Part 10
Jorge hesitou um instante. Era gracejo ou proposta séria? A um gracejo responde-se com outro, a uma proposta responde-se com seriedade. Jorge hesitava em tomar sobre os hombros uma parte de responsabilidade dos sentimentos da moça. Quaes seriam elles? que projectos despertariam naquelle cerebro provavelmente indomavel? Não podiam ser outros senão os de casamento com Procopio Dias, visto que ella confessava amal-o. Esta reflexão fel-o declarar affoutamente que acceitava a confidencia.
--Sabe o que acceita? perguntou Yayá.
--Farejo.
--Toque! disse ella estendendo-lhe a mão.
Jorge deu-lhe a sua.
--Não se trata em todo caso de nenhum assassinato? perguntou rindo.
--Não.
A segunda partida foi mais animada, mas só por parte de Yayá. A moça ria ás vezes, mas a maior parte do tempo fazia convergir toda a sua attenção para o jogo. Quando falava, era moderada e docil. Essa alternativa e contraste de maneiras interessava naquelle momento o espirito de Jorge. Que especie de mulher fosse, imperiosa como uma matrona, travessa como uma creança, incoherente e enigmatica, era cousa que elle não podia em tão pouco tempo descobrir; mas o enigma aguçava-lhe attenção. Em quanto ella tinha os olhos no taboleiro, Jorge buscava ler-lhe a alma na fronte lisa e candida; mas não via a alma, via só uns fiapos castanhos do cabello, que lhe caíam sobre a testa e esvoaçavam levemente ao sopro da aragem que entrava pela janella, e lhe davam um ar de puericia. A boca fina e pensativa corrigia aquella expressão da cabeça; era a primeira vez que elle lhe descobria um forte indicio de energia e tenacidade.
Quando era a vez de Jorge, Yayá affastava o busto, reclinava-se no espaldar de cadeira e ficava a olhar para elle, como elle havia olhado para ella. Mas nesse olhar não scintillava curiosidade; era uma luz velada e baça, como alheia ao mundo exterior. Encontravam-se assim os olhos de um e de outro, e a partida continuava, até chegar ao fim sem novo incidente.
Prestes a acabar, Estella entrou no gabinete, sem os interromper. Sentou-se caladamente a um canto da janella. O jogo cessou no momento em que entrou Luiz Garcia.--Perdi duas partidas, papae, disse a moça; mas por um triz não ganhei a segunda. Jorge quiz sair logo depois; foi obrigado a demorar-se, porque Yayá lembrou-se de ir tocar piano. Era a primeira vez que Jorge conseguia ouvil-a. A moça escolheu uma pagina de Meyerbeer; Jorge confessara uma vez que era esse o autor de sua predilecção.
No dia seguinte a impressão deste era um tanto complexa e perplexa. Aquella mistura de franqueza e reticencia, de aggressão e meiguice, dava á filha de Luiz Garcia uma physionomia propria, fazia della uma personalidade; mas a physionomia era ainda confusa e a personalidade vaga. Jorge sentia-se empuxado e retido, ao mesmo tempo, por dous sentimentos contrarios; tinha curiosidade e repugnancia de penetrar o caracter da moça, e conhecer e distinguir os elementos que o compunham. O que lhe parecia claro e definitivo era que as primeiras palavras de Yayá, tão duras e tão seccas, não passavam de uma expressão de despeito, por suppôr da parte delle a aversão que não existia; e se as palavras em si o magoavam, a explicação lisongeava-lhe o amor-proprio. O resto era inexplicavel. Jorge resolveu, entretanto, não lhe falar mais de Procopio Dias, apezar da confissão aliás contrastada ou diminuida pelo gesto que se lhe seguiu.
Yayá pareceu perder a disposição aggressiva; á força de affabilidade apagou inteiramente os vestigios da antiga rispidez. A alma não se lhe tornou mais transparente, nem o caracter menos complexo; mas a exquisita urbanidade dos modos fazia supportaveis os saltos mortaes do espirito, e augmentava o interesse do que havia nella obscuro ou irregular; finalmente, era um correctivo á tenacidade com que a moça confiscava litteralmente o filho de Valeria. Jorge estimou, sobre todas, esta circumstancia, porque lhe tornou mais facil a frequencia da casa. Elle pertencia ao pae ou á filha--muitas vezes aos dous. Yayá atirou-se ao xadrez com um ardor incomprehensivel, e dizendo-lhe Jorge que era preciso ler alguns tratados, ella pediu-lhe um, e porque elle só os tivesse em inglez, Yayá pediu que lhe ensinasse inglez.
