Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)
Part 6
Mas nam pára a qui a reforma: deve-se dar um paso mais adiante, e acrecentar muita coiza, em que é defeitoza a lingua Portugueza. Consiste a primeira, em adotar algumas palavras Estrangeiras, para explicar melhor o que queremos. Nam acho em Portugal palavra, que explique a idea que formam os nosos Italianos, (e ainda os Francezes) quando proferem esta palavra, _Penso_: dizendo, _Um omem que pensa bem: Que pensa mal &c._ Dizer, _Ajuizar_, nam explica: porque ajuizar é uma especie de _Pensar_; mas nam compreende tudo quanto diz, _Pensar_. Nem menos serve, _Considerar_: porque considerar é o mesmo que _Meditar_, _Examinar_ uma materia; e _Pensar_ diz mais. Um meu amigo, para dezatar este nó, servio-se de _Pensamentear_: mas parece afetado. É mais proprio e natural, servir-se do-Verbo _Pensar_, que compreende todas as operasoens do-intendimento. Onde, diremos que um omem _Pensa bem_, quando se-serve de todas as qualidades da-mente ou intendimento, como deve ser.
A mesma dificuldade pode nacer em outras palavras. Aqui confundem _Iuizo_, e _Intendimento_: sendo coizas muito diferentes. porque cada nome destes distingue uma particular faculdade da-alma, esta de intender, aquela de julgar. A estas duas unem outras duas, _Ingenho_, e _Talento_: as quais nam só sam diferentes das-ditas, mas entre si. _Ingenho_, somente explica a facilidade que temos, para unir diferentes ideias, de um modo que eleve. _Talento_, significa a capacidade tanto de intender, como de julgar, e discorrer. Serîa bom, que se-distinguisem estes significados, e se-explicasem aos rapazes, para nam confundir as palavras. Parece-me, que para explicar aquilo, a que os Latinos chamam, _Mens_, _Intelligentia_, e algumas vezes _Intellectus_, se-podia adotar em Portugal a palavra _Mente_, como fazem os nosos: a qual explica melhor tudo. O uzo tem introduzido, que _Intendimento_ seja sinonimo de _Mente_.
A estas se-podiam ajuntar outras muitas palavras Estrangeiras, que explicam melhor o que se-quer dizer; principalmente quando se-trata de Artes e Ciencias: cujos termos é necesario uzar, mas com cautela. Nam digo, que se-devam adotar cem mil termos Latinos, que no-Portuguez sam inutis: antes condeno isto muito em bastantes Portuguezes, que enchem os seus escritos, de mil palavras Latinas sem tom nem som, somente para parecerem eruditos. Este é aquele vicio dos-pedantes ou ignorantes, a que os nosos chamam, _Pedanteria_. O que digo é, que nam avendo termo proprio em Portuguez, se-pode, e deve buscar fóra: e muitas vezes pode-se buscar fóra, nam tanto por-preciza necesidade, quanto para maior ornato da-lingua: aqual é justo que nam seja tam pobre, que nam tenha algumas ocazioens dois ou trez sinonimos, para explicar as mesmas coizas: outras vezes para adosar a pronuncia aspera de algumas vozes antiquadas: e fazer seja mais bela, e mais suave a lingua materna. Mas aqui é que está o juízo, em sabelos adotar sem afetasam. Porei um, ou dois exemplos. Em Portugal nam á nome proprio, para nomiar aquele criado de libré, que acompanha seu amo a pé vizinho à carruagem, ou cavalo. Os nosos Italianos explicam isto com uma palavra, _Staffiere_, ou _Palafreniere_. Porque nam uzaremos destes termos em Portugal? Chamamos aqui _Letrado_, ao que advoga nas cauzas: chamamos aos omens doutos, _Letrados_. Mas isto é uma impropriedade. _Letrado_, _Douto_, _Erudito_, _Sabio_, sam sinonimos, mas de significasam mui generica. Aos que advogam, deviam chamar _Advogados_: que é o seu nome proprio, ainda na lingua Latina, como diz Quintiliano, e Asconio: _Advocatus_, i. e. _Patronus_, _Caussidicus_. Adotáram os Portuguezes estas palavras, _Berlinda_, _Paquebote_, _Estufa_, _Sege &c._ para distinguir as diferentes sortes de carruagens de que uzam: mas podiam adotar muitas mais: avendo aqui outras carruagens, que nam tem nome proprio, que em outras partes o-tem. As artes Liberais, Ciencias &c. tratando-se em Portuguez, devem ter os seus nomes Estrangeiros, mas aportuguezados. Finalmente, se eu ouvese de escrever tudo, o que me-ocorre nesta materia, faria um groso volume: e asim contento-me, de apontar estes exemplos. O que encomendo muito é, que com este pretexto, nam nos-encham a lingua de Latinismos, Francezismos, e Italianismos, como entre outros fez Inacio Garcez, nas Notas ao Camoens.
