Poesias

Chapter 2

Chapter 24,228 wordsPublic domain

Atheu, a quem o mal fizera escravo, Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos? No dia da afflicção emmudeceste Ante o espectro do mal. E a quem alçáras O gemente clamor?--Ao mar, que as ondas Não altera por ti?--Ao ar, que some Pela sua amplidão as queixas tuas? Aos rochedos alpestres, que não sentem, Nem sentir podem teu gemido inutil? Tua dôr, teu prazer existem, passam, Sem porvir, sem passado, e sem sentido. Nas angustias da vida, o teu consolo O suicidio é só, que te promette Rica messe de goso, a paz do nada!-- E ai de ti, se buscaste, emf­im, repouso, No limiar da morte indo assentar-te! Alli grita uma voz no ultimo instante Do passamento: a voz atterradora Da consciencia é ella. E has-de escuta-la Mau grado teu: e tremerás em sustos, Desesperado aos céus erguendo os olhos Irados, de través, amortecidos; Aos céus, cujo caminho a Eternidade Co'a vagarosa mão te vai cerrando, Para guiar-te á solidão das dôres, Onde maldigas teu primeiro alento, Onde maldigas teu extremo arranco, Onde maldigas a existencia e a morte.

XXVII.

Calou tudo no templo: o céu é puro, A tempestade ameaçadora dorme. No espaço immenso os astros scintillantes O Rei da creação louvam com hymnos, Não ouvidos por nós nas profundezas Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo, Ante milhões de estrellas, que recamam O firmamento, ajunctará seu canto Mesquinho trovador?--Que vale uma harpa Mortal no meio da harmonia etherea, No concerto da noite? Oh, no silencio, Eu pequenino verme irei sentar-me Aos pés da Cruz nas trévas do meu nada. Assim se apaga a lampada nocturna Ao despontar do sol o alvor primeiro: Por entre a escuridão deu claridade; Mas do dia ao nascer, que já rutíla, As torrentes de luz vertendo ao longe, Da lampada o clarão sumiu-se, inutil, Nesse fulgido mar, que inunda a terra.

A VOZ.

É tão suave ess' hora, Em que nos foge o dia, E em que suscita a lua Das ondas a ardentia,

Se em alcantis marinhos, Nas rochas assentado, O trovador medita Em sonhos enleiado!

O mar azul se encrespa Co'a vespertina brisa, E no casal da serra A luz ja se divisa.

E tudo em roda cala Na praia sinuosa, Salvo o som do remanso Quebrando em furna algosa.

Alli folga o poeta Nos desvarios seus, E nessa paz que o cérca Bemdiz a mão de Deus.

Mas despregou seu grito A alcyone gemente, E nuvem pequenina Ergueu-se no occidente:

E sóbe, e cresce, e immensa Nos céus negra fluctua, E o vento das procellas Já varre a fraga nua.

Turba-se o vasto oceano, Com horrido clamor; Dos vagalhões nas ribas Expira o vão furor

E do poeta a fronte Cubriu véu de tristeza: Calou, á luz do raio, Seu hymno á natureza.

Pela alma lhe vagava Um negro pensamento, Da alcyone ao gemido, Ao sibillar do vento.

Era blasphema idéa, Que triumphava emfim; Mas voz soou ignota, Que lhe dizia assim:

--«Cantor, esse queixume Da nuncia das procellas, E as nuvens, que te roubam Myriadas de estrellas,

E o frémito dos euros, E o estourar da vaga, Na praia, que revolve, Na rocha, onde se esmaga,

Onde espalhava a brisa Sussurro harmonioso, Em quanto do ether puro Descia o sol radioso,

Typo da vida do homem, É do universo a vida; Depois do afan repouso, Depois da paz a lida.

Se ergueste a Deus um hymno Em dias de amargura; Se te amostraste grato Nos dias de ventura,

Seu nome não maldigas Quando se turba o mar: No Deus, que é pae, confia, Do raio ao scintillar.

Elle o mandou: a causa Disso o universo ignora, E mudo está. O nume, Como o universo, adora!»--

Oh sim, torva blasphemia Não manchará seu canto! Brama a procella embora; Pése sobre elle o espanto;

Que de sua harpa os hymnos Derramará contente Aos pés de Deus, qual oleo Do nardo recendente.

A ARRABIDA.

I.

