Yayá Garcia

Part 11

Chapter 114,059 wordsPublic domain

Quando se separaram dahi a alguns minutos, alguma cousa dizia á consciencia de ambas que não vinham de fundar a paz, mas simples tregoas. Essa persuasão cresceu nos demais dias, porque uma e outra sentiam-se mutuamente observadas. Como houvesse entre ellas um accordo tacito para não turbar a paz domestica, Luiz Garcia não percebeu essa situação nova; Jorge ainda menos do que elle. Yayá não alterou os habitos dos ultimos dias, comquanto usasse mais alguma cautella; as relações dos dous eram, aliás tão frequentes e familiares como d'antes. Uma vez, como a ausencia de Jorge se houvesse prolongado além do costume, Yayá mostrou-se-lhe um pouco retrahida: e, perguntando-lhe elle o que tinha, respondeu affoutamente, que a ausencia a magoara muito.

--Quatro dias apenas, observou elle.

No primeiro domingo de Março, Jorge foi alli ás onze horas da manhã, e só achou Luiz Garcia e Estella. Yayá tinha ido á casa de Maria das Dores. Quando a moça voltou, Jorge e Estella estavam no jardim, ao pé da porta da sala; entre ambos havia uma cadeira vaga,--a de Luiz Garcia, que fora dentro alguns minutos antes. Nenhum dos dous falava nessa occasião; Estella estalava as unhas, Jorge batia na testa com o castão da bengala. Era constrangimento? Era dissimulação? Yayá não soube decidir; mas o aspecto dos dous deixou-a sem pinga de sangue.

No dia seguinte voltou á casa de Maria das Dores; sabia do passeio usual de Jorge; queria vel-o, falar-lhe. A doente não contava com a visita tão proxima da outra. Yayá esteve com ella apenas alguns minutos, e saiu fóra, a pretexto de que fazia calor e queria ver a tarde. A tarde era bella; o ceu tinha todos os tons, desde o escarlate até o opala; ao nascente, algumas nuvens, raras e finas, manchavam de branco o fundo azul.

A casa ficava n'uma pequena elevação; Yayá sentou-se numa pedra lisa, que servia de banco, e d'ali circulou um olhar pelo horizonte; depois desceu os olhos á cidade e ao mar, e esse espectaculo, tão sahido delles, levou-a aos tempos, não mui remotos, em que entre ella e o pae nenhum coração viera interpôr-se. No meio das reflexões, viu parar um homem, ao longe; era Jorge; vinha a pé, em attitude de quem medita. Passaria elle sem a ver? Ergueu-se; viu-o approximar se, parar de novo e olhar na direcção da casa. Cortejou-o de longe e fez-lhe signal para que subisse. Jorge obedeceu sem difficuldade.

Maria das Dores, doente de uma paralysia, ficou estupefacta quando viu entrar um desconhecido pela mão de Yayá. Interrogou a moça com os olhos, e Yayá, depois de um instante de acanhado silencio, respondeu com desgarre:

--É meu noivo, que vem vel-a. Quero que o conheça e não diga nada a ninguem, ouviu?

Dizendo isto, approximou-o mais da paralytica. A boa velha contemplou-o alguns instantes, disse-lhe algumas palavras de conselho, pediu-lhe que fizesse feliz a sua filha de creação, e não obteve delle uma palavra ou um gesto de assentimento. Suppol-o commovido; mas elle estava simplesmente attonito.

Saindo fora da casa, assentaram-se á porta, na mesma pedra, assaz larga e extensa para dous.

--Foi preciso dizer-lhe aquillo, explicou Yayá, porque eu desejo conversar com o senhor, e os noivos conversam mais á vontade. Demais, ella não é só paralytica; tem a vista fraca; amanhã posso substituil-o, sem que ella dê pela mudança. Agora falemos de nós e daquella carta... E antes da carta, diga-me, sabia que eu estava aqui?

--Não; mas não vim até estes lados sem esperança de a encontrar. Já que fala na carta, deixe-me dar-lhe uma explicação; se a não dei até hoje, é porque não quizera voltar a um assumpto, aborrecido para a senhora e para mim.

--Para o senhor?

--Para mim.

Yayá apertou-lhe a mão com força.--Vá, disse; tambem tenho de lhe dizer alguma cousa grave; mas ouçamos primeiro a sua explicação.

