Poesias

Chapter 4

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E vós, entes queridos, Entes que tanto amei, Dando-vos liberdade Contente acabarei.

Por mim livres chorar Vós podereis um dia, E ás cinzas do soldado Erguer memoria pia.

A VICTORIA E A PIEDADE.

I.

Eu nunca fiz soar meus pobres cantos Nos paços dos senhores! Eu jámais consagrei hymno mentido Da terra aos oppressores. Mal haja o trovador que vae sentar-se Á porta do abastado, O qual com ouro paga a propria infamia, Louvor que foi comprado. Deshonra áquelle, que ao poder e ao ouro Prostitue o alaúde! Deus á poesia deu por alvo a patria, Deu a gloria e a virtude. Feliz ou infeliz, triste ou contente, Livre o poeta seja, E em hymno isento a inspiração transforme, Que na sua alma adeja.

II.

No despontar da vida, do infortunio Murchou-me o sopro ardente; E saudades curti em longes terras Da minha terra ausente. O solo do desterro, ai, quanto ingrato É para o foragido, Ennevoado o céu, arido o prado, O rio adormecido! Eu lá chorei, na idade da esperaça, Da patria a dura sorte: Esta alma encaneceu; e antes de tempo Ergueu hymnos á morte: Que a morte é para o misero risonha, Sancta da campa a imagem... Alli é que se afferra o porto amigo, Depois de ardua viagem.

III.

Mas quando o pranto me sulcava as faces, Pranto de atroz saudade, Deus escutou do vagabundo as preces, Delle teve piedade. «Armas!--bradaram no desterro os fortes, Como bradar de um só: Erguem-se, voam, cingem ferros; cinge-os Indissoluvel nó. Com seus irmãos as sacrosanctas juras, Beijando a cruz da espada, Repetiu o poeta:--Eia, partamos! Ao mar!»--Partia a armada. Pelas ondas azues correndo afoutos, As praias demandámos Do velho Portugal, e o balsão negro Da guerra despregámos; De guerra em que era infamia o ser piedoso, Nobreza o ser cruel, E em que o golpe mortal descia involto Das maldicções no fel.

IV.

Fanatismo brutal, odio fraterno, De fogo céus toldados, A fome, a peste, o mar avaro, as turbas De innumeros soldados; Comprar com sangue o pão, com sangue o lume Em regelado inverno; Eis contra o que, por dias de amargura, Nos fez luctar o inferno. Mas de fera victoria, emfim, colhemos A c'roa de cypreste; Que a fronte ao vencedor em í­mpia lucta Só essa c'roa veste. Como ella torvo, soltarei um hymno Depois do triumphar. Oh meus irmãos, da embriaguez da guerra Bem triste é o acordar! Nessa alta encosta sobranceira aos campos, De sangue ainda impuros, Onde o canhão troou por mais de um anno Contra invenciveis muros, Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me; Pedir inspirações Á noite queda, ao genio que me ensina Segredos das canções.

V.

Reina em silencio a lua: o mar não brame, Os ventos nem bafejam; Rasas co' a terra, só nocturnas aves Em gyros mil adejam. No plaino pardacento, juncto ao marco Tombado, ou rota sebe, Aqui e alli, de ossadas insepultas O alvejar se percebe. É que essa veiga, tão festiva outr'ora, Da paz tranquillo imperio, Onde ao carvalho a vide se enlaçava, É hoje um cemiterio!

VI.

Eis de esforçados mil inglorios restos, Depois de brava lida; De longo combater atroz memento Em guerra fraticida. Nenhum padrão recordará aos homens Seus feitos derradeiros: Nem dirá:--aqui dormem portugueses; Aqui dormem guerreiros.» Nenhum padrão, que peça aos que passarem Resa fervente e pia, E juncto ao qual entes queridos vertam O pranto da agonia! Nem hasteada cruz, consolo ao morto; Nem lagea que os proteja Do ardente sol, da noite humida e fria, Que passa e que roreja! Não! Lá hão-de jazer no esquecimento De deshonrada morte, Emquanto, pelo tempo em pó desfeitos, Não os dispersa o norte.

VII.

Quem, pois, consolará gementes sombras, Que ondeiam juncto a mim? Quem seu perdão da Patria implorar ousa, Seu perdão de Elohim? Eu, o christão, o trovador do exilio, Contrario em guerra crua, Mas que não sei verter o fel da affronta Sobre uma ossada nua.

