Chapter 1
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POESIAS
IMPRENSA NACIONAL
POESIAS
POR
A. HERCULANO
SEGUNDA EDIÇÃO
LISBOA EM CASA DA VIUVA BERTRAND E FILHOS AOS MARTYRES, N.^o 73 M DCCC LX
LIVRO PRIMEIRO
A HARPA DO CRENTE.
A SEMANA SANCTA.
Der Gedanke Gott weckt einen furchlerlichen Nachbar auf. Sein Name heisst Richter.
Schiller.
I.
Tibio o sol entre as nuvens do occidente, Já lá se inclina ao mar. Grave e solemne Vai a hora da tarde!--O oeste passa Mudo nos troncos da alameda antiga, Que á voz da primavera os gomos brota: O oeste passa mudo, e cruza o atrio Ponteagudo do templo, edificado Por mãos duras de avós, em monumento De uma herança de fé, que nos legaram, A nós seus netos, homens de alto esforço, Que nos rimos da herança, e que insultamos A cruz e o templo e a crença de outras eras; Nós, homens fortes, servos de tyrannos, Que sabemos tão bem rojar seus ferros Sem nos queixar, menosprezando a Patria E a liberdade, e o combater por ella.
Eu não!--eu rujo escravo; eu creio e espero No Deus das almas generosas, puras, E os despotas maldigo.--Entendimento Bronco, lançado em seculo fundido Na servidão de goso ataviada, Creio que Deus é Deus e os homens livres!
II.
Oh sim!--rude amador de antigos sonhos, Irei pedir aos tumulos dos velhos Religioso enthusiasmo, e canto novo Hei-de tecer, que os homens do futuro Entenderão; um canto escarnecido Pelos filhos dest' epocha mesquinha, Em que vim peregrino a ver o mundo. E chegar a meu termo, e reclinar-me Á branda sombra de cypreste amigo.
III.
Passa o vento os do portico da igreja Esculpidos umbraes: correndo as naves Sussurrou, sussurrou entre as columnas De gothico lavor: no orgam do côro Veiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.
IV.
Mas porque sôa o vento?--Está deserto, Silencioso ainda o sacro templo: Nenhuma voz humana ainda recorda Os hymnos do Senhor. A natureza Foi a primeira em celebrar seu nome Neste dia de lucto e de saudade! Trévas da quarta feira eu vos saúdo! Negras paredes, mudos monumentos De todas essas orações de mágua, De gratidão, de susto ou de esperança, Depositadas ante vós nos dias De fervorosa crença, a vós que enlucta A solidão e o dó, venho eu saudar-vos. A loucura da cruz não morreu toda Após dezoito seculos!--Quem chore Do soffrimento o Heroe existe ainda. Eu chorarei--que as lagrymas são do homem-- Pelo Amigo do povo, assassinado Por tyrannos, e hypocritas, e turbas Envilecidas, barbaras, e servas.
V.
Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro; Que no espaço entre o abysmo e os céus vagueias, D'onde mergulhas no oceano a vista; Tu que do trovador á mente arrojas Quanto ha nos céus esperançoso e bello, Quanto ha no abysmo tenebroso e triste, Quanto ha nos mares magestoso e vago, Hoje te invoco!--oh vem!--lança em minha alma A harmonia celeste e o fogo e o genio, Que dêm vida e vigor a um carme pio.
VI.
A noite escura desce: o sol de todo Nos mares se atufou. A luz dos mortos, Dos brandões o clarão, fulgura ao longe No cruzeiro sómente e em volta da ara: E pelas naves começou ruído De compassado andar. Fiéis acodem Á morada de Deus, a ouvir queixumes Do vate de Sião. Em breve os monges, Suspirosas canções aos céus erguendo, Sua voz unirão á voz desse orgam, E os sons e os ecchos reboarão no templo. Mudo o côro depois, neste recincto Dentro em bem pouco reinará silencio, O silencio dos tumulos, e as trévas Cubrirão por esta área a luz escaça Despedida das lampadas, que pendem Ante os altares, bruxuleando frouxas.