--Oh! custa pouco, acudiu Jorge. Escrevi o esboço da carta por me parecer que podia ser-lhe agradavel. Lembra-se que uma vez me havia falado naquelle sentido? Duvidei mais tarde, e disse-lh'o. Comtudo, havia tanta incerteza e contradicção entre suas palavras e acções, que não era difficil suppôr alguma cousa; ha paixões que começam assim caprichosamente. A carta era um meio de dizer ao pretendente que seus suspiros podiam não ser inuteis. Era isso; só isso. Confesso que adoptei o papel mais passivo, desinteressado, e não sei até se... creio que a senhora já o qualificou de ridiculo. A forma podia não ser grave, mas a intenção era affectuosa, e se merecia um riso, tambem merecia um aperto de mão. Esboçada a carta, não a mandaria sem mostral-a; foi o que fiz; mas sua reprovação foi tão eloquente, que me fez cair em mim e reconhecer que a carta era de mais.

--Era de menos.

--Queria então que fosse eu proprio a Buenos-Ayres? perguntou Jorge sorrindo.

--Queria, se ao chegar lhe dissesse:--Pense em outra cousa; Yayá não o ama.

--Para isso, basta que lhe não diga nada.

--Não o ama, repetiu a moça; não o ama, não o ama.

--Desta vez é serio e definitivo?

--Que admira? replicou a moça com gravidade. Não lhe parece a cousa mais natural do mundo que uma moça não ame o Procopio Dias? Não sei o que são os outros homens; poucos tenho visto; nossa vida é tão retirada! Mas, emfim, não me parece que o Procopio Dias seja homem de se ficar morrendo por elle. E comtudo elle morre por mim. Meu coração perdoa-lhe; é o mais que pode fazer. Acceital-o seria impossivel. Já reparou nos olhos delle? Tem ás vezes uma expressão exquisita, que não vejo nos olhos de papae nem nos seus. Não gosto delle; não poderia gostar nunca.

Desta vez foi Jorge que lhe apertou a mão.

--Tem razão, disse elle; se o não ama deveras está tudo acabado. Não lhe digo que elle fosse um noivo perfeito; não podia ser; mas acceitavel era. Hoje percebo que entre a senhora e elle ha alguns contrastes; mas o que é que não concilia o tempo? Esqueça o que lhe disse a tal respeito; e assentemos não falar mais de semelhante assumpto. Provavelmente não escreverei nada; é duro dizer a um homem que todas as suas esperanças são vans.

--A paz do meu espirito não valerá esse sacrificio?

--Vale mais; posso fazel-o.

Yayá reflectiu.

--Não, não é preciso; não lhe diga nada; elle ha de entender tudo.

Como fizessem uma pausa longa, viram duas ou tres pessoas, que passavam em baixo, olharem para cima com certo ar curioso e indiscreto. Jorge ergueu-se.

--Estamos dando na vista, disse elle; hão de suppôr que somos dous namorados...

--Sente-se, disse Yayá em tom intimativo. E continuou:--Que perde o senhor com isso? Dirão que não tem mau gosto em amar uma moça bonita.

--Se dissessem que eramos dous namorados, erravam de certo, por que eu sei... eu suspeito que a senhora ama a outro. Uso dos meus direitos de confidente, exigindo que me diga a verdade.

--Toda, respondeu Yayá, e era esse o ponto grave de que lhe queria falar. Ainda uma vez, o senhor estima-me? tem-me amizade sincera?

--Pois duvida?

--Eu duvido de tudo e de todos; até de mim. Mas em fim, preciso de alguem que me ouça, a quem eu conte o que penso e o que sinto, e até o que receio, porque tambem receio, e ha horas em que tremo sem saber de que. É verdade, ha occasiões em que me parece que uma grande infelicidade vae cair sobre mim, e dahi a nada penso justamente o contrario; penso que vou receber maior felicidade do mundo, e fico alegre como um passarinho. Cousas de criança, não é?

--Não, cousas de moça. É certo que ama? a quem?

Yayá olhou para elle algum tempo, satisfeita da impaciencia que parecia ler-lhe na fronte.

