Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Part 7

Chapter 73,384 wordsPublic domain

Tambem a _parentezis_, é especie de virgula: e consiste neste sinal, () com o qual se-compreendem algumas palavras. Escreve-se, quando dentro de uma propozisam, se-inclue outra, separada do-sentido; ou para excesam, ou declarasam de alguma coiza. v.g. _Deixo de dizer (aindaque poderia com razam) as atrocidades que cometeo. O Amor, (como achamos escrito na Sagrada escritura) é tam forte como a morte._ Porem, se a interrusam é breve, bastam duas virgulas. v.g _O Amor, como ja dise, é uma grande paixam._

Despois da-virgula, seguem-se os _dois pontos_. Estes se-poem, quando o sentido da-orasam é completo, quanto à sustancia; mas nam em quanto ao fato: quero dizer, quando o que se-escreveo, faz por si só sentido perfeito; desorteque podia-se terminar com um só ponto: mas quem escreve, ainda tem alguma coiza que acrecentar, para melhor declarar a coiza, ou expremir alguma circunstancia, com a qual se-acabe de todo o periodo. v.g. _Recebi o doutisimo livro que v.m. me-mandou: para me-obrigar com isto ainda mais, doque estava._ Neste periodo, despois de _mandou_, escrevem-se dois pontos: porque o sentido, ja está completo; mas ainda á que acrecentar. E estes dois pontos se-podem replicar, em um longuisimo discurso, tantas vezes, quantas o sentido da-orasam for suficientemente completo. Mas a melhor regra que nisto se-pode observar, é esta: Se a propozisam que se-segue, nam é muito independente da-antecedente, deve-se pòr dois pontos. v. g. _Estudar varias ciencias, no mesmo tempo, antes confunde, que doutrina: como tambem o comer no-mesmo tempo comeres diferentes, tanto nam engorda, que ofende._ Mas se eu comesáse a segunda, por-palavras menos dependentes, deveria pòr um ponto. v. g. _Estudar varias ciencias, no-mesmo dia, antes confunde, que ensina. Damesma sorte, como dizem os Medicos, mui diferentes comeres no-estomago, impedem a digestam._ neste cazo ponho ponto, porque o sentido é mais separado. Porem se as propozisoens sam breves, intendo mais acertado, separalas com uma virgula. v. g. _O estudar muito junto faz confusam, como tambem o comer muito._

O _ponto_, costuma-se pòr, no-fim do-periodo, e quando o sentido é totalmente completo. Neste particular observo, que muitos em Portugal ensinam, que despois de ponto, sempre se-poem letra grande. O que é um engano manifesto; e contra a pratica dos-que melhor escrevem: que dizem, que quando os periodos sam breves, e em certo modo dependem uns dos-outros; basta despois de ponto, pòr letra pequena: e quando isto sucede no-fim do-verso, poem-se dois pontos: vistoque o verso seguinte deve sempre comesar, por-letra grande. Onde os omens doutos advertem, que nam só se-pode escrever letra pequena, despois de ponto final; mas tambem algumas vezes, despois de dois pontos, letra grande: quando o periodo é comprido, e se-tem posto muitas vezes dois pontos: ou tambem quando se-introduz alguma pesoa que fala, ou coiza semelhante.

