Yayá Garcia

Part 2

Chapter 23,806 wordsPublic domain

--Não faça isso; desde já lhe digo que será tempo perdido. Jorge ha-de repetir-lhe as mesmas razões que me deu, e o senhor as acceitará naturalmente. Se alguma cousa lhe mereço, se não morreu em seu coração a amizade que o ligou a nossa familia, peço-lhe que me ajude francamente neste empenho, com a autoridade de sua pessoa. Entre nisto, como eu mesma, disposto a vencel-o e convencel-o. Faz-me este obsequio?

Luiz Garcia reflectiu um instante.

--Faço, disse elle frouxamente.

Valeria mostrou-se reanimada com a resposta; disse-lhe que fosse lá jantar naquelle mesmo dia ou no outro. Elle recusou duas vezes; mas não pode resistir ás instancias da viuva, e prometteu ir no dia seguinte. A promessa era um meio, não só de pôr termo á insistencia da viuva, mas tambem de encaminhar-se a saber qual era a mola secreta da acção daquella senhora. A honra nacional era certamente o colorido nobre e augusto de algum pensamento reservado e menos collectivo. Luiz Garcia abriu velas á reflexão e conjecturou muito. Afinal não duvidava do empenho patriotico de Valeria, mas perguntava a si mesmo se ella quereria colher da acção que ia praticar alguma vantagem especialmente sua.

--O coração humano é a região do inesperado, dizia comsigo o sceptico subindo as escadas da repartição.

Na repartição soube da chegada de tristes noticias do Paraguay. Os alliados tinham atacado Curupaity e recuado com grandes perdas: o inimigo parecia mais forte do que nunca. Suppunha-se até que as propostas de paz não tinham sido mais do que um engodo para fortalecer a defesa. Assim, a sorte das armas vinha reforçar os argumentos de Valeria. Luiz Garcia adivinhou tudo o que ella lhe diria no dia seguinte.

No dia seguinte foi elle jantar á rua dos Invalidos. Achou a viuva menos consternada do que deveria estar, á vista das noticias da vespera, se por ventura os successos da guerra a preoccupassem tanto como dizia. Pareceu-lhe até mais serena. Ella ia e vinha com um ar satisfeito e resoluto. Tinha um sorriso para cada cousa que ouvia, um carinho, uma familiaridade, uma intenção de agradar e seduzir, que Luiz Garcia estudava com os olhos agudos da suspeita.

Jorge, pelo contrario, mostrava-se retrahido e mudo. Luiz Garcia, á mesa do jantar, examinava-lhe a furto a expressão dos olhos tristes e a ruga desenhada entre as sobrancelhas, gesto que indicava nelle o despeito e a irritação. Na verdade, era duro enviar para a guerra um dos mais bellos ornamentos da paz. Naquelles olhos não morava habitualmente a tristeza; elles eram, de costume, brandos e pacificos. Um bigode negro e basto, obra commum da natureza e do cabelleireiro, cobria-lhe o labio e dava ao rosto a expressão viril que este não tinha. A estatura esbelta e nobre era a unica feição que absolutamente podia ser militar. Elegante, occupava Jorge um dos primeiros logares entre os _dandies_ da rua do Ouvidor; alli podia ter nascido, alli poderia talvez morrer.

Valeria acertava quando dizia não achar no filho nenhum amor á profissão de advogado. Jorge sabia muita cousa do que aprendera; tinha intelligencia prompta, rapida comprehensão e memoria vivissima. Não era profundo; abrangia mais do que penetrava. Sobretudo, era uma intelligencia theorica; para elle, o praxista representava o barbaro. Possuindo muitos bens, que lhe davam para viver á farta, empregava uma particula do tempo em advogar o menos que podia--apenas o bastante para ter o nome no portal do escriptorio e no almanack de Laemmert. Nenhuma experiencia contrastava nelle os impetos da juventude e os arroubos da imaginação. A imaginação era o seu lado fraco, por que não a tinha creadora e limpida, mas vaga, tumultuosa e esteril. Era generoso e bom, mas padecia um pouco de fatuidade, que lhe diminuia a bondade nativa. Havia alli a massa de um homem futuro, á espera que os annos, cuja acção é lenta, opportuna e inevitavel, lhe dessem fixidez ao caracter e virilidade á razão.

