Yayá Garcia

Part 14

Chapter 143,725 wordsPublic domain

A madrasta quiz retel-a, mas não pode; Yayá saiu sem dizer nada. Estella ficou atordoada, confusa e até medrosa; reboavam-lhe aos ouvidos as palavras de Yayá, não como um som exterior, mas como o brado da propria consciencia. Venceu o abatimento, reagiu depressa como lh'o pediam as circumstancias e a propria necessidade de sua natureza. Não teve tempo de cogitar no modo por que a enteada chegara a suspeitar um sentimento que ella recalcara no coração. Urgia reparar o mal feito pela imprudencia da moça. Estella dispoz-se a responder desde logo á carta de Jorge, e não sabia ainda claramente o que lhe havia de dizer. Tratou primeiro de chamar Raymundo, e vendo que elle não acudia foi ter com Yayá.

--Raymundo foi levar uma carta minha ao Procopio Dias, respondeu esta.

Estella caiu n'uma cadeira. Pela primeira vez, alumiou-lhe o espirito uma ideia cruel: a ideia de que a suspeita de Yayá fosse mais do que uma simples e innocente conjectura. Os olhos que lançou á moça ardiam de indignação. Cobriu-os depressa, não para chorar, mas para fugir aos da outra. O olhar de Estella fez vacillar por um instante a convicção da enteada; a colera pareceu-lhe sincera e até excessiva; mas o gesto que se lhe seguiu attenuou e desvaneceu a primeira impressão. Yayá suppoz ver na attitude da madrasta uma confissão involuntaria, uma expressão de abatimento e desespero, como de pessoa que entrevê a felicidade propria e julga dever sacrifical-a á de outrem. Era generosa. Caminhou para ella, dobrou as curvas, pousou-lhe no regaço os braços, tremulos de commoção; com as mãos desviou as de Estella e fitou-lhe os olhos, que estavam sombrios.

--Fui estouvada, confesso, disse ella; devia tel-a consultado antes de fazer o que fiz. Mas eu temia a sua opposição, e não queria tornal-a desgraçada. Sou mais moça que a senhora; se tivesse de consolar-me, consolava-me despressa. Mas não tenho; não amava; cedi a um capricho, e não sinto a menor dor ao despedir-me delle. Ande, perdôe-me; e esteja certa de que não a amarei menos do que até agora.

Ergueu-se e procurou beijal-a. A madrasta recuou instinctivamente a cabeça; era um resto de repugnancia, que a physionomia ingenua e pura de Yayá para logo dissipou. Em tão verdes annos, sem nenhum trato social, era licito suppôr na menina tamanha dissimulação? Estella concluiu que a acção da enteada vinha, não de uma supposição ultrajante, mas de um impulso desinteressado. Qualquer que fosse o fundamento da suspeita, o procedimento da enteada trazia o cunho da candura e da boa fé; assim pensando, Estella sentiu desopprimir-se-lhe a alma. Não era generosa,--ou tinha sómente a generosidade fria e altiva, que nasce da soberba. Mas não era insensivel, e o desinteresse da menina tocou-lhe profundamente o coração. Inclinou-se para ella, tomou-lhe a cabeça entre as mãos e fitou-a, com um olhar severo e maternal ao mesmo tempo.

--Perdoo-te, disse finalmente, porque não sabes o que fizeste. A intenção é que te salva do meu odio; digo mal, do meu desprezo. Se queres medir bem a profundidade do abysmo que acabas de cavar, fica sabendo que me injuriaste, pensando servir-me, e que o resultado do teu erro pode talvez arrancar-te lagrimas amargas e inuteis. Teu castigo será que só eu os enxugarei;--ouves bem? só eu.

