Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)
Part 9
A segunda concordancia, é do-Verbo com o Nome: os quais concordam em _numero_, que é comum a ambos: nam em _pesoa_, porque esta é somente do-Verbo: mas poem-se o Verbo em uma terminasam, conrespondente à pesoa, que o Nome significa. Devem-se porem advertir algumas coizas. I. A primeira, e segunda pesoa do-Verbo, raras vezes se-construe com o Nome expreso, senam por-distinsam, ou emfaze. II. A terceira pesoa do-Verbo, construe-se tambem com um Verbo infinito. v.g. _Scire tuum nihil est_: pro, _scientia tua_. Tambem algumas vezes sem nome expreso: v.g. _Aiunt_, supple, _homines_. _Tonat_, sup. _Deus_. outras vezes com o Nominativo: _Saxa pluunt._ Tambem se-uza do-Nome, sem Verbo expreso: _Rari quippe boni._ i. e. _sunt_. III. No-Verbo com o Nome, tem lugar a Figura _Sintesis_, que parece, que discorda do-Nome expreso: mas a verdade é que concorda, com o sinonimo oculto. v. g. _Pars epulis onerant mensas_: onde o Verbo concorda, com o sinonimo oculto, _Plurimi_. Tem tambem lugar a figura _Zeugma_, em que o Verbo concorda, com o mais vizinho: _Tu quid ego, & populus mecum desideret, audi._ Tem tambem lugar a _Silepsi_, emque o Verbo concorda, com o mais digno: _Si tu, & Tullia lux nostra valetis, ego, & suavissimus Cicero valemus._
IV. Porque o Adjetivo significa acidente, nam pode estar só sem sustantivo, que signifique a sustancia. o mesmo digo das-terminasoens do-Verbo que significa, movimento de alguma coiza: e asim sempre se-subintende a dita coiza. Nam á Orasam sem Verbo, e Nome. se o Verbo é finito, o suposto é Nominativo: se é infinito, é Acuzativo. A Letra, Silaba, Voz, e Orasam, pode ser suposto do-Verbo, e do-Adjetivo. V. Do-sobredito se-inferem varias coizas. É falso, que os Nomes de numero, come _tres_, _& decem_, concordem entre si. É falso, que os Adverbios, e Conjunsoens concordem com o Indicativo, Optativo &c. deve-se dizer, que se-construe um com outro. E nisto com pouca diferensa se-comprende, tudo o que se-diz da-Sintaxe de concordar.
A Regencia, é a que mostra o seu efeito, em outra coiza que rege. Quatro sam as vozes que regem outras: Nome, Verbo, Participio, e Prepozisam. É falso, o que se-ensina comumente, que o Adverbio, Conjunsam, Interjeisam, Verbo pasivo, Participio pasivo, Gerundio, Nome adjetivo, reja, e pesa cazo: porque o cazo que se-acha com eles, é regido de uma parte supresa, pola figura _Ellipsis_.
A regencia ou é Gramatical, que segue as regras da-arte: ou Figurada, que se-desvia delas. E porque a regencia se-exercita nos-Cazos do-Nome, daqui vem, que toda a Sintaxe de Regencia se reduz, à explicasam deses seis Cazos. v.g. no-Nominativo aponta-se, quando entra na orasam. despois, quais sam as partes da-orasam, que se-construem com ele, ou simplez, ou dobrado. O mesmo digo de todos os outros Cazos: na explicasam dos-quais deve-se muito advertir, de mostrar quais sam as partes, que verdadeiramente os-regem: e nam enganar os estudantes, com as doutrinas das-Gramaticas vulgares. V.g. o Genitivo é cazo somente regido, por-um Sustantivo expreso, ou supreso: ou por-uma parte, que esteja em lugar de Sustantivo. É pois necesario mostrar-lhe, que se-enganam os outros, que atribuem o tal Genitivo, a outras partes da-orasam. Com este metodo, explica-se mui brevemente a Sintaxe, e mui solidamente: porque se-reduzem todas as construisoens figuradas, ao modo de falar regular: e se-descobrem os verdadeiros principios da-Regencia: postos os quais, dezaparecem todos aqueles Apendices, e Limitasoens da-Gramatica uzual: as quais nam de outra coiza nacem, senam de establecer principios falsos. Despois, explica-se a Gramatica Figurada: e se-aponta o fundamento da-Figura, e como se-pode reduzir à construisam natural. porque sem esta inteligencia, nam se-pode ir para diante na Gramatica.
