Part 12
--Nega-me então todo o auxilio? disse ella. Depois de alguns mezes de uma vida em que me acostumei a ouvir seus conselhos, o senhor recusa-me este. Que lhe fiz eu?
--Nada.
Jorge saiu.--Que tenho eu que ella ame, que se case ou não se case? Sou eu sou pae? seu tutor? Quando assim falava, sentia dentro de si uma resposta; a consciencia desvendava-lhe a realidade. Sim, tu amas, dizia-lhe ella, tu não fazes outra cousa ha dous mezes; deixaste-te envolver nos fios invisiveis; não sentiste que essa intimidade de todos os dias era a gotta d'agua que te cavava o coração. Ah! tu querias saciar a curiosidade e sair dalli sem deixar alguma cousa, sem receber tambem alguma outra cousa? Não se brinca com um inimigo; e ella o era, e continuará a sel-o, por que tu estás definitivamente atado.
A esta voz importuna e verdadeira, Jorge erguia os hombros. Tentou refugiar-se no somno. O somno rejeitou-o de si. Então fumou, desceu á chacara, fatigou o corpo para melhor adormecer o espirito; mas a lua que batia no repucho mostrava-lhe, ora um casebre de Santa Thereza, ora uma varanda da Tijuca, como se fossem o verso e o anverso da medalha de seu coração, toda a historia da vida que elle vivera até alli. A differença entre uma e outra dessas duas phases é que presentemente o desengano não o levaria á guerra, nem lhe daria os desesperos do primeiro dia. Não; Jorge levantou-sa na manhã seguinte um pouco atordoado, mas não inteiramente abatido. Sentia alguma oppressão moral, um desejo de saber quem era o adversário preferido. Merecel-a-hia? Que a merecesse, embora; elle tinha um direito anterior e superior; desde que a amava, excluía todos os outros.
A força de pensar naquillo, chegou a entrever a realidade; perguntou a si mesmo se a declaração da moça não seria antes um estratagema. Podia ser; tinha-a visto corar, inclinar o collo, ficar por algum tempo acanhada e commovida. Essa conjectura desabafou-lhe um pouco o espirito, e, por isso que era a conjectura da esperança, não tardou em transferir-se a evidencia. Relembrou todas as acções de Yayá, suas palavras, as circumstancias e os termos de reconciliação, as lagrimas sem motivo, a paciencia, o interesse, o gosto de o conversar; finalmente, esse quê mysterioso que divulga a uma alma a preferencia de outra. Quando pouco a pouco lhe penetrou no coração essa ideia, Jorge reconheceu que havia sido precipitado. Queria escrever-lhe e recuou; queria lá voltar, mas resolveu o contrario.
--Se é um estratagema, pensou elle, ella terá nisto o seu castigo; se verdadeiramente ama a outro, que vou lá fazer agora?
Pensou isto; pensou mais; só não pensou em Estella.
Yayá não se pode conter. Ao cabo de sete dias de ausencia determinou ir ao logar onde mais de uma vez encontrara o filho de Valeria.
--Vae chover, disse Luiz Garcia; guarda a visita para amanhã.
Yayá teimou na resolução.--É uma nuvem que passa, disse ella; em saindo a lua verá como o tempo fica limpo.
Estava inquieta, preoccupada, tinha estremecimentos nervosos; não attendeu á segunda observação do pae. O pae dizia-lhe que não havia necessidade de desobedecer para realisar um capricho. Como repetisse a expressão, Yayá ficou pallida e não ousou responder; mas Estella, que assistia callada aos conselhos de um e á resistencia de outro, disse sorrindo á enteada:
--Vá; seu pae deixa-a ir.
Yayá ia agradecer a intervenção; mas, quando os olhos das duas mulheres se encontraram, detiveram-se por um instante longo. Poucos minutos depois chegava a moça á casa de Maria das Dores. Despediu Raymundo; a porta estava aberta; entrou. Da sala, onde se deteve, ouviu n'outra sala interior a voz de Jorge.
--Não se esqueça; hade entregar-lhe isto, quando ella vier; não mande lá á casa; é um livro.
Yayá entrou.
--Não contava commigo? disse ella.
--Não; por isso deixava-lhe este livro, respondeu Jorge tirando o embrulho á doente e entregando-o á moça; é um romance, creio que lhe falei nelle uma vez.