Dizendo isto, soltou a cabeça da enteada com um gesto rispido, em que havia ainda um pouco de irritação. Yayá estava pallida. Sentiu na palavra secca e fria da madrasta um alento de indignação sincera; e a alma caiu-lhe prostrada, mais ainda do que o corpo, que não podendo suster-se, procurou amparar-se no movel que achou mais proximo. A duvida, que já antes atravessara o espirito da moça, começou a invadil-o. Yayá fitou Estella com o mais agudo de seus olhares, acompanhou-a de um lado para outro, por que a madrasta, logo depois das palavras que lhe disse, entrara a andar e a reflectir. Se a viuva era sincera, Yayá acabava de fazer gratuitamente a sua propria desgraça; foi o que a moça pensou. No atordoamento moral em que esta hypothese a lançou, Yayá achou-se entre dous desejos, mal definidos, mas inteiramente oppostos um ao outro. Quizera e não quizera ter-se enganado; aspirava a conciliar o coração e a consciencia. Seu espirito evocou a hora inicial da suspeita,--aquella funesta manhã, em que a carta de Jorge foi lida por Estella; recordou o gesto da madrasta, o tremor, a lividez, os vivos symptomas da consternação, do medo ou do remorso. Seria engano aquillo? não era evidente que elles se haviam amado, que se amavam ainda naquella occasião; e, dada affirmativa, era acaso impossivel que Estella, ao menos, o amasse ainda hoje?

Yayá ateve-se a esta conclusão, embora confirmasse a ruina de suas esperanças; a conclusão, porém, contrastava com a impassibilidade da madrasta. Já então perdera Estella o alvoroço do primeiro momento. Depois de alguns minutos de reflexão, parara em frente da enteada. Era difficil ver na attitude quieta, no aspecto de matrona severa e digna alguma cousa que se parecesse com as ancias, o triumpho ou o abatimento de uma rival. Yayá deixou-se estar deante della, a fital-a e a revolvel-a. A porção da alma que transparecia do rosto da viuva era tão fria, tão indifferente, que mal se podia combinar com o sentimento que Yayá lhe attribuia. Foi o que esta pensou ver com seus olhos finamente sagazes; e no meio desse contraste entre o aspecto presente e a revelação passada, Yayá acabou por não saber definitivamente onde ficava a verdade, e esteve a ponto de lh'a pedir de joelhos.

Achavam-se então no gabinete de Luiz Garcia, defronte da secretaria, onde o finado encontrara, com outros papeis, a carta que dera logar ás conjecturas de Yayá. Não havia mudança nem no numero nem na disposição dos moveis. Só a luz era differente, porque a daquelle dia era viva e clara, coada atravez de uma atmosphera serena, como a vida anterior dessa familia, ao passo que a de hoje vinha turva e meia apagada pelas nuvens de um ceu chuvoso e triste. Na longa pausa que houve entre a madrasta e a enteada, os unicos sons que se ouviam eram o rufar da chuva na folhagem do jardim e o tic-tac de um relogio de parede.

--Escuta, disse finalmente Estella; se alguma razão tens para crer que amo esse homem, é necessrio mostrar-te a realidade das cousas.

Estella abriu duas ou tres gavetinhas da secretaria, e depois de alguma busca entre os maços de cartas que ahi encontrou, tirou uma, abriu-a e deu-a á enteada. Yayá recebeu-a com as mãos tremulas de curiosidade; leu-a toda; devia ser a mesma que o pae mostrara á madrasta.

--Essa moça era a senhora? murmurou ella como se ainda esperasse resposta negativa.

--Era eu.

Yayá deixou-se cair n'uma cadeira raza, a mesma em que Estella estivera sentada, quando ouviu a confidencia do marido.

--Vês? disse Estella; foi por mim que elle fez o sacrificio de ir para a guerra, sem esperança de ser retribuido nem de contar um dia com a minha gratidão. Foi para a guerra, lutou, padeceu, fiel ao sentimento que o tinha levado, até o ponto de o crer eterno. Eterno! Sabes quanto durou essa eternidade de alguns annos. É duro de ouvir, minha filha, mas não ha nada eterno neste mundo; nada, nada. As mais profundas paixões morrem com o tempo. Um homem sacrifica o repouso, arrisca a vida, affronta a vontade de sua mãe, rebella-se, e pede a morte; e essa paixão violenta e extraordinaria acaba ás portas de um simples namoro, entre duas chicaras de chá...

