Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Part 32

Chapter 323,580 wordsPublic domain

Nem cuido que V. P. me-mostrará, que às Ciencias rezultase utilidade alguma, do-uzo do-silogismo. A falar verdade, nenhum omem douto cuidou nunca nestas ridicularias: os sofistas sim. Os seculos do-silogismo foram os mais barbaros, e ignorantes. Ele comesou cá no-Ocidente no-IX. seculo: aumentou-se com muito mais exceso no-XI. e durou até o meio do-XVI. E que coiza boa acha V.P. neses tempos? Polo contrario, desde o principio do-XVII. em que o silogismo se-comesou a deixar, e se-procurou outro metodo; o aumento é tam sensivel, que serîa loucura mostrálo: muito mais neste ultimo seculo, em que os olhos estam mais abertos. Asimque, com estes exemplos à vista, nam parecerá maravilha que eu diga, que o silogismo vale pouco, e tem servido de muito pouco: e que avendo outra ideia melhor, é loucura, demorar-se com ele. De tudo isto concluo, que a Logica que pode servir no-mundo, é mui diversa, desta chamada Logica das-escolas: a qual por-muitos principios nem menos se-deve ler. Creio que V.P. me-perdoará esta digresam, com que interrompi, o que lhe-queria dizer da-Logica; se-quizer refletir, que nam é alheia do-meu argumento: antes justifica o que abaixo lhe-direi, e me-poupa algumas repetisoens. Torno à ideia, que lhe-queria dar da-Logica.

Digo pois, que o metodo de filozofar nam se-deve seguir, porque o diz este, ou aquele autor: mas porque a razam e experiencia mostram, que se-deve abrasar. Isto é o que eu nam poso meter em cabesa, a muita gente: porque a maior parte do-mundo, nam examina os principios das-coizas; mas vam uns detraz dos-outros como carneiros; sem mais eleisam, que o costume: e antes querem errar, por-cabesa alheia, que acertar pola propria. Persuadem-se, que os velhos nam podem ensinar, coiza alguma má: e recebem os tais ditames, com a posivel venerasam. Nenhum toma o trabalho de examinar, se a opiniam é boa, ou má: uma vez que a-diseram os antigos mestres, é o que basta. De que nace, que omens de ingenho mui perspicaz, seguem doutrinas contrarias a toda a boa razam; e que eles mesmos dezaprovam, quando lhas-explicam bem. Entre tantos Peripateticos, que V.P. conhece, nam achará algum que duvidáse uma só vez, se Aristoteles na sua Logica dise bem, ou mal: como conste que o-dise Aristoteles, é o que basta: nam faltará modo de explicar, a dita doutrina, ou texto. E deste principio nacem, aqueles grandes comentarios, com que amofinam a paciencia ao mundo; e fazem perder o tempo, nas escolas.

Bem claro é que um omem, que escrupulozamente comenta um autor, supoem ser verdade, quanto ele diz: pois de outra sorte, devia fazer um rigorozo exame, na materia que comenta. E eisaqui tem V.P. que estes tais, querendo ensinar aos outros a discorrer bem, eles sam os primeiros, que discorrem muito mal. Falava eu em certa ocaziam, com um mestre Peripatetico, e caindo o discurso sobre uma destas materias, me-produzio ele um texto do-Filozofo, em uma questam bem controversa. Respondi eu, que nam me importava, o que dizia o Filozofo, mas o que ele na dita conversasam me-provava. Aqui admirado o omem clama logo, V.P. nam pode negar o texto: deve explicálo. ao que eu pontualmente respondi: Quem lhe-dise a V.P. que eu nam poso negar o texto? dise-lho algum concilio Ecumenico, ou algum texto da-Escritura? Se V.P. me-citáse, alguma propozisam de Euclides; em tal cazo lha-admetiria; nam porque Euclides o-dise, mas porque a evidencia mostra, que dise bem; e todos reconhecem a verdade, das-ditas propozisoens: fóra daqui nam admito senam aquilo, que me-provam com clareza, e verdade. Onde é necesario que V.P. primeiro que tudo, me-prove trez coizas. 1. Que Aristoteles nam podia dizer uma parvoice, advertidamente. 2. que nam podia inganar-se. 3. que o que nós oje achamos nos-seus escritos, seja verdadeiramente o que ele dise: postas estas circunstancias considerarei entam, o que ei-de responder ao texto. Até aqui o discurso, que eu tive com o dito Padre. Agora acrecento, que o dito mestre, ouvindo estas minhas razoens, nam se-aquietou: mas continuou de admirar-se damesma sorte, que se nam lhe-tivesem respondido coiza alguma.