Yayá tomou-lhe o livro, abriu-o, folheou-o com soffreguidão, como certa de achar uma pagina marcada. Estava marcada uma pagina, e a marca era um bilhete. Abriu-o; dizia assim: «A senhora deu-me uma vez um titulo que eu esperei viesse a ser verdadeiro. Diga se me enganei, se o ceu lhe destinou outro noivo, ou se meu coração pode ter ainda uma esperança. Não lhe custará muito; não custa muito uma simples palavra.»
Emquanto ella lia rapidamente estas linhas, e tornava-as a ler, Jorge affastou-se até á sala da frente. A carta era das que não permittem a presença do autor; precisam do prestigio da ausencia; são, para assim dizer, expressões truncadas que a imaginação perfaz e amplia. Jorge ia a sair, quando ouviu o rumor dos passos de Yayá; deteve-se a esperar a resposta. A moça parou deante delle, e entre ambos houve um momento de silencio e hesitação.
--Cego! disse emfim Yayá estendendo-lhe as mãos com um ar de simplicidade e confiança.
Jorge recebeu-as nas suas, e a linguagem que a alma não quiz confiar do labio do homem, elles a disseram com os olhos, durante alguns minutos largos. Jorge perguntou finalmente:--É certo? ama-me?--Yayá cingiu-lhe o pescoço com os braços, e inclinou a cabeça com um gesto de submissão. Jorge inclinou-se tambem, e nos cabellos,--nos fios de cabello, que lhe pendiam na testa, pousou o mais puro e fugitivo dos beijos. Ao contacto daquelle labio, Yayá enrubeceu e estremeceu toda; mas não fugiu, não retirou os braços; deixou-se ficar subjugada e feliz.
Homero conta que Venus, descendo ao campo da batalha entre gregos e troyanos, saiu d'alli ferida e ensanguentada. Yayá teve a sorte da diva homerica; interpondo-se entre Jorge e Estella trouxe d'alli ferido o coração. Naquelle espaço de alguns mezes, obra de paciencia e luta, de violencia e simulação, para o qual fizera convergir todas as forças moraes, não suspeitou que, vencendo ao outro, podia vencer-se a si mesma. Queria ser uma barreira entre o passado e o presente, sem cogitar na difficuldade do plano, nem nas consequencias possiveis delle. Sobretudo, não pensou na moralidade da acção. Que podia ella saber d'isto? A suspeita ia até admittir a persistencia do amor no coração da madrasta, mas não lhe attribuia mais do que uma aspiração ou saudade silenciosa; não sabia mais. Para combater esse inimigo inerte, é que poz em campo a porção de astucia que a natureza lhe dera, as graças do rosto e a, rara penetração de espirito.
Yayá transpoz a soleira e saiu; precisava de ar, de espaço, de luz; a alma cobiçava um immenso banho de azul e ouro, e a tarde esperava-a trajada de suas purpuras mais bellas. Jorge acompanhou-a; a commoção delle era sincera e forte, mas menos intensa, menos desvairada que a de Yayá, cujos olhos pareciam dizer a tudo o que a rodeava, desde o sol poente até ao ultimo grelo de capim:--olhae, vede as bodas do meu coração; este é o meu amado.
Perto da noite, Raymundo veiu buscal-a; Jorge acompanhou-a. Yayá lembrou-se de traçar com um grampo, no musgo que reveste o aqueducto, o nome de Jorge e a data; instando com elle, Jorge escreveu tambem o nome d'ella. Raymundo sorria entre dentes. Em caminho falaram do presente e do futuro; e, n'um intervallo, tocaram levemente no passado.
--Sabe que eu tinha um desgotosinho? disse Yayá. Jorge interrogou-a com os olhos. É verdade, um capricho, continuou ella. Quizera que o senhor nunca tivesse gostado de outra pessoa, e é bem possivel que não seja este o primeiro amor de seu coração.
--Não é, respondeu Jorge depois de um instante de reflexão. Amei uma vez, ha muito tempo; mas todo esse passado acabou.
--Está certo de que acabou?
--Creança! Que noiva receiou nunca de um amor antigo, começado e acabado, antes d'ella ser amada tambem? Que o novo amor seja sincero e fiel, eis o que se deve pedir e exigir. Quanto ao passado, é como os defuntos; reza-se por elle, quando se reza.
