Poesias

Chapter 5

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A alampada na igreja triste e muda Bruxuleava seu clarão, pendendo Ante o altar-mór: Como o templo, o porvir era do velho Cheio de sustos; muda como o templo Era a sua dor.

Resou, resou, e os olhos se enxugaram: O orar fervente as lagrymas enxuga, Qual prado o léste. Deus o inspirou; sperança é filha sua, Doce esperança, que os mortaes só deixa Sob o cypreste.

Voltou á choça, e a macilenta fome, Sem gemer, supportou sobre o seu leito, Que é quasi a terra; E, confiado em Deus, entre as angustias Do mal, menos crueis que as do remorso, Os olhos cerra.

II.

Restruge o mar cavado; o vento zune Pelos mastros da náu; colhido o panno Das vergas pende; Brinco das vagas, o baixel arfando Fluctua incerto, e dos bulcões guiado Os mares fende.

Correndo árvore secca avulta ao longe, Como alma em pena vagueiando á noite Em seu fadario; E pelas trévas branquejando a escuma, Que da prôa espadana, imita as prégas D'alvo sudario.

Envolto no gibão amplo e felpudo, Rude piloto ao leme trabalhoso Véla encostado; Que, se não mentem calculos, o porto Proximo está, dos lassos navegantes Tão suspirado.

III.

O vento vai quebrando, e já rareiam Grossos montões de acastelladas nuvens: Diurno alvor Traça no céu d'oriente um risco immenso, Que reflecte no mar, que veste, ao largo, Cerulea côr.

Surge o sol radioso e inunda as vagas, Que se acalmam, nivelam-se: o horisonte Mais amplo é já: Cava aragem ligeira a larga vela, E do cesto o gageiro clama:--terra! Ei-la acolá!»

Como deslisa o goso nos semblantes Por entre as rugas do terror passado! Como é formosa Essa pallida praia, e esses rochedos, E lá no extremo os pincaros da serra Erma e saudosa!

De indicas mérces, de ouro carregada Aproa á terra, com celeuma alegre, A náu pujante; E pelo verde mar do porto amigo Abrindo a esteira, restitue á patria O navegante.

IV.

É meia noite:--os gallos pela aldeia Dizem que um dia mais desceu ao nada E que outro vem, Para dar luz a dores e alegrias E depois nos abysmos do passado Cahir tambem.

E o mendigo da aldeia, o velho cego, Sobre o duro grabato, em choça humilde, Achou a paz. Em sonhos via um filho: a longes terras A miseria o levou: mudada sorte Feliz o traz.

Quantas vezes presága a mente do homem Véla como um propheta, em quanto o somno Seus membros prende; E como, em trevas de amargosos dias, No porvir uma luz, prevista em sonhos, Grata se accende!

V.

Nos gonzos ferrugentos range a porta Do tugurio do pobre adormecido, E descuidado; Que do mendigo o umbral patente é sempre, Nem carece de estar, como o do rico, Aferrolhado.

O bom do velho ao sobresalto acorda, E as lagrymas de alguem banham-lhe a face, E o pranto é mudo; Mas breve um grito e o soluçar e os beijos E o sonho que passou e a voz do sangue Lhe dizem tudo.

Não mais sob o carvalho ao velho honrado Esmoladora mão o peregrino Estenderá: Meigos lhe sorrirão extremos dias, E as suas cinzas filial gemido Consolará.

O BOM PESCADOR.

O sol rubro, em leito De nuvens descendo, Tremente, crescendo, No mar se ia a pôr.

Sentado no barco, Que a onda embalava, Scismando cantava O bom pescador.

A paz da sua alma No olhar exprimia, E a voz traduzia Scismar do cantor:

E o canto sereno Levava-lho a brisa, Que á tarde deslisa Com meigo frescor.

«Acabem de todo No prado as boninas, E em vastas campinas Não surja uma flor;

Dispa-se o ameeiro Da folha viçosa, E o Tejo em lodosa Mude esta azul côr;

O vento gelado Só reine e as procellas; Das vivas estrellas Se apague o fulgor:

O sol radioso Em nuvens se envolva, E á terra não volva Seu grato calor;

Que do horrido inverno, Comtigo, oh serrana, Na minha choupana Rirei do furor!

Não pensa se as veigas Se vestem de relva, Se está nua a selva Do lindo verdor;

Nem ouve os rugidos Do vento inquieto Quem, sob o seu tecto, Se abriga no amor.