Não foi alegre nem animado o jantar. Falaram a principio de cousas indifferentes; depois Valeria fez recahir a conversação nas ultimas noticias do Paraguay. Luiz Garcia declarou que lhe não pareciam tão más, como diziam as gazetas, sem comtudo negar que se tratava de um serio revez.

--É guerra para seis mezes, concluiu elle.

--Só?

Esta pergunta foi a primeira palavra de Jorge, que até então não fizera mais do que ouvir e comer. Valeria tomou a outra ponta do dialogo, e confirmou a opinião de Luiz Garcia. Mas o filho continuou a não intervir. Acabado o jantar, Valeria ergueu-se; Luiz Garcia fez o mesmo; a viuva, pousando-lhe a mão no hombro, disse em tom familiar e intencional:

--Sem ceremonia; eu volto já.

Uma vez sós os dous homens, Luiz Garcia achou de bom aviso ir de ponto em branco ao assumpto que alli os reuníra.

--Não tem vontade de ir tambem ao Paraguay? perguntou elle logo que Valeria desappareceu no corredor.

--Nenhuma. Comtudo, acabarei por ahi.

--Sim?

--Mamãe não deseja outra cousa, e o senhor mesmo sei que é dessa opinião.

Uma resposta negativa roçou os labios de Luiz Garcia; a tempo a reprimiu, confirmando com o silencio a pia fraude de Valeria. Tinha nas mãos o meio de inutilisar o effeito do equivoco: era mostrar-se indifferente. Jorge distraía-se em equilibrar um palito na borda de um calix; o interlocutor, depois de olhar para elle, rompeu emfim a larga pausa:

--Mas porque motivo cede hoje, depois de recusar tanto tempo?

Jorge ergueu os olhos, fez-lhe um signal e foram para o terraço.

--O senhor é amigo velho de nossa casa, disse elle; posso confiar-lhe tudo. Mamãe quer mandar-me para a guerra, porque não póde impedir os movimentos do meu coração.

--Algum namoro, concluiu friamente Luiz Garcia.

--Uma paixão.

--Está certo do que diz?

--Estou.

--Não creio, tornou Luiz Garcia depois de um instante.

--Porque não? Ella conta com a distancia e o tempo, para matar um amor que suppõe não haver creado raizes profundas.

Luiz Garcia dera alguns passos, acompanhado pelo filho de Valeria; parou um instante, depois continuaram ambos a passear de um para outro lado. O primeiro reflectia na explicação, que lhe pareceu verosimil, se o amor do rapaz era indigno de seu nome. Essa pergunta não se animou a fazel-a; mas procurou uma vereda tortuosa para ir dar com ella.

--Uma viagem á Europa, observou Luiz Garcia depois de curto silencio, produziria o mesmo resultado, sem outro risco mais que...

--Recusei a viagem; foi então que ella pensou na guerra.

--Mas se ella quizesse ir á Europa, o senhor recusaria acompanhal-a?

--Não; mas mamãe detesta o mar; não viajaria nunca. É possivel que, se eu resistisse até á ultima, em relação á guerra, ella vencesse a repugnancia ao mar e iriamos os dous...

--E porque não resistiu?

--Primeiramente, porque estava cançado de recusar. Ha mez e meio que dura esta luta entre nós. Hoje, á vista das noticias do sul, falou-me com tal instancia que cedi de uma vez. A segunda razão foi um sentimento mau--mas justificavel. Escolho a guerra, afim de que se alguma cousa me acontecer, ella sinta o remorso de me haver perdido.

Luiz Garcia parou e encarou silenciosamente o mancebo.

--Sei o que quer dizer esse olhar, continuou este; acha-me feroz, e eu sou apenas natural. O sentimento mau teve só um minuto de duração. Passou. Ficou-me uma sombra de remorso. Não accuso mamãe; sei as lagrimas que lhe vae custar a separação...

--Ainda é tempo de recuar.

--O que está feito, está feito, disse Jorge erguendo os hombros.

