Part 9
--Não deu, nem eu lh'a pedi, nem pediria, porque a palavra de honra não obriga a consciencia, quando é dada para salvar uma questão de honra. O senhor poderia dal-a sem sinceridade nem remorso. Já não é a mesma cousa se me jurasse, por que o juramento, invocando o testemunho de um ente superior, esse obriga a consciencia que não está pervertida.
--Não exige de mim que jure, espero eu? disse Jorge.
--Ha ainda uma raiz de duvida, em meu coração, replicou Procopio Dias sorrindo.
--Pois juro-lhe...
Procopio Dias levantou-se de subito.
--Não precisa mais, exclamou elle apertando-lhe as mãos. Agora creio; creio de todo. Não é meu rival, nem corrompe a familia a que pretendo unir-me. Se soubesse o prazer que me deu com a sua ultima palavra! Obrigado! Agora creio. Ria-se de mim, ria-se; eu creio que esta expansão pode ter um lado grotesco,--hade ter de certo. O que lhe affianço é que se minha felicidade não é completa depende sómente da fortuna não dos homens...
Sentou-se depois destas palavras, proferidas quasi sem respirar. Jorge acompanhou-o nessa expansão de felicidade. Pareciam satisfeitos um do outro. Procopio Dias confessou que era a primeira pessoa a quem falava de seus sentimentos, e não se vexava de dizer que, ao cabo de alguns mezes, nada podia saber do coração da moça. Ás vezes suppunha ser acceito; outras, e eram as mais numerosas, tinha a persuasão contraria.
--O senhor naturalmente conhece-a e sabe que obra de contradicção é aquella mocinha, disse elle. Ha occasiões em que sua familiaridade commigo chega quasi á seducção. Talvez exagéro; mas que heide de pensar de uma moça que me pede instantemente que vá lá, em certo dia, com um modo grave e cheio de promessas? digo-lhe sim; vou, recebe-me com um epigramma, ri-se de mim, abusa da complacencia e não sei se do amor, porque, comquanto não lhe haja dito nada, acho natural que ella o tenha descoberto nos meus olhos. Se fico despeitado e resolvido a não voltar lá, ella torna-se mansa, como uma pomba, carinhosa, macia, e o meu despeito evapora-se, e eu continuo a minha viagem interminavel.
--Nunca lhe deu a entender nada, ao menos por allusão?
--Nunca; receio que não me deixasse acabar.
--Não creia; eu supponho que ella gosta do senhor.
--Sabe disse?
--Não; mas é o que concluo do que me contou. As mulheres têm ás vezes caprichos; e demais ha naquella uns restos de creança, que a faz ainda mais caprichosa. Meu raciocinio é este: se ella percebeu, e não o repelle absolutamente, é porque o senhor ainda pode ter esperanças...
Procopio Dias não pode exprimir a alegria que estas palavras de Jorge lhe entornaram na alma; seus olhos brilharam da uma luz extranha, depois fecharam-se, emquanto a cabeça pendeu para traz, de um geito languido. Durante essa pausa de alguns minutos, Jorge pode analysar as feições de Procopio Dias, pouco proprias a fascinar uns olhos de dezeseis annos, e achou natural que Yayá não se sentisse tomada de cego enthusiasmo. Comtudo, não era impossivel corresponder-lhe de algum modo, se a razão tomasse as redeas ao coração. Jorge suppunha até que houvesse em Yayá uma semente de sympathia, que bastava fazer germinar.
Entrando no quarto que lhe fora destinado, Procopio Dias estava longe de ter somno; a excitação trazia-o esperto. Entrou, abriu a janella e olhou ao largo. O aroma vivo das plantas da chacara ainda mais lhe apurou o systema. Não era homem de contemplar estrellas nem de fazer philosophias acerca da solidão nocturna e do somno das cousas; limitou-se a pensar no que acabava de ouvir.
--Gosta da Estella, murmurou elle; antes de jurar podia ser duvidoso; depois do juramento é positivo, se ella não gosta delle faz mal; é um rapaz de espavento.
Depois, abriu as azas ao pensamento e foi direito a Yayá, galgando o espaço e derrubando paredes: foi e contemplou o seu somno de virgem, que elle suppunha ser quieto e puro, mas que a essa mesma hora, era turbado e já complicado das ideias do mal. Procopio Dias deixou-se ir ao sabor da paixão, que era viva e sincera, uma conspiração surda e mysteriosa de todas as forças sensuaes.