VIII.

Lavradores, zagaes, descem dos montes, Deixando terras, gados, Para as armas vestir, dos céus em nome, Por phariseus chamados. De um Deus de paz hypocritas ministros Os tristes enganaram: Foram elles, não nós, que estas cáveiras Aos vermes consagraram. Maldicto sejas tu, monstro do inferno, Que do Senhor no templo, Juncto da eterna cruz, ao crime incitas, Dás do furor o exemplo! Sobre as cinzas da Patria, ímpio, pensaste Folgar de nosso mal, E, entre as ruinas de cidade illustre, Soltar riso infernal. Tu, no teu coração insipiente, Disseste:--Deus não há!» Elle existe, malvado; e nós vencemos: Treme; que tempo é já!

IX.

Mas esses, cujos ossos espalhados No campo da peleja Jazem, exoram a piedade nossa; Piedoso o livre seja! Eu pedirei a paz dos inimigos, Mortos como valentes, Ao Deus nosso juiz, ao que distingue Culpados de innocentes.

X.

Perdoou, expirando, o Filho do Homem Aos seus perseguidores: Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes; Perdão, oh vencedores! Não insulteis o morto. Elle ha comprado Bem caro o esquecimento, Vencido adormecendo em morte ignobil, Sem dobre ou monumento. É tempo d'olvidar odios profundos De guerra deploravel. O forte é generoso, e deixa ao fraco O ser inexoravel. Oh, perdão para aquelle, a quem a morte No seio agasalhou! Elle é mudo: pedi-lo já não póde; O dá-lo a nós deixou. Além do limiar da eternidade O mundo não tem réus, O que legou á terra o pó da terra Julgá-lo cabe a Deus. E vós, meus companheiros, que não vistes Nossa triste victoria, Não precisaes do trovador o canto; Vosso nome é da historia.

XI.

Assim, foi do infeliz sobre a jazida Que um hymno murmurei, E, do vencido consolando a sombra, Por vós eu perdoei.

A CRUZ MUTILADA.

Amo-te, oh cruz, no vertice firmada De esplendidas igrejas; Amo-te quando á noite, sobre a campa, Juncto ao cypreste alvejas; Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos, As preces te rodeiam; Amo-te quando em prestito festivo As multidões te hasteiam; Amo-te erguida no cruzeiro antigo, No adro do presbyterio, Ou quando o morto, impressa no ataúde, Guias ao cemiterio; Amo-te, oh cruz, até, quando no valle Negrejas triste e só, Núncia do crime, a que deveu a terra Do assassinado o pó:

Porém quando mais te amo, Oh cruz do meu Senhor, É se te encontro á tarde, Antes de o sol se pôr,

Na clareira da serra, Que o arvoredo assombra, Quando á luz que fenece Se estira a tua sombra,

E o dia ultimos raios Com o luar mistura, E o seu hymno da tarde O pinheiral murmura.

E eu te encontrei, n'um alcantil agreste, Meia-quebrada, oh cruz. Sósinha estavas Ao pôr do sol, e ao elevar-se a lua Detraz do calvo cerro. A soledade Não te pôde valer contra a mão ímpia, Que te feriu sem dó. As linhas puras De teu perfil, falhadas, tortuosas, Oh mutilada cruz, falam de um crime Sacrilego, brutal e ao í­mpio inutil! A tua sombra estampa-se no solo, Como a sombra de antigo monumento, Que o tempo quasi derrocou, truncada. No pedestal musgoso, em que te ergueram Nossos avós, eu me assentei. Ao longe, Do presbyterio rustico mandava O sino os simples sons pelas quebradas Da cordilheira, annunciando o instante Da _Ave-Maria_; da oração singela, Mas solemne, mas sancta, em que a voz do homem Se mistura nos canticos saudosos, Que a natureza envia ao céu no extremo Raio de sol, passando fugitivo Na tangente deste orbe, ao qual trouxeste Liberdade e progresso, e que te paga Com a injuria e o desprezo, e que te inveja Até, na solidão, o esquecimento!

Foi da sciencia incredula o sectario, Acaso, oh cruz da serra, o que na face Affrontas te gravou com mão profusa? Não! Foi o homem do povo, a quem consolo Na miseria e na dôr constante has sido Por bem dezoito seculos: foi esse Por cujo amor surgias qual remorso Nos sonhos do abastado ou do tyranno, Bradando--_esmola!_ a um--_piedade!_ ao outro.