Nasci, eduquei-me N'um mundo mais nobre, Agora sou pobre, Sou um pescador.

Ás bordas do abysmo Chegou-me a ventura; Medí delle a altura, Descí sem pavor.

Co'a dita se enlaça Humilde existencia, Se do homem a essencia O orgulho não fôr.

Emquanto de paços, De ferteis devesas, Emfim, de riquezas Eu pude dispor,

O somno tranquillo A mim não descia, Que o ferro temia Do vil salteador.

Na minha alma, immersa Em noite e amargura, Pesava bem dura A mão do Senhor!

Agora misturo Do rude oceano Nas vagas, ufano, O honrado suor;

Agora sereno Vem dia após dia, E a noite sombria Não cerca o temor;

Porque entre teus braços, Esposa querida, Me esqueço da lida Do mar bramidor.

Da vida no sonho Que importa vil ouro, Se tu és thesouro Perpetuo de amor;

Se ainda em teus labios, Oh cara consorte, Virá doce a morte Minha alma depor?

Nas ribas fragosas, Que os ventos castigam, E as ondas fustigam Com longo fragor,

Ao pé da ermidinha, Nesse adro tão só, Envoltos no pó, Sem goso, sem dôr,

Tranquillos, obscuros, Privados de luz, Á sombra da cruz Do Deus Redemptor,

De ti só lembrados, Em triste oração, Os restos serão Do teu pescador.

TRISTEZAS DO DESTERRO.

(FRAGMENTOS).

Erit tristis et moeretis. Isaias.

I.

Terra cara da patria, eu te hei saudado D'entre as dores do exilio. Pelas ondas Do irrequieto mar mandei-te o choro Da saudade longi­nqua. Sobre as aguas, Que de Albion nas ribas escabrosas Vem marulhando branqueiar de escuma A negra rocha em promontorio erguido, D'onde o insulano audaz contempla o immenso Imperio seu, o abysmo, aos olhos turvos Não sentida uma lagryma fugiu-me, E devorou-a o mar. A vaga incerta, Que róla livre, peregrina eterna, Mais que os homens piedosa, irá depo-la, Minha terra natal, nas praias tuas. Essa lagryma acceita: é quanto póde Do desterro enviar-te um pobre filho.

No silencio da noite, em sólo estranho, Patria minha gentil, em ti pensando, Para os astros de Deus olhei: fulgiam, Neste céu achatado, tristemente Com luz mortiça e pallida, não ricos De inspiração e amor, quaes lá refulgem. Pela sombra ameni­ssima, que chama Do affastado oriente o sol no occaso, No teu profundo céu has-de tu vê-los: Do desterrado filho os votos levam: Acceita-os delles, desgraçada patria!

Já se acercava o tenebroso inverno; Vinha fugindo a rapida andorinha, Para um abrigo te ir pedir, oh patria, Em cujos valles nunca alveja a neve: Juncto de mim passou: em suas azas Tambem mandei o filial suspiro.

Pelo dorso das vagas rugidoras Eu corri de além mar para estas plagas. Pelas antenas, em nublada noite, Ouvi o vento sul que assobiava, E de ouvi-lo folguei. Da patria vinha: Seu rijo sopro refrescou-me as veias. .....................................

II.

Que ferreo coração esquece a terra, Que lhe escutou os infantís vagidos, E lhe bebeu as lagrymas primeiras, Preludio a tantas que no curto espaço Da vida ha-de verter? Quem, nunca, esquece O tecto paternal, embora adeje Ao redor delle o medo de tyrannos? Quem não deseja misturar, na morte, Com a gleba nativa o pó de extincto, E murmurar seu ultimo suspiro Alli, onde primeiro a luz diurna O allumiou na rapida passagem Entre o nada e o morrer, chamada a vida? Ai, que és tu existencia?! Um pesadelo, Um sonho mau, de que se acorda em trévas, Na valla dos cadaveres, em meio Da unica herança que pertence ao homem, Um sudario e o perpetuo esquecimento. A infancia é dormir placido: inquieta A mocidade é, já; mas entre dores Vem o amar e esperar, e a crença ardente, E affectos sanctos consolar quem dorme: Pouco a pouco, porém, sobre a jazida Do sonhador, do mal se assenta o anjo, E as imagens ridentes da ventura Co' as negras asas dispersando ao longe, Com duro pé o coração lhe opprime. Oh, no grabato meu bem cedo esse anjo Veio assentar-se, e o juvenil enleio De affectos puros em dormir sereno Affugentou de mim. Vagueei nos mares; Peregrinei na terra: em toda a parte O pé maldicto me esmagou o peito, E da patria a saudade, em sonho triste, Immovel, do viver me tece a noite. ..................................