Imagem da existencia!--Em quanto passam Os dias infantis, as paixões tuas, Homem, qual então és, são debeis todas. Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso Sobrenadam a dôr e o pranto e o longo Gemido do remorso, a qual lançar-se Vai com rouco estridor no antro da morte, Lá, onde é tudo horror, silencio, noite. Da vida tua instantes florescentes Foram dous, e não mais: as cans e rugas, Logo, rebate de teu fim te deram. Tu foste apenas som, que, o ar ferindo, Murmurou, esqueceu, passou no espaço.
E a casa do Senhor ergueu-se.--O ferro Cortou a penedia; e o canto enorme Pulído alveja alli no espesso panno Do muro colossal, que éra após éra, Como onda e onda ao desdobrar na areia, Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado. O ulmo e o choupo no cahir rangeram Sob o machado: a trave affeiçoou-se; Lá no cimo pousou: restruge ao longe De martellos fragor, e eis ergue o templo, Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.
Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento Se esvái, como da cerva a leve pista No pó se apaga ao respirar da tarde, Do seio dessa terra, em que és estranho, Sair fazes as moles seculares, Que por ti, morto, falem; dás na idéa Eterna duração ás obras tuas. Tua alma é immortal, e a prova a déste!
VII.
Anoiteceu.--Nos claustros resoando As pisadas dos monges ouço: eis entram; Eis se curvaram para o chão, beijando O pavimento, a pedra. Oh sim, beijae-a! Igual vos cubrirá a cinza um dia, Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto É a pedra do tumulo. Sê-lo-hia Mais, se do justo só a herança fòra; Mas tambem ao malvado é dada a campa.
E o criminoso dormirá quieto Entre os bons sotterrado?--Oh não! Em quanto No templo ondeiam silenciosas turbas, Exultarão do abysmo os moradores, Vendo o hypocrita vil, mais impio que elles, Que escarnece do Eterno, e a si se engana; Vendo o que julga que orações apagam Vicios e crimes, e o motejo e o riso Dado em resposta ás lagrymas do pobre; Vendo os que nunca ao infeliz disseram De consolo palavra ou de esperança. Sim:--malvados tambem hão-de pisar-lhes Os frios restos que separa a terra, Um punhado de terra, a qual os ossos Destes ha-de cubrir em tempo breve, Como cubriu os seus; qual vai sumindo No segredo da campa a humana raça.
VIII.
Eis que a turba rareia. Ermam bem poucos Do templo na amplidão: só lá no escuro De afumada capella o justo as preces Ergue pio ao Senhor, as preces puras De um coração que espera, e não mentidas De labios de impostor, que engana os homens Com seu meneio hypocrita, calando Na alma lodosa da blasphemia o grito. Então exultarão os bons, e o ímpio, Que passou, tremerá. Emfim, de vivos, Da voz, do respirar o som confuso Vem confundir-se no ferver das praças, E pela galilé só ruge o vento.
Em trévas não ficou silenciosas O sagrado recincto: os candieiros, No gelado ambiente ardendo a custo, Espalham debeis raios, que reflectem Das pedras pela alvura; o negro mocho, Companheiro do morto, horrido pio Solta lá da cornija: pelas fendas Dos sepulchros deslisa fumo espesso; Ondeia pela nave, e esvái-se. Longo Suspirar não se ouviu?--Olhae! lá se erguem. Sacudindo o sudario, em peso os mortos!
Mortos, quem vos chamou? O som da tuba Ainda do Josaphat não fere os valles. Dormí, dormí: deixae passar as eras...
IX.
Mas foi uma visão: foi como scena D'imaginar febril. Creou-se, acaso, Do poeta na mente, ou desvendou-lhe A mão de Deus o íntimo ver da alma, Que devassa a existencia mysteriosa Do mundo dos espiritos? Quem sabe? Dos vivos ja deserta, a igreja torva Repovoou-se, para mim ao menos, Dos extinctos, que ao pé das sanctas aras Leito commum na somnolencia extrema Buscaram. O terror, que arreda o homem Do limiar do templo ás horas mortas, Não vem de crença van. Se fulgem astros, Se a luz da lua estira a sombra eterna Da cruz gigante (que campeia erguida No vertice do timpano, ou no cimo Do corucheu do campanario) ao longo Dos inclinados tectos, afastae-vos! Afastae-vos d'aqui, onde se passam Á meia-noite insolitos mysterios; D'aqui, onde desperta a voz do archanjo Os dormentes da morte; onde reune O que foi forte e o que foi fraco, o pobre E o opulento, o orgulhoso e o humilde, O bom e o mau, o ignorante e o sabio, Quantos, emfim, depositar vieram Juncto do altar o que era seu no mundo, Um corpo nú, e corrompido e inerte.
