Yayá Garcia

Part 1

Chapter 13,998 wordsPublic domain

COLLECÇÃO DOS AUTORES CELEBRES

DA

LITTERATURA BRASILEIRA

YAYÁ GARCIA

POR

MACHADO DE ASSIS

NOVA EDIÇÃO

LIVRARIA GARNIER

109, RUA DO OUVIDOR, 109--6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6

RIO DE JANEIRO--PARIS

1919

INDICE CAPITULO I CAPITULO II CAPITULO III CAPITULO IV CAPITULO V CAPITULO VI CAPITULO VII CAPITULO VIII CAPITULO IX CAPITULO X CAPITULO XI CAPITULO XII CAPITULO XIII CAPITULO XIV CAPITULO XV CAPITULO XVI CAPITULO XVII

YAYÁ GARCIA

I

Luiz Garcia transpunha a soleira da porta, para sair, quando appareceu um creado e lhe entregou esta carta:

«5 de Outubro de 1866.

«Sr. Luiz Garcia--Peço-lhe o favor de vir falar-me hoje, de uma a duas horas da tarde. Preciso de seus conselhos, e talvez de seus obsequios.--VALERIA.»

--Diga que irei. A senhora está cá no morro?

--Não, senhor, está na rua dos Invalidos.

Luiz Garcia era funccionario publico. Desde 1860 elegera no logar menos povoado de Santa Thereza uma habitação modesta, onde se metteu a si e a sua viuvez. Não era frade, mas queria como elles a solidão e o socego. A solidão não era absoluta, nem o socego ininterrompido; mas eram sempre maiores e mais certos que cá embaixo. Os frades que, na puericia da cidade, se tinham alojado nas outras collinas, desciam muita vez,--ou quando o exigia o sacro ministerio, ou quando o governo precisava da espada canonica,--e as occasiões não eram raras; mas geralmente em derredor de suas casas não ia soar a voz da labutação civil. Luiz Garcia podia dizer a mesma cousa; e, porque nenhuma vocação apostolica o incitava a abrir a outros a porta de seu refugio, podia dizer-se que fundara um convento em que elle era quasi toda a communidade, desde prior até noviço.

No momento em que começa esta narrativa, tinha Luiz Garcia quarenta e um annos. Era alto e magro, um começo de calva, barba rapada, ar circumspecto. Suas maneiras eram frias, modestas e cortezes; a physionomia um pouco triste. Um observador attento podia adivinhar por traz daquella impassibilidade apparente ou contrahida as minas de um coração desenganado. Assim era; a experiencia, que foi precoce, produzira em Luiz Garcia um estado de apathia e scepticismo, com seus laivos de desdem. O desdem não se revelava por nenhuma expressão exterior; era a ruga sardonica do coração. Por fora, havia só a mascara immovel, o gesto lento e as attitudes tranquillas. Alguns poderiam temel-o, outros detestal-o, sem que merecesse execração nem temor. Era inoffensivo por temperamento e por calculo. Como um celebre ecclesiastico, tinha para si que uma onça de paz vale mais que uma libra de victoria. Poucos lhe queriam deveras, e esses empregavam mal a affeição, que elle não retribuia com affeição egual, salvo duas excepções. Nem por isso era menos amigo de obsequiar. Luiz Garcia amava a especie e aborrecia o individuo. Quem recorria a seu prestimo, era raro que hão obtivesse favor. Obsequiava sem zelo, mas com efficacia, e tinha a particularidade de esquecer o beneficio, antes que o beneficiado o esquecesse.

A vida de Luiz Garcia era como a pessoa delle,--taciturna e retrahida. Não fazia nem recebia visitas. A casa era de poucos amigos; havia lá dentro a melancolia da solidão. Um só logar podia chamar-se alegre; eram as poucas braças de quintal que Luiz Garcia percorria e regava todas as manhãs. Erguia-se com o sol, tomava do regador, dava de beber ás flores e á hortaliça; depois recolhia-se e ia trabalhar antes do almoço, que era ás oito horas. Almoçado, descia a passo lento até á repartição, onde, se tinha algum tempo, folheava rapidamente as gazetas do dia. Trabalhava silenciosamente, com a fria serenidade do methodo. Fechado o expediente, voltava logo para casa, detendo-se raras vezes em caminho. Ao chegar a casa, já o preto Raymundo lhe havia preparado a mesa,--uma mesa de quatro a cinco palmos,--sobre a qual punha o jantar, parco em numero, mediocre na especie, mas farto e saboroso para um estomago sem aspirações nem saudades. Ia d'alli ver as plantas e reler algum tomo truncado, até que a noite caía. Então, sentava-se a trabalhar até ás nove horas, que era a hora do chá.

