Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)
Part 4
Quanto aos nomes, que ainda nam estam em uzo por-todos, mas que somente uzam, ou para melhor dizer, algumas vezes se-servem deles os literatos; deve-se praticar outra regra. Se sam nomes (falo dos-Latinos, Gregos, Ebreos &c.) de coizas pertencentes a Artes, ou Ciencias, parece-me que se-devem escrever, com as suas letras originais. Vg. se quizer-mos explicar, ou escrever os nomes pertencentes à Anatomia, que sam todos Gregos, segundo o estilo do-Portuguez; escreveremos palavras, que se-nam-intenderám: e asim é melhor, seguir a derivasam Grega. O mesmo digo, de algumas partes da-Medicina, da-Filozofia &c. Muitos destes nomes ou nam se-podem escrever de outra maneira, v.g. _Pneumatologia_ &c. ou, aindaque se-posam escrever, nam estam geralmente recebidos, nem ainda polos mesmos eruditos: e asim nam gozam, do-privilegio Portuguez. Se sam nomes Proprios, entra a mesma regra: ou sam pouco uzados; e em tal cazo é obrigasam escrevelos, com as suas proprias letras. Onde nam condeno quem escreve, _Homero_, _Herodoto_, _Herodes_ &c. aindaque estes trez, e outros semelhantes que estam ja muito em uzo, podem mui bem escrever-se sem _h_: o que ate os nosos Italianos ja fazem: Mas sempre é mais desculpavel, se em semelhantes nomes se-uzam letras da-origem. Quanto porem aos outros, que servem de diferenciar as pesoas Portuguezas, e já estam totalmente naturalizados; devem-se vestir, com o traje de Portugal. E este uzo acho praticado, em todas as Nasoens de melhor doutrina. Quazi todos os nomes da-Sagrada escritura, se-acham mudados na nosa Vulgata. Vg. nós dizemos, o _Mesias_: e se ouvesemos pronunciar como está no-texto Ebreo, deveria-mos dizer, _Maxiaggh_ com pronuncia forte, e gutural no-g. o que fizeram os Latinos, para adosar a pronuncia forte, e aspera dos-Ebreos. Traduzindo os Gregos este nome, escreveram, _Christos_: os Latinos, _Christus_: de que nós tomámos a palavra, _Cristo_. Podia apontar mil exemplos, que deixo por-brevidade. Os Gregos quando pronunciavam os nomes Latinos, faziam-no com o dialeto Grego. e por-iso nós achamos, que nas medalhas Gregas dos-Consules, e Imperadores Romanos, os nomes estam transformados. Vg. este nome, _Marcus Tullius Cicero_, os Gregos escreveram-no nas medalhas, _Markos Tyllios Kikeron_, que tem bastante diferensa do-Latino. Os Latinos, como ja disemos, davam a terminasam Latina, aos nomes Gregos: e muitas vezes deitavam-lhe fóra algumas letras. basta abrir os Dicionarios, para reconhecer esta verdade. Os nosos Italianos italianizam todos os nomes Estrangeiros, que lhe-chegam às maons, quando eles sam tais, que se-podem pronunciar à Italiana: e, seguindo a pronuncia Franceza, desterram da-escritura, os ditongos, e tritongos; pondo somente a letra que conresponde ao tal ditongo. outras Nasoens fazem o mesmo. Se pois em todos os tempos ouve esta liberdade; tambem se-deve praticar em Portugal. E asim parece-me escrupulo ridiculo, querer conservar em _Ieronimo_, o _h_, e _y_: e em _Iozé_, o _ph_ &c. tudo isto se-deve evitar, escrevendo os nomes com as letras, com que-se pronunciam em Portugal.