--A senhora não o amou nunca? interrompeu Yayá, ao sentir o tremor e o despeito com que a madrasta proferira as ultimas palavras.

--Havia entre nós um fosso largo, muito largo, disse Estella. Eu era humilde e obscura, elle distincto e considerado; differença que podia desapparecer, se a natureza me houvesse dado outro coração. Medi toda a distancia que nos separava e tratei simplesmente de evital-o. Foi então que elle embarcou; interiormente approvei-o. Talvez lhe não neguei um pouco de compaixão silenciosa, mas nada mais. Casamento entre nós, era impossivel, ainda que todos trabalhassem para elle; era impossivel, sim, porque o consideraria uma especie de favor, e eu tenho em grande respeito a minha propria condição. Meu pae já me achava, em pequena, uns arremeços de orgulho. Como querias tu que, com tal sentimento, pudesse desposar um homem, socialmente superior a mim? Era preciso dar-me outra indole. Todas as felicidades do casamento achei-as ao pé de teu pae. Não nos casamos por amor; foi escolha da razão, e por isso acertada. Não tínhamos illusões; pudemos ser felizes sem desencanto. Teu pae não tinha os mesmos sentimentos que eu; era mais timido que orgulhoso. Qualquer que fosse a razão do seu desapego ao mundo, bastava que o tivesse, para me fazer feliz; vivemos assim alguns annos de inteiro isolamento, sem conhecer o amargor, que é o que fica no fundo da vida, sem necessidade da dissimulação... Minto; tive necessidade de fingir, desde que aquelle homem aqui appareceu; era necessario. Um dia teu pae mostrou-me essa carta e referiu-me a paixão encoberta que ahi se conta; podes imaginar se ouvi tranquilla. Mas fóra desse acontecimento, que outro podia perturbar minha alma? Não vi nenhuma porta abrir-se-me por obsequio, nenhuma mão apertou a minha por simples condescendencia. Não conheci a polidez humilhante, nem a afabilidade sem calor. Meu nome não serviu de pasto á natural curiosidade dos amigos de meu marido. Quem é ella? donde veiu? Ninguem me perguntou donde vinha, não é verdade? Perguntaste-me quem era eu? Não; amaste-me como tinhas amado tua mãe, e eu amei-te, como se foras minha filha. E para isso bastou-nos estender os braços; não foi preciso descer nem subir.

--Não foi, bradou Yayá commovida, apertando-lhe as mãos.

--Já vês quem eu era e sou; uma especie de animal feroz, que prefere a charneca ao jardim. Não me senti lisongeada com a paixão que inspirei; rejeitei, talvez, um marido digno das ambições de qualquer mulher. Era isto o que querias saber? Pois ahi tens a minha historia, a historia, dessa carta, que já agora podemos rasgar...

Estella pegou na carta e rasgou-a lentamente, em pedaços miudos, emquanto a enteada reflectia nas revelações que acabava de ouvir. A madrasta deitou os fragmentos do papel á cesta.

--Resta concertar a imprudencia e casar, disse Estella dando á palavra um tom galhofeiro.

--Não sei! murmurou Yayá. O que a senhora me disse é grave; não ha sentimentos eternos. Parece que depois de tamanha paixão, qualquer outro affecto não terá longa vida.

--Porque não? Não has de querer agora uma paixão, que o leve á guerra; seria um desastre. Mas está nas tuas mãos fazer que elle te ame sempre e muito.

Yayá reflectiu um instante.

--Jure-me que o não ama!

Estella franziu o sobr'olho; depois mostrou-lhe o bilhete que Jorge lhe escrevera pouco antes, e cuja redacção dissiparia á moça qualquer duvida em relação ao noivo. Era uma evasiva para lhe não confessar nem mentir. A primeira vez que lhe negara o amor, foi antes um grito do coração que queria enganar-se a si proprio: agora preferia calar-se. A certeza da isenção de Jorge importava muito mais que a de Estella; a alma de Yayá no primeiro instante, respirou á larga. O respeito que tinha á madrasta, e um pouco de ciume retrospectivo que a mordia, ao pensar naquella paixão tão violenta e tão desenganada, empeciam á moça qualquer outra manifestação. Quando se achou a sós comsigo, levava o espirito arejado da suspeita que o opprimira durante largos mezes; mas o vento que o lavou das sombras, lá lhe queimou algumas das flores desabotoadas ao calor do primeiro sol. A felicidade tinha um travo de desgosto e humilhação; o coração tremia de medo.