Não sómente o teor da vida tinha essa uniformidade, mas tambem a casa participava della. Cada movel, cada objecto,--ainda os infimos,--parecia haver-se petrificado. A cortina, que usualmente era corrida a certa hora, como que se enfadava se lhe não deixavam passar o ar e a luz, á hora costumada; abriam se as mesmas janellas e nunca outras. A regularidade era o estatuto commum. E se o homem amoldara as cousas a seu geito, não admira que amoldasse tambem o homem. Raymundo parecia feito expressamente para servir Luiz Garcia. Era um preto de cincoenta annos, estatura mediana, forte, apezar de seus largos dias, um typo de africano, submisso e dedicado. Era escravo e livre. Quando Luiz Garcia o herdou de seu pae,--não avultou mais o espolio,--deu-lhe logo carta de liberdade. Raymundo, nove annos mais velho que o senhor, carregara-o ao collo, e amava-o como se fora seu filho. Vendo-se livre, pareceu-lhe que era um modo de o expellir de casa, e sentiu um impulso atrevido e generoso. Fez um gesto para rasgar a carta de alforria, mas arrependeu-se a tempo. Luiz Garcia viu só a generosidade, não o atrevimento; palpou o affecto do escravo, sentiu-lhe o coração todo. Entre um e outro houve um pacto que para sempre os uniu.

--És livre, disse Luiz Garcia; viverás commigo até quando quizeres.

Raymundo foi dalli em diante um como espirito externo de seu senhor; pensava por este e reflectia-lhe o pensamento interior, em todas as suas acções, não menos silenciosas que pontuaes. Luiz Garcia não dava ordem nenhuma; tinha tudo á hora e no logar competente. Raymundo, posto fosse o unico servidor da casa, sobrava-lhe tempo, á tarde, para conversar com o antigo senhor, no jardinete, emquanto a noite vinha caindo. Alli falavam de seu pequeno mundo, das raras occurrencias domesticas, do tempo que devia fazer no dia seguinte, de uma ou outra circumstancia exterior. Quando a noite caía de todo, e a cidade abria os seus olhos de gaz, recolhiam-se elles a casa, a passo lento, á ilharga um do outro.

--Raymundo hoje vae tocar, não é? dizia ás vezes o preto.

--Quando quizeres, meu velho.

Raymundo accendia as velas, ia buscar a marimba, caminhava para o jardim, onde se sentava a tocar e a cantarolar baixinho umas vozes de Africa, memorias desmaiadas da tribu em que nascera. O canto do preto não era de saudade; nenhuma de suas cantilenas vinha afinada na clave pezarosa. Alegres eram, guerreiras, enthusiastas; por fim calava-se. O pensamento, em vez de volver ao berço africano, galgava a janella da sala em que Luiz Garcia trabalhava e pousava sobre elle como um feitiço protector. Quaesquer que fossem as differenças civis e naturaes entre os dous, as relações domesticas os tinham feito amigos.

Entretanto, das duas affeições de Luiz Garcia, Raymundo era apenas a segunda; a primeira era uma filha.

Se o jardim era a parte mais alegre da casa, o domingo era o dia mais festivo da semana. No sabbado, á tarde, acabado o jantar, descia Raymundo até á rua dos Arcos, a buscar a sinhá-moça, que estava sendo educada em um collegio. Luiz Garcia esperava por elles, sentado á porta ou encostado á janella, quando não era escondido em algum recanto da casa para fazer rir a pequena. Se a menina o não via á janella ou á porta, percebia que se escondera e corria a casa, onde não era difficil dar com elle, porque os recantos eram poucos. Então caíam nos braços um do outro. Luiz Garcia pegava della e sentava-a nos joelhos. Depois, beijava-a, tirava-lhe o chapellinho, que cobria os cabellos acastanhados e lhe tapava parte da testa rosada e fina; beijava-a outra vez, mas então nos cabellos e nos olhos,--os olhos, que eram claros e filtravam uma luz insinuante e curiosa.