--Respondo que sim e que não, disse ella. Se me pergunta a quem amo, digo-lhe que não sei, não amo ninguem; mas sinto alguma cousa mysteriosa e exquisita, e não sei... desconfio... não sei que seja. Porque é que as mesmas cousas, que me eram indifferentes, agora me parecem interessantes, e até chego a suppôr que me falam? Ainda ha pouco, antes de o ver, estava a olhar embebida para o ceu, quasi sem pensar, mas ainda assim curiosa ou anciosa; olhava para o ceu e para o mar; o coração apertou-se-me; depois alargou-se-me como se quizesse devorar tudo. Ha dias em que me levanto alegre e viva, como uma creança; papae diz que são os meus dias azues. Ha outros em que tenho vontade de quebrar tudo, e não digo mais de duas palavras em cada hora; são os meus dias negros. Ouço ás vezes uma voz que me fala; penso que é alguem e reconheço que a voz é a da minha propria imaginação. Tudo será imaginação, creio; mas é tão novo e tão bom! Em todo caso, parece-me extraordinario, e se não é loucura... É verdade, ás vezes penso que vou ficar douda, e nessas occasiões tenho medo. Será isso?

--Não, acudiu Jorge, não é loucura, é sabedoria, é a grande sabedoria da natureza. Isso que sente, não será amor; mas é a necessidade de amar; é o rebate que lhe dá o coração. Alguem virá um dia, e a voz anonyma que a senhora costuma ouvir, lhe falará então pela boca do homem que o coração lhe apontar.

Yayá escutava-o como encantada, mas sem olhar para elle. Quando Jorge acabou, fez-se entre ambos uma longa pausa. A moça tinha os olhos no horizonte onde as cores da tarde desmaiavam rapidamente. Jorge contemplava-a tomado de interesse e até de inveja; comprehendia os primeiros sobresaltos desse coração em flôr, e dizia a si mesmo que ha sensações que o tempo leva para não restituir mais.

Yayá accordou de suas reflexões.

--Francamente, disse ella; o senhor não se ri de mim?

--Rir? A senhora não me conhece. Não ha que rir de sentimentos sinceros; e seria praga muito mal a confiança de que me dá prova. Não me julgue um espirito vulgar...

--Papae faz-lhe muitos elogios.

--Hade saber, ou fica sabendo que minha natureza sympathisa com o que está acima do commum. A senhora vale muito; posso dizer que ha dous mezes eu ainda a não conhecia...

--Não tente a minha vaidade, interrompeu Yayá; prefiro que me dê um bom conselho.

--Dou-lhe um, disse Jorge depois de curta pausa; resista um pouco a essas sensações, cujo excesso pode perturbar-lhe a existencia. Não é só o coração que lhe fala, é tambem a imaginação, e a imaginação, se é boa amiga, tem seus dias de infidelidade. Dê um pouco de poesia á vida, mas não cáia no romanesco; o romanesco é perfido. Eu, que lhe falo, lastimo não ter já essa ordem de sentimentos em flôr, e comtudo não sei se ganharia com elles.

--Que! não seria capaz de amar?

--Meu coração não envelheceu ainda.

--Entendo; amaria hoje de outro modo...

--De outro modo, e tão sinceramente como d'antes; um amor de olhos abertos.

--Penso que o amor verdadeiro, ou ao menos o melhor, é o que não vê nada em volta de si, e caminha direito, resoluto e feliz aonde o leva o coração. Para que servem os olhos abertos?

--A senhora quer saber muita cousa, disse Jorge sorrindo. Não basta que o coração lhe diga: ame a este; é preciso que os olhos approvem a escolha do coração. Admira-se? Ouça-me até o fim; eu desejo preserval-a de alguma escolha má. Eleja um marido digno, um espirito que a entenda, que a admire, um homem que a possa honrar; não se deixe levar dos primeiros olhos que pareçam responder aos seus...

Yayá abaixou a cabeça.

--Não acharei nenhuns, disse ella; eu creio que este amor morrerá commigo...

Como essa ideia parecesse entristecel-a, Jorge sentiu-se tomado de compaixão, ao ver que persistia naquella aurora pura uma sombra de superstição romanesca. Pegou-lhe na mão, viu-a estremecer, recusar-lh'a e cruzar os braços.

--Tem medo de mim? disse elle ao cabo de um instante.

--Tenho.