X.
E seguia a visão.--Cria ainda achar-me, Alta noite, na igreja solitaria Entre os mortos, que, erectos sobre as campas, Eram ha pouco um fumo que ondeiava Pelas fisgas do vasto pavimento. Olhei. Do erguido tecto o panno espesso Rareava; rareava-me ante os olhos, Como tenue cendal; mais tenue ainda, Como o vapor de outono em quarto d'alva, Que se libra no espaço antes que desça A consolar as plantas conglobado Em matutino orvalho. O firmamento Era profundo e amplo. Involto em gloria, Sobre vagas de nuvens, rodeiado Das legiões do céu, o Ancião dos dias, O Sancto, o Deus descia. Ao summo aceno Parava o tempo, a immensidade, a vida Dos mundos a escutar. Era esta a hora Do julgamento desses que se alçavam Á voz de cima sobre as sepulturas?
XI.
Era ainda a visão,--Do templo em meio Do anjo da morte a espada flammejante Crepitando bateu. Bem como insectos, Que á flôr de pego pantanoso e triste Se balouçavam--quando a tempestade Veiu as azas molhar nas aguas turvas, Que marulhando sussurraram--surgem Volteando, zumbindo em dança douda, E lassos, vão pousar em longas filas Nas margens do paul, de um lado e de outro; Tal o murmurio e a agitação incerta Ciciava das sombras remoinhando Ante o sopro de Deus. As melodias Dos córos celestiaes, longinquas, frouxas, Com frémito infernal se misturavam Em cahos de dôr e jubilo. Dos mortos Parava, emfim, o vortice enredado; E os grupos vagos em distinctas turmas Se enfileiravam de uma parte e de outra. Depois, o gladio do anjo entre os dous bandos Ficou, unica luz, que se estirava Desde o cruzeiro ao portico, e fería De reflexo vermelho os largos pannos Das paredes de marmore, bem como Mar de sangue, onde inertes fluctuassem De humanos vultos indecisas fórmas.
XII.
E seguia a visão.--Do templo á esquerda, Méstas as faces, inclinada a fronte, Da noite as larvas tinham sobre o sólo Fito o espantado olhar, e as dilatadas Baças pupillas lhes tingia o susto. Mas, como zona lucida de estrellas, Nessa atmosphera crassa e afogueada Pela espada rubente, refulgiam Da direita os espiritos, banhado De inenarravel placidez seu gesto. Era inteiro o silencio, e no silencio Uma voz resoou--Eleitos vinde!-- Ide precítos!»--Vacillava a terra, E ajoelhando eu me curvei tremendo.
XIII.
Quando me ergui e olhei, no céu profundo Um rastilho de luz pura e serena Se ia embebendo nesses mares de orbes Infinitos, perdidos no infinito, A que chamâmos o universo. Um hymno De saudade e de amor, quasi inaudivel Parecia romper desde as alturas De tempo a tempo. Vinha como involto Nas lufadas do vento, até perder-se Em socego mortal. O curvo tecto Do templo, então, se condensou de novo, E para a terra o meu olhar volveu-se. Da direita os espiritos radiosos Já não estavam lá. Chispando a espaços, Qual o ferro na incude, a espada do anjo O mortiço rubor mandava, apenas, D'aurora boreal quando se extingue.
XIV.
Proseguia a visão.--Da esquerda ás sombras Anciava o seio a dôr: tinham no gesto Impressa a maldicção, que lhes seccára Eternamente a seiva da esperança.
Como se vê, em noite estiva e negra, Scintillar sobre as aguas a ardentia, D'umas frontes ás outras vagueiavam Ceruleos lumes no esquadrão dos mortos, E ao estalar das lousas, grito immenso Subterraneo, abafado e delirante, Ineffavel compendio de agonias, Misturado se ouviu com rir do inferno, E a visão se desfez. Era ermo o templo: E despertei do pesadelo em trevas.
XV.
