Poesias

Chapter 3

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É tão bom respirar, e a luz brilhante Do sol oriental saudar no outeiro! Ai, na manhan sauda-la posso ainda; Mas será este inverno o derradeiro!

Quando de pomos o vergel for cheio; Quando ondeiar o trigo na planura; Quando pender com aureo fructo a vide, Eu tambem penderei na sepultura.

Dos que me cercam no turbado aspecto, Na voz que prende desusado enleio, No pranto a furto, no fingido riso Fatal sentença de morrer eu leio.

Vistes vós criminoso, que hão lançado Seus juizes nos trances da agonia, Em oratorio estreito, onde não entra Suavissima luz do claro dia;

Diante a cruz, ao lado o sacerdote, O cadafalso, o crime, o algoz na mente, O povo tumultuando, o extremo arranco, E céu, e inferno, e as maldicções da gente?

Se adormece, lá surge um pesadelo, Com os martyrios da sua alma acorde; Desperta logo, e á terra se arremessa, E os punhos cerra, e delirante os morde.

Sobre as lageas do duro pavimento De vergões e de sangue o rosto cobre. Ergue-se e escuta com cabellos hirtos Do sino ao longe o compassado dobre.

Sem esperança!... Não! Do cadafalso Sóbe as escadas o perdão ás vezes; Porém a mim... não me dirão:--és salvo!» E o meu supplicio durará por mezes.

Dizer posso:--existi: que a dor conheço! Do goso a taça só provei por horas: E serei teu, calado cemiterio, Que engenho, gloria, amor, tudo devoras.

Se o furacão rugiu, e o debil tronco De arvore tenra espedaçou passando, Quem se doeu de a ver jazendo em terra? Tal é o meu destino miserando!

Numen de sancto amor, mulher querida, Anjo do céu, encanto da existencia, Ora por mim a Deus, que ha-de escutar-te. Por ti me salve a mão da Providencia.

Vem: aperta-me a dextra... Oh, foge, foge! Um beijo ardente aos labios teus voára: E neste beijo venenoso a morte Talvez este infeliz só te entregára!

Se eu podesse viver... como teus dias Cercaria de amor suave e puro! Como te fôra placido o presente; Quanto risonho o aspecto do futuro!

Porém, medonho espectro ante meus olhos, Como sombra infernal perpetuo ondeia, Bradando-me que vai partir-se o fio Com que da minha vida se urde a teia.

Entregue á seducção em quanto eu durmo, No turbilhão do mundo hei-de deixar-te! Quem velará por ti, pomba innocente? Quem do perjurio poderá salvar-te?

Quando eu cerrar os olhos moribundos Tu verterás por mim pranto saudoso; Mas quem me diz que não virá o riso Banhar teu rosto triste e lachrymoso?

Ai, o extincto só herda o esquecimento! Um novo amor te agitará o peito: E a dura lagea cubrirá meus ossos Frios, despidos sobre terreo leito!...

Oh Deus, porque este calix de agonia Até as bordas de amargor me encheste? Se eu devia acabar na juventude, Porque ao mundo e a seus sonhos me prendeste?

Virgem do meu amor, porque perde-la? Porque entre nós a campa ha-de assentar-se? Tua suprema paz com goso ou dores, Do mortal, que em ti crê, póde turbar-se?

Não haver quem me salve! e vir um dia Em que de minha o nome ainda lhe désse! Então, Senhor, o umbral da eternidade, Talvez sem um queixume, transposesse.

Mas, qual flor em botão pendida e murcha, Sem de fragrancias perfumar a brisa, Eu poeta, eu amante, ir esconder-me Sob uma lousa desprezada e lisa!

Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel? Em te adorar que fui, senão insano?... O teu fatal poder hoje maldigo! O que te chama pae, mente: és tyranno.

E se aos pés de teu throno os ais não chegam; Se os gemidos da terra os ares somem; Se a Providencia é crença van, mentida, Porque geraste a intelligencia do homem?

Porque da virgem no sorrir poseste Sancto presagio de suprema dita, E apontaste ao poeta a immensidade Na ancia de gloria que em sua alma habita?

A immensidade!... E que me importa herda-la, Se na terra passei sem ser sentido? Que val eterno vagueiar no espaço, Se nosso nome se afundou no olvido?

O ANJO DA GUARDA.