Oh cruz, se desde o Golgotha não fôras Symbolo eterno de uma crença eterna; Se a n­ossa fé em ti fosse mentida, Dos oppressos de outr'ora os livres netos Por sua ingratidão dignos de opprobrio, Se não te amassem, ainda assim seriam. Mas és núncia do céu, e elles te insultam, Esquecidos das lágrymas perennes Por trinta gerações, que guarda a campa, Vertidas a teus pés nos dias torvos Do seu viver d'escravidão! Deslembram-se De que, se a paz domestica, a pureza Do leito conjugal bruta violencia Não vae contaminar, se a filha virgem Do humilde camponês não é ludibrio Do opulento, do nobre, oh cruz, t'o devem; Que por ti o cultor de ferteis campos Colhe tranquillo da fadiga o premio, Sem que a voz de um senhor, qual d'antes, dura Lhe diga:--é meu, e és meu! A mim deleites, Liberdade, abundancia: a ti, escravo, O trabalho, a miseria unido á terra, Que o suor dessa fronte fertiliza, Emquanto, em dia de furor ou tedio, Não me apraz com teus restos fecunda-la.»

Quando calada a humanidade ouvia Este atroz blasphemar, tu te elevaste Lá do oriente, oh cruz, involta em gloria, E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:-- Mentira!» E o servo alevantou os olhos, Onde a esperança scintillava, a medo, E viu as faces do senhor retinctas Em pallidez mortal, e errar-lhe a vista Trépida, vaga. A cruz no céu do oriente Da liberdade annunciára a vinda.

Cansado, o ancião guerreiro, que a existencia Desgastou no volver de cem combates, Ao ver que, emfim, o seu paiz querido Já não ousam calcar os pés d'estranhos, Vem assentar-se á luz meiga da tarde, Na tarde do viver, juncto do teixo Da montanha natal. Na fronte calva, Que o sol tostou e que enrugaram annos, Ha um como fulgor sereno e sancto. Da aldeia semideus, devem-lhe todos O tecto, a liberdade, e a honra e vida. Ao perpassar do veterano os velhos A mão que os protegeu apertam gratos; Com amorosa timidez os moços Saúdam-no qual pae. Nas largas noites Da gelada estação, sobre a lareira Nunca lhe falta o cepo incendiado; Sobre a mesa frugal nunca, no estio, Refrigerante pomo. Assim do velho Pelejador os derradeiros dias Derivam para o tumulo suaves, Rodeiados de affecto, e quando á terra A mão do tempo gastador o guia, Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze Flores, lagrymas, bençãos, que consolem Do defensor do fraco as cinzas frias.

Pobre cruz! Pelejaste mil combates, Os gigantes combates dos tyrannos, E venceste. No solo libertado, Que pediste? Um retiro no deserto, Um pi­ncaro grani­tico, açoutado Pelas azas do vento e ennegrecido Por chuvas e por soes. Para ameigar-te Este ar humido e gelido a segure Não foi ferir do bosque o rei. Do estio No ardor canicular nunca disseste:-- Dáe-me, sequer, do bravo medronheiro O despresado fruct­o! O teu vestido Era o musgo, que tece a mão do inverno, E Deus creou para trajar as rochas. Filha do céu, o céu era o teu tecto, Teu escabelo o dorso da montanha. Tempo houve em que esses braços te adórnava C'roa viçosa de gentis boninas, E o pedestal te rodeiavam preces. Ficaste em breve só, e a voz humana Fez, pouco a pouco, juncto a ti silencio. Que te importava? As arvores da encosta Curvavam-se a saudar-te, e revoando As aves vinham circumdar-te de hymnos. Affagava-te o raio derradeiro, Frouxo do sol ao mergulhar nos mares, E esperavas o tumulo. O teu tumulo Devera ser o seio destas serras, Quando, em génesis novo, á voz do Eterno, Do orbe ao nucleo fervente, que as gerára, Ellas nas fauces dos volcões descessem. Então para essa campa flores, bençãos, Ou de saudade lagrymas vertidas, Qual do velho soldado a lousa pede, Não pedíras á ingrata raça humana, Ao pé de ti no seu sudario involta.