Emfim a regra é geral, que todos os nomes de origem antiga &c. ou sejam Proprios, ou Apelativos, que estam naturalizados, e sam frequentemente uzurpados, ou por-todos os omens, como _Ieronimo_, _Triumfo_, &c. ou polo comum dos-doutos, como _Filozofia_, _Teologia_, _Fizica_, _Metafizica_, e mil outros; devem-se escrever como se-pronunciam. Os nomes ditos que nam sam geralmente uzados, v.g. _Themistio_, _Theopompo_ &c. por-nam escandalizar os ouvintes, ou confundir os ignorantes, é melhor escrevelos com as letras originais. Os nomes, em que entra duvida se sam, ou nam uzados, podem-se escrever, com as letras da-sua derivasam; pois a duvida mostra, que nam é uzual. Isto digo dos-nomes, que sam puramente antigos, ou que se-derivam de linguas mortas, como a Latina, Grega, Ebraica, Caldaica &c. Quanto pois aos nomes de linguas vivas, principalmente das-linguas do-Norte, em que se-acham muitas consoantes seguidas &c. acho que é melhor, e às vezes preciza necesidade, escrevelos com todas as suas letras: porque sem isto, nam se-poderám distinguir e reconhecer, os Autores, as Cidades &c. e nacerá grande confuzam. Aquelas consoantes que a nós parecem superfluas, nam o-sam para eles, porque as-pronunciam, supondo-lhe vogais: onde tirando-as, nem os-intenderemos pronunciar, nem os-saberemos procurar nos-livros.
Esta doutrina que atè aqui establecemos, deve-se aplicar, a todos os outros cazos que ocorrerem, de quaisquer letras que se-nam-pronunciam: E asim nam é necesario repetila especialmente, em todas as palavras: pois qualquer por-simesmo pode aplicála. Onde, seguindo a ordem do-Alfabeto, deve-se desterrar o _G_. de _Madalena_ &c. Polo contrario deve conservar-se em _Significar_, _Magnifico_ &c. porque na pronuncia s’exprime.
A mesma razam persuade, que nenhum Portuguez deve servir-se do-_H_, senam quando tem diferente pronuncia. v.g. despois de _c_, como em _Chave_, despois de _n_, como em _Minha_ &c., nunca porem quando se-diz, _He_, _Hei_ &c. Desta opiniam foram alguns antigos Portuguezes, como Joam Franco Barreto na sua Ortografia; que quer se escrevam, sem _h_: e o P. Bento Pereira na sua _Grammatica Linguæ Lusitanæ_, que concede, que em algumas partes se-pode deixar. Muitos Portuguezes que atualmente vivem, e de mui boa doutrina, defendem fortemente, que se-exclua o _h_. e achei um, que somente o-admitia, quando distinguia uma disam da-outra. v.g. _Ouve_ pode significar, _teve_, e também, _está ouvindo_: onde no-significado de _teve_, punha-lhe o _h_, para nam cauzar confuzam. Conheso, que o contexto mostra bem, em que sentido se-toma: e sei que no-Latim, á infinitas palavras, que tem terminasoens equivocas, cujo verdadeiro significado se-alcansa, polo contexto. E ainda no-Portuguez _Amára_, e _Amará_, se acazo nam tem acento, somente se-distinguem polo contexto. da-mesma sorte _Cria_ verbo que significa, _Tirar do-nada: cria_ verbo que significa, _Produzir a terra: cria_ verbo que significa, Dar _leite ás criansas_: e _cria_, imperfeito do-verbo _crer_: nam se-distinguem senam polo contexto: o que tambem sucede em muitos outros. Digo somente, que nam condenaria, quem o-escrevese nestes cazos: aindaque eu pratique comumente o contrario. Fóra daqui, julgo que nam se-deve escrever, em nenhuma outra disam; porque todas se-distinguem mui bem, sem ese sinal de aspirasam. O Bluteau, que no-Dicionario diz, que em algumas partes se-podia deixar de pòr o _h_ no-principio; em outros lugares porem defende, a introdusam do-_h_, querendose desculpar, com a lingua Italiana. Mas erra manifestamente no-que diz. porque nam só os omens mais doutos na lingua Italiana desterráram o _h_ do-principio, e de muitas partes do-meio das-disoens, deixando-o somente despois de _c_, e g, como em _Bianche_, _Vaghe_; porque aqui é verdadeiramente aspirasam forte, e tem seu particular soido: mas tambem a mesma Academia da-Crusca no-seu _Vocabulario Compendiado e Correto_, declara, que somente uza do-_h_, para evitar algum equivoco. v.g. _Hanno_, Verbo que quer dizer, _tem_; de _Anno_, nome que significa, o _ano_. Como tambem em, _Ho_, _Hai_, _Ha_, inflexoens do-mesmo Verbo; para as-distinguir de algumas Particulas, que tem a mesma terminasam. aindaque neste cazo nam condenam, quem deixa o _h_. Quando muito admitem o _h_, em _Hui_, _Hoi_, exclamasam de quem se-queixa, ou outro semelhante monosilabo: declarando porem, que aqui, e em quatro vozes que apontam, s’introduzio por-erro antigo dos-impresores, e nam por-alguma fundada razam. O que é muito de notar: sendoque os Toscanos aspiram fortemente todos os monosilabos, semque por-iso escrevam _h_. Fóra destas circunstancias, nenhum Italiano douto escreve _h_: onde falsamente se-serve o Bluteau do-seu exemplo.