III.

Solidão, solidão, quem diz que existes Onde não soa tumultuar das turbas Mentiu-te a essencia! Solidão e morte São uma idéa só; um pensamento Doloroso, indistincto. Oh, dae-me um valle, Onde haja o sol da minha patria, e a brisa Matutina e da tarde, e a vinha e o cedro, E a larangeira em flor, e as harmonias Que a natureza em vozes mil murmura Na terra em que eu nasci, embora falte No concerto immortal a voz humana, Que um ermo assim povoará meus dias. Mas aqui!... Que me importa o murmurio Dos que passam? Que vale essa campina Humida e verde, e no gelado pégo Raio do sol que se refrange turvo? É o desterro solidão e morte Para o poeta: embora estranha lingua Lhe revele o pensar, o intimo verbo Que em ar vibrado traduziram labios, Se o céu, o til, o arroio, o prado, a selva Não tem para lhe dar um pensamento De poesia e de amor? Não! Tudo é pallido, Tudo é morto e sósinho e silencioso Como um sepulchro e um cemiterio! E ainda Campas e adros inspiram, quando hi dormem Nossos irmãos e paes, porque tem lagrymas Que desopprimem a alma; tem memorias, Tem uma cruz, em tôrno á qual sussurram Preces, que alli vamos guardar, qual guarda O avaro em ferreo cofre os seus thesouros, Para os contar hoje, ámanhan e sempre Emquanto vivo for. E cá? O engenho Nem crê, nem sente bafejar-lhe um canto O crepusculo, a lua, a aragem fresca, O arrebol da manhan, ou céu sereno Por noite escura recamado de astros.

Harpa meridional, porque, no extremo Da terra patria, o trovador errante Não deixaste partir só com seus males? Porque vieste, oh filha do occidente, Cruzando os mares embrenhar-te em nevoas De céu septentrional? Tu, pobresinha, Se, hoje, pendente em tronco de pinheiro, Sem haver mão que te vibrasse as cordas, Jazesses esquecida, ainda soáras Com incerta harmonia. Ás horas meigas Em que o dia se esvai, placida a brisa, Que espira do oceano e encrespa as vagas, Passaria por ti, e te agitára, E murmuráras som que respondera Trémulo, fraco, á flauta dos pastores Sussurrando suave entre as quebradas Da montanha selvosa. E aqui? És muda; És muda, que essas cordas carcomiu-t'as Este ar gelido e turvo, e qual o engenho De teu dono, no viço da existencia, Envelheceu, envelheceste, oh harpa! ...................................

IV.

Berço do meu nascer, sólo querido, Onde crescí e amei e fui ditoso, Onde a luz, onde o céu riem tão meigos, Meu pobre Portugal, hei-de chorar-te!

Quando, aterrado ante o minaz aspecto Do anjo de Deus, tremente vagueiava Nosso primeiro pae em volta do Éden, Não lhe tecia tanto de amarguras A vida o duro affan com que trocava Pelo pão o suor co' a avara terra; Não era tanto o traspassar-lhe os membros O hiberno sopro do aquilão, queimar-lh'os O sol estivo, e o magoar, errante, Os pés feridos nos tojaes bravios Pelas sendas que abria em ermos valles, Como as saudades de passados tempos, Dessa infancia viril, em que surgira, Para viver e amar, do barro inerte; Não o pungia tanto o mal presente Como a recordação dos claros dias De innocencia e de paz que alli vivêra. A primavera eterna, as auras puras, O murmurar do arroio, o canto da ave, O frémito do bosque, o grato aroma E o vistoso matiz do ameno prado, O lago quedo a reflectir a lua, As montanhas tão ricas de mysterios, De ecchos, de sombras, de tristezas sanctas; Isso tudo, trazia-lh'o ante os olhos Vingadora a memoria inexoravel. Por entre a bruma da estação chuvosa Passavam-lhe de abril perfumes, galas; Sob estuoso sol vinha a saudade Dizer-lhe o sussurrar do manso arroio E o ramalhar dos platanos copados. Por tenebrosas noites de procella, Quando a torrente e o vendaval bramiam, Cria d'entre o fragor ouvir romperem Os matutinos canticos das aves, E ver no pégo reflectir-se a lua. Longe, assim, do seu berço, o criminoso Com dura punição remia o crime: Mas para o consolar na senda agreste, Em cujo termo o esperava a morte, O severo juiz deixára ao triste De uma esposa querida o seio casto, Onde aspirar o amor, olhos que o pranto Misturassem co'o seu. Perdendo a patria Perdia encantos só de natureza Formosa e juvenil. As harmonias Dos corações, os misticos affectos Não lhe truncou a espada flammejante Do cherubim ao repelli-lo do Éden: Para elle a patria renasceu no exilio.

