a ventura, Quando volve esperança de amor!

Esperança, e sómente esperança Cabe áquelle que os mares correu, Quem lhe diz que 'inda não o esqueceu A donzella por quem suspirou?

Quem lhe diz não irá n'outros laços Venturosa encontra-la e infiel, E que a voz do remorso cruel Para a ingrata tremenda soou?

Quem lhe diz não irá murchas rosas Tão-sómente encontrar sobre a lousa, Onde a amada tranquilla repousa, onde vá juncto della expirar?

Esperança, e sómente esperança Cabe áquelle que os mares correu: Ella só resta áquelle que o ceu Longos dias de dor fez passar

Eu traguei estes dias de lucto; Encarei muitas vezes a morte; Pude o louro colhêr dado ao forte: Tambem myrto de amor colherei?

Ou o arbusto que outr'ora plantára, Que por mim cultivado crescêra, Que entre angustias jámais me esquecêra Esquecido por ella acharei?

Como além desse cabo, que esconde Verdes aguas do meu patrio Tejo, A alma levam saudade e desejo! Como atraz a compelle o terror!

Ledo o nauta saúda a guarída Aonde incolume o vento o ha guiado, E alegrou esse olhar carregado Com que insulta do mar o furor.

Feliz nauta, em teu seio tranquillo Pulsa em paz coração baixo e rude; Fado amigo negou-te o alaúde: Deu-m'o a mim:--para prantos m'o deu.

Nunca, pois, surgirá uma aurora Em que nelle resoe a alegria, E em que o triste, que a dor opprimia, Erga um hymno de jubilo ao céu?

Nunca rir-me propicia a ventura Sobre a terra verão estes olhos? Será sempre cuberto de abrolhos Agro trilho que á morte conduz?

Ou nas trévas da minha existencia Surgirá inda um dia radioso, Como, ás vezes, em céu tenebroso Rompe o sol com torrentes de luz?»

III.

Já no porto a leve barca Longa esteira desdobrou, E ao clarão final do dia Ferreo dente ao mar lançou.

Eis as plagas da saudade; Eis a terra de seus sonhos; Eis os gestos tão lembrados; Eis os campos tão risonhos!

Eis da infancia o tecto amigo; Eis a fonte que murmura; Eis o céu puro da patria; Eis o dia da ventura!...

IV.

Foi o cantor feliz?--Em breves dias Viu-se cruzar errante incertos mares. Sob o tecto paterno anciada noite Elle passou; e o somno socegado Não lhe cerrou os olhos lachrymosos. Conta-se que o seu amor fôra trahido, E que mirrado achou de amor o myrto, Que deixára viçoso, e que saudára Desde além do oceano em seu deli­rio. Sobre a proa outra vez indo assentar-se, Não entoou um hymno de alegria. Com ar sinistro e torvo e os labios mudos Correu co' a vista as ondas inquietas, E, porventura, a idéa que as passára Nas asas da esperança, e que a esperança Tinha expirado ao limiar do goso, Mais lhe turbou a fronte carregada. O misero sorriu-se. Em tal sorriso O passado e o futuro estava impresso, E da sua alma a dolorosa noite.

V.

Não mais o trovador no lar da infancia Repousará talvez: talvez sua harpa Durma pendente em solitario tronco Do pinheiro bravio, onde a desfaça O sôpro do aquilão. Ao desditoso Sonho de gloria e amor tinha emballado; Mas foi sonho, e passou, e uma existencia Nua d'encantos despregou-se ante elle. Quem o consolará?--De fogo essa alma Consolo não terá, nem quer consolo. A maldicção de Deus vestiu-lhe a vida De padecer e lagrymas. Ignoto Será ao mundo que surgiu na terra O genio de um cantor, bem como planta Morta apenas saída á flor do solo, Ou como a aragem da manhan, que passa Antes de o sol nascer, em dia estivo.

E que importa essa gloria ao dono della? Esse fructo do Asphaltite que encerra Senão cinza em involucro formoso? Que é o eccho de um nome, que não soa Senão sobre o sepulchro do que impresso Na fronte o trouxe, em meio de amarguras, Por vezes de ignominias? «Vive, oh triste, Esquecido do mundo, e esquece o mundo! Nas solidões profundas da tua alma, Vazia das paixões que a assassinaram, Some os cantos que della transudavam Para correr n'um seculo sem vida, Sem virtude e sem fé, e em que desabam As crenças todas do passado, e é sonho A constancia e o amor.» Palavras estas Extremas foram do proscripto. Longe, Em praia estranha abandonando a barca, Qual o seu fado foi ninguem mais soube.