Concluo pois, que é necesario seja bem louco, quem nam conhece, quam grande impedimento seja, para discorrer bem, seguir as pizadas de um autor só, ou seja Aristoteles, ou algum moderno. A Verdade, e a Razam é uma só. Todos podemos discorrer, e intender o que nos-dizem: e quem fala em maneira que melhor o-intendam, e prova melhor o que diz, ese é que se-deve seguir, com preferencia aos outros. Se acazo nam prova o que diz, antes o que diz nam parece bem, ou á razoens para se-intender, que é mao; nam se-deve fazer cazo, de tais discursos. Esta é a pedra de toque, nam só da-Logica, mas de qualquer outra Faculdade: tomar por-principios coizas tais, que as-intendam todos, os que dam alguma atensam às ditas regras: mas principalmente é necesario, na Logica. Certamente que a Logica nam foi feita, para Clerigos, ou Frades, ou pesoas de uma exquizita erudisam: deve servir a todos os que falam, e raciocinam: e nam só em discursos estudados; mas em qualquer sorte de discurso, publico ou particular; serio ou agradavel. Se ela serve, para ensinar a discorrer bem, deve dar ditames, que posam servir em toda a parte, em que se-discorre, e se-deve discorrer bem. Importa pouco, o que dise este ou aquele, da-Logica: o que importa é, facilitar os meios, para nam se-inganar: e buscar para isto um metodo, que a boa razam persuade ser util, e os omens que tem voto na materia, reconhecem com razam, e experiencia, ser o unico meio, para conseguir aquele fim. Alem diso propolo de um modo, que qualquer pesoa de juizo, se-capacite da-dita verdade. Isto suposto, farei a V.P. algumas reflexoens, sobre o metodo de dirigir o juizo. Mas devo supor, que falo com um omem, sem nenhuma preocupasam: e que nam tenha lido Logica alguma: ou, se a-tem lido, que procure esquecer-se de tudo: mas no-mesmo tempo que tenha juizo claro, para conhecer as coizas. a este omem farei, as seguintes reflexoens.

_IDEIA DA LOGICA_

Nós temos uma alma capaz de conhecer, todas as coizas deste mundo. Recebemos do-Criador esta alma, dotada de maior perspicacia, doque oje nam temos. O pecado de noso primeiro pai, nos-trouxe por-castigo, sermos sugeitos ao ingano: e por-pena do-mesmo pecado se-nos-limitou, a esfera da-nosa perspicacia: nam conhecemos tam bem como ele, e somos mais sugeitos, a conhecer mal. Contudo a alma é a mesma, que era ao principio: foi criada para conhecer a Verdade, e ficou-lhe sempre a propensam para ela: em modo que, quando a alma ve uma verdade clara, nam pode deixar de conhecèla, e abrasála. Nenhum omem de juizo duvîda, se é omem: nenhum duvîda, se fala, ou está calado; se está em pé, ou asentado: por-forsa á-de admetir uma destas coizas, porque sam mui claras; e uma delas á-de ser verdade. Por-iso nós pecamos, e pecando nos-desviamos da-verdade da-lei divina, que é tam conforme à boa razam; porque nam damos atensam, à dita verdade: que se a-desemos, sem duvida ficariamos persuadidos, que se-devia praticar, o que ela diz. Mas a rebeldia que experimentamos, no-noso corpo, que com dificuldade se-sugeita, aos ditames d’alma; é a cauza deste mal. Ele nos-inclina sempre, para a parte contraria, com a isca de coizas agradaveis: e a alma, divertida com outras considerasoens, dificultozamente volta os olhos para a verdade: e por-iso a-nam-recebe: e por-iso peca. Esta é a origem, de todos os nosos inganos, e de todos os nosos danos. Se a alma nam fose arrastada, polos tumultos da-fantezia, que comumente a-ingana; conheceria mui bem toda a verdade: nam só aquelas que conduzem, para posuir um bem eterno; mas tambem, estas verdades indiferentes das-coizas naturais: e discorreria sem ingano, em toda a materia: mas as cauzas dos-inganos sam tam frequentes, nesta vida mortal; que nam é maravilha, se os omens ajuizam tam mal: e ajuizando asim, obrem em tudo mal.