Eu, prófugo como elle, o Éden nativo Perdí; e perdí mais. Despedaçados Os affectos de irmão, de amante, e filho Restam-me na alma qual buída frecha, Que no peito ao cravar-se estala e deixa, Cahindo, o ferro na ferida occulto. ...................................

V.

Oh meu pae, oh meu pae, como a memoria Me reflecte, alta noite, a tua imagem Por entre um véu de involuntario pranto!

Quão triste cogitar em mim desperta A imagem cara! Á noite, o bom do velho As bençams paternaes de Deus co' as bençams Sobre minha cabeça derramava, E ao começar o dia; e ellas desciam A um coração exempto de remorsos Onde encontravam filial piedade. E agora? É-lhe mysterio o meu destino. Qual o seu para mim o exilio occulta. Saciado, talvez, de dor e affrontas Dorme já sob a campa o somno eterno? Suas trémulas mãos não mais lançar-me Virão a bençam da piedade? O extremo Arranco seu não roçará meus labios? Ah, se um dia raiar para o proscripto O suspirado alvor do sol da patria, E se entre nós de um í­mpio as mãos ergueram A barreira da morte, ai delle, ai delle! E tambem, ai de mim!........................ ...................... Mas se 'inda um filho Houver digno de o ser, eu criminoso Terei quem me deplore; mãos que plantem No adro deserto onde jazer maldicto Um cypreste, uma flor, e quem deponha Aos pés do throno do juiz supremo Por mim, uma oração fervente e pia. ...................................

VI.

Arvores, flores, que eu amava tanto, Como viveis sem mim? Nas longas vias, Que vou seguindo peregrino e pobre, Sob este rude céu, entre o ruído Dos odiosos folgares do sicambro, Do monotono som da lingua sua, Pelas horas da tarde, em varzea extensa, E ás bordas do ribeiro que murmura, Diviso ás vezes, em distancia, um bosque De arvoredo onde bate o sol cadente, E vem-me á idéa o laranjal viçoso E os perfumes de abril que elle derrama, E as brancas flores e os dourados fructos, E illudo-me: essa varzea é do meu rio, Esse bosque o pomar da minha terra. Aproximo-me; o sonho de um momento Então se troca em acordar bem triste, Como surge e se esvai por entre as nevoas Vulto indeciso nos cantares d'Ossian. É uniforme e torva esta verdura, Acre o cheiro que exhala este arvoredo, Mal-assombrado o rio, humido o valle, Frio do sol o raio derradeiro Espirando neste ar denso e pesado, Que amplo aspirar recusa ao peito oppresso, E rouba aos olhos horisonte immenso.

Ai, pobres flores que eu amava tanto, Por certo não viveis! O sol pendeu-vos Mirradas folhas para o chão fervente: Ninguem se condoeu: seccou-se a seiva, E morrestes. Morrestes sobre a terra, Que por cuidados meus vos educára. E eu? Talvez nestes campos estrangeiros Minha existencia o fogo da desdita Faça pender, murchar, ir-se mirrando Sem que torne a ver mais esses que amava, Sem que torne a abraçar a arvore annosa, Que se pendura sobre a limpha clara Lá no meu Portugal, onde a frescura Da ribeira perenne, da floresta Tem valor, porque o sol tem luz, tem vida! ..........................................