Mas, deixando o que fazem os outros, e pasando ao que devem fazer os Portuguezes, digo, que nam devem escrever _h_ senam, quando cauza diferente pronuncia, como em _Minha_, _Diz-lhe_ &c. O _é_ quando _é_ Verbo, muito bem se-distingue do-_e_ Conjunsam, pondo-lhe emsima um acento. Nem eu poso intender porque razam _é_ Verbo, deva escrever-se com _h_, e _era_, _eram_ &c. que sam inflexoens do-mesmo Verbo, sem ele. Também o _ás_, _á_, Verbos que significam _ter_, mui bem se-distinguem de _às_, _à_ Particulas, com a diversidade do-acento grave. Tudo isto asim distinguem os nosos Italianos, que participam mais que ninguem da-lingua Latina, e que sam mui advertidos nestas pronuncias. Onde é erro dizer, _Huma_, _Humilde_ &c. mas deve-se escrever, _Uma_, _Umilde_ &c. Nem é obscura a razam: basta olhar para à pronuncia, para saber, que é erro, pòr o _h_. Antigamente o _h_ era sinal de uma forte aspirasam[7]. (intendo por esta palavra _aspirasam_, deitar para fóra o ar que se-recebeo, para refrescar o interior, e ajudar a circulasam do-sangue: o que advirto, porque me-parece, que entre muitos Portuguezes, nam é bem certa a significasam desta palavra, _aspirasam_) Deste final pois somente se-serviam, para suprir as letras aspiradas dos-Gregos. Onde somente s’escrevia antes das-vogais, cuja pronuncia era bem aspirada, e gutural, como adverte Cicero[8]. e talvez antes desas nam se-punha. Mas no-tempo da-pureza da-lingua Latina, nunca os omens doutos escreveram _h_ despois de consoante: mas somente no-principio da-disam, e antes de vogal: e nam escreviam _Pulcher_, mas _Pulcer_: nam _Charitas_, mas _Caritas_ &c. o que ainda oje vemos, nos-melhores manuscritos, e inscrisoens lapidares. Mas se alguma vez a-punham despois de consoante, somente o-faziam nas palavras Gregas, ou que de lá traziam origem. De que fica claro, que na lingua Portugueza, em que nam á aspirasam alguma nem forte, nem branda; nam se-deve pòr aquele sinal, que só serve de avizar o Leitor, que aquela letra deve ser aspirada. Somente do-_U_ duvidei por-algum tempo, se admitia antes de si _h_: porque, a falar verdade, parece-me ser aquela letra, que em Portugal se-pronuncia, com alguma aspirasam; porque a mesma natureza da-letra o-permite. mas dezenganáram-me os meus Italianos, que, sendo tam escrupulozos observadores da-pronuncia, nam poem _h_ antes de disam alguma, que comece por-u: falo dos-que escrevem com a ultima perfeisam. Onde nem menos os Portuguezes devem ter escrupulo, de os-escrever sem _h_.
Sobre as diferentes especies de _II._ é incrivel a bulha que alguns fazem, especialmente para determinar, quando se-deve pòr j rasgado, ao principio das-disoens. Cuido que esta grande bulha, se-pode reduzir a duas palavras. Distinguir o _i vogal_ do-_consoante_, é mui necesario, para saber quando fere, ou nam fere a vogal. chamamos _rasgado_, ao consoante; _pequeno_, ao vogal; e distinguem-se pola figura. Quanto ao escrevelos ao principio, pouca dificuldade pode nacer, em quem escreve em Portuguez; vistoque rarisima palavra Portugueza comesa por-_i_ vogal, antes de outra vogal. Onde tirando, _îa_ Verbo, ou alguma outra rarisima, que agora nam me-ocorre; em todas as palavras Portuguezas, que comesam por-_i_ antes de vogal, a dita letra é consoante, e deve-se escrever rasgada; ou de forma pequena, ou maiuscula, segundo a necesidade. Alguma dificuldade pode nacer, no-principio das-palavras impresas. Neste cazo nam dezaprovo, que o _i_ de _Joannes_ v.g. e outros semelhantes seja rasgado, para evitar alguma confuzam. Mas isto intende-se nos-nomes de fórma pequena: porque nos-de fórma grande, que é a maiuscula Romana, pouca necesidade temos de escrever _i_ rasgado no-principio: pois com o outro, igualmente se-pronuncia bem. Quem porem em ambas as partes quizese pòr _i_ rasgado, nam o-condenaria: principalmente se comesasem por-alguma das-duas Portuguezas, que asima aponto.
