Part 3
Jorge começou a achar mais agradavel a casa do que a rua; e as noites, quando não havia pessoas de fora, passava-as á volta de uma mesa, lendo ou jogando com as duas, ou vendo-as trabalhar, em quanto contava anedoctas da academia, lia as correspondencias do Paraguay e de Buenos-Ayres, ou simplesmente alguma pagina de romance. Nessa vida, meio patriarchal, as horas corriam depressa, tão depressa, que elle não as sentia. Ao cabo de cinco a seis semanas, fez-se elle seu proprio confessor, examinou a consciencia, descobriu lá dentro alguma cousa que não era a phantasia sensual do primeiro instante, e, longe da absolver-se, condemnou-se á crua penitencia de abstenção. Voltou aos antigos habitos e deixou os serões domesticos. Mas a applicação do remedio, por mais sincera que fosse, já não podia muito contra a acção do mal. Estella frequentava-lhe tenazmente a memoria; e na rua, no theatro, nas assembléas a que ía, o perfil severo da moça vinha metter-se entre elle e a realidade. Se pudesse deixar de a ver, a convalescença não era ainda difficil; mas como fugir á lembrança de uma mulher, cuja figura lhe apparecia durante algumas horas de cada dia? Demais, a somnambula que elle tinha no cerebro vinha auxiliar a fatalidade das circumstancias. No fim de um mez, a indole do sentimento havia mudado: era mais pura; mas o sentimento não parecia disposto a esvair-se: era mais violento.
Como o Sr. Antunes levasse a filha, uma noite, a visitar pessoa de sua amizade, Jorge aproveitou a circumstancia para insinuar a Valeria a conveniencia de restituir Estella a seu pae.
--Porque? perguntou a viuva.
--Sempre é um tropeço, uma pessoa extranha mettida entre nós,--replicou Jorge. Não lhe nego que tem boas qualidades; mas... é uma pessoa extranha.
--Que importa, se me dou bem com ella? Conheço-a desde pequena; é uma companhia melhor que qualquer outra. Mas porque te lembras disso agora?
--Estive pensando na responsabilidade que pesa sobre nós. Se fosse nossa parenta, vá, não se podia dispensar a obrigação; mas não sendo, creio que era melhor libertarmo-nos.
--Descança; quando fôr tempo, caso-a. O que não admitto é algum marido de pouco mais ou menos. Ha-de ser pessoa que a mereça. Não sabes o que vale aquella menina. Não é só boa, tem certa elevação de sentimentos; nunca me desattendeu e nunca me adulou.
Jorge confirmou com a cabeça e não disse mais nada. O que acabava de fazer não passava de uma tentativa sincera, mas frouxa, para arredar Estella da casa; era o imposto pago á consciencia; Quite com ella, entregou-se aos acontecimentos, confessando a si mesmo que o perigo não era tão grave, nem o remedio tão urgente; finalmente, que elle era homem.
No meio de semelhante situação, que sentia ou que pensava Estella? Estella amava-o. No instante em que descobriu esse sentimento em si mesma, pareceu-lhe que o futuro se lhe rasgava largo e luminoso; mas foi só nesse instante. Tão depressa descobriu o sentimento, como tratou de o estrangular ou dissimular,--trancal-o ao menos no mais escuso do coração, como se fora uma vergonha ou um peccado.
--Nunca? jurou ella a si mesma.
Estella era o vivo contraste do pae, tinha a alma acima do destino. Era orgulhosa, tão orgulhosa que chegava a fazer da inferioridade uma aureola; mas o orgulho não lhe derivava de inveja impotente ou de esteril ambição; era uma força, não um vicio,--era o seu broquel de diamante,--o que a preservava do mal, como o do anjo de Tasso defendia as cidades castas e santas. Foi esse sentimento que lhe fechou os ouvidos ás suggestões do outro. Simples aggregada ou protegida, não se julgava com direito a sonhar outra posição superior e independente; e dado que fosse possivel obtel-a, é licito affirmar que recusara, porque, a seus olhos seria um favor, e a sua taça de gratidão estava cheia. Valeria, que tambem era orgulhosa, descobrira-lhe essa qualidade, e não lhe ficou querendo mal; ao contrario, veiu a aprecial-a melhor.