Era loucura ou sonho? Entre as tristezas E os terrores e angustias, que resume Neste dia e logar a avita crença, Irresistivel força arrebatou-me Da sepultura a devassar segredos, Para dizer:--Tremei! Do altar á sombra Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»--
A justiça de Deus visita os mortos, Embora a cruz da redempção proteja A pedra tumular; embora a hostia Do sacrificio o sacerdote eleve Sobre as vizinhas aras. Quando a igreja Rodeiam trevas, solidão e medos, Que a resguardam co'as asas acurvadas Da vista do que vive, a mão do Eterno Separa o joio do bom grão, e arroja Para os abysmos a ruim semente.
XVI.
Não!--não foi sonho vão, vago delirio De imaginar ardente. Eu fui levado, Galgando além do tempo, ás tardas horas, Em que se passam scenas de mysterio, Para dizer:--Tremei! Do altar á sombra Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»--
Vejo ainda o que vi: da sepultura Ainda o halito frio me enregela O suor do pavor na fronte; o sangue Hesita immoto nas inertes veias; E embora os labios murmurar não ousem, Ainda, incessante, me repete na alma Íntima voz:--Tremei! Do altar á sombra Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»--
XVII.
Mas troa a voz do monge, e, emfim, desperto O coração bateu. Eia, retumbem Pelos ecchos do templo os sons dos psalmos, Que em dia de afflicção ignoto vate Teceu, banhado em dôr. Talvez foi elle O primeiro cantor que em varias córdas, Á sombra das palmeiras da Iduméa, Soube entoar melodioso um hymno. Deus inspirava então os trovadores Do seu povo querido, e a Palestina, Rica dos meigos dons da natureza, Tinha o sceptro, tambem, do enthusiasmo. Virgem o genio ainda, o estro puro Louvava Deus sómente, á luz da aurora, E ao esconder-se o sol entre as montanhas De Bethoron.--Agora o genio é morto Para o Senhor, e os cantos dissolutos De lodoso folguedo os ares rompem, Ou sussurram por paços de tyrannos, Assellados de putrida lisonja, Por preço vil, como o cantor que os tece.
XVIII.
O PSALMO.
Quanto é grande o meu Deus!.. Té onde chega O seu poder immenso! Elle abaixou os céus, desceu, calcando Um nevoeiro denso. Dos cherubins nas asas radiosas Librando-se, voou; E sobre turbilhões de rijo vento O mundo rodeiou. Ante o olhar do Senhor vacilla a terra, E os mares assustados Bramem ao longe, e os montes lançam fumo, Da sua mão tocados. Se pensou no Universo, ei-lo patente Ante a face do Eterno: Se o quiz, o firmamento os seios abre, Abre os seios o inferno. Dos olhos do Senhor, homem, se pódes, Esconde-te um momento: Vê onde encontrarás logar que fique Da sua vista isento: Sobe aos céus, transpõe mares, busca o abysmo, Lá teu Deus has-de achar; Elle te guiará, e a dextra sua Lá te ha-de sustentar: Desce á sombra da noite, e no seu manto Involver-te procura... Mas as trévas para elle não são trévas. Nem é a noite escura. No dia do furor, em vão buscáras Fugir ante o Deus forte, Quando do arco tremendo, irado, impelle Setta em que pousa a morte. Mas o que o teme dormirá tranquillo No dia extremo seu, Quando na campa se rasgar da vida Das illusões o véu.
XIX.