N'UM ALBUM.

Quando o Senhor envia O trovador ao mundo, Faz devorar a essa alma Fel amargoso e immundo;

Porque lhe diz:--Poeta, Vai conhecer a terra; Prova dos seus deleites; Prova do mal que encerra.

Desses e deste esgota As taças muitas vezes, Embora de uma e d'outra Aches no fundo fézes:

E quando bem souberes Que tudo é sonho vão; Que é nada a dor e o goso, Sólta o teu hymno então.»

E o pobre desterrado Vem seu mister cumprir. Nasce: homens e universo, Tudo lhe vê sorrir;

E o seu balbuciar Um canto é d'innocencia: Mas outro foi seu fado; Guia-o a providencia.

É cherubim precíto Qu' inda entrevê o céu, Mas através da vida, Mas através de um véu.

Em turbilhão d'affectos, Seu íntimo viver Rapido lhe devora Sperança, amor e crer.

Do goso nos deli­rios Debalde busca o amor; Saudade melancholica Pede debalde á dor.

Depois, desanimado, Pára a pensar em si, Acha no seio um ermo, E tristemente ri.

É desde aquelle instante De um acordar atroz, Que ao condemnado lembra Do que o mandou a voz.

Então entende e cumpre Seu barbaro destino; Então é que elle aprende A modular um hymno.

Virgem, ao que assim passa Por meio do existir, Calcando os frios restos Do crer e do sentir,

Não peças te revele Sua alma na poesia, E dê aos pensamentos O encanto da harmonia;

Porque lá, nesse abysmo, Não resta uma illusão: Só ha perpetua noite, E injuria e maldicção.

Não entenderas, virgem Ainda innocente e pura, O canto que surgira Dessa alma gasta e escura.

Deixa-o seguir seu norte, Cumprir missão cruel; Deixa-o verter o escarneo; Deixa-o verter o fel;

Deixa-o cuspir em faces Onde não ha pudor, E ao mundo, ebrio de si, Rindo ensinar a dor.

As sanctas harmonias De cantico innocente Sabe-as o alvor do dia Quando rompe do oriente;

Murmura-as o regato; Vibra-as o rouxinol; Vem no zumbir do insecto, No prado, ao pôr do sol;

Vivem no puro affecto Da filial piedade, Nos sonhos e esperanças Da juvenil idade.

Esta poesia é tua: Eu já a ouvi e amei; Mas hoje nem a entendo, Nem repeti-la sei.

Assim, meu nome só Escreverei aqui; Som vão, intelligivel Apenas para ti;

Extincto candelabro Do templo do Senhor, Que por algumas horas Deu luz, teve calor;

Lenda de sepultura, Que fala em gloria e vida, E esconde ossada infecta Dos vermes corroída;

Pinheiro solitario, Que o raio fulminou, E que gemeu tombando, E não mais murmurou. */

A FELICIDADE.

Era bello esse tempo da vida, Em que esta harpa falava de amores: Era bello quando o estro accendiam Em minha alma da guerra os terrores.

Nesse tempo o balouço das vagas Me era grato, qual berço da infancia; E o sibillo da bala harmonia Semelhante á de flauta em distancia.

Eu corri pelos campos da gloria, D'entre o sangue colhendo uma palma, Para um dia a depor aos pés dessa Que reinou largo tempo nesta alma.

Mas qual ha coração de donzella, Que responda a um suspiro de amor, Quando vibra nas cordas sonoras Do alaúde de pobre cantor?

Triste o dom do poeta!--No seio Tem volcão que as entranhas lhe accende; E a mulher que vestiu de seus sonhos Nem sequer um olhar lhe compr'hende!

E trahido, e passado de angustias, Ao amor este peito cerrara, E, quebrada, no tronco do cedro A minha harpa infeliz pendurara.

Um véu negro cubriu-me a existencia, Que gelada, que inutil corria; Meu engenho tornou-se um mysterio Que ninguem neste mundo entendia.

E embrenhei-me por entre os deleites; Mas tocando-o, fugia-me o goso; Se o colhia, durava um momento; Após vinha o remorso amargoso.

Esqueci-me do Deus que adorara; O prestigio da gloria passou; E a minha alma, vazia de affectos, No limiar do porvir se assentou:

Meus pulmões arquejaram com ancia, Buscando ar na amplidão do futuro, E sómente encontraram, por trévas, De sepulchros um halito impuro.