«I­mpio, silencio! A tua voz blasphema Da noite a paz perturba. Verme, que te rebellas Sob a mão do Senhor, Vês os milhões d'estrellas De nitido fulgor, Que, em ordenada turba, A Deus entoam incessantes hymnos? Quantas vezes apaga Do livro da existencia Um orbe a mão do Eterno! E o bello astro que expira Maldiz a Providencia, Maldiz a mão que o esmaga? Acaso pára o cantico superno? Ou apenas suspira O moribundo, Que se chamava um mundo? Quem vai pôr uma campa sobre os restos Desse inerte planeta, Que o destructor cometa Incinerou na rapida passagem? E tu, átomo obscuro, Que varre á tarde a aragem, Sóltas do seio impuro Maldicção insensata, Porque o teu Deus te evoca á eternidade? Que é o viver? O umbral, a que um momento O espirito, surgindo Das solidões do nada Á voz do Creador, se encosta, e attento Contempla a luz e o céu; d'onde desata Seu vôo á immensidade. Geme acaso o passarinho De saudade, Quando as azas expande, e deixa o ninho A vez primeira, a mergulhar nos ares? Volve olhos lachrymosos Aos mares tormentosos O navegante, quando aproa ás plagas Da patria suspirada? Porque morres?! Pergunta á Providencia Porque te fez nascer. Qual era o teu direito a ver o mundo; Teu jus á existencia? Olha no outono o ulmeiro Que o vendaval agita, E cujas tenues folhas Aos centos precipita. São a folha do ulmeiro o nome e a fama, E o amar dos humanos: Ao nada do que foi assim se atiram No vortice dos annos. Que é a gloria na terra? Um eccho frouxo, Que somem mil ruí­dos. E a voz da terra o que é, na voz immensa Dos orbes reunidos? Amor! amor terreno!... Ai, se podesses Comprehender a amargura, Com que te chóro, oh alma transviada! Eu, que te amei do berço, e qual doçura Ha no affecto que liga o anjo ao homem, Rindo despiras esse corpo enfermo, Para te unir a mim, para aspirares O goso celestial de amor sem termo! Alma triste, que mesquinha Te debruças sobre o inferno, Ouve o anjo, pobresinha; Vem ao goso sempiterno. Resigna-te e espera, e os dias de prova Serão para o crente quaes breves instantes. Tomar-te-hei nos braços no trance da morte, Fendendo o infinito co' as asas radiantes. Depois, das alturas teu terreo vestido Sorrindo veremos na terra guardar, E ao hymno de Hosanna nos córos celestes A voz de um remido iremos junctar.»

A GRAÇA.

Que harmonia suave É esta, que na mente Eu sinto murmurar, Ora profunda e grave, Ora meiga e cadente, Ora que faz chorar? Porque da morte a sombra, Que para mim em tudo Negra se reproduz, Se aclara, e desassombra Seu gesto carrancudo, Banhada em branda luz? Porque no coração Não sinto pesar tanto O ferreo pé da dor, E o hymno da oração, Em vez de irado canto, Me pede íntimo ardor?

És tu, meu anjo, cuja voz divina Vem consolar a solidão do enfermo, E a contemplar com placidez o ensina De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim! és tu, que na infantil idade, Da aurora á frouxa luz, Me dizias:--acorda, innocentinho, Faze o signal da cruz.» És tu, que eu via em sonhos, nesses annos De inda puro sonhar, Em nuvem d'ouro e purpura descendo Co' as roupas a alvejar. És tu, és tu! que ao pôr do sol, na veiga, Juncto ao bosque fremente, Me contavas mysterios, harmonias Dos céus, do mar dormente. És tu, és tu! que, lá, nesta alma absorta Modulavas o canto, Que de noite, ao luar, sósinho erguia Ao Deus tres vezes sancto. És tu, que eu esqueci na idade ardente Das paixões juvenis, E que voltas a mim, sincero amigo, Quando sou infeliz.

Sinto a tua voz de novo, Que me revoca a Deus: Inspira-me a esperança, Que te seguiu dos céus!...

RESIGNAÇÃO

«No teu seio reclinado Dormirei, Senhor, um dia, Quando for na terra fria Meu repouso procurar;

Quando a lousa do sepulchro Sohre mim tiver cahido E este espirito affligido Vir a tua luz brilhar!

No teu seio, de pesares O existir não se entretece; Lá eterno o amor florece; Lá florece eterna paz:

Lá bramir juncto ao poeta Não irão paixões e dores, Vãos desejos, vãos temores Do desterro em que elle jaz.

