Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Part 5

Chapter 53,383 wordsPublic domain

Diz Alvaro Ferreira Vera, que nenhuma disam Portugueza, deve acabar em _x_. Muitos porem acabam em _x_ algumas palavras, e entre elas, _Felix_, _Simplex_ _&c._ O que eu sei é, que a pronuncia Portugueza acaba em _x_, todas as palavras que acabam em _s_: quero dizer, que todo o _s_ final pronunciam como _x_. de que nam quero outra prova mais, que cada um observe, como pronuncia o _s_ final; e que diferensa tem do-_s_, que pronunciam no-meio das-disoens. O que suposto, se seja mais util, acabar em _x_, o que se-pronuncia como _x_, ou pronunciar diferentemente os _ss_ finais; eu o-deixo considerar a V. P. Mas deixemos o _s_, na sua pose: observo, que nam só o _s_ final se-pronuncîa como _x_, mas também o _z_ final: o que V. P. pode ver em, _Diz_, _Luiz_, _Fiz_ _&c._ E daqui cuido que naceo a facilidade, de pòr o _z_, em lugar de _s_ final, naquelas vozes de que se-formam outras: como, _Diz_, _dizes_; _Faz_, _fazes_; para por-este meio fazer os plurais, somente com acrecentar _es_. O que eu nam condeno, mas antes aprovo, e pratîco com o exemplo, e com a razam: e cuido asim se-deve fazer. Nesta letra é digno de atensam, o demaziado escrupulo de alguns, que magistralmente decidem, que o _x_ tem diferente pronuncia do-_ch_, antes de _e_, ou _i_: e que _é_ erro dizer, _Xapeo_; mas que se-deve pronunciar, _Chapeo_, carregando muito no-_ch_, para o-distinguir do _x_: e advertem, que é erro da-pronuncia da-Estremadura, pronunciar o _ch_, como _x_. Mas, sem fazer cazo da-decizam destes Senhores, julgo, que devemos continuar, na pronuncia da-Estremadura. Nam digo, que na escritura convertamos o _ch_, em _x_: deixo as coizas como se-acham: só digo, que na pronuncia, nam á diferensa entre uma, e outra letra. Em materia de pronuncia, sempre se-devem preferir, os que sam mais cultos e falam bem na Estremadura, que todos os das-outras Provincias juntas. Ora é certo, que os ditos pronunciam docemente como um _x_: e nem só eles, mas muitisimos de outras Provincias, tem a mesma pronuncia. Somente alguma diversidade achei nos-Beirenses, que batem mais o dito _c_, encostando-se à pronuncia Romana do-_c_. Mas seja como for, estas nam sam razoens, para persuadir um omem, a que pronuncie o dito _ch_, diferentemente do-_x_: quando a pronuncia comua está a seu favor: a qual por-iso mesmo que é mais suave, deve ser preferida à outra. E saiba V. P. que notei outra coiza, e vem aser, que os que querem pronunciar o _ch_, nam como _x_, esforsam-se desorte, que, na violencia comque pronunciam, mostram bem, que nam é esa a sua pronuncia. O dizer, que se-devem distinguir na pronuncia, nem menos persuade: porque eles mesmos admitem que _s_, e _c_, antes de _e_, e _i_, pronunciam-se da-mesma sorte: onde nam tem que se-escandalizar. E asim o dizerem eles, _é erro_, nam faz forsa: devemos responder-lhe, que eles sam os que erram. Advirto porem, que no-meio das-disoens introduzio o uzo, nam pronunciar o _x_, como no-principio; mas segundo o estilo Latino, como se fose um cs brando, tocando ligeiramente o _c_: v. g. em _Reflexam_, _Conexam_ _&c._ porque asim é mais suave. mas _Paixam_, ainda se-conserva em toda a sua forsa; e nam sei qual outro.

