Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)
Part 31
A 2.^a coiza que V. P. deve notar é, a serventia que tem aquelas regras, para discorrer sem ingano, em toda a materia. Traga V. P. à memoria, tudo o que tem estudado de _Priori, e Posteriori_, e tenha o sofrimento de considerar; se lhe-servem, ou nam, para intender, e discorrer bem em qualquer materia: ou para provar alguma coiza, que lhe-seja necesaria; nam só nos-atos publicos quando argumenta, ou defende; mas ainda no-seu bofete, quando compoem em alguma materia: ou ainda no-discurso familiar. Tenho tantas provas, da-sua candura de animo, que nam tenho receio que diga, ter experimentado utilidade. Mas eu nam quero por-agora, um juiz tam alumiado como V.P. contento-me que me-respondam os mesmos, que perdem os anos com estas arengas. Eu os-faso juizes nesta disputa: e lhe-deixo considerar, se, quando eles provam o que lhe-negam, ou discorrem familiarmente; o-fazem porque se-lembram das-regras; ou se o-fazem, porque asim se-costuma discorrer no-mundo: e a lisam que tem tido, lhe-suministra os argumentos e meios termos: e a natural penetrasam que cadaum tem, lhe-mostra, com a maior promtidam, a conexam das-partes? O que eu poso dizer neste particular é, que muitos Escolasticos, como ja apontei, me-diseram, que era inutil toda aquela machina de regras: e li alguns, damesma opiniam. O P. Arriaga no-prologo da-sua Filozofia diz claramente, que nam ditou muitas questoens da-fórma Silogistica, porque lhe-parecèram escuzadas: e que avendo vinte anos que era mestre; nunca vîra, que pesoa alguma se-servise da-ponte dos-Asnos, para argumentar, ou responder. E quanto a esta parte da-_Ponte dos-asnos_, achará V. P. muitos, que dizem ser inutil.
Mas eu paso adiante com o discurso, e creio, que nem menos me-mostrarám omem, que se-sirva das-Figuras, ou de alguma das-outras regras; quando quer provar alguma coiza seria. Conheso, que os que argumentam nesta materia, para mostrarem que a-tem estudado; ou os que nam querem argumentar com razoens, mas com palavrinhas, àmaneira dos-sofistas; poderám fazer algum uzo delas: o que digo é, que quando um omem quer provar, o que lhe-negam, nunca se-serve, de tais arengas. Se ele tem ingenho, e doutrina, mais de presa se-lhe-oferece o meio termo, e modo de o-dizer; doque a regra, que o-ensina. Se nam tem ingenho, estou certo que nem regras, nem figuras, nem modos, nem coiza alguma lhe-ocorrerá; com que posa discorrer fundadamente. Nunca me-sucedeo que, discorrendo comigo, me-viese à imaginasam, servir-me do-silogismo. nunca vi tratar negocio algum grave, com o meio da-Dialetica: ainda sendo as partes, pesoas de toda a penetrasam; e tendo perdido muito tempo, com a Dialetica. Isto da-Logica é o mesmo, que a Retorica: os ignorantes das-regras, se tem ingenho e alguma lisam, oram e provam melhor o que dizem, doque os Logicos e Oradores da-Escola. O omem ignorante das-regras, nam perde tempo com palavrinhas, mas vai direito à razam, e busca aquelas que conduzem, ao seu intento. Ora é sem duvida, que as razoens, e nam as palavras, sam as que persuadem, e provam o que se-quer. Poderám as palavras, e modo com que se-diz, dar mais luz às razoens: mas palavras sem razoens nada provam. E esta é a razam, porque os Logicos finos discorrem pior, que os que nam sam Logicos. E esta mesma razam me-dá fundamento para dizer, que é melhor que nam se-fale, em tais regras.
Acho ainda outra razam, e cuido ser mais forte, para nam seguir este metodo do-silogismo; vem aser, que o silogismo nam serve em modo algum, de ajudar a razam, para que aumente os seus conhecimentos, e neles discorra bem. Quando se-á-de persuadir, e discorrer bem, o primeiro e principal ponto está, em descobrir as provas: o segundo, em dispolas com tal ordem, que se-conhesa clara e facilmente, a conexam e forsa delas: o terceiro, em conhecer claramente, a conexam de cada parte da-dedusam: o quarto, em tirar uma boa concluzam do-todo. Estes diferentes graos se-conhecem muito bem, em qualquer demonstrasam matematica. Uma coiza é, perceber a conexam de cada parte, ao mesmo tempo que um mestre vai explicando a demonstrasam: outra coiza diferente, conhecer a dependencia, que a concluzam tem, de todas as partes da-demonstrasam: terceira coiza muito diferente, conhecer por-simesmo clara e distintamente, uma demonstrasam: e finalmente uma quarta coiza, totalmente diferente das-trez, ter achado as provas, de que se-compoem a demonstrasam. O que suposto, o silogismo nam faz mais, que mostrar a conexam das-partes, sem ensinar a buscar as provas: onde fica claro, que nam é de grande socorro à razam. Muito mais, porque a alma pode conhecer, e conhece, muito mais facilmente por-simesmo, a conexam das-partes; doque por-nenhum silogismo. Quantos omens nam vemos todos os dias, que intendem mui bem, toda a forsa de uma razam; a falacia, e eficacia de um discurso comprido; e discorrem mui acertadamente; sem terem ouvido falar em silogismos? E nam digo somente, entre os omens de boa educasam; mas quem quizer considerar, a maior parte da Africa, e America; achará omens que discorrem tam sutilmente, como os nosos Europeos; sem saberem reduzir um argumento à fórma. Achei negros vindos de la, tam maliciozos, e fingidos; que nam se-pode dizer mais. Ja eu dise a V. P. em outra parte, que me-tem feito muitas vezes mais forsa, as razoens de muitos rusticos, doque de alguns Logicos, e Oradores de profisam.
Ainda daqueles mesmos que estudam Logica, rarisimos sam que cheguem a conhecer, por-que razam trez propozisoens, combinadas de um certo modo, produzam uma conduzam justa: e que saibam com toda a individuasam, por-que razam de mais de 60. combinasoens diferentes, só umas 14. sejam boas. A maior parte destes estudantes contentam-se, com uma Dialetica tradicional: e nada mais fazem doque crer, o que lhe-dise seu mestre, que certos Modos reduzidos a certas Figuras, sam bons; outros, sam maos: sem chegarem a certificar-se, que na verdade asim é. Ora daqui saie por-legitima consequencia, que, se é verdade o que eles dizem, que o silogismo é o verdadeiro e unico instrumento da-razam, com o qual é que se-pode chegar, ao conhecimento das-coizas; antes de Aristoteles, ninguem raciocinou bem, nem teve conhecimento certo; e despois dele, entre vintemil omens nam se-achará um, que goze esa fortuna.
Mas eu creio que serîa louco, quem tiráse tal consequencia: observando-se claramente, que os Omens intendem as coizas bem, sem o dito socorro. Tomára que me-disesem, com que outra Dialetica conheceo Aristoteles, que muitos daqueles Modos eram certos, e outros falazes; senam com a penetrasam da-sua mente, que reconheceo a conveniencia que se-dava, entre umas ideias, e disconveniencia entre outras? A nosa mente tem de sua natureza a facilidade, de conhecer a conexam destas ideias, a polas em boa ordem, e tirar delas concluzoens justas; sem que para isto a-preparem, com artificio algum. Dizei a uma molher rustica, convalecente de uma grande infermidade, que asopra um nordeste agudo, e que o Ceo ameasa grande chuva: ela facilmente perceberá, que nam é tempo para sair de caza. O seu juizo une com toda a facilidade, estas diferentes ideias; _Nordeste_, _Nuvens_, _Chuva_, _Umidade_, _Frio_, _Recaida_, _Perigo de morte_: e isto em um abrir de olhos; sem ter necesidade daquela fórma artificial, e embarasada de quinze ou vinte silogismos. Ora é certo, que o silogismo nam suministra esta faculdade de perceber, e ordenar as ideias; nem suministra as ideias para iso: e como destas duas coizas dependa tudo; fica bem claro, que nam serve para discorrer bem.
Se V. P. observa o que dizem os doidos, achará, que eles nam se-inganam nas consequencias, mas nos-principios: e por-iso discorrem mal. Unîram-se por-alguma cauza, no-intendimento de um doido, duas ideias; v. g. a que tem de si, e a que tem de um Rei: postas as quais, discorre o omem mui bem: quer Magestade: quer gentilomens, e treno de soberano &c. Estas consequencias decem mui bem, daquele principio: todo o mal está, nas ideias que ele abrasou, e unio mal. Damesma sorte os que nam sam doidos: nam consiste o ingano nas consequencias, porque a alma com toda a facilidade as-infere, e percebe a conexam delas com os meios: todo o ponto está, nos-principios, e pòr as ideias em boa ordem. Isto nam suministra a Silogistica, e asim nam me-parece que pode servir, para o que se-pertende.