Hora extrema, eu te saúdo! Salve, oh trevas da jazida, D'onde espera erguer-se á vida Meu espirito immortal!

Anjo bom, não me abandones Neste trance dilatado; Que contrito, resignado Me acharás na hora fatal.

E depois... Perdoa, oh anjo, Ao amor do moribundo, Que só deixa neste mundo Pouco pó, muito gemer.

Oh... depois... dize á mesquinha Um segredo de doçura: Que na patria o amor se apura, Que o desterro viu nascer.

Que é o céu a patria nossa; Que é o mundo exilio breve; Que o morrer é cousa leve; Que é _principio_, não é _fim_:

Que duas almas que se amaram Vão lá ter nova existencia, Confundidas n'uma essencia, A de um novo cherubim.»

DEUS.

Nas horas do silencio, á meia-noite, Eu louvarei o Eterno! Ouçam-me a terra, e os mares rugidores, E os abysmos do inferno. Pela amplidão dos céus meus cantos sôem, E a lua resplendente Pare em seu gyro, ao resoar nest'harpa O hymno do Omnipotente.

Antes de tempo haver, quando o infinito Media a eternidade, E só do vacuo as solidões enchia De Deus a immensidade, Elle existia, em sua essencia involto, E fóra delle o nada:

No seio do Creador a vida do homem Estava ainda guardada: Ainda então do mundo os fundamentos Na mente se escondiam De Jehovah, e os astros fulgurantes Nos céus não se volviam.

Eis o Tempo, o Universo, o Movimento Das mãos sólta o Senhor: Surge o sol, banha a terra, e desabrocha Sua primeira flor: Sobre o invisi­vel eixo range o globo: O vento o bosque ondeia: Retumba ao longe o mar: da vida a força A natureza anceia!

Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te, Ou cantar teu poder? Quem dirá de Teu braço as maravilhas, Fonte de todo o ser, No dia da creação; quando os thesouros Da neve amontoaste; Quando da terra nos mais fundos valles As aguas encerraste?!

E eu onde estava, quando o Eterno os mundos, Com dextra poderosa, Fez, por lei immutavel, se librassem Na mole ponderosa? Onde existia então? No typo immenso Das gerações futuras; Na mente do meu Deus. Louvor a Elle Na terra e nas alturas!

Oh, quanto é grande o Rei das tempestades, Do raio, e do trovão! Quão grande o Deus, que manda, em secco estio, Da tarde a viração! Por sua Providencia nunca, embalde, Zumbiu minimo insecto; Nem volveu o elephante, em campo esteril, Os olhos inquieto. Não deu Elle á avesinha o grão da espiga, Que ao ceifador esquece; Do norte ao urso o sol da primavera, Que o reanima e aquece? Não deu Elle á gazella amplos desertos, Ao cervo a amena selva, Ao flamingo os paúes, ao tigre o antro, No prado ao touro a relva? Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas, Consolação e luz? Acaso em vão algum desventurado Curvou-se aos pés da cruz? A quem não ouve Deus? Sómente ao impio No dia da afflicção, Quando pésa sobre elle, por seus crimes, Do crime a punição.

Homem, ente immortal, que és tu perante A face do Senhor? És a junça do bréjo, harpa quebrada Nas mãos do trovador! Olha o velho pinheiro, campeiando Entre as neves alpinas: Quem irá derribar o rei dos bosques Do throno das collinas? Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia Extremo Deus mandou! Lá correu o aquilão: fundas raizes Aos ares lhe assoprou. Suberbo, sem temor, saíu na margem Do caudaloso Nilo, O corpo monstruoso ao sol voltando, Medonho crocodilo. De seus dentes em roda o susto habita; Vê-se a morte assentada Dentro em sua garganta, se descerra A bôca affogueada: Qual duro arnez de intrepido guerreiro É seu dorso escamoso; Como os ultimos ais de um moribundo Seu grito lamentoso: Fumo e fogo respira quando irado; Porém, se Deus mandou, Qual do norte impellida a nuvem passa, Assim elle passou!

Teu nome ousei cantar!--Perdoa, oh Nume; Perdoa ao teu cantor! Dignos de ti não são meus frouxos hymnos, Mas são hymnos de amor. Embora vís hypocritas te pintem Qual barbaro tyranno: Mentem, por dominar com ferreo sceptro O vulgo cego e insano. Quem os crê é um ímpio! Receiar-te É maldizer-te, oh Deus; É o throno dos despotas da terra Ir collocar nos céus. Eu, por mim, passarei entre os abrolhos Dos males da existencia Tranquillo, e sem temor, á sombra posto Da tua Providencia.

