Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Part 30

Chapter 303,574 wordsPublic domain

Neste meio tempo a fama de Aristoteles, que estava tam bem establecida, entre os Arabes; comesou a divulgar-se, entre os Cristaons. A comunicasam que os Napolitanos tinham, com os Sizilianos, lhe-deu noticia dos-estudos, establecidos entre os Arabes da-Sizilia. Tambem a vizinhansa da-Fransa com a Espanha, abrio a comunicasam aos estudos: e se-cre, que por-este meio pasáram a Fransa, os livros de Aristoteles; e intráram na Universidade de Pariz. Ja lá sabiam, que avia Dialetica, e a-estudavam: mas da-Fizica Aristotelica, nada sabiam. Finalmente ou para poderem disputar com os Judeos, e Maometanos, como fundadamente suspeita Monsieur de Fleury; ou por-outra razam que nam se-sabe; os Teologos recebèram benignamente Aristoteles, e pouco a pouco o-introduzîram, na Teologia. Os primeiros foram introduzindo as Dialeticas, como Abellardo, Roberto Pullo, Pedro Poitiers, e alguns outros no-duodecimo seculo. Daqui pasáram a introduzir, as doutrinas Fizicas: o que sucedeo, no-seculo decimoterceiro. Os primeiros foram Alberto Magno, Alexandre de Ales: despois Tomaz de Aquino, e alguns mais. Despois de S. Tomaz veio Escoto, que fundou escola separada: e despois deste, seu dicipulo Okam tambem Franciscano, fundador da-seta dos-Nominais. Demodoque despois do-seculo XIV. a Filozofia se-dividia em trez setas, Tomistas, Escotistas, e Okamistas: as quais com alguns mudansas duráram, atè o Concilio de Trento, celebrado no-meio do-seculo XVI.

Nam falo no-metodo de Raimundo Lullo de Maiorca, porque pola sua oscuridade, nam teve sequazes: excetuando alguns Maiorquinos, mais loucos que ele. No-ano 1565. Bernardo Telesio de Cosenza em Italia, publicou a sua Filozofia, que teve alguns sequazes. Pouco despois Jordano Bruno Dominicano, publicou muitos livros, em que, entre algumas coizas boas, dise muita estravagancia; sobre o Universo infinito, e diversos mundos. Despois deste, Tomaz Campanela, tambem Dominicano Calabrez, publicou algumas obras de Filozofia, quazi segundo os principios do-Telesio.

Neste mesmo seculo XVI. do-meio para diante, quero dizer, polos tempos do-Concilio de Trento, comesou a establecer-se o sistema Fizico-celeste, de Nicolao Copernico: que resucitando a opiniam de Filolao, e Eraclides Pontico, sobre o movimento da-terra arredor do-Sol; teve muitos sequazes, que asentáram, ser um sistema preferivel aos outros. No-fim do-seculo XVI. saio à luz o sistema de Tico Brahe, que tambem teve sequazes. Mas ninguem mais deo tanta luz à Fizica, quanta Francisco Bacon de Verulamio Chanceler mór de Inglaterra: o qual no-fim do-mesmo seculo, e principio do-seguinte, apontou o verdadeiro metodo de adiantar a Fizica, em belisimas obras que a este intento nos-deixou; principalmente de _Augmentis Scientiarum_, e de _Novo Organo_. Eu considero as especulasoens deste grande omem, como a mais famoza epoca, da-verdadeira Filozofia: porque observo de entam para diante, uma total mudansa, e adiantamento sempre para o melhor. morreo polos anos 1636. de anos 66.

No-mesmo tempo de Bacon, no fim do-XVI. e principios do-XVII. floreceo o insigne Galileo Galilei Florentino; que seguindo os ditames de Bacon, uzou da-Matematica, para explicar a Fizica: e aumentou sensivelmente a _Mecanica_: a qual desde Archimedes até o seu tempo, quazi nada se-tinha adiantado. Ele descobrio muitas leis, do-movimento dos-corpos, tanto solidos, como fluidos; e tambem da-Gravidade, e da-Luz, e do-Som &c. desorteque pode-se dizer, que ele foi o que comesou a servir-se, da-boa Fizica. morreo em 1642. de anos 78. Comesado o seculo XVII. florecèram Descartes, e Gazendo: que dando um paso mais adiante, descobriram mais terra, e comesáram a abrir os olhos ao mundo. Ja se-sabe as disputas, que os Peripateticos tiveram, com estes novos Filozofos; e as injurias, que contra eles vomitáram. Desde o fim do-Concilio de Trento, em que os melhores Teologos tinham aberto os olhos, sobre a Teologia; e comesado a intender, que nam se-devia misturar com ela, a Peripatetica; tinha esta descaido muito: mas nam tanto, que muitos Regulares nam intendesem, que devia ser a mimoza entre as mais. De que nacia, que com todo o empenho a-defendiam: porque, a falar verdade, nam intendiam mais, nem tinham outras noticias. Mas despois que se-viram atacados, por-estes modernos Filozofos; os quais nos-principios deste seculo conspiráram todos, para abrir os olhos, ao mundo Literario; nam querendo os velhos, perder as suas conquistas, fizeram um espalhafato orrendo: e o menos que diseram foi, que se-tinha levantado uma nova perseguisam, na Igreja Catolica; com a publicasam destas Filozofias. Mas como isto eram balas de lan, e palavras sem fundamento, nem verosimilidade; nam faziam brecha. Polo contrario os Modernos despediam, constantes experiencias, que eram balas eficazes. Em modo tal que a dita Filozofia foi-se continuando, e com forsa: e só os Regulares, e nem todos, seguiam a Peripatetica.