Isto suposto, a unica medicina que se-tem achado, para ajuizar bem, é desviar as cauzas, que nos-conduzem ao ingano. Ponho de parte, o ajuizar bem para conseguir, a bemaventuransa sobrenatural: (aindaque daqui posa receber muita luz; contudo como necesita de outras coizas, e nam é ese o meu argumento; por-iso o-deixo) e falo somente do-discorrer bem, em todas as outras materias. Digo pois, que o verdadeiro segredo de ajuizar bem, é desviar as cauzas que nos-inganam, e fazem julgar mal. Para fazer isto, é necesario examinar os modos, com que a alma conhece; e meios de que se-serve, para se-explicar.

Nós nam trazemos da-barriga da-maen, conhecimento algum: todos os-adquerimos despois de nacidos. Basta olhar, para o que faz um menino; para ver a sua ignorancia, e que nace despido de todo o conhecimento. Ele aprende a sua lingua, como nós aprendemos uma lingua estrangeira: quero dizer, asimcomo nós, aprendendo uma lingua estrangeira, só formamos ideia dos-nomes que vamos aprendendo, e nam daqueles que ainda nam ouvimos: asim tambem um menino, só tem ideia das-palavras que ouve, e nenhuma das-outras, que nunca ouvio. Mas alem diso nem menos tem ideia das-coizas, que significam os tais nomes, senam das-que ve, ou ouve. Um menino nam profere, senam as palavras que ouve: só intende e fala daquilo, que lhe-tem dito, ou visto. o que mostra claramente, que nam tem outros conhecimentos, senam os que entram polos sentidos. Os que defendem ideias inatas, que mostrem alguma, que nam entre polos sentidos; ou nam se-deduza das-ideias, que intráram por-eles: estou certo, que nam aparecerá alguma, a que nam posamos descobrir, esta origem.

Sam pois os sentidos, as principais portas, polas quais entram as ideias, na alma. Umas destas ideias entram, por-um só sentido: v. g. a _Solididade_ dos-Corpos, que entra polo tato: outras entram por-dois sentidos: v. g. a _figura_, que pode intrar polo tato, e juntamente polos olhos. Algumas ideias originam-se em nós, com a meditasam, ou reflexam: deste genero é a _vontade_, _percesam_ &c. Outras entram umas vezes por-_sensasam_; outras, pola _reflexam_: v.g. o _gosto_, _dor_, _existencia_, _unidade_, _potencia_, _sucesam_. Finalmente muitas ideias simplezes, se-originam em nós, por-meio das-cauzas privativas; tais sam as ideias que nós temos, das-qualidades dos-corpos: v.g. a ideia de _negrura_ &c. O exame dilatado deste negocio, pertence a outro lugar: basta por-agora que o Logico conhesa, que por-todas estas vias podemos receber, ideias simplezes.

Admiravel é a virtude que a alma tem, para unir, e combinar estas diferentes ideias simplezes, que por-este modo recebe. Verdade é, que alma nace despida, de todo o conhecimento atual: mas fica mui bem recompensada, com a virtude de-que Deus a-dotou, de poder conseguir muitas, e novas ideias, com diferentes combinasoens. Unindo as ideias, que intráram polos sentidos, fórma a alma muitas outras ideias: outras vezes examinando as proprias ideias, nacem diferentes ideias na alma. Desta diferente combinasam de ideias, nacem todas as ideias compostas, que nesta vida experimentamos.

Mas aindaque sejam infinitas as ideias compostas, que a alma fórma, podem-se reduzir, a trez sortes de ideias: que sam as ideias dos-_Modos_, das-_Sustancias_, e das-_Relasoens_. As ideias dos _modos_ sam aquelas ideias que nós formamos, de diversas coizas que nam existem por-si, mas sam dependencias de outras coizas. v.g. a ideia que eu tenho de um _triangulo_, de uma _coluna_, de um _circulo_ &c. Estas ainda sam de duas maneiras: ou sam ideias de _modos simplezes_, ou de _modos mixtos_. Chamo modos simplezes, às ideias dos-modos, que sam compostas, de duas ideias damesma especie: v.g. a ideia que eu tenho de _doze_, de _cem_ &c. que é composta das-ideias, de muitas unidades juntas: a ideia de _imensidade_, que é composta, da-repetisam de diferentes ideias de distancia, repetidas sem fim: e como cada distancia se-supoem ser, uma modificasam de espacio; a dita ideia é uma ideia composta. Chamo _modo mixto_, uma ideia composta, de modos de diferente especie: v. g. a ideia de _beleza_, que é um composto de diferentes cores, e proporsoens, que dá gosto vendo-se. tambem a idea de _amizade_, _mentira_, _obrigasam &c_. Estas ideias une o intendimento, sem examinar se existem, ou nam: e a estas dá o nome, que lhe-parece. Os omens porem comumente, recebem estas ideias dos-outros, que lhe-explicam o significado, de muitos termos. Desorteque ou por-aplicasam, ou por-experiencia recebemos as ideias, dos-_modos mixtos_.