A figura terna e virginal de Yayá apparecera-lhe um dia, subitamente, como uma visão não sonhada. Se elle a visse em algum salão aristocratico pensaria nelle uma noite, talvez uma semana, até esquecel-a ou substituil-a. Mas o que o prendeu a Yayá Garcia foi justamente a mediocridade do nascimento. Possuil-a era fazer-lhe um favor. Quantas outras lhe não levaram os olhos de satyro, ao descer de uma carruagem, ou ao resvalar indolentamente o seu talhe na contradança de bom tom? Elle via-as passar ou estar, com os hombros nus ou cingidos da cachemira elegante, risonhas umas, outras sérias, todas altivas e compassadas, e sentia que os annos, feições e maneiras o distanceavam dellas; não era difficil apagal-as de memoria.
Yayá teria antes de agradecer a escolha; era a sua convicção, e foi o que mais o ligou á filha de Luiz Garcia.
Quando a moça reflectisse que acharia no marido a satisfação de todas as velleidades do luxo, o gozo das cousas superfinas, elegantes e raras, devia ceder por força e preferil-o a quem lhe désse apenas coração, trabalho e necessidades. Uma vez brotada a ideia, cresceu e tomou-lhe o cerebro todo. Yayá era então a figura presente a seus olhos, ora divina e casta, ora ardente e lubrica,--lubrica, porque elle em sua imaginação conspurcava-a, antes mesmo de a possuir.
No dia seguinte acordaram tarde e almoçaram juntos, sem tomar no assumpto da vespera. No fim do almoço, Procopio Dias referiu-se a elle, dizendo que fora excessivo na noite anterior, e pedindo a Jorge que o não levasse a mal; porquanto era tudo filho de um sentimento que não pécca por moderado na suspeita, nem equitativo na apreciação.
--Não podia attribuir-lhe outro motivo, redarguiu Jorge sorrindo.
--Não ficou mal commigo?
--Mal? A prova é que se dependesse de mim casal-o, casava-o amanhã mesmo.
Procopio Dias agradeceu-lhe a sympathia e o obsequio, e saiu. Jorge foi dalli vestir-se para ir passar alguns minutos no escriptorio. Emquanto se vestia, pensava na situação do ex-fornecedor do exercito. Não eram amigos, mas o caso de Procopio Dias interessava-o; era sympathico a seus olhos. Não indagou se essa sympathia brotava do medo; persuadia-se ingenuamente do contrario. Um marido apaixonado e opulento! Duas vantagens que uma moça nas condições de Yayá, devia acceitar com ambas as mãos. Talvez Procopio Dias não fosse mal acceito ao coração da moça; sómente, havia nesta uns vestigios de creança, que o tempo devia apagar.
--Naquella edade um pretendente é uma especie de boneca, dizia Jorge atando a gravata; o que é preciso, a todo trance, é fazer da boneca um esposo.
Chegando ao escriptorio, ao meio dia, Jorge encontrou o Sr. Antunes consternado. Tinha dormido até onze horas, chegara tarde á casa em que trabalhava, o patrão convidara-o a fazer as contas. Era uma pequena casa de commercio, onde o Sr. Antunes, que entendia de escripturação mercantil, trabalhava desde algum tempo, graças ao obsequio de Jorge:
--Mas já foi despedido? perguntou este.
--Devo fazer as minhas contas e retirar-me no fim do mez.
Jorge escreveu duas linhas ao patrão do Sr. Antunes. De tarde, foi este a Santa Thereza. Jorge ia sentar-se á mesa do jantar; o Sr. Antunes já tinha jantado, mas acompanhou-o.
--Venha, venha, disse o moço; preciso ralhar-lhe.
Vexado e timido, o Sr. Antunes sentou-se defronte de Jorge, que não lhe disse nada durante os primeiros minutos. Jorge falou emfim, reprehendendo-o amigavelmente; disse-lhe que as exigencias do commerciante não eram exageradas, e em todo caso não havia meio de oppôr-se a ellas, salvo se quizesse deixar a casa.
--Isso mesmo, disse o pae de Estella.
--Não faça isso; não se ganha nada em andar de emprego em emprego. Demais, francamente, não vejo que entrar antes das dez horas seja cousa difficil. Seu genro faz isso ha muitos annos.
--Meu genro!... meu genro!... disse o Sr. Antunes sacudindo a cabeça com um gesto de enfado.
