Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Part 10

Chapter 103,633 wordsPublic domain

Acho ainda mais outro inconveniente, para saber Latim, praticado nas escolas: que é, compor muito naquela materia, que intendem mui pouco. Um pobre estudante ainda nam intende Latim, e ja lhe-dam varios temas, que sam certas orasoens vulgares, para traduzir na lingua Latina. ou dam a orasam Portugueza, com partes Latinas; ou uma sentensa Latina, para eles a-dilatarem, e provarem. Mas um e outro metodo, é um erro masicho. Que coiza boa á-de fazer um rapaz, que ainda nam sabe Latim? Dar as partes conrespondentes ao Portuguez, e obrigar o estudante, a que se-sirva delas em uma orasam longa; é o mesmo que querer, que ele siga os despropozitos do-seu mestre. Ainda quando o estudante acertáse com tudo, nam acertaria com os idiotismos, isto é, com os modos de falar, que sam proprios da-lingua Latina: e falaria Portuguez, com palavras Latinas. Pode-se permetir o dar as partes, em uma breve orasam; e isto a um rapaz que comesa: mas nam se-deve obrigar outro mais adiantado, a seguir tal metodo.

Devia o mestre ensinar ao dicipulo, compor bem uma orasam Portugueza breve, uma carta, um comprimento, ou coiza semelhante. Para isto tem o estudante, toda a facilidade posivel, porque o-faz em uma lingua que sabe; e na qual o mestre pode claramente mostrar-lhe os erros. Quando o estudante soubése fazer isto bem, entam lhe-aconselharia, que a-convertèse em Latim, deixando-lhe toda a liberdade da-compozisam. Emendados os erros de Gramatica, se os-ouvèse, emendaria os erros da-lingua: e lhe-mostraria, a diferensa que á, entre estas duas linguas: e a diversidade que aparece, entre escrever segundo as regras de Gramatica, e segundo o estilo da-boa Latinidade. Mas nisto procederia com advertencia. Primeiro, nam procuraria que escrevesem, senam em estilo familiar e facil. despois, segundo o adiantamento que tivesem, pasaria aos argumentes ou asumtos mais dificultozos; os quais explicaria muito bem. Desta sorte, acompanhando a tradusam com a compozisam, facilitaria muito o estudo, e conseguiria promtamente o intento.

Deste estilo rezultariam muitas utilidades. Primeiramente, sairiam os omens da-escola, nam só sabendo a lingua Latina, mas tambem a sua. É lastima, que omens que pasáram tantos anos, nas escolas pequenas, e grandes; omens que estam oje ensinando a outros, e ocupam cargos de Letras, e Politica; nam saibam escrever uma carta! Pois isto é coiza, que sucede todos os dias. Eu me lembro, que V.P. se-queixou ja disto: e me-dise, que achava muitos Religiozos, que tinham o mesmo defeito: e reconheceo comigo, que a origem destes danos era, a que aponto. Cometem-se mil erros de Gramatica, na propria lingua, e infinitos de Ortografia. Preparam-se muitos para escrever uma carta, como para fazer um ato publico. Procuram palavras bem dezuzadas, ou estrangeiras; e verbos que nam á no mundo. E com isto compoem uma carta, sumamente afetada, e de um estilo, que é mais declamatorio, que epistolar. Estes sam os que sabem mais: e os que sabem menos, pedem a estes, que lhas-componham. E tudo isto provèm, de nam terem uzo de compor na sua lingua: e de nam terem quem lhe-ensine, qual é o estilo de Carta, qual o de Orasam: e nam aver uma alma cristan, que lhe-persuada, que a afetasam deve-se evitar, em todos os generos de eloquencia, mas muito principalmente, no-estilo familiar.

