Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Part 8

Chapter 83,276 wordsPublic domain

Despois do-estudo da-Gramatica Vulgar, segue-se o da-Latina. e desta direi a V.P. o meu parecer, na prezente carta. Quando entrei neste Reino, e vi a quantidade de Cartapacios, e Artes, que eram necesarias, para estudar somente a Gramatica; fiquei pasmado. Falando com V. P. algumas vezes, me-lembro, que lhe-toquei este ponto: e que nam lhe dezagradáram as minhas reflexoens, sobre esta materia. Sei, que em outras partes, onde se-explica a Gramatica de Manoel Alvares, tambem lhe-acrecentam algum livrinho: mas tantos como em Portugal, nunca vi. As declinasoens dos-_Nomes_, _e Verbos_ estudam, pola Gramatica Latina. a esta se-segue um Cartapacio Portuguez, de _Rudimentos_. despois outro, para _Generos_, _e Preteritos_, muito bem comprido. a este um de _Sintaxe_, bem grande. despois um livro, a que chamam _Chorro_: e outro, a que chamam _Promtuario_: polo qual se-aprendem os escolios de Nomes e Verbos. e nam sei que mais livro á. E parece-lhe a V. P. pouca materia de admirasam, quando tudo aquilo se-pode compreender, em um livrinho em 12.^o e nam mui grande? Despois diso ouvi dizer, que ocupavam seis, e sete anos estudando Gramatica: e que a maior parte destes dicipulos, despois de todo ese tempo, nam era capaz de explicar por-si só, as mais facis cartas de Cicero. Confeso a V. P. que nam intendi isto, nem donde proviese o dano. Alguns sugeitos, bem inteligentes de politica, me-deram algumas razoens, que nam pareciam inverosimeis. Mas eu, sem aprovar, ou reprovar alguma delas, e tambem sem me-demorar com esta materia; discorrerei sobre o merecimento da-Gramatica Latina; e sobre o modo, com que se-deve aprender.

Ora convem todos os omens de bom juizo, e que tem visto paizes Estrangeiros, e lido sobre isto alguma coiza; convem, digo, que qualquer Gramatica de uma lingua, que nam é nacional, se-deve explicar na lingua, que um omem sabe. Se V.P. quizese aprender Grego, e para este efeito lhe-desem uma Gramatica toda Grega, e um mestre que somente faláse Grego; poderia, à forsa de acenos, vir a intender alguma palavra; mas nam serîa posivel, que aprendese Grego: o mesmo sucederia, em qualquer outra lingua estrangeira. e se algum ateimase, que somente daquela sorte, se-podia aprender Grego, diriamos, que era louco. Pois suponha V.P. que estamos no-cazo. É coiza digna de admirasam, que muitos omens deste Reino, queiram aprender Francez, Tudesco, Italiano, de uma sorte, e o Latim de outra muito diferente. Aprendem aquelas linguas com um mestre, que as-fala ambas, e explica a lingua incognita, por-meio daquela que eles conhecem e falam: e com uma só Gramatica se-poem em estado, de intenderem os autores bem, e, junto com o exercicio, de falarem Francez correntemente. E tomára que me-disesem, porque nam se-deve praticar o mesmo, no-Latim: e porque razam se-aja de carregar, a memoria dos-pobres estudantes, com uma infinidade de versos Latinos, e outras coizas, que nam servem para nada neste mundo? Chega este prejuizo a tal extremo, que o P. Bento Pereira, escreveo uma Ortografia Portugueza, em Latim. Desorteque quem nam intende Latim, segundo o dito P., nam pode escrever corretamente Portuguez.

Os defensores deste metodo, nam alegam outra razam mais, que serem os versos, mais facis de se-conservarem na memoria: e que em todo o tempo, a eles se-pode recorrer, para ter prezentes as regras. Mas esta razam, é pueril, e ridicula. Primeiramente se alguma coiza valèse, deveria praticar-se com versos Portuguezes: porque só eses intendem os estudantes. E qual é o estudante que intende, os versos Latinos das-regras, principalmente sendo tam embrulhados, como os do-P. Manoel Alvares? O certo é, que proguntando eu a alguns rapazes, a explicasam deles, nenhum ma-soube dar. E eisaqui temos, que para os rapazes, nam servem os tais versos. Se pois falamos dos-omens adiantados, estes sabem Latim, polo exercicio de ler, escrever, e falar: comque nam tem necesidade, de recorrer a semelhantes regras. E se querem examinar, alguma dificuldade de Gramatica, vam consultar os Criticos, que as explicam: nam as simplezes Gramaticas, que nem menos as-tocam: e talvez establecem principios, contrarios à mesma solusam.

