Yayá Garcia

Part 13

Chapter 133,971 wordsPublic domain

--Se lhe parece, esqueça o meu conselho, disse elle, e não me leve a mal se lhe preguei um susto. Talvez o susto haja passado. Não importa; creia que ha casamentos impossiveis; casamentos destinados a... não sei a que... pode ser que a cousa nenhuma... ou a cousa muito grave, muito grave.

--Cale-se! rugiu surdamente a moça.

Procopio Dias continuou:

--Uma só palavra, disse elle. Hade attribuir ao despeito o aviso que lhe dei. É verdade; ha uma grande porção de despeito em mim. Porque lhe falaria eu, se não tivesse um motivo pessoal? Esse homem trahiu-me; eu tinha-lhe confiado o deposito do meu amor; elle abusou da confiança: fez-se amado em meu logar. Não me queixo da senhora. A senhora não me devia nada;--um pouco de sympathia, talvez;--no futuro, pode ser que me deva tambem um pouco de gratidão.

Procopio Dias saiu logo depois destas palavras. Estava satisfeito; desde que pode formular em um ou dous raciocinios o sentimento occulto que o fazia agir, achou nelle a legitimidade de tudo o que acabava de dizer. Era um duello; recebera um golpe na espadua, respondia com outro no coração, mais certeiro e provavelmente mortal; e se não era duello, era emboscada por emboscada; direito de represalia.

Prostrada com o golpe que acabava de receber, Yayá não teve sequer as lagrimas do desespero nem as da indignação. Ha dores seccas, como ha coleras mudas. A suspeita, que o tempo devia carcomer de todo, e que o amor de Jorge ia já tornando problematica, essa ruim suspeita renascia tão vivaz e pertinaz como alguns mezes antes, quando arrancou aos olhos de Yayá as primeiras lagrimas de mulher. Não podia crer que o amor de Jorge não fosse sincero; era-o; parecia-o, ao menos. Mas a existencia do outro amor, não era já o coração que lh'o dizia, era uma voz extranha que a vinha delatar: circumstancia nova, que fazia convalescer a duvida anterior, até o ponto de lhe dar todos os visos da realidade. Yayá sentia-se arrojada outra vez ao vasto e escuro espaço de suas antigas cogitações;--erma, desamparada de toda protecção humana, não lhe restava mais que duvidar e gemer, até achar na propria ductilidade de seu espirito a força que lhe não podia dar nenhuma origem exterior.

A madrasta foi ter com ella meia hora depois de sair Procopio Dias. Pouco antes, o marido tivera tamanha afflicção, que Estella chegou a receiar o ultimo golpe; agora ficava prostrado. Estella appareceu á enteada com o olhar ainda assustado e o passo mal seguro; Yayá não viu essa mudança, nem ouviu as primeiras palavras com que ella lhe falou do pae. Olhava só, emquanto o coração parecia querer despedaçar-lhe a arca do peito.

--Yayá, ande ter com seu pae; seu pae está hoje muito doente.

Vendo que a moça não se movia, Estella lançou-lhe o braço á roda da cintura.--Vamos, disse. Yayá estremeceu toda; depois, mettendo-lhe as mãos nos hombros, empurrou-a violentamente e caminhou para a porta.

--Yayá! bradou a madrasta.

A enteada voltou-se, e, estendendo o dedo sobre os labios, impoz-lhe silencio. O olhar desvairado e inconscio parecia antes de loucura que de indignação. Estella ficou estupefacta.

Luiz Garcia foi o laço que ainda pode conservar atadas essas duas existencias, já agora antipathicas uma á outra. A vida delle era necessaria a ambas. Uma punha nella todas as esperanças de um coração credulo; outra apenas lhe dava aquella porção ultima, que não desampara os necessitados. Tregoas houve, mas sombrias e violentas. Não se falavam as duas, não trocavam um só olhar na ausencia de Luiz Garcia; deante delle, mostravam-se como d'antes. Esta situação incomportavel parecia, aliás, definitiva.

Jorge percebeu-a; elle proprio sentiu a principio o effeito de um acontecimento, que não podia adivinhar e necessariamente era grave. Yayá, porém, venceu-se depressa em relação a elle. A alma, se o vento lh'a fizera dobrar, para logo retomou a posição dos outros dias; mostrou-se terna com elle, affavel, impaciente de concluir o casamento. Um só pensamento influia nella: confiscar aquelle homem, arrastal-o comsigo, dominal-o depois, despedaçar de uma vez o laço que suppunha atal-o ao coração da madrasta.