--Tenho medo de almas do outro mundo, tornou Yayá sorrindo.
Yayá mostrou-se tão expansiva n'aquella noite e nos seguintes dias, derramou de tal modo a vida que a enchia que Estella comprehendeu tudo o que se passava entre a enteada e Jorge. Ha uns amores, aliás verdadeiros, a que precedem muitas contrafacções; primeiro que a alma os sinta, tem despendido a virgindade em sensações intimas. Yayá ignorava tudo; não soletrara o amor, aprendera-o de um lance. Trazia o coração intacto. Seu accordar foi uma aurora subita, mas rutilante e limpida. No meio da embriaguez que lhe dava o novo sentimento, não cogitou nas possiveis consequencias d'elle; não perguntou a si propria se era verdade que no coração da madrasta havia uma saudade ou uma esperança silenciosa, e se isso podia ser a raiz de largos odios e dissenções domesticas. Não interrogou o futuro. Phenomeno curioso! A lembrança do pae foi por um instante esquecida; o egoismo do amor devorou-a.
XV
A fronte de Estella não tinha a tristeza dos vencidos. O amor persistia no coração, como um mau hospede; e o espectaculo daquelles ultimos mezes não fizera mais do que irrital-o. Mas a força moral de Estella subjugou-o. A luta fora longa, violenta e cruel; a consciencia do dever e o respeito de si propria acabaram vencendo. Talvez não fosse difficil perceber, por baixo da serenidade do rosto, o cançasso que deixam as grandes tempestades moraes. A tempestade ninguem lh'a viu.
Não obstante, no dia em que a paixão dos dous lhe pareceu evidente, Estella sentiu rugir-lhe no coração um vento de colera; vento forte e instantaneo. Dessa vez, o olhar penetrante de Yayá não pode ler no fundo da alma da madrasta; e por ventura lhe diminuiu a suspeita, quando a viu contemplar sem irritação nem abatimento a situação nascida de seu esforço unico.
Entretanto, a molestia, que solapava a existencia de Luiz Garcia, aggravou-se por aquelle tempo, e o enfermo foi compellido a pedir alguns mezes de licença. Chamado a vel-o, o medico reconheceu que a enfermidade tocava ao desenlace, e com a enfermidade a vida. Não o disse á familia, mas não o escondeu de Jorge, quando este directamente lh'o perguntou.
--Está condemnado á morte, disse elle; a molestia devorou-o lentamente, mas com segurança. Pode viver dous a tres mezes.
Jorge ficou atterrado, Os acontecimentos tinham tomado tal feição, que elle já pedia a vida de Luiz Garcia. Quem lh'o dissera alguns annos antes? Não sómente padeceria com a morte do enfermo, mas teria de ver padecer Yayá, de cuja adoração filial era testemunha, e chegava a receiar que o golpe lhe fosse fatal. Nada disse; affectou tranquillidade e indifferença, mas entendeu que os successos o designavam a proteger a familia e dispunha-se a assumir esse papel, quando fosse occasião.
Estella não receiou menos do que na molestia anterior; mas dessa vez não interrogou Jorge, com quanto o visse falar ao medico. Nos ultimos tempos, o seu silencio era mais continuo e habitual. Parecia desinteressada de tudo, menos do marido. Suspeitou da gravidade da molestia, interrogou o medico, e ouviu deste palavras de esperança:
--Não lhe peço esperanças illusorias, disse Estella; peço-lhe que me diga toda a verdade.
--A verdade é cruel de dizer.
--Perdido? disse ella com voz surda.
O silencio do medico foi a confirmação d'aquella palavra. Estella sentiu fugir-lhe todo o sangue; mas não soltou uma lagrima. Pode reflectir no perigo de ser vista essa denuncia do mal, e dominou-se. Quando se achou só comsigo, deu livre campo ás angustias; encarou a catastrophe e pensou nas consequencias da morte e no incerto futuro que a aguardava dentro de poucos dias. O futuro trouxe-a ao presente, o presente levou-a ao passado. A vida só lhe dera alegrias medias e dores maximas. Não foi a paixão que a levou ao casamento, mas sómente a conveniencia e o raciocinio. No casamento achara os sentimentos de apreço, a mutua consideração, a brandura das relações domesticas; esse fogo, porém, cuja intensidade não dura, mas que é o férvido sol dos primeiros dias, precursor necessario da tarde repousada e da noite tranquilla, esse fogo, essa fusão de duas existencias, esse ardor expansivo, condição de sua natureza moral, não os conheceu Estella. Ou o destino ou o orgulho privou-a de achar no casamento a paixão sanctificada. Pois bem, se alguma cousa podia compensar-lhe a falta, era a longa duração de uma felicidade segura, embora tibia; era envelhecer sob a monotonia de um horizonte sem sol nem tempestade. O destino negava-lhe a compensação.