A nosa mente naturalmente inclina, para admetir uma propozisam por-verdadeira, em virtude de outra admetida por-tal; ao que chamam inferir: e acha com facilidade, uma terceira ideia, que tenha conexam, com ambas as duas. Progunto agora: ou a mente buscando a ideia terceira, se-certificou da-conexam dela, com as primeiras, ou nam? Se a-procurou asim, fez um conhecimento certo: se a nam-procurou, fez um erro: mas em ambos os cazos fez tudo, sem silogismo. Se o omem nam tivese conhecido, a conveniencia da-terceira ideia, com as duas extremas; nunca pudera afirmar, a consequencia. Ora é certo, que o silogismo em nada contribue a mostrar, e fortificar, a conexam do-meio com os extremos: ele mostra somente, a uniam dos-extremos entre si, em virtude da-conexam com o meio, que ja está conhecida. Em uma palavra, aindaque eu conhesa, a quantidade, e qualidade de duas propozisoens, nam sei se sam verdadeiras: e a Silogistica somente ensina, a inferir; nam a conhecer as premisas: se uma delas for falsa, será falsa a concluzam. Asimque nam é o silogismo o que ensina, a discorrer bem: antes tudo o contrario; conhece mais facilmente o juizo, a conexam de muitas ideias, todas as vezes que estam postas em ordem natural; doque reduzindo-se às embrulhadas do-silogismo: como a experiencia todos os dias ensina.
Acrecento a isto, que sem a boa ordem das-ideias, nam se-pode dar boa ordem, aos silogismos. Ponha V. P. um juizo embrulhado, com mil ideias incoerentes, e verá se pode fazer algum silogismo. Polo contrario, ponha em boa ordem, as ideias de um silogismo; e verá com que facilidade se-intendem sem silogismo, que sempre é mais embarasado. Mais facilmente se-intende a conexam de _omem_, e _vivente_, pondo as ideias nesta ordem, natural; _omem_, _animal_, _vivente_: doque nesta; _animal_, _vivente_, _omem_, _animal_: que é a forma do-silogismo.
Quanto aos que dizem, que o silogismo serve, para descobrir os inganos dos-sofismas, e discursos retoricos; é certo que se-inganam muito. O motivo por-que nos-inganamos nos-tais discursos é, porque ocupados da-beleza daquela metafora, ou pensamento delicado, nam examinamos a conexam das-ideias, de que se-compoem. Explique V. P. o que diz o sofista, separe umas ideias das-outras; e verá que se-acaba o sofisma, sem necesidade de silogismo: porque postas elas na sua ordem natural, intendem-se maravilhozamente, se sam, ou nam coerentes. E que outra coiza fazem os Dialeticos vulgares, quando respondem a algum sofisma? V. P. oporá um sofisma; e respondem-lhe logo: _Distinguo minorem, v.g. materialiter, concedo: formaliter, nego._ pede V. P. a explicasam dos-tais termos; e eles lha-dam com um discurso longo, ou curto, mas sem genero algum de silogismo. Onde parece-me que sem injuria podemos dizer, que os que defendem a necesidade do-silogismo, como de uma famoza arma contra os sofismas; ou zombam, ou nam intendem o que dizem.
Desorteque examinando bem o silogismo, ele nam dá ideias; que sam os principios dos-nosos conhecimentos: nam dá a boa ordem das-ideias, e da-percesám, porque iso faz a alma por-si só. Serve fomente de pór em certa ordem, as poucas ideias que nós temos: e o maior uzo que tem é, nas disputas dos-Escolasticos; aonde às vezes dá a vitoria. O mais informado nesta arte, confunde com eles, e convence o que nam é tanto: e ainda em tal cazo nam o-reduz ao seu partido: porque nunca se-vio, que os silogismos produzisem ese bom efeito; que aquele que fica convencido, pasáse para a opiniam do-contrario. Conhecerá que nam sabe responder: mas nam receberá tanta luz, que aja pasar para a parte do-seu adversario. Esta é a natureza do-silogismo.