O _Y_ tem tantos apaixonados, principalmente entre os modernos Portuguezes, que quazi abuzam dele: e acham-se livros, em que sam mais os _yy_, que os _ii_: especialmente o Curvo na sua _Atalaia da-Vida_, e alguns outros. O Bluteau, seguindo a Bento Pereira, diz, que se-deve admetir nas palavras, para mostrar a origem remota delas, principalmente do-Grego &c. Como se sem esta noticia, nam pudesemos saber Portuguez! Tomára porem que me-disese, se _Meio_, _Cuidado_, _Saia_ _&c._ em que poem o tal _y_, tem alguma analogia com a origem. Outros dam outras razoens, que nam merecem reflexam, nem resposta: O certo é, que esta vogal antigamente valia o mesmo, que o _u_, ou tinha um soido mais semelhante a _u_, que a _i_. onde se a-quizer-mos tomar, no-seu antigo vigor, faremos uma voz desemelhante, à que queremos pronunciar: e se acazo deve valer um _i_ simplez, tomára que me-disesem, por-qual razam a-poem, onde nam é necesaria. Daqui vem, que é erro escrever, _Meyo_, _Ley_, _Hey_, _Rey_ _&c._ tudo isto se-deve escrever sem y, porque nam sam nomes Gregos, mas puros Portuguezes. Onde nam só os Portuguezes, mas os mesmos nomes Gregos, quando estam bem aportuguezados, como _Idropezia_, _Ulizes_ _&c._ se-devem escrever sem y. Confeso, que nam pude sofrer o Bluteau, o qual, seguindo ao Pereira, quer, que a vogal _i_ nam seja suficiente, para fazer ditongo com _a_, dizendo, _Pai_, _Dai_, _&c._ mas que seja de necesidade pòr o _y_, para o ditongo. Este parecer nam necesita de confutasam: pois quemquer conhece, que com _ai_, se-pronuncîa, da-mesma sorte que _ay_: onde o uzo serve de resposta; e nam temos necesidade do-_y_, para fazer o mesmo, que fazemos com o _i_.