--Sabe que mais? Acho mau gosto dar a este negocio um desenlace epico. Que tem que fazer nisto a guerra do Paraguay? Vou suggerir-lhe um meio de arranjaras cousas. Ceda metade sómente; vá á Europa sósinho, volte no fim de dous ou tres annos...

Jorge sorriu desdenhosamente.

--Seu conselho mostra a differença de nossas edades, disse elle. Se eu fosse para a Europa, que sacrificio faria á pessoa a quem amo? Pelo contrario, a sacrificada era ella. Eu ia divertir-me, passear, ver cousas novas, talvez achar novos amores. Indo á guerra, é differente; sacrifico o repouso e arrisco a vida; é alguma cousa. Separados, embora, não me negará sua estima...

--Sua estima? disse Luiz Garcia admirado.

Não continuou; mas Jorge comprehendeu, por aquella só palavra, a que classe de mulheres elle suppunha pertencer a eleita de seu coração. Fez um gesto; não se animou a dizer nada. Arrependeu-se talvez de haver dito tanto. Sem ousar recommendar-lhe silencio, começou a insinual-o delicadamente; tactica escusada, porque Luiz Garcia não era homem de revelar o que se lhe confiava; e perigosa, porque fazia crescer as proporções do mysterio. Luiz Garcia sorriu interiormente ao sentir a arte cautelosa de Jorge; e quando ella lhe pareceu enfadonha:

--Descance, disse elle; não receie que eu vá publicar seus amores. Repito-lhe o conselho: não se atire de cabeça para baixo n'uma aventura sem fundo. Ir para a guerra é muito nobre, mas hade ser levado de outros sentimentos. Um desaccordo por motivo de namoro, não é o Porto Alegre nem o Polydoro, é um padre que lhe deve pôr termo.

Jorge sorriu com ar affavel, e despediu-se de Luiz Garcia; foi dalli vestir-se para ir ao theatro. Luiz Garcia estava mais do que nunca resoluto a deixar que os acontecimentos tivessem livre curso, sem nenhuma intervenção sua. Logo que Jorge saiu, dispoz-se a fazer o mesmo, despedindo-se de Valeria. Esta acompanhou-o ate á porta da sala.

--Não me diz nada? perguntou ella quando o viu prestes a transpor a porta.

--Que lhe hei-de dizer?

--Falou a meu filho?

--Falei.

--Achou-o disposto?

--Não digo que não.

--Mas de má vontade?

--Não digo que sim.

Valeria sorriu com uma ponta de despeito.

--Vejo que este assumpto o aborrece.

Luiz Garcia disse que não. Valeria encostou-se ao portal.

--Ninguem! exclamou ella. Não tenho ninguem a meu lado. Só; ficarei só.

--Sejamos francos, disse Luiz Garcia; seu filho cede, mas cede violentado, e não vejo que se possa fazer delle um heroe. Que motivo tão forte a obriga a exigir desse moço um sacrificio superior a suas posses?

Valeria não respondeu.

--Sei o motivo, disse elle d'ahi a um instante.

--Sabe?

--Suspeito; e se me permitte ser franco, direi que o acho singular, pelo menos não ha proporções entre a causa e o effeito. Seu filho ama. Trata-se de uma mulher de certa especie? São correrias da mocidade, e as delle não são taes que façam escandalo, creio eu. Trata-se de alguma moça, cuja alliança lhe não pareça acceitavel? Nada lhe direi a tal respeito; mas reflicta primeiro antes de o mandar ao Paraguay.

Valeria prendeu a mão direita de Luiz Garcia entre as suas; reflectiu longo tempo; depois disse com voz sumida:

Supponha... que se trata... de uma senhora casada?

Luiz Garcia curvou a cabeça com um gesto de assentimento. Como seus olhos baixassem ao chão não pode ver no rosto da viuva uma ligeira cor que avermelhou e desappareceu. Se lh'a visse, se a fitasse imperiosamente, talvez a viuva baixasse os olhos envergonhada de haver mentido. Luiz Garcia não viu nada. Calou-se, approvou a viuva, e prometteu auxilial-a.