Jorge calou-se. Com a bengala entrou a reproduzir no chão umas reminiscencias de geometria. Sentia-se atalhado, curioso, e tanto desejava como lhe custava sair d'alli. Não chegava a entendel-a claramente; a verdade, quando ia a tocal-a, parecia inverosimil. Entretanto, Yayá não rompia o silencio; tinha a fronte pendida e meditava. Talvez meditava na palavra que acabava de proferir, fructo da situação violenta em que ella propria ou os acontecimentos a haviam collocado. Era a rebellião do pudor. De quando em quando, sacudia a fronte como a expellir uma ideia enfadonha ou cruel. N'uma dessas vezes, Jorge disse com brandura:

--Para que negal-o? a senhora padece; não sei se com razão ou sem ella, mas parece padecer muito?

--Oh! muito!

E dessa vez a palavra era tão angustiosa, tão sincera, tão vinda do coração, que elle cedeu antes a um impulso de generosidade do que á conveniencia de não ser repellido segunda vez Pegou-lhe nas mãos e pediu-lhe que fosse até o fim da confiança, dizendo-lhe a causa de seus males. Talvez elle pudesse removel-os.

Yayá inclinou o rosto sobre as mãos de Jorge. Este sentiu nellas algumas lagrimas, vertidas sem soluços. Não passava ninguem: mas elle nem teve tempo de reflectir na possibilidade de um extranho. Inclinou-se tambem e perguntou-lhe affectuosamente o que tinha. Yayá ergueu a cabeça, e enxugou os olhos, mas não respondeu nada.

--A senhora não tem confiança em mim, disse Jorge.

--Ha cousas que se não fazem, outras que se não dizem; algumas ficarão entre mim e Deus, retorquiu ella como se fizesse uma reflexão para si. Depois fitou-o e pediu-lhe a promessa de que não diria nada do que acabava de ver e ouvir.

--Essa promessa não se faz; está feita por si. Quanto ao seu segredo, não quero violental-o, mas tenho esperança de que a senhora mesma o hade dizer um dia; eu saberei obter-lhe esse resto de confiança que ainda me nega.

--Já! exclamou a moça vendo Jorge levantar-se.

--Repare que a noite vem caindo; não posso ficar nem mais um minuto. Um confidente tem limites. Olhe; não peço muita cousa, mas desejo alguma cousa mais. Confidente é pouco; mestre é ainda menos. Dê-me outro titulo ou cargo; deixe-me ser seu... seu que? seu... seu irmão. Sim?

--Não! disse ella energicamente.

Jorge empallideceu, como se acabasse de ver o fundo da alma da moça. A negativa era alguma cousa mais do que um capricho. Não retorquiu; estendeu-lhe a mão.

--Até quando? disse ella.

--Até amanhã.

Tres minutos depois, Jorge estava na rua. A noite descia rapidamente. Elle não olhou para traz; se olhasse viria a figura de Yayá envolta já na meia sombra do crepusculo. Veria mais; vel-a-hia reflectir um pouco e espalmar a mão no ar, como uma ameaça, na direcção em que elle ia.

Yayá entrou na casa da doente.

--Seu noivo? disse esta.

--Já foi.

--Quando é o casamento?

--O dia não sei. E depois de uma pausa:--

Mas que se hade fazer é certo. Ou eu não sou quem sou.

XIV

Guiando para casa, Jorge ia agitado e inquieto; recapitulava a conversação que escabava de ter com a filha de Luiz Garcia. O acaso propuzera-lhe um enigma; o tempo dava-lhe a decifração. Seria a decifração? O espirito do moço recuava, não dava credito á realidade, pelo menos á realidade apparente; mas esta impunha-se-lhe de quando em quando, e Jorge recompunha todas as circumstancias daquellas ultimas semanas e ainda dos mezes anteriores. Que era a esquivança, a rispidez, a hostilidade de Yayá, senão a mascara de um sentimento contrario, a vingança de um coração atordoado pelo supposto desdem de outro? Esta reflexão vinha tão de molde com os factos dos ultimos tempos, que era difficil achar mais ajustada explicação. Logo depois, considerava que seria absurdo attribuir á moça uma ligeireza e um desgarre inconciliaveis com a prudencia que reconhecia nella, a despeito dos assomos de travessura intermittente.

--Impossivel! disse elle sacudindo o hombro.