Jorge fingiu não attender ao gesto e ao tom do pae de Estella, e tratou de o converter á pontualidade, obra que começava a ser difficil, porque o Sr. Antunes entrava já nas consequencias logicas e naturaes de uma longa dependencia; preferia o favor ao trabalho, e os annos contribuiam para esse amor da inercia e do beneficio gratuito. A maior ambição que o animou, se a fortuna a houvera realisado, dar-lhe-hia todos os meios de envelhecer tranquillo. Agora tinha encanecido, e o corpo, embora lesto, começava a suspirar pela inacção.
Jorge deixou o assumpto para não vexar o antigo protegido do pae, e acabou o jantar alegremente. No fim recebeu um bilhetinho de Procopio Dias. «Não imagina, dizia este, que dia tenho passado, depois da nossa conversa de hontem. Teimo em dizer que fui excessivo, e ainda uma vez lhe peço me releve a falta. Poderia o senhor castigar um doido? O amor não tem imputação. Queime este bilhete; em todo caso não o revele a ninguem, sobretudo á pessoa de que se trata.» Jorge sorriu e releu o bilhete; depois fechou-o na secretaria e escreveu esta simples resposta: «Ainda uma vez, não ha que perdoar. O senhor foi apenas desconfiado, como todos os ciumentos; mas, como não inventou o ciume, não lhe faço carga disso.» Entregue a resposta, Jorge olhou para o Sr. Antunes, que fumava discretamente um charuto do bacharel.
--Ouvi dizer hoje uma cousa, disse Jorge com ar indifferente; ouvi dizer que Yayá vae casar.
--Casar? repetiu o Sr. Antunes com um sobresalto. E depois de um instante:--É possivel; naquella casa o ultimo que sabe das cousas sou eu.
--Talvez não passe de balella. Nem me disseram com quem. Provavelmente ha algum namorado ou apparencia disso, e então os novelleiros vão logo ao fim. Mas haverá deveras algum pretendente ou namoro?...
--Que eu saiba, nada, asseverou o Sr. Antunes. E até, deixe-me dizer-lhe o que penso, duvido que ella cuide por ora de semelhante cousa. Aquella menina não tem cabeça.
--Oh! exclamou Jorge rindo.
--Não tem, digo-lhe eu. Está alli, está no hospicio. Não se póde dizer que seja travessura, porque não está em edade disso; é pancada. Se soubesse as cousas que ella faz ás vezes!
--Não me parece; quando a vejo, é sempre com um modo comedido, e muitas vezes serio...
--Lá isso. é porque ella não gosta do senhor.
--Não gosta de mim? perguntou Jorge admirado.
--Não digo que absolutamente não goste, obtemperou o pae da Estella; não lhe tem muita sympathia, é o que é.
--Como sabe você disso?
--Ouvi uma vez o pae reprehendel-a, por que de proposito voltara as costas ao senhor; e então ella levantou os hombros, assim com um ar de pouco caso. O pae tornou a dizer que aquillo não era bonito, mas perdeu o tempo; Yayá pregou os olhos nas unhas, com a testa franzida, e eu sai porque já não podia aturar nem um nem outro.
Jorge ficou alguns instantes pensativo. Era certo que Yayá o tratara sempre com muito resguardo e frieza; mas, supposto que isso não significasse sympathia, e até lhe sentisse alguma hostilidade, estava longe de attribuir-lhe declarada aversão. Do gesto a que o Sr. Antunes alludira, não se lembrava absolutamente, mas era possivel. Demais, pensou elle, o Sr. Antunes não o inventaria na occasião; não era callumniador; faltava-lhe essa ferocidade. Mas, porque motivo não gostaria delle a filha de Luiz Garcia? Era a segunda vez que Jorge fazia essa pergunta, sem lhe achar resposta plausivel. Em seguida, recordou-se da noite anterior, e observou ao pae de Estella que Yayá o tratara na vespera com alguma cordialidade.
--Milagre de anno bom! explicou o Sr. Antunes. Tambem lhe digo que não perde nada se ella não gostar do senhor; é uma fortuna. Porque ella, quando gosta de uma pessoa, é de fazer-lhe perder a paciencia.
--Mas parece ter bom coração, e creio que gosta muito do pae.
--Tambem Estella gosta de mim.
Jorge fechou neste ponto a conversação. Seu pensamento voltou á revelação inopinada do Sr. Antunes. Por mais indifferente que Yayá lhe fosse, Jorge sentia-se molestado com a certeza de que a moça não gostava delle. Porque seria? Simples antipathia ou outra cousa?