Era noite quando Luiz Garcia saiu da casa de Valeria. Ia aborrecido de tudo, da mãe e do filho,--de suas relações naquella casa, das circumstancias em que se via posto. Galgando a ladeira a pé, detendo-se de quando em quando a olhar para baixo, ia como apprehensivo do futuro, supersticioso, tomado de temores intermittentes e inexplicaveis. Não tardou a apparecer-lhe a luz da casa, e, dahi a pouco, a ouvir a cantilena solitaria do escravo e as notas rudimentaes da marimba. Eram as vozes da paz; elle apertou o passo e refugiou-se na solidão.

III

Luiz Garcia pouco trabalho teve no animo de Jorge. A resolução deste, uma vez declarada, não recuou mais. Não desconhecia o moço que a empreza a que mettia hombros era crespa de difficuldades. A guerra, sobretudo depois do desastre de Curupaity, promettia durar muito; não havia desanimo, e o governo era auxiliado efficazmente pela população. Jorge obteve uma patente de capitão de voluntarios.

Vinte dias depois da conversa no terraço da rua dos Invalidos, apresentou-se Jorge em Santa Theresa, fardado e prompto, de tal modo porém que era ainda difficil separar o casquilho do militar. A mesma tesoura que lhe cortava os fraques, talhara a farda de capitão. Trazia á cintura uma banda vermelha, cujas pontas caíam graciosamente ao lado. Calçava um botim reluzente, sobre o qual assentava a calça de fino panno. Inclinado levemente á direita, o boné não lhe desconcertava o cabello, penteado ao estylo de todos os dias; o bigode tinha as mesmas guias longas, agudas e lustrosas.

Luiz Garcia não pode furtar-se a um sentimento de pena, ao vel-o entrar fardado e prestes a seguir para o sul. Pareceu-lhe descobrir por traz delle o perfil da morte, com o eterno sorriso sem labios. Mas esse sentimento de commiseração passou; lembrou-lhe logo a ultima palavra da viuva, e não pode deixar de condemnal-o. Viu até, com certa repulsa, esse coração de vinte e quatro annos, que ia arriscar a vida propria, e talvez a de sua mãe, para não rejeitar um sentimento mau.

--Estou a seu gosto? perguntou Jorge com um ar de benevola ironia.

--Ha de estar melhor no fim da guerra, Sr. general, respondeu o outro.

--General? Pode ser.

Dizendo isto, Jorge entrou a falar de suas esperanças e futuros. A imaginação começava a dissipar a melancolia. Elle via já naquillo uma aventura romanesca e mysteriosa; sentia-se uma resurreição de cavalleiro medievo, saindo a combater por amor de sua dama, castellã opulenta e formosa que o esperaria na varanda gothica, com a alma nos olhos e os olhos na ponte levadiça. A ideia da morte ou da mutilação não vinha agitar-lhe ao rosto suas azas pallidas e sangrentas. O que elle tinha deante de si eram os campos infinitos da esperança. Comtudo, o momento era grave, e difficilmente podia o espirito esquivar-se á reflexão intermittente. Além disso, Jorge subira a Santa Theresa com a resolução de contar tudo a Luiz Garcia, afim de deixar um confidente austero e unico de seus amores; mas a palavra não se atrevia a sair do coração. Ou a edade do outro ou a indole de suas relações tolhia essa confidencia intima; ainda mais do que uma e outra razão, havia naquelle momento o gesto singularmente preoccupado e duro de Luiz Garcia. Jorge deu de mão ao projecto.

--Dê-me o abraço de despedida, disse elle; embarco amanhã.

--Já amanhã!

--Vim despedir-me do senhor.

Luiz Garcia considerou-o silenciosamente durante dous ou tres minutos; depois apertou-lhe as mãos.

--Vá, disse; trabalhe pela terra; não se poupe a trabalhos, nem se exponha sem utilidade; em todo o caso, obedeça á disciplina, e não se esqueça um só dia de sua mãe.

Jorge saiu e desceu a passo largo e trémulo na direcção da rua de D. Luiza. A meio caminho parou, como se quizesse tomar outra direcção; ergueu os hombros e proseguiu. Ia mergulhado em si mesmo, e só deu accordo ao parar deante de uma casa daquella rua.