Marcou-se um sabbado para o casamento; mas os primeiros dias da semana foram de tão mau agouro, que a familia resolveu deferil-o para melhor occasião. O enfermo peiorou rapidamente. A molestia entrou no ultimo periodo.

Yayá viu morrer tristemente o sol do sabbado, e não viu nascer mais aprazivelmente o de domingo. Não pensava ainda na morte do pae, mas alguma cousa lhe fazia tremer o coração. A presença de Jorge é que lhe dava animo e conforto, posto que elle proprio se sentisse apprehensivo com o desenlace proximo da enfermidade de Luiz Garcia.

Lenta e caprichosa nos primeiros tempos, a enfermidade teve rapido e inflexivel o periodo ultimo. No fim de poucos dias a morte foi declarada imminente. Estella, não obstante achar-se preparada para o golpe, mal pode resistir ao primeiro abalo. Yayá ficou como douda. O pae fora a sua primeira e continua adoração. Durante alguns annos não conheceu outro mundo, outro affecto, outra familia, além daquelle homem grave e terno, cujos olhos a protegiam e alumiavam. No primeiro instante não pode crer na triste nova. Mas a realidade avultou a seus olhos, e foi então que a alma tentou romper todos os elos e voar, antes d'elle, a esperal-o na immensa vastidão azul, para emprehenderem juntos a derradeira viagem. Não chorou nas primeiras horas; a dor trancara-lhe as lagrimas; mas estas vieram logo depois, e ella as verteu em silencio, suffocando os soluços, estorcendo-se na solidão da alcova.

Luiz Garcia reiterou a Jorge o pedido que lhe fizera um vez, em relação á familia; mas agora restringia-o a Estella.

--Peço-lhe que não desampare os meus. Sei que morro, e quero ter a certeza de que só deixo algumas saudades. O senhor vae casar com minha filha; nada me inquieta a este respeito. Mas Estella, que não é mãe de Yayá, ou é sómente mãe de coração, Estella vae ficar só, e eu não quizera morrer com a ideia de que a deixo infeliz. Promette-me que não a desamparará nunca?

Jorge prometteu. Estella, que estava presente, procurou tranquillisar o enfermo, e pediu-lhe que não falasse tanto. Luiz Garcia não attendeu; exaltou as virtudes da mulher, a dedicação, o zelo, a affeição que lhe tinha.

--Digo-lhe que fui feliz, concluiu elle; minha alma era já velha, quando a d'ella se lhe uniu, e comtudo... sim, minha alma rejuvenesceu um pouco...

--Já tem falado muito, interrompeu Estella, descance, não quero que diga mais nada.

Luiz Garcia pediu ainda á mulher e á filha que se amassem como até alli. Tinha falado excessivamente; ficara abatido. D'alli em deante, a morte não fez mais do que apoderar-se, trecho a trecho, da sua victima. Já a noite d'esse dia foi mais cruel que as anteriores; todo o seguinte dia foi de angustia para as duas mulheres. Na manhã do outro começou a agonia d'elle, que durou algumas horas.

Ao vel-o morrer, as duas mulheres ficaram longo tempo prostradas. Era a primeira vez que contemplavam a morte. Nenhuma d'ellas vira nunca expirar uma só creatura humana, e a primeira que a seus olhos se despedia da vida representava para ellas largos annos de affeição terna e profunda, e o mais forte laço moral que as ligava uma a outra. N'esse instante solemne, abraçaram-se sem reflexão; a dor impelliu-as com a mão de ferro, e, madrasta e enteada confundiram alli suas nobres, tristes e inuteis lagrimas.

Aos pés da cama, com o gesto dolorido, Jorge via a afflicção duas das mulheres, sem lhes poder nem querer valer. Quanto a Raymundo, não pode ver expirar o senhor; correu ao jardim, onde ficou longo tempo sentado no chão, com a cabeça encanecida entre os joelhos, sacudido pela violencia dos soluços.