A segunda especie de ideias, sam as das-_Sustancias_. Nam podendo nós intender, como as ideias simplezes existam por-si só, nos-acostumamos a supor alguma coiza, que as-sustenta: ao que damos o nome, de _Sustancia_. Digam o que quizerem, os que falam de _Sustancia_, como de uma coiza, que eles intendem bem o que é; certo é, que nam tem os omens, mais clara ideia de sustancia. Onde ideia de sustancia, é ideia de uma certa coiza incognita; a qual, quando nós queremos explicar, nam sabemos dizer o que é: mas somente dizemos; que é uma coiza, que nós supomos ser a baze, daquelas ideias que vemos. E esta ignorancia é aplicavel, a qualquer sorte de ideia de sustancia. Quanto às ideias das-particulares sustancias, esas formamos nós, unindo quantas ideias podemos ter de uma coiza. v.g. unindo a ideia de _cristalino_, _durisimo_ &c. formamos ideia, do-diamante. Mas alem destas, devemos unir-lhe, a ideia confuza que nós temos, de uma coiza que as-sustenta: e daquelas ideias, e desta, rezulta a ideia composta, que nós temos neste mundo, da-sustancia do-diamante. Do-que se-segue, que tam clara ideia temos nós, da-sustancia do-Corpo, como do-Espirito: pois nenhuma outra ideia temos mais, que dos-modos ou efeitos, que se-observam; unidos à dita ideia de uma coiza, que supomos sustantála: cujos efeitos tam claramente se-conhecem do-Espirito, como do-Corpo. Alem destas ideias de sustancia, formamos outra ideia composta, ou complexa de sustancia, unindo diferentes ideias de sustancias. v. g. unindo diferentes ideias de naos, pesas de artilharia, marinheiros, almirante &c. fazemos a ideia complexa de _armada_: e damesma sorte de _exercito_, _mundo_ &c. A estas damos um só nome, porque na verdade é uma só ideia.

A terceira sorte de ideias, sam as _Relasoens_. Estas fórma a alma, comparando uma coiza com outra: de que nacem mil denominasoens, que tem proprios nomes, e nos-conduzem a conhecer, outra coiza: e sem os tais nomes, nam conhecemos muitas relasoens. Estes nomes só se-podem dar, quando se-poem o fundamento deles. v. g. Pedro é omem: mas se ele se-caza, este contrato serve para lhe-dar o nome, de _marido_. Estas ideias de relasoens, sam muitas vezes mais claras, que as ideias das-coizas, que estam sugeitas às ditas relasoens; ou das-sustancias. A ideia de _pai_, e _irmam_ é mais clara, que a ideia de _omem_: e com muita mais facilidade eu intendo, que coiza é um _irmam_; doque intendo, que coiza é um _omem_. Conhece-se mais claramente, que coiza é um _amigo_, doque que coiza é _Deus_. Porque o conhecimento de uma asám, ou de uma simplez ideia, basta muitas vezes, para me-dar o conhecimento, de uma relasam. Polo contrario, para conhecer um ser sustancial, é necesario um exato conhecimento, de uma colesam de ideias. Devemos porem advertir, que todas estas relasoens se-terminam, em ideias simplezes: aindaque nos-paresa, tudo o contrario: e os nomes que conduzem a mente, para conhecer outra coiza, alem do-sugeito da-denominasam; sempre sam relativos. Que todas as _relasoens_ sejam compostas, de ideias simplezes, é coiza para mim certa: mas para o-provar, serîa necesario, fazer um longo discurso, sobre todas as especies de relasoens: para mostrar, donde vem a ideia de _Cauza_, _Efeito_, _Lugar_, _Extensam_, _Identidade_, _Diversidade_ &c. como tambem as relasoens morais: v. g. _Bem_, _Mal_, _Crime_, _Inocencia_ &c. Mas rezervo-me para explicar iso a V. P. em outra ocaziam: e agora continuo as minhas reflexoens. Esta em breve é a origem, de todas as nosas ideias.