Calou-se o monge: sepulchral silencio Á sua voz seguiu-se. Uma toada De orgam rompeu do côro. Assemelhava O suspiro saudoso, e os ais de filha, Que chora solitaria o pae, que dorme Seu ultimo, profundo e eterno somno. Melodias depois soltou mais doces O severo instrumento: e ergueu-se o canto, O doloroso canto do propheta, Da patria sobre o fado. Elle, que o vira, Sentado entre ruinas, contemplando Seu avito esplendor, seu mal presente, A quéda lhe chorou. Lá na alta noite, Modulando o Nebel, via-se o vate Nos derribados porticos, abrigo Do immundo stellio e gemedora poupa, Extasiado--e a lua scintillando Na sua calva fronte, onde pesavam Annos e annos de dôr. Ao venerando Nas encovadas faces fundos regos Tinham aberto as lagrymas. Ao longe, Nas margens do Kedron, a ran grasnando Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo Era Sião!--o vasto cemiterio Dos fortes de Israel. Mais venturosos Que seus irmãos, morreram pela patria; A patria os sepultou dentro em seu seio. Elles, em Babylonia, aos punhos ferros, Passam de escravos miseranda vida, Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesa-los, A dextra lhe vergou. Não mais no templo A nuvem repousára, e os céus de bronze Dos prophetas aos rogos se amostravam. O vate de Anathot a voz soltára Entre o povo infiel, de Eloha em nome: Ameaças, promessas, tudo inutil; De bronze os corações não se dobraram. Vibrou-se a maldicção. Bem como um sonho Jerusalem passou: sua grandeza Sómente existe em derrocadas pedras. O vate de Anathot, sobre seus restos, Com triste canto deplorou a patria. Hymno de morte alçou: da noite as larvas O som lhe ouviram: squallido esqueleto, Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos Do portico do templo erguia um pouco, Alvejando, a caveira.--Era-lhe allivio Do sagrado cantor a voz suave Desferida ao luar, triste, no meio Da vasta solidão que o circumdava. O propheta gemeu: não era o estro, Ou o vívido jubilo que outr'ora Inspirára Moysés: o sentimento Foi sim pungente de silencio e morte, Que da patria lhe fez sobre o cadaver A elegia da noite erguer e o pranto Derramar da esperança e da saudade.
XX.
A LAMENTAÇÃO.
Como assim jaz e solitaria e quèda Esta cidade outr'ora populosa! Qual viuva ficou e tributaria A senhora das gentes. Chorou durante a noite; em pranto as faces, Sósinha, entregue á dôr, nas penas suas Ninguem a consolou: os mais queridos Contrarios se tornaram. Ermas as praças de Sião e as ruas, Cobre-as a verde relva: os sacerdotes Gemem; as virgens pallidas suspiram Involtas na amargura. Dos filhos de Israel nas cavas faces Está pintada a macilenta fome; Mendigos vão pedir, pedir a estranhos, Um pão de infamia eivado. O tremulo ancião, de longe, os olhos Volve a Jerusalem, della fugindo; Vê-a, suspira, cahe, e em breve expira Com seu nome nos labios. Que horror!--ímpias as mães os tenros filhos Despedaçaram: barbaras quaes tigres, Os sanguinosos membros palpitantes No ventre sepultaram. Deus, compassivo olhar volve a nós tristes: Cessa de Te vingar! Vê-nos escravos, Servos de servos em paiz estranho. Tem dó de nossos males! Acaso serás Tu sempre inflexivel? Esqueceste de todo a nação tua? O pranto dos hebreus não Te commove? És surdo a seus lamentos?
XXI.
Doce era a voz do velho: o som do Nablo Sonoro: o céu sereno: clara a terra Pelo brando fulgor do astro da noite: E o propheta parou. Erguidos tinha Os olhos para o céu, onde buscava Um raio de esperança e de conforto: E elle calára já, e ainda os ecchos, Entre as ruinas sussurrando, ao longe Íam os sons levar de seus queixumes.
XXII.
Choro piedoso, o choro consagrado Ás desditas dos seus. Honra ao propheta! Oh margens do Jordão, paiz formoso Que fostes e não sois, tambem suspiro Condoído vos dou.--Assim fenecem Imperios, reinos, solidões tornados!... Não:--nenhum deste modo: o peregrino Pára em Palmyra e pensa. O braço do homem A sacudiu á terra, e fez dormissem O seu ultimo somno os filhos della-- E elle o veio dormir pouco mais longe... Mas se chega a Sião treme, enxergando Seus lacerados restos. Pelas pedras, Aqui e alli dispersas, ainda escripta Parece ver-se uma inscripção de agouros, Bem como aquella que aterrou um ímpio Quando, no meio de ruidosa festa, Blasphemava dos céus, e mão ignota O dia extremo lhe apontou dos crimes. A maldicção do Eterno está vibrada Sobre Jerusalem!--Quanto é terrivel A vingança de Deus! O Israelita, Sem patria e sem abrigo, vagabundo, Ódio dos homens, neste mundo arrasta Uma existencia mais cruel que a morte, E que vem terminar a morte e inferno. Desgraçada nação!--Aquelle solo Onde manava o mel, onde o carvalho, O cedro e a palma o verde ou claro ou torvo, Tão grato á vista, em bosques misturavam; Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham Crescimento espontaneo entre as roseiras, Hoje, campo de lagrymas, só cria Humilde musgo de escalvados cerros.