_ORTOGRAFIA, E PROZODIA._
As outras duas partes da-Gramatica sam mais facis, porque menos contrariadas. A noticia das-Letras, e _Ortografia_, é sumamente necesaria, para escrever bem, e ler correntemente nam só a moderna, mas tambem a antiga escritura: em que vareiam muito as letras. O mesmo digo da-_Prozodia_, ou quantidade das-silabas. Tambem nisto é necesario, uzar melhor metodo, que o da-Gramatica comua: e conheso eu muito bem, que se podem dizer, com mais clareza.
Eisaqui tem V.P. uma idea do-que sinto, sobre a Gramatica. Parece-me bastante o que dise, paraque veja V. P. quanto trabalho encurtaria uma Gramatica, concebida nestes termos: e uns principios tam claros, como os em que se-funda. Nam poso dilatar-me mais nesta materia, porque serîa compor Gramatica; e o meu argumento nam é ese. Eu sei, quem tem composto uma Gramatica, pouco diferente da-ideia que propuzemos: e tem composto outro particular escrito, com que se-aprende Gramatica mais facilmente, e em menos tempo: os quais podia publicar, para utilidade deste Reino. Dois nosos amigos lhe-pediram instantemente, que a-impremise: mas ele desculpa-se sempre com dizer, que é mais facil, conquistar um novo mundo; doque despersuadir os Velhos, da-antiga Gramatica. Cita alguns exemplos com que mostra, que a paixam obra nestes particulares mais, que o juizo: e lamenta-se muito, que se-tenham reprovado tantas coizas, sem as-lerem, nem intenderem.
O que eu poso segurar a V. P. é, que com este metodo, aprende-se em um ano mais Gramatica, doque nam sabem muitos, que a ensinam trinta anos, ou pasáram nela toda a sua vida. É erro persuadir-se, que um omem ou deva, ou posa ter prezentes todas as regras, que se-acham na Gramatica do-P.Alvares. A experiencia deveria dezenganar, os que estudáram por ela; e mostrar-lhe, que aquele estudo morre com a escola. Um estudante, despois de seis ou sete anos de Manoel Alvares, se acazo nam le os antigos Latinos, e procura intendèlos; ou nam pasa para a Filozofia, onde a necesidade o-obriga a intendèlos, e falar a tal lingua; fica toda a sua vida ignorante de Latim, com toda a sua Gramatica. Porem se acazo segue o exercicio do-Latim, de tal sorte se-familiariza com a lingua, como se fora nacional; e comesa a falar por-uzo. Aqui nam é necesario mais prova, que proguntálo a eses mesmos leitores. apenas conservam umas ideias gerais, das-regras de Gramatica. Onde fica claro, que tudo aquilo é superfluo. O metodo porem que aponto, é mais facil de se-conservar na memoria, porque é natural: e chega à origem das-coizas. Mas em um e outro sistema é verdade, que preceitos sem uzo, nada valem. Onde deve o estudante, nam só aprender a Gramatica, mas exercitar esas regras no-discurso, na leitura, e na composizam: descobrindo em toda a leitura as regras, que na Gramatica lhe-insinuam: no-que deve ter igual cuidado o mestre, que o estudante. No-primeiro ano, deve ensinarlhe Gramatica: o que se-pode fazer com muita facilidade. No-segundo, traduzir os autores mais facis: como algumas Cartas de Cicero, as Fabulas de Fedro, Terencio, Cornelio Nepote. procurando que o estudante asine a regencia das-partes, e descubra neses livros, os principios que estudou: e intendendo as outras particularidades mais reconditas da-Gramatica: as quais nam sam para o primeiro ano.