Finalmente a Gramatica Latina para os Portuguezes, deve ser em Portuguez. E isto parece quiz dizer o P. Manoel Alvares, na advertencia que faz aos mestres, no-fim das-declinasoens dos-Verbos[16]. aindaque ele praticase o contrario, do-que aconselha: pois deveria, nam ter dado o exemplo, introduzindo uma Gramatica puramente Latina. A outra coiza que se-deve reprovar é, que obriguem os rapazes, a aprender trez sortes de regras: em verso, em proza Latina, e em proza Vulgar: como adverte bem o dito Padre. Isto, quando nam lhe-queiramos dar outro nome, é perder tempo, sem utilidade, e com prejuizo grande: sem aver outra razam, que seguir um costume envelhecido, aindaque prejudicial. Mas o que mais me-admirou neste particular, e claramente me-mostrou, quanto pode nos-Omens a preoccupasam dos-primeiros estudos, foi, ver que o Sargentomór Manoel Coelho, que parecia ser mais alumiado nestas materias, pertendendo distinguir-se do-Comum, dando aos principiantes, uma facil explicasam das-_oito partes da-orasam_; ainda asim caie na simplicidade, de pòr primeiro a regra em Latim para um rapaz, que ainda nam tem noticia da-dita lingua; mas que aprende os primeiros elementos. Tal é a forsa de um mao costume, que cega ainda aqueles, que querem dezembrulhar-se dele! Esta reflexam é sustancial: mas ainda á outras de maior momento. Entremos bem dentro na Gramatica.

Toda a Gramatica Latina se-reduz a explicar, a natureza, e acidentes das-oito vozes, que podem entrar na orasam ou discurso: e o modo de as-unir, e compor os periodos. E isto deve-se fazer com a maior clareza, e mais breves regras, que se puderem excogitar. O que certamente nam se-consegue com a Gramatica uzual: porque nam á coiza mais confuza, nem mais cheia de excesoens, que a dita Gramatica, como todos vem.

O mundo estava mui falto de noticias, e de metodo, antes do-seculo pasado. Desde o restablecimento das-letras Umanas na Europa, direi melhor, no-Ocidente, que podemos fixar nos-principios do-seculo XV. melhor direi, desde a invensam da-Imprensa no-meio do-dito seculo; até o fim do-XVI. nam tiveram os omens tempo de cuidar, em dar metodo proprio às Letras, e Ciencias. Nam fizeram pouco aqueles primeiros doutos, em procurar manuscritos, e impremir os antigos autores, mais corretamente que pudese ser. Achamos alguns, no-fim do-XV. e no-XVI. seculo, que foram letrados à forsa de estudo, mas nam de metodo. Temos tambem alguns omens, que souberam bem Latim nese seculo, porque liam muito polos bons autores: nam porque tivesem achado a chave, de ir para diante com facilidade, e explanar as dificuldades de Gramatica, aos estudantes. Finalmente esa gloria estava rezervada, para o seculo XVII. Os pasados seguiam uns a outros, sem mais eleisam, que o costume. viam, e estudavam com os olhos, e juizo alheio. Mas no-principio do-seculo XVII. aparecèram alguns, que quizeram servir-se do-proprio: e foi-lhes facil, conhecer os erros dos-antecedentes, porque eram grandes. Asim se-abrîram os olhos ao mundo, em todo o sentido. um conhecimento facilitou outro. e eisaqui aberta a porta ao metodo. De-me V. P. omens, que queiram examinar as materias com razam; que nam inculquem um autor, porque seus mestres lho-diseram, mas porque é digno de seguir-se; que eu lhe-prometo, adiantamento nas Ciencias todas. A seu tempo discorrerei das-outras: agora continuemos com a Gramatica.