Pois o orgulho de Estella não lhe fez sómente calar o coração, infundiu-lhe a confiança moral necessaria para viver tranquilla no centro mesmo do perigo. Jorge não percebera nunca os sentimentos que inspirara; e, por outro lado, nunca viu a possibilidade de os inspirar um dia. Estella só lhe manifestava o frio respeito e a fria dignidade.
Um dia, vagando uma casa de Valeria no caminho da Tijuca, determinou-se a viuva a ir examinal-a, antes de a alugar outra vez. Foi acompanhada do filho e de Estella. Sairam cedo, e a viagem foi alegre para a moça, que pela primeira vez ia áquelle arrabalde. Quando a carruagem parou, suppunha Estella que mal tivera tempo de sair da rua dos Invalidos.
A casa precisava de alguns reparos; um mestre de obras, que já alli estava, acompanhou a familia de sala em sala e de alcova em alcova. Só elle e Valeria falavam; Estella não tinha voto consultivo, e Jorge parecia indifferente. Que lhe importava a elle o rebôco de uma parede ou o concerto de um soalho? Elle gracejava, ria ou sussurrava ao ouvido de Estella um epigramma a respeito do mestre de obras, cuja prosodia era execravel. Estella, que sorria com elle, cerrava entretanto o gesto aos epigrammas.
De sala em sala, chegaram a uma pequena varanda, onde uma circumstancia nova os deteve algum tempo. N'uma das extremidades da varanda havia um pombal velho, onde elles foram achar, esquecido ou abandonado, um casal de pombos. As duas aves, após vinte e quatro horas de solidão, pareciam saudar as pessoas que alli appareciam repentinamente.
--Coitadinhos! disse Estella logo que entrou na varanda.
Valeria prestou um minuto de attenção, talvez meio, e seguiu a ver a casa. Estella ficara a olhar para os dous pombos, e não a viu sair.
--Quer leval-os? disse a voz de Jorge.
A moça voltou-se e respondeu que não:--Comtudo, continuou ella, era bom dal-os a alguem para não morrerem á fome. São tão bonitos!
--Mas porque não os ha de levar a senhora mesma?
--Vou pedir ao mestre que os tire dalli, disse ella dando um passo para dentro.
--Não é preciso: eu vou tiral-os.
Estella recusou, mas o bacharel resolvera e ia satisfazer elle proprio o desejo da moça. O pombal não ficava ao alcance da mão; era preciso trepar ao parapeito da varanda, crescer na ponta dos pés e estender o braço. Ainda assim, precisaria contar com a boa vontade dos pombos. Jorge trepou ao parapeito. Se perdesse o equilibrio poderia cair ao chão da chacara; para evital-o, Jorge lançou a mão esquerda a um ferro que havia na columna do canto, e que o amparou; depois esticou o corpo e alcançou com a mão o pombal. Um dos pombos ficou logo seguro; o outro, a principio arisco, foi colhido depois de algum esforço. Estella recebeu-os; Jorge saltou ao chão.
--A Sra. D. Valeria, se visse isto, havia de ralhar, disse Estella.
--Grande façanha! respondeu Jorge sacudindo com o lenço as mãos e a aba do fraque.
--Podia cair.
--Mas não caí; foi um risco que passou. São bonitinhos, não são? continuou elle apontando para os pombos que Estella tinha entre as mãos.
A moça respondeu com um gesto e deu alguns passos, afim de ir ter com a viuva. Jorge deteve-a, mettendo-se entre ella e a porta.
--Não se vá embora, disse elle.
--Que é? perguntou Estella erguendo tranquillamente os grandes olhos limpidos.
--Disfarçada!
Estella baixou silenciosamente a cabeça e buscou dar outra volta para entrar na sala ao pé; Jorge, porém, interceptou-lhe de novo o caminho.
--Deixe-me passar, disse ella sem colera nem supplica.
Jorge recuara até a porta, unica das tres que estava aberta. Era arriscado o que fazia; mas, além de que Valeria e o mestre estavam no pavimento superior,--elle ouvia-lhes os passos,--perdera naquella occasião toda a lucidez de espirito. Era deserto o logar, e naturalmente seria longo o tempo de que poderia dispôr para lhe dizer tudo. Mas os labios ficaram cerrados alguns instantes, em quanto os olhos diziam a eloquencia da paixão mal contida e prestes a irromper.