A introdusam das-Academias Experimentais, deu novo esforso, a esta Filozofia. Despois da-morte de Cartezio no-ano 1640., e a de Gazendo no-de 1655.; tinham comesado as ditas Filozofias, a aquistar credito: mas ainda com algum medo; pois nam tinham toda a necesaria protesám, que tiveram pouco despois. Nam foi senam despois que se-abrio, a Academia de Londres no-ano 1662. ou 63. e a de Pariz no-1666., que as Ciencias naturais se-continuáram, com empenho: asistindo-lhe os Reis, com o dinheiro e protesám. Dilatou-se aindamais este costume, porque o Imperador Leopoldo no-ano 1670. movido do-bom suceso das-duas Academias; fundou tambem, ou, melhor direi, protegeo uma Academia ja comesada, com o nome de _Academia dos-Curiozos da-Natureza_. El-Rei de Prusia em 1700. fundou tambem a sua Academia experimental. Os nosos Italianos fizeram o mesmo. O Conde de Marsilli em 1712. instituio uma em Bolonha, que tambem é famoza: em Padua e outras partes abrîram-se outras. Em 1725. a Imperatriz Catarina abrio em S.Petroburgo em Moscovia, outra famoza: deixando por-agora outras muitas, que se-abriram em diferentes partes da-Europa.

Esta dilatasam de estudos naturais chamou a si, todos os melhores Filozofos, principalmente os Seculares. Tambem alguns Regulares, nos-fins do-pasado seculo, comesáram a deixar, as sutilezas de Aristoteles. Porem neste XVIII. seculo infinitos se-tem declarado, contra o antigo estilo; e ensinam publicamente, a Filozofia moderna. Em Italia, e ainda em Roma, por-toda a Fransa, Alemanha &c. se-tem divulgado este metodo: e os mesmos Regulares, que ao principio o-tinham proibido, nam tem oje dificuldade alguma, em defendèlo. Verdade é, que algumas Religioens anda o-nam-aprováram: mas tambem é certo, que muitos leitores delas sam declaradamente, Filozofos modernos. Os doutisimos Dominicanos, e Jezuitas, que pareciam os mais empenhados, polo antigo metodo; comesáram a admetir, a nova Filozofia: nam só em Fransa, mas ainda em Italia. E eu sei de certo, que em algumas partes de Italia os Jezuitas, vendo que nas suas escolas e colegios, faltavam consideravelmente os estudantes, que concorriam a outros estudos publicos; se-vîram obrigados, a reformar o antigo metodo, e introduzir os estudos novos. Tam persuadidos estam todos oje, que o antigo metodo nam serve, para coiza alguma.

Esta, em poucas palavras, é a serie da-Filozofia: na qual se-compreende mui bem, com quam pouca razam estes mestres de Portugal, condenem uma coiza; que está tam bem introduzida: e nam entre Erejes, como eles dizem, mas entre Catolicos mui pios, e doutos. E tambem se-conhece, com quam pouca razam queiram persuadir-nos, que os SS. PP. aprováram, a doutrina de Aristoteles: pois nam sendo ela, ou polo menos esta que pasa, com o nome de Aristoteles; conhecida antes do-seculo XIII. é bem claro, que os PP. nam podiam aprovar uma coiza, que nam conheciam, nem intendiam, que naceria no-mundo. Seguro a V. P. que se estes mestres, que oje exaltam tanto Aristoteles, conhecesem os PP. nam polo sobrescrito, mas por-dentro; e tivesem bem examinado as suas obras; ficariam envergonhados, da-sua grande ignorancia, e talvez temeridade: pois veriam nos-escritos dos-Padres, que nada mais encomendam, que deitar fóra das-escolas Aristoteles: evitar todos os sofismas da-Dialetica: e propor as suas razoens, com a maior clareza posivel. Aprovavam na verdade, a boa Dialetica; mas despida totalmente de arengas. E nesta paz se-continuou, até o undecimo seculo: no qual, como asima digo, introduzîram nas escolas, estas embrulhadas. Desorteque a examinar bem o negocio, Aristoteles é mui moderno, nas escolas Catolicas: e ainda nesas nam durou, senam até o Concilio de Trento: pois de entam para cá pouco a pouco se-abrîram os olhos ao mundo: e oje todos os-tem mui bem abertos.

Intendido isto muito bem, com o que se-poupam mil respostas, e embarasos a cada momento; deve o estudante pasar, para a Filozofia. Mas é necesario, que primeiro intenda, que coiza ela é; para nam se-embrulhar, com as costumadas confuzoens da-Escola. Eu suponho que a Filozofia é, _Conhecer as coisas polas suas cauzas_: ