Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Part 3

Chapter 33,466 wordsPublic domain

Mas aqui, deixe-me V. P. lamentar, e admirar, a negligencia dos-Portuguezes em promover, tudo o que é cultura de ingenho, e utilidade da-Republica. Ainda até aqui, nam tem cuidado nestas coizas: e será rarisimo, o que souber, que esta Gramatica pode ser util. Especialmente nóto isto, sobre a falta de escritos, para instruir um Secretario principiante. (falo dos-secretarios dos-Grandes, e de tudo o mais, fóra das-Secretarias Reais.) Nas-outras Nasoens á livros, que ensinam a qualquer, a urbanidade e ceremonial do-seu Reino. Como escrevem os Reis, e os Grandes entre si, e às pesoas de diferentes gerarchias mais inferiores. como os inferiores escrevem, a toda a sorte de pesoas de maior esfera, tanto Secular, como Ecleziastica. &c. apontam-se os sobrescritos, e poem-se algumas cartas para exemplo. Isto ensina a todos; e impede o fazer erros. Mas em Portugal, é desconhecido este metodo. Um secretario de um Bispo, ou Cardial, ou Fidalgo, ou Dezembargador &c. governa-se por-uma pura tradisam; ou porque asim vio alguma carta; sem mais conhecimento da-materia. Comtantoque um moso, tenha um carater comprido, e dezembarasado, a que eles chamam, letra de Secretaria, é o que basta. Confeso a V. P. que ainda até aqui, nam vi secretario algum destes, que soubese escrever duas palavras, com juizo. que tecese uma carta, considerando quem escreve, e a quem escreve: emque circunstancia: se com dependencia, ou sem ela: se por-agradecimento de alguma fineza, e atensam, ou por-outro motivo. Nam consideram circunstancia alguma destas: as quais porem deveriam considerar muito; porque fazem a carta, mais, ou menos abundante de atensam: Sendo certo, que o Secretario, deve conservar o decóro de seu amo: mas no-mesmo tempo deve procurar, que paresa mais cortez que posa ser. Mas isto, é o que eles nam intendem. e nada mais cuidam, que mostrar, nam digo a grandeza, mas a soberba de quem escreve. Verá V. P. um pobre Cavalheiro das-Provincias, do-qual se pode dizer, como dise aquele noso amigo==_Est res angusta domi_==; escrever uma carta, com mais soberania e magestade, que nam fará o Papa. porque este, comumente poem==_Dilecto filio_==: e aquele, comesará uma carta _ex abrupto_, e imprudentemente, sem atensam alguma. Os de maior gerarchia, ainda fazem pior. e apenas se achará um, que nam queira mostrar na carta, que é mais, da-pesoa a quem escreve. Por-fóra, costumam pór==_do-Bispo Fulano: do-Marquez Sicrano_== &c. á coiza mais digna de rizo doque esta! As cartas mandam-se lacradas, para que ninguem saiba, de quem sam; e nem suspeite, o que contem: e estes tais poem, e asinam-se de fóra! Que o-fasa o Secretario de Estado, ou outro Ministro, que tem jurisdisam publica; é justo: paraque todos conhesam, de quem é a carta; e, se mais suceder perdela, quem a-achar, a-entregue; e lhe-tenham o respeito, que é devido. mas que o-fasam os outros, e em negocios particulares; e que o-fasam por-grandeza, merece compaixam. Tenho visto milhares de cartas, de Cardiais, Principes Soberanos de outros Reinos, e muitos outros Gran-senhores, e nenhum praticava esta rapaziada. Mas eu vi mais doque isto: porque vi carta de uma grande pesoa, que V. P. conhece, que escrevia a outro mui condecorado, que tinha no-sobrescrito: A Fulano: pondo o simplez nome, sem _Senhor_, nem titulo, &c. e dentro asinava-se, sem lhe-fazer comprimento, como se-faz nas Patentes.