Tinha no-tempo do-Concilio de Trento o douto _Julio Cezar Escaligero_, comesado a examinar a Latinidade, seguindo o exemplo, e lumes do-famozo _Agostinho Saturnio_; o qual tinha ja notado varios erros, nos-outros Gramaticos. _Escaligero_, dando um paso adiante, publicou um livro, com o titulo = _De Caussis Linguæ Latinæ_: em que doutisimamente expoem o seu sentimento, sobre os elementos da-Gramatica: mas nam toca a construisam das-Partes. A leitura deste livro, abrio os olhos a _Francisco Sanches_, que era um profesor celebre de letras Umanas, na Universidade de Salamanca. Este douto empreendeu no-seguinte seculo, com o mesmo titulo, a explicasam da-construisam das-partes daorasam: e com tanta felicidade, que descobrio as verdadeiras cauzas, até àquele tempo ignoradas. Este livro incontrou em Salamanca, e trouxe para Roma,[17] nos-principios do-seculo pasado, o famozo Gaspar Scioppio, Conde de Claravale, de nasam Tudesca: aquele grande omem em letras Sagradas e Profanas; e que empregou toda a sua vida, em estudos gramaticos. O livro de Sanchez fez todo o efeito, que podia esperar-se. Scioppio (que nam costumava dizer bem, daquilo que o-nam-merecia; antes, polos seus inimigos, é tachado, como censor dezumano) cedendo à evidencia das-razoens, proseguio o mesmo metodo de Sanches: ilustrou, e reformou a sua doutrina: e compoz a primeira Gramatica, que apareceo segundo os tais principios. No-mesmo tempo o famozo Gerardo Joam Vossio em Olanda, tam benemerito das-letras Umanas, e Sagradas, explicou ainda melhor o dito metodo; seguindo em tudo Sanches, e Scioppio; os quais ou copeia, ou ilustra.

Esta é, e será sempre, a Epoca famoza da-Latinidade, e Gramatica. A estes trez grandes omens, seguîram em tudo e por-tudo os melhores Gramaticos, que despois ouveram: e devem seguir, os que tem juizo para conhecer, como se deve estudar a Latinidade. Por-Fransa, Alemanha, Olanda, Italia, e outras partes se-dilatou este metodo: e alguns escrevèram belisimas Gramaticas, segundo os tais principios. A razam porque nam se-propagou mais é, porque pola maior parte os estudos da-Mocidade, sam dirigidos por-alguns Religiozos, que seguem outras opinioens. Os doutisimos Jezuitas, ensinam grande parte da-Mocidade, em varias partes da-Europa: e nam querendo apartar-se, do-seu Manoel Alvares, rejeitáram todas as novas Gramaticas. Alguns destes Religiozos, que trato familiarmente, e estimo muito pola sua doutrina, e piedade; me-diseram claramente, que bem viam, que o Alvares era confuzo, e difuzo; e que as outras eram melhores: nem se-podia negar, que os principios de Scioppio fosem claros, e certos: mas que o P. Geral nam queria, se-apartasem do-P. Alvares, por-ser Religiozo da-Companhia. Este é o motivo, porque o P. Alvares se-conservou, nas escolas dos-tais Religiozos: e esta tambem a origem da-tenacidade, comque muitos seguem, aquilo mesmo que condenam.

Os outros Religiozos, aindaque nam sejam Jezuitas, tem as mesmas obrigasoens, e opinioens. A maior parte, cuida pouco niso: e vam vivendo, como seus mestres lhe-ensináram. Nam tem noticia dos-melhores autores, que á na materia: cuidam, que no-mundo nam á outra Gramatica, fóra que a do-P. Alvares. E todos estes, contentando-se de intender, um pouco de Latim bom, ou mao, nam cuidam em saber Gramatica. Os mestres Seculares, pola maior parte, sam ignorantisimos, e puros _pedantes_. e desta sorte de gente nunca esperou aumento, a republica Literaria. É necesario porem confesar, que fóra de Portugal, aindaque perzistam algumas destas razoens, muitisimos Religiozos, e Seculares ensinam, segundo os verdadeiros principios. Comque, considerado bem tudo isto, nam tem que se-maravilhar V. P. de que um metodo, que louvam tanto os omens doutos, tenha tido tam mao recebimento, em varias partes. Mas estas Gramaticas que tem saido, aindaque sigam os mesmos principios, nem todas se explicam com igual clareza. Eu direi o que achei nas melhores, e o como se-pode ordenar uma Gramatica, util para a Mocidade.