Mas aindaque esta razam seja mui forte, cuido que dos-mesmos principios dos-Escolasticos, se-tira nova razam, para se-excluirem, e vem aser; que as tais regras do-silogismo só servem, para estes silogismos simplezes, feitos de propozisoens que constam de dois termos, e Verbo: v. g. _Todo o omem é animal_ = _Pedro é omem_ = _Logo Pedro é animal_. Quando porem intramos nos-silogismos, compostos de varias propozisoens, e com mil termos obliquos; é loucura persuadir-se, que neles valham tais regras, tomadas no-rigor da-Logica. Incontram-se mil discursos de evidencia tal, que nenhum omem de juizo, pode duvidar da-sua verdade: vemos cada momento discursos, a que os Logicos chamam _Sorites_, compostos de dez, e doze propozisoens; tam claros e manifestos; que todos os-devem admetir, ainda aqueles que nunca lèram Logica: que é a maior prova da-verdade, e evidencia: e contudo nam pertencem, a Figura alguma das-ditas. Sei, que alguns destes Logicos antigos se-amofinam, para lhe-descobrir a Figura, e Modo; mas superfluamente: pois aindaque dizem muitas coizas, e apontam outras propozisoens, que expoem as ditas; e nas quais exponentes querem mostrar de alguma maneira, as regras; nam provam o que dizem, nem respondem ao que se-lhe-progunta: ficando sempre em pé a dificuldade, que o dito silogismo, do-modo que se-propoem, nam pertence a Figura alguma: e contudo é verdadeiro, e todos o-intendem com facilidade. E como nos-discursos familiares, nos-discursos oratorios, e quando se-impugnam propozisoens ou concluzoens; somente se-uze destes discursos compostos; fica claro, que em nenhuma destas partes podem ter lugar, as tais Figuras: e que nam só sam inutis, mas imposiveis.
Seguro a V. P. que tendo lido muito, visto, e ouvido muito, e asistido a disputas de toda a considerasam; nam vi ninguem, que se-servise da-dita Fórma. Nunca vi converter Ereje algum com fórma Silogistica, nem Ebreo, ou Ateista. E contudo tenho-me achado em algumas partes, com estas trez sortes de pesoas, e conversado com eles larguisimamente. Eles me-respondèram sempre com razoens ou boas, ou más; mas nunca com fórma Silogistica: e quando alguma vez sucedia, que o discurso caîa em questam de nome; logo me-advertiam, que deixase a Dialetica, e argumentáse com razoens. Nem menos falei com algum, que me-disese, ter-lhe sucedido o contrario: nem acho dogma algum, que necesite da-fórma Silogistica, para se-poder intender, ou explicar. Nam leio que Cristo, ou os Apostolos se-servisem do-silogismo, para persuadir as verdades, que defendiam; e propunham: nem acho que a Igreja Romana, ou os Concilios uzasem desta fórma, para declarar alguma materia controversa: antes tudo o contrario. Vejo que os SS. PP. encomendam muito, que os Dogmas se-próvem com razoens solidas, fugindo de todas as sutilezas da-Dialetica: e que eses mesmos Padres praticam muito bem, o que encomendam. O que mostra bem, a nenhuma necesidade, ou utilidade destes termos da-Escola, na Teologia.
Alem disto acho outra nova razam, para desprezar totalmente estas doutrinas: vem aser, o enfadonho metodo que introduzem, em todo o genero de discursos. Nam á coiza mais dezagradavel e confuza, que um longo discurso Dialetico: e nam á discurso, que, reduzido ao metodo da-Escola, nam seja longuisimo. Um paragrafo de discurso familiar mui breve e claro, reduzido a silogismos, enche boa meia folha de papel. Ouvem-se cem vezes os mesmos termos: porque cada silogismo deve repetir, uma das-propozisoens do-antecedente. E tudo aquilo se-pode dizer, em breves palavras, e com muita clareza, sem nem menos introduzir um silogismo. Polo contrario, quando entra o silogismo, é necesario recorrer, a propozisoens gerais, que nam toam bem, nem provam muito: e tem mais aparencia de declamasam, que de prova filozofica, e discurso sensato.