Pertencem à clase asima, os que carregam o sobrescrito, com todas as circunstancias de _Pai_, _Primo_, _Cunhado_ &c. o que tudo pode dar ocaziam, a abrir a carta por-curiozidade. O mesmo digo, dos-que poem: _Familiar do-S. Oficio_, e outras coizas destas. Basta pór um titulo principal, ou, quando muito, dois maiores: os mais ja se-intendem, ou se-supoem. Estes sam semelhantes àqueles, de que ja falámos tantas vezes, que, no-titulo das-censuras dos-livros, poem uma enfiada de empregos velhos: _Ex-Provincial_: _Ex-Difinidor_: &c. e dos-quais V. P. dizia, com tanta grasa, que lhes-faltava pór: _Ex-Porteiro_: _Ex-Guardiam_: _Ex-Procurador_. &c. O pior é que nisto, caiem tambem os Seculares: e poem frequentemente: _Colegial que foi no-Colegio de S. Paulo_: _Lente que foi de Leis_, _ou de Instituta_. &c. só lhes-falta acrecentar a prepozisam, e dizer: _Ex-Colegial_: _Ex-Leitor_: _Ex-Secretario_: _Ex-General_: _Ex-Coronel_. Que tendo os empregos, o-declarem; é mui justo: mas que ponham os que tiveram, e sam inferiores aos que oje tem; é uma vaidade mal fundada: e é querer ser estimado, mais polos empregos, que polo merecimento. Leia V. P. a istoria, que escreveo Alexandre Ferreira, e verá, que no-titulo da-obra, escreve toda a sua vida. Outros fazem dedicatorias de livros, a pesoas Grandes, e enchem boa meia folha de papel, de titulos: _Capitam-mor de cá_: _Alcaide-mor de lá_: &c. Quando tivesem dito: _Marquez, ou Conde_; _Conselheiro, ou General_ &c. estes titulos sorvem todos os outros. Destes se-pode tambem dizer, que lhes-esqueceo escrever, todas as quintas, e cazas, que posuem em diversas Vilas, e Cidades, as pesoas a quem louvam, e dedicam as obras.

Em Italia, seria grande injuria, tratando-se com um grande Principe, por-lhe todos os titulos: porque era mostrar, que sam menos conhecidos polo nome, e pesoa. Á cazas, que tem muitos Principados, Marquezados, Condados: e nam somente de titulo, mas com inteira jurisdisam e dominio, pois tem o direito==_Vitæ & Necis_: e contentam-se com um só titulo, ou, quando muito, dois: Vg. Lourenso Colona, Duque de Paliano, Condestavel do-Reino de Napoles. Domingos Orsini, Duque de Gravina. Prospero Conti, Duque de Poli. Estas cazas tam antigas, que algumas contam mais de mil anos, e tem dado, alem de infinitos Cardiais, 13. Papas, outras cinco, à Igreja de Deus; nam fazem vaidade destes ridiculos titulos; porque sabem, que sam mui bem conhecidas. Mas os *** e principalmente os Portuguezes, governam-se por-outros principios. Tem alem diso estes Senhores por-injuria, se lhe-escrevem por-secretario; e quando nam vem toda a carta, de proprio carater, tocam a fogo. Veja V. P. quam diferentes sam, os costumes estrangeiros! Em Roma, aonde o ceremonial está tanto em vigor, que às vezes é excesivo, nam se-faz cazo de tal coiza. escreve um Cardial a outro, por-secretario. escrevem os inferiores &c. por-secretario. Isto nam prova descortezia, mas que um omem, é sumamente ocupado. nem pesoa alguma faz cazo disto. Somente se-pratica, escrever de proprio punho, quando é primeira carta de ceremonia a pesoa grande, ou quando respondo, a quem escreve de proprio punho: ou n’outros cazos asim. Mas aqui, seria um cazo rezervado, praticar o contrario.

Ora tudo isto, é intender mal as coizas: é falta de educasam: falta de livros bons: e é expor-se ao rizo dos-omens de juizo. Isto pois deve acautelar o mestre, quando instrue os rapazes. deve informar-se das-coizas: ensinar-lhe como se-devem regular: e finalmente dizer-lhe em poucas palavras aquilo, que, por-falta de livros, somente se-pode saber, com uma longa experiencia. Estas coizas devem-se tratar, nestes primeiros estudos.