Serîa mui util, que os omens doutos introduzisem uma terminasam certa, em todos os _Patronimicos_ de Provincias &c. no-que falta muito a lingua Portugueza. A um omem das-Provincias, chamam _Algarvio_, a outro _Alemtejam_, a outro _Minhoto_, _Beiram &c._ E ainda estes nomes nam sam geralmente, e benignamente recebidos; porque se-reputam injuria. Mas o pior é, quando pasamos aos Patronimicos de Cidades; comumente nam se-acham: mas dizem: _Um omem d’Evora: Um d’Elvas &c._ Neste cazo parece licito, fazer nomes novos, e dizer, _Evorense_, ou _Eborense_, _Coimbrense_, _Portuense &c._ E o mesmo dos-outros antecedentes: os quais podem terminar-se em duas maneiras: v.g. _Algarviense_, ou, com outra dezinencia Romana, _Algarviano_: _Alemtejense_, _Alentejano_: _Beirense_, _Beirano &c._ Nos-nomes de Provincias Ultramarinas, deve-se observar o mesmo. v. g. _Brazileense &c. Insolense_, _Indiano &c._
Em todo o cazo porem, tanto na introdusam de nomes novos, como na pronuncia dos-antigos, sempre se-deve cuidar, em adosar a pronuncia, e fazela, quanto mais puder ser, facil. Nisto pois á muito que condenar em Portugal, principalmente nestes modernos eruditos; que, querendo parecer elegantes, e mui versados na sua lingua, e origens dela; dizem coizas, que é uma piedade ouvilos. V.g. Escrevem, _Volumozo_: sendo _Voluminozo_ muito mais suave, e mais chegado à analogia Latina. Dizem, _Exceptas_: sendo mais natural _Excetuadas_, que vem do-Verbo _Excetuar_, que é mui _Portuguez_: quando polo contrario nam acho nela, o verbo _Exceptar_. Dizem, _Eregia_: que ofende os ouvidos com a pronuncia: sendo melhor _Erezia_, que é mais doce e nem por-iso menos conforme ao Latim. Dizem, _Pesoa comum_: que é uma verdadeira ridicularia: porque aindaque a palavra _comum_, signifique coiza de muitos; deve ter as suas duas terminasoens em Portuguez, asimcomo tem no-Latim, em que explica diferentemente o _Neutro_: e o superlativo _Communissimus_, tem trez mui redondas. Onde deve dizer-se, _Coiza_, _ou pesoa comua &c._ Finalmente, (deixando por-agora outras reformas destes escrupulozos) nóto que escrevem _Pai_, _Mai_, ou com _y_, ou com _i_. Quanto ao primeiro concordamos: mas nam no-segundo: porque na pronuncia ouve-se um _e_, e _n_ mui redondo: e asim deve escrever-se _Maen_, porque asim pronunciam os omens de melhor doutrina. Nem vale o dizer, que com isto se-conformam mais, com outras semelhantes palavras Portuguezas: porque, como ja dise, o uzo, fundado sobre a pronuncia mais doce, faz lei neste particular[10]. Tambem eles dizem _Catam_, _Varram &c._ e no-mesmo tempo dizem _Cicero_, _Pollio &c._ e nam _Ciceram_, _Polliam &c._ sendo a mesma razam. No-mesmo Latim, ou Italiano vemos, que uma palavra se-pronuncîa de um modo, e outra, que vem damesma origem, diferentemente. o que V. P. pode ver nos-livros de Cicero, que apontei asima, que traz exemplos de tudo: por-nam citar agora exemplos vulgares, que sam muitos. Asim asento, que, com esta regra diante dos-olhos, é que se-deve emendar e reformar a lingua.
Mas o que me-dá mais vontade de rir é, ver as cautelas que praticam, para dizerem, _Porco_. Uns dizem, o _Gado mais asqueroso_: outros dizem, _Carne suina_: e louvam muito isto em alguns antigos escritores. Tudo puerilidades. _Porco_ nam é palavra obcena: dizem-na os Latinos, e os nosos Italianos diante do-Papa. Antes creio que _asquerozo_, traz a memoria nam só coiza _suja_, como o _porco_, mas coiza que volta o estomago. Estas delicadas orelhas pronunciam, _sugidade_, _escremento_, _lesmas_, _ratos_, _persevejos_, _piolhos_, _pulgas_, e outras coizas imundisimas sem dificuldade: e acham-na grande em pronunciar, _Porco_. Que lhe-parce a V. P. a esquipasam?
Finalmente devo advertir a V. P. que estes seus nacionais, ainda falando, pronunciam mal muitas letras no-meio; mas principalmente nos-fins das-disoens. V.g. _e_ final, pronunciam como _i_: como em _De-me_, _Pos-me &c._ todo o _o_ final, acabam em _u_: v.g. em _Tempo_, _Como_, _Buxo &c._ cujos nomes quem quer pronunciar à Portugueza, deve acabar em _u_. todo o _m_ final, e no-meio, como n. todo o _e_ antes de _a_ no-meio da-disam, pronunciam como se-fose um tritongo. v.g. _Cea_, _Vea_: que pronunciam _Ceia_, _Veia_: namobstanteque na escritura, comumente nam ponham o _i_. E nisto merecem rizo alguns Portuguezes, que nas suas Ortografias impresas ensinam, que na lingua Portugueza se-devem pronunciar algumas letras, aindaque nam estejam escritas: e que umas letras devem pronunciar-se por-outras; v.g. achando-se _Outo Dous &c._ se-deve pronunciar o _u_, como _i_. Isto, como digo, é querer confirmar os rapazes, nos-seus erros. Deveriam polo contrario dizer, que, pronunciando-se o _i_ em _Cea_, se-deva escrever tambem com _i_, para se-conformar com a pronuncia: Muito mais porque eles escrevem _Meio_, _Veio_, _Correio_ com _i_, e a mesma razam milita, nos-que apontamos, e semelhantes. Damesma sorte achando-se escrito _Outo_ com _u_, deveriam ensinar aos rapazes, a conformar-se com a escritura, se intendem que é arrezoada: se porem intendem, como na verdade é, que parece aspera e dura; deviam dizer, que se-escrevèse com _i_; e nam enganar os rapazes na pronuncia.
E na verdade nam poso intender, por-que razam, pronunciando os omens doutos nos-seus discursos, _Dois_, _Oito_, _Oitenta_, _Toiros_, _Coizas &c._ devam na escritura mudalo em _u_; se nam é por-se-conformar com quatro velhos impertinentes, que intendem e julgam mal das-coizas. Este é o mesmo cazo de _Optumus_, _Maxumus_, _Dividundo_, _Faciundo_, e outros semelhantes dos-Latinos. Cicero, Cezar, Nepote, e outros omens cultos, nam puderam sofrer aquela pronuncia; e convertèram aquele _u_ em _i_, para fazer suave a lingua: Salustio, que nos-ultimos tempos o-quiz conservar, foi criticado: e nem menos agradou _Varram_, que era o protetor das-antiguidades. Onde deve isto tambem ser permetido na lingua Portugueza, que filha damesma maen, tem as mesmas qualidades. Parece coiza galante, que estes omens, em vez de facilitar aos Estrangeiros, a pronuncia da-sua lingua; só busquem meios de aumentar, a aspereza dela. Certamente que o Camoens no-XVI. seculo, apurou muito a sua lingua, servindo-se da-Italiana &c. e isto devemos nós tambem fazer, emendando os erros de Camoens, nam só no-que digo; mas em outras coizas, em que ele pecou, e eu podia advertir. Concluo dizendo, que na lingua Portugueza, nam só se-devem tirar as letras superfluas, onde nam se-pronunciam; mas escrever outras, que se-pronunciam, e até aqui se-deixavam. Onde, todas as vezes que se-pronuncîa o _i_ entre _e_, e _a_; deve-se escrever. V.g. _Cadeia_, _Ideia_, _Ceia_, _Veia &c._ vistoque os Portuguezes escrevem comumente, _Meia de calsar_, _meia duzia &c._ e a razam é a mesma em ambas as partes. Por-esta mesma razam se-deve escrever em todos os Verbos, como _Leia_, _Paseia &c._ porque se os-pronunciasem como _Ceo_, _Plebeo_, _Chapeo &c._ neste cazo era justo que lho-tirasem: mas levando o _i_ na-pronuncia, tambem o-deve ter na escritura. Desta sorte somente, se-poderá introduzir uma Ortografia certa, e geral, que nam necesite dar diversas razoens em todas as palavras. Repare V. P. que eles escrevem _Aia_, _Maia &c._ com _i_, porque o som desta vogal é claro: e porque nam faram o mesmo com outros nomes, que sam puros Portuguezes?
Acho alem disto omens, que aconselham, se-tire de _Arrecadar_, _Arrematar &c._ o _arre_; e se-diga, _recadar_, _rematar_. Sam deste parecer o Bluteau, e algum outro. Mas estas orelhas tam delicadas e escrupulozas, que se-ofendem com tais minucias; nam tem dificuldade, de se-servirem em todas as paginas destes termos, _Com noticia_; _&c._ o que abunda no-Bluteau: ou, como diz o Vieira, _Por razam_, e outras tais. Parece-me, que estas cacafonias menos sofriveis, se-deveriam evitar; deixando as outras que nada ofendem. Este metodo de reformar a Ortografia, era melhor que se-nam-impremise.
Ora deste dano de pronunciar mal o Portuguez, de que até aqui fizemos mensam; rezulta outro, de conservar no-Latim os mesmos erros. onde serîa mui util, que se-emendasem quanto pudesem. Sei, que isto tem sua dificuldade, porque os ignorantes sam muitos, e pronunciam mal: mas Roma nam se-fez em um dia. Seja V. P. um dos-primeiros a dar exemplo: persuada isto mesmo aos seus amigos: que os outros os-imitarám. Deste modo introduzirám em Portugal uma Ortografia, quanto mais poder ser, constante; o que até aqui nam tem avido: e asim será mais bela, e facil a pronuncia; e mais armoniozos os versos Portuguezes.
Isto me-parece basta advertir, sobre a Ortografia Portugueza, visto nam fazer tratado dela. muito mais, porque com estas poucas regras, se-pode responder, às outras dificuldades que ocorrerám. Algumas observasoens de menor momento, podem-se ver, nas Ortografias Portuguezas: tendo a advertencia, de nam se-deixar enganar, das-regras que dam, porque comumente sam mui más. O P. Bento Pereira, que cuido foi dos-primeiros que escrevèram nesta materia, dá muito más regras; e só proprias para destruir, o que cada um sabe. O Barreto, o Leam, o Vera, tem algumas coizas boas, entre outras muito más. Na mesma clase ponho, o que diz o P. Argote, nas suas Regras Portuguezas; e algum outro. Tais autores copiaram-se fielmente uns a outros, sem examinarem a materia.
Sei que alguns, dam em razam do-que escrevem, acharem-no asim escrito, nos-antigos Portuguezes. Mas esta razam, é de caboesquadra. Porque tratando-se de linguas vivas, que nam estavam purgadas polo pasado, mas que na nosa idade, se-vam reduzindo à perfeisam; e desta, da-qual no-noso tempo, apareceo o primeiro Vocabulario; nam devemos estar, polo que diseram os Velhos: mas examinar, se á razam, para se-dizer asim. Observe V. P. que os que asim respondem, contrareiam-se na pratica: porque nam uzam daquelas palavras toscas, que ainda lemos nas leis antigas, nos-testamentos, doasoens, e outros documentos, que deixáram os Antigos. Serîa uma ignorancia manifesta, e afetasam indesculpavel, falar oje com muitas palavras, de que uzáram os antigos Portuguezes. E isto, nam por-outra razam, senam porque a lingua se-foi purgando, e os omens mais capazes intendèram, que se-devia falar de outra maneira. E se isto se-pratîca, com inteiras palavras, porque o-nam-praticaremos, com melhor pronuncia?
Alem disto, é ja coiza muito antiga, que o uzo e juizo dos-omens doutos, e de boa eleisam, decida neste particular. E como ajam muitos Portuguezes inteligentes, que escrevem polo contrario; e asinam boa razam do-que dizem; nam tem lugar nisto, uma prescrisam sem fundamento. No-tempo de Cicero, a lingua Romana tinha de idade, polo menos, uns setecentos anos; (contando somente da-fundasam de Roma: porque sabemos, que a lingua do-Latio é muito mais antiga) e contudo ele, e outros omens doutos, a-purgáram muito bem. Observe V. P. os fragmentos que temos, de _Livio Andronico_, _Enio_, _Estacio Cecilio_, _Pacuvio_ &c. e as obras de _Catam_ o velho, de _Plauto_; e achará, palavras dezuzadas, e mui toscas; e, em algumas obras, uma compozisam languida, e sem grasa. Prosiga mais para baixo, examine as obras de _Terencio_, _Lucrecio_, _Varram_, _Catúlo_, _Salustio_ &c. achará neles a lingua mais mudada, e palavras mais polidas. Desa finalmente à ultima fineza da-idade de oiro da-Latinidade, quero dizer, aos que melhor faláram, no-seculo de Augusto; e sempre lhe-crecerá a admirasam, porque crece a mudansa. _Pacuvio_, e _Estacio_ tem tanta semelhansa com _Cicero_, _Cezar_, _Cornelio Nepote_, _Virgilio_, _Oracio_ &c. como o dia com a noite. naqueles, tudo é inculto: e nestes, tudo é polido, palavras, fraze, e metodo. E mais todos entram na idade de oiro! O mesmo Cicero, em alguns seus tratados, adverte, quanto trabalhára neste particular, para apurar a lingua. Oracio tambem adverte, que o bom uzo, é o que emenda as linguas. Finalmente advertiram os Gramaticos, e Oradores de melhor nome, que a Ortografia, está sugeita ao costume[11]: e um douto Latino, deixou escrito nesta materia: _Antiquitatem posterior consuetudo vicit_[12]. E nem somente encontrará V. P. palavras mudadas, mas novas. Os Romanos nam tinham palavras para tudo: e asim foi necesario tomalas prestadas: principalmente em materias de Ciencias, e Artes: as quais adotáram como Latinas. Este é o privilegio das linguas vivas. Mas certamente nam conhece este privilegio, quem se-escandaliza, como vi alguns, de que se-recebam palavras estrangeiras em Portugal. Se os Portuguezes as-nam-tem, que mal fazem, em pedilas aos outros? Nam aprovo porem, o que muitos fazem, servir-se sem tom nem som, de vozes estrangeiras, e palavras puramente Latinas, tendo outras Portuguezas tam boas. O que observo em muitos, que prezumem de Criticos, e Poetas: especialmente no-dito Inacio Garcez Ferreira. O que digo é, que nam se-achando proprias, nam é delito, procuralas em outras linguas; ou fazelas novas: e que, quando as proprias sam asperas, se-devem adosar.