Não insistiu Estella, mas ficou diante delle, quieta e sem arrogancia, como esperando ser obedecida. Jorge quizera-a supplicante ou desvairada; a tranquillidade feria-lhe o amor proprio, fazendo-lhe ver que o perigo era nenhum, e revellando, em todo caso, a mais dura indifferença. Quem era ella para o affrontar assim? Era a segunda vez que formulava essa pergunta; tinha-a feito nas primeiras auroras da paixão. Desta vez a resposta foi deploravel. Cravando os olhos em Estella, disse com voz tremula, mas imperiosa:
--Não ha de sair daqui, sem me dizer se gosta de mim. Vamos; responda! Não sabe o que lhe pode custar esse silencio?
Não obtendo resposta, continuou depois de alguma pausa:
--É animosa! Saiba que posso vir a odial-a e que talvez já a odeio; saiba tambem que posso tirar vingança de seus despresos, e chegarei a ser cruel, se fôr necessario.
Estella suspirou apenas, e foi encostar-se ao parapeito, a olhar para a chacara. Era sua intenção não irrital-o, com a resposta secca e má que lhe dictava o coração, e esperar que Valeria descesse. Entretanto, na posição em que ficara tinha as costas voltadas para Jorge, circumstancia que não era intencional, mas que pareceu a este um simples meio de lhe significar o seu desdem. A irritação de Jorge foi grande. Após uns dous ou tres minutos de silencio, Jorge caminhou na direcção do parapeito, onde estava Estella, com a cabeça inclinada, a beijar a cabeça dos pombos, que tinha encostados ao seio. Deteve-se, sem que a moça mudasse de posição. Contemplou-a ainda um instante, e se Estella olhasse para elle veria que a expressão dos olhos era de respeitosa ternura e nada mais.
Esse instante, porém, voou depressa, e com elle a consideração. Inclinando-se para a moça, Jorge falou de um modo que nem a educação nem a indole, mas só o despeito explicava.
--Porque hade gastar com esses animaes, uns beijos que podem ter melhor emprego?
Estella estremeceu toda e ergueu para o moço uns olhos que fuzilavam de indignação. Já não estava pallida, mas livida. Estupefacta, não sabia que dissesse ou fizesse, e infelizmente não sabia tambem que a pergunta de Jorge, por mais offensiva que lhe parecesse, não era ainda a maxima injuria. Não era; Jorge tinha uma nuvem deante de si, atravez da qual não podia ver nem o seu decoro pessoal nem a dignidade da mulher amada; via só a mulher indifferente. Lançou-lhe as mãos treabeça, puxou-a até si e antes que ella pudesse fugir ou gritar, encheu-lhe a boca de beijos.
Soltos com o movimento, os pombos esvoaçaram sobre a cabeça de ambos, e foram pousar outra vez na casinha de pau, onde nenhuma fatalidade moral os condemnava áquelle amor sem esperança, áquella colera sem dignidade.
Estella suffocara um gemido e cobrira o rosto com as mãos. Ouviam-se as vozes de Valeria e do mestre, que se approximavam; Jorge teve um instante de incerteza e hesitação; mas a reacção operara-se, e, além disso, urgia apagar os vestigios daquella scena, de maneira que os não visse a viuva.
--Ahi vem mamãe,--disse elle baixinho a Estella; não tive culpa no que fiz, por que gosto muito da senhora.
Estella voltou-se para fora e enxugou o rosto; dahi a pouco entraram Valeria e o mestre. Este saiu logo depois, tendo ajustado as obras que era indispensavel fazer na casa. Valeria irritada com a vista dos estragos que encontrou, criticava o desleixo dos inquilinos. Só depois dos primeiros instantes reparou que nenhum dos dous lhe respondia nada, Jorge parecia acanhado, e Estella triste. Posto houvesse enxugado as lagrimas, Estella tinha o rosto desfeito e murchos os bellos olhos. Jorge não ousava olhar para a mãe nem para Estella; olhava para a ponta dos botins, onde ficara um pouco da caliça do parapeito; tinha as mãos nas costas e estava arrimado a um portal. Valeria reparou na attitude dos dous; mas como possuia a qualidade de dissimular as impressões, não alterou nem o gesto nem a voz. Os olhos é que nunca mais os deixaram.