A preoccupação desvaneceu-se na tarde do dia seguinte, quando Jorge appareceu em casa de Luiz Garcia. Foi a propria Yayá quem veiu abrir-lhe a porta do jardim dizendo, alegremente:--Entre, Sr. doutor, que já se fazia esperado. Jorge não pode esconder o assombro que lhe produzira aquella recepção; nem o assombro nem a alegria. Entrou e estendeu-lhe a mão.
--Não posso, tornou a moça mostrando a sua, fechada; só se adivinhar o que está aqui dentro.
--Não é uma estrella.
--Não, senhor; é um cavallo.
No fundo do jardim estava Luiz Garcia, com o taboleiro do xadrez: acabava de dar uma licção á filha, que lh'a pedira desde antes do jantar. Yayá levou até lá o filho de Valeria. Pela primeira vez sentou-se ao pé dos dous para vel-os jogar; fincou os cotovellos na mesa e encostou o queixo nas mãos; queria aprender, dizia ella, em tres semanas.
--Tres semanas! repetiu o pae a sorrir e a olhar para Jorge.
Das qualidades necessarias ao xadrez, Yayá possuia as duas essenciaes: vista prompta e paciencia benedictina; qualidades preciosas na vida, que tambem é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nullas.
XII
Quinze dias depois, Procopio Dias appareceu em casa de Jorge com o luto no vestuario e no rosto. De Buenos-Ayres chegara-lhe na vespera, á tarde, a noticia da morte de um irmão, seu ultimo parente, noticia que o obrigava a embarcar no dia seguinte e demorar-se no Rio da Prata cinco a seis semanas. Não se pode dizer que elle estivesse triste; estava serio,--serio e preoccupado. A viagem a Buenos-Ayres não tinha por fim o cadaver do irmão, mas a herança, que posto não fosse grande, valia alguma cousa.
Procopio Dias offereceu seus serviços ao filho de Valeria, que de sua parte prometteu-lhe algumas cartas de apresentação, se precisasse. Procopio Dias acceitou uma. Jorge levou-lh'a no dia seguinte. Elle recebeu-a com demonstrações de agradecido e quasi terno. E depois de um momento de silencio:
--Já agora entrego-lhe pessoalmente esta carta, que devia ser levada amanhã por um portador.
Jorge quiz abrir:--Não, acudiu o outro; prometta-me que só a abrirá amanhã.
--Porque não hoje de noite?
--Podia ser hoje de noite; mas é bom que entre a impressão da despedida e a leitura desse papel decorra o espaço da noite e o somno. Talvez seu juizo seja differente.
Jorge prometteu. Procopio Dias partiu. No dia seguinte abriu a carta e leu estas poucas palavras: «Seja o meu anjo de guarda durante a minha ausencia.»
--Porque não? disse elle comsigo.
De tarde, saiu a cavallo, costeando o aqueducto segundo costumava, e ia pensando seriamente na conveniencia de casar os dous. Naquellas duas semanas tivera tempo de apreciar um pouco as qualidades da moça, que lhe pareceram boas, com quanto lhe achasse tambem alguma cousa original, mysteriosa ou romanesca, muito acima da comprehensão ou do sentimento de Procopio Dias. Jorge não se illudia acerca da paixão do pretendente; suppunha-a sincera, mas não lhe attribuia a virgindade das primeiras ou das segundas commoções: era uma paixão da ultima hora, um occaso ardente e abraseado entre o dia que lá ia, e a noite que não tardava a sombrear tudo. Ainda assim a alliança lhe parecia conveniente. Yayá possuia de certo a força necessaria para dominar desde logo o marido; e o titão encadeado teria ao pé de si, em vez de um abutre a picar-lhe o figado, uma formosa rôla destinada a prolongar-lhe as illusões da juventude.
Se eram boas as impressões que Yayá lhe deixara nos ultimos dias, não eram ainda assim isentas de algum enfado, aliás passageiro. Uma ou duas vezes, Yayá lhe pareceu singularmente aspera, e sem motivo nem duração. Esses assomos porém, eram logo compensados por uma afabilidade, que parecia mais viva, mais ruidosa, talvez um pouco importuna. Occasião houve em que Estella disse á enteada, com um sorriso de reprehensão:--Não amofines o Sr. doutor Jorge. Não comprehendeu Jorge porque motivo essa palavra simples, dita em tom brando, deu ao rosto de Yayá uma expressão indignada; lembrava-se porém que a expressão foi passageira, e que ella passou do singular amúo á habitual alegria:--Bem vê, replicou Estella, bem vê que é uma creança.