Salve, oh valle do sul, saudoso e bello! Salve, oh patria da paz, deserto sancto, Onde não ruge a grande voz das turbas! Sólo sagrado a Deus, podesse ao mundo O poeta fugir, cingir-se ao ermo, Qual ao freixo robusto a fragil hera, E a romagem do tumulo cumprindo, Só conhecer, ao despertar na morte, Essa vida sem mal, sem dôr, sem termo, Que íntima voz contínuo nos promette No transito chamado o viver do homem.

II.

Suspira o vento no alamo frondoso; As aves soltam matutino canto; Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra Dos alcantís na base carcomida: Eis o ruí­do de ermo!--Ao longe o negro, Insondado oceano, e o céu ceruleo Se abraçam no horisonte.--Immensa imagem Da eternidade e do infinito, salve!

III.

Oh, como surge magestosa e bella, Com viço da creação, a natureza No solitario valle!--E o leve insecto E a relva e os matos e a fragrancia pura Das boninas da encosta estão contando Mil saudades de Deus, que os ha lançado, Com mão profusa, no regaço ameno Da solidão, onde se esconde o justo.

E lá campeiam no alto das montanhas Os escalvados pincaros, severos, Quaes guardadores de um logar que é sancto; Atalaias que ao longe o mundo observam, Cerrando até o mar o ultimo abrigo Da crença viva, da oração piedosa, Que se ergue a Deus de labios innocentes.

Sobre esta scena o sol verte em torrentes Da manhan o fulgor; a brisa esvaí-se Pelos rosmaninhaes, e inclina os topos Do zimbro e alecrineiro, ao rez sentados Desses thronos de fragas sobrepostas, Que alpestres matas de medronhos vestem; O rocío da noite á branca rosa No seio derramou frescor suave, E 'inda existencia lhe dará um dia.

Formoso ermo do sul, outra vez, salve!

IV.

Negro, esteril rochedo, que contrastas, Na mudez tua, o placido sussurro Das arvores do valle, que vecejam Ricas d'encantos, co' a estação propicia; Suavissimo aroma, que, manando Das variegadas flores, derramadas Na sinuosa encosta da montanha, Do altar da solidão subindo aos ares, És digno incenso ao Creador erguido; Livres aves, vós filhas da espessura, Que só teceis da natureza os hymnos, O que crê, o cantor, que foi lançado, Estranho ao mundo, no bulicio delle, Vem saudar-vos, sentir um goso puro, Dos homens esquecer paixões e opprobrio, E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes, O sol, e uma só vez pura saudar-lh'a.

Comvosco eu sou maior; mais longe a mente Pelos seios dos céus se immerge livre, E se desprende de mortaes memorias Na solidão solemne, onde, incessante, Em cada pedra, em cada flor se escuta Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa A dextra sua em multiforme quadro.

V.

Escalvado penedo, que repousas Lá no cimo do monte, ameaçando Rui­na ao roble secular da encosta, Que somnolento move a coma estiva Ante a aragem do mar, foste formoso; Já te cubriram cespedes virentes; Mas o tempo voou, e nelle involta A formosura tua. Despedidos Das negras nuvens o chuveiro espesso E o granizo, que o sólo fustigando Tritura a tenra lanceolada relva, Durante largos seculos, no inverno, Dos vendavaes no dorso a ti desceram, Qual amplexo brutal de ardor grosseiro, Que, maculando virginal pureza, Do pudor varre a aureola celeste, E deixa, em vez de um seraphim na terra, Queimada flor que devorou o raio.

VI.

Cáveira da montanha, ossada immensa, É tua campa o céu: sepulchro o valle Um dia te será. Quando sentires Rugir com som medonho a terra ao longe, Na expansão dos volcões, e o mar, bramindo, Lançar á praia vagalhões cruzados; Tremer-te a larga base, e sacudir-te De sobre si, o fundo deste valle Te vai servir de tumulo; e os carvalhos Do mundo primogenitos, e os sobros, Arrastados por ti lá da collina, Comtigo hão-de jazer. De novo a terra Te cubrirá o dorso sinuoso: Outra vez sobre ti nascendo os lyrios, Do seu puro candor hão-de adornar-te; E tu, ora medonho e nú e triste, Ainda bello serás, vestido e alegre.

VII.

Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle Dos tumulos cahir; quando uma pedra Os ossos me esconder, se me fôr dada, Não mais reviverei; não mais meus olhos Verão, ao pôr-se, o sol em dia estivo, Se em turbilhões de purpura, que ondeiam Pelo extremo dos céus sobre o occidente, Vai provar que um Deus ha a estranhos povos E além das ondas trémulo sumir-se; Nem, quando, lá do cimo das montanhas, Com torrentes de luz inunda as veigas: Não mais verei o refulgir da lua No irrequieto mar, na paz da noite, Por horas em que véla o criminoso, A quem íntima voz rouba o socego, E em que o justo descança, ou, solitario, Ergue ao Senhor um hymno harmonioso.

VIII.

Hontem, sentado n'um penhasco, e perto Das aguas, então quêdas, do oceano, Eu tambem o louvei sem ser um justo: E meditei, e a mente extasiada Deixei correr pela amplidão das ondas.

Como abraço materno era suave A aragem fresca do cahir das trévas, Emquanto, involta em gloria, a clara lua Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas. Tudo calado estava: o mar sómente As harmonias da creação soltava, Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto Se agitava, gemendo e murmurando, Ante o sopro de oeste:--alli dos olhos O pranto me correu sem que o sentisse, E aos pés de Deus se derramou minha alma.

IX.

Oh, que viesse o que não crê, comigo, Á vecejante Arrabida de noite, E se assentasse aqui sobre estas fragas, Escutando o sussurro incerto e triste Das movediças ramas, que povôa De saudade e de amor nocturna brisa; Que visse a lua, o espaço oppresso de astros, E ouvisse o mar soando:--elle chorára, Qual eu chorei, as lagrymas do goso, E adorando o Senhor detestaria De uma sciencia van seu vão orgulho.

X.

É aqui neste valle, ao qual não chega Humana voz e o tumultuar das turbas, Onde o nada da vida sonda livre O coração, que busca ir abrigar-se No futuro, e debaixo do amplo manto Da piedade de Deus: aqui serena Vem a imagem da campa, como a imagem Da patria ao desterrado; aqui, solemne, Brada a montanha, memorando a morte. Essas penhas, que, lá no alto das serras Nuas, crestadas, solitarias dormem, Parecem imitar da sepultura O aspecto melancholico e o repouso Tão desejado do que em Deus confia. Bem semelhante á paz, que se ha sentado Por seculos, alli, nas cordilheiras É o silencio do adro, onde reunem Os cyprestes e a cruz, o céu e a terra.

Como tu vens cercado de esperança, Para o innocente, oh placido sepulchro! Juncto das tuas bordas pavorosas O perverso recúa horrorisado: Após si volve os olhos; na existencia Deserto árido só descobre ao longe, Onde a virtude não deixou um trilho. Mas o justo, chegando á meta extrema, Que separa de nós a eternidade, Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta. O infeliz e o feliz lá dormem ambos, Tranquillamente: e o trovador mesquinho, Que peregrino vagueiou na terra, Sem encontrar um coração ardente Que o entendesse, a patria de seus sonhos, Ignota, por lá busca; e quando as eras Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe Tardios louros, que escondera a inveja, Elle não erguerá a mão mirrada, Para os cingir na regelada fronte. Justiça, gloria, amor, saudade, tudo, Ao pé da sepultura, é som perdido De harpa eolia esquecida em brenha ou selva: O despertar um pae, que saboreia Entre os braços da morte o extremo somno, Já não é dado ao filial suspiro; Em vão o amante, alli, da amada sua De rosas sobre a c'roa debruçado, Réga de amargo pranto as murchas flores E a fria pedra: a pedra é sempre fria, E para sempre as flores se murcharam.

XI.

Bello ermo! eu hei-de amar-te, emquanto esta alma, Aspirando o futuro além da vida E um halito dos ceus, gemer atada Á columna do exilio, a que se chama Em lingua vil e mentirosa o mundo. Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho Dos sonhos meus. A imagem do deserto Guarda-la-hei no coração, bem juncto Com minha fé, meu unico thesouro.

Qual pomposo jardim de verme illustre, Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo Comparar-se, oh deserto? Aqui não cresce Em vaso de alabastro a flor captiva, Ou arvore educada por mão de homem, Que lhe diga--és escrava» e erga um ferro E lhe decepe os troncos. Como é livre A vaga do oceano é livre no ermo A bonina rasteira e o freixo altivo! Não lhes diz--nasce aqui, ou lá não cresças» Humana voz. Se baqueou o freixo, Deus o mandou: se a flor pendida murcha, É que o rocío não desceu de noite, E da vida o Senhor lhe nega a vida.