Contava onze annos e chamava-se Lina. O nome domestico era Yayá. No collegio, como as outras meninas lhe chamassem assim, e houvesse mais de uma com egual nome, accrescentavam-lhe o appellido de familia. Esta era Yayá Garcia. Era alta, delgada, travessa; possuia os movimentos subitos e incoherentes da andorinha. A boca desabrochava facilmente em riso,--um riso que ainda não toldavam as dissimulações da vida, nem ensurdeciam as ironias de outra edade. Longos e muitos eram os beijos trocados com o pae. Luiz Garcia punha-a no chão, tornava a subil-a aos joelhos, até que consentia finalmente em separar-se della por alguns instantes. Yayá ia ter com o preto.

--Raymundo, o que é que você me guardou?

--Guardei uma cousa, respondia elle sorrindo. Yayá não é capaz de adivinhar o que é.

--É uma fructa.

--Não é.

--Um passarinho?

--Não adivinhou.

--Um doce?

--Que doce é?

--Não sei; dá cá o doce.

Raymundo negaceava ainda um pouco; mas afinal entregava a lembrança guardada. Era ás vezes um confeito, outras uma fructa, um insecto exquisito, um molho de flores. Yayá festejava a lembrança do escravo, dando saltos de alegria e de agradecimento. Raymundo olhava para ella, bebendo a felicidade que se lhe entornava dos olhos, como um jôrro de agua pura. Quando o presente era uma fructa ou um doce, a menina trincava-o logo, a olhar e a rir para o preto, a gesticular, e a interromper-se de quando em quando:

--Muito bom! Raymundo é amigo de Yayá... Viva Raymundo!

E seguia d'alli a mudar de roupa, e a visitar o resto da casa e o jardim. No jardim achava o pae já sentado no banco do costume, com uma das pernas sobre a outra, e as mãos cruzadas sobre o joelho. Ia ter com elle, sentava-se, erguia-se, colhia uma flor, corria atraz dos insectos. De noite, não havia trabalho para Luiz Garcia; a noite, como o dia seguinte, era toda consagrada á creança. Yayá referia ao pae as anedoctas do collegio, as puerilidades que não valem mais nem menos que outras da edade madura, as intriguinhas de nada, as pirraças de cousa nenhuma. Luiz Garcia escutava-a com egual attenção á que prestaria a uma grande narrativa historica. Seu magro rosto austero perdia a frieza e a indifferença; inclinado sobre a mesa, com os braços estendidos, as mãos da filha nas suas, considerava-se o mais venturoso dos homens. A narrativa da pequena era como costumam ser as da edade infantil: desegual e truncada, mas cheia de um colorido seu. Elle ouvia-a sem interromper; corrigia, sim, algum erro de prosodia ou alguma reflexão menos justa; fóra disso, ouvia sómente.

Pouco depois da madrugada todos tres estavam de pé. O sol de Santa Thereza era o mesmo da rua dos Arcos; Yayá, porém, achava-lhe alguma cousa mais ou melhor, quando o via entrar pela alcova dentro, atravez das persianas. Ia á janella que dava para uma parte do jardim. Via o pae bebendo a chicara de café, que aos domingos precedia o almoço. Ás vezes ia ter com elle; outras vezes elle caminhava para a janella, e, com o peitoril de permeio, trocavam os osculos da saudação. Durante o dia, Yayá derramava pela casa todas as sobras de vida, que tinha em si. O rosto de Luiz Garcia accendia-se de um reflexo de juventude, que lhe dissipava as sombras accumuladas pelo tempo. Raymundo vivia da alegria dos dous. Era domingo para todos tres, e tanto o senhor como o antigo escravo não ficavam menos collegiaes que a menina.

--Raymundo, dizia esta, você gosta de santo de comer?

Raymundo empertigava o corpo, abria um riso, e dando aos quadris e ao tronco o movimento de suas danças africanas, respondia cantarolando:

--Bonito santo! santo gostoso!

--E santo de trabalhar?

Raymundo, que já esperava o reverso, estacava subitamente, punha a cabeça entre as mãos, e affastava-se murmurando com terror:

--Eh... eh... não fala nesse santo, Yayá! não fala nesse santo!

--E santo de comer?

--Bonito santo! santo gostoso!

E o preto repetia o primeiro jogo, depois o segundo, até que Yayá, aborrecida, passava a outra cousa.