A TEMPESTADE.

Sibilla o vento:--os torreões de nuvens Pésam nos densos ares: Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas Pela extensão dos mares: A immensa vaga ao longe vem correndo, Em seu terror envolta; E, d'entre as sombras, rapidas centelhas A tempestade solta. Do sol no occaso um raio derradeiro, Que, apenas fulge, morre, Escapa á nuvem, que, apressada e espessa, Para apaga-lo corre. Tal nos affaga em sonhos a esperança, Ao despontar do dia, Mas, no acordar, lá vem a consciencia Dizer que ella mentia! As ondas negro-azues se conglobaram; Serras tornadas são, Contra as quaes outras serras, que se arqueiam, Bater, partir-se vão.

Oh tempestade! Eu te saúdo, oh nume, Da natureza açoite! Tu guias os bulcões, do mar princesa, E é teu vestido a noite! Quando pelos pinhaes, entre o granizo, Ao sussurrar das ramas, Vibrando sustos, pavorosa ruges E assolação derramas, Quem porfiar comtigo, então, ousára De gloria e poderio; Tu que fazes gemer pendido o cedro, Turbar-se o claro rio?

Quem me dera ser tu, por balouçar-me Das nuvens nos castellos, E ver dos ferros meus, emfim, quebrados Os rebatidos élos! Eu rodeára, então, o globo inteiro; Eu sublevára as aguas; Eu dos volcões com raios accendêra Amortecidas fráguas; Do robusto carvalho e sobro antigo Acurvaria as frontes; Com furacões, os areiaes da Lybia Converteria em montes; Pelo fulgor da lua, lá do norte No polo me assentára, E vira prolongar-se o gelo eterno, Que o tempo amontoára. Alli, eu solitario, eu rei da morte, Erguèra meu clamor, E dissera:--sou livre, e tenho imperio; Aqui, sou eu senhor!»

Quem se podéra erguer, como estas vagas, Em turbilhões incertos, E correr, e correr, troando ao longe, Nos liquidos desertos! Mas entre membros de lodoso barro A mente presa está!... Ergue-se em vão aos céus: precipitada, Rapido, em baixo dá.

Oh morte, amiga morte! é sobre as vagas, Entre escarcéus erguidos, Que eu te invoco, pedindo-te feneçam Meus dias aborridos: Quebra duras prisões, que a natureza Lançou a esta alma ardente; Que ella possa voar, por entre os orbes, Aos pés do Omnipotente. Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem Desça, e estourando a esmague, E a grossa proa, dos tufões ludibrio, Solta, sem rumo vague!

Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam O somno do existir; Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças Nas trévas do porvir. Doce mãe do repouso, extremo abrigo De um coração oppresso, Que ao ligeiro prazer, á dor cançada Negas no seio accésso, Não despertes, oh não! os que abominam Teu amoroso aspeito; Febricitantes, que se abraçam, loucos, Com seu dorído leito! Tu, que ao misero rís com rir tão meigo, Calumniada morte; Tu, que entre os braços teus lhe dás asylo Contra o furor da sorte; Tu, que esperas ás portas dos senhores, Do servo ao limiar, E eterna corres, peregrina, a terra E as solidões do mar, Deixa, deixa sonhar ventura os homens; Já filhos teus nasceram: Um dia acordarão desses delirios, Que tão gratos lhes eram. E eu que vélo na vida, e já não sonho Nem gloria, nem ventura; Eu, que esgotei tão cedo, até as fézes, O calix da amargura: Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado De quanto ha vil no mundo, Sanctas inspirações morrer sentindo Do coração no fundo, Sem achar no desterro uma harmonia De alma, que a minha entenda, Porque seguir, curvado ante a desgraça, Esta espinhosa senda?

Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa Fragor da tempestade, Psalmo de mortós, que retumba ao longe, Grito da eternidade!...

Pensamento infernal! Fugir covarde Ante o destino iroso? Lançar-me, envolto em maldicções celestes, No abysmo tormentoso? Nunca! Deus pôs-me aqui para apurar-me Nas lagrymas da terra; Guardarei minha estancia atribulada, Com meu desejo em guerra. O fiel guardador terá seu premio, O seu repouso, emfim, E atalaiar o sol de um dia extremo Virá outro após mim. Herdarei o morrer! Como é suave Bençam de pae querido. Será o despertar, ver meu cadaver, Ver o grilhão partido.