Quando mais absorta estava nesse contraste de sensações, viu Raymundo transpor a porta do jardim.

XVII

Yayá foi ter com Raymundo.

--Entregaste?

--Não entreguei, disse o preto.

Yayá ficou alguns instantes immovel. Raymundo tirou a carta do bolso, e esteve com ella nas mãos, sem atrever-se a levantar os olhos; levantou-os emfim e disse resolutamente:

--Raymundo não achou bonito que Yayá escrevesse áquelle homem, que não é seu pae nem seu noivo, e voltou para falar a nhanhã Estella.

--Dê cá, disse a moça seccamente; não é preciso.

Raymundo entregou-lhe a carta, e sacudiu a cabeça encanecida, como se quizera repellir os annos que sobre ella pesavam, e retroceder ao tempo em que Yayá era uma simples creança, travessa e nada mais. Tinha-lhe custado a resolução; tres vezes investira a porta de Procopio Dias para obedecer á filha do seu antigo senhor, e tres vezes recuara, até que venceu nelle o presentimento,--uma cousa que lhe martellava no coração, dizia elle dahi a pouco a Estella, quando lhe referiu tudo.

Estella não se deteve mais. Na carta, que escreveu a Jorge, disse que a enteada era apenas uma menina romanesca, desconfiada e curiosa; queria desfazer o casamento, porque suppunha não ser amada com egual ardor ao seu.--«Yayá adora-o, concluia Estella, e não se sente adorada. Venha prostrar-se ao pé do altar, e terá em mim a mais piedosa sacristã.»

Yayá teve noticia da carta, e já tarde para oppôr qualquer objecção. O primeiro impulso foi agradecer a pia fraude da madrasta; mas a alma, picada por um resto de ciume, depressa conteve o impulso, e a unica resposta da moça foi um gesto de acanhamento e um silencio largo. Ouviu-a depois sem azedume nem impaciencia, attenta á menor hesitação que lhe truncasse a palavra, ou á minima sombra de desgosto que lhe velasse os olhos. A verdade é que a ternura da madrasta e a jovialidade recente de seus modos traziam certa nota desusada e violenta, e esse excesso fazia reflectir a enteada.

Entretanto, a carta de Estella chegou ás mãos de Jorge, que a leu duas vezes para conseguir entender-lhe o sentido. A explicação tinha o defeito de ser um pouco subtil; mas a alma de Jorge conservava sempre uma porta aberta aos sentimentos extraordinarios. Demais, qualquer explicação favoravel era um beneficio, e aquella tinha a vantagem de affagar o amor-proprio, além de vir ajustada com o espirito inquieto e subito da noiva. Leu a carta sem cotejar o texto com a assignatura, sem attentar naquella sacristã em cujos hombros quizera outr'ora atar a veste sacerdotal.

Nessa mesma noite foi á casa da noiva, que o recebeu sem contentamento nem mortificação, um pouco laconica e meditativa. Nem um nem outro alludiu aos successos ultimos; fel-o Estella com muita pertinencia e tacto. Não obstante, como a explicação da viuva não correspondia exactamente á realidade das cousas, a situação ficou ainda obscura e vaga, e por ventura exagerou o acanhamento reciproco. A persuasão de que Yayá exigia da parte delle maior intensidade de sentimento, não inclinara o espirito de Jorge a nenhuma ostentasão theatral,--mas acabou por lhe infundir deveras maior ternura, e augmentou a vitalidade de um sentimento, que é a forma desinteressada do egoismo,--a felicidade de fazer outrem feliz.

--Marquemos o casamento para esta semana, disse Estella na noite de um domingo.