--Mas eu sou um mestre muito rispido, observou elle.
--A discipula é muito peor.
Estella assistia algumas vezes ás lições do idioma e do jogo;--duas cousas que lhe pareciam incompativeis com o espirito da enteada. Verdade é que Yayá mudara tanto naquellas ultimas semanas! Não lhe suppuzera nunca tão longa paciencia, nem tão repousada attenção. Yayá gastava uma a duas horas por dia a decorar os verbos e os substantivos da nova lingua, e essa paixão recente tinha o condão singular de irritar a madrasta. Jorge, pelo contrario, sentia em si os jubilos do pedagogo. O professor é o pae intellectual do discipulo; Jorge contemplava paternalmente aquella intelligencia fina, paciente e tenaz servida por dous olhos de pomba e duas mãos de archanjo.
No meado de Fevereiro tornaram a falar de Procopio Dias, a proposito de uma carta que Luiz Garcia recebera.
--Veja lá, disse a moça; elle escreveu a papae e nem uma palavra especial para mim. «Lembranças a D. Estella e a Yayá.» Nada mais. Elle escreveu-lhe?
--Até agora, não.
--Não ha nada como a ausencia para fazer esquecer tudo--isto é, esquecer os que ficam. Talvez já não pense em casar commigo. Foi um capricho que passou, como todos os caprichos; foi como a chuva de hontem, que deu apenas alguns salpicos de nada. E com tudo parecia que vinha abaixo o ceu. Não é? a paixão delle não é como a trovoada? ameaçou no Rio de Janeiro e foi cair em Buenos-Ayres. Aposto que vem de lá casado. Verá que não é outra cousa. Que me diz a isso? Vamos; diga alguma cousa.
--Não posso, redarguiu Jorge. A senhora deu-me o cargo de confidente e não de conselheiro; limito-me a ouvil-a. Verdade é que o tal cargo até agora parece simples sinecura.
--Que é sinecura?
Jorge sorriu e definiu-lhe a palavra.
--Não é sinecura, acudiu Yayá; pelo contrario, é um cargo muito espinhoso.
--Não creio. A confidencia unica até hoje não me pareceu sincera. A senhora não ama o Procopio Dias.
Yayá franziu a testa.
--Porque me diz isso?
--Porque, se o amasse, falaria de outro modo, e sobretudo não falaria tanto. O amor, nessa edade, vive de reticencias, não de phrases e menos ainda de phrases tão compostas.
--Cale-se! interrompeu ella batendo-lhe com a grammatica na ponta dos dedos. E depois de uma pausa:--Se elle lhe escrever, mostra-me a carta!
Como Jorge lhe dissesse que sim, Yayá fez um movimento para rasgar o volume em dous pedaços. Jorge perguntou-lhe o que tinha.--Nervoso! respondeu a moça sacudindo os hombros com um calefrio. Depois, como a amparar-se, lançou-lhe a mão a um dos pulsos. Jorge sentiu a pressão de uns dedos de ferro; e parece que outros dedos invisiveis tambem comprimiam as faces da moça, vermelhas como se vertessem sangue.
XIII
Jorge achou em casa, nessa mesma noite, uma carta de Buenos-Ayres. Procopio Dias narrava-lhe a viagem e os primeiros passos, e dizia ter toda a esperança de se demorar pouco tempo. Tudo isso era a terça parte da carta. As duas outras terças partes eram saudades, protestos, expressões de sentimento, e um nome no fim, um nome unico, e que era a chave do escripto. Jorge leu attentamente essas confidencias, e na mesma noite esboçou uma resposta. Não era facil combinar a discrição que quizera conservar em suas relações com Procopio Dias e a necessidade de lhe mandar algumas esperanças. Embora com esforço, redigiu a resposta conveniente, contando-lhe as boas impressões que tinha; só as boas, não lhe disse as duvidosas; sobretudo não desceu a nenhuma realidade, a nenhum nome proprio; nada mais que uma extensa serie de locuções egualmente animadoras e vagas.
No dia seguinte não foi á casa de Luiz Garcia; choveu torrencialmente. Mas no outro dia foi, logo depois do jantar. Achou reunida a familia.