Jorge ia assim a reflectir, e já de volta, quando ouviu uma voz que dizia o seu nome. Era Yayá que descia da casa da velha ama. Jorge parou o cavallo.
--Em que vae pensando? disse ella.
--Na senhora, respondeu o moço affoutamente, depois de verificar que ninguem os podia ouvir.
Yayá caminhou até á rua, acompanhada de um homem velho, o irmão de Maria das Dores.
--Que anda fazendo aqui? continuou Jorge inclinando o busto sobre o pescoço do cavallo.
--Vim visitar a Maria das Dores. Coitada! esta tão abatida!
--Bem; eu logo lhe direi o que é; vá ver a doente.
--Já a vi; volto agora para casa. O Sr. João vae acompanhar-me.
Jorge apeou-se.
--Deixa-me acompanhal-a tambem? perguntou.
--Deixo; mas é só por ser curiosa. Quero saber o que ia pensando a meu respeito. Vamos, Sr. João?
Jorge enfiou a redea no braço e collocou-se ao lado della; Yayá tomou-lhe affoutamente o outro braço.
--Vá, conte-me tudo.
--O Procopio Dias embarcou hoje.
Yayá, que já havia dado os primeiros passos, estacou.
--Para onde? disse.
--Para o Rio da Prata; morreu-lhe um irmão em Buenos-Ayres.
--Mas sem se despedir de nós!
--Naturalmente, custava-lhe fazel-o, e quiz poupar-se á dor da separação. Esteve porém commigo, e prometteu-me que a demora seria curta. Vi-o muito afflicto com a viagem, tão afflicto que não sei se lhe diga que era... era, decerto, era maior a dor da viagem do que a da morte do irmão. Talvez lhe faça injuria nisto, mas parecia.
--Porque? perguntou a moça erguendo os olhos para elle.
--Não sei se lhe deva dizer porque, acudiu Jorge. E dahi, não se tratando de nenhuma cousa do outro mundo... É verdade que as moças bonitas como a senhora, costumam ser crueis... Não sei... Ha situações um pouco...
--Ridiculas, concluiu Yayá.
--Como ridiculas?
--Por exemplo, a sua.
Jorge enfiou um pouco; mas a um homem de sociedade, Yayá não parecia de força a fazer perder o equilibrio. Sorriu levemente, e retorquiu sem azedume.
--Não é ridiculo ser affectuoso; eu cuidava responder á linguagem de seu coração.
--Suppunha que a ausencia de Procopio Dias me deixava saudades...
--Suppunha.
--Que tem o senhor com isso?
A resposta de Jorge foi um simples gesto negativo. Comtudo, não pode zangar-se, porque sentia tremer o braço da moça, e olhando de esguelha para ella via-a pallida e com os olhos no chão. Se a pallidez e o tremor eram de colera não chegou a sabel-o; mas provavelmente não era outra cousa porque ao cabo de tres a quatro minutos, Yayá ergueu os olhos e estendeu-lhe a mão, dizendo:
--Façamos as pazes.
--Nunca estivemos em guerra, acho eu.
--Talvez em vespera da guerra.
--Não por culpa minha...
--Nem minha, acudiu a moça. E erguendo o chapellinho do sol para o ceu. Talvez por culpa daquelle, disse ella suspirando.
Após o suspiro, veiu uma risadinha secca e forçada, mas longa ainda assim como o som de um golpe no crystal. Tinham andado poucos minutos e esses poucos eram já de sobra para espertar a curiosidade de Jorge, e para lhe dar direito a pedir uma explicação. Jorge pediu-lh'a em termos affectuosos, perguntando por que razão era o ceu culpado em uma guerra que devia romper entre ambos, e sobretudo qual seria o pretexto dessa guerra. Yayá reflectiu um instante, e começou a falar com os olhos baixos.
--O motivo é o senhor mesmo, disse ella.
--Eu?
--O senhor, que é meu inimigo, que me detesta. Não me dirá que mal lhe fiz eu? continuou ella erguendo subitamente os olhos. Escusa fazer esse gesto de espanto; sei que o senhor me detesta, e por mais que pergunte a mim mesma--não sei, não me recordo... Diga, fale com franqueza.