Não havia só recreio. Uma parte minima do dia,--pouco mais de uma hora,--era consagrada ao exame do que Yayá aprendera no collegio, durante os dias anteriores. Luiz Garcia interrogava-a, fazia-a ler, contar e desenhar alguma cousa. A docilidade da menina encantava a alma do pae. Nenhum receio, nenhuma hesitação; respondia, lia ou desenhava, conforme lhe era mandado ou pedido.

--Papae quer ouvir tocar piano? disse ella um dia; olhe, é assim.

E com os dedos na borda da mesa, executava um trecho musical, sobre teclas ausentes. Luiz Garcia sorriu, mas um veu lhe empanou os olhos. Yayá não tinha piano! Era preciso dar-lhe um, ainda com sacrificio. Se ella aprendia no collegio, não era para tocar mais tarde em casa? Este pensamento enraizou-se-lhe no cerebro e turbou o resto do dia. No dia seguinte, Luiz Garcia encheu-se de valor, pegou da caderneta da Caixa Economica e foi retirar o dinheiro preciso para comprar um piano. Eram da filha as poucas economias que ajuntava; o piano era para ella egualmente; não lhe diminuia a herança.

Quando no seguinte sabbado, Yayá viu o piano, que o pae lhe foi mostrar, sua alegria foi intensa, mas curta. O pae abrira-o, ella accordou as notas adormecidas no vasto movel, com suas mãosinhas ainda incertas e debeis. A um dos lados do instrumento, com os olhos nella, Luiz Garcia pagava-se do sacrificio, contemplando a satisfação da filha. Curta foi ella. Entre duas notas, Yayá parou, olhou para o pae, para o piano, para os outros moveis; depois descaiu-lhe o rosto, disse que tinha uma vertigem. Luiz Garcia ficou assustado, pegou della, chamou Raymundo; a creança affirmou que estava melhor, e finalmente que a vertigem passara de todo. Luiz Garcia respirou; os olhos de Yayá não ficaram mais alegres, nem ella foi tão travessa como costumava ser.

A causa da mudança, desconhecida para Luiz Garcia, era a penetração que madrugava no espirito da menina. Lembrara-se ella, repentinamente, das palavras que proferira e do gesto que fizera, no domingo anterior; por ellas explicou a existencia do piano; comparou-o, tão novo e lustroso, com os outros moveis da casa, modestos, usados, encardida a palhinha das cadeiras, roido do tempo e dos pés um velho tapete, contemporaneo do sophá. Dessa comparação extrahiu a ideia do sacrificio que o pae devia ter feito para condescender com ella; ideia que a poz triste, ainda que não por muito tempo, como succede ás tristezas pueris. A penetração madrugava, mas a dor moral fazia tambem irrupção naquella alma até agora isenta da jurisdicção da fortuna.

Passou! Bem depressa os sons do piano vieram casar-se ao gorgeio de Yayá e ao riso do escravo e do senhor. Era mais uma festa aos domingos. Yayá confiou um dia ao pae a ideia que tinha de ser mestra de piano. Luiz Garcia sorria a esses planos da meninice, tão frageis e fugidios como suas impressões. Tambem elle os tivera aos dez annos. Que lhe ficara dessas primeiras ambições? Um residuo e nada mais. Mas assim como as aspirações daquelle tempo o fizeram feliz, era justo não dissuadir a filha de uma ambição, aliás innocente e modesta. Oxalá não viesse a ter outras de mais alto vôo! Demais, que lhe poderia elle desejar, senão aquillo que a tornasse independente e lhe désse os meios de viver sem favor? Yayá tinha por si a belleza e a instrucção; podia não ser bastante para lhe dar casamento e familia. Uma profissão honesta aparava os golpes possiveis da adversidade. Não se podia dizer que Yayá tivesse talento musical: que importa? Para ensinar a grammatica da arte, era sufficiente conhecel-a.

Resta dizer que havia ainda uma terceira affeição de Yayá; era Maria das Dores, a ama que a havia creado, uma pobre catharinense, para quem só havia duas devoções capazes de levar uma alma ao ceu: Nossa Senhora e a filha de Luiz Garcia. Ia ella de quando em quando á casa deste, nos dias em que era certo encontrar lá a menina, e ia de S. Christovão, onde morava. Não descançou em quanto não alugou um casebre em Santa Thereza, para ficar mais perto da filha de creação. Um irmão, antigo forriel, que fizera a campanha contra Rosas, era seu companheiro de trabalho.