--_Good evening, my dear_ mestre! bradou Yayá logo que o viu entrar na sala.
--Faltava mais uma lingua a esta tagarella, disse Luiz Garcia rindo; daqui a pouco tempo ninguem a poderá aturar.
Jorge não esperava, de certo, encontrar na moça a mesma expressão que lhe deixára na antevespera, quando de um gesto nervoso lhe comprimira o pulso. Tinham passado quarenta e oito horas, e para que ella se restabelecesse bastariam apenas quarenta e oito minutos. Contava com a mudança; não obstante procurou ler-lh'a nos olhos, e achou-os tão alegres como o tom em que ella o saudara. A licção isolou-os, e foi tambem o pretexto mais favoravel para lhe mostrar a carta de Procopio Dias. Yayá viu-a sellada e comprehendeu tudo; arrebatou-a ás mãos de Jorge.
--Ah! disse este, seu gesto vale um discurso.
--Posso ler?
--Pode.
Yayá desdobrou a carta e leu-a para si, Emquanto lia, Jorge fitava-a. Não lhe via nenhuma confusão, alvoroço ou alegria; os olhos seguiam lentamente de uma linha a outra, e a mão firme voltava a pagina. No fim, quando leu o proprio nome, teve um movimento de tedio, e inconscientemente amarrotou o papel; mas emendou-se logo, alisou a carta com a mão e restituiu-a silenciosamente. Durante alguns segundos occupou-se em traçar com um lapis alguns circulos na margen da folha aberta da grammatica; ergueu emfim os olhos e perguntou sem rir:
--Acredita no que diz essa carta?
--Acredito; tudo o que está ahi escripto, já o ouvi de viva voz, e com a mesma sinceridade e calor. Quem sabe? pode ser que seja o primeiro amor desse homem.
--O primeiro... o primeiro... repetiu ella entre dentes.
--Talvez o primeiro, insistiu Jorge; e para uma moça, acho que deve ter algum encanto ser amada por um homem, considerado superior ás paixões. A vida de Procopio Dias teve sempre outra ordem de interesses...
--Conhece-o ha muitos annos?
--Ha muitos, não; conheço-o desde o Paraguay.
--Acha que eu fazia bem em me casar com elle?
--Bem ou mal, conforme o amor que lhe tiver. Esse é o ponto necessario, e em meu conceito, o ponto duvidoso. Receio que a senhora o não ame deveras; já tive occasião de o dizer.
--Preciso de alguns esclarecimentos. O senhor amou de certo alguma vez...
--Nunca.
--Nunca? Nunca teve um amor, um só que fosse? Não creio. Um coronel! Nada; não creio; só se me jurasse; era capaz de jurar?
--Juro.
--Em nome de sua mãe? concluiu ella fitando-lhe uns olhos cuja expressão imperativa contrastava com o tom submisso da palavra.
Jorge hesitou um instante. Tinha scepticismo bastante para proferir uma formula vaga de juramento; mas recuou deante da formula positiva. Hesitou e ladeou a pergunta.
--Esse nome resume justamente o meu unico amor, disse elle; amei a minha mãe.
Yayá sorriu com ar de duvida; depois olhou para elle commovida.--Eu amo meu pae, redarguiu ella; nossos corações podem entender-se.
A esta palavra não havia que replicar; pareceu-lhe a condemnação do pretendente. Apertou a mão que a moça lhe estendeu, e sentiu-a fria. Após uma curta pausa, abanou a cabeça, murmurando:
--Assim pois, nenhuma sombra de esperança...
--Faça o que entender, disse a moça no fim de outra pausa. Em todo o caso desejo ler a resposta que lhe der.
Jorge abriu a carteira, e tirou de lá o rascunho da carta que pretendia mandar a Procopio Dias.
--A resposta, disse elle, já está escripta. Não querendo matal-o, puz aqui algumas gottas de esperança; não ousaria comtudo mandar o remedio, sem ouvil-a.
Yayá recebeu o papel dobrado, olhou um instante para elle, outro para Jorge.--Leia, disse este. Yayá não obedeceu: pegou do lapis, e sobre a folha do papel dobrado começou a lançar os traços de um desenho. Posto que a luz batesse em chão no papel, Jorge não pode ver desde logo o que era; mas esperava, em frente da moça, que ella rematasse o capricho. Nessa occasião, Estella foi ter com elles.