Dahi a nada metteram-se no carro. Era tarde. A viagem foi quasi inteiramente silenciosa; pelo menos, só Valeria disse algumas palavras. Chegando á rua dos Invalidos, a viuva suspeitava que alguma cousa havia entre os dous e grave. Todo aquelle dia meditou nos meios de conhecer a natureza e os pormenores da situação, e nada achou melhor do que interrogar directamente um delles. Jorge saíra de casa logo depois e não voltou para jantar; Estella não sorriu em todo esse dia e quasi não falou.
Não foi preciso interrogal-a. Logo na seguinte manhã, acabando de levantar-se, entrou-lhe Estella na alcova, e pediu alguns minutos de attenção. Expoz-lhe a necessidade de voltar para casa; estava moça, devia ir prestar ao pae os serviços que elle precisaria de alguem e tinha o direito de exigir da filha. Não era ingratidão, accrescentava; levaria dalli saudades eternas; voltaria muitas vezes; seria sempre obediente e grata. Cedia sómente á necessidade de acompanhar o pae. Este pedido confirmava a suspeita de Valeria, mas só esclarecia metade da situação. A retirada de Estella era um meio de fugir a Jorge ou de lhe falar mais livremente? Valeria tratou de prescrutar o coração da moça, dizendo-lhe que a razão dada era insufficiente e que alguma causa occulta a movia; depois, recordou-lhe a amizade que lhe tinha e a confiança a que Estella não devia faltar.
--Vamos lá, disse ella; confessa tudo.
Estella affirmou que nada mais havia; mas, insistindo a viuva, respondeu curvando a cabeça,--o que importava meia confissão. Valeria lutou ainda muito tempo; empregou a brandura e a intimação, mas a moça não cedeu mais nada.
--Bem, disse a viuva; faça-se a tua vontade.
Foi assim que Estella, ao cabo de algum tempo de residencia na casa de Valeria, regressou á casa do pae, na rua de D. Luiza. O Sr. Antunes ficou desorientado com a noticia; disse que vivia perfeitamente só; achou pouco decoroso e menos justo o procedimento de Estella, em relação á viuva do desembargador; gastou largos conceitos, que lhe não aproveitaram, porque Estella não recuou da resolução, nem a viuva tentou dissuadil-a.
A separação não valia nada ou valia cousa peor; fez recrudescer o amor de Jorge, por isso mesmo que entre um e outro rasgava espaço á imaginação. Duas forças reagiram no coração do rapaz; o obstaculo, que tornava mais intenso o amor, e o remorso que o fazia mais respeitoso. Nenhum resentimento lhe ficara da resolução de Estella; sentia-se culpado, e mais ainda, sentia-se victima da fuga da moça. Nem tudo isso seria effeito sómente da paixão; cabia uma parte de influencia á severidade do caracter de Estella, que acabou por incutir no espirito de Jorge ideia differente da que elle a seu respeito fazia. Valeria descobriu a pouco e pouco a inefficacia do remedio que acceitara; estava certa da paixão do filho, e via que, longe de expirar, entrava pela vida adeante, menos estouvada talvez, mas não menos sincera e profunda; soube que Jorge frequentava a casa da rua de D. Luiza; estremeceu pelo futuro e cogitou no modo de estrangular as esperanças em flôr.
--Ou ella já o ama ou pode vir a amal-o, dizia comsigo.
Valeria encarava os dous desenlaces possiveis da situação, se a moça lhe amasse o filho: ou seria a quéda de Estella, que a viuva estimava muito, ou o consorcio dos dous, solução que lhe repugnava aos sentimentos, ideias e projectos. Jamais consentiria em semelhante alliança. Urgia prompto remedio.
Voltou energicamente ao projecto de casar o filho com Eulalia, e o intimou a obedecer-lhe. Jorge começou resistindo e acabou dissimulando; mas o artificio não illudiu a mãe. Valeria chamou logo em seu auxilio a joven parenta. Eulalia, que tivera tempo de reflectir, francamente lhe disse que não estava disposta a ser sua nora, porque Jorge não a amaria nunca; e comquanto, não visse no casamento uma pagina de romance, entendia que a antipathia ou total indifferença era o mais frouxo dos vinculos conjugaes.