A maior dificuldade consiste em determinar, quando se-poem _G_, quando _I_, antes de _e_, ou _i_, nas palavras Portuguezas. v.g. _Gente_ escreve-se com _g: Ereje_ uns o-escrevem com _g_, outros com _i_, _Ieronimo_ com _i: Giro_ escreve-se com _g_: E outras vezes antes do-_e_ &c. poem-se um _j_ consoante. Para dar razam destas variasoens, tem alguns escrito longas paginas: mas nenhuma Regra das-que li, deixa de ter suas excesoens. Dizem, que em _Gente_, _Giro_ &c. a derivasam aponta o _g._ concedo: mas que derivasam aponta a letra, que devemos escrever em _Ereje_, e outros semelhantes, que nam tem analogia alguma, com as letras da-sua derivasam? O meu parecer é este: Que os doutos, sigam a derivasam Latina, especialmente no-principio; e tanto nos-Apelativos, como Proprios, que sempre comesam por-_i_: tirando quando despois se-segue outro _i_, que entam é melhor, converter o primeiro em _g_, como _Ginja_. Que no-meio, uzem mais do-_g_, que do-_i_: vistoque nisto tambem á diversidade, ainda nos-que derivam do-mesmo Latim. Mas, nam se-lembrando da-derivasam, &c. posam servir-se indiferentemente de ambas. Os ignorantes sigam o costume e a pràtica, dos-que melhor escrevem. Nem devemos admirar-nos, se em alguma letra nem todos concordem: nam sendo posivel, que convenham todos, em materia tam duvidoza e arbitraria.
Tambem sobre as terminasoens, _am_, e _aõ_, fazem alguns longuisimas disputas, e mui superfluamente. Confesa o Bluteau na sua Proza Apologetica, que ja saîram livros inteiros, para deitar fóra o _aõ_: e que outros lhe respondèram dizendo, que o _til_ nam era _letra_, mas _risco_. O Bluteau protege a pose do-_aõ_. mas declara, que o _til_ supre a letra _n_: e defende constantemente, que nam se-deve tirar o _til_, porque a terminasam _aõ_, segundo ele diz, é mais engrasada, que o _am_; e por-este motivo deve-se conservar: muito mais porque seria necesario tambem, desnaturalizar as palavras, _Birimbao_, _Catimbao_, _Pao_, &c. Mas o Bluteau nesta materia, deixou-se guiar por-alguns prejuizos. Dizer, que o _til_ é _risco_, e nam _letra_, é o mesmo, que nam dizer nada. O certo _é_, que este risco faz, que eu pronuncie um _n_ demais, que as letras que ali vejo: onde, chamem-lhe como quizerem, é um verdadeiro _n_. Dizer, que a terminasam _am_, é diferente na pronuncia, de _aõ_, é outro engano: pois em qualquer disam Portugueza, que se-ache a terminasam _am_, todos a-pronunciam como _aõ_: e Portuguezes mui doutos servem-se indiferentemente de ambas: e cuido que com muita razam; se è que a segunda se-deva tolerar.