Despois de ter escrito isto, me-veio à mam, uma Gramatica Portugueza, composta polo P. Argote, Teatino. Verdadeiramente nam é Gramatica completa: mas o autor declara, que só dá regras, para facilitar a inteligencia da-lingua Latina. O juizo que formo desta Gramatica, é este. O autor, introduzindo um dialogo enfadonho, dise, em muitas folhas, o que podia dizer, em poucas regras. Os dialogos nam servem mais, que de fazer mil repetisoens sem necesidade. servem de cansar á memoria aos rapazes, sem fruto: ensinando-os a falar como papagaio: vistoque nam intendem o que dizem. quando polo contrario poucos preceitos, bem explicados com a viva voz do-Mestre, ensinam mais, com menos trabalho. Isto, quanto ao metodo. quanto às regras: O que diz da-Analogia das-vozes, parece-me mui bem; e pode-se ensinar com utilidade. A Sintaxe de _concordar_, pode pasar: a de reger, nada me-agrada. O P. Argote dezemparou o seu mesmo metodo, por-seguir os erros de Manoel Alvares, e multiplicar regras sem necesidade; asinando regencias falsas: quando tudo aquilo se reduzia, a explicar a regencia dos-Cazos, polas regras fundamentais; que sam mui poucas. Isto é o que deve cuidar o Mestre: reduzindo as regras, às verdadeiras cauzas da-regencia: apontando algum particular idiotismo &c. porque isto basta: vistoque a Gramatica Latina, tambem se-deve explicar em Portuguez, e com poucas regras. A terceira parte, da-sintaxe _Figurada_, tirando a extensam, tambem pode pasar. Na quarta parte, o que diz dos-Dialetos &c. pode pasar: aindaque tudo aquilo se dizia, em duas palavras. o que diz do-modo de reger a lingua Portugueza, é uma grande superfluidade, e _pedanteria_: vistoque nam á mestre tam tolo, que nam saiba, como á-de reger, uma carta Portugueza. Isto se-faz, quando o estudante nas escolas, vai lendo a lingua dita: e o mestre lhe-explica, o dialeto da-proza, e do-verso. Antes seria loucura, querer explicar ao principio, o dialeto do-verso. porque os Poetas, que pola maior parte nam pezam bem as coizas, sem excetuar o Camoens; caîram na parvoice, de aportuguezar mil palavras Latinas, sem necesidade alguma: e asim nam é coiza para rapazes. Antes, polo contrario, deve o mestre advertir-lhe, que ese estilo, nam se deve uzar. Finalmente, a Ortografia do-P. Argote nada vale, como abaixo direi. Mas, em quanto nam aparece outra, ou se-reforma esta arte; pode o mestre uzar dela, com as ditas cautelas.

Devo tambem dizer a V. P. alguma coiza, sobre a Ortografia Portugueza. noticia que me-parece mui necesaria, e que com todo o cuidado se-deve comunicar aos principiantes: pois da-falta desta doutrina nace, que em toda a sua vida, escrevam mal: e, ainda despois de estarem em lugares de letras, é lastima ver, como muitos escrevem. E estas reflexoens, servirám para emendar, o que diz o P. Argote, nas suas _Regras Portuguezas_, e algum outro.

Isto suposto, e compreendendo em pouco, o muito que outros escrevem nesta materia, digo, que os Portuguezes devem pronunciar, como pronunciam os omens de melhor doutrina, da-Provincia de Estremadura: e, posto isto, devem escrever a sua lingua, da-mesma sorte que a-pronunciam. Esta é uma singularidade da-lingua Portugueza, que só se-acha nela, na Italiana, e na Castelhana: aindaque esta tenha sua variedade: ponho de parte a Latina, que é morta. Daqui fica claro, que devem desterrar-se da-lingua Portugueza, aquelas letras dobradas, que de nada servem: os dois _SS._ dois _LL._ dois _PP._ &c. Na pronuncia da-lingua, nam se-ouve coiza alguma, que fasa dobrar, as ditas consoantes. Que se-escreva _Terra_, _Perra_, com dois _rr_, intendo eu a razam: e o ouvido me-aviza, que a pronuncia é fortisima no-_r._ pois quando nam é forte, como em _Pera_, _Caracol_, escreve-se um só _r._ mas em _Elle_, _Essa_, é coiza superflua: porque ou tenha um, ou dois _ss._ sempre seá-de pronunciar, da-mesma sorte. Nas linguas mortas, faso escrupulo, de mudar uma letra: mas nas vivas, em que nós temos todo o poder, e uzo, quando a boa pronuncia nam ensina o contrario, sam superfluas as repetisoens.