Desamparada desse lado, a viuva cogitou então a viagem á Europa; e, quando elle lh'a recusou, recorreu á guerra do Paraguay. Não sem custo lançou mão desse meio, violento para ambos; mas, uma vez adoptado, luziu-lhe mais a vantagem do que lhe negrejou o perigo. Assim foi que de um incidente, comparativamente minimo, resultara aquelle desfecho grave, e de um caso domestico saía uma acção patriotica.
IV
Era noite fechada, quando Jorge chegou á casa de Estella. O Sr. Antunes estava á porta e talvez contava com a visita; recebeu-o com alvoroço e tristeza.
Quatro mezes haviam decorrido depois da scena da Tijuca, e durante esse tempo Jorge fora muitas vezes á casa da rua de D. Luiza. Não lhe fugira Estella nem o maltratara; usou a mesma serenidade e frieza de outro tempo, falando-lhe pouco, é certo, mas com tamanha isenção, que parecia não ter havido entre elles o menor dissentimento.
Pela sua parte, Jorge forcejava por apagar a lembrança daquelle episodio, havendo-se com o respeito e consideração que lhe pareciam bastantes para resgatar a estima perdida. Ás vezes ficavam a sós na sala, porque o Sr. Antunes inventava algum motivo que o obrigasse a eclipses parciaes, com o fim unico, dizia elle comsigo,--de ajudar a natureza. Mas sobretudo nessas occasiões, aliás propicias, não transpunha Jorge a linha que a si mesmo traçara, não lhe sussurrava uma unica palavra amorosa, não lhe deitava um só olhar que a pudesse fazer corar ou reagir. Qualquer allusão á scena da Tijuca, ainda de submissão, seria prejudicial á causa de Jorge; elle evitava esse erro trivial, nada dizendo que proxima ou remotamente pudesse lembral-a á moça. Falavam pouco e de cousas indifferentes, como pessoas de nenhuma intimidade.
Foi só quando perdeu de todo a esperança de a vencer pelos meios ordinarios, que elle acceitou a proposta de se alistar no exercito. No dia em que lhes deu a noticia, a impressão no pae e na filha foi profunda, mas diversa, porque o pae ficou totalmente consternado e morto, ao passo que a filha sentiu a alma respirar livremente, e se uma voz secreta e medrosa lhe disse: não o deixes ir; outra mais dominadora e forte lhe bradou que a partida era a liberdade e a paz. A viagem, a distancia, o tempo, a natureza das occupações militares deviam arrancar ao moço um sentimento que Estella temia fosse origem de dissenções domesticas, e que em todo o caso a abatia a seus proprios olhos.
--É então amanhã? perguntou o Sr. Antunes fazendo entrar o joven capitão.
--Amanhã.
Estella recebeu-o como das outras vezes, sem embargo do pae, que parecia apostado em lhe tornar amargos esses ultimos instantes. A tristeza do Sr. Antunes era mortal. Elle pertencia á phalange daquelles espiritos que, atravez dos annos e ainda nos regelos do inverno, conservam as calcinhas da primeira edade, e para quem a vida tem sempre o aspecto dos castellos de cartas que construiram na infancia. Uma vez penetrado da ideia de casar a filha com o bacharel, viveu della, como se a vira praticada. O incidente da guerra não lhe desvendou a realidade da situação, mas pareceu-lhe que adiava o seu desejo, e bastava a consternal-o. Agora que via fardado o filho de Valeria, prestes a embarcar no dia seguinte, creu devéras na separação. Após meia hora de conversa, o Sr. Antunes retirou-se alguns minutos da sala; ia ver charutos.
--Tome um dos meus, disse Jorge.
--Nada; os seus são muito fortes.
Nunca os charutos de Jorge padeceram semelhante accusação da parte do Sr. Antunes, que fumava regularmente os do filho como havia fumado os do pae. Estella ficou humilhada com a resposta e a acção. Jorge que estava de pé, junto a uma mesa, viu sair o pae de Estella, e ficou a olhar para o chão. A moça cravou os olhos no trabalho, que estava fazendo.
Jorge ergueu emfim os olhos e pousou-os na moça, cuja belleza lhe pareceu naquella noite ainda mais limpida e espiritual, justamente porque elle começava a vel-a atravez do nimbo da saudade. Ella attendia ao trabalho com uma quietação laboriosa. As mãos, que podiam emparelhar com as mais puras, moviam as agulhas sem apparente commoção nem tremor. Ao mancebo já não humilhava esse aspecto indifferente e digno; podia medir, em si mesmo, a differença das situações, o caminho vencido, desde as primeiras ideias a respeito de Estella. Mas os minutos corriam e o silencio acanhava-o cada vez mais; emfim, resolveu rompel-o, e rompel-o de modo que tirasse daquelle minuto ou a salvação ou o naufragio da vida que ia emprehender. Deu dous passos para Estella.