A segunda utilidade é, sobre a inteligencia da-lingua Latina. Um rapaz que de sua cabesa escreve uma carta, ou comprimento, ou oferecimento Portuguez, com palavras proprias; ja sabe, o que á-de dizer em Latim: só lhe-falta, ter as palavras Latinas, para as-colocar. A isto pois deve suprir o mestre. Suponho, que lhe-tem ja ensinado a Gramatica: e tambem a traduzir de Latim, em Portuguez, para intender os termos: e supondo estes principios, facilmente o rapaz intenderá, quais sam as palavras, de que á-de uzar: ou ao menos será facil ao mestre, mostrar-lhas. Eu no principio seguiria esta regra. Comporia diante dele em Latim, parte da-dita carta, ou toda: e lhe-daria a razam do-que fazia: explicando-lhe, porque uzo daquele verbo, e nam de outro: porque uzo daquela fraze, mais doque outra. Capacitando-o, que a todas as palavras Portuguezas, nam pode conresponder uma Latina: mas é necesario uzar de _perifraze_, ou rodeio de palavras, para as-poder explicar. Este é o defeito que nós achamos, no-metodo de dar as partes: porque nam conrespondendo elas sempre umas a outras, por-forsa á-de sair uma embrulhada. Sabido tudo isto, darlheîa a incumbencia, de escrever a dita carta em Latim, sem lhe-mostrar, a que eu tinha composto: e pedirlheia a razam, de tudo o que tinha feito.

Alem disto, com este metodo aprende-se o que significa, escrever Latim com propriedade. Um mestre que se-contenta, com a Arte do-P.Alvares, e com a noticia do-Dicionario do-P.Bento Pereira, nam sabe distinguir entre muitos sinonimos, qual é o proprio, para o que quer explicar. Figuro um exemplo. Tenho necesidade de uzar, do-Verbo _Pedir_: para isto ocorrem logo mil Verbos: _Postulo_, _Posco_, _Peto_, _Flagito_, _Efflagito_, _Oro_, _Rogo_, _Precor_, _Obsecro_, e alguns outros. Quem sabe pouco, intende que sam rigorozos sinonimos; e nam tem dificuldade, de servir-de indiferentemente de todos: mas quem sabe mais, conhece que nem todos o-sam: porem que alguns daqueles Verbos, significam mais, ou menos. v.g. _Postulo_ significa pedir aquilo, que se-me-deve: _postulare jure_. _Flagito_ significa pedir com instancia, e injuriozamente. _Efflagito_ pedir com grande instancia; e acrecenta sobre _Flagito_, alguma coiza. O mesmo dos-outros com sua proporsam. Do-que fica claro, que querendo eu explicar, que peso com instancia; direi muito mal: _Vehementer postulo. cum clamore & magna instantia obsecro._ basta que diga, _Flagito_. O mesmo digo, em diversas outras materias. Isto nam ensina o Alvares, nem o Pereira: mas isto deve ensinar o mestre, mostrando ao estudante, quais sam os vocabulos proprios, para explicar o que quer. Desta sorte acostuma-se o rapaz desde o principio, a servir-se de termos proprios, e frazes naturais à Lingua: E com isto insensivelmente toma o gosto da-boa Latinidade, e da-sua mesma lingua: e aprende as leis da-Tradusam, mui necesarias a quem á-de ler, e servir-se de autores estrangeiros.