--Já acabou a licção? perguntou.
--Agora é uma licção de desenho, ao que parece, disse Jorge.
Estella poz a mão no hombro da enteada.--É o Procopio Dias! disse ella olhando para o desenho. Era, mas o desenho frisava com a caricatura; a fealdade de Procopio Dias excedia as proporções verdadeiras, o nariz era enormemente triangular, as rugas da testa grossas e infinitas: um monstro comico. Estella sorriu da travessura, mas reprehendeu-a.
--Deixe ver, disse Jorge quando ella acabou.
--Para que? retorquiu Yayá com indifferença.
E levando o papel á chamma, queimou-o. Jorge interrogou-o com os olhos; ella encarou-o sem se perturbar. Depois folheou a grammatica lentamente.
--Continuemos a licção, disse ella. _I love_. Vá; onde estavamos? Aqui, era aqui.
Estella assistiu á licção toda, com a paciencia da curiosidade. Não olhava nunca para o mestre, dividia a attenção entre a discipula e o livro. A licção foi longa, mais longa do que era necessario, porque o proprio mestre não acompanhava pontualmente o texto e a leitura. Yayá tinha deante de si dous juizes, cada um dos quaes buscava decifrar-lhe na fronte a inscripção que lá lhe teria posto o seu destino. Percebia-o, e não se enfadava. Ia de um tempo a outro, e do indicativo ao imperativo, voltando ao começo logo que chegava ao fim, fitando os dous inquisidores com um olhar em que pareciam dormir todas as ignorancias da terra.
A tranquillidade era apparente. Nessa noite, recolhida aos aposentos, a moça deu largas a dous sentimentos oppostos. Entrou alli prostrada.--Que estou eu fazendo? disse ella apertando a cabeça entre os punhos. Abriu a veneziana da janella e interrogou o ceu. O ceu não lhe respondeu nada; esse immenso taciturno tem olhos para ver, mas não tem ouvidos para ouvir. A noite era clara e serena; os milhões de estrellas que scintillavam pareciam rir dos milhões de angustias da terra. Duas dellas despegaram-se e mergulharam na escuridão, como os figos verdes do Apocalipse. Yayá teve a superstição de crer que tambem ella mergulharia alli dentro e cedo. Então, fechou os olhos ao grande mudo, e alçou o pensamento ao grande misericordioso, ao ceu que se não vê, mas de que ha uma parcella ou um raio no coração dos simplices. Esse ouviu-a e confortou-a; alli achou ella apoio e fortaleza. Uma voz parecia dizer-lhe:--Prosegue a tua obra; sacrifica-te; salva a paz domestica. Restaurada a alma, ergueu-se do primeiro abatimento. Quando abriu de novo os olhos, não foi para interrogar, mas para affirmar,--para dizer á noite que naquelle corpo franzino e tenro havia uma alma capaz de encravar a roda do destino.
Tarde conciliou o somno. Já dia claro, sonhou que ia calcando a beira de um abysmo, e que uma figura de mulher lhe lançava as mãos á cinta e a levantava ao ar como uma pluma. Pallida, com o olhar desvairado, a boca ironica, essa mulher sorria, de um sorriso triumphante e mau; murmurava algumas phrases truncadas que ella não entendia. Yayá bradou-lhe em alta voz:--Dize-me que não amas e eu te amarei como te amava! Mas a mulher sacudindo a cabeça com um gesto tragico, e collando-lhe os labios nos labios, soprou alli um beijo convulso e frio como a morte. Yayá sentiu-se desfallecer e rolou ao abysmo. Accordou agitada e deu com a madrasta, a contemplal-a, ao pé da cama. No primeiro instante, fechou os olhos e recuou até a parede; mas logo depois voltou a si.
--Tive um pesadelo horrível, disse ella respirando largamente; rolei no fundo de um abysmo, empurrada por duas mãos de ferro. Ainda estou fria. Veja as minhas mãos. Tenho o peito opprimido. Felizmente passou. Está aqui ha muito tempo? Eu agitei-me muito?
--Falaste em voz bem alta.
--Que foi?
--«Dize-me que não amas e eu te amarei como te amava,» Não sei que estas palavra se possam dizer no fundo de um abysmo. Tu confundes os sonhos...