Mas, emfim, eu te achei, meu consolo; Eu te achei, oh milagre de amor! Outra vez vibrará um suspiro No alaúde do pobre cantor.

Eras tu, eras tu que eu sonhava; Eras tu quem eu já adorei, Quando aos pés de mulher enganosa Meu alento em canções derramei.

Se na terra este amor de poeta Coração ha que o possa pagar, Serás tu, virgem pura dos campos, Quem virá a minha harpa acordar

Como a luz duvidosa da tarde, Quando o sol leva ao mar mais um dia, Reverbera poesia e saudade Na alma immensa de um rei da harmonia;

Tal poesia e saudade em torrentes No teu meigo sorrir eu aspiro, E no olhar que me lanças a furto, E no encanto de um mudo suspiro,

Para mim és tu hoje o universo: Soa em vão o bulicio do mundo; Que este existe sómente onde existes: Tudo o mais é um ermo profundo.

No silencio do amor, da ventura, Adorando-te, oh filha dos céus, Eu direi ao Senhor:--tu m'a déste: Em ti creio por ella, oh meu Deus!»

OS INFANTES EM CEUTA.

DRAMA LYRICO EM UM ACTO.

(1415)

_O infante D. Duarte._ _O Infante D. Pedro._ _O Infante D. Henrique._ _Gulnar_, filha do wali de Ceuta. _Lobna_, escrava. _Haleva_, escrava. _Um pagem._ _Um sobrerolda._ _Côro de cavalleiros portugueses._ _Côro de cavalleiros mouros._ _Côro de escravas, e de eunuchos negros._

SCENA I.

Sala d'armas do alcacer de Ceuta. Córos de cavalleiros portugueses. D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique entram na scena agitados: D. Duarte pára, cruza os braços e contempla por um instante os cavalleiros que ficam immoveis: os infantes afastam-se para um lado falando a sós, e volvendo de quando em quando os olhos para o principe.

D. DUARTE.

Eia pois, cavalleiros! Breve os mares Cruzaremos de novo além do Estreito! Os inimigos timidos refogem Da conquistada Ceuta. Pelas campinas pallidas, ao longe, Das altas torres espraiando os olhos, Não se vê alvejar lá no horisonte Um albornoz mourisco. Folgue o que volta á patria enriquecido Pela ganhada gloria: folgue aquelle A quem coube o desterro entre estes muros, Por conservar erguida Sobre a mesquita a cruz, sobre as ameias O estandarte real: morrendo, é martyr: Seu nome eterno viverá na historia. Folgae, meus cavalleiros!

CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.

Oh, bem vinda, bem vinda essa nova, Para o velho homem d'armas d'elrei, Que ha trinta annos nos diz:--combatei!» Sem jámais a armadura largar!

Sob o forro do elmo pulido Nossa fronte, senhor, se enrugou, E estes peitos robustos quebrou Dos arnezes conti­nuo pesar!

Bem vinda a hora Em que voltemos, E emfim saudemos O nosso lar; Em que possamos No patrio rio O sol do estio Ver scintillar; E, dos sinceiros Entre a espessura, Da guerra dura Ir repousar!

CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.

Parti vós, cavalleiros: A Portugal tornae; E o nosso nome ás bellas Donzellas Lembrae! Dizei-lhes que, se ás lides Votámos peito e braços, Por ellas suspiramos, E amamos Seus laços; E que destes labios Palavra amorosa Por moura formosa Jámais sairá. Opprobrio e vergonha Ao que as esquecer! Infamia ao que arder Por filha d'Allah!

D. Pedro e D. Henrique dirigem-se, com colera mal reprimida, ao meio dos cavalleiros.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Infamia, dizeis vós?

D. DUARTE.

Aproximando-se vivamente delles, e guiando-os pela mão para a frente da scena.

Por Deus, calae-vos! Ignoram vosso amor esses guerreiros. Da patria elles falavam: Não a trahir juravam. E vós? Vós que sois filhos D'elrei de Portugal; vós, cavalleiros, Que d'Aviz e Lancastre a gloria herdastes, Vosso nome manchastes Com um affecto ignobil...

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Que ousaes dizer, senhor!

D. DUARTE.

Sim, ignobil affecto! Amor gerado Entre rios de sangue, ao lampejarem Cruzados ferros, no aduar mourisco Á viva força entrado. Conduziu-vos, dissestes-me, o combate A suberbo palacio. Alto repouso Era de morte ahi: seus defensores Tinha-os o ferro português ceifado, Duas mouras formosas, Vencidas do terror, na fuga anciosas, Cahindo a vossos pés pediram vida, Liberdade, honra, e vós...