--Talvez não nos vejamos mais, disse elle.
--Porque? disse Estella sem levantar os olhos.
--Posso ficar enterrado no Paraguay.
--Sua mãe não gostaria de ouvir isso...
Seguiram-se ainda dous minutos. Jorge poz toda a alma nestas palavras, ditas em voz baixa e triste:
--Embarco amanhã para o sul. Não é o patriotismo que me leva, é o amor que lhe tenho, amor grande e sincero, que ninguem poderá arrancar-me do coração. Se morrer, a senhora será o meu ultimo pensamento; se viver, não quero outra gloria que não seja a de me sentir amado. Uma e outra cousa dependem só da senhora. Diga-me; devo morrer ou viver?
Estella tinha erguido a cabeça; quando elle acabou achava-se de pé. Fitou-o alguns instantes com uma expressão muda e fria. A vaidade da mulher podia contentar-se daquella solemne reparação, e perdoar; mas o orgulho de Estella venceu, e não deu logar a nenhum outro sentimento de justiça ou de humanidade. Um geito ironico torceu-lhe o labio, donde saiu esta palavra má e desdenhosa:
--O senhor é um tonto.
Quando o pae voltou á sala, instantes depois, Jorge estava com uma das mãos no encosto de uma cadeira, pallido como um defunto. Estella fora até á porta da alcova da sala, resolvida a fechar-se por dentro.
O Sr. Antunes não tinha observação; mas, ao ver o rosto dos dous, não era muito difficil adivinhar que alguma cousa se passara entre elles. Adivinhou-o; comtudo, não atinara bem o que seria, se uma scena de dolorosa despedida, se outra cousa menos propicia a seus calculos. Foi ao joven capitão e pediu-lhe que se sentasse; mas Jorge declarou que ia sair e despediu-se. Sem encarar Estella, estendeu-lhe a mão, que ella apertou com o ar mais tranquillo do mundo. O pae espreitava uma lagrima furtiva, um gesto disfarçado, qualquer cousa que falasse em favor de suas esperanças. Nada; Estella não baixou o rosto nem escondeu os olhos. Jorge, sim; não obstante o esforço que fazia, tremia-lhe a mão ao apertar a do escrevente.
O Sr. Antunes acompanhou-o até a porta. Alli, antes de a abrir, quiz abraçar o moço official.
--Dê-me essa triste honra, disse elle; creia que estes braços são de amigo.
Jorge deixou-se ir, sem enthusiasmo; mas quando sentiu o corpo do pae de Estella, pareceu-lhe que abraçava uma parte da moça, e apertou-o fortemente ao peito. Esta manifestação lisonjeou extremamente o outro; chegou a commovel-o.
--Conte commigo, murmurou elle; fico para ajudal-o.
Jorge ouviu-o, apertou-lhe machinalmente as mãos, recebeu um abraço ultimo e atirou-se á rua.
Intoleravel é a dor que não deixa sequer e direito de arguir a fortuna. O mais duro dos sacrificios é o que não tem as consolações da consciencia. Essa dor padecia-a Jorge; esse sacrificio ia consumal-o.
Não foi dalli para casa; não ousaria encarar sua mãe. Durante a primeira hora que se seguiu á saída da casa de Estella, não pode reger os pensamentos; elles cruzavam-lhe o cerebro sem ordem nem deducção. O coração batia-lhe rijo na arca do peito; de quando em quando o corpo era tomado de calefrios. Ia despeitado, humilhado, com um dente de remorso no coração. Quizera de um só gesto eliminar a scena daquella noite, quando menos apagal-a da lembrança. As palavras de Estella retiniam-lhe ao ouvido como um silvo de vento colerico; elle trazia no espirito a figura desdenhosa da moça, o gesto sem ternura, os olhos sem misericordia. Ao mesmo tempo, lembrava-lhe a scena da Tijuca, e alguma cousa lhe dizia que essa noite era a desforra daquella manhã. Ora sentia-se odioso, ora ridiculo.