Paso daqui ao Z, aquela letra desgrasada, que teve a infelicidade de dezagradar, à maior parte dos-escritores Portuguezes deste seculo: os quais nam só a-desprezáram, para introduzir em seu lugar o _s_; mas alguns deles com decreto asentáram, que se-devia desterrar do-meio das-disoens, e prover o seu lugar no-_s_. Estes Senhores escrevem quazi tudo com _s_. Achará V. P. em alguns dos-bem modernos * * * _Cezar_, _Fazer_, _Quizeram_, _Miudeza_, _Reduzir_, _Fazenda_ &c. tudo escrito com _s_. Entre eles achei um, de mui boa fama, que em uma orasam * * escreve, _Alteza_, _Solenizado_ com _z_: e pouco abaixo, _Usurpáram_, _Lisonja_ com _s_. poem _Riqueza_, e logo _Luminoso_, _Profusam_. poem _Fazem_, e logo _Religioso_. Emfim a maior parte destes modernos doutisimos escrevem, _Alteza_, _Luzes_, e outras poucas palavras com _z_: e tudo o restante, em que devia entrar o _z_, vai com _s_. O Vieira, e outros, que nam admitem tantos _ss_, contudo em algumas disoens seguem o mesmo, e escrevem vg. _Brazil_, com _z_, e _Reside_, com _s_. Mas eu creio, que é necesaria mui pouca meditasam para conhecer, que todos estes erram. Os Portuguezes tem a pronuncia do-_z_ asperisima: que creio lhe-ficou, da-comunicasam com os Moiros, e Arabios, que abundam muito diso: e eu acho em Portugual, muitos vocabulos destas Nasoens. Onde tendo o _s_, e _z_, diferentisimas pronuncias, é erro sem desculpa, pòr o _s_, em lugar do-_z_, quando este deve ter toda a sua forsa, como no-principio, ou meio das-disoens. Dezafio todos os Portuguezes, paraque pronunciem estas palavras diferentemente, vg. _Luzes_, _e Lizonja_; _Abrazado_, e _Plauzivel_; _Riqueza_ e _Religiozo_. nam averá algum que se-atreva a dizer, que nas primeiras se-ouve _z_, e nas segundas _s_: mas em ambas as partes se-ouve um _z_ mui grande, e gordo. Sendo pois esta pronuncia particular na lingua Portugueza, acha V. P. que se-pode sofrer, desterrar todos os _zz_, para introduzir uma letra, que soa diferentemente? a isto chamo eu destruir, nam emendar, a boa Ortografia. Alem diso, eu acho em Portugal motivo, para dizer o contrario. ponhamos exemplo nestas duas palavras, _Azeite_, e _Aceite_; ou tambem, _Razam_, e _Raçam_. Ninguem dirá, que estas duas palavras soam da-mesma sorte: porque em tal cazo nam averia motivo, para as-distinguir na pronuncia. todos tambem conhecem, que o _c_, com cedilha _ç_, antes de vogal, pronuncia-se como _s_; e que por esta razam muitisimos Portuguezes indiferentemente uzam delas. Daqui pois segue-se, que se _z_, se-deve pronunciar como _s_, os ditos pares de vocabulos devem pronunciar-se da-mesma sorte. Mas sem eu perguntar isto a omens doutos, mas somente ao leigo da-cozinha de V. P. sei que me-responderá, que _Razam_, e _Raçam_, sam coizas mui diferentes: _Azeite_, e _Aceite_, nam menos: E asim nam tenho lugar de duvidar, que, pronunciando-se diferentemente, devem tambem escrever-se, com letras diferentes. Se concedem, que o _z_ se-deve conservar, em algumas vozes, como todos concedem; que razam á, para o-nam-conservar nas outras? Se dizem, que o dito _s_ se-deve pronunciar como _z_, merecem rizo quando querem pòr aquele por-este. ou deitem fóra esta letra do-alfabeto; ou escrevam-na onde deve entrar. Fazer o contrario, é destruir a pronuncia da-lingua, ou batizar de novo as letras.

Somente porei _z_ em lugar de _s_, no-fim de algumas disoens, de que se-formam outras, como asima dise: porque o uzo introduzio esta pronuncia do-_z_, semelhante ao _s_. o que suspeito que provèm de uma _Apocope_, que se-acha nas tais palavras: e que antigamente despois do-_z_ se-punha uma vogal: como á exemplo em muitas linguas, e também na Portugueza.

Lendo eu a este intento o Bluteau nos-opusculos,[9] fiquei confirmado, que poucos omens pensam bem, ainda dos-que tem bom nome. Confesa, que muitos eram de parecer, que s’escrevese _Filozofia_, sem _ph_: e que sempre se-avia de seguir a pronuncia, pois era esta a maior excelencia do-Portuguez; no-qual as letras dobradas eram inutis. Que desta opiniam era Duarte Nules de Leam, & Joam de Barros, nas suas Ortografias; e outros muitos autores, que escrevèram da-lingua. Contudo diz, que na Academia do-Ericeira se-asentára, que nem sempre se-devia escrever como a pronuncia: Mas aqueles nomes que conhecidamente encerravam origens sem corrusam, s’escrevesem como na sua etimologia, quando as letras nam fosem como a pronuncia: e asim _Coro_, e nam _Choro_: _Monarquia_, e nam _Monarchia_: E que os _zz_ s’evitasem muitas vezes, servindo-se do-_s_. Confeso a V.P. que nam pude ler isto sem rizo. Eu nunca li as obras do-_Leam_, ou _Barros_, nem me-cansei em buscalas: mas agora fico formando melhor conceito deles. Polo contrario nam sei, quais eram os votantes na dita conferencia: porem olhando para o que asentáram, formo mao conceito do-seu juizo: pois conhecendo a razam, e tendo bons autores, que os-apadrinhasem; ainda asim quizeram seguir os prejuizos e preocupasoens que mamáram, somente por-serem antigas. Isto certamente nam é emendar a Ortografia. O pior é, que o Bluteau conhecendo isto mesmo, como em algumas partes confesa, deixa-se guiar da-corrente. Asima mostrei, que _Monarchia_, deve-se escrever com _ch_, vistoque asim escrevem _Archanjo_ os contrarios &c. e nam tem divesa razam, sem cairem em uma superfluidade. Devendo pois desterrar o _ch_, é melhor servir-se de _k_; mas nunca de _q_. O mais tambem ja fica advertido.

Certamente que o dizer o Bluteau, que nos-nomes se-deve observar, a Ortografia da-derivasam, como em _Philosophia_ &c. porque de outra sorte nam se-saberám buscar nos-Dicionarios; é reflexam que merece rizo: porquanto as derivasoens, só as-procuram os doutos: e estes bem as-sabem. os ignorantes, nem asbuscam, nem necesitam de buscalas, aindaque queiram falar, e escrever puramente.

Até aqui tenho feito algumas reflexoens, principalmente sobre as coizas, que se-devem deixar: agora farei outras, sobre as que se-devem acrecentar. Nam cuide V. P. que estas sam de menor momento nesta materia: antes muitas vezes delas depende o aumento, a pureza, e elegancia da-lingua. Ponho em primeiro lugar os _Acentos_: que creio, sam indispensavelmente necesarios, para distinguir muitas palavras. Nam podemos sem eles saber, se _Amara_, é preterito, ou futuro: e damesma sorte em outras muitas palavras. Tambem para distinguir os _Nomes_, dos-_Verbos_, vg. _Pronuncia_ nome, de _Pronuncîa_ verbo. Asimque este deve ser todo o cuidado dos-mestres: que devem advertir aos discipulos, em que partes se-devem pòr, para bater com mais, ou menos forsa as vogais, e distinguir os tempos, e as vozes: vistoque os Portuguezes nam tem letras dobradas, que antigamente serviam a outros, para mostrar as diferentes pronuncias. Porque eles com as dobradas, pronunciavam diferentemente: e os Portuguezes, tirando em pouquisimas palavras, pronunciam como se estivese uma simplez letra.

Nam ignora V.P. que as _virgulas_, _pontos_, e _dois pontos_, foram inventados, para distinguir melhor o discurso. Este é um dos-defeitos da-antiga escritura, que tinha poucos sinais destes: e por-iso é às vezes bem embrulhada. Muitas vezes verá V.P. um ponto, despois de cada palavra: o que faz grandisima confuzam. Outras vezes, o lugar em que punham o ponto, mostrava a diversidade da-pontuasam: quero dizer, que o polo na cabesa, ou no-corpo, ou no-pé da-letra, mostrava que era _virgola_, _dois pontos_, e _ ponto_. E como nam temos documentos bem claros, ainda oje vareiam muito os Gramaticos no-determinar, quando era ponto, e quando virgula &c. Com efeito eu vi uma lapide antiga, na qual os pontos todos estavam em um mesmo sitio, no-corpo das-letras: o que aumentava a confuzam. Os Modernos mais advertidos inventáram estes diversos sinais, para nam nos-enganar-mos nas pauzas, e no-sentido do-discurso. Mas ainda nisto procedèram devagar: e eu vi livros impresos nos-primeiros tempos, quero dizer, nos-fins do-seculo XV. e principios do-XVI. nos-quais nam avia mais que virgulas, e todas damesma figura: o que aumentava sensivelmente o embaraso: sendo necesario um grandisimo estudo, para distinguir os sentidos. E isto se-pratîca ainda oje nos-originais das-Bulas Romanas, escritos sem virgulas, nem pontos: os quais quem nam é pratico dos-estilos da-Dataria, nam pode ler; nam só polo carater Gotico, mas pola Pontuasam. Os Modernos evitáram isto, com a diferensa de figuras. Onde sendo os Acentos, os que tiram a confuzam à pronuncia, e ensinam, como se-devem distinguir as partes do-discurso; valem infinito preso, e devem praticar-se com cuidado. Nam digo, que escrupulozamente pratiquemos as trez sortes de acentos: pois nem os mesmos Romanos se-serviam muito do-_circumflexo_, que com o tempo perdèram. basta uzar do-_agudo_, que se-escreve asim (´) para bater mais as silabas: do-_grave_ neste modo (`) para as particulas, que se-tocam menos: em algum cazo quem quizese podia pòr o _circumflexo_ sobre o î, para dar lugar ao ponto desima. Ifto é o que basta.