Tal era a vida uniforme e placida de Luiz Garcia. Nenhuma ambição, cobiça ou peleja vinha toldar-lhe a serenidade da alma. A ultima dor séria que tivera foi a morte da esposa, occorrida em 1859, mezes antes de ir-se elle esconder em Santa Thereza. O tempo, esse chimico invisivel, que dissolve, compõe, extrahe e transforma todas as substancias moraes, acabou por matar no coração do viuvo, não a lembrança da mulher, mas a dor de a haver perdido. Importa dizer que as lagrimas derramadas nessa occasião honraram a esposa morta, por serem conquista sua. Luiz Garcia não casára por amor nem interesse; casara porque era amado. Foi um movimento generoso. A mulher não era de sua mesma indole; seus espiritos vinham de pontos differentes do horizonte. Mas a dedicação e o amor da esposa abriram nelle a fonte da estima. Quando ella morreu, viu Luiz Garcia que perdera um coração desinteressado e puro; consolou-o a esperança de que a filha havia herdado uma parcella delle.

Assim vivia esse homem sceptico, austero e bom, alheio ás cousas extranhas, quando a carta de 5 de Outubro de 1866 veiu chamal-o ao drama que este livro pretende narrar.

II

A hora aprazada era incommoda para Luiz Garcia, cujos habitos de trabalho mal soffriam interrupção. Não obstante, foi á rua dos Invalidos.

Valeria Gomes era viuva de um desembargador honorario, fallecido cêrca de dous annos antes, a quem o pae de Luiz Garcia devera alguns obsequios e a quem este prestara outros. Não havia entre ella e Luiz Garcia relações assiduas ou estreitas; mas a viuva e seu finado marido sempre o tiveram em boa conta e o tratavam com muito carinho. Defunto o desembargador, Valeria recorrera duas ou tres vezes aos serviços de Luiz Garcia; com tudo, era a primeira vez que o fazia com tamanha solemnidade.

Valeria recebeu-o affectuosamente, estendendo-lhe a mão, ainda fresca, apezar dos annos, que subiam de quarenta e oito. Era alta e robusta. A cabeça, forte e levantada, parecia protestar pela altivez da attitude contra a molleza e tristura dos olhos. Estes eram negros, a sobrancelha basta, o cabello abundante, listrado de alguns fios de prata. Posto não andasse alegre nos ultimos tempos, estava naquelle dia singularmente preoccupada. Logo que entraram na sala, deixou-se cair n'uma poltrona; caiu e ficou silenciosa alguns instantes. Luiz Garcia sentou-se tranquillamente na cadeira que ella lhe designou.

--Sr. Luiz Garcia, disse a viuva; esta guerra do Paraguay é longa, e ninguem sabe quando acabará. Vieram noticias hoje?

--Não me consta.

--As de hontem não me animaram nada, continuou a viuva depois de um instante. Não creio na paz que o Lopez veiu propor. Tenho medo que isto acabe mal.

--Póde ser, mas não dependendo de nós...

--Porque não? Eu creio que é chegado o momento de fazerem todas as mães um grande esforço e darem exemplos de valor, que não serão perdidos. Pela minha parte trabalho com o meu Jorge para que vá alistar-se como voluntario; podemos arranjar-lhe um posto de alferes ou tenente; voltará major ou coronel. Elle, entretanto, resiste até hoje; não é falta de coragem nem de patriotismo; sei que tem sentimentos generosos. Comtudo, resiste...

--Que razão dá elle?

--Diz que não quer separar-se de mim.

--A razão é boa.

--Sim, porque tambem a mim custaria a separação. Mas não se trata do que eu ou elle podemos sentir: trata-se de cousa mais grave,--da patria, que está acima de nós.

Valeria proferiu estas palavras com certa animação, que a Luiz Garcia pareceu mais simulada que sincera. Não acreditou no motivo publico. O interesse que a viuva mostrava agora em relação á sorte da campanha era totalmente novo para elle. Excluido o motivo publico, algum haveria que ella não quizera ou não podia revellar. Justificaria elle semelhante resolução? Não se atreveu a formular a suspeita e a duvida; limitou-se a dissuadil-a, dizendo que um homem de mais ou de menos não pesaria nada na balança do destino, e desde que ao filho repugnava a separação era mais prudente não insistir. Valeria redarguia a todas essas reflexões com algumas ideias geraes acerca da necessidade de dar fortes exemplos ás mães. Quando foi preciso variar de resposta, declarou que entrava no projecto um pouco de interesse pessoal.