Daqui fica claro, que das-nosas ideias umas sam simplezes, outras compostas: umas _adventicias_, que entram polos sentidos, e outras que a mente faz, a que chamam _faticias_. Destas umas sam claras, outras confuzas; umas adequadas, e outras inadequadas. Finalmente reais, e chimericas; singulares, particulares, e universais.

De todas as ideias, as que mais frequentemente faz a alma, sam as _universais_. Estas fórma a alma, considerando uma coiza, que tem outras semelhantes: onde considerando todas em uma masa, sem considerar diferensa alguma particular, formamos ideia universal. v. g. Temos trez sortes de triangulos: um se-chama _Equilatero_, outro _Isosceles_, e o terceiro _Escaleno_: cada um dos-quais tem suas particulares propriedades. Mas considerando os ditos triangulos somente, como uma figura de trez angulos, sem determinar as propriedades de cadaum, formamos uma ideia universal, que se-pode aplicar, a cada triangulo de per-si. Este modo de considerar, se-chama nas escolas _precizam_: palavra tirada do-verbo _Præscindo_, ou _Præcido_, que é o mesmo que cortar, separar: porque separamos os triangulos, das-suas propriedades.

Estas ideias universais tem entre os Logicos, diversos nomes. Chamam a uma, _Genero_: a outra, _Especie_, _Diferensa_, _Proprio_, _Acidente_. Basta intender brevemente, o significado destas vozes, para poder servir-se na ocaziam; e intender o que os Logicos, querem dizer com elas: nam considero outra utilidade, nestes cinco Predicaveis. Polo contrario, tudo quanto deles dizem os Logicos, comumente é falso: pois supoem claramente, que nós temos perfeito conhecimento, das-Esencias: o que é manifesta falsidade.

Sendo pois, que as nosas ideias, só se-podem comunicar aos outros, por-meio daqueles sinais, a que chamamos vozes; devemos fazer alguma reflexam, sobre esas mesmas vozes, ou palavras: o que pode conter, alguma coiza util. As palavras nam significam os pensamentos, por-virtude natural; mas porque asim o-determináram os Omens. A maior parte das-palavras sam gerais, quero dizer, significam ideias gerais: porque serîa imposivel, e inutil, que cada coiza particular, tivese um nome distinto: o comercio umano farseia insuportavel, e os Omens nam aumentariam os seus conhecimentos. Acostumando-se os Omens, a fazerem ideias abstratas, deram-lhe nomes, a que chamam gerais, ou universais. Á nomes para as ideias simplezes, para os-modos, e relasoens &c. e todos estes é necesario saber, como se-formam, e que coizas particulares tem. Sucede às vezes, que se-introduzam imperfeisoens nas palavras, por-cauza que as ideias que significam, sam mui complexas, e sam cauza que os nomes fiquem duvidozos. Sucede tambem, que os Omens abuzem das-palavras, servindo-se de umas, a que nam dam significado certo, ou lho-dam mui oscuro &c. Devem-se remediar estes defeitos: tendo prezente a origem deles, e o modo com que se-remedeiam: o que se-observa nos-autores, que explicam isto. Isto é o que pertence, à _Percesam_.

Alem da-faculdade que a mente tem, de formar ideias, a cuja damos o nome de _Percesam_; tem mais outra faculdade, de comparar uma ideia com outra, e reconhecer a conveniencia, e disconveniencia delas: ao que chamamos _Consentimento_, ou _Juizo_. Asimque o julgar nada mais é, que certificar-se a mente, que uma coiza convem a outra, ou nam convem: e comparando ela uma ideia com outra; reconhece, e se-certifica da-conveniencia, ou disconveniencia. Se o juizo se-explica, com as vozes; chama-se _Propozisam_, ou _Enunciasam_: e em tal cazo, tanto aquilo a que convem uma coiza, como as vozes porque se-explica; chama-se _sugeito_ da-propozisam: e o que convem, chama-se _predicado_.