--Ainda não, respondeu a enteada.

Posto visse dissipada a tempestade que lhe negrejara sobre a cabeça, Yayá enxergava ainda para o lado poente um spectro, e para o lado do nascente uma possibilidade. Esses dous pontos negros vinham estragar a belleza azul do ceu e tornal-o pesado e melancholico. O mysterio do futuro unia-se ao mysterio do passado; um e outro podiam devorar o presente, e ella receiava ser esmagada entre ambos. A convivencia da familia atterrava-a. Que seria para ella o casamento, se tivesse de penetrar nelle com a perpetua ameaça deante dos olhos, uma antiga semente de amor, que a primara brisa da primavera podia fazer brotar e crescer de novo? Acreditava na isenção presente da madrasta, e na inteira cura do marido, mas o futuro? A belleza de Estella estava ainda longe do declinio, e a modestia de Yayá fazia-a persuadir de que, ainda no declinio, seria superior á sua.

Uma noite, entrou o Sr. Antunes e deu uma carta á filha, que a leu silenciosamente.

--Olha, disse ella apresentando a carta á enteada.

Yayá leu-a; eram duas paginas escriptas de alto abaixo, e por lettra desconhecida. Uma antiga condiscipula de Estella, residente no norte de S. Paulo, acceitava a proposta que esta lhe fizera, de ir dirigir-lhe o estabelecimento de educação que alli fundara desde alguns mezes.

--Bem vês que é necessario casar-te quanto antes, disse Estella logo que a enteada acabou a leitura.

Yayá sentiu os olhos humidos e atirou-se aos braços da madrasta. A effusão era sincera; havia alli affecto, reconhecimento e admiração. Mas, por isso mesmo que era sincera, deveria molestar a madrasta, se alguma cousa podesse já molestal-a. Estella sorriu,--um sorriso que queria dizer:--Bem sei que sou de mais. A lingua, porém, não proferiu uma palavra unica.

--Que quer dizer isso? perguntou o pae de Estella, que nada sabia da carta, e consequentemente nada entendia daquella expansão da moça.

Estella mostrou-lhe a carta. O pae não pode acabar de ler: a primeira pagina fizera-lhe comprehender tudo. Seus olhos iam do papel á filha e da filha ao papel, sem que a boca se atrevesse a formular nenhuma queixa ou censura.

--Não digo que me obedeças, murmurou elle; mas parece que podias consultar-me...

--Eu estava certa da sua approvação, respondeu Estella. Ou parece-lhe que fiz mal?

--Nunca fizeste bem em cousa nenhuma, disse tristemente o pae. E pegando-lhe nas mãos:--Tão moça! tão bonita!

O dia do casamento foi definitivamente marcado naquella noite. Como Estella declarasse que ella propria serviria de madrinha, Yayá procurou dissuadil-a cautelosamente; tambem ao noivo repugnou a intervenção espiritual da viuva. Mas Estella não se deu por entendida. O papel de acolyta, que a si mesma distribuira, tinha-o desempenhado com lealdade e dignidade. Quiz ir até o fim. Era o melhor modo de se mostrar isenta e superior. Jorge sentia-se vexado e transportado ao mesmo tempo, ao observar a simplicidade e o desvello que a viuva punha naquelle acto. Yayá sentia só admiração e gratidão. Tinha já certeza de que o passado era pouca cousa, e de que o futuro seria cousa nenhuma. O casamento ia separal-as, reconciliando-as.

Casados os dous, Estella preparou-se para seguir viagem, não obstante a resistencia do pae, que foi tenaz e habil. O pae ficaria. Estava já tão cançado para viagens longas! A differença do clima, a falta de relações, a necessidade de não abrir mão do emprego, eram motivos de grave peso para não arriscar-se a deixar o Rio.

--Ao menos, promettes vir ver-me de quando em quando? disse o Sr. Antunes sentindo tremer-lhe nos olhos uma lagrima sincera.

Estella respondeu que sim; depois pediu-lhe que acceitasse uma mezada. O pae recusou commovido.--Tu vales muito, exclamou elle. O tom com que preferiu estas palavras deu uma esperança á filha.