--Jorge está formado, disse ella; mas não tem quéda para a profissão de advogado nem para a de juiz. Goza por em quanto a vida; mas os dias passam, e a ociosidade faz-se natureza com o tempo. Eu quizera dar-lhe um nome illustre. Se fôr para a guerra, poderá voltar coronel, tomar gôsto ás armas, seguil-as e honrar assim o nome de seu pae.

--Bem; mas vejamos outra consideração. Se elle morrer?

Valeria empallideceu e esteve alguns minutos calada, emquanto Luiz Garcia olhava para ella, a ver se lhe adivinhava o trabalho interior da reflexão, esquecendo que a ideia de um desastre possivel devia ter-lhe accudido, desde muito, e se não recuara deante della, é porque a resolução era inabalavel.

--Pensei na morte, disse Valeria dahi a pouco; e, na verdade, antes a obscuridade de meu filho que um desastre... mas repelli essa ideia. A consideração superior de que lhe falei deve vencer qualquer outra.

Em seguida, como para impedir que elle insistisse nas reflexões apresentadas antes, disse-lhe claramente que, deante da recusa de Jorge, contava com o influxo de seus conselhos.

--O senhor é nosso amigo, explicou ella; seu pae tambem foi nosso amigo. Sabe que um e outro sempre nos mereceram muita consideração. Em todo caso, não quizera recorrer a outra pessoa.

Luiz Garcia não respondeu logo; não tinha animo de acceitar a incumbencia e não queria abertamente recusar; procurava um meio de esquivar-se á resposta. Valeria insistiu por modo que era impossivel calar mais tempo.

--O que me pede é muito grave, disse elle; se o Dr. Jorge der algum peso a meus conselhos e seguir para a guerra, assumo uma porção de responsabilidade, que não só me ha-de gravar a consciencia, como influirá para alterar nossas relações e diminuir talvez a amizade benevola que sempre achei nesta casa. O obsequio que hoje exige de mim, quem sabe se m'o não lançará em rosto um dia como acto de leviandade?

--Nunca.

--Nesse dia, observou Luiz Garcia sorrindo levemente, ha-de ser tão sincera como hoje.

--Oh! o senhor está com ideias negras! Eu não creio na morte; creio só na vida e na gloria. A guerra começou ha pouco e ha já tanto heroe! Meu filho será um delles.

--Não creio em presentimentos.

--Recusa?

--Não me atrevo a acceitar.

Valeria ficou abatida com a resposta. Após alguns minutos de silencio, ergueu-se e foi buscar o lenço que deixara sobre um movel, ao entrar na sala. Enxugou o rosto, e ficou a olhar para o chão, com um dos braços cahidos, em attitude meditativa. Luiz Garcia começou a reflectir no modo de a dissuadir efficazmente. Seu scepticismo não o fazia duro aos males alheios, e Valeria parecia padecer naquelle instante, qualquer que fosse a sinceridade de suas declarações. Elle quizera achar um meio de conciliar os desejos da viuva com a sua propria neutralidade,--o que era puramente difficil.

--Seu filho não é creança, disse elle; está com vinte e quatro annos; pode decidir por si, e naturalmente não me dirá outra cousa... Demais, é duvidoso que se deixe levar por minhas suggestões, depois de resistir aos desejos de sua mãe.

--Elle respeita-o muito.

Respeitar não era o verbo pertinente; attender fora mais cabido, porque exprimia a verdadeira natureza das relações entre um e outro. Mas a viuva lançava mão de todos os recursos para obter de Luiz Garcia que a ajudasse em persuadir o filho. Como elle lhe dissesse ainda uma vez que não podia acceitar a incumbencia, viu-a morder o labio e fazer um gesto de despeito. Luiz Garcia adoptou então um meio termo:

--Prometto-lhe uma cousa, disse elle; irei sondal-o, discutir com elle os prós e os contras do seu projecto, e se o achar mais inclinado...

Valeria abanou a cabeça.