Um consolo, entretanto, resta ainda Ao pobre velador: Deus lhe deixou, nas trévas da existencia, Doce amizade e amor. Tudo o mais é sepulchro branqueado Por embusteira mão; Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem Remorso ao coração. Passarei minha noite a luz tão meiga, Até o amanhecer; Até que suba á patria do repouso, Onde não ha morrer.

O SOLDADO.

I.

Veia tranquilla e pura Do meu paterno rio, Dos campos, que elle réga, Mansi­ssimo armentio.

Rocio matutino, Prados tão deleitosos, Valles, que assombram selvas De sinceiraes frondosos,

Terra da minha infancia, Tecto de meus maiores, Meu breve jardimzinho, Minhas pendidas flores,

Harmonioso e sancto Sino do presbyterio, Cruzeiro venerando Do humilde cemiterio.

Onde os avós dormiram, E dormirão os paes; Onde eu talvez não durma, Nem rese, talvez, mais,

Eu vos saúdo! e o longo Suspiro amargurado Vos mando. É quanto póde Mandar pobre soldado.

Sobre as cavadas ondas Dos mares procellosos, Por vós já fiz soar Meus cantos dolorosos.

Na prôa resonante Eu me assentava mudo, E aspirava ancioso O vento frio e agudo;

Porque em meu sangue ardia A febre da saudade, Febre que só minora Sopro de tempestade;

Mas que se irrita, e dura Quando é tranquillo o mar; Quando da patria o céu Céu puro vem lembrar;

Quando, no extremo occaso, A nuvem vaporosa, Á frouxa luz da tarde, Na côr imita a rosa;

Quando, do sol vermelho O disco ardente crece, E paira sobre as aguas, E emfim desapparece;

Quando no mar se estende Manto de negro dó; Quando, ao quebrar do vento, Noite e silencio é só;

Quando sussurram meigas Ondas que a nau separa, E a rapida ardentia Em tôrno a sombra aclara.

II.

Eu já ouvi, de noite, Entre o pinhal fechado, Um fremito soturno Passando o vento irado:

Assim o murmurio Do mar, fervendo á prôa, Com o gemer do afflicto, Sumido, accorde sôa:

E o scintillar das aguas Gera amargura e dor, Qual lampada, que pende No templo do Senhor,

Lá pela madrugada, Se o oleo lhe escaceia, E a espaços expirando, Affrouxa e bruxuleia.

III.

Bem abundante messe De pranto e de saudade O foragído errante Colhe na soledade!

Para o que a patria perde É o universo mudo; Nada lhe rí na vida; Mora o fastio em tudo;

No meio das procellas, Na calma do oceano, No sopro do galerno, Que enfuna o largo panno,

E no entestar co' a terra Por abrigado esteiro, E no pousar á sombra Do tecto do estrangeiro.

IV.

E essas memorias tristes Minha alma laceraram, E a senda da existencia Bem agra me tornaram:

Porém nem sempre ferreo Foi meu destino escuro; Sulcou de luz um raio As trévas do futuro.

Do meu paiz querido A praia ainda beijei, E o velho e amigo cedro No valle ainda abracei!

Nesta alma regelada Surgiu ainda o goso, E um sonho lhe sorriu Fugaz, mas amoroso.

Oh, foi sonho da infancia Desse momento o sonho! Paz e esperança vinham Ao coração tristonho.

Mas o sonhar que monta, Se passa, e não conforta? Minh' alma deu em terra, Como se fosse morta.

Foi a esperança nuvem, Que o vento some á tarde: Facho de guerra acceso Em labaredas arde!

Do fratricidio a luva Irmão a irmão lançara, E o grito: _ai do vencido!_ Nos montes retumbara.

As armas se hão cruzado: O pó mordeu o forte; Cahiu: dorme tranquillo: Deu-lhe repouso a morte.

Ao menos, nestes campos Sepulchro conquistou, E o adro dos estranhos Seus ossos não guardou.

Elle herdará, ao menos, Aos seus honrado nome, Paga de curta vida Ser-lhe-ha largo renome.

V.

E a bala sibilando, E o trom da artilharia, E a tuba clamorosa, Que os peitos accendia,

E as ameaças torvas, E os gritos de furor, E desses, que expiravam, Som cavo de estertor,

E as pragas do vencido, Do vencedor o insulto, E a pallidez do morto, Nú, sanguento, insepulto,

Eram um cá'os de dores Em convulsão horrivel, Sonho de accesa febre, Scena tremenda e incrivel!