A Gramatica deve-se dividir, em dois volumes. No-primeiro, devem-se tratar aquelas coizas, que indispensavelmente devem estudar os principiantes. no-segundo, aquelas reflexoens, que sam mais proprias para os adiantados, e para os mestres: como sam as dificuldades de Gramatica, e as razoens daquelas regras, que parecem menos comuas. Explico agora a primeira parte. Esta primeira parte (podemos-lhe chamar pura Gramatica: porque a segunda, sam comentos sobre ela) divide-se naturalmente, em quatro partes: _Etimologia_, _Sintaxe_, _Ortografia_, e _Prozodia_. a primeira trata das-Vozes: a segunda da-Uniam delas: a terceira das-Letras: a quarta da-Quantidade das-silabas.

_ETIMOLOGIA_.

Na primeira parte, trata-se da-origem e diferensa das-vozes Latinas, que podem entrar na orasam, por-sua ordem. Primeiro, explica-se o _Nome_, e suas especies. O _Nome_, tem trez acidentes, que sam, _Genero_, _Cazo_, _Terminasam_. Os _Generos_, que tanta bulha fazem nas escolas, explicam-se com toda a brevidade. á regras gerais da-_significasam_, e particulares da-_terminasam_. Na primeira regra, poem-se todos os que pertencem ao Masculino. v.g. _Sam do-Masculino, os nomes de Omens_ &c. 2. _Sam do-Feminino, os nomes de Molheres, Naos_ &c. 3. _Sam do-Neutro, os nomes de Letras, Frutas_ &c. Tambem as particulares, se-reduzem a trez. v. g. _Sam do-Masculino os nomes em O, como Sermo: em il, como Mugil_ &c. Acabado isto, poem-se um escolio que diga: _Nomes que sam do-Masculino, por-excesam das-outras regras._ v.g. _Cometa_, _Adria_, _Harpago_, _Splen_ &c. O mesmo metodo se-pode praticar no-Feminino, e Neutro. E com seis regras, se-explicam todos os Generos: e se-acaba esta grande barafunda de Cartapacios. Se pois o estudante quizer saber a razam, porque alguns nomes, que pareciam de um genero, se-atribuem a outro; pode ir ver, a segunda parte da-Gramatica.

Segue-se explicar, quantos _Cazos_ tem o Nome. e em 3.^o lugar _a Declinasam_: mostrando quantas á: e em cada uma delas, quais sam a Latinas, quais as Gregas. Tudo isto se-pode dizer, com muita clareza e brevidade; bastando alegar um exemplo, em cada especie de terminasoens, que podem entrar em cada declinasam. Com este metodo, em uma vista de olhos, percebe o estudante os nomes, que pertencem a cada declinasam. Despois, podem-se explicar os Nomes Compostos, os Anomalos de genero, de numero, de cazo, e de declinasam. A segunda especie de Nome, é o Adjetivo. E aqui tem lugar explicar, as diversas especies de Adjetivos: Pozitivos, Comparativos &c. as suas declinasoens, e anomalîas.

O _Pronome_, tem seu lugar despois do-Nome: porque tambem é, uma especie de Adjetivo. Onde deve explicar-se logo, a sua diversidade: e as declinasoens dos-Simplezes, e Compostos.

O _Verbo_, é a mais dificultoza parte, nas Gramaticas vulgares: e por-iso pede grande atensam. Explicadas as divizoens dos-Verbos; e apontado, que á quatro Declinasoens ou Conjugasoens: segue-se logo, explicar os Preteritos. v. g. A primeira, tem no-infinito _a_ longo antes de _re_: no-Preterito faz, _avi_: no-Supino _atum_: ut _amo_, _amavi_, _amatum_, _amâre_. Tiram-se os Verbos em _bo_, ut _Cubo_: em _co_, ut _Mico_ &c. E isto se-observará em todas as Conjugasoens. Desta sorte conclue-se em poucas palavras, toda aquela grande arenga de Preteritos, que nam tem fim nas escolas de Portugal. Se pois o estudante nam quer aprender, toda aquela enfiada de Verbos, nam emporta: basta que aprenda um exemplo, e saiba buscar os outros: porque a pratica ensina o demais.

Seguem-se as _Declinasoens_ dos-Verbos, a que vulgarmente chamam, _Linguagens_. E aqui achamos bastantes erros, nas Gramaticas comuas, e tambem confuzoens: porque mandam aprender aos rapazes, coizas totalmente superfluas; e nam explicam as necesarias. Quanto ao Indicativo, concordamos com Manoel Alvares: só dizemos, que aquele _Preterito plus quam perfeito_, é uma arenga, que nenhum estudante intende; nem os mestres explicam. Deve-se explicar asim: _Amavi_, é _Preterito perfeito proximo_; que afirma uma coiza, simplezmente pasada: _Amaveram_, é _Preterito perfeito remoto_, que nam só se-intende de uma coiza pasada; mas que ja era pasada, antes de outra, de que eu falo como pasada. Dizemos mais, que aquele _Futuro perfeito_, nam o-á no mundo: pois esta voz, é o mesmo Futuro segundo, que ele poem no-Conjuntivo.