--Talvez; não me lembra outra cousa. Só me lembro do abysmo, que felizmente não passou da minha imaginação. É muito tarde, não é?
--Nove horas.
--Nove horas!
Estella foi a janella, e, abrindo a veneziana, mostrou-lhe o sol. Depois encostou-se alli a olhar para fóra. Entrara alguns minutos antes, admirada do prolongado somno da enteada, e ia pousar-lhe a mão no hombro, quando ouviu aquella palavra balbuciada no meio de grande agitação; palavra mysteriosa e vaga, mas que se lhe embebeu no coração como um espinho. De sua parte, Yayá não estava menos inquieta. Receiava que houvesse dito alguma cousa mais,--um nome ou uma circumstancia precisa;--em todo caso, era bastante o que ouvira a madrasta, para imaginar que o sonho lhe escancarara as portas da consciencia. Uma e outra espreitavam-se desconfiadas e medrosas. A madrasta deixou a janella e foi sentar-se na beira da cama. Ambas sorriam com esforço e nenhuma conseguia falar primeiro. Correram assim tres longos minutos de acanhamento e observação reciproca. Estella foi a primeira que rompeu o silencio.
--O teu pesadelo foi um castigo, disse ella; foi o castigo da caricatura que hontem fizeste. Aquillo não é bonito. Todos sabem que o Procopio Dias é bem recebido em nossa casa. Que se hade pensar de nós, quando virem que se tratam assim as pessoas ausentes?
Yayá reflectiu um instante.--Era preciso, disse ella; era uma maneira de desenganar de uma vez as pretenções desse senhor.
--Mas quem te falou nellas?
--O Dr. Jorge, que parece protegel-o. Não é possivel que haja ninguem mais feliz do que aquelle homem. Bastou gostar de mim, para que todos se empenhem em approval-o e aconselhar-me que não devo tomar outro marido. Parece-lhe que eu...
--A que proposito te falou nisso o Dr. Jorge?
--A proposito de cousa nenhuma; falou porque é amigo delle. Não lhe disse eu uma vez que um dia, se todos teimarem, serei obrigada a casar com o Procopio Dias? Receio muito que assim aconteça.
--Não, disse Estella vivamente; não hade acontecer assim, primeiramente por que eu não o consentirei nunca; depois, por que tu amas a outro...
--Eu?
--O teu amor de collegio, aos doze annos e meio...
--Ah! disse Yayá. E depois de alguns instantes continuou, com um gesto de grande vergonha:--Fiz mal em lhe dizer aquillo; peço-lhe que não repita a ninguem.
Estella não ouviu as ultimas palavras. Erguera-se outra vez para dissimular a commoção, que parecia crescer. Entretanto, Yayá enfiou um roupão e enterrou o pé na chinellinha matinal. Quando, cinco minutos depois, encontrou os olhos de Estella, achou-os sombrios, como os da figura do pesadelo, e insensivelmente buscou ver se teria um abysmo ao pé de si.
--Yayá, disse Estella em tom secco, tu amas, tu confessas que amas a alguem; quero que me digas o nome desse homem, ouves? Exijo sabel-o para avaliar o que te convem. Sabes que tenho autoridade de mãe.
Yayá sentiu ferver-lhe o sangue nas veias.
--Minha mãe morreu, redarguiu com egual sequidão; estou prompta a obedecer a meu pae.
Estella apenas disfarçou a sensação interior; após alguns instantes de silencio, saiu.
Longe da enteada, a madrasta deu inteira expansão aos sentimentos que a combaliam. Fechou-se no gabinete do marido; depois evocou o passado, como uma força contra o presente, porque era o presente que ameaçava tragal-a. Um instante abalada pela leitura da carta de 1867, buscou recobrar a antiga quietação, mas a interferencia de Yayá perturbou essa obra de sinceridade. O procedimento da enteada, a subita conversão ás attenções de Jorge, toda aquella intimidade visivel e recente, accordara no coração de Estella um sentimento, que nem aos orgulhosos poupa. Ciume ou não, revolvera a cinza morna e achou lá dentro uma braza. Suspeitou a rivalidade da outra, e não foi preciso mais para que o grito de rebellião fizesse estremecer aquella alma solitaria e virgem. O pensamento perdeu a habitual placidez. O coração começou de bater com a celeridade e a violencia das grandes febres.