Não tinha Estella ao pé de si com quem repartisse as tristezas. O pae seria o ultimo de todos. A viuvez deixal-a-hia sem familia. Esta ideia trouxe outra,--a de apressar o casamento da enteada, de modo que nenhum vinculo moral lhe sobrevivesse ao marido. Uma noite, tendo Luiz Garcia adormecido, Estella deu a perceber á enteada que o estado do pae era grave. Yayá empallideceu. Jorge fez um gesto de reprovação.
--A molestia não é leve de certo, disse este; nas não se segue dahi que se deva...
--Tudo se deve prever, tornou Estella. Pela minha parte, entendo que prevenir um caso fatal não é fazer com que elle se dê. Yayá sabe o amor que lhe tem seu pae; seria para elle uma fortuna poder abençoal-a. Vamos lá, continuou ella, pegando nas mãos de um e de outro, por que é que se não casam?
Momentaneamente acanhados, nenhum delles assentiu nem recusou. Yayá olhava espantada para a madrasta.
--O silencio é uma maneira de responder, continuou esta; querem dizer que concordam commigo, não é? Nesse caso, seremos tres para fazer a cousa mais simples do mundo, que é casar duas creaturas, que se amam... Porque não a pede o senhor amanhã? O casamento pode ser feito dentro de poucos dias, á capucha, cousa simples...
Yayá tinha emfim sahido do primeiro instante de estupefacção.--Mas, papae, está mal? disse ella.
--Todos nós estamos mal, apezar de termos saude, respondeu Estella; n'um dia cae a casa. A doença delle é grave, é coração...
--Tem razão, interveiu Jorge; podemos concluir tudo em poucos dias, duas semanas, quando muito, ou tres.
Jorge não ficou pouco impressionado da intervenção de Estella. Conhecendo os sentimentos que a distinguiam, admirava essa impassibilidade moral que esquecia ou fingia esquecer. Depois examinou-se a si proprio; sentiu que o amor que o dominava agora, posto fosse profundo, não era violento, não lhe queimava o coração. Comparou-se ao que tinha sido, e esse cotejo, no primeiro instante, não foi importuno; foi antes licção e philosophia. Mentalmente sorriu. Era elle o mesmo homem? Outrora caminhara resoluto ás soluções tragicas; agora, com egual sinceridade, entregava o coração a outra mulher. Na fronte desta mal ousara roçar um osculo medroso e casto, elle, que fizera a scena da Tijuca. O homem não era o mesmo. Embora a isenção presente, Jorge experimentou um pouco da nostalgia do passado; sorria sem amargura, mas com um travo de melancolia.
--Aquelle orgulho é ainda maior do que eu pensava, dizia elle.
No dia seguinte, Procopio Dias veiu accordal-o em casa.
--Quando chegou? perguntou Jorge.
--Hontem de tarde, a primeira visita que faço é esta. Demorei-me mais do que queria; mas emfim cá estou,--cá estou, e mais magro. O senhor é que me parece mais gordo.
Procopio Dias falou compridamente da politica argentina e da magistratura de Buenos-Ayres; falou tambem um pouco das mulheres platinas. De quando em quando, abria um claro, como para deixar que o outro intercalasse alguma cousa menos extrangeira; Jorge, porém, falava pouco e sem appetite; o constrangimento delle foi visivel quando Procopio Dias o interrogou, acerca da familia de Luiz Garcia; respondeu-lhe sem interesse. Procopio Dias fitou-o durante alguns segundos; as rugas da testa engrossaram-se-lhe extraordinariamente.
--E Yayá! disse elle; parece-lhe então que nenhuma esperança...
Fez uma pausa; Jorge preencheu-a com um sorriso descorado, mas assaz explicativo. Procopio Dias começou a farejar a realidade, mas nenhuma das linhas do rosto denunciou a impressão que esta lhe causara. Após um silencio largo, entrou a rir de bom humor.