E suspirei: nos olhos Me borbulhava o pranto, E a dor, que trasbordava, Pediu-me infernal canto.

Oh, sim! maldisse o instante, Em que buscar viera, Por entre as tempestades, A terra em que nascera.

Que é, em fraternas lides, Um canto de victoria? É delirar maldicto; É triumphar sem gloria.

Maldicto era o triumpho, Que rodeiava o horror, Que me tingia tudo De sanguinosa côr!

Então olhei saudoso Para o sonoro mar; Da nau do vagabundo Meigo me riu o arfar.

De desespero um brado Soltou, ímpio, o poeta. Perdão! Chegára o misero Da desventura á meta.

VI.

Terra infame!--de servos aprisco, Mais chamar-me teu filho não sei: Desterrado, mendigo serei; De outra terra meus ossos serão!

Mas a escravo, que pugna por ferros, Que herdará deshonrada memoria, Renegando da terra sem gloria, Nunca mais darei nome de irmão!

Onde é livre tem patria o poeta, Que ao exilio condemna ímpia sorte. Sobre os plainos gelados do norte Luz do sol tambem desce do céu;

Tambem lá se erguem montes, e o prado De boninas, em maio, se veste; Tambem lá se meneia o cypreste Sobre o corpo que á terra desceu.

Que me importa o loureiro da encosta? Que me importa da fonte o ruido? Que me importa o saudoso gemido Da rollinha sedenta de amor?

Que me importam outeiros cubertos Da verdura da vinha, no estio? Que me importa o remanso do rio, E, na calma, da selva o frescor?

Que me importa o perfume dos campos, Quando passa da tarde a bafagem, Que se embebe, na sua passagem, Na fragrancia da rosa e aleli­?

Que me importa? Pergunta insensata! É meu berço: a minha alma está lá... Que me importa... Esta bôca o dirá?! Minha patria, estou louco... menti!

Eia, servos! O ferro se cruze. Assobie o pelouro nos ares; Estes campos convertam-se em mares, Onde o sangue se possa beber!

Larga a valla! que, após a peleja, Todos nós dormiremos unidos! Lá vingados, e do odio esquecidos, Paz faremos... depois do morrer!

VII.

Assim, entre amarguras, Me delirava a mente; E o sol ia fugindo No termo do occidente.

E os fortes lá jaziam Co'a face ao céu voltada; Sorria a noite aos mortos, Passando socegada.

Porém, a noite delles Não era a que passava! Na eternidade a sua Corria, e não findava.

Contrarios ainda ha pouco, Irmãos, emfim, lá eram! O seu thesouro de odio, Mordendo o pó, cederam.

No limiar da morte Assim tudo fenece: Inimizades calam, E até o amor esquece!

Meus dias rodeiados Foram de amor outr'ora; E nem um vão suspiro Terei, morrendo, agora,

Nem o apertar da dextra Ao desprender da vida, Nem lagryma fraterna Sobre a feral jazida!

Meu derradeiro alento Não colherão os meus. Por minha alma atterrada Quem pedirá a Deus?

Ninguem! Aos pés o servo Meus restos calcará, E o riso ímpio, odiento, Mofando soltará.

O sino luctuoso Não lembrará meu fim: Preces, que o morto afagam, Não se erguerão por mim!

O filho dos desertos, O lobo carniceiro, Ha-de escutar alegre Meu grito derradeiro!

Oh morte, o somno teu Só é somno mais largo; Porém, na juventude, É o dormi-lo amargo;

Quando na vida nasce Essa mimosa flor. Como a cecem suave, Delicioso amor;

Quando a mente accendida Crê na ventura e gloria; Quando o presente é tudo, E inda nada a memoria!

Deixar a cara vida, Então, é doloroso, E o moribundo á terra Lança um olhar saudoso.

A taça da existencia No fundo fézes tem; Mas os primeiros tragos Doces, bem doces, vem.

E eu morrerei agora Sem abraçar os meus, Sem jubiloso um hymno Alevantar aos céus?

Morrer, morrer, que importa? Final suspiro, ouvi-lo Ha-de a patria. Na terra Irei dormir tranquillo.

Dormir? Só dorme o frio Cadaver, que não sente; A alma voa a abrigar-se Aos pés do Omnipotente.

Reclinar-me-hei á sombra Do amplo perdão do Eterno; Que não conheço o crime, E erros não pune o inferno.