Os nosos Italianos somente dobram as letras, quando a pronuncia é diferente: e sam tam escrupulozos observadores da-pronuncia, que nam á Nasam, que os-iguale. De que nace, a grande dificuldade que os Estrangeiros tem, em pronunciar bem a nosa lingua, nam obstante ser labial. porque nam tendo eles, ouvido tam esperto, para poder perceber, a diferente pronuncia das-letras dobradas; na pronuncia delas, servem-se de uma pronuncia doce e simplez; a qual os-acuza, por-Estrangeiros. O motivo que os Nosos tem, para pronunciarem asim, é uma antiga tradisam, desde o tempo em que a lingua Latina, era viva e domestica entre os seus antepasados. pois é sem duvida, que os Romanos cuidavam muito, em pronunciar bem a sua lingua; e que os mestres, ensinavam isto aos dicipulos com cuidado. Esta tradisam conservou-se sempre em Italia. e nacendo o Italiano, da-corrusam do-Latim, conserváram sempre as mesmas letras dobradas, que os Latinos tem: e talvez acrecentáram mais alguma. Donde vem, que os Italianos, achando no-Latim as letras dobradas, pronunciáram-nas como dobradas: e, por-este mesmo principio, pronunciando o Italiano, com alguma semelhansa do-Latim, dobráram tambem as letras da-sua lingua por cuja razam, sam nela desculpadas, as repetisoens. Os Francezes dobram algumas letras, por-necesidade, para distinguirem as pronuncias: outras dobram, porque tomáram os ditos nomes, dos-Gregos, e Latinos, entre os quais antigamente se-pronunciavam, e escreviam asim: como mostram os omens, que escreveram nesta materia. Tambem nisto tem variado muito: e nam sam aprovados, polos melhores criticos. E oje os Francezes mais doutos, regeitam muitas letras, que parecem escuzadas, por se-nam-pronunciarem: como adverte o P. Lima, na sua Arte Portugueza, e Franceza. Muitos Francezes sam de parecer, que se-devam desterrar todas. e talvez com o tempo, escrevam como falam: vistoque ainda nam á muito tempo, que esta lingua se-comesou a purificar: o que nam excede o tempo, de Luiz XIV. Mas concedamos-lhe o mesmo, que oje concedemos, aos Ebreos, Caldeos &c. é certo, que a lingua Portugueza, todos asentam, se-deve escrever como se-pronuncîa: e asim, nam deve receber letras, que se-nam-proferem.

Deste meu parecer, sam muitos Portuguezes de boa doutrina, com quem tenho conversado nesta materia: os quais nam podiam sofrer, que, sendo a pronuncia a regra da-Ortografia; ainda asim ouvesem omens prezados de doutos, que embrulhasem a Ortografia, com a preocupasam de quererem seguir, a derivasam e origem. Se eu ouvese de escrever, tudo o que me ocorre nesta materia, ou tudo o que se-pode dizer nela, faria um longo tratado; que seria contra o meo asumto, e tambem contra a necesidade da-materia, a respeito de V. P. Direi somente, o que pertence ao meu argumento. Nam obstante que eu á muitos anos, viva nesta opiniam, que a Ortografia comua é muito má; e, com esta ideia, tenha feito um tratadinho dela, para uzo, e regulamento meu; contudo nam me-atrevia, a declarar a todos, o meu animo, como faso a V. P. sabendo, que ainda os mais doutos se-ririam, de que um Estrangeiro, viese dar regras, nesta materia: Sem se-lembrarem, que tambem os que nestes ultimos seculos, escrevèram sobre a Ortografia Latina, eram Estrangeiros nela: semque por-iso, sejam mal ouvidos. Mas agora, devendo dizer a V. P. o meu parecer nela, puz de parte, todos os respeitos politicos; e nam só quiz apontar, o que condeno; mas, para o-fazer melhor, tive a curiozidade de ler, o que dise nesta materia o P. Bluteau. cuja leitura me-confirmou, no-meu propozito, e me-convida, a abrir-me mais promtamente: porque alfim vejo, que tenho mais padrinhos, doque nam cuidava[6].