Os que contrareiam isto, nam intendem bem a materia; nem d’onde naceo, esta particular pronuncia em _aõ_. Quem bem considera o ponto, reconhece facilmente, que aquele _til_, é um rigorozo _m_ final: e deveria escrever-se, _Falaom_: porque escrevendo-se desta sorte, e pronunciando-se depresa, faz o mesmo soido, que _Falaõ_. Daqui naceo, aquela particular terminasam em _aõ_ dos-Portuguezes: porque com a presa de pronunciarem, tocam tam de pasagem o _o_; que nam se-ouve mais, que o _m_: o qual, em vez de o-pronunciarem com os beisos fechados, que é a sua propria pronuncia; pronunciam com um soido fanhozo do-nariz: que é o estilo prezente de pronunciar todo o _m_ final, em Portugal: nam avendo aqui _m_, que se-pronuncie como deve ser. Alemdeque bastava alguma reflexam, para conhecer isto; acha-se manifesta razam, para o-persuadir. A _plica_ ou _til_, deve significar alguma letra: de outra sorte seria superflua, e nam produziria algum efeito. Esta letra só pode ser _m_, ou _n_, e ambos finais: porque de outra sorte sería, _Falamo_, ou _Falano_: o-que nam pode ser. Onde fica claro, que _Falam_, é uma sincope de _Falaom_: e que tanto se-pode escrever um, como outro. Reconhece-se isto melhor nos-plurais. v.g. _Maõ_, faz _maons_: _Varaõ_, _varoens_: nos-quais declaradamente se-ve o _m_, ou _n_, segundo a pronuncia. E eu creio, que antigamente nestes plurais, em vez de _n_, punham _m_; e que a dificuldade de pronunciar o _m_ junto com o _s_; ou o som do-nariz, que pouco a pouco se-foi introduzindo no-_m_, o-converteo em _n_ nestas terminasoens: pois ainda oje escrevendo-se com um _m_ final, a pronuncia o-faz parecer, como _n_. O que, como dise, é um idiotismo particular dos-Portuguezes.
E esta é a razam, porque os Estrangeiros, nam podem pronunciar bem estas dezinencias; que na verdade sam feias, e asperas terrivelmente: porque nam á quem lhe-explique, que o _til_ de _aõ_, é um _m_, que os Portuguezes, por-corrusam, pronunciam como um _n_; nam só no-fim, mas ainda no-meio das-palavras. Reconheci isto por-experiencia: pois tantoque dei esta explicasam a alguns, e mostrei o vicio da-linguagem; pronunciáram melhor, que os outros. Daqui concluo, que as ditas terminasoens, _aõ_, e _am_, podem-se uzar indiferentemente; vistoque uma é sincope da-outra: tendo introduzido o uzo, nam pronunciar na segunda, o _o_. Onde dise um erro Inacio Garcez Ferreira, e alguns outros, quando quizeram defender, que estas dezinencias eram diferentes no-soido: e quando ele lhe-chamou, sincopes das-Castelhanas. E nam sei, se confirma tambem o que ate aqui dise, ver, que na Provincia de Entre Doiro, e Minho, ainda oje se-pronuncîa, em muitas destas palavras, o _o_; pois dizem, _Tabaliom_, _Escrivom_ &c.
Mas eu digo mais, e asento, que aindaque uma seja abreviatura da-outra, emportava muito à lingua Portugueza, que se-deitase fóra o _til_, e a terminasam _aõ_, escrevendo-se tudo extensamente: e uma de duas, ou que se-escrevese _Falaom_; ou, abreviando, _Falam_. Introduzir a primeira escritura, serîa mais dificultozo; porque estes amigos nam querem reformas utis: e asim será melhor, preferir a segunda _am_, que ja está recebida em Portugal. Certo é, que quando os Portuguezes escrevem, a dita terminasam _am_, pronunciam _aõ_: e tambem é certo, que muitos omens doutos servem-se da-primeira terminasam. Este modo de escrever, encostava-se mais para a pronuncia: e com ele se-evitavam confuzoens. serîa também a lingua mais facil de ler, e pronunciar, aos Estrangeiros: pois bastava advertir-lhe, que entre, o _a_ e _m_, deve-se pòr um _o_, e pronuncialo depresa. Advertimos porem, que aindaque os Portuguezes tenham, esta pesima pronuncia na sua lingua; quando porem pronunciam a dita terminasam _am_, no-Latim; devem pronunciala com os beisos fechados, como em seu lugar advertiremos: poisque a lingua Latina nam está sugeita, às suas leis.
Querem alguns, que em _Tempo_, e outras palavras, em lugar do-_m_, se-ponha _n_, porque asim soa. Cuido, que dizem mal: porque aindaque alguns pronunciem o dito _m_, como _n_, pronunciam muito mal; pois nesta voz muito bem se-ouve o _m_, e em outras tambem. E aindaque em outras partes, nam seja tam sensivel o _m_, deve conservar-se: pois se ouvesemos de tirar todos os _mm_, que nam se-explicam bem, poucos _mm_ ficariam em Portugal. Em _Contigo_, _Consigo_ &c. podem tiralo. Contudo quem o-quizese tirar em todas as outras, nem por-iso o-condenaria como erro.