Este mesmo uzo, de purgar as linguas, melhorando na boa pronuncia, e enriquecelas com palavras novas, quando á necesidade; está geralmente introduzido. Achei livros, ainda impresos, Inglezes, Francezes, Espanhoes, e Italianos, com infinitas palavras, que ja oje nam estam em uzo, e com um estilo de fraze pouco uzada. e lembro-me agora, ter visto á anos, um livro de Genealogias de Flandres, escrito polos anos de Cristo 1400., em um Francez tam embrulhado, que o-tinham imprimido, com a versam de Francez moderno a lado: sem o qual socorro, nam era facil intendelo. Os nosos antigos Poetas tem palavras, que oje se-nam-recebem. Em _Dante_, e _Petrarca_, acham-se coizas nam mui finas; e tambem em outros. Os Modernos de todas estas Nasoens, melhoráram sobre os Antigos, e serviram-se do-seu direito, para emendar a lingua. os mesmos Portuguezes o-fizeram. Finalmente isto é tam claro, que me-envergonho de o-provar. E com efeito, a estes que asim respondem, ou asim argumentam, seria mais acertado, nam-lhe-responder. É fazer-lhe muito favor mostrar, que tais argumentos tem resposta. Mas eu o-faso aqui, porque a amizade de V.P. me-obriga a obedecelo: e escrevo isto, mais para satisfazer ò seu dezejo, doque à materia.
A outra razam, que outros afinam, para se-desculparem dos-seus erros é, que umas vezes dobram as letras, para mostrarem donde se derivam: outras, para a significasam, quero dizer, os diversos tempos: E asim escrevem _Escritto_ com dois _tt_, para mostrar, que vem de _Scriptus_: e _Amasse_ com dois _ss_, para o-distinguir do-prezente _Ama-se_. Esta razam achará V. P. em alguns livros impresos. Mas, com todo o respeito que devo, a quem uza dela, digo, que nada vale. A maior parte das-palavras Portuguezas, tem origem Latina: o que até as criansas sabem: quizera pois que me-disesem, porque se-devem dobrar em vinte, ou trinta palavras, e nam nas mais? Alem diso se V. P. observa, muitas palavras Portuguezas, achará, que nam só tem origem, mas sam puras Latinas. V.g. _Aplaudo_, _Aplico &c._ e nestas será tambem necesario dobrar os _pp_, e escrever trez consoantes seguidas, como no-Latim. Será tambem necesario pòr o _s_, antes de _Ciencia_. e finalmente comesar muitas disoens, por-duas consoantes, _mn_, _pn_, _sp_, _ps_: porque tudo isto á no Latim. O _c_ antes de _t_, tambem se-deve pòr, em muitas palavras, como em _Benedicto_, _Doctor_, &c. E nam sei, se, os que seguem o dito parecer, admitirám todos estes acrecimos: o que nem menos o Italiano, que se-preza de filho primogenito do-Latim, admite em tudo. Crece o argumento se observamos, que o Portuguez tem palavras Arabias, Goticas, Inglezas, Tudescas &c. o que suposto, será necesario em cadauma, pòr a sua diferensa original: ou ao menos nas Latinas, para as-nam-confundir com as outras. Finalmente se a tal razam valese, nam deveria quem uza dela; pòr _h_, em _é_ verbo, e outros destes: porque na sua origem nam o-tem.