Esta simplez propozisam: _Quero-vos bem, pois vos-tenho obedecido, e nam podeis duvidar, da-sinceridade comque vos-sirvo: porque tendes experiencia constante, deque a nenhum outro o-faso_: pode dar de si bastantes silogismos, se ouver quem a-dilate. v. g. _Quem faz a outro, tudo o que lhe-pede; dá sinal certo, de lhe-querer bem. Eu tenho-vos feito, quanto me-tendes pedido: logo tenho-vos dado um sinal certo, deque vos-quero bem. O sinal certo do-querer bem, nam pode separar-se, do-mesmo querer bem: logo se eu vos-dou um sinal certo, deque vos-quero bem, obedecendo ao que me-ordenais; é certo, que vos-quero bem. Provo a maior. Quem faz a outro, tudo o que lhe-pede, e o outro nam pode duvidar, da-sinceridade com que lhe-obedece; dá-lhe um sinal certo, de lhe-querer bem. Eu tenho-vos feito quanto me-pedistes, e alem diso vós nam podeis duvidar, da-sinceridade do-afeto, com que vos-sirvo: logo fazendo-vos o que me-pedis, dou-vos um sinal certo, de vos-querer bem. Provo esta maior. Quem tendo uma experiencia constante, deque um sugeito que conhece, a ninguem costuma servir; nam obstante iso tem outra experiencia constante, deque este mesmo sugeito o-serve a ele; recebe um sinal certo, da-sinceridade com que lhe-obedece. Vós tendo constante experiencia, deque eu nam sirvo a ninguem; nam obstante iso tendes outra experiencia constante, que eu sempre vos-sirvo, e obedeso: Logo tendo vós estas duas experiencias, recebeis um sinal certo, da-sinceridade com que vos-obedeso._ Nam quero continuar mais, os silogismos da-_maior_: e nem menos quero continuar, as provas da-primeira _menor subsumpta_: o que dise basta para provar, que qualquer pequena propozisam composta, pode produzir mil silogismos. Ora é certo, que a primeira propozisam é clara, e todos a-intendem: e aquela longa enfiada de silogismos é oscura, e só a-intendem, os que sabem a fórma Silogistica: e contudo iso nam diz mais, doque dizia a primeira propozisam. Do-que se-conclue, que o dito metodo se-deve desprezar, quando nam fose por-outra razam mais, que por-ser enfadonho, e cauzar molestia sem utilidade.
Dirmeá V. P. que este meu discurso tem por-fim, condenar todo o silogismo: e desterrar do-mundo todos os livros, que se-explicam por-silogismos: e mostrar, que nam só sam inutis, mas prejudiciais: como ja me-respondeo um Dialetico. Mas a isto respondo, que nam é esa a minha intensam. Confeso, que todos os nosos discursos, se-podem reduzir em silogismos: um sermam, um discurso familiar, uma escritura que persuade, um inteiro livro, pode-se chamar, silogismo composto de infinitos termos obliquos: nas mesmas demonstrasoens matematicas, se-podem descobrir silogismos. Ainda digo mais, nam á discurso que persuada, que nam seja em vigor de um silogismo, ou claro, ou oculto. Contudo iso defendo, que de pouca ou nenhuma utilidade é o silogismo, para quem á-de discorrer bem. Nam é o mesmo intervir o silogismo em tudo, que ser a unica arma, com que se-discorre bem; desorteque quem nam tem esa noticia, seja obrigado a discorrer mal. Quando Aristoteles escreveo, as suas reflexoens sobre o silogismo; nam nos-quiz ensinar, a fazer silogismos; porque iso fazemos nós sem reflexam, nem estudo algum: quiz somente mostrar-nos, em que se-fundava, a verdade dos-nosos conhecimentos discursivos: e como procedia o intendimento, quando consentia em algum objeto. Porem nam devemos daqui inferir, que sem praticar advertidamente, tudo o que ele propoem, nam posamos discorrer bem: nam senhor: a dita noticia é mais especulativa, que pratica. Abráse V. P. bons principios, e evidentes; e verá que perfeitos raciocinios fórma, sem noticia alguma da-Silogistica: explicarmeei com um exemplo. Para comer alguma coiza, e com iso sustentar-se um omem, é necesario mover uma grande quantidade de musculos, que se-movem matematicamente. Quer-se uma particular dispozisam da-lingua, para empurrar o comer para os-dentes, e despois para a goela: quer-se a saliva, para ajudar a triturasam, e o fermento no-estomago: e finalmente mil outras coizas, que agora me-nam-ocorrem. Tudo isto é tam necesario, e estas coizas estam tam unidas, que faltando uma, nam sucederia o cazo. Seria porem louco quem, ouvindo isto, nam quizese comer, sem saber primeiro tudo, quanto tem dito os Matematicos, sobre as leis do-movimento, e sobre a Mecanica: como tambem tudo o que tem dito os Anatomicos; sobre os ditos musculos, umores, fermentasoens &c. Este omem morreria de fome, no-mesmo tempo que outro, rindo-se da-sua loucura, comeria mui descansado, e com muito gosto. A razam disto é: porque sem tanta erudisam, a machina do-noso corpo está disposta em modo, que metendo o comer na boca, e querendo mastigar, (fóra dos-impedimentos) tudo aquilo se-faz, sem estudo ou reflexam alguma. Damesma sorte a machina espiritual da-nosa alma, (se me-é licito, servir-me desta expresam) recebeo tal faculdade de Deus, que conhece todas as coizas evidentes, e especialmente a conexam de umas ideias com outras, sem estudo ou artificio algum: aindaque nese mesmo ato de conhecer, pratique aquilo, que superfluamente aprenderia de outro.