Céu livre, terra livre, e livre a mente, Paz intima, e saudade, mas saudade Que não dóe, que não mirra, e que consola, São as riquezas do ermo, onde sorriem Das procellas do mundo os que o deixaram.

XII.

Alli naquella encosta, hontem de noite, Alvejava por entre os medronheiros Do solitario a habitação tranquilla: E eu vagueei por lá. Patente estava O pobre alvergue do eremita humilde, Onde jazia o filho da esperança Sob as asas de Deus, á luz dos astros, Em leito, duro sim, não de remorsos. Oh, com quanto socego o bom do velho Dormia! A leve aragem lhe ondeiava As raras cans na fronte, onde se lia A bella historia de passados annos. De alto choupo através passava um raio Da lua--astro de paz, astro que chama Os olhos para o céu, e a Deus a mente-- E em luz pallida as faces lhe banhava: E talvez neste raio o Pae celeste Da patria eterna lhe enviava a imagem, Que o sorriso dos labios lhe fugia, Como se um sonho de ventura e gloria Na terra de antemão o consolasse. E eu comparei o solitario obscuro Ao inquieto filho das cidades: Comparei o deserto silencioso Ao perpetuo rui­do que sussurra Pelos palacios do abastado e nobre, Pelos paços dos reis; e condoí-me Do cortezão suberbo, que só cura De honras, haveres, gloria, que se compram Com maldicções e perennal remorso. Gloria! A sua qual é? Pelas campinas, Cubertas de cadaveres, regadas De negro sangue, elle segou seus louros; Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva Ao som do choro da viuva e do orpham; Ou, dos sustos senhor, em seu delirio, Os homens, seus irmãos, flagella e opprime Lá o filho do pó se julga um nume, Porque a terra o adorou: o desgraçado Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros Nunca se ha-de chegar para traga-lo Ao banquete da morte, imaginando Que uma lagea de marmore, que esconde O cadaver do grande, é mais duravel Do que esse chão sem inscripção, sem nome, Por onde o oppresso, o misero, procura O repouso, e se atira aos pés do throno Do Omnipotente, a demandar justiça Contra os fortes do mundo, os seus tyrannos.

XIII.

Oh cidade, cidade, que trasbordas De vicios, de paixões, e de amarguras! Tu lá estás, na tua pompa involta, Suberba prostituta, alardeiando Os theatros, e os paços, e o ruido Das carroças dos nobres, recamadas De ouro e prata, e os prazeres de uma vida Tempestuosa, e o tropeiar continuo Dos férvidos ginetes, que alevantam O pó e o lodo cortezão das praças; E as gerações corruptas de teus filhos Lá se revolvem, qual montão de vermes Sobre um cadaver putrido!--Cidade, Branqueado sepulchro, que misturas A opulencia, a miseria, a dôr e o goso, Honra e infamia, pudor e impudicicia, Céu e inferno, que és tu? Escarneo ou gloria Da humanidade?--O que o souber que o diga!

Bem negra avulta aqui, na paz do valle, A imagem desse povo, que reflue Das moradas á rua, á praça, ao templo; Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre, Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme; Absurdo mixto de baixeza extrema E de extrema ousadia; vulto enorme, Ora aos pés de um vil despota estendido, Ora surgindo, e arremessando ao nada As memorias dos seculos que foram, E depois sobre o nada adormecendo.

Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se Em joelhos nos atrios dos tyrannos, Onde, entre o lampejar de armas de servos, O servo popular adora um tigre? Esse tigre é o idolo do povo! Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lhe O ferreo sceptro: ide folgar em roda De cadafalsos, povoados sempre De victimas illustres, cujo arranco Seja como harmonia, que adormente Em seus terrores o senhor das turbas. Passae depois. Se a mão da Providencia Esmigalhou a fronte á tyrannia; Se o despota cahiu, e está deitado No lodaçal da sua infamia, a turba Lá vai buscar o sceptro dos terrores, E diz--é meu»; e assenta-se na praça, E involta em roto manto, e julga, e reina. Se um ímpio, então, na affogueada bôcca De volcão popular sacode um facho, Eis o incendio que muge, e a lava sóbe, E referve, e trasborda, e se derrama Pelas ruas além: clamor retumba De anarchia impudente, e o brilho de armas Pelo escuro transluz, como um presagio De assolação, e se amontoam vagas Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo; Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos Cava fundo da Patria a sepultura. Onde, abraçando a gloria do passado E do futuro a ultima esperança, As esmaga comsi­go, e ri morrendo.