XVI

A morte de Luiz Garcia foi uma complicação mais. Passados os primeiros dous mezes, Jorge pensou em realisar o casamento, sem apparato, como um simples acto de interesse domestico, aliás necessario pela situação em que se achavam as duas senhoras. O Sr. Antunes fora morar com ellas, e era o chefe natural da familia; mas Jorge não esquecera que Luiz Garcia nenhuma confiança tinha na pessoa do sogro; demais, entregara directamente a Jorge a chefia da casa. Ora, cumpria legalisar e sanctificar a designação do moribundo.

Mas, se isto lhe parecia claro e necessario, não se atrevia ainda assim propôl-o á noiva, e por duas razões. A primeira era o natural respeito á dor da filha, que elle podia magoar ainda mais falando-lhe desde logo no casamento. Era a segunda a frieza e o silencio com que esta o tratava depois da morte do pae. A differença era positiva e inexplicavel; mas a boa fé explica tudo, e Jorge attribuiu essa nova feição da moça ao profundo golpe que o desastre lhe desfechara. Sabia da paixão filial de Yayá; era testemunha dessa adoração constante, que parecia contar com a eternidade da vida.

A ideia de falar a Estella apenas lhe passou pela mente; rejeitou-a sem esforço. Limitou-se a esperar, e ia alli com a assiduidade que lhe permittia a condição de noivo. Ia ás noites, não todas; passava uma ou duas horas, a atar e desatar uma conversação frouxa, muita vez sem interesse. Sobre todos tres, mas principalmente sobre as duas, pesava ainda a lembrança do finado. O Sr. Antunes tomava parte nessas conversações intimas, e era elle quem forcejava por lhes dar a perdida animação; temperava-a com algum dito folgazão, ouvido com indifferença, quando não com tedio. Posto que o casamento de Jorge com a enteada da filha estivesse tratado, elle nutria a esperança de que alguma cousa o viria desfazer, e nessa carta incerta jogava todo o futuro.

Uma noite, Jorge propoz directamente a Yayá a necessidade de apressar o casamento.

Não sendo a ceremonia publica, disse elle, não daremos que falar aos outros, se alguma cousa ha que falar...

--Quer a minha resposta hoje mesmo? interrompeu Yayá.

--Podia ser hoje.

Estella que estava presente, apoiou a reflexão de Jorge.--Convem decidir quanto antes, disse ella; não vale a pena deixar passar mais tempo sem utilidade.

--Sem utilidade, repetiu Yayá olhando para o tecto.

--Decerto...

Yayá baixou os olhos aos dous; fitou-os a um e outro, longo tempo, com severidade; depois, retorquiu em tom rispido:

--Deixem-me ao menos o tempo de chorar meu pae!

Jorge proferiu algumas palavras de affeição; Estella não protestou nem retorquiu; erguendo-se silenciosamente e deixou-os. O silencio foi longo. Jorge não tomara á má parte a supplica da noiva; attribuiu-a ao sentimento de piedade filial, que era nella mais forte que qualquer outro.

--Yayá, disse elle, ninguem lhe nega o direito de chorar seu pae; se insistimos é em beneficio da familia. Seu pae recommendou-me que olhasse pelos seus, e eu quizera poder fazel-o, não como extranho, mas como parente; por isso lembrei a conveniencia de realisar o casamento quanto antes, mas se lhe parece que pode ser addiado...

--Pode.

--Até quando?

--Até um dia.

--Que dia?

--Sabbado de Alleluia, por exemplo.

--Falemos serio, disse Jorge.

--Serio? Dia de S. Nunca.

Jorge franziu a testa.

--Que quer isso dizer? Retira a sua palavra? Em todo o caso, tenho direito de saber o motivo, porque algum motivo ha de haver...

Yayá tinha-se levantado, pegou-lhe na mão e levou-o até á janella. O transtorno das feições era visivel; os olhos luziam de impaciencia, emquanto a palavra parecia medrosa e recalcitrante. Pasmado do que via, e curioso do que ella lhe iria dizer, Jorge não pensou sequer em a aquietar; se lhe pegou nas mãos foi por um movimento instinctivo; mas quando as sentiu geladas e tremulas ficou atterrado.

--Que tem Yayá? Você padece; vamos, fale, diga-me tudo. Já me não ama?

--Se o não amo! disse vivamente a moça deitando os olhos ao ceu, como a tomal-o por testemunha da sinceridade de seu coração; mas logo depois arrependeu-se e continuou de um modo compassado e frio.--Amei-o; não importa saber se muito ou pouco, mas amei-o. O senhor foi a primeira pessoa que me fez bater o coração de um modo differente do que elle batia; foi a primeira pessoa que me disse palavras novas, que me fizeram bem...