Antes de lá entrar, vejamos quem eram os moradores.

O defunto marido de Valeria, no tempo em que advogava, tinha um escrevente, que, mais ainda do que escrevente, era seu homem de confiança; Chamava-se o Sr. Antunes. Foram serviços de certa ordem que os ligaram mais intimamente. A fortuna troca ás vezes os calculos da natureza; uma e outra iam de accordo na pessoa daquelle homem, nado e creado para as funcções subalternas. Familiar com todas as formas da adulação, o Sr. Antunes ia do elogio hyperbolico até o silencio opportuno. Tornou-se dentro de pouco, não só um escrevente laborioso e pontual, mas tambem, e sobretudo, um _fac-totum_ do desembargador, seu braço direito, desde os recados eleitoraes até ás compras domesticas, vasta escala em que entrava o papel de confidente das entreprezas amorosas. Assim que, nunca lhe fez mingua a protecção do desembargador. Viu crescer-lhe o ordenado, multiplicarem-se-lhe as gratificações; foi admittido a comer algumas vezes em casa, nos dias communs, quando não havia visitas de ceremonia. Nas occasiões mais solemnes era elle o primeiro que se esquivava. Ao cabo de tres annos de convivencia tinha consolidado a situação.

Justamente nesse tempo succedeu morrer-lhe a mulher, de quem lhe ficou uma filha de dez annos, menina interessante, que algumas vezes visitara a casa do desembargador. Este fez o enterro da mãe e pagou o luto da filha e do pae. O Sr. Antunes, que não era de extremas philosophias, tinha a convicção de que debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como quer o Ecclesiastes, nem tudo perfeições, como opina o doutor Pangloss; entendia que ha larga ponderação de males e bens, e que a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal. Morta a mulher, alcançou do desembargador um enxoval completo para fazer entrar a filha n'um collegio, visto que até então nada aprendera, e já agora não podia deixal-a sósinha em casa. O desembargador dera o enxoval; algumas vezes pagou o ensino; as visitas amiudaram-se; a creança, que era bonita e boa, entrou manso e manso no coração de Valeria que a recebeu em casa, no dia em que a pequena concluiu os estudos.

Estella--era o seu nome,--tinha então dezeseis annos. Pouco antes fallecera o desembargador. O Sr. Antunes recebeu dous golpes em vez de um: o de o ver morrer, e o de o não ver testar. As aneurismas têm dessas perfidias inopinaveis. Afim de emendar a mão á fortuna, o pae de Estella concentrou na viuva a attenção que até então repartira entre ella e o marido; facto que aliás decorria da propria obrigação moral em que se achava para com a familia do desembargador. Estella devia a essa familia educação e carinho; podia talvez vir a dever-lhe um dote, um marido e consideração. Quem sabe? Talvez o coração de Jorge vinculasse as duas familias. Esta ambição affagava-a o Sr. Antunes no mais profundo de sua alma.

Jorge estava prestes a concluir os estudos em S. Paulo; ia na metade do quarto anno. Vindo á Capital durante as férias, achou-se deante de uma situação inesperada; a mãe esboçara um projecto de casamento para elle. A noiva escolhida era ainda parenta remota de Jorge. Chamava-se Eulalia. Tinha dezenove annos na certidão de baptismo e trinta no cerebro. Era uma moça sem illusões nem vaidades, talvez sem paixões, dotada de juizo recto e coração simples, e sobre tudo isso uma belleza sem macula e uma elegancia sem espavento.--Uma perola! dizia Valeria quando insinuou ao filho a conveniencia de casar com Eulalia. A perola, entretanto, não parecia anciosa de ornar a fronte de ninguem. Quando Valeria fez as primeiras sondagens no coração da joven parenta, achou alli uma agua tranquilla, sem curso nem recurso de marés. Tratou de saber se alguma brisa lhe roçara a aza, e descobriu que não; então chamou em seu auxilio o sirocco e o pampeiro. Não foi difficil a Eulalia perceber os desejos da viuva, nem resistiu quando chegou a entendel-a. A razão disse-lhe que o casamento era acceitavel; esperou. Valeria ficou satisfeita com o resultado, e deu-se pressa em sondar as disposições de Jorge, quando elle voltou no fim do anno.