Daqui fica claro, que servindo-nos do-silogismo para persuadir, nem por-iso somos obrigados, a saber estas coizas. Contudo aprovo que se aprenda, alguma noticia mais geral: o que se-pode fazer em duas palavras. Pode alem diso o silogismo ter seu uzo entre aqueles, que desde rapazes estam acostumados a ele. Quizera porem que a gente reconhecèse, que o silogismo vale dez, e nam cem, nem mil: e que nam nos-quebrasem a cabesa com o silogismo, como uma invensam singular, para conhecer a verdade, e aumentar os conhecimentos, nas Ciencias. Explico isto com outro exemplo, de que ja se-servio um grande omem, do-seculo pasado. Vemos omens de vista tam curta, que nam podem ver distintamente os objetos, em alguma distancia, sem uns oculos sumamente concavos de uma, ou de ambas as partes. Mas porque eles nam vem sem eles, nem por-iso devem julgar o mesmo, dos-outros: porque á muitos, que vem maravilhozamente, sem tal socorro. Damesma sorte a alma dos-Escolasticos, nam ve sem os oculos do-silogismo: que lhe-fasa muito bom proveito, e se-sirvam deles quanto quizerem: a alma porem dos-outros omens, exercitando-se em discorrer com advertencia, pode ver a conexam das-ideias, sem aquele socorro. Sirva-se cadaum do-que quizer, e mais lhe-convier: o que importa é, que os Peripateticos nam julguem todos, pola mesma medida: e da-falta de oculos nos-outros, nam infiram, que todo o mais mundo anda às cegas.
Conheso, que algumas vezes se-pode uzar do-dito metodo, com utilidade; quando se-quer introduzir um dialogo, para evitar os discursos compridos, e oratorios. Mas em tal cazo sam necesarias varias cautelas, para ser util o dito metodo: porque se deixamos provar a cadaum o que quer; caimos no-defeito, que queria-mos evitar. Deve pois evitar-se toda a superfluidade, e tocar unicamente o ponto da-questam. Mas neste cazo, nam é tanto estimado o tal metodo, por-ser Escolastico, mas por-ser metodo de dialogo: no-qual se-propoem a dificuldade, por-uma parte, e da-outra se-lhe-dá a resposta. Temos um belo exemplo, no-Concilio geral Florentino, congregado por-Eugenio IV. Como nele se-avia tratar, da-uniam da-Igreja Grega, com a Latina; sobre alguns pontos em que diversificavam; escolhèram-se seis omens de cada parte, para examinarem a questam, e dizerem o que se-avia propor, por-uma e outra parte: e lhe-ordenáram, que, deixados os discursos compridos, seguisem um metodo breve, e dialetico. Mas quem examina nos atos do-tal Concilio, que coiza era este metodo dialetico, acha, que nada mais era, senam um dialogo sem rodeios, nem prolixidades: no-qual de uma parte, um punha a dificuldade: e da-outra, o seu opozitor respondia sim, ou nam: ou brevemente dava a razam, porque duvidava &c. Esta foi toda a Dialetica, que se-praticou na dita disputa: o que bem mostra, que muitas vezes se-chamou dialetico, o estilo de falar concizo e breve; sem aquelas Figuras que constituem, o estilo retorico: e isto é o mesmo que eu digo, ser muito util. Mas nam achará V.P. que se-fizese cazo, das-ridicularias da-Logica vulgar: ou que, fazendo-se, rezultáse daî utilidade alguma: que era o que eu asima dizia.