Tal és, cidade, licenciosa ou serva! Outros louvem teus paços sumptuosos, Teu ouro, teu poder:--sentina impura De corrupções, teus não serão meus hymnos!

XIV.

Cantor da solidão, vim assentar-me Juncto do verde cespede do valle, E a paz de Deus do mundo me consola.

Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo, Um pobre conventinho. Homem piedoso O alevantou ha seculos, passando, Como orvalho do céu, por este sitio, De virtudes depois tão rico e fertil. Como um pae de seus filhos rodeado, Pelos matos do outeiro o vão cercando Os tugurios de humildes eremitas, Onde o cilicio e a compuncção apagam Da lembrança de Deus passados erros Do peccador, que reclinou a fronte Penitente no pó. O sacerdote Dos remorsos lhe ouviu as amarguras; E perdoou-lhe, e consolou-o em nome Do que expirando perdoava, o Justo Que entre os humanos não achou piedade.

XV.

Religião! do misero conforto, Abrigo extremo de alma, que ha mirrado O longo agonisar de uma saudade, Da deshonra, do exilio, ou da injustiça, Tu consolas aquelle, que ouve o Verbo, Que renovou o corrompido mundo, E que mil povos pouco a pouco ouviram. Nobre, plebeu, dominador, ou servo, O rico, o pobre, o valoroso, o fraco, Da desgraça no dia ajoelharam No limiar do solitario templo. Ao pé desse portal, que veste o musgo, Encontrou-os chorando o sacerdote, Que da serra descia á meia-noite, Pelo sino das preces convocado: Ahi os viu ao despontar do dia, Sob os raios do sol, ainda chorando. Passados mezes, o burel grosseiro, O leito de cortiça, e a fervorosa E contínua oração foram cerrando Nos corações dos miseros as chagas, Que o mundo sabe abrir, mas que não cura. Aqui, depois, qual halito suave Da primavera, lhes correu a vida, Até sumir-se no adro do convento, Debaixo de uma lagea tosca e humilde, Sem nome, nem palavra, que recorde O que a terra abrigou no somno extremo.

Eremiterio antigo, oh, se podesses Dos annos que lá vão contar a historia; Se ora, á voz do cantor, possivel fosse Transudar desse chão, gelado e mudo, O mudo pranto, em noites dolorosas, Por naufragos do mundo derramado Sobre elle, e aos pés da cruz!... Se vós podesseis, Broncas pedras, falar, o que dirieis!

Quantos nomes mimosos da ventura, Convertidos em fabula das gentes, Despertariam o eccho das montanhas, Se aos negros troncos do sobreiro antigo Mandasse o Eterno sussurrar a historia Dos que vieram desnudar-lhe o cepo, Para um leito formar, onde velassem Da mágua, ou do remorso as longas noites! Aqui veiu, talvez, buscar asylo Um poderoso, outr'ora anjo da terra, Despenhado nas trévas do infortunio; Aqui gemeu, talvez, o amor trahido, Ou pela morte convertido em cancro De infernal desespero; aqui soaram Do arrependido os ultimos gemidos, Depois da vida derramada em gosos, Depois do goso convertido em tedio. Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra Vestidura mortal, deixou vestigios De seu breve passar. E isso que importa, Se Deus o viu; se as lagrymas do triste Elle contou, para as pagar com gloria?

XVI.

Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda Que serpeia do monte ao fundo valle, Sobre o marco de pedra a cruz se eleva, Como um pharol de vida em mar de escolhos: Ao christão infeliz acolhe no ermo, E consolando-o, diz-lhe--a patria tua É lá no céu: abraça-te comigo.» Juncto della esses homens, que passaram Acurvados na dôr, as mãos ergueram Para o Deus, que perdoa, e que é conforto Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança Vem derramar seu coração afflicto: É do deserto a historia a cruz e a campa; E sobre tudo o mais pousa o silencio.

XVII.

Feliz da terra, os monges não maldigas; Do que em Deus confiou não escarneças! Folgando segue a trilha, que ha juncado, Para teus pés, de flores a fortuna, E sobre a morta crença em paz descança. Que mal te faz, que goso vae roubar-te O que ensanguenta os pés no tojo agreste, E sobre a fria pedra encosta a fronte? Que mal te faz uma oração erguida, Nas solidões, por voz sumida e frouxa, E que, subindo aos céus, só Deus escuta? Oh, não insultes lagrymas alheias, E deixa a fé ao que não tem mais nada!...