Este longo esperar do dia extremo, No esquecimento do ermo abandonada, Foi duro de soffrer aos teus remidos, Oh redemptora cruz. Eras, acaso, Como um remorso e accusação perenne No teu rochedo alpestre, onde te viam Pousar tristonha e só? Acaso, á noite, Quando a procella no pinhal rugia, Criam ouvir-te a voz accusadora Sobrelevar á voz da tempestade? Que lhes dizias tu? De Deus falavas, E do seu Christo, do divino martyr, Que a ti, supplicio e affronta, a ti maldicta Ergueu, purificou, clamando ao servo, No seu trance final:--Ergue-te, escravo! És livre, como é pura a cruz da infamia. Ella vil e tu vil, sanctos, sublimes Sereis ante meu Pae. Ergue-te, escravo! Abraça tua irman: segue-a sem susto No caminho dos seculos. Da terra Pertence-lhe o porvir, e o seu triumpho Trará da tua liberdade o dia.»

Eis porque teus irmãos te arrojam pedras, Ao perpassar, oh cruz! Pensam ouvir-te Nos rumores da noite, a antiga historia Recontando do Golgotha, lembrando-lhes Que só ao Christo a liberdade devem, E que impio o povo ser é ser infame. Mutilado por elle, a pouco e pouco, Tu em fragmentos tombarás do cerro, Symbolo sacrosancto. Hão-de os humanos Aos pés pisar-te; e esquecerás no mundo. Da gratidão a divida não paga Ficará, oh tremenda accusadora, Sem que as faces lhes tinja a côr do pejo; Sem que o remorso os corações lhes rasgue. Do Christo o nome passará na terra.

Não! Quando, em pó desfeita, a cruz divina Deixar de ser perenne testemunho Da avita crença, os montes, a espessura, O mar, a lua, o murmurar da fonte, Da natureza as vagas harmonias, Da cruz em nome, falarão do Verbo.

Della no pedestal, então deserto, Do deserto no seio, ainda o poeta Virá, talvez, ao pôr do sol sentar-se; E a voz da selva lhe dirá que é sancto Este rochedo nú, e um hymno pio A solidão lhe ensinará e a noite.

Do cantico futuro uma toada Não sentes vir, oh cruz, de além dos tempos Da brisa do crepusculo nas azas? É o porvir que te proclama eterna; É a voz do poeta a saúdar-te.

Montanha do oriente, Que, sobre as nuvens elevando o cume, Divisas logo o sol, surgindo a aurora, E que, lá no occidente, Ultima vês seu radioso lume, Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Rochedo, que descanças No promontorio nú e solitario, Como atalaia que o oceano explora, Alheio ás mil mudanças Que o mundo agitam turbulento e vario, Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Sobros, robles frondentes, Cuja sombra procura o viandante, Fugindo ao sol a prumo que o devora, Nesses dias ardentes Em que o Leão nos céus passa radiante, Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Oh mato variado, De rosmaninho e murta entretecido, De cujas tenues flores se evapora Aroma delicado, Quando és por leve aragem sacudido, Em ti minha alma a eterna cruz adora. Oh mar, que vais quebrando Rolo após rolo pela praia fria, E fremes som de paz consoladora, Dormente murmurando Na caverna maritima sombria, Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Oh lua silenciosa, Que em perpetuo volver, seguindo a terra, Esparzes tua luz ameigadora Pela serra formosa, E pelos lagos que em seu seio encerra, Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Debalde o servo ingrato No pó te derribou E os restos te insultou, Oh veneranda cruz:

Embora eu te não veja Neste ermo pedestal; És sancta, és immortal; Tu és a minha luz!

Nas almas generosas Gravou-te a mão de Deus, E, á noite, fez nos céus. Teu vulto scintillar.

Os raios das estrellas Cruzam o seu fulgor; Nas horas do furor As vagas cruza o mar.

Os ramos enlaçados Do roble, choupo e til, Cruzando em modos mil, Se vão entretecer.

Ferido, abre o guerreiro Os braços, sólta um ai, Pára, vacilla, e cáe Para não mais se erguer.

Cruzado aperta ao seio A mãe o filho seu, Que busca, mal nasceu, Fontes da vida e amor.

Surges, symbolo eterno No céu, na terra e mar, Do forte no expirar, E do viver no alvor!

LIVRO SEGUNDO

POESIAS VARIAS.