VII

Eu já vi n'uma ilha arremessada Ás solidões do mar, entre os dous mundos, Vestigios de volcões que hão sido extinctos Em não-sabidos seculos. Scintillam, Aqui e alli, nos areientos plainos, Onde espinhosas sarças só vegetam, Restos informes de metaes fundidos Pelas chammas do abysmo, entre affumadas Pedras que em parte amarellece o enxofre, Que a lava em rios dispersou, deixando Só delle a côr em lascas arrancadas Das entranhas dos montes penhascosos. A natureza é morta em todo o espaço Que ella correu, no dia em que, rugindo, Da cratéra fervente, á voz do Eterno, Desceu ao mar turbado, e elle, escumando, A engoliu e passou, qual sumiria De soçobrada nau celeuma inutil. Tal é meu coração. Bem como a lava É o desterro ao trovador. Meus olhos Hão-de esquecer as lagrymas; que a seiva Do vivido sentir vai-se queimando Ao suão mirrador de atroz saudade, Que excede tudo em dor; excede a de orpham, De viuva, de mãe que sobre o berço Vê jazer morto o pallido filhinho. E porquê? Porque ahi ha inclinar-se Sobre o corpo do extincto; ha despedir-se Com suspiros e prantos desses restos, Que vão quedos dormir em adro antigo, Onde os avós já dormem; onde ha patria, Ha fami­lia, ha irmãos.--Cá, tudo é ermo, E a dor está no coração do prófugo Como um cadaver hirto quando espera De noite, em leito nú, que á tumba o desçam. A dor aqui é gelida, immutavel; Pousa em labios alheios que sorriem, E até em sorrir nosso; está sentada Ao pé do umbral do tecto que nos cobre, Embebida na enxerga do repouso, Entranhada no pão que nos esmolam, Enroscada, qual cobra peçonhenta, No nodoso bordão do peregrino, E em toda a parte e em todo o tempo é nossa.

E depois, o morrer em leito alheio; Despedir-se de um sol que não é esse, Que, na infancia, nos fez florir os prados, Que nos crestou, na infancia, as faces virgens; Volver em torno os olhos moribundos E não ver uma lagryma; inclinar-se E não achar um seio feminino, Ou de esposa ou de mãe, onde repouse A fronte accesa por ardente febre; E pensar entre as ancias derradeiras, Que será terra estranha a que nos trague; Que será til do norte o que proteja Nosso humilde moimento, a verde gleba, Onde de pinho a cruz por dous invernos Apenas luctará co'a negra nuvem Do esquecimento eterno, unica herança Do que expirou no exilio! Amarguradas São taes cogitações para o que sente No seio em ondas trasbordar-lhe a vida. Quaes, porém, não virão ao pobre velho, Que, arrancado das bordas do seu tumulo, Foi por cima dos mares arrojado Para juncto do umbral de um cemiterio, Onde não achará paternos ossos, Para ao pé delles se deitar morrendo?! ......................................

VIII.

Quando nos luz o sol no céu da patria, Embora sobre nós verta a desdita Torrentes de amargura, ha um consolo: É o altar e a oração. Ao desterrado Nem sequer isso resta. O templo alheio É como ermo de Deus; como que param Nesse craneo de marmore arqueado Do gigante edificio as tristes preces Em lingua estranha proferidas. Gelidas E duras são do pavimento as lageas Para quem sabe certo não o escutam Mortos que muito amou; que nesse tecto Vai bater frouxa uma oração discorde Entre mil orações. «É falso! É impio!-- A razão o dirá--De Deus o templo É o mundo. No cimo das montanhas O nome do Senhor sussurra em sopro Do vento que passou rasgando as asas Pelo cardo bravio; a gloria delle Di-la o rolo do mar correndo á praia; É o seu hymno o canto da avesinha No salgueiro que pende e se balouça Sobre o arroio do valle, e é do regato O murmurinho o cantico nocturno Mandado pela terra silenciosa Qual suspiro fraterno, aos soes e aos mundos Que pelos céus harmoniosos gyram. Esses montões de cinzeladas pedras De columnas e torres, que se elevam Como as mãos junctas de quem resa, apenas São um memento da oração, um marco Posto no ermo da vida, que nos lembre Quem no-la deu, e o mal e o bem, e Aquelle, Que é senhor e que é rei, que é pae e entende O vento, o mar, os astros, a avesinha, O sussurrar do arroio humilde, e as preces De milhões d'orbes em milhões de li­nguas.»

Ao brado da razão só não se dobra O coração do desterrado! Embora Sob as asas do amor abrigue o Eterno Homens, nações e o mundo: o amor por elle Nasce, cresce, vigora-se enredado Com os beijos de mãe, com sorrir meigo De nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde, O pôr do sol da nossa terra, o choupo Da nossa fonte, o mar que manso geme, Nosso amigo da infancia, em praia amiga.