Alem dos-primeiros tempos do-Indicativo, tem o Verbo, segundo Prezente, que é _Amem_: segundo Imperfeito, que é _Amarem_: segundo Perfeito, que é _Amaverim_: segundo Preterito remoto, que é _Amavissem_: segundo Futuro, que é _Amavero_. Mas isto pode-se explicar em Portuguez, com diversas palavras. A estas segundas vozes, ou segundo modo, podemos chamar _Conjuntivo_: porque pola maior parte, une-se com outras partes. Daqui vem, que é erro, pòr nas Gramaticas: _Modo Optativo_, _Conjuntivo_, _Potencial_, _Permisivo_: porque por-este estilo, podem-se acrecentar muitos outros Modos: sendo certo, que, ajuntando-lhe novas particulas, nacem diferentes modos de se-explicar. Basta advertir ao estudante, que aquele _Amem_, pode-se tomar, em diversos sentidos: o que se-conhece, polo contexto da-orasam. tudo o mais é tempo perdido, e é ensinar uma falsidade: pois nam á tais modos separados: sendo que a linguagem, ou a voz sempre é a mesma. _Amem_, quando significa _posibilidade_, e quando significa _permisam_, nam se-distingue mais, que polo contexto. E isto bastava que brevemente se-advertise, apontando um exemplo: porque o mais ensina a lisam, e reflexam sobre os bons autores.

O terceiro Modo é o Imperativo: a que podemos chamar, por-distinsam, _Prezente terceiro_: _Ama_. Futuro terceiro: _Amato_.

O Infinito, é aquele; a que verdadeiramente devemos chamar, _Impesoal_: pois nam tem determinado numero, ou pesoa, ou tempo &c. Este tem uma voz: a que, aindaque impropriamente, podemos chamar, Prezente, e Imperfeito: que é _Amare_. a qual tem todas as significasoens do-Prezente, e Imperfeito primeiros. Para os outros Preteritos serve, _Amavisse_. Tem Futuro, que é _Amaturum esse_: e outro Futuro remoto, que é _Amaturum fuisse_. Gerundios, Supinos, e Participios. Isto posto, deve-se explicar, como se-formam os tempos. E nisto se-compreende, a primeira parte das-Linguagens.

Seguem-se os Verbos Anomalos, quero dizer, os que nam tem analogia, com as quatro Conjugasoens: sam _Volo_, _Nolo_, _Malo_, _Fero_, _Eo_, _Edo_, _Fio_, _Memini_ &c. _Aio_, _Inquam_, _Forem_. E nisto se-encerra tudo, o que se-diz do-Verbo.

Os Gramaticos fazem aqui uma barafunda de explicasoens, e divizoens, em _Neutros_, _Comuns_, _Depoentes_, _Diminutivos_, _Frequentativos_, _Denominativos_, _Imitativos_ &c. mas tudo isto é superfluo. Todos os Verbos, tirando dois, sam Ativos, ou Pasivos: porque ou significam asám, ou paixam: e a estas especies se-reduzem os apontados. Basta advertir, o que significam estas palavras, e a que conjugasam pertencem os ditos verbos: apontando um exemplo de cada um. o que porem melhor se-faz, no-exercicio da-leitura, e tradusam.

Ao Verbo, segue-se o _Participio_: que aqui se-deve explicar com as suas divizoens. notando quais sam os Verbos que os-tem: quais os em que faltam: quais deles formam Comparativos, e Superlativos.

No-_Adverbio_, deve-se explicar e apontar, os que sam de proguntar, os que significam tempo, lugar; e outras diferentes especies deles. Despois, a _Prepozisam_: mostrando as que sam separaveis, e as que se-nam-separam. Como tambem advertir, que coiza acrecentam ao Nome, e Verbo, estas Prepozisoens. Sobre a Interjeisam, deve mostrar, quais sam as que significam, os diferentes afetos do-animo, para o estudante poder servir-se na ocaziam. A _Conjunsam_, tambem tem suas especies: que sam _Conjuntiva_, e _Disjuntiva_, _Condicional_, _Concesiva_ &c. e estas todas devemos apontar: alegando exemplos em cada uma.