Jorge lançou-lhe o braço a cintura e conchegou-a ao coração.--Pois sim, disse elle; eu repetirei essas palavras em todo o resto da nossa vida. Seja boa, e sobretudo seja franca. Para que ha de negar o que se está vendo? Eu sei que ainda me ama...

--Eu? disse a moça deslaçando-se-lhe dos braços. Eu tenho-lhe horror.

Jorge sorriu.--Horror, por que? disse elle. Mas o gesto da moça veiu apagar-lhe o sorriso começado. Yayá levara as mãos ao seio, como se quizera conter os impetos do coração; os olhos luziam-lhe de extraordinario fulgor. Offegante, por alguns minutos, não pode articular uma só palavra; quando chegou a falar disse simplesmente:

--Que razão ha agora para que nos casemos? E depois de uma pausa:--Tenho ciumes do passado, e o senhor amou já uma vez. Assim como eu ia entregar-me ao senhor, com o coração limpo de qualquer outro affecto, assim quizera que o senhor nunca houvesse amado a ninguem. Que é o seu coração para mim? Um sobejo de outra; talvez nem isso; esse mesmo resto não me pertence, não é meu; fiquemos neste ponto, e tome cada um de nós a sua liberdade.

Yayá recusou outra explicação, aliás desnecessaria; a linguagem era transparente. Jorge saiu dalli com o espirito transtornado e confuso. O motivo da recusa, para ser sincero, era pueril ou romanesco demais; nenhuma noiva teve ciumes de um amor anonymo e extincto; logo, a allusão de Yayá não era vaga e sem objecto, mas ia direito á pessoa de Estella. Seria isso? Jorge não queria crer e mal podia duvidar.

No dia seguinte, acabado o almoço, appareceu-lhe o pae de Estella.

--Yayá manda-lhe isto, disse elle saccando da algibeira uma carta.

Jorge recebeu-a presurosamente e abriu-a; leu estas palavras unicas:--«Não posso ser sua mulher; esqueça-me e seja feliz.» Empallideceu; tornou a ler a carta, sem a entender, posto que ella não fosse mais do que a formula escripta e secca do que Yayá lhe dissera na vespera. Mas entre as queixas e effusões de uma hora de desanimo e aquella intimação, havia um abysmo; a carta trazia o cunho da resolução definitiva, que elle não achara ou não quizera achar nas declarações verbaes da moça.

--Yayá deu-lhe isto agora mesmo?

--Antes do almoço, respondeu o Sr. Antunes, cujo olhar forcejava por soletrar no rosto de Jorge algumas linhas do drama que suppunha haver lá dentro.

--Não lhe parece que Yayá anda triste? perguntou Jorge no fim de um minuto.

--A morte do pae prostou-a muito.

Jorge foi dalli ao gabinete; o Sr. Antunes acompanhou-o. A preoccupação do moço era uma chuva benefica ás esperanças do pae de Estella, que todas pareciam reflorir. Como este falasse da filha com a prolixidade astuta do pretendente, Jorge attentou n'uma ideia, que a principio lhe pareceu absurda, mas com a qual se familiarisou a pouco e pouco; mordeu-lhe o coração a suspeita de que o procedimento de Yayá era uma desforra de Estella, uma como vingança posthuma. O inexplicavel da carta podia justificar até certo ponto essa suspeita sem fundamento nem verosimilhança, que afinal acabou por não achar nenhuma repulsa na consciencia delle.

Duas horas depois Jorge escrevia estas poucas palavras á viuva de Luiz Garcia:

«Yayá mandou-me ha pouco o incluso bilhete. Peço-lhe o favor de uma explicação.»