Mas, para proceder nisto com utilidade, deve o mestre ordenar ao estudante, que ja vio uma vez a Sintaxe, que escreva em Portuguez, polas palavras que melhor lhe-parecer, mas sempre diferentes daquelas, que estam na regra, a razam de alguma regra; apontando um exemplo, e explicando as partes todas dese exemplo. Pode tambem o mestre tomar, um periodo de duas regras, em algum autor claro; e dalo ao rapaz, paraque o-explique em uma folha de papel: pondo nela toda a regencia gramatical, sem deixar nem menos uma virgula, por-explicar. E quando o rapaz aprezenta a sua carta, examinálo de tudo, o que nela se-contem; para ver se verdadeiramente o-intende. E isto mesmo se-pode praticar ao principio, quando traduzem os autores. Este modo de estudar, nam enfada os principiantes, visto darem-lhe tempo para considerar, o que ám-de escrever. Ao principio, deve ser em caza: quando sam adiantados, na escola. Alem diso o estudante, para escrever a sua explicasam, é necesario que leia, e intenda bem a regra: que busque no-Dicionario, o significado das-palavras: e desta sorte é que a-imprime bem na memoria. Quando o estudante for adiantado, entam é que se pode obrigar, a repetilo de memoria: mas nem sempre: pois algumas vezes é bom, dar-lhe o periodo, paraque fasa a explicasam por-papel: Com a diferensa porem, que se o periodo avia ser de quatro regras, seja de seis, ou oito. Explicando isto por-escrito, é incrivel, quanto se-intende melhor: principalmente se o mestre, quanto lhe-tomar conta, fizer as proguntas necesarias; emendar os erros, e explicar tudo como deve.
Mas esta carta ja é mais comprida, doque eu queria fazé-la: porem poso segurar a V. P. que ainda me-fica muito que dizer. Contudo do-que tenho escrito, fica bem claro, o que eu intendo: e para V. P. é mais que bastante. Fico às ordens de V. P. como seu criado.
[Illustração]
NOTAS DE RODAPÉ:
[16] _Patrio sermone tantum declaranda Rudimenta, Genera, Declinationes, Anomala, Præterita, Supina: ne simul & ligata & soluta oratione præcepta memoriter recitare cogantur. Quod etiam in Syntaxi, quando ea primum explicatur, observandum est._
[17] _Veja-se a sua Gramatica da-edisam de Scavenio, na Prefasam._
[18] _In Ver. act. 3._
[19] _2. Agrar._
[20] _Terent. in Andria._
[Illustração]
CARTA TERCEIRA.
SUMARIO.
_Abuzos que se-introduzîram em Portugal, no-ensinar a lingua Latina. Mao modo que os mestres tem, para instruir a Mocidade. Propoem-se o metodo, que se-deve observar, para saber com fundamento, e facilidade o que é pura Latinidade. Necesidade da-Geografia, Cronologia, e Istoria, para poder intender os livros Latinos. Apontam-se os autores, de que os mestres se-devem servir na Latinidade: e como devem servir-se deles; e explicálos com utilidade: e as melhores edisoens. Aponta-se o modo de cultivar a Memoria, e exercitar o Latim nas escolas._
Meu amigo e senhor, Tardei em escrever a V.P. porque tive legitimas ocupasoens. Continuando pois o fio das-minhas reflexoens, da-Gramatica paso para a Latinidade: porque me-persuado, que este mesmo caminho deve seguir o estudante, que quer ter perfeita noticia, da-lingua Latina. Esta noticia certamente nam se-consegue, com a pura Gramatica: mas com a continua lisam de bons autores, e reflexam sobre as suas melhores obras. _Aliud est grammatice, aliud latine loqui_: advertio ja no-seu tempo Quintiliano. e com muita razam: porque a escrupuloza sugeisam às regras da-Gramatica impede, saber falar a lingua. A Gramatica é a porta, pola qual se-entra na Latinidade: e quem pára no-vestibulo, nam pode ver as singularidades do-Palacio. Quantos omens acha V. P. que, com terem sido mestres de Gramatica muitos anos, saibam pegar na pena, e escrever uma pagina em bom Latim? responder a uma carta com facilidade? e fazer qualquer outra coiza, em que seja necesario, uzar da-lingua Latina? Eu conheso infinitos sugeitos, que pasáram a sua vida neste exercicio, e quando ám-de escrever Latim, servem-se de expresoens em tudo barbaras, e indignas do-seu exercicio. Outros, aindaque tenham eleisam de palavras, nam se-despem dos-idiotismos da-sua lingua: que é o mesmo que falar Portuguez, com palavras Latinas. Uma vez que observam, aquela regencia gramatical que estudáram, parece-lhe que fazem a sua obrigasam. Os que se-querem apartar deste uzo, declinam para outro extremo viciozo, que é a afetasam: e nam buscam, senam palavras grandes e sonoras, _sesquipedalia verba_, com as quais atroem os ouvintes, ou leitores. E daqui entam nace, aquele estilo ridiculo, que tanto dominou nos-seculos da-ignorancia; e oje em Italia chamamos, _estilo do-seculo XVI_.