Despois da-Etimologia das-vozes, tem lugar explicar o _Metaplasmo_: que vale o mesmo que dizer, certas figuras, polas quais se-acrecentam, ou diminuem as letras das-disoens: v. g. _Gnavus_ pro _Navus_ &c. Noticia é esta sumamente util para intender, as diferentes vozes Latinas. E nisto se-compreende, tudo o que deve saber-se sobre a Etimologia, com a maior clareza, e brevidade imaginavel.

_SINTAXE._

Despois, segue-se a _Sintaxe_. E a qui é maior a dificuldade: porque se a Etimologia, nas Gramaticas ordinarias, é confuza; a Sintaxe delas é a mesma confuzam. é necesario variar muito do-comum, para ensinar verdadeira Sintaxe. Nam tenho tempo para provar o que digo: mas seguro a V. P. que o que escrevo, é ja provado evidentemente, polos autores que aponto, e outros que os-comentáram: e que, se a necesidade o pedise, com pouco trabalho mostraria tudo: porque tenho visto o que basta. E asim apontarei somente, as rezolusoens.

A Sintaxe ensina a unir as vozes, para fazer a orasam: e, por-meio desta, formar um bem regulado discurso. A construisam ou uniam ou é _Regular_, que segue as regras da-Arte: ou _Figurada_, que se-desvia delas, mas funda-se na autoridade dos-bons escritores. A construisam Regular funda-se na _Concordancia_, ou na _Regencia_. Chamo Concordancia, quando as partes concordam, em alguma coiza comua. v.g. o Sustantivo concorda com outro Sustantivo em _cazo_, que é comum a ambos. Nas Concordancias achamos alguns erros comuns, que em breve apontaremos.

Nam se-devem admetir mais concordancias, (nam falo daquela entre dois Sustantivos) que de _Sustantivo com Adjetivo_: _Verbo com o Nome_. O Adjetivo concorda com o Sustantivo em _numero_, e _cazo_, que sam comuns a ambos: nam em _genero_, porque o Adjetivo nam tem genero, mas somente o Sustantivo: poem-se porem o Adjetivo em uma terminasam, conrespondente ao _genero_ do-Sustantivo. Alem disto o Adjetivo, nam concorda com o Sustantivo proprio, v.g. _Petrus_: mas com o Sustantivo comum, v.g. _Homo_: e vale o mesmo dizer: _Petrus est bonus_: que se disese-mos: _Petrus est homo bonus: vel artifex, vel magister bonus_ &c. Quando nam á nome comum, recorre-se aos nomes, _Res_, _Factum_, _Opus_, _Negotium_, e outros semelhantes, que antigamente tinham, significasam mais extensa, que a que oje lhe-dam. Damesma sorte quando Ovidio dise: _Nox, & Amor, & Vinum nil moderabile suadent_; deve-se intender asim: _non suadent factum, vel opus, vel negotium moderabile_. Virgilio umas vezes dise: _Præneste altum_: intendendo _Oppidum_. outras vezes: _Præneste sub ipsa_: intendendo _sub ipsa Civitate_. podia tambem dizer: _Præneste altus_: intendendo _Locus_. Terencio dise: _Eunuchum suam_; intendendo _Comoediam_, ou _Fabulam_; porque _Eunuchus_ é masculino. Deixo outros exemplos, com que se-mostra, que a concordancia sempre é com o Sustantivo comum.

Á infinitos exemplos que provam, que o Relativo concorda com o _susequente_ expreso, ou supreso, em _numero_, _cazo_, e terminasam conrespondente ao _genero_: damesma sorte que outro Adjetivo. Temos exemplo bem claro em Cicero, do-expreso: _Ego tibi illam Aciliam legem restituo, qua lege simul accusasti_[18]: e em outra parte[19]: _Sequitur enim caput, quo capite non permisit._ Cezar abunda muito destes modos de falar, porque afetava clareza. Acham-se exemplos do-supreso: _Populo ut placerent, quas fecisset fabulas_[20]: i. e. _Populo ut placerent fabulæ, quas fabulas fecisset_. Do-que fica claro, que o Relativo concorda, em genero, numero, e cazo, como dizem comumente, com o seu susequente; que é o mesmo antecedente-repetido. Isto basta por-agora.