E aqui incidentemente advirto, que nisto de escrever letra grande, á um grande abuzo: avendo escritores que a-escrevem, em mil coizas desnecesarias: o que ofende a vista. E asim, nam avendo razam forsoza, deve-se escrever letra pequena, que é mais natural. As regras que nisto dam, os omens mais advertidos, se-reduzem a estas. Poem-se letra grande. I. quando se-comesa o discurso. II. nos-nomes proprios, e sobrenomes tanto de Pesoas, como Provincias, Cidades, Ilhas, Montes, Mares, Rios, Ventos, e Animais. III. nos-nomes de dignidade, ou abstratos, como _Bispado_, _Papado_ &c. ou concretos, como _Papa_, _Rei_, _Abade_, _Conego_, _Senador_ &c. mas nam se-poem nos-de oficios inferiores, como _soldado_, _pintor_, _sapateiro_. IV. nos-nomes apelativos, quando se-tomam por-alguma coiza particular. v. g. _O Orador Romano_, por-Cicero: o _Doutor Angelico_, por-S. Tomaz: _Religiam_, pola vida Religioza &c. V. nos-nomes do-genero, ou especie, quando significam todo o genero, ou especie. v. g. _A Terra é redonda.Os Rios correm para o mar._ porque significando um individuo particular da-dita especie; v.g. _um bocado de terra_ &c. basta letra pequena. VI. as coizas inanimadas tomadas como pesoas, ou polo genero. v. g. _A Ira é uma grande paixam. O Amor cega os mais doutos_ &c. VII. os Adjetivos tomados como Sustantivos. v.g. _O Amigo, é outro eu. O Forte, aumenta o animo nos-perigos._ VIII. os nomes que significam multidam. v.g. _Senado_, _Republica_, _Cabido_, _Turcos_, _Inglezes_ &c. IX. os nomes da-materia, de que principalmente se-trata. v.g. _A Incarnasam_, a _Simonia_. ou tambem os nomes das-principais partes, em que se-divide um todo. v.g. _Neste cazo pecam alguns, por-Ignorancia, ou por-Malicia. Por-Ignorancia, pecam aqueles &c._ X. quando no-discurso se-introduz alguma pesoa, que fala. v.g. _Voltando-se entam para o ceo S. Paulo, dise, Senhor, que quereis que eu fasa?_ mas se o discurso que se introduz, fose mui longo, serîa mais acertado, separalo com um ponto sinal. E a palavra que se-segue, despois do-ponto interrogativo, nam deve ter letra grande; porque nam comesa um sentido novo.

Estas sam as regras, establecidas polo melhor uzo. Contudo á alguns, que ainda às vezes as-limitam, quando intendem, que nam sam necesarias. v. g. Vindo juntos dois nomes, um generico, e outro particular, como _Seita Turquesca_, _Igreja Catolica_, _Senador Romano_, _Academia Real_, _Concilio Toletano_, _Concilio Geral_, _&c._ deitam fóra a letra grande dos-primeiros, e somente a-conservam nos-segundos, que distinguem os primeiros. Porque ainda-que em outras ocazioens, achando-se somente a palavra, _Igreja, oncilio_, _&c._ tenha letra grande; neste cazo porem, parece ser escuzada: o que eu aprovo. Outros ainda fazem mais, que, achando muitas destas ultimas palavras, que aponto, como _Senador_, _Consul_, _&c._ escrevem-nas com letra pequena: principalmente se está unida a algum sustantivo Proprio. v. gr. _Joannes rex. Cicero consul._ E isto achamos mui praticado, em antigos manuscritos; e belisimas edisoens de livros modernos, emendadas por-omens mui doutos. Onde nam se-deve condenar, se algum o-praticar em alguma conjuntura, para evitar tanta letra grande.

Outros ainda limitam, o que se-diz nos-numeros V, e IX. porque intendem, que nem sempre é necesaria, a dita letra grande. E em tal cazo, ou escrevem letra grande, só na primeira vez: ou poem uma risca por-baixo, escrevendo; o-que na imprensa convertem em letra cursiva: ou nam a-poem: Nam parecendo muito bem um papel, em que repetidas vezes se-encontram as mesmas palavras, com letra grande: o que ofende a vista.

Tornando pois aos _pontos_: algumas vezes o periodo inteiro, é acompanhado de admirasam, ou interrogasam: e em tal cazo o ponto se-acompanha, com o final proporcionado. A _admirasam_, nota-se asim, (!) v.g. _Morreo, cazo admiravel! dezesperado._ ou em qualquer outra parte, em que entre a admirasam, ou simplez exclamasam. A _interrogasam_, ou progunta, distingue-se com este final, (?) v.g. _E porque nam poderei eu fazer isto? qual de vos outros mo-pode impedir?_ Muitas vezes sucede, que a înterrogasam é acompanhada de exclamasam. v. g. _Ó que grandes consequencias, seám-de seguir de um tal fato!_ ou tambem: _E como é posivel, que te-occorrese fazer isto?_ e nestes cazos, é licito pòr um, ou outro final, como melhor lhe-parecer. É porem de advertir, que quando a progunta é mui comprida, e que na longueza, perde a forsa de progunta; os omens mais doutos, nam costumam pòr-lhe no-fim, o final de interrogasam: mas se lho-poem, é no-principio, ou no-fim do-primeiro periodo, ou nam lho-poem. V.g. _Julgas tu, que á omens de tam pouca considerasam, que siguam um tal estilo, nem fasam cazo da-palavra, nem procurem ileza a sua onra, nem tenham diante dos-olhos estas circunstancias: as quais se eu nam tivese executado, totalmente me-faltaria aquela benevolencia, que certamente me-mostram, os que examinam as minhas asoens =._ Neste periodo, ou se-deve pòr ponto de interrogasam, despois de _tu_: ou, despois de _circunstancias_: ou, em nenhuma parte: vistoque o contexto mostra bem, em que sentido se-fala.

Finalmente deve-se advertir, que á outra separasam de periodo, a que chamam _Paragrafo_: o qual se-comesa, quando a materia que se-trata, se-acabou; e se-pasa a outra materia. Muitas vezes se-comesa paragrafo, quando o discurso tem sido comprido, e, por-nam-fazer confuzam, é necesario varialo. o que sucede, quando sobre a mesma coiza, alego muitas razoens, e cada uma ocupa uma meia pagina. Em tal cazo, para evitar a confuzam, e dar mais gosto, e repoizo a quem le; é justo comesar paragrafo. O que porem se-deve regular, pola prudencia de quem escreve: pois tam enfadonho é, comesar paragrafo, despois de trez folhas, como despois de trez ou quatro regras. Caiem no-primeiro destes defeitos, alguns prezados de doutos: que, ouvindo dizer, que os Antigos nam uzavam das-separasoens de capitulos; sem mais outra reflexam, fazem um longuisimo discurso, sem divizam de paragrafos: em modo tal, que se-perde a respirasam lendo-os. No-segundo, caiem muitos Escolasticos, que de cada texto fazem um paragrafo. Uma, e outra coiza se-deve evitar.

Alem das-ditas pontuasoens; inventáram os escritores, principalmente modernos, outra, a que chamam, _ponto e virgula_. e isto para variar a pontuasam, e para evitar pòr tantas virgulas seguidas, antes dos-dois pontos, nos-periodos longos. Este _ponto e virgula_, é uma pauza, maior que a virgula, e menor que os dois pontos. Poem-se, quando a orasam ja faz algum sentido; mas nam o que basta para se-intender, de que se-fala: e ainda a primeira propozisam, espera pola segunda, para se-poder intender. v. g. _Aindaque eu nam tenha, todo o dinheiro necesario, para a compra; farei o posivel, polo alcansar: para concluir de uma vez, este negocio._ No-qual periodo, quando chegamos à palavra, compra; ja temos algum sentido: e quer dizer, _que nam tem dinheiro para a compra_. mas fica o sentido imperfeito, por-cauza da-palavra _ainda_: a qual faz que eu espere, pola seguinte propozisam até _alcansar_, onde faz suficiente sentido.

Daqui fica claro, que _ponto e virgula_ tem o seu proprio lugar, despois das-prepozisoens, que comesam por-_como_, _qual_, _quanto_, _se_, _aindaque &c._ as quais introduzem aquela dependencia, que digo. Finalmente despois de qualquer prepozisam, em que aja palavras, que unam com as palavras seguintes. Especialmente se-poem, quando se-fala de coizas opostas: ou quando se-faz enumerasam de muitas partes, e se-especificam todas. v. g. _Destruia cazas, e templos; o sagrado, e profano; o seu, e o alheio, &c._ Adverte-se porem, que os periodos, os quais, sendo longos, podem receber ponto e virgula; em cazo que sejam curtos, basta que tenham virgula: por-nam fazer tam enfadonha a repetisam dos-_pontos e virgulas_. v. g. _Neste particular à duas opinioens: uma é de Cujacio; a outra seguem Joam André, e Ostiense._ parecerá a muitos, que em _Cujacio_, basta uma virgula, o que eu nam dezaprovo: outros quererám ponto e virgula. e asim é livre a cada um, fazer o que lhe-agradar. Polo contrario, se os periodos fosem mui compridos, se-deveria pòr ponto. v. g. se eu disese: _Prova-se isto com duas razoens. A primeira é, porque &c._ neste cazo se a explicasam desta primeira razam, se-estendèse até metade da-folha, ou ainda mais; no-fim, deve-se pòr ponto somente: e muitas vezes pode ser necesario, comesar a segunda razam, nam só com letra grande, mas ainda em novo paragrafo. Tambem quando se-tem posto algumas vezes, ponto e virgula; costumam os omens doutos, escrever dois pontos; aindaque o sentido nam seja completo quanto ao fato: para mostrar, que se-deve fazer maior interrusam; e descansar quem le, e quem ouve.

Isto é, o que me-ocorre advertir, neste particular da-_pontuasam_. Devo porem declarar a V. P. que esta materia, nam é ponto matematico, que nam admite mais, ou menos: antes, polo contrario, depende muito, da-vontade de quem escreve. Porque aindaque todos convenham, na-razam das-regras; quando porem decemos aos cazos particulares, e a examinar, se neste, ou naquele cazo, deve entrar virgula, ou ponto e virgula &c. acha-se muitas vezes diversidade, ainda entre os omens doutos. Eu neste particular, propuz o que vejo praticar, aos que melhor escrevem; e que se estriba, na razam das-regras: mas nam condenarei, quem se-afastar alguma vez destas advertencias, comtantoque nam se-desvie em modo, que fasa despropozitos. Eu mesmo sou o primeiro, que as-nam-sigo escrupulozamente: antes muitas vezes, em lugar de _ponto e virgula_, escrevo _virgula_: em vez de _dois pontos_, ponho _virgula e ponto_: e quando os periodos sam curtos, nam tenho às vezes dificuldade, de escrever _virgula_, em lugar de _ponto_: ou outra semelhante mudansa. O que faso quando me-parece, que com estes sinais, fica bastantemente separado o discurso, e livre de confuzam: e porque vejo, que muitos escrevem damesma sorte, e me-intenderám tambem. Esta é a principal regra, em materia de pontuasam: evitar as confuzoens, e procurar que os outros intendam, tudo quanto eu quero dizer. Devo porem dizer a V. P. que vejo muitos autores Portuguezes bem modernos, que fazem gala, de as-desprezar: e publicam obras, nas quais em uma pagina tudo sam virgulas, e apenas se-acha um ponto. Especialmente * * * e outros que V. P. bem conhece. O Conde da-Ericeira D. Francisco Xavier de Menezes tambem seguia esta doutrina: pois em algumas suas aprovasoens de livros, que tenho visto, tudo sam virgulas: desorteque ninguem o-pode ler seguidamente, porque cansa a respirasam. E se isto pode ser louvavel, eu o-deixo julgar aos dezapaixonados inteligentes.

Muitas outras miudezas, se-podiam advertir, tanto na materia de Pontuasam, como de Ortografia: mas estas ou se-acham, nas instrusoens impresas a este intento; ou, se nam se-acham, como na verdade as-nam-vemos; aprendem-se com o uzo: e quem percebe bem, as advertencias que temos dado, escreverá sem embaraso algum com perfeisam: e poderá rezolver, qualquer das-que ocorrerem. Eu nam determinei, escrever um tratado completo: mas unicamente, sugerir a V. P. o que se-acha mais bem notado, nesta materia: e o que deve ensinar um mestre, ao dicipulo, a quem explica a lingua Portugueza. Para V. P. é isto superfluo: e para os ignorantes, é ainda muito. mas eu tomo a liberdade de falar com V. P. como com um principiante, porque asim mo-tem ordenado. Somente acrecento, que isto que dise da-Pontuasam, se-deve intender, nam só no-Portuguez, mas no-Latim; e nas-mais linguas, que desta nacèram.

Concluirei esta carta lembrando a V. P., que, para facilitar este estudo à Mocidade, seria necesario, que algum omem douto, abreviáse o Dicionario do-P. Bluteau, e o-reduzise à grandeza, de um tomo em folha, ou dois em 4.^o Ninguem pode olhar para a obra do-P. Bluteau, sem ficar esmurecido, pola quantitade de volumes. Este Religiozo era douto, e infatigavel: e fez à nasam Portugueza um grande serviso; compondo um Dicionario, que ela nam tinha: e quem diser mal dele neste particular, é invejozo, ou ignorante. Mas tem alguns defeitos, que serîa necesario emendar: Era mui medrozo: e nam tinha metodo. O medo, reconhece-se em cada pagina das-suas obras. Fora maltratado por-alguns Portuguezes injustamente; e a cada paso se-queixa, e dá uma satisfasam. Os Prologos, tanto na primeira Obra, como no-Suplemento, sam insoportaveis: e apostarei, que se-nam-acha omem, de tanta paciencia, e tam mao gosto, que os-posa ler todos seguidamente: porque a cada momento, repete as mesmas coizas. E o pior é, que com dizer tanto, nam explica o que deve: pois querendo um leitor saber, o que ele faz no-Dicionario, e que razam dá da-obra; nam sabe por-onde á-de comesar. Com um só titulo dirigido ao leitor * * * compreendia todos, os que ele poem no-seu Prologo: e com um Prologo mui breve, dava razam de toda a obra. Os omens doutos, intendem mui bem as coizas: e sabem desculpar um autor, que escreve uma voluminoza obra: especialmente um que escreva um Dicionario, que seja o primeiro que aparece naquela lingua. Nam á pior trabalho que este: e nam á algum que menos paresa grande, a quem o-nam-provou, doque este. Desorteque chegou a dizer o douto Escaligero[13], que era pior este trabalho, que ser condenado às minas, como faziam os Romanos. Comque a estes, bastam poucas palavras: a os ignorantes, nam se-devem dar satisfasoens, ou digam bem, ou mal. Nem menos me-agrada o titulo da-obra, que é mui afetado, e cheio de superfluidades. Ja se-sabe que um Dicionario, compreende todas as palavras, com que se-explicam na dita lingua, todas as coizas imaginaveis. E o exemplo que ele traz de Furetiere, Moreri, Hofman, que enchèram o titulo, de semelhantes coizas, nam desculpa os seus erros: porque se-caza muito bem, que errem dois omens de diferentes Nasoens, na mesma materia.

Avulta tambem muito a obra, porque as explicasoens sam longas, e o carater é mui grande. O que tudo se-podia reduzir, a menor extensam: bastando um exemplo de um bom autor, e deitando fora tantos Latins, e citasoens superfluas. E asim, todo aquele grande Vocabulario, se-pode reduzir nas segundas-impresoens, a trez ou quatro volumes, se lhe-tirasem o que tem de superfluo: e serîa tambem mais barato, e mais util à Republica. Mas, ainda despois de tudo iso, serîa necesario, fazer um Compendio, para uzo dos-rapazes. Que é o que os Nosos tem feito, compendiando o _Vocabulario da-Crusca_, quero dizer, da-lingua Toscana, (sam trez ou quatro volumes) em dois tomos de 4^o. Mas neste Dicionario, se-deveria acautelar outra coiza, em que caio o P. Bluteau; que foi, nam distinguir as palavras boas, de algumas plebeias, e antigas. Ele ajuntou tudo: e ainda muitas palavras Latinas, que muitos Portuguezes modernos afetadamente aportuguezáram. E este é o maior defeito que eu acho, naquele Dicionario. porque nam ensina a falar bem Portuguez; como o da-nosa Crusca, que nam tem, senam o que é puro Toscano; e nota às vezes o que é _antigo_, ou _poetico &c._ Sei, que alguma diversidade se-acha: porque os nosos autores, que fazem texto, sam os que escrevèram, em um seculo determinado: e asim tudo o que é moderno, entre nós é barbaro. Polo contrario a lingua Portugueza, como á pouco tempo que comesou a aperfeisoar-se, nam pode excluir, tudo o que é moderno. Contudo, deveria o P. Bluteau, nam abrasar senam os autores, que faláram melhor. v. g. desde o fim do-seculo pasado para cá: ou encurtar mais o tempo. E ainda neses, que talvez nam seram iguais em tudo, escolher, o que é mais racionavel: e nam tudo o que aportuguezáram alguns destes, prezados de eruditos; que, por-forsa, querem introduzir, uma mixtura de Portuguez, com Latim. Temos o exemplo da-Academia Franceza, a qual no-seu Dicionario, nam poz as vozes plebeias, e antigas; mas as puras, e que oje falam os omens cultos. Aindaque, como diz o Senhor de Furetiere,[14] é justo, que se fasa um Dicionario à parte, das-vozes antigas, e baixas: paraque, por-meio dele, posamos intender, os antigos documentos. Isto fizeram muitos na lingua Latina, compondo somente Vocabularios da-inferior Latinidade, como _Vossio_, _Izidoro_, _Spelman_, _Du Cange_: o qual ultimo fez tambem outro, para o Grego inferior. E isto mesmo deveria ter feito Bluteau: pondo em um volume, as palavras boas; no-outro, as antigas &c. O certo é, que os Nosos no-Compendio da-Crusca, somente puzeram as puras: e advertîram as que sam _poeticas_, e nam tem lugar na proza. O mesmo Bluteau em certa parte[15], reconhece a necesidade deste distinto livro; e deu uma ideia dele, nos-Catalogos que traz, no-Suplemento. Mas se o dito P. o-nam-fez, porque quiz compreender, tudo o que se-acha em Portuguez, ou por-outro motivo; no-Compendio porem do-dito Dicionario, nam se-deviam escrever, senam palavras puras e boas, e segundo a pronuncia mais suave. E.g. nam escrever _Devaçam_, porque o dise o Vieira: mostrando a analogia, que se-deve dizer _Devosam_: muito mais, porque asim o-pronunciam os doutos, e é mais agradavel. O mesmo digo, de _Outo &c._ porque escrevendo muitos omens doutos comumente, _Oitenta_; nam acho que tenham boa disparidade, para, no-mesmo livro, escreverem, _Outo_: como V. P. verá em muitos livros modernos. E asim a pronuncia melhor, sendo apadrinhada por-omens doutos, deve ser preferida. Tambem se-devia no-dito cazo, emendar a Ortografia do-Bluteau, que é variante: e establecer uma certa, e sempre a melhor. Este Compendio seria mui necesario. os que quizesem majores noticias, podiam procurálas no-Vocabulario grande. Isto é o que me-ocorre. V. P. conserve-me a sua benevolencia, e rogue a Deus por-mim nos-seus sacrificios. Deus Guarde &c.