Digo pois, que da-observasam que asima fiz, e maxima que estableci, se-devem tirar as reflexoens, para as outras letras, e para todas as mudansas e corresoens da-Ortografia. E comesando pola letra _A_, dobram alguns esta letra, em _Menhaan_, _Vaan_ _&c._ e deste parecer, é Duarte Nunes de Leam. Nam se-pode intender, a razam destes omens. Na pronuncia, nam se-ouve aquele segundo _A_, e seria verdadeiro ridiculo, quem o-quizese pronunciar. e asim porque se-aja de escrever, eu nam intendo. O certo é, que a regra da-pronuncia, ensina o contrario. Daqui pasando ao _B_, digo, que esta nam se deve conservar, senam naqueles nomes, que especialmente a-tem na pronuncia, como _obstaculo_, _obstante_ _&c._ mas naqueles, que oje se-pronunciam sem ela, parece-me escrupulo demaziado. Sobre o _C_, acha-se alguma diversidade entre os mesmos Portuguezes, em que lugares deve entrar quando tem cedilha, _ç_. Comumente antes das-terminasoens em _ão_ o-escrevem, e mais em outras partes: sobre o que nam á regra alguma mais, que o uzo. Nisto alguns sam tam escrupulozos, que se encontram escrito com _s_, _Sapato_, fazem um orrivel espalhafato. Outros desterram o dito _c_, e em seu lugar escrevem dois _ss_. Mas para falar a verdade, e examinar as coizas sem paixam, tudo isto sam iluzoens. Nenhuma diferensa na pronuncia se-acha entre o _c_, _e_ o _s_: se alguem contrareia isto, que me-fasa a merce de mo-provar: porque o meu ouvido, que é bastantemente advertido, nam conhece esta diversidade. Isto suposto, pór dois _ss_, em lugar do _c_, é uma solenisima ridicularia, sem mais razam, que querer distinguir-se dos-outros. Mas, nam merecem mais indulgencia, os que se-escandalizam de lerem, _Sapato_, _Surrador_ _&c._ com _s_: porque na minha estimasam asim se-deve escrever. Eu verdadeiramente nam sei donde veio, que o _ça_, se-pronunciáse _sa_: mas se é permitido conjeturar em materia tam oscura, suponho que foi, por-engano de quem escrevia, que pintava mal o _s_: e asim com o tempo tomáram-no por-_c_: Porque a falar a verdade o _c_ com cedilha sam dois _cc_ contrapostos, e que imitam bastantemente um _s_, asim [Illustração]: onde continuando a pronuncia do-_s_ por-tradisam; e achando-se escrito o dito _ç_; intendèram que era uma particular especie de _c_, e asim o-escreveram. Seja como for, o _c_, em tais cazos vale um _s_. e por-esta razam cuido, que é mais proprio, e mais natural, servir-se desta letra simplez, que do-dito _c_. Desta sorte averia menos confuzam na Ortografia Portugueza, se asentasem todos, a nam escrever antes de _a_, ou _o_, ou _u_, senam um _s_, e nunca o dito _c_. Dirmeám alguns, que tambem o _c_ antes de _e_, ou _i_, vale um _s_: e que será tambem necesario desterralo, e convertelo em _s_. Mas eu respondo, que á mui diferente razam. porque o _c_, antes de _e_, ou _i_, tem o seu proprio soido, sem violencia alguma: e aindaque se-posa compensar com _s_, contudo neste cazo deve-se permitir alguma coiza ao uzo, que o-introduzio. Nam asim o _c_ antes de _a_: pois para fazer o soido que eles querem, deve violentar-se, sem ter analogia com as linguas, de que deriva, a nosa Portugueza: e asim parece-me grande superfluidade. Este é o meu parecer: Contudo se alguem ateimáse a servir-se do-dito _c_, nam faria disto um cazo rezervado: comtantoque confesase, que igualmente se-pode escrever com _s_: e que nam se-escandalizase, de quem fizese o contrario.

Desta regra, de escrever conforme a pronuncia, crejo que se-pode achar excesam no-_Ch_. Tem esta letra aspirada com o _h_, uma pronuncia em Portugal semelhante ao _x_. e asim dizemos _Choro_, _Chove_ _&c._ como se estivera escrito, _Xoro_, _Xove_. Contudo algumas vezes se-deve pronunciar; como se-fose um _k_. o que intendo dos-nomes que vem do-Grego, e nos-quais se-ouve o _k_ na pronuncia. vg. _Architetura_, _Machina_, _Chimica_ _&c._ O Bluteau nam admite isto, nos _Opusculos_; e defende, que sempre o _ch_ se-deve pronunciar quazi semelhantemente ao _x_. Mas ele mesmo se-contrareia no-Dicionario: pois diz, que em Portuguez se-deve escrever, _Archanjo_, _Patriarcha_ _&c._ com _ch_, aindaque se-pronuncie o _k_: Tomára pois que me-dese a diversa razam, porque em outros nomes oriundos da-mesma Grecia, se-deva escrever com _qui_ v.g. _Monarquia_ _&c._ O certo _é_, que em ambas as partes a razam é a mesma. Antes parece-me, que com maior razam se-deve fugir o _qui_: porque em Portuguez despois do-_q_, sempre se-pronuncia o _u_, desorteque o _q_ por-si só nam une com as vogais, sem se-pronunciar o _u_. E como seria erro pronuncialo, em _Monarchia_, _Chimica_ _&c._ daqui vem que também é erro, escrevelo. A quem nam agradar esta minha opiniam, de escrever estes nomes por-_ch_, sou de parecer, que adóte o _k_ dos-Gregos: pois é melhor chamar de fóra, uma letra Estrangeira, doque escrever o _q_, que em Portugal geralmente tem diferente pronuncia: o que nam sucede no-_ch_, que ja em muitas disoens está recebido em Portugal, com privilegios de _k_.