A carta de Yayá fora escripta naquella manhã, depois de uma noite de agitação e luta. Nem foi a unica. Yayá escrevera outra, menos laconica, a Procopio Dias. Morto o pae, esse homem fora alli tres vezes, sem trocar com a moça uma só palavra relativa á extranha confidencia que lhe fizera antes. Eram visitas de meia hora, não mais; durante esse curto lapso de tempo, Procopio Dias não discrepava um instante da gravidade um pouco triste que adoptara. Não era o folgasão primitivo, mas tambem não era um poeta desesperado e pallido; ficava a egual distancia de um e outro modelo. Os acontecimentos pareciam aconselhar-lhe uma discreta ausencia; mas, além de não ter melindres nem escrupulos, floria-lhe no peito a esperança, a esperança tenaz dos cabiçosos. Não a sussurrava ao ouvido da moça, nem a ostentava nos olhos, na compostura, nos meneios, todos elles impregnados da submissão de uma alma desenganada e passiva. Yayá tratava-o com bondade, já agora mais constante; posto não lhe passasse pela cabeça a ideia de vir a desposal-o, não lhe destoava o aspecto dessa paixão resignada e muda.

Depois de soltar a palavra decisiva, Yayá entendeu que lhe devia dar a forma ultima, desligando-se da solemne promessa. Não o fez sem muita lagrima solitaria. A pobre creança amava o filho de Valeria com a singeleza de um coração quasi adolescente, e só então mediu todo o imperio que elle adquirira sobre ella. Mas duas circumstancias a induziam ao desfecho; era a primeira a revelação de Procopio Dias, confirmação de suas suspeitas; a segunda foi o espectaculo que se lhe offereceu aos olhos, naquella noite, logo depois de se despedir do noivo. Sabendo que a madrasta estava no gabinete do pae, alli foi ter e espreitou pela fechadura; viu-a sentada com a cabeça inclinada ao chão, desfeito o penteado, mas desfeito violentamente, como se lhe mettera as mãos em um momento de desespero, e caindo-lhe o cabello em ondas amplas sobre a espadua, com a desordem da peccadora evangelica. Yayá não a viu sem que os olhos se humedecessem.

--Que se casem! disse a moça resolutamente.

Desligando-se da promessa feita, Yayá reflectiu que ia ficar só, e que precisava forçosamente de um amparo; foi então que lhe lembrou Procopio Dias. Não encarou a ideia sem repugnancia; acceitavel na palestra, Procopio Dias era-lhe antipathico para a convivencia conjugal. Não o podia amar, e, uma vez resoluta a acceital-o, começou logo de o aborrecer. Que muito? Era um marido; não exigia outro merito. A carta que lhe escreveu não saiu de um jacto, foi trabalhada e repizada; o texto definitivo dizia que fosse alli sem demora para lhe falar de objecto que interessava á felicidade de ambos. Isto, e nada mais que uma lagrima, que lhe resvalou dos cilios no papel como um protesto contra o que ia nelle escripto.

Raymundo, chamado para levar essa carta, recebeu-a depois de alguma hesitação. Olhou para o papel e para a sinhá moça. Depois sacudiu a cabeça com um ar de duvida. Yayá simulou não ver nada, mas o gesto do preto impressionou-a. Ia affastar-se, Raymundo reteve-a dizendo:

--Yayá me desculpe... esta carta... Raymundo não gosta de falar áquelle homem.

--Não lhe fales; basta deixar a carta em casa delle.

Raymundo não insistiu; acompanhou com os olhos a filha de seu antigo senhor, abanando a cabeça com o mesmo ar de alguns momentos antes. Depois olhou para a carta, como se quizesse adivinhar o que ia dentro. Não era só presentimento, mas tambem deducção do que elle via naquellas ultimas semanas. Tinham-lhe dado noticia do casamento; falara-se nisso todos os dias antes da morte de Luiz Garcia. Morto este, cessou toda a allusão ao projecto, que parecia dever executar-se dentro de pouco tempo. O coração do preto dizia que aquella carta era alguma cousa mais do que um recado sem consequencia. Quiz leval-a a Estella; mas rejeitou o expediente, por lhe parecer infidelidade. Dez minutos depois saiu em direcção á casa de Procopio Dias.

Entretanto, chegavam ás mãos de Estella o bilhete de Jorge e o de Yayá. A viuva não podia crer o que lera. A carta da enteada era um acto de insubordinação, inexplicavel na essencia e na forma: e se essa carta a fez pasmar, a de Jorge fel-a gemer. O noivo desenganado recorria á intervenção de Estella. A primeira amada desse homem era agora a sua confidente, a quem elle escrevia sem saudade, sem remorso, talvez sem hesitação.