XXIII.
Ide vós a Mambré.--Lá, bem no meio De um valle, outr'ora de verdura ameno, Erguia-se um carvalho magestoso. Debaixo de seus ramos largos dias Abrahão repousou. Na primavera Vinham os moços adornar-lhe o tronco De capellas cheirosas de boninas, E coreias gentis traçar-lhe em roda. Nasceu com o orbe a planta veneravel, Viu passar gerações, julgou seu dia Final fosse o do mundo, e quando airosa Por entre as densas nuvens se elevava, Mandou o Nume aos aquilões rugissem, Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco, Murcharam-se cahindo, e o rei dos bosques Serviu de pasto aos tragadores vermes. Deus estendeu a mão:--no mesmo instante A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros Da Palestina os platanos frondosos Não mais cresceram, como d'antes, bellos: O armento, em vez de relva, achou nos prados Sómente ingratas, espinhosas urzes. No Golgotha plantada, a Cruz clamára --Justiça!»--A tal clamor horrido espectro No Moriá surgiu. Era seu nome Assolação.--E despregando um grito, Cahiu com longo som de um povo a campa. Assim a herança de Judá, outr'ora Grata ao Senhor, existe só nos ecchos Do tempo que já foi, e que ha passado Como hora de prazer entre desditas. ...................................
XXIV.
Minha Patria onde existe? É lá sómente! Oh lembrança da Patria acabrunhada Um suspiro tambem tu me has pedido; Um suspiro arrancado aos seios d'alma Pela offuscada gloria, e pelos crimes Dos homens que ora são, e pelo opprobrio Da mais illustre das nações da terra!
A minha triste Patria era tão bella, E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro E o sabio e o homem bom acolá dormem, Acolá, nos sepulchros esquecidos, Que a seus netos infames nada contam Da antiga honra e pudor e eternos feitos. O escravo português agrilhoado Carcomir-se lhes deixa juncto ás lousas Os decepados troncos desse arbusto, Por mãos delles plantado á liberdade, E por tyrannos derribado em breve, Quando patrias virtudes se acabaram, Como um sonho da infancia!... O vil escravo, Immerso em vicios, em bruteza e infamia, Não erguerá os macerados olhos Para esses troncos, que destroem vermes Sobre as cinzas de heroes, e, acceso em pejo, Não surgirá jámais?--Não ha na terra Coração português, que mande um brado De maldicção atroz, que vá cravar-se Na vigilia e no somno dos tyrannos, E envenenar-lhes o prazer por noites De vil prostituição, e em seus banquetes De embriaguez lançar fel e amarguras?
Não!--Bem como um cadaver já corrupto, A nação se dissolve: e em seu lethargo O povo, involto na miseria, dorme.
XXV.
Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia Terei de erguer á Patria hymno de morte, Sobre seus mudos restos vagueiando! Sobre seus restos?--Nunca! Eterno, escuta Minhas preces e lagrymas:--se em breve, Qual jaz Sião, jazer deve Ulissea; Se o anjo do exterminio ha-de risca-la Do meio das nações, que d'entre os vivos Risque tambem meu nome, e não me deixe Na terra vagueiar, orpham de Patria.
XXVI.
Cessou da noite a grão solemnidade Consagrada á tristeza, e a memorandas Recordações:--os monges se prostraram, A face unida á pedra. A mim, a todos Correm dos olhos lagrymas suaves De compuncção. Atheu, entra no templo; Não temas esse Deus, que os labios negam, E o coração confessa. A corda do arco Da vingança, em que a morte se debruça, Frouxa está; Deus é bom: entra no templo. Tu para quem a morte ou vida é fórma, Fórma sómente de mais puro barro, Que nada crês, e em nada esperas, olha, Olha o conforto do christão. Se o calis Da amargura a provar os céus lhe deram, Elle se consolou: balsamo sancto Piedosa fé no coração lhe verte. --«Deus compaixão terá!--Eis seu gemido: Porque a esperança lhe sussurra em torno: --Aqui, ou lá... a Providencia é justa.»