D. PEDRO.

Assegurámos-lhes Liberdade, honra e vida. Oh, somos filhos D'elrei de Portugal, e cavalleiros! Era o nosso dever.

D. DUARTE.

E era-o cederdes A um amor insensato; o prometterdes Pelas nocturnas trévas conduzi-las Ás naus que vão partir?

D. HENRIQUE.

Será rouba-las Á falsa crença do koran...

D. DUARTE.

Com vehemencia.

E a infamia Lhes gravareis depois nas frontes puras? Isso é torpe! Isso é vil!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Senhor infante!

D. DUARTE.

Com ardor.

Oh, que não ha-de ser! No quarto d'alva A armada partirá.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Com inquietação.

Zombaes?

D. DUARTE.

Ouvi-me! É o mandado d'elrei...

Dirigindo-se aos cavalleiros.

Meus velhos guerreiros, As armas tomae, E á praia fremente Os passos guiae; Que as náus já fluctuam: Não tarda o partir. Nos mares a aurora Veremos surgir.

CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.

Ajoelhando e estendendo os braços para o céu.

Virgem! Esperança! Estrella do mar, Ouvi nosso orar; Mandae-nos bonança! Salvae-nos, salvae-nos! E á patria levae-nos!

Erguem-se e vão saindo. Ouve-se-lhes ainda ao longe.

Á patria levae-nos!...

D. DUARTE.

Guerreiros novéis As armas vestí, E os muros de Ceuta De lanças cubrí­. Bandeira da serpe, Bandeira d'elrei, No alcacer, nas torres Guardae, ou morrei!

CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.

Tirando as espadas e cruzando-as umas sobre outras.

Contentes saudamos Os dias de guerra: Ser dignos da terra Da infancia juramos. O braço não treme!... O peito não teme!...

Vão saindo, e ouve-se-lhes ainda fóra:

O peito não teme!...

D. DUARTE.

Restam bem poucas horas: Salvos estaes infantes!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Sabe um amor immenso Horas fazer de instantes.

D. DUARTE.

Que!? Ousarieis 'inda?...

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Nós ousaremos tudo!

D. DUARTE.

Não! Filial piedade Vos servirá d'escudo!

Com gesto supplicante.

Pela memoria sancta De nossa mãe querida, Que na feral jazida Tal crime assombrará, Afugentae qual sonho Esse insensato amor, Que o odio, que o furor Do céu accenderá!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Mas deste amor profundo Quem nos libertará?

D. DUARTE.

Vêde quem sois, e o mundo Como vos julgará!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Duas formosas almas Por nós a fé ganhou.

D. DUARTE.

Antes por vós o sangue De Aviz se deshonrou.

UM PAGEM.

Entrando apressado.

Principe, elrei vos chama.

D. DUARTE.

Ide; eu vos sigo.

Lançando os braços ao pescoço dos dous infantes apenas o pagem sáe, D. Duarte os vem conduzindo lentamente para a frente da scena.

Oh meu Pedro, oh meu Henrique, Louco intento abandonaes?! Não passar de Ceuta as portas Hoje, aqui, vós me juraes?!

Os dous, volvendo olhar rapido um para o outro

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Senhor, do sceptro herdeiro, Vossos irmãos mandaes... De Ceuta as ferreas portas Não cruzaremos mais!

D. DUARTE.

Basta-me tal promessa! Só mentem desleaes.

SCENA II.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

D. HENRIQUE.

Olhando para o principe que sáe, e sorrindo.

A promessa ha-de cumprir-se! Nobre infante, vae seguro!

D. PEDRO.

Com hesitação.

Mas de Ceuta o erguido muro Como além, hoje, transpôr?...

D. HENRIQUE.

Conduzindo D. Pedro a uma gelosia, e apontando para fóra.

Vedes vós, lá em baixo, esse vulto Amplo e negro da torre de Fez, Que inda ha pouco o mais forte pavez Do vencido muslim se ostentou?

D. PEDRO.

Vejo; e lembram-me as portas robustas Que a acha d'armas a custo desfez; E que nesse momento se fez Um silencio que instantes durou...

D. HENRIQUE.

E parámos; e ouvimos ao longe Tinir d'armas, correr de corceis, E o confuso bradar d'infiéis, Restrugindo os seus gritos de dor...

D. PEDRO.

Subterraneo caminho os salvava Das espadas dos nossos fiéis, Quando inuteis alfanges, broqueis Lhes tornára profundo terror...

D. HENRIQUE.