A PERDA D'ARZILLA.

(1549).

Era noite: do céu limpo e sereno Milhões d'estrellas trémulas pendiam, Quaes as nocturnas lampadas d'um templo, E as ribas ermas sussurrar se ouviam. D'alterosa galé o negro vulto Corta ao largo, bem largo, o mar do Algarve, E lá nas serras d'Africa fronteiras Branqueja a espaços o albornoz do alarve.

Como tocheiros com brandões accesos, De um féretro ao redor, Cuja vermelha luz o horror da morte Só faz sentir melhor, Taes as nocturnas almenáras fulgem Nas torres d'atalaia, Pelos outeiros, que circumdam muros De povoação na praia.

Arzilla, a guerreira. Lá jaz na afflicção, Que a rendeu aos mouros Elrei dom João. Tomar-te-ha Deus contas, Rei fraco e prasmado, De tão grande vilta, De teu grão peccado. Maldiz-te nos mares Valente fronteiro, Que na sé de Ceuta Se armou cavalleiro; Que dez aduares Em Tanger queimou, E em muros d'Alcacer Dez elches matou: Que era hoje d'Arzilla Temido adaí­l, E a quem tu mandaste Fugir como vil.

Vêde-o lá na gavia Da negra galé, De braços cruzados, Immovel, em pé; E a náu que arfa e voa Na fremente via, Ferindo na esteira Fugaz ardentia; E d'Africa as praias, Que a ré vão fugindo, E as vagas, que rolam, Distantes mugindo. Em roda o silencio: No céu noite escura: E o peito do triste Confrange a amargura.

Do veterano as faces O salso pranto réga: Nos africanos montes Saudoso os olhos préga. Sente no seio as ancias D'incomportavel dor, E ás vezes range os dentes Em trances de furor. Um cantico á su' alma A indignação inspira: Vai sussurra-lo ao longe Aura que branda espira.

O CANTO DO ADAÍL.

Quando, ao longe, nos campos d'Arzilla, Alvejava do mouro o albornoz, E corria, e corria veloz O ginete de Bellamarim; Quando o esculca, saído da villa Da manhã ao primeiro fulgor, Não podendo a atalaia transpôr, Vinha ás portas bater de Çafim; Quando em Tanger, a forte, se ouvia De armaduras continuo tinir, E nos ares se via luzir O montante, a acha d'armas, e o criz; Quando em Ceuta vencida se erguia Sobre o alcacer pendão português, Contra o qual na mesquita de Fês A gazúa prégava o caciz: Quando Alcacer-Ceguer, a viçosa, Que em vergeis se reclina gentil, Pela noite fragrante d'abril D'entre os robles sorria ao luar; Porque, rico de presa formosa, Já voltou nobre alcaide christão, E inda ao longe de incendio o clarão Tinge o céu sobre um triste aduar: Nossa estrella era então esplendente; Nosso nome era um som do terror; Nossos paes conduzia o Senhor, Qual Judá d'entre a sarça do Horeb. Portugal, oh leão do occidente, Tu rugias á beira do mar, E o teu grito cá vinha troar Temeroso no ardente Moghreb: Era o tempo dos crentes e ousados: Era o tempo da gloria da cruz! Ora contam-se as páreas d'Ormuz; Tem só nome Cochim, Calecut! E esses muros d'Arzilla, regados Com o sangue de martyres mil, Ermos hoje tu deixas, rei vil, Porque o Estreito passou Rais Dragut! Oh valentes da India, do oceano, Roncadores de féros no mar, Cuja espada, porém, faiscar Não sabe inda do mouro no arnez, Mostrar vinde o valor sobre-humano Neste clima de sol mirrador! Aqui fama se compra com dor: Facil gloria esquecei uma vez. As galés do arrais mouro são fortes; Sua chusma berbers do Takrur; Como o vosso rei indio, Badur, Não ha-de elle acabar á traição. Uma festa de sangue e de mortes Do occidente nas vagas tereis; Elmos rijos aqui achareis, Não o craneo d'inerme sultão! Mercadores!--deixae vosso cravo, A canella, a pimenta, o marfi; Os vestidos de seda despí; Ponde, em vez de collar, um gorjal. Vella e remo soltae no mar bravo; Vinde juncto de nós combater; Nós que Arzilla deixámos perder, Porque elrei... é um rei desleal. Para nós os castellos d'avante; Para nós a arrombada e bailéu; Para nós pelejar ante o céu, Que nos campos d'Arzilla nos viu: Para nós o machado e montante; Para vós a bombarda e arcabuz; Para nós, ao cahir, ver a luz; Ver a mão que estes peitos feríu; Para nós o tombar derradeiro Sobre o ferreo esporão das galés; O pelouro, de sob o convés, Cá de longe enviar... para vós! O sudario do morto fronteiro Alva escuma da proa será; E em seus labios--_Arzilla!_--ouvirá Quem ouvir sua ultima voz.