A estes ultimos chama o comum dos-Gramaticos, grandes Latinos. É um louvar a Deus, ver a prezunsam de uns, e a ignorancia de outros. Achei-me prezente em algumas orasoens Latinas, que se-recitáram sobre diversos asumtos; e nam podia asás admirar, a afetasam, e estilo dezigual, que reinava em toda a orasam. Despois diso, li muitas compozisoens, feitas por-eses mesmos: li muitas postilas de diversos leitores, que tinham pasado com louvor, por-aqueles bancos: e em tudo notei o mesmo defeito. E tudo isto provèm, de se-contentarem com a erudisam de quatro temas, que lhe-mandam compor: e de nam se-internarem na lisam dos-bons autores, e que escrevèram no-tempo da-mais pura Latinidade. É coiza imposivel, que um omem que tenha tomado o gosto, à verdadeira Latinidade, com facilidade o-perca. Ainda quando trata asumtos umildes, e argumentos em que è obrigado servir-se, de expresoens barbaras, v.g. na Filozofia, ou Teologia Peripatetica; ou ainda quando despreza o falar elegante; la mostra sempre, o conhecimento que posûe daquela lingua. Nos-seus escritos conhecem muito bem os omens inteligentes, o que ele podia fazer. caiem-lhe da-pena palavras proprias. um estilo facil e natural é o carater das-suas obras. Mostra a experiencia o que digo: e convem nisto os omens de alguma doutrina. Daqui vem, que os que querem fazer progreso na Latinidade, procuram logo um autor facil e elegante, como qualquer dos-que na minha ultima apontei; e desorte se-familiarizam com ele, que tomam e imitam a sua fraze, e modo de falar. Quem quer falar uma lingua, deve conversar com os omens que a-falam bem. ora os que oje falam bem Latim, sam eses quatro livros, que nos-deixou a Antiguidade: e com eles é necesario conversar tanto, que aprendamos o que se-pode aprender.
Pode tambem aver perigo, na lisam deses mesmos bons livros: e pode suceder, que com bons livros, se-saiba mal Latim: Digo isto, polo que tenho observado, em grande parte deste Reino. Omens á, que lem indiferentemente, todos os livros antigos; e pola vaidade de quererem saber tudo, nam sabem nada. Formam um estilo dezigual, que nam é de seculo algum: e com grande trabalho, nam conseguem o fim que queriam. Neste defeito, nam só caiem os pouco doutos; mas chegáram a cair, omens de grande doutrina. Erasmo, que foi um omem tam douto como V.P. sabe, é censurado neste ponto. A grande lisam que tinha, dos-antigos autores, e Padres, impedio-lhe formar um estilo determinado. Contudo iso, nam sei se achará V.P. muitos no-seu Reino, que escrevam como ele. O certo é, que Erasmo nam lia os Antigos por-vaidade, mas por-necesidade dos-seus estudos: mas estes de quem eu falo, nam se-livram deste pecado. Outros, furtam indiferentemente, de todos os autores que lem; para poderem encher as suas compozisoens: servido-se imprudentemente, destes livros de Fraseologia: sem advertirem, que sempre á-de ser capa de romendos: e que os diversos mantimentos primeiro se-ám-de digirir, para se-converterem em uma sustancia, que seja uniforme e simplez.
A outra razam que á, para que se-posam enganar, é a diversidade de estilo, e merecimento deses mesmos Antigos. Quanto ao estilo, é certo que os querem ser Istoricos, faram mal em ler as Filipicas de Cicero, as Comedias de Terencio, os Epigramas de Catúlo, e outras semelhantes compozisoens: porque nam conduzem ao seu fim; aindaque sejam escritas, no-seculo da-bela Latinidade. omesino digo das-outras proporcionadamente. Podem-se ler estes autores: mas cada um deve aplicar-se ao que é insigne, na materia que ele trata. Se bem ouso dizer, que Terencio serve-se das-expresoens, no-seu proprio significado: que Cezar falou melhor, que nenhum dos-Romanos: nem por-iso ei-de logo meter Cezar, e Terencio em toda a parte. para o conhecimento da-lingua, todos me-podem servir: nam asim para o exercicio particular, que eu quero. Quanto ao merecimento é certo, que nem todos os Antigos sam iguais. antes muitos que escrevèram no-seculo de Augusto, e em tempo de Tiberio, fizeram-no com tal negligencia, que mal tem lugar, na idade de _prata_ da-lingua Latina: e sem injuria se-podem colocar, na idade de _bronze_.