Graças á sua arte de assediar as vontades alheias, Valeria alcançou do filho uma resposta condicional. Era já alguma cousa. O motivo da insistencia da viuva era complexo; eram as qualidades da parenta, a affeição grande que lhe votava, o receio de morrer subitamente e a confiança que tinha em si mesma para conhecer e eleger caracteres. Durante o ultimo anno da Faculdade, Jorge pensou algumas vezes no casamento como se pensa n'um projecto remoto; mas, á proporção que o tempo corria, o coração ia-se-lhe tornando retrahido e medroso. Uma vez formado, deu de mão á ideia; não teve a franqueza de o declarar á mãe, e Valeria esperou confiadamente que o coração do filho dissesse n'outra lingua aquillo que ella já lhe havia dito na sua.

Para conhecer exactamente o motivo da repulsa de Jorge em relação a uma moça, cujas qualidades deviam tentar qualquer outro, convem não esquecer que essas qualidades eram justamente as mais avêssas á indole do filho de Valeria. Não bastava ser elegante e bonita, discreta e mansa; era preciso alguma cousa mais, que exactamente correspondesse á imaginação delle; faltava-lhe um grão de romanesco.

A isto accrescia um sentimento novo, que se apossou delle, ao cabo de tres semanas depois da chegada ao Rio de Janeiro. A vista quotidiana de Estella produziu em Jorge uma impressão forte. Posto vivessem na mesma casa, era difficil acharem-se nunca a sós, porque a filha do escrevente passava todo o tempo ao pé da viuva; circumstancia que não teve a virtude de mudar o curso aos acontecimentos. Não podendo passar de palavras geraes e extranhas ao que lhe quizera confiar, Jorge falava-lhe com os olhos,--linguagem que a moça não entendia, ou fingia não entender. A imperturbavel seriedade de Estella foi um aguilhão mais, não menos cruel que a gentileza de suas formas, e certo ar de resolução que lhe transparecia do rosto quieto e pallido.

Pallida era, mas sem nenhum tom de melancolia ascetica. Tinha os olhos grandes escuros, com uma expressão de virilidade moral, que dava á belleza de Estella o principal caracteristico. Uma por uma, as feições da moça eram graciosas e delicadas, mas a impressão que deixava o todo estava longe da meiguice natural do sexo. Usualmente, trazia roupas pretas, côr que preferia a todas as outras. Nu de enfeites, o vestido punha-lhe em relevo o talhe esbelto, elevado e flexivel. Nem usava nunca trazel-o de outro modo, sem embargo de algum dixe ou renda com que a viuva a presenteava de quando em quando; rejeitava de si toda a sorte de ornatos; nem folhos, nem brincos, nem aneis. Ao primeiro aspecto dissera-se um Diogenes feminino, cuja capa, atravez das roturas, deixava entrever a vaidade da belleza que quer affirmar-se tal qual é, sem nenhum outro artificio. Mas, conhecido o caracter da moça, eram dous os motivos--um sentimento natural de simplicidade, e, mais ainda, a consideração de que os meios do pae não davam para custosos atavios, e assim não lhe convinha affeiçoar-se ao luxo.

--Porque não põe os brincos que mamãe lhe deu a semana passada? perguntou Jorge a Estella, um dia, em que havia gente de fóra a jantar.

--Os presentes mais queridos guardam-se, respondeu ella olhando para a viuva.

Valeria apertou-lhe a ponta do queixo entre o pollegar e o indicador:--Poeta! exclamou sorpudo. Você não precisa de brincos para ser bonita, mas vá pol-os, que lhe ficam bem.

Foi a primeira e ultima vez que Estella os poz. A intenção era patente de mais para não ser notada, e Jorge não esqueceu nem a resposta da moça nem o constrangimento com que obedeceu. Não podia suppôr-lhe ingratidão, porque via a affeição com que Estella tratava a mãe. Em relação a elle não parecia haver affeição egual, mas havia certamente respeito e consideração, rara vez familiaridade, e ainda assim, uma familiaridade enluvada, um ar de visita de pouco tempo.