Quando isso tudo se converte em sombra, Que em confuso passado apenas surge Qual fumo tenuissimo ou phantasma Á meia-noite visto, á luz da lua, Ao longe entre arvoredo: quando o sopro Da tempestade assobiou nas trévas Pela antena da nau do vagabundo; Quando a dor sua em olhos de ente vivo Não achou uma lagryma piedosa, E nos seus proprios são vergonha as lagrymas, Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam, Não sobre seio que as esconda e enchugue, Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa Sem as sentir; então o soffrimento, Filho de longo padecer, converte O coração do desditoso em marmore, Onde nunca penetra um puro affecto, Onde o nome de Deus soçobra e morre Entre o bramir de maldicções e pragas.

Oh, do desterro o mal supremo é este! É o seccar-se o coração; mirrar-se Como a sarça do monte em fins d'estio; É o descrer, e o blasphemar do Eterno. Se aos céus levanta o desgraçado os olhos, É que primeiro os pôs lá no futuro, E, bem que tenue luz, um fulgorzinho Por entre as sombras lhe sorriu fagueiro: Mas quando se ergue um muro intransitavel Entre nós e a ventura; quando ao longe Pelos campos da vida é tudo pallido E perece a esperança, então a mente Recúa com horror, e dando em terra, Maldiz-se a si e a providencia e o mundo, .........................................

O MOSTEIRO DESERTO.

I.

No mosteiro vai fundo o silencio; Um silencio que gera terror; Só nos tectos, que banha o luar, Sólta o mocho seu pio de horror:

Só o vento que gyra nos pateos, E se engolfa na escada ogival, Ramalhar vem nas folhas dos ulmos, Que ladeiam normando portal.

Meia noite. E na crasta deserta Não reboam os ecchos do sino, Que, vagando, murmuram nas cellas:-- São as horas do officio divino.»

Meia noite! Bem como na torre Voz de bronze dormente parece, Tal o monge, na dura jazida, Priguiçoso do templo se esquece.

Monge, o brado nocturno do sino Ao resar não te chama, é verdade; Mas talvez já no topo do côro Somnolento te espera o abbade.

Nada quebra o remanso da noite Pelas gothicas, vastas arcadas: Nem de quicios ranger vagaroso, Nem murmúrio de lentas passadas.

«Está só o mosteiro?-- Este grito Repetiram-no os ecchos inteiro; E, bem como em resposta á pergunta, Retumbou: --Está só o mosteiro!»

Pouco ha inda, na alta noite Passava no espaço a lua, Dos ulmos a cima ondeava Negra, qual ora fluctua:

Mas tenebroso silencio Não ía, como ora vai: Bradava o sino da torre Aos monges dizendo:--orae.»

E pelos vidros córados Reverberava fulgor; De passos no longo claustro Soava tenue rumor.

Depois, lá dentro na igreja, Em côro alterno rompia O canto lento dos monges, Que ás vozes do orgam se unia:

Porém, como se ao sopro do archanjo A trombeta final retumbasse, E da vida o tumulto na terra Ao terrivel signal expirasse,

Assim do orgam calou a harmonia, E dos córos os hymnos calaram, E os fulgores das lampadas frouxos Das vidraças não mais transudaram.

II.

É que o filho dos ermos, renegando Das tradições antigas, Desceu a pelejar na ardente arena Das facções inimigas. Amar, soffrer, orar era a existencia Que lhe talhára a sorte; Enxugar muitas lagrymas na terra, E repousar na morte; Realisar té onde é dado ao homem Esse typo ideal, Que nos legou o Salvador, tomando Nossa veste mortal.

E não o quiz. Sacrilego, do pobre A herança, que a piedade Confiára ao ministro de uma crença Que é toda caridade, Offertou-a, traidor a Deus e aos mortos, No altar impio da guerra, E, abrindo o manto, sacudiu irado A assolação á terra.

De noite no bosque, Na gandra deserta, No viso do monte, Do valle na aberta,

Á luz das estrellas As armas fulgiam, E ouviam-se ao longe Corceis que nitriam:

Horrendo propheta O abutre passava, E sobre as encostas Calado pairava:

Depois, na alvorada, Com gritos sem fim Saudava do sangue Vizinho o festim.

E á voz das trombetas, Ao trom dos canhões, Ao som das passadas De vinte esquadrões;