Esta advertencia é mais necesaria em Portugal, que em outros Reinos: porque os mestres aqui, tem pouca noticia destas coizas. Nas escolas da-Latinidade, verá V.P. traduzir livros, de merecimento mui dezigual: e pasar de um para outro sem eleisam, nem advertencia, somente para encher tempo, e completar o ano. Na 3. e 4. em que os rapazes comesam a traduzir, explicam pola menhan, as Filipicas de _Cicero_ &c. e de tarde, a Eneide, ou _Ovidio_ de Trist. Na 2. e 3. pola menhan, _Suetonio_; de tarde _Oracio_. Mas eu vi mais: vi um mestre que explicava aos dicipulos, as Orasoens de _Cicero_, _Marcial_, _e o Thesaurus Poeticus_. E que coiza boa pode sair daqui? Nam ensinam aos estudantes, qual é o merecimento de cada autor, que lhe-mandam traduzir: e como pode o estudante advinhálo? Alem diso, aquilo de explicar no-mesmo tempo, _proza_, e _verso_, e isto a principiantes, nam pode menos, que produzir monstruozidades. O pobre estudante, com a memoria cheia de tam diferentes especies, nam pode distinguir o branco, do-negro: nem chegar a conhecer bem, qual é o estilo da-proza, e qual o do-verso. Muito pior ainda é, comesar por-tais livros: porque as Filipicas, e Eneide, nam é Latim para rapazes, mas para omens feitos. por-estes livros devem acabar o estudo, e nam principiálo. Tambem o _Suetonio_, nam é livro proprio da-Escola, porque nam escreve com a pureza dos-outros da-idade de oiro. era melhor _Livio_, _Nepote_ &c. que, alem da-pureza de lingua, sam perfeitos modelos de eloquencia. Outros mandam traduzir lisoens do-Breviario, ou Concilio de Trento: dizendo que sam necesarias, para quem á-de seguir a Igreja. E isto tambem é uma solenisima loucura. Cada lisam do-Breviario é de seu autor, e de estilo diferente. Ainda das-que se-tiram da-Escritura, se-deve dizer o mesmo: umas sam oscuras, que sam as dos-livros profeticos; outras mais claras, que sam as dos-istoricos: e o Latim delas nam é bom, porque a fraze é barbara. E querer, que um estudante traduza isto, é querer, que nam saiba Latim. Tambem o Concilio nam é próprio, para dar boa doutrina: porque se-serve de um estilo Forense proprio de Roma, que nam é Latino. Se o-fazem para intender estes livros, é superfluo explicálos. Nam á omem nenhum tam decepado, que, se intende bem Latim, nam intenda as Bulas; aindaque nunca as-tenha lido. Estar o verbo vizinho ou distante, nam muda, ou dificulta o sentido, a quem le todo o periodo: e quem tem alguma pratica delas, intende-as maravilhozamente, aindaque seja mao Latino, como vi muitas vezes em Roma. O que suposto, é muito mao emprego, obrigar o estudante a traduzir Bulas, ou Constituisoens: e principalmente a traduzilas palavra por-palavra, como fazem estes mestres. O Ecleziastico, nam é necesario que traduza; basta que as-intenda. Antes é muito mal feito, obrigálos a traduzir asim: porque o tal Latim nam se-deve traduzir _ad verbum_, mas _ad sensum_. O que bastava que o mestre advertise, quando quizese dar-lhe alguma noticia diso: pois em tal cazo bastaria, que mandáse ler alguns periodos, e explicar o sentido. Isto basta: o mais é perder tempo.