Mas, deixando outras observasoens, com que podia provar, a insufisiencia das-ditas razoens; darei só uma, que prova por-todas: e esta especialmente serve, contra aqueles Portuguezes que dizem, que se-devem dobrar muitas letras, porque se-pronunciam dobradas; e expresamente se-ouvem os dois _mm_, em _comum_, e outras semelhantes. Digo, que para responder a estes, basta citar-lhe o exemplo, da-lingua Italiana. Nam vi ainda Portuguez algum (nam falo dos-que pasáram a Italia até a idade de 7 ou 8 anos: porque estes perdèram a sua lîngua, e falam o Italiano, como lingua propria) por-mais estudiozo, e diligente que fose, que aprendèse a pronuncia, principalmente Toscana, ou Romana: em que expresamente se-pronunciam as duas letras consoantes: todos as-pronunciam como una simplez. V. g. Distinguem os nosos _Capello_, que significa _Cabelo_, de _Cappello_, que significa _Chapeo_; com pronunciar dois _pp_, e dois _ll_ no-2. Nenhum Portuguez o-chega a distinguir: e por-iso sam logo conhecidos, por-Estrangeiros. O mesmo digo em todas as outras dobradas: O mais que vi foi, pronunciar os dois _zz_, v.g. em _Palazzo_, _Ragazzo_: mas isto com muito esforso, e pola razam, de que se-pronunciam diferentemente: quero dizer, que os dois _zz_, pronunciam-se como _ds_: que, se tivesem soido igual, nam os-pronunciariam. Esta experiencia constante mostra, que é falso dizer, que os Portuguezes, na-sua pronuncia natural, e sem fazer um grande esforso, pronunciem as dobradas. Do-que se-segue, que sam inutis as tais letras. E em tal cazo entra a minha regra, que as letras inutis, se-devem desterrar, da-lingua Portugueza.
Sobre a pontuasam, tenho pouco que advertir a V. P. É claro, que a _Virgula_ foi inventada, para denotar a interrusam que se-faz, quando se-toma a respirasam: e para dar alguma distinsam ao discurso, e impedir a equivocasam nele. Tem seu proprio lugar, quando se fazem distinsoens de Nomes, ou de outras palavras, que dependem do-mesmo Verbo, e se-unem em uma propozisam. v. g. _Pedro foi soldado, capitam, coronel, e chegou a ser general_. Uza-se tambem dela, antes da-Conjunsam copulativa, e adversativa. v.g. _Pedro, e Paulo partîram: Nem Pedro, nem Paulo partio_. Mas nam se deve uzar, quando a conjunsam está entre sinonimos: v. g. _Antonio tem eloquencia e facundia. Pedro tem grande animo e valor._ Porem muito bem se-uza entre propozisoens, que signifiquem o mesmo; a que podemos chamar sinonimas. v.g. _Cezar subjogou todo o imperio Romano, e com a serie das-suas vitorias conseguio, que os Governadores, o-reconhecesem soberano._ aindaque entre estas, sendo longas, podese escrever ponto e virgula, ou dois pontos.
Utilmente se-uza da-virgula, para distinguir e fazer mais claro o discurso: o que se-faz em trez cazos. I. separando as propozisoens, regidas pola mesma pesoa, ou coiza. v.g. _Umas vezes ri, outras chora. Tomou uma lansa, e lhe-atravesou o peito._ II. interrompendo o sentido, com outras palavras. v. g. _Deus, autor do-mundo, é pai de mizericordia; e tem providencia das-criaturas_; mas quando a interrusam é comprida, é melhor pór-lhe ponto e virgula; como abaixo diremos. III. separando aquelas propozisoens, emque a segunda, é objeto da-primeira. v.g. _Dezejo ver, como sucederá o negocio. Quererá Deus, que iso nam se-verifique._
Finalmente se às vezes nam se-poem virgula, pode nacer confuzam no-discurso. v. g. _Cuidando na minha aflisam, e ocupado neste pensamento, confuzo saî de caza._ se nam ouvése virgula, em _pensamento_, podia unir-se com _confuzo_, e cauzar nova confuzam. Mas nisto das-virgulas, é necesario ter muito cuidado, de nam ser excesivo: como fazem alguns, prezados de doutos, que em cada palavra poem virgula. o exceso, e a falta igualmente se-devem evitar.