Decendo pois à diversidade de juizos, digo, que se a mente se-certifica, da-conveniencia entre duas propozisoens, chama-se _juizo afirmativo_; se da-disconveniencia, chama-se _negativo_. Nam digo, que aja juizos negativos, no-sentido em que o-tomam os Logicos vulgares: mas chama-se afirmativo, ou negativo, segundo a coiza que afirma. Esta diversidade de propozisoens, ou juizos, alcansa-se do-sentido, nam das-palavras: as quais sendo negativas, podem ter sentido afirmativo. O que muitos nam advertindo, fazem mil disputas, e arengas sobre coizas bem claras.

Qualquer dos-nosos juizos, (o mesmo digo das-propozisoens, que sempre correspondem aos juizos) afirmativo, ou negativo, ou explica o nome; ou explica as nosas ideias; ou explica alguma outra coiza que existe: ao primeiro chamamos, juizo _Nominal_: ao segundo, _Ideial_: ao terceiro, _Real_. v.g. Quando eu digo: _O oiro nam é pedra_: este juizo é _real_. quando digo: _A ideia que eu tenho de pedra, é diferente da-ideia, que tenho de oiro_: este juizo é _ideial_. quando digo: _Este nome Amor significa, um afeto da-alma, ou um juizo que formo, da-excelencia de uma pesoa em algum genero, e utilidade que me-pode rezultar dela_: este juizo chama-se _nominal_. Do-conhecimento destas trez sortes de juizos, depende o bom ou mao uzo, que fazem os Omens, das-suas faculdades, em qualquer materia que se-lhe-propoem. A maior parte das-disputas nace, de que nam intendemos bem, as definisoens dos-nomes: e cadaum as-toma, no-seu sentido. O mesmo digo das-definisoens, que explicam as ideias dos-outros, principalmente dos-mortos. Atribuimos aos autores que lemos, mil coizas que eles nunca diseram. Servimo-nos dos-Dicionarios, como de oraculos: sem advertir, que aqueles que os-compuzeram, podiam sofrer o mesmo ingano, procurando a verdadeira inteligencia deste nome. O mesmo sucede nas definisoens reais, tanto nas da-esencia, como de algum acidente ou modo. Persuadimo-nos, que sempre sam verdadeiras: e deste modo abrasando-as sem exame, establecemos um principio, que por-forsa nos-á-de conduzir ao ingano.

Sobre isto das-definisoens, é bem vulgar o erro dos-Logicos comuns, que dizem, que a definisam se-pode fazer por-uma ideia, ou simplez percesam, a que eles chamam, _Apreensam_. Isto é falso por-muitos principios: nem se-pode fazer definisam alguma, que nam seja, reconhecendo a conveniencia dela, com o seu objeto. Quando dizemos, _Animal racional_: (suponho agora, que esta seja a verdadeira definisam do-Omem: de que duvido muito, e com razam) ou a mente conhece a conveniencia daquela ideia, com a ideia de Omem; ou nam. Se a-conhece, define: mas em tal cazo produz um conhecimento, ou consentimento, a que chamamos _Juizo_: porque o expremir, ou nam expremir, com a boca o _Est_, nam faz ao cazo. Se a-nam-conhece, nam define; mas profere duas ideias separadas. É necesario intender, e advertir tudo isto muito bem, para nam se-inganar, com o que eles dizem.

Alem destes juizos, fórma a mente infinitos outros, damesma sorte, que disemos das-ideias. Temos juizos simplezes, compostos, singulares, e universais. A estas se-reduzem todas as sortes de juizos, ou propozisoens vocais. Conhece-se a especie a que pertence, pola qualidade do-sugeito.

Faz tambem a mente juizos verdadeiros, e falsos. E aqui é necesario o criterio, para nam se-inganar. Consiste o criterio da-verdade, na evidencia com que se-propoem uma coiza, desorteque nam deixe duvidar, de ser asim. Nisto se-inganavam manifestamente os Pirronicos; que chegáram, ou fingîram de duvidar daquilo mesmo, que viam com toda a evidencia. Sobre isto da-evidencia, á diversos graos: se a propozisam é evidente sem prova, chama-se axioma: se em vigor das-provas se-faz evidente, chama-se ilasam, ou concluzam evidente. Tambem estas concluzoens evidentes, segundo as materias recebem diversos nomes: umas vezes dizemos, que tem evidencia _metafizica_; outras _fizica_; e outras _moral_; as quais sem muito trabalho se-intendem. Finalmente acham-se juizos duvidozos, verosimeis, e inverosimeis: cuja natureza se-intende, com a simplez explicasam, e um breve exemplo.