Contudo iso sam poucos os que conhecem, que com isto se-perde o tempo: antes blazonam, quando procuram embrulhar os rapazes, com coizas oscuras. Achava-me eu em uma parte, em que certo M. de Filozofia, para examinar um rapaz, mandou-lhe traduzir aquelas palavras de S. Paulo ad Cor. _Aemulor enim vos Dei æmulatione_ &c. que era o capitulo da-Ora, que estava rezando. O rapaz, que nam era mao estudante, traduzio literalmente: mas como nam fazia bom sentido, o mestre dito deu grandes rizadas, e fez escarneo do-rapaz. Eu calei-me por-prudencia: mas tive meus impetos de lhe-dizer, V.P. ri-se de um pobre rapaz, que nam é obrigado a saber, o sentido da-Escritura, nem os _ebraismos_, que se-acham na Vulgata: e eu apostarei, que V.P. é o primeiro que nam intende, o que nisto diz S. Paulo. Com efeito se eu apertava os negalhos, estava certo, que serîa mui mao interprete, da-dita Epistola. O certo é, que nam á maior parvoice, que mandar traduzir palavras oscuras: e que esta _pedanteria_ se-devia desterrar de lugares, onde se-sabe falar. Alem disto, é obrigado o estudante, a compor varios periodos, a que chamam _orasoens_: repetir uma quantidade de regras Latinas, e Portuguezas: e se o pobre rapaz nam pode responder a tudo, em vez de lhe-aliviar o pezo, e mostrar-lhe a estrada, e animálo a proseguila; dam-lhe muita palmatoada; e obrigam-no a odiar, todo o genero de estudos. De que nace, aquela grande ignorancia, que se-observa nestes paizes.
Daqui fica claro, que com tal metodo, pouco se-pode saber de Latim. É lastima que os Profesores, nam cheguem a conhecer por-uma vez, o ridiculo deste costume. Todos os primeiros estudos naturalmente dezagradam, porque sam cansados: e paraque avemos enfastiar mais os pobres rapazes? Um omem consumado nos-estudos, quando estuda uma lingua estrangeira, v.g. Grego, Ebraico, ou Caldaico, nam pode menos que enfastiar-se, daqueles primeiros elementos. Tem grande dezejo de sabèla: conhece o metodo de aprender a dita lingua: reconhece a necesidade que tem dela, para intender as Escrituras Santas: contudo iso quando se-aplica a ela, mil vezes deita fóra os mesmos livros: e nam-se-acha com rezolusam, de tornar a servir-se deles. Falo pola experiencia propria, e pola de alguns amigos, que se-aplicáram às linguas estrangeiras. E nam acha V.P. que é uma crueldade, castigar rigorozamente um rapaz, porque nam intende logo a lingua Latina? que de si mesmo é dificultoza, e ainda o-parece mais, na confuzam comque lha-explicam. Isto é o mesmo, que meter um omem, em uma caza sem luz, e dar-lhe pancadas, porque nam acerta com a porta.
V. P. está em uma Universidade, onde é facil dezenganar-se com os seus olhos. Entre no-Colegio das-Artes, corra as escolas baixas; e verá as muitas palmatoadas, que se-mandam dar aos pobres principiantes. Penetre porem com a considerasam, o interior das-escolas: examine se o mestre lhe-ensina, o que deve ensinar: se lhe-facilita o caminho, para intendèla: se nam lhe-carrega a memoria, com coizas desnecesariisimas: e achará tudo o contrario. O que suposto, todo este pezo está fóra, da-esfera de um principiante. Ora nam á lei que obrigue um omem, a fazer mais do-que pode: e que castigue os defeitos, que se-nam-podem evitar. Nam nego, que deve aver castigo: mas deve ser proporcionado. Um estudante que impede, que os outros estudem: que faz rapaziadas pezadas &c. é justo que seja castigado: e, avendo reincidencia, que seja despedido. Serîa bom, que nesa sua Universidade, se-dese um rigorozo castigo, ainda de morte, aos que injustamente acometem os _Novatos_; e fazem outras insolencias. A brandura comque se-tem procedido neste particular, talvez foi cauza, do-que ao despois se-fez, e ainda se-faz. Nese particular serîa eu inexoravel: porque a paz publica, que o Principe promete, aos que concorrem para tais exercicios, pede-o asim: e em outros Reinos, executam-no com todo o rigor. Falo somente do-castigo que se dá, por-cauza de nam acertar com os estudos. a emulasam, a repreensam, e algum outro castigo deste genero faz mais, que os que se-praticam. É necesario ter muita paciencia com os rapazes, e ensinálos bem: nam seguindo a opiniam daquele Bispo de Vizeo D. Ricardo Rosel, que em um exame reprovou XVI. estudantes afio, porque pronunciáram _Idolum_, com a segunda breve. Isto só faz, quem nam conhece o que deve. Um omem pode ignorar, a quantidade de muitas silabas, e ser um grande Latino. Todos os dias se-oferecem duvidas na quantidade delas, aos omens doutos: principalmente naquelas palavras, que tem origem Grega: na qual lingua o _O_, e _E_ sam de duas sortes, breves, e longos. Este rigor é censuravel. deve-se praticar outro estilo.