E elles, os fortes d'Asia, não vieram Do cavalleiro d'Africa ao chamar; E a náu d'elrei ao infamado Tejo Veio aportar: E o adaíl depôs as armas rotas, Não no espaldar; Que nunca o bom fronteiro viram mouros Costas voltar.

E tomando o bordão de peregrino, Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobre De dominicos, Frades mui sanctos, que os judeus queimavam, Porque eram ricos. No meio desses tumulos, que encerram Os despojos mortaes dos reis que foram, Féretro antigo O adaí­l procurou. De um rei soldado Era o jazigo. Quando o viu, ajoelhou nos degraus delle, E palavras, que as lagrymas cortavam, Lhe dirigiu: Maldicção para alguem pedia ao morto; Mas nada ouviu! Então, livido o rosto, os labios brancos, A fronte lhe pendeu sobre o ataúde Do rei extinto. Expirára ao dizer--_perdeu-se Arzilla!_-- A Affonso Quinto.

A ROSA.

Pura em sua innocencia. Entre a sarça espinhosa, Purpurea esplende, inda botão intacto, Na madrugada a rosa.

É da campina a virgem A pudibunda flor; Em seus efluvios matutina brisa Bebe o primeiro amor.

O sol inunda as veigas: Calou-se o rouxinol; E a flor, ebria de gloria, á luz fervente, Desabrochou-a o sol.

O sôpro matutino No seio seu pousára: Prostituida á luz, fugiu-lhe a brisa, Que a linda rosa amára.

Bella se ostenta um dia; Saúdam-na as pastoras; Dão-lhe mil beijos, gorgeando, as aves; Voam do goso as horas.

Lá vem chegando a noite, E ella empallideceu: Incessante prazer mirrou-lhe a seiva; A rosa emmurcheceu.

Desce o tufão dos montes, Os matos sacudindo; Desfallecida a flor desprende as folhas, Que o vento vai sumindo.

Onde estará a rosa, Do prado a bella filha? O tufão, que espalhou seus frageis restos, Passou: não deixou trilha.

Da sarça a flor virente Nasceu, gosou, e é morta: E a qual desses amantes de um momento Seu fado escuro importa?

Nenhum, nenhum por ella Gemeu saudoso á tarde; Não ha quem juncte as derramadas folhas, Quem amoroso as guarde.

Só da manhan o sôpro, Passando no outro dia, Da rosa, que adorou, quando a innocencia Em seu botão sorria,

Juncto do tronco humilde O curso demorando, Veio depositar perdão, saudade, Queixoso sussurrando.

De quantas és a imagem, Oh desgraçada flor! Quantos perdões sobre um sepulchro abjecto Tem murmurado o amor!

O MENDIGO.

I.

O sol passa nos céus:--sob o carvalho, Por cujos troncos se pendura a vide, Cego ancião, Mirrada dextra supplice estendendo, Ao passageiro, que o despreza, implora Do opprobrio o pão.

Ninguem o escuta, o dia foge, e a noite Involve a luz no manto impenetravel: E elle chorou: E em seus andrajos para choça alpestre, Sem se queixar de Deus, tardios passos Encaminhou:

Mas antes que chegasse ao pobre alvergue, Do presbyterio o sino harmonioso Soar ouvia, Que, despedindo em roda os sons pausados, Convidava os fiéis a erguer as preces Da Ave-Maria.

Á cruz do adro relvoso as mãos mirradas O velho ergueu, e ao céu inuteis olhos E uma oração, A oração do infeliz, que Deus só ouve Quando o desdenha o mundo e ludibria Sua afflicção.

Para o velho a existencia é solitaria, Bem como a fonte que esgotou o estio. Onde os pastores Vinham a saciar o manso gado; Onde contavam penas e prazeres Dos seus amores.