A terminasam _an_, tambem cauza duvidas, a muitos Portuguezes: e eu julgo, que nam deve ter nenhuma. Acham-se omens que asentam, que nam á tal terminasam no-Portuguez, e defendem isto, com muita forsa. Se disesem, que a terminasam _an_, antigamente era _am_, nam diriam mal: mas querer defender, que oje nam á tal terminasam, é dizer um erro. Distinguem-se oje os nomes Femininos, dos-Masculinos, com esta terminasam. Vg. _Vam_, e _Van_: _Irmam_, e _Irman_. Nem me-digam, que o _til_ é risco, e nam letra: pois ja asima mostrei, que o _til_ é uma letra; e que a pronuncia ensina, que á-de ser _n_. Por-esta razam concluo, que será necesario, pòr o dito _n_ expreso, deitando fóra o _til_. Muitos Portuguezes doutos seguem esta opiniam: os quais rim-se de Duarte Nunes, que queria se-dobrasem os _aa_, dizendo _Vaã_, _Menhaã_.
Sobre o P, ja asima dise, que nam se deve escrever _ph_ por-_f_: Agora digo, que nem menos se-pode sofrer, o que muitos fazem, pòr _p_, antes de _t_, em muitas disoens. vg. _Prompto_ &c. Esta é uma afetasam pouco toleravel: vistoque a pronuncia Portugueza, tem ja desterrado este _p_. Onde nam é a mesma razam do-_b_, ou do-_g_, ou do-_d_, que se-conservam nas palavras, _Obscuro_, _Significo_, _Adverte_: porque este, ouve-se mui bem: e o _p_, nam se-ouve sem afetasam. E nam falta quem diga, que nas duas primeiras palavras tem ja introduzido o uzo, deixar aquelas letras na pronuncia: o que eu nam condeno: como nem menos condeno, quem as-pronuncîa. Pode ser que com o tempo, se-deixem totalmente.
_Quimera_ por-_Chimera_, defende Bluteau, e alguns outros: eu julgo, que sem razam alguma; sendoque o _qui_, tem mui diferente pronuncia, doque a que se-ouve na palavra, _Chimera_. Ja asima dise, que a quem nam agrada, escrever estas palavras, por-_ch_, é melhor, uzar o _k_ dos-Gregos, doque o _qui_; que tem em Portugal diferente pronuncia, na qual expresamente se-ouve o _u_.
Introduzio o uzo em Portugal, dobrar os _rr_, quando tem pronuncia forte: e parece-me que este uzo se-deve observar, nam fazendo cazo, do-que aconselham alguns, que um só _r_ bastava.
Nam poso sofrer, que o Bluteau na sua _Proza Gramatonomica_, queira introduzir, no-principio das-palavras Portuguezas, o _s_ antes de consoante: e escrever, _Squeleto_, _Spasmo_, _Scena_, _Sciencia_ &c. Esta corresam é tam fora do-escolio, que nenhum Portuguez, que nam seja Latino, saberá pronunciar aquele _s_, no-tal lugar: e o que souber Latim, será necesario, que pronuncie um _e_ mui redondo. A razam disto _é_, porque o _s_ Portuguez, que nam é final, é um verdadeiro sibilo ou letra sibilante, que faz ouvir a vogal ou antecedente, ou consequente. e asim, querer escrevela sem vogal, é mudar a pronuncia da-letra, e é fazer uma ridicularia, fundada unicamente em querer mostrar, que sabe a derivasam daquelas palavras. Abrasáram algumas pesoas cegamente, a opiniam do-Bluteau: mas nem por-iso dam razam, ou fazem autoridade nesta materia. Onde, antes de consoante, nunca se-deve escrever _s_ simplez.
Deve-se com cuidado distinguir o _u_ vogal, do-consoante v, ou _v_, para nam originar duvidas. O que muitos nam fazem, ainda prezados de doutos: pois vejo escrituras deles, que merecem compaixam. Isto porem nam só no-Portuguez, mas ainda no-Latim é necesario: Pois aindaque antigamente, (que os Romanos escreviam com letras maiusculas) todos os _vv_ tinham a mesma figura: oje que, com muita razam, se-introduzio esta necesidade, devemos, no-carater pequeno, distinguir na figura estas duas letras, asimcomo as-distinguimos na pronuncia. E fazem mui bem os Alemaens, que, ainda nas letras maiusculas, distinguem o vogal, do-consoante, nos-livros impresos.