[Illustração]

NOTAS DE RODAPÉ:

[3] _Sueton. de Cl. Rhet. C. I._

[4] _Auditis oratoribus Græcis, cognitisque eorum litteris, adhibitisque doctoribus, incredibili quodam nostri homines dicendi studio flagraverunt. Cicero l. I. de Orat. num. XIV._

[5] _A. Gel. l. I. c. x._

[6] _O Bluteau no-Prologo do-Suplemento, falando com o leitor Pseudo-critico, confesa, que muitos omens doutos, nam dobram as letras no-Portuguez: aindaque condena, que muitos nam observem, a analogia e derivasam do-Latim, e Grego. que é a costumada cantilena dos-Velhos. Reconhece porem, que seria necesario, reformar a Ortografia Portugueza. Mas, conhecendo isto, adotou no-seu Dicionario, todas as variasoens de Ortografia dos-autores; como confesa no-Prologo do-Suplemento. O que nam tem desculpa em um omem, que estudou trinta anos, o argumento do-seu livro._

[7] _S. Aug. l. I. confess. C. XVIII._ Catullus Carm. 85.

[8] _No livro, Orator ad. M. Brutum._

[9] _Na 6. conferencia literaria aos 18 de Maio de &c. em caza do-Conde da-Ericeira_.

[10] _Impetratum est a consuetudine, ut peccare suavitatis caussa liceret._ & pomeridianas quadrigas, _quam_ postmeridianas, _libentius dixerim_: & mehercule, _quam_ mehercules. Non scire _quidem_, _barbarum jam videtur_: nescire _dulcius_. _Ipsum_ meridiem _cur non_ medidiem? _Credo, quod erat insuavius. Cicero. Orator. ad M. B. num. 47._ Et infra == _Consule veritatem, reprehendet: refer ad aures, probabunt. quære, cur? ita se dicent juvari. voluptati autem aurium morigerari debet oratio._

[11] _Quintil. l. I.c.I. Varro de lingua L. l.6. & alii._

[12] _Marius Victorinus Aff. de Ortographia._

[13]

_Si quem dira manet sententia Judicis olim Damnatum aerumnis, suppliciisque caput: Hunc neque fabrili lassent ergastula massa, Nec rigidas vexent fossa metalla manus._ Lexica _contexat, nam cetera quid morer? omnes Pœnarum facies hic labor unus habet._ Sylvarum Carm. 39.

[14] _Pref. du Dicionaire Universel._

[15] _Prozas Academic. fol. 26._

[Illustração]

CARTA SEGUNDA.

SUMARIO.

_Danos que resultam da-Gramatica Latina, que comumente se-ensina. Motivos porque nas-escolas de Portugal, nam se-melhora de metodo. Nova ideia de uma Gramatica Latina facilisima, com que, em um ano, se-pode aprender fundamentalmente Gramatica &c._