Dirmeá V.P. que eu peso muito: e que isto nam é facil, praticálo nas escolas: porque nem todos os mestres, tem a erudisam que aponto; e nem todos os estudantes, sam capazes desa doutrina: E eu respondo, que nam á coiza mais facil de se-executar. Ponha-me V. P. nas escolas outra Arte: um bom Calepino dos-modernos, reduzidos à grandeza do-Dicionario do-P. Pereira; que tudo se-remedeia. Estas duas coizas sam sumamente necesarias. A Arte comua, ensina muita coiza má: e a Prozodia, tem muito erro. Nam distingue as idades dos-vocabulos: mas com uma simplez estrelinha quer, que nós suspeitemos mal, de tudo o que dezagradou ao corretor: o qual às vezes erra, como ouvi queixar os mesmos Jezuitas. Alem diso, desterra da-Latinidade muitos nomes, que sam Latinos; e introduz outros, puramente barbaros. Nam explica a forsa das-vozes: nem mostra com exemplos, os significados proprios, e figurados de cada palavra: alem de muitas outras coizas, que se-podem notar. E asim serîa necesario, compor um Dicionario pequeno para os rapazes; ou servir-se de algum estrangeiro. v.g. o de Danet, ou ainda melhor, o que ultimamente se-compoz em Turin, por-ordem d’El-Rei de Sardanha, para uzo das-escolas: que sam dois tomos in 4^o. Italiano e Latim, Latim e Italiano: e traduzir as palavras Italianas em bom Portuguez. Establecido isto, conheso eu entre os doutisimos Jezuitas, mosos de toda a erudisam, e capacidade, proprios para executarem dignamente, este emprego. Comque, tire V.P. das-escolas, os que sabem pouco; e em seu lugar ponha estoutros: prescreva-lhe o metodo apontado: fasa com que o executem sem epikeas, (como fez ultimamente o dito Duque de Saboia aos seus suditos, determinando-lhe o metodo, de ensinar Latim, e Leis &c.) e verá, com que facilidade se-reformam as escolas. Todos os estudantes, asim como sam capazes de sofrerem, aquele mao metodo, com mais razam receberám outro, que seja mais claro e facil, e seguiloám com mais boa vontade. O dano desta era consiste em quererem, que um estudante, que sabe pouco, e a quem nam ensinam a saber mais, mostre que sabe muito; e, para o-mostrar, componha muito. Eu nam peso tanto. Suponho que tem ja, um bom ano de Gramatica, e que tem pasado parte do segundo ano, traduzindo de Latim em Portuguez: onde nam me parece que peso muito, se quero que no-resto do-ano, se-empreguem em compor Latim, polo metodo que asima digo. Este tal estudante nam è noviso, mas adiantado; e pode com fruto aplicar-se a este estudo. Falando-lhe em Portuguez, e compondo polo metodo que aponto; muda-se de sistema. Nas escolas comuas sabe-se pouco, quando os-obrigam a compor: v.g. na quarta, e terceira, em que comesam a traduzir de Latim, em Portuguez; nesa mesma clase, e no-mesmo tempo comesam a fazer tema. E isto nam pode produzir bom efeito. Mas neste sistema, quando se-compoem, ja o negocio está adiantado: e vai-se adiantando mais, com a dita compozisam.

Acha-se tambem outro inconveniente bem grande, nestas escolas, sobre isto da-compozisam; que é, obrigar os estudantes a fazerem, ou indireitarem versos rotos: e castigálos rigorozamente, se os-nam-fazem. desorteque ou sejam, ou nam aptos para a Poezia, todos ám-de fazer, o mesmo numero de versos. Mostra pouco intender de versos, quem pratîca isto: porque nam é facil, obrigar o entuziasmo a que venha, quando quer o mestre. Mas o que mais é para rir é, que fasam isto omens, que prezumem muito de ser Poetas, e matam gente com as suas poezias. Falando com alguns mestres neste particular, responderam-me que o-faziam, para que os estudantes tivesem alguma erudisam, dos-Poetas Latinos. Proguntei-lhe, que necesidade avia desa noticia: responderam-me: Que era necesaria, para a inteligencia da-lingua Latina. Poisque, continuei eu, quando V.V.P.P. intendesem bem _Cicero_, _Cezar_, _Cornelio Nepote_, _Livio_, _Paterculo_ &c., e pudesem explicálos com facilidade, e escrever como eles; tinham medo de nam saber Latim; ou serîa necesario, recorrer a eses Poetas? Aqui nam souberam que responder mais, doque recorrer ao costume, das-Universidades da-Europa. Mas eu, que nam queria deixar fugir a preza, pedi-lhe, que me-provasem, que nesas Universidades, emque se-sabe ensinar, (avemos de concordar, que á algumas que seguem, o estilo de Portugal, aindaque mais moderado) explicavam os Poetas, só para intender a lingua: ou que obrigavam os estudantes, a que fizesem versos como eles. Aqui ficáram calados. E, na verdade, era dificil coiza, que quem nunca saîra de Portugal, ou nam tinha examinado com grande atensam, os estudos estrangeiros, discorrese fundadamente sobre eles.