--Sogra! concluiu Estella com amargura; e erguendo os olhos do papel para o espelho, que pendia da parede fronteira, contemplou caladamente as suas graças ainda em flor. Yayá entrou nessa occasião. A madrasta chamou-a ao pé de si, e mostrando-lhe o bilhete que escrevera ao noivo, perguntou-lhe o que queria dizer aquillo. A enteada ficou silenciosa durante alguns segundos; mas a resolução deu-lhe força e tranquillidade.

--Quer dizer o que ahi está escripto, respondeu ella; não posso casar com o Dr. Jorge.

--Porque?

--Não posso.

--Porque? repetiu Estella com autoridade.

--Amo a outra pessoa.

--Não creio; tem de certo outro motivo.

--Que motivo?

--Nenhum que seja sensato, acudiu a madrasta, mas algum ha de haver, que não seja esse. O passo que deu é grave; não é proprio de uma moça obediente; chega a ser contrario á cortezia. Não importa; tudo se pode explicar; explique-me esta carta.

Yayá não obedeceu á intimação da madrasta, e para tirar á recusa qualquer apparencia offensiva, conservou um ar de modestia e resignação. Estella não se deu por vencida; demonstrou-lhe que só um motivo grave podia justificar semelhante procedimento, e que era forçoso dizel-o ao noivo; lembrou-lhe finalmente a estima que sempre houvera entre Jorge e o pae. Neste ponto Yayá estremeceu e fitou na madrasta uns olhos que não eram os de pouco antes. Parecia-lhe sacrilegio evocar o nome do pae. Não se pode ter; deu um passo e interrompeu-a com sequidão:

--Não posso casar, porque a senhora gosta delle.

Estella, que já então estava sentada, ergueu-se de golpe ao ouvir esta subita e inesperada explicação. A face pallida, que o traje de viuva ainda mais empallidecia, tingiu-se de uns longes de vermelho. Podia ser confusão ou indignação. Durante uma pausa relativamente longa, Yayá não tirou os olhos da madrasta. Essas duas lampadas buscavam examinar-lhe, no momento supremo todos os recantos da consciencia, e todos os atalhos do passado. Não disse nada, para melhor gozar do abalo que acabava de produzir em Estella; era o juro do sacrificio. Mas Estella sentou-se dahi a pouco, e foi a primeira que rompeu o silencio.

--Tu estás maluca, disse ella tranquillamente. Quem te metteu semelhante ideia na cabeça?

--Não examinemos agora quem foi ou o que foi que me fez adivinhar a verdade, respondeu Yayá; basta saber que decidi romper o casamento, que o mandei dizer ao Dr. Jorge, e que talvez dentro de poucos dias outra pessoa lhe pedirá minha mão.

Estas palavras transtornaram de todo a viuva, que, atonita e irritada, deu alguns passos na sala, buscando conter a explosão de seus sentimentos. Yayá foi ter com ella, falou-lhe com brandura e submissão.

--Não se zangue, mamãesinha, se lhe não disse antes o que fiz agora mesmo; estava certa de que approvaria, ou me perdoaria, quando menos. O homem de que lhe falo ama-me, e a senhora mesma não rejeitou a ideia de me ver casada com elle.

--Não tens culpa da imprudencia que commetteste, disse Estella; porque antes disso tinhas perdido a razão. Vem cá; disseste-me ahi uma palavra absurda, e é preciso que me digas outra com que expliques a primeira. Porque eu gosto delle? continuou depois de alguns instantes. Que quer dizer com isso?

Yayá curvou a cabeça.

--Fala!

--Não direi nada; essa palavra explica tudo. Se gosta como eu creio, é a sua felicidade que lhe trago, não digo a troco da minha, porque seria lançar-lhe em rosto o sacrificio, mas a troco de uma illusão, e nada mais. Não pense que lhe quero mal; não posso querer mal a quem me tem ou teve alguma affeição e substituiu dignamente minha mãe. Se lhe quizesse mal, é provavel que não fizesse o que fiz.

Em quanto falava a enteada, Estella tinha a fronte inclinada e pensativa; attitude em que se conservou ainda durante algum tempo.

--Bem vê que acertei, disse Yayá; seu silencio confirma a minha supposição.

--Eu! exclamou Estella estremecendo. Tu não entendes nada dos sentimentos, não conheces o coração. Eu amal-o? eu? Não! não é possivel!

--Talvez não, mas o que está feito, está feito.