--Quer que lhe diga uma cousa? perguntou elle. Saiba que volto curado. Quando penso na molestia tenho vergonha; é verdade, tenho vergonha da figura que fiz. Já sou muito maduro para cavallarias altas. A doença ainda me durou algum tempo; sarei com a mudança de clima; o amor, ao menos na minha edade, é uma especie de beri-beri... Hade ter-se rido de mim; é justo, porque eu não faço hoje outra cousa.
Jorge contestou com um simples gesto; mas Procopio Dias falava com tanta naturalidade, ria com tamanha franqueza, que a explicação deu á conserva a vida que ella tendia a perder. Jorge foi mais expansivo, mais alegre; não lhe confiou a nova situação, mas o segredo parecia debruçar-se-lhe das palpebras e dos cantos da boca. Essa alegria era um respiro da consciencia, que se sentia um pouco vexada em presença daquelle homem, cuja confiança fora a origem de seu recente amor; era tambem a satisfação de não ter conseguido ligal-o á filha de Luiz Garcia; consorcio repugnante, hybrido, cujo resultado seria dar á moça uma longa amargura sem certeza de resgate.
Quando Procopio Dias saiu d'alli ia suspeitoso da realidade.--Mas a outra? dizia elle comsigo. Sacudiu os hombros, e não ficou mais tranquillo. Levava já no peito um pouco de impaciencia e irritação; tinha a fronte obscurecida por uma nuvem. Mais tarde allumiou-a um clarão subito, ainda que frouxo, era um reflexo de esperança. Talvez houvesse julgado com precipitação: era possivel attribuir a reserva de Jorge, não á competencia pessoal, mas a uma maneira de entender as maximas do decoro. Quem sabe? Elle podia ter-se arrependido de haver permettido tanto. Essa reflexão arejou um pouco o espirito, sem lhe tirar de lá o miasma corruptor. Era força conhecer a verdade. Nesse mesmo dia, foi elle a Santa Thereza.
Luiz Garcia concedera n'aquella manhã a mão da filha. Na occasião em que Procopio Dias alli entrou, tinha-a elle ao pé de si, e contemplava-a com amor e saude,--duas vezes saudade, porque tambem a morte os viria desunir. Entre si recordava os tempos em que elle e ella eram, um para o outro, toda a terra e todo o ceu; e perguntava á natureza se era justo sobrepor ao primeiro vinculo outro vinculo extranho, e a natureza lhe respondia que não sómente era justo, mas até necessario. Então o pae sentia-se feliz com a felicidade da filha, cujo egoismo lhe ensinava a abnegação. Se ella devia amar a outrem, que faria elle mais do que ceder? Quanto ao noivo eleito, merecia-lhe todas as approvações; era o unico extranho que lhe penetrara um pouco mais na intimidade; amante, bemquisto e opulento, podia dar á moça, além da felicidade do coração, todas as vantagens sociaes, ainda as mais solidas, ainda as mais frivolas:--e esse homem obscuro, enfastiado e sceptico, saboreava a ventura que a filha iria achar no turbilhão das cousas, que elle não cobiçara nunca.
Uma noite bastou a Procopio Dias para conhecer a situação. Não obstante as declarações do pretendente, que acceitou como sinceras, Jorge buscou dissimulal-a. Se Procopio Dias não tornasse a ver a moça, é possivel que o tempo lhe abafasse a paixão. Mas viu-a, e viu-a mais bella do que a deixara.
--E a outra? dizia elle.
Dessa vez a pergunta não passou vagamente; trouxe uma ideia comsigo, deante da qual Procopio Dias chegou a recuar. Esse ideia era envenenar na propria origem a affeição recente; nada menos que denunciar a madrasta á enteada. Se alguma cousa pudesse attenuar a perversidade de semelhante recurso, era a persuasão que elle tinha de que diria a verdade. Cria deveras no amor secreto dos dous; com algum esforço poderia fazer suppôr que o casamento da filha de Luiz Garcia era uma suggestão da madrasta. Elle proprio achava essa combinação verosimil, conveniente, reparadora.
--Maganão! a duas amarras! dizia o pretendente em tom surdo.