Mas a verdade é, que nam á coiza mais contraria à boa razam, que esta pratica de fazer versos. Os omens nam tem capacidade igual; e nem todos sam capazes de tudo: antes às vezes acham-se mosos tam rudes, que dificultozamente podem intender o Latim. E como ám-de estes compor versos elegantes? Asentamos, que, para a inteligencia da-lingua Latina, é loucura, obrigar a fazer versos. O mais que podem fazer, e que eu nam reprovo, é, quando o estudante sabe bem a lingua Latina, mandar-lhe traduzir, alguns dos-Poetas antigos melhores, como _Lucrecio_, _Virgilio_, _Ovidio_, _Oracio_, _Catûlo_, e algum outro: mas raro; porque nisto se-compreende o melhor. E isto para mostrar, as frazes particulares dos-Poetas, e tambem o bom gosto da-lingua. sendo certo que alguns destes escrevèram, com purisima Latinidade, como _Virgilio_ nas Georgicas, e Eglogas: _Oracio_ nas Epistolas, e Satiras: _Ovidio_ nas Epistolas às Damas ilustres.

Quanto ao Verso, é querer perder tempo, obrigar os omens a fazèlos: e serîa melhor, empregar aquele tempo, em coiza mais util. Ouveram omens doutisimos, e os-á prezentemente, que nam sabiam fazer versos. No-tempo de _Cicero_ avia omens, que faziam versos, com grande facilidade, e insignes na dita profisam: e contudoiso estavam mui longe, do-merecimento de _Cicero_. Este grande omem nam ignorava, o como se-faziam os versos: e com efeito alguns fez, cujos fragmentos ainda oje existem: mas o seu talento, e a sua maior propensam era, para a Retorica. Nam que eu julgue, que os versos de _Cicero_ sejam maos; como muitos ignorantes, e que querem falar do-que nam intendem, se-persuadem. Os versos de _Cicero_, principalmente os _Fenomenos de Arato_, sam tam elegantes e tam belos, como os de _Lucrecio_: nem eu acho diversidade sensivel entre uns, e outros: e igualmente admiro ambos, principalmente olhando para a materia, sobre que compuzeram. Pois se todos admiram em _Lucrecio_, explicar com tanta naturalidade, coizas tam dificultozas, conservando a elegancia, e o espirito de Poeta; o mesmo louvor, e polas mesmas razoens, compete a _Cicero_: o qual com a frequencia de ler, e emendar _Lucrecio_, tinha aquistado a mesma facilidade, e estilo. Para conhecer o que nisto podia _Cicero_, basta lelo nas partes, em que nam é violentado, pola esterilidade da-materia. Nam sei se se-podem achar na Antiguidade, versos mais armoniozos, que os que ainda oje lemos, do-livro segundo do-seu Consulado. Este bocado somente mostra bem, na minha estimasam, o que _Cicero_ podia. Nem obsta, que _Marcial_, _Juvenal_, _Quintiliano_, zombasem de um certo verso de Cicero: isto, como nota bem o doutisimo _Turnebo_[21], nada prova. O que nam agradava a estes, agradava no-tempo de Augusto: e muitos omens grandes, (como advertio um grande critico daqueles tempos) estimavam mais os Antigos, que outros bem nomiados[22]. Se em muitas partes, _Cicero_ nam se-asemelha a _Virgilio_, nem por-iso perde nada do-seu merecimento. Nem menos é semelhante _Oracio_ nas suas Satiras, e Epistolas: nem em tudo _Lucrecio_; e com tudo sam famozos Poetas: e a naturalidade com que se-explicam, e acomodam o verso exametro, a tudo o que querem, é mais estimada, entre os criticos de bom gosto, doque a elevasam de _Virgilio_. O estilo daquele tempo pedia, grande naturalidade nas-compozisoens. E nam falta quem censure _Virgilio_, em ser tam elevado e artificiozo nos-versos: no-que alguma coiza se-desvia de _Omero_. Contudo ninguem nega, que, se na Eneide, e Georgica observou bem o decoro; e sustentou a dignidade do-argumento; nas Eglogas pecou muito, porque nam observa a simplicidade natural no-estilo pastoril: mas procura que falem os pastores, com toda a civilidade, e arrogancia de cidadoens: o que nam é verosimel. Mas, tornando a _Cicero_, ficaria prejudicada a Republica de tam grande talento, se, pola Poezia, deixáse a Oratoria. Conheceo aquele grande omem o seu talento: cultivou-o: e saio aquele oraculo, que entam venerou Roma, e oje admira o mundo. Esta, é uma grande lisam para os Modernos, consultar o talento; e nunca violentar a natureza. Onde neste particular, deve-se consultar, a inclinasam dos-rapazes: e avendo-a, explicar-lhe brevemente, as diferentes sortes de compozisoens metricas: nam os-ocupando senam em asumtos brevisimos: deixando-lhe toda a liberdade no-compor: mas emendando-os, e dando-lhe distintamente, a razam da-emenda.