Aos acentos seguem-se as _linhas_, que se-escrevem entre as disoens, para as-juntar, ou dividir na pronuncia. Os Ebreos tambem tinham estas linhas, e alguns Povos Europeos. Algum Portuguez a-uza. mas serîa justo que a-uzasem mais, e com regras determinadas: pois ajuda muito a pronuncia, e distingue muito as disoens, principalmente as compostas. Julgo, que se-deve uzar naquelas, que compoem duas palavras perfeitas, que costumam estar às vezes separadas. v.g. _Fazemos-lhe_, _lhes-fazem_, _nos-dizem_, _dizem-no_ &c. Com isto se-mostra, quando os Pronomes unem com os Verbos, nam só no-sentido, mas na pronuncia: e finalmente, quando muitas disoens na pronuncia compoem uma. Deve-se tambem pòr entre a Particula _se_, quando é Pronome, e o Verbo. v.g. _Se se-fizer_. o primeiro _se_, é Conjunsam condicional: o segundo, é Pronome, e une com o Verbo. Onde a dita linha é de grande utilidade, para mostrar as palavras, que devem pronunciar-se unidas. v.g. o _Nos_, algumas vezes é Nominativo, _Nós fazemos_; e pronuncia-se separado, e com acento forte: outras vezes é Cazo, v.g. _nos-fazem_: o que se-distingue mui bem com a dita linha. Tambem às vezes serve, para distinguir os tempos. v.g. _Amáse_ preterito, e _Ama-se_ prezente, com esta linha se-distinguem: porque esta separasam de vozes mostra, que, quando chegamos ao _a_, deve correr a pronuncia, para apanhar o _se_: que é o mesmo que dizer, deve nam parar no-_a_, nem carregalo: no-que se-distingue o tempo. Sei, que com os acentos se-podem distinguir estas coizas, digo, este ultimo cazo; e por iso digo, que ou uma, ou outra coiza se-deve praticar: aindaque eu, por-intender que sam necesarias, pratîco ambas.

Quanto ao _se_, nam só deve ter linha, quando se-une imediatamente ao Verbo, mas tambem quando s’interrompe com a Particula negativa. v. g. _se-nam-faz_, quando vale o mesmo que, _nam se-faz_. porque aindaque a Particula paresa que separa; contudo no-dito cazo a negasam é unida ao Verbo, e faz com ele um só corpo, e sentido: damesma sorte que entre os Latinos, a particula _in_ unida aos Verbos. Onde a separasam, é somente quanto à vista: e as duas linhas ensinam, que se-deve pronunciar tudo, como uma só palavra. Serve às vezes a dita linha nam só para unir as palavras, que ese é o seu principal fim; mas para evitar os equivocos. E asim poem-se na Particula _Por_, quando significa _cauza_ &c. para distinguila do-Verbo _Pôr_. tambem nas Particulas _no_, _do_, _da_, para as-distinguir dos-Sustantivos _nó_, e _dó_, e do-Verbo _dá_, ou _dás_. Em todas estas, e outras semelhantes, milita a mesma razam. nas quais porem será justo pòr acento, quando deve ser.

Em outras partes tenho visto uzar estas linhas, que nam me-parecem de tanta necesidade. v.g. _Fazemos_: que algum douto escreve: _Faze-mos_: ou tambem quando uma consoante se-converte n’outra, para evitar o concurso de muitas vogais: v.g. _Fazé-la_, _Amá-la_, que vale o mesmo que, _Fazer-a_, _Amar-a_. Mas nestas primeiras pesoas do-plural parece escuzada, porque se-intendem muito bem, e estam muito em uzo. E o mesmo julgo, dos-segundos exemplos: muito mais porque nestas em que vai _La_, muitas nam se-acham separadas às vezes, v.g. _Quere-la_ &c. Mas quem nestes segundos exemplos ateimáse a praticala, nam faria erro. O que porem me-parece afetasam é, querer separar esta voz _Mente_, dos-nomes com que faz Adverbio: _Pia-mente_, _Antiga-mente_ _&c._ Na pronuncia destas disoens, nam pode aver engano: e quem as-separa, intende mal as coizas.

Podem opor-me uma dificuldade, vem aser, quando se-dividem as palavras no-fim das-regras, como á-de conhecer quem copeia, se na seguinte regra deve pòr a palavra inteira, ou com a dita linha. Mas a isto respondo, que se-conhece muito bem deste modo: se as palavras se-dividem por-necesidade da-regra, poem-se no-fim duas linhas asim =: quando se-dividem na divizam da-linha, basta pòr uma só linha. Primeiro exemplo asim: _Fa_=_zia_: segundo exemplo: _Faz-me._ Se no-fim da-regra se-acha o _Fa_= com duas linhas, é sinal que na imprensa, ou copia deve ser inteira a disam: se tem só uma linha, sucedendo ficar toda a disam na seguinte regra, deve ter tambem a linha: e isto é facil de praticar.

Creio que será mui justo, introduzir na lingua Portugueza, os _Apostrofes_: que sam umas virgulas, que se-escrevem no-alto de uma consoante antes da-vogal seguinte; para mostrar, que falta uma vogal, e que a consoante se-deve unir na pronuncia, com a vogal da-seguinte disam. Digo na proza, porque no-verso o Camoens, e outros ja os-introduzîram. Os nosos Italianos introduzîram os _Apostrofes_, para abreviarem as disoens: vistoque, comendo-se as ditas vogais na-pronuncia, é superfluo escrevelas: bastando ali pòr o sinal, de que deveriam estar. O mesmo fazem os Francezes: e cuido que, sem alguma censura, o-podem introduzir os Portuguezes. Onde será permetido escrever, _Amor d’ Antonio_: _Cam d’agua &c._ A razam disto é, porque ou na proza, ou no-verso nam se-faz cazo daquela primeira vogal: e asim podemo-nos dispensar de a-escrever. Em 2. lugar, porque nam se-perde com isto o sentido, nem se-faz equivoco. Em 3. porque faz a pronuncia mais doce. o que principalmente se-conhece, quando as vogais sam semelhantes: no-qual cazo pronunciar dois _ee_, ou dois _aa_, é aspero, e cansa. Asim cuido, que neste cazo, é necesario; nos-outros, mui agradavel o _Apostrofe_. Nem isto é tam novo em Portugal, que nam se-achem vestigios desta uniam na pronuncia: antes nam á coiza mais frequente. Considere V.P. estas palavras, _Deste_, _Daquele_, _Damesma_, e outras semelhantes; e verá nelas o que digo. Antigamente escrevia-se, _De este_, _De aquela_, _De a mesma &c._ o que facilmente alcansa quem considera, o que vale aquele _d_, e com que motivo se-introduzio. Mostrou a esperiencia, que, pronunciando estas particulas separadas, ficava aspera a pronuncia: e asim deitaram-nas fóra até da escritura. O que suposto, o que eu aconselho é, que pratiquem com as outras disoens, que se-unem na pronuncia, o mesmo que tem praticado com estas: e que em ambas as partes ponham o _Apostrofe_, para mostrar a vogal que falta; e com isto ensinar melhor a compozisam das-disoens, sabelas conhecer, e buscar. Apostarei eu, que de dezmil omens Portuguezes, a um só nam veio nunca à imaginasam, que _Deste_ _&c._ é composta de _De_, e _Este_. Proguntei isto a alguns, e nam me-souberam responder: e contudo serviam-se indiferentemente destes termos. Eu teria uzado mais amiudo dos-_Apostrofes_: mas como ainda nam estam bem introduzidos, temo que me-nam-intendam. pouco a pouco devemos acostumalos a isto.

Outra coiza tenho que repreender, na maior parte dos-Portuguezes, e vem aser, que dividem muitas disoens, que deviam estar juntas. Vg. escrevem, _Ainda que_, _Para que_, _Com que_, _Por que_, e outras conjunsoens semelhantes. Mas erram, porque aquelas palavras quando se-seguem umas a outras, devem estar unidas, e fazem uma só palavra: e até isto pode ser necesario, para fugir de equivocasoens. Se eu diser: _Para que omem me-manda! Com que razam me-persuade!_ neste cazo o _que_, é Relativo. e deve estar separado. Mas quando significa o mesmo, que _etsi_, _ut_, _igitur_, _quia_, como nas quatro asima apontadas; deve estar junto: o que servirá muito, para os-distinguir ambos. Isto mesmo praticáram os Romanos. _Attamen_, _Etenim_, sam compostos de _At_, _tamen_; _Et_, _enim_. _Quamobrem_ é composto de trez disoens, nenhuma das-quais é Adverbio: e contudo juntas fazem de muitos nomes um. E isto mesmo devem fazer os Portuguezes nestas disoens indeclinaveis: e ainda algumas vezes nas declinaveis, que se-unem com o Articulo &c. o que o uzo ensinará; e a pratica dos-omens doutos confirmará.

Tambem sobre os _Plurais_ serîa necesario, establecer um uzo constante. O P. Bento Pereira diz, que o plural de _al_, é _ais_, e nam _aes_. e parece que tem razam; porque a pronuncia mostra um _i_, e nam um _e_. Mas nisto á tanta variedade, que uns escrevem _ais_, outros _aes_: e o pior é, que o mesmo escritor serve-se às vezes, d’ambas as terminasoens. Um destes é o Bluteau: que, tendo aprovado na Proza Gramatonomica a opiniam do-Pereira, contudo escreve _Misaes_, e outros plurais semelhantes. Mas ja adverti, que o Bluteau é inconstante na Ortografia. Mais controversos sam, os que acabam em _er_, como _Chanceler_, cujo plural querem muitos que seja _Chancereis_: e nisto tropesa muita gente boa. Cuido, que é mais proprio, e mais chegado à analogia, _Chanceleres_: e asim todos os mais. Damesma sorte _Almiscar_, deve fazer, _Almiscares_. Tambem é mui duvidozo o plural de _Simplez_, como tambem _Feliz_. Muitos escrevem o primeiro com _x_, em ambos os numeros: o que aumenta a confuzam. Outros escrevem no-singular, _Simplice_: que parece afetasam vergonhoza. Ou acabe em _s_, ou _z_ no-singular, o plural deve acrecentar somente um _es_: v.g. _Simpleses_, ou _Simplezes_. O mesmo digo, dos-que afetam dizer no-singular, _Felice_, e plural _Felices_. Digo, que no-singular deve-se dizer _Feliz_, ou com _s_, ou _z_; e no-plural _Felizes_: e asim dos-mais. as palavras _Indice_, e _Index_, ja oje se-recebem indiferentemente em Portugal. Que _Brazil_, fasa _Brazis_, está muito bem: mas que _Malsim_, _Beleguim_, fasam _Malsis_, _Beleguis_, como querem alguns; é contra a pronuncia boa, que mostra um _n_ mui claro. E asim estes em _im_, devem acabar em _ins_, _Malsins_. Os outros plurais em _aons_, _aens_, e _oens_, é facil determinalos; advertindo as anomalias que se-acham nas tais regras, que nam sam poucas.