Mas esse impossivel tornava a descer ás regiões da probabilidade, até galgar os limites da certeza. A observação lhe mostrava que Yayá tinha a audacia no sangue, e a razão lhe dizia que um amor sem freio possue todas as imprudencias e vertigens; que umas naturezas são stoicas, outras rebeldes; finalmente, que ha situações moraes incomportaveis, e que a uma candura de dezesete annos é licito não distinguir entre o sentimento que fala e a conveniencia que restringe. Esta era a interpretação benevola; depois vinha a interpretação pessimista. Podia ser que todos aquelles atrevimentos encobrissem um calculo,--o calculo da ambição, que intentasse trocar a belleza pelo beneficio de uma posição ostensiva e superior. Quando essa suspeita lhe brotou no espirito, Jorge não sentiu diminuir a admiração nem a estima; porquanto, a ambição, se ambição havia, parecia ser de boa raça. Mas era impossivel combinar o calculo com as lagrimas daquella tarde, e e elle as sentira quentes, silenciosas, e não podia crer que uma vida quasi adolescente possuisse já a arte da hypocrisia.

Não ha vida tão physica ou tão alheia ao sentimento da personalidade, que em tal situação não padecesse, ao menos, trinta minutos de insomnia. A insomnia de Jorge durou mais algum tempo. De envolta com as conjecturas havia um pouco de satisfação pessoal. A certeza ou a probabilidade de que, sem nenhuma acção propria, iniciara nos mysterios do amor, uma alma ainda nova e ingenua, dava ao coração delle alguma cousa da volupia do egoismo; sensação que, aliás, diminuiu quando lhe occorreu que talvez esse amor obscuro lhe houvesse já custado lagrimas e desesperos. Elle tinha razão quando dizia não ser espirito vulgar. Afrouxara-se-lhe o ardor dos primeiros tempos, a imaginação tinha o vôo mais curto; mas a generosidade juvenil ficara intacta, e com ella a faculdade de resentir as dores alheias.

--Pobre menina! dizia comsigo.

No dia seguinte, Jorge examinou detidamente se lhe convinha tornar á casa de Luiz Garcia, ao menos com a assiduidade do costume. A situação moral de Yayá tendia a aggravar-se com a presença continua d'elle; em taes casos, a ausencia, era um acto de criterio e até de misericordia. Misericordia foi o que elle disse comsigo, e sorriu logo depois, com um sorriso de modestia envergonhada. A verdade é que Jorge anciava por lá voltar; tinha curiosidade de contemplar a sua obra, agora que a descobria ou presumia havel-a descoberto; senão é que a noite lhe trouxera uma sombra de duvida, e elle queria verificar definitivamente a realidade.

De noite foi. Luiz Garcia estava um pouco andado e abatido.--Venha, doutor! disse elle quando viu entrar o filho de Valeria; este coração é o meu importuno. A mulher procurava animal-o; a filha tinha o terror nos olhos. Jorge auxiliou a familia no trabalho de o confortar; tres quartos de hora depois a molestia cedia, e tornava ao trabalho surdo da destruição. Luiz Garcia era outro, logo que passava uma dessas crises; tornava-se garrulo e risonho, com o fim de reanimar elle proprio a familia, e communicar-lhe a esperança que lhe começava a faltar. Jorge não se deixou contaminar da illusão; recordou a sentença do medico e sentiu a proxima extincção daquelle homem. Yayá não conhecia a sentença do medico; mas o espectaculo da afflicção do pae tinha-a prostrado muito. Apparentemente não se lembrava da entrevista da vespera; podia até suppôr-se que, de quando em quando, não se lembrava da presença de Jorge.

Jorge achou-a nos subsequentes dias, tal qual era nos outros, menos travessa, porém, e muito mais senhora. Ao cabo de uma semana, trazia todos os elementos de convicção:--Ama-me! pensava elle ao sair d'alli uma noite. A convicção, por mais que a suspeita a houvesse prevenido, atordoou o espirito de Jorge, que nessa mesma noite resolveu não voltar lá; resolução varonil, que durou quarenta e oito horas.

Alguns dias, tres semanas, decorreram assim na mais aprazivel familiaridade. Jorge, se não obtivera o titulo, exercia realmente as funcções de irmão mais velho; era um guia, um conselheiro, uma autoridade. Escutava-a com interesse; recebia a confidencia dos sentimentos da moça, e as ambições de um coração cuja sêde parecia contentar-se da agua que pudesse conter a propria mão, no primeiro arroio do caminho. Ao mesmo tempo, buscava temperar-lhe o romanesco com uma forte dose de realidade.