--Tanto melhor! exclamou Jorge. Vejo que havia entre nós um equivoco e é chegada a occasião de o desfazer. Quer que lhe fale com franqueza? O inimigo não sou eu, é a senhora; é a senhora, ou antes, era ou parecia ser. Agora comprehendo; retribuia-me a aversão que suppunha haver em mim. Tanto melhor! Façamos as pazes de uma vez.
Yayá apertou a mão que elle lhe offereceu e chegaram alegremente a casa. Jorge quiz retirar-se logo, mas a moça ordenou a Raymundo que conduzisse o cavallo, e Jorge foi compellido a entrar por alguns minutos. Luiz Garcia não estava em casa. Estava o Sr. Antunes. Yayá mal deu tempo aos primeiros comprimentos.--Ande jogar commigo, disse ella.
--Em boa paz?
--Em boa paz.
Yayá preparou o xadrez, no gabinete contiguo á sala; Jorge sentou-se pacientemente deante da adversaria, rectificou a posição de duas peças, excluiu as que lhe dava de pardido e adiantou o primeiro pião.
--Vá, disse; é a sua vez.
Yayá não obedeceu ao convite. Olhava para elle, com ar inquieto.
--Dá-me sua palavra de honra de que me não negará o que lhe vou perguntar? disse ella ao cabo de alguns instantes de silencio.
Jorge hesitou um pouco.
--Conforme.
--Exijo.
--Que me pedirá ella que lhe não possa affirmar? pensou Jorge. E em voz alta respondeu:
--Dou.
--Foi elle quem lhe encommendou...
--O sermão? interrompeu Jorge sorrindo. Serei franco; foi elle mesmo.
Yayá baixou os olhos ao taboleiro, cavalgou a torre com o bispo, como distrahida, e em voz ainda mais baixa do que lhe falara, perguntou:
--O senhor é homem de segredo!
--Sou, redarguiu afoutamente Jorge.
--Pois bem, continuou Yayá, eu gosto delle, gosto muito, mas não desejo que elle saiba.
--Deveras? não está gracejando?
--Não estou.
Jorge estendeu-lhe a mão:--Magnifico, disse elle alegre; não é preciso mais. Uma vez que se amam, virão naturalmente a...
Não pode acabar, porque a moça, erguendo-se de subito, affastou-se da mesa, com um arremeço, e dirigiu-se á janella, que dava para o jardim. Jorge ficou espantado. Não entendia o que estava vendo. Inclinou-se sobre o taboleiro e começou a mover as peças, sósinho, sem plano, machinalmente. Assim jogando, ouvia o som do tacão de Yayá que feria o ladrilho do chão, com um movimento precipitado e nervoso. Durou isto cinco minutos. Yayá voltou-se para dentro, saiu da janella e approximou-se da mesa. Jorge ergueu então a cabeça para ella e sorriu.
--Não me dirá que lhe fiz eu, para ficar tão zangada commigo? perguntou com benevolencia.
--Nada; eu é que fui estouvada e não sei se mais alguma cousa.
Jorge protestou que não.--Foi rispida sómente disse elle; e se o foi sem querer, não foi sem motivo. Não me dirá que motivo é esse? Parece-me que não a tratei mal...
--Não.
--Nesse caso, o motivo está na senhora mesma; e se eu não tivesse medo de que se zangasse outra vez commigo, atrevia-me a pedir-lhe que me dissesse tudo--ou pelo menos alguma cousa.
--Para que? Vamos jogar.
--Está escurecendo.
--Mando vir luzes.
Vieram luzes; começaram a jogar. Entre elles o xadrez não podia offerecer interesse, mas dado que pudesse, não seria naquella occasião. Um e outro estavam distrahidos e preoccupados. A primeira partida foi concluida, em pouco tempo, quasi sem calculo.
--Outra? perguntou Yayá.
--Vamos.
Antes de começar, disse ella collocando as peças, e sem olhar para Jorge, quero dizer que tem um meio seguro de nunca brigar commigo.
--Qual é?
--É ser meu confidente.
--Senhor de seus segredos?
--Todos.
--O meio é facil; só eu ganho na troca.
--Nisso dou prova de grande coração.
Já não era a menina rispida de alguns instantes; dissera as ultimas palavras com muita graça e placidez. Ao mesmo tempo, continuava a arranjar methodicamente as peças. Acabou e reclinou-se no dorso da cadeira.
--Não me declarou ainda se acceitava, disse ella.