E nam obsta, que a maior parte dos-Ortografos Portuguezes digam, que o _k_ é superfluo no-Portuguez: nam é o mesmo dizelo, que provalo: aqui nam á meio, ou se-deve admitir o _ch_ com privilegios de _k_; ou adotar o _k_, em seu lugar. Sei que podem argumentar com _Aquele_, _Aquilo_ _&c._ em que parece nam se-ouve o _u_: mas isto provèm da-pronuncia, que o-toca levemente; porque em todas as palavras Portuguezas o _q_ faz pronunciar o _u_: _Quando_, _Quanto_ _&c._ E principalmente avendo-se de introduzir, em disoens novas, ou Gregas, deve sempre observar-se o uzo mais comum. Duarte Nunes poem sempre _c_ antes de _t_, como em _Docto_, _Doctrina_ _&c._ Desta afetasam zomzombam os omens de melhor juizo; e cuido que com razam: pois se aos nosos ouvidos é insoportavel, quem fala asim, porque á-de ser toleravel, quem o-escreve? Bluteau admite o tal estilo alguma vez, para evitar o equivoco; v.g. _Compacto_, e _Compato_: mas eu nam vejo nisto equivoco, pois na segunda disam o _Com_, deve estar separado. Mas aindaque ouvese equivoco, o contexto o-tira. Outros em lugar do-_c_, sempre poem _u_, e dizem, _Auto_ _&c._ tambem esta afetasam é condenavel: porque _Ato_, é mui boa palavra, e todos a-intendem. Em _Douto_ _&c._ pode-se conceder alguma coiza ao uzo.

Costumam muitos Portuguezes dobrar os ee finais em muitas vozes, especialmente em _Fée_, _Sée_ _&c._ e alguns dobram-nos em muitas outras palavras, inclinando-se, segundo dizem, a uma antiga pronuncia. Mas ou seja antiga, ou seja de novo inventada, deve-se fugir esta introdusam, pola mesma razam que disemos, de ser contraria à pronuncia. Concorda o Bluteau dizendo, que em algumas palavras se-supre, com um acento sobre o _é_. Mas eu digo, que nam sò em algumas, mas em todas se-deve escrever um só _e_. e quanto ao acento agudo, digo, que se-lhe-deve pór, nam para mostrar, que falta um _e_; mas para mostrar, que se-deve carregar a vogal; porque asim ensina a pronuncia.

Pola mesma razam da-pronuncia, se-deve desterrar das-palavras ou Portuguezas, ou aportuguezadas o _Ph_, em lugar de _F_. Muitos Portuguezes introduzem, sem advertencia, em lugar do-_f_, o dito _ph_: outros dam longuisimas regras para distinguir, quando se-deve escrever um, quando outro. mas uns e outros discorrem muito mal. O _ph_ dos-Gregos era um _p_, aspirado com muita forsa, e que alguma coiza declinava para _f_. e nam avendo em Portugal semelhante pronuncia, é erro introduzir o dito _p_, quando temos cá o _f_, que tem o seu próprio soido. Daqui vem que aindaque _Filozofia_, _Triumfo_ _&c._ na sua origem tivesem o _ph_, contudo oje que sam palavras Portuguezas, nam só adotadas polos doutos, mas de que indiferentemente se-servem todos; devem-se escrever com simplez _f_. Temos o exemplo nos-mesmos Latinos, que, quando adotavam algumas palavras Estrangeiras, pronunciavam-nas com a pronuncia Romana: e davam-lhe as proprias declinasoens Latinas. Talvez lhe-conservavam algumas proprias letras, em atensam de serem linguas vivas. E muitas vezes, para se-livrarem da-impropriedade, escreviam, e pronunciavam as ditas letras em Grego puro: como todos os momentos encontramos nos-seus escritos, principalmente nas cartas de Cicero, e alguns outros. Esta liberdade de acomodar as palavras, ao estilo da-propria lingua, tiveram sempre todos os Povos cultos: e devem ter tambem os Portuguezes. e asim significando o _ph_ um _p_ aspirado, com algum soido de _f_; nam o-devemos uzar, vistoque nas palavras Portuguezas, nam temos tal pronuncia.