Até aqui tenho falado a V.P. em alguns abuzos, das-escolas deste Reino, que impedem saber a lingua Latina. Agora falarei nos-requizitos, para a inteligencia da-dita lingua: a falta dos-quais, nam se-deve contar, entre os menores abuzos: e tambem apontarei o modo, comque se-deve regular, o estudo do Latim; e a eleisam de livros, para o-conseguir com brevidade. Parecerá um paradoxo, se eu diser a V.P. que, ainda observando tudo quanto asima digo, nam se-pode saber Latim, (nam digo com toda a perfeisam; porque uma lingua morta, nam se-chega a saber bem: mas sabèlo no-melhor modo posivel) sem alguma noticia da-Geografia, e Cronologia, e das-Antiguidades, em que entram os Costumes, a Fabula &c. e contudo, nam á coiza mais verdadeira doque esta. Eu nam quero sair do-livro mais uzual, que nas escolas se explica, que é _Quinto Curcio_. Nele ocorrem todos os momentos nomes, de Gentes, de Povos, Regioens, Cidades &c. fala-se de guerras entre Nasoens e Nasoens. E que conceito á-de formar do-escritor, aquele que o-explica, se ele nam sabe, se diz bem, ou mal? porque, ignorando a Geografia, nam sabe, nem chega a compreender, em que parte do-mundo, estejam as tais Gentes, se vizinhas, ou distantes. Como á-de o leitor intender, as conquistas de Alexandre, se ele nam sabe por-onde foi, que Nasoens venceo, que dificuldades superou? Alem diso, sucede muitas vezes, que ese escritor, que o estudante le, se-enganáse nos-lugares: e isto entam é erro sobre erro, que o leitor nam poderá decifrar. Nam è isto cazo metafizico, mas engano bem comum em muitos escritores. _Q. Curcio_ enganou-se muitas vezes, por-ignorancia da Geografia: _Plinio_, e alguns outros: como admiravelmente mostra o douto Jozé Escaligero, nos-Prolegomenos de Manilio. O mesmo _Manilio_, _Virgilio_, _Lucano_, _Floro_ erráram algumas vezes na Geografia, e podem cauzar o mesmo erro no-juizo, de quem for ignorante dela.