E se estes versos te contristam, rasga-os. Teus menestreis te venderão seus hymnos, Nos banquetes opiparos, emquanto O negro pão repartirá comigo, Seu trovador, o pobre anachoreta, Que não te inveja as ditas, como as c'roas Do prazer ao cantor eu não invejo; Tristes coroas, sob as quaes às vezes Está gravada uma inscripção d'infamia.

MOCIDADE E MORTE.

Solevantado o corpo, os olhos fitos, As magras mãos cruzadas sobre o peito, Vêde-o, tão moço, velador de angustias, Pela alta noite em solitario leito.

Por essas faces pallidas, cavadas, Olhae, em fio as lagrymas deslisam; E com o pulso, que apressado bate, Do coração os éstos harmonisam.

É que nas veias lhe circula a febre; É que a fronte lhe alaga o suor frio; É que lá dentro á dor, que o vai roendo, Responde horrivel íntimo ciclo.

Encostando na mão o rosto acceso, Fitou os olhos humidos de pranto Na lampada mortal alli pendente, E lá comsigo modulou um canto.

É um hymno de amor e de esperança? É oração de angustia e de saudade? Resignado na dor, saúda a morte, Ou vibra aos céus blasphemia d'impiedade?

É isso tudo, tumultuando incerto No delírio febril daquella mente Que, balouçada á borda do sepulchro, Volve após si a vista longamente.

É a poesia a murmurar-lhe na alma Ultima nota de quebrada lyra; É o gemido do tombar do cedro; É triste adeus do trovador que expira.

DESESPERANÇA.

«Meia-noite bateu, volvendo ao nada Um dia mais, e caminhando eu sigo! Vejo-te bem, oh campa mysteriosa... Eu vou, eu vou! Breve serei comtigo!

Qual tufão, que ao passar agita o pégo. Meu placido existir turvou a sorte. Halito impuro de pulmões ralados Me diz que nelles se assentou a morte.

Em quanto mil e mil no largo mundo Dormem em paz sorrindo, eu vélo e penso, E julgo ouvir as preces por finados, E ver a tumba e o fumegar do incenso.

Se dormito um momento, acórdo em sustos; Pulos me dá o coração no peito, E abraço e beijo de uma vida extincta O ultimo socio, o doloroso leito.

De um abysmo insondado ás agras bordas Insanavel doença me ha guiado, E disse-me:--no fundo o esquecimento: Desce; mas desce com andar pausado.»

E eu lento vou descendo, e sondo as trévas: Busco parar; parar um só instante! Mas a cruel, travando-me da dextra, Me faz cahir mais fundo, e grita:--ávante!»

Porque escutar o transito das horas? Alguma dellas trar-me-ha conforto? Não! Esses golpes, que no bronze ferem, São para mim como dobrar por morto.

«Morto! morto!--me clama a consciencia: Diz-m'o este respirar rouco e profundo. Ai! porque fremes, coração de fogo, Dentro de um seio corrompido e immundo?

Beber um ar diaphano e suave, Que renovou da tarde o brando vento, E converte-lo, no aspirar contínuo, Em bafo apodrecido e peçonhento!

Estender para o amigo a mão mirrada, E elle negar a mão ao pobre amigo; Querer uni-lo ao seio descarnado, E elle fugir, temendo o seu perigo!

E ver após um dia ainda cem dias, Nús d'esperança, ferteis de amargura; Soccorrer-me ao porvir, e acha-lo um ermo, E só, bem lá no extremo, a sepultura!

Agora!... quando a vida me sorria: Agora!... que meu estro se accendêra; Que eu me enlaçava a um mundo d'esperanças, Como se enlaça pelo choupo a hera,

Deixar tudo, e partir, sósinho e mudo; Varrer-me o nome escuro esquecimento: Não ter um eccho de louvor, que affague Do desgraçado o humilde monumento!

Oh tu, sêde de um nome glorioso, Que tão fagueiros sonhos me tecias, Fugiste, e só me resta a pobre herança De ver a luz do sol mais alguns dias.

Vestem-se os campos do verdor primeiro: Já das aves canções no bosque ecchoam: Não para mim, que só escuto attento Funereos dobres que no templo soam!

Eu que existo, e que penso, e falo, e vivo, Irei tão cedo repousar na terra?! Oh, meu Deus, oh meu Deus! um anno ao menos; Um louro só... e meu sepulchro cerra!