Durante esse tempo, nenhuma phrase egual ás daquella tarde veiu sacudir o espirito de Jorge; nenhuma lagrima lhe caiu nas mãos. Mas, se a palavra não vinha, a voz era insinuante e commovida, ás vezes; se os olhos não choravam, luziam ou quebravam-se de um modo pouco commum. Jorge fingia não comprehender; mais do que isso, forcejou por se persuadir a si proprio que não comprehendia: resultado util, que lhe dava a vantagem de saborear em silencio o gozo de se saber amado, sem perder o de contemplar uma natureza original, moralmente exhuberante e forte, que, além de tudo, tinha para elle a fascinação do mysterio.

No fim daquellas tres semanas encontraram-se em casa da paralytica. Não houve accordo, mas nada foi casual.--Vou amanhã á casa de Maria das Dores, disse Yayá uma noite, prestes a despedir-se delle. E no outro dia de tarde, Jorge, que havia rareado os passeios daquelles ultimos tempos, acertou de caminhar para alli, e com tão boa fortuna, que achou a moça sentada no mesmo banco de pedra em que lhe falára da primeira vez.

Outra vez, quando Yayá alli voltou, já encontrou Jorge, ao pé da enferma. Maria das Dores estava ainda mais contente com a honra da visita do que com a esmola que elle dissimuladamente lhe levara envolvida em um lenço de ramagens. Jorge animava-a, dizia-lhe que ainda iriam á Penha naquelle anno. Yayá parou á porta, espantada e contente.

--Venha, disse a enferma, ande ver como seu noivo está caçoando com a velha.

--Agradeço-lhe, disse Yayá; creia que ella merece todas as consolações.

Na noite desse dia, quando Jorge entrou em casa, um pouco inebriado da entrevista, achou uma carta de Procopio Dias, que o encheu de contentamento. Procopio Dias tinha necessidade de se demorar ainda uns dous mezes. Dous mezes! Era a eternidade. Jorge sentiu-se confortado com a noticia de tão longa ausencia. Que importava a presença, se ella o não amava? Essa reflexão não a fez Jorge, mas a filha de Luiz Garcia, quando elle lhe deu a noticia da carta:

--Que tenho eu que elle esteja ausente ou presente? elle ou um extranho é a mesma cousa.

A eternidade foi um minuto; os dous mezes voaram como um tufão. Um dia, no ultimo desses dous mezes, Yayá disse ao filho de Valeria que achara emfim um marido.

--Um marido? repetiu Jorge empallidecendo.

--Parece que um marido. Não me approva?

--Se ainda o não conheço.

--Não sei se é um marido, continuou Yayá depois de um instante; mas achei o homem a quem amo.

--É a mesma cousa.

--Ou quasi.

Houve entre ambos uma longa pausa, durante a qual Yayá tinha os olhos fitos no moço, emquanto este não tinha os seus em parte nenhuma; vagavam de um ponto a outro. Yayá repetiu que achara um marido.

--É a segunda vez que me diz isso, redarguiu Jorge com a voz tremula e irritada; se o achou, tanto melhor; casará com elle.

--Não me disse uma vez que não me deixasse ir com os primeiros olhos que parecessem responder aos meus? não me disse que era conveniente escolher um homem...

--O que eu disse foram palavras sem sentido, tornou Jorge; não se dão conselhos ao coração que ama. O casamento vem talhado do ceu, segundo diz o povo; outros dirão que vem do acaso; ou é o destino de cada um, ou é uma loteria. A senhora não me pede certamente que lhe diga o numero em que ha de sair a sorte grande? Compre bilhete e deixe correr a roda. Alguns dias de paciencia e nada mais...

A excitação de Jorge era extraordinaria, mas não foi longa. Alguns instantes de silencio bastaram a applacal-a ou diminuil-a; pelo menos o gesto não trahiu a agitação interior. Pallido, sim, estava pallido; mas a voz, se não era firme, perdera a aspereza do primeiro instante.

--Reflecti depois da nossa conversa, disse elle e não desejo tomar nenhuma responsabilidade em um acto de que depende a felicidade de sua vida.

--Então, não me estima, é o que é, disse Yayá em voz queixosa.

Jorge respondeu com um olhar, e a resposta que elle quizera fosse um simples protesto, transgrediu esse limite: foi um protesto, uma queixa e acaso uma interrogação. Yayá abaixou os olhos; uma onda de sangue lhe avermelhou a face; Jorge viu-a offegante e acanhada durante alguns segundos. Não indagou o motivo; ergueu-se para sair. Yayá retevo-o pela aba do fraque.