Dirmeá V. P. que este conhecimento, parece ser mais necesario, para nam se-enganar na leitura dos-autores, doque para intender a lingua: para a Critica, e nam para a Latinidade. Confeso, que para a Critica, é de indispensavel necesidade: mas o que digo é, que nam pode o estudante, intender com facilidade um autor, que trata a istoria de um conquistador, sem a noticia dos-paîzes de que fala: e nem menos o-poderá intender com gosto. Polo contrario, se é informado, aindaque superficialmente, desta noticia, percebe maravilhozamente o fato: facilita-se a inteligencia do-autor: e por-este meio a da-dita lingua. Um moso, que ignora totalmente a Geografia, toma limpamente um nome de Cidade, polo de um Reino, e polo de uma Pesoa: e outros destes enganos, que vam acompanhados, da-ignorancia da-lingua. Quem nam souber v.g. que Napoles, é nome de uma Cidade, e de um Reino juntamente; nam só confundirá os termos, mas tambem as coizas, que a ambas se-aplicam. E isto nam é somente dano da-Istoria, mas tambem impedimento, para a inteligencia da-lingua Latina. Acham-se alem diso muitas Cidades do-mesmo nome, em Regioens bem distantes. v. g. a antiga Geografia mostra-nos na Azia muitas, com o nome de Alexandria, de Seleucia, de Ecbatana, e bem longe umas de outras. O que quem nam sabe, persuade-se, que se-fala somente de uma: e nam intende a materia de que se-fala. E destes exemplos, de que abunda muito a Istoria antiga, se-colhe a necesidade da Geografia, ainda para a lingua. Serîa coiza ridicula, que um omem lese _Q. Curcio_, para intender as palavras, e nam para o sentido da-Istoria: ou que, sem a inteligencia desta, prezumise que poderia alcansar, a propriedade das-palavras. Muito mais sendo certo, que com o socorro da-Istoria, se-intendem muitas coizas, que sem ela é imposivel intender; e a inteligencia do-contexto abre a porta, para se-intenderem muitos nomes. É bem vulgar aquele lugar de Lucano,[23] em que, falando dos-Arabios, que sairam do-seu païz, diz = _Umbras mirati nemorum non ire sinistras_ =: o que, sem Geografia, é imposivel intender. Virgilio diz lá em certa parte[24]: _Gens inimica mihi Tyrrhenum navigat æquor_ =: Como se-pode saber sem Geografia, que coiza é aquele mar _Tirreno_? quem a-ignora, pode-o tomar polo mar _Baltico_, ou _Etiopico_, ou _Pacifico_. De que vimos a concluir, que, alem do-sentido istorico, a mesma propriedade das-palavras Latinas, nam se-alcansa em varias ocazioens, sem Geografia.