--O senhor pode valer ainda mais do que eu, disse ella.

Depois contou-lhe a paixão de Jorge e todo o episodio da Tijuca, causa originaria dos acontecimentos narrados neste livro; mostrou-lhe com calor, com eloquencia, que, recusando ceder á paixão de Jorge, sacrificara algumas vantagens ao seu proprio decoro; sacrificio tanto mais digno de respeito, quanto que ella amava naquelle tempo o filho de Valeria. Que pedia agora ao pae? Pouca e muita cousa; pedia que a acompanhasse, que cessasse a vida de dependencia e servilidade em que vivera até alli; era um modo de a respeitar e respeitar-se. O pae escutava-a attonito.

--Tu chegaste a amal-o! exclamou elle. Não aborrecias? Amaram-se? E só agora sei... Bem digo eu; tu és uma fera. Não tens, nunca tiveste pena de minha velhice... Elle é tão bom! tão digno! E se morresse por tua causa? não terias remorsos? não te havia doer o coração quando soubesses que um moço tão bem nascido, que gostava de ti... Sim, elle gostava muito de ti; e tu tambem... e só hoje!

Estella fechou os olhos para não ver o pae. Nem esse amparo lhe ficava na solidão. Comprehendeu que devia contar só comsigo, e encarou serenamente o futuro. Partiu; o pae despediu-se della com o desespero no coração,--e desta vez a dor era desinteressada e pura. Jorge consolou-o depressa. Não houve interrupção na convivencia, e o Sr. Antunes continuou a achar alli a mesma protecção e cordialidade. Se o casamento fora um attentado, elle os absolveu disso, e repartiu com ambos infinita solicitude. Outra vez comensal assiduo, tornou a ser o homem de confiança. Fóra dalli, as horas de lazer que lhe deixava o pouco trabalho, eram empregadas nas sessões do jury, nas galerias da camara dos deputados ou nos bancos do Carceller. Não tendo já a aspiração de uma alliança vantajosa, adoptou a devoção da loteria. Era elle quem dava, secretamente, noticias de Estella a Yayá.

Esta achou no casamento a felicidade sem contraste. A sociedade não lhe negou carinhos e respeitos. Se antes de casar, Yayá possuia o abecedario da elegancia, depressa aprendeu a prosodia e a syntaxe; affez-se a todos os requintes da urbanidade, com a presteza de um espirito sagaz e penetrante. Nenhuma nuvem do passado veiu sombrear a fronte de um ou de outro; ninguem se interpunha entre elles. Yayá escrevia algumas vezes a Estella, que lhe respondia regularmente, e no mais puro estylo de familia. De longe em longe a enteada presenteava a madrasta, que lhe retribuia logo na primeira occasião. Quanto a encontrarem-se, era difficil; Estella applicava todos os seus cuidados á nova occupação.

Procopio Dias viu a morte de todas as esperanças ultimas, com uma philosophia que não suppunha ter em si. Naturalmente padeceu alguns dias de despeito; mas o despeito acabou com o amor. Verdade é que o ambiciado casamento abriu nelle o desejo de não morrer solteiro; e, perdida uma opportunidade, tratou de haver outras á mão. Ultimamente voltou á religião do celibato. Duas ou tres vezes encontrou Yayá e o marido. A ultima foi n'um sarau. Jogou o voltarete com Jorge e acompanhou a mulher até á carruagem, não sem lançar um olhar furtivo ao estribo, onde Yayá pousou o pé, cançado de valsar.

No primeiro anniversario da morte de Luiz Garcia, Yayá foi com o marido ao cemiterio, afim de depositar na sepultura do pae uma corôa de saudades. Outra corôa havia sido alli posta, com uma fita em que se liam estas palavras:--_Á meu marido_. Yayá beijou com ardor a singela dedicatoria, como beijaria a madrasta se ella lhe apparecesse naquelle instante. Era sincera a piedade da viuva. Alguma cousa escapa ao naufragio das illusões.

FIN