A occasião veiu. Um pouco irritada com a assiduidade de Procopio Dias e a confiança que parecia renascer nelle, Yayá assentou de lhe dizer francamente que estava prestes a casar. Procopio Dias empallideceu. Suppunha apenas provavel o que era já definitivo. Olhou longamente para ella; a extincção da esperança não implicava a extincção do desejo; pela contrario, vinha pungil-o e açulal-o. Seus olhos mostraram então duas expressões diversas; a primeira involuntaria, a mesma com que os dous velhos de Israel espreitavam a filha de Helcias, um olhar terreno e mau; a segunda voluntaria, não de queixa, não de supplica, mas de lastima. A ideia ruim tornava a arder-lhe no cerebro.
--Não sabia, disse elle, depois de curta pausa. Com quem?
--Com o Dr. Jorge.
--Ah!
Procopio Dias riu com a testa, e tornou a deitar-lhe um olhar de lastima.--Pobre moça! murmurou elle entre dentes. Yayá fitou-o severamente; depois, sorriu e perguntou com alguma ironia:
--Não approva a escolha?
--A escolha é excellente, disse elle; mas ha circumstancias que fazem do optimo pessimo. Ouça-me; a senhora sabe que eu a amei; suppõe talvez que já não a amo e engana-se; amo-a como no primeiro dia. Tive ideia de casar com a senhora; perdi a ideia, mas guardei o sentimento. Talvez isso lhe diminua a sinceridade das minhas palavras; mas eu cedo á voz da consciencia, sem calcular com a sua approvação...
Fez uma pausa.
--Acabe, disse a moça.
--Ha cousas que um coração inexperiente não pode entender; cousas que talvez se lhe não devam referir. Quer um conselho? não acceite o casamento; desfaça-o, não para casar commigo, mas desfaça-o.
Yayá fez-se pallida. Procopio Dias, pasmado do proprio arrojo, comprehendeu que havia ido muito longe naquellas poucas palavras; mas já não havia meio de as explicar de modo verosimil. Como se fizesse um monologo interior, abanava a cabeça ou levantava a ponta do labio, emquanto os olhos, perdidos no ar, tinham o aspecto vitreo das fortes concentrações. Yayá olhou para elle atonita e confusa: não sabia o que pensasse, não podia ou não queria entender. Afinal, collingido todas as forças, perguntou audazmente porque motivo lhe cumpria desfazer o casamento.
--Qualquer que seja o motivo, disse elle, não lhe aconselho que o acceite logo como decisivo. Reflicta antes de resolver; a responsabilidade será sua, do mesmo modo que o beneficio ha de ser seu. Meu conselho é que o desfaça.
--Porque muitas vezes o casamento é... é uma mascara, uma... Seu noivo ama a outra pessoa... Que tem?
Yayá fizera-se livida. Terror, indignação, abatimento, sua alma passou por todos esses estados, padeceu-os até simultaneamente, sem que a boca achasse uma só palavra de resposta ou de protesto. A delação fulminara-a; nunca Procopio Dias chegou a comprehender o motivo de tamanho e tão subito effeito. O effeito aterrou-o em parte, e em parte o consternou; alguma fibra lhe ficara intacta, no meio da decomposição moral de todo o seu ser, essa bastou a resentir o golpe que elle mesmo vibrara.
--Outra... Que outra? balbuciou Yayá segurando-lhe um dos braços.
Procopio Dias abanou a cabeça solemnemnte, como a dizer que não podia ir mais longe. A esse gesto seguiu-se um silencio largo, durante o qual a moça pode vencer a primeira commoção e reflectir sobre o que lhe convinha entender.
--Ama a outra? disse ella. Quem quer que seja essa rival, já agora o noivo é meu; e é natural que me ame mais do que a ella, visto que prefere casar commigo...
Não obstante a firmeza que procurava dar á palavra, a palavra era difficil e a voz parecia morrer-lhe na garganta. Procopio Dias comprehendeu que a commoção estava apenas dominada, e que o veneno penetrara abaixo da epiderme. Era a primeira vez que lhe via esse aspecto dolorido; antes de embarcar, conhecia-a menina caprichosa; depois do regresso, achou-a senhora reflectida; naquella occasião, a dor, occulta embora, como que lhe dava um encanto mais. Effectivamente o rosto de Yayá trahia o estado do coração; os olhos não correspondiam ao esforço que ella fazia para os fixar.