Parece-me pois, que uma breve noticia da-Geografia, deve ser o preludio, da-lisam dos-autores. A observasam das-principais Cidades, de que fala o autor, que se-á-de ler: das-viagens, que fizeram os conquistadores: os fins e limites dos-seus imperios: isto deve primeiro observar-se. Mas porque esta noticia serîa de-minuta, se a-nam-unisem com a noticia, da-Geografia de toda a terra; deve-se aprender esta noticia brevemente em um Mapamundo: ajuntando-lhe a noticia da-Esfera _Armilar_: das-divizoens do-Ceo, e da-Terra &c. O que com grande facilidade se-pode fazer: pois, como diz um omem douto, este estudo nam pede mais, doque olhos, e alguma memoria. Na Esfera Armilar conhece-se, a dispozisam do-Ceo, respetivamente à Terra: no-Globo, a dos-Reinos: e em uma carta particular, a da-Provincia, ou Reino de que se-trata. Advertindo, que quando se-falar em alguma Cidade, deve-se notar, de quais delas se-mudáram os nomes antigos, em alguns modernos. Acham-se cartas, que apontam os antigos nomes, das-Cidades da-Grecia, e Italia: e estas sam, as que principalmente se-deverám notar, para intender os escritores antigos, que faláram destas Regioens. _Sophianus_ descreveo bem, a antiga Grecia: e _Cluverius_, a antiga Italia. E isto é precizo saber, comparando os nomes daquelas antigas Cidades, com os das-modernas; e procurando nas cartas modernas, os sitios das-antigas Cidades, muitas das-quais ja nam existem. _Celario_ publicou um belisimo Compendio da-antiga Geografia, em 2. volumes de 4.^o Tambem compuzeram Introdusoens Latinas _Cluverio_, principalmente para a antiga; e _Luitz_. Quem quizese maiores noticias deveria ler, o _Petrus Bertius_==_Theatrum Geographiæ Veteris_. fol. &c. e este mesmo autor compoz: _Veteris Geographiæ Tabulæ._ fol. &c. Este autor, que escreveo nos-principios do-seculo pasado, é famozo. Oje á muitos modernos que escrevèram bem, em Francez, ou Italiano. _Duplessis_, e _Buffier_ escrevèram bons Compendios; que temos oje nas ditas duas linguas. _Jacobo Ode_ fez tambem um belo compendio Latino: e é mais moderno. Os Senhores _Sanson_, e de _l’Isle_ compuzeram cartas Geograficas, nam só de todas as partes do-mundo, mas especialmente, das-antigas divizoens do-Imperio Grego, e Romano &c. E isto é o que deve fazer o mestre, e ensinálo quando é necesario: porque desta sorte, acostumando os rapazes a buscar na carta, que deve ter na escola, a dita Cidade; imprime-se a Geografia na memoria, como quem brinca.

Em segundo lugar entra logo a Cronologia, que nam é menos necesaria, para intender os autores, e fugir os _anacronismos_, ou confuzam de tempos. Nam é necesario nestes principios entrar, nas disputas que á, sobre os principios dos-Reinos &c. isto é negocio, que pede grande estudo, e doutrina, e se-rezerva para outra idade. Basta apegar-se ao calculo mais recebido e comum, que poem a vinda de Cristo no-ano 4000. da-criasam do-Mundo: a que chamam o calculo de _Usserius_ por-ser este autor, o que o explicou melhor. Aqui pois é necesario ler, em um breve compendio, a serie dos-tempos, desde o principio do-Mundo, até agora: notando os maiores sucesos, em que ano acontecèram: v.g. Diluvio de Noé, Vocasam de Abram, Saida dos-Ebreos do-Egito, Destruisam do-primeiro Templo de Jeruzalem, Vinda de Cristo, Paz da-Igreja &c. Especialmente deve notar o que emporta, para a inteligencia dos-autores, que quer explicar: e sempre que mudar de autor, deve notar, em que tempo escreveo, e de que tempo escreveo. para o que nam servem pouco, os Dicionarios Istoricos de _Hofman_, e _Moreri_ &c.

Quanto aos Compendios de Istoria á tantos, que é superfluo, que eu aponte nenhum. Neste principio deve-se buscar, o mais breve. Por-iso me-parece, que o _Petavio_ é mui longo. o _Celario_ é bom, mas tambem nam é curto. _Turselino_, e alguns outros escrevem bem; mas em Latim. o _Bossuet_ parece-me melhor para o principio; e acha-se em Italiano, ou Francez. Tambem o _Valemont_, no-primeiro tomo, traz uma carta Cronologica geral, que pode bastar para o intento. E como este volume está traduzido em Portuguez, parece-me, que por-ele deve ler o estudante: e o mestre pode servir-se, de quaisquer dos-apontados asima, que sam dos-melhores. Em quanto nam aparece alguma istoria Portugueza, proporcionada aos rapazes, que estudam nas escolas: aos quais basta dizer, o que é somente precizo, sem tantos rodeios: o que me dizem está atualmente fazendo, um omem douto meu conhecido.