Eram as energias latentes de um amor comprimido, mas intenso, como uma cratera que acaso fechasse uma abobada de gelo; peor que tudo, tinha a fatalidade de um longo constrangimento, a luta de duas forças egualmente pujantes, indomaveis e cegas. O orgulho vencera uma vez; agora era o amor, que, durante os annos de jugo e compressão, criara musculos a saía a combater de novo. A Victoria seria uma catastrophe, porque Estella não dispunha da arte de combinar a paixão espuria com a tranquillidade domestica; teria as lutas e as primeiras dissimulações; uma vez subjugada, iria direito ao mal.
Ora no meio desse duello, já doloroso, embora ainda curto, ouviu Estella a ultima palavra da enteada, commentario da que lhe escapara na agitação do pesadelo. Saiu dalli atterrada, tacteando as sombras, e desviando os olhos quando algum clarão de realidade se lhe accendia ao longe. Não podia crer na rivalidade consciente e declarada de Yayá; era inverosimil, seria a sua propria vergonha e condemnação. Mas as palavras retiniam-lhe ao ouvido, e o gesto frio e duro da enteada parecia clarear o que havia obscuro nellas.
Não podia durar muitas horas a situação em que a fatalidade das circumstancias havia posto as duas mulheres. Yayá era a mais ductil, e, outrosim, a mais interessada. Logo que Estella a deixou só, caiu em si e comprehendeu que, além de ferir cruelmente a mulher que lhe servia de mãe, levantara uma ponta do veu em que trazia envolto o pensamento; ao demais, a injuria produzira a reacção do amor,--do amor que lhe tinha e não perdera de todo, apezar dos acontecimentos ultimos. Na seguinte manhã foi ter com a madrasta.
--Confesso que fui excessiva e desobediente, disse ella; não o devia ser, mas a senhora falou com um modo tão secco! tão duro! Pareceu-me que duvidava de mim; fosse o que fosse, não era o seu modo do costume. Sempre a respectei como minha mãe; não nego, não poderia negar nunca os seus direitos, assim como não desconheço a sua amizade; mas a senhora mesma tem um bocadinho de culpa; sempre me tratou antes como irmã do que como filha. Dahi veiu alguma confiança, alguma liberdade, e foi por isso que hontem cheguei a esquecer quem eramos, para a tratar como não devia. Foi isso sómente; foi um excesso, uma leviandade, nada mais. Consulte o seu proprio coração e elle lhe responderá que não foi mais do que isso. Vá; pergunte-lhe, elle me conhece.
Estella escutou-a silenciosamente, sem vergar a altivez da fronte, mas tambem sem nenhuma expressão de despeito ou desafio. Luzia-lhe nos olhos alguma cousa que espreitava a alma da outra por baixo das palpebras descidas. Yayá falara de um jacto, mas não de um só tom; simplicidade, timidez, faceirice,--havia de tudo na maneira porque se exprimiu durante aquelles poucos segundos. A explicação era a um tempo sincera e habil, mas de tal modo se confundiam os dous caracteres, que a propria habilidade não tinha consciencia de si: era antes um instincto do que um calculo.
--Que me pedes tu? disse Estella no fim de alguns instantes. Que te perdoe? Que esqueça a tua imprudencia? Uma cousa é mais facil do que a outra. Estás absolvida; faze agora com que eu esqueça.
--Porque não? eu consegui fazer com que me amasse, quando a senhora não sabia ainda se eu era má ou boa.
--Era facil. Tua mãe era tua mãe; mas não te amou mais do que eu. Se alguma vez o reconheceste, não foi hontem; hontem cedeste a um mau preconceito contra as madrastas, e levantaste entre mim e ti um espectro, que se podesse falar seria para te condemnar tambem. Não me queixo; nunca me queixei de cousa nenhuma: quando estimo alguem, perdôo; quando não estimo, esqueço. Perdoar e esquecer é raro, mas não é impossivel; está nas tuas mãos.
Subjugada pelo tom com que a madrasta falara, simples, severo e levemente repassado de tristeza, Yayá cedeu a um nobre impulso de submissão. Pegou-lhe nas mãos e beijou-as. A madrasta sentiu nellas uma lagrima. Não recusou esse testemunho do coração, e tel-a-hia apertado ao seio se lh'o permittisse a inflexibilidade do espirito. Limitou-se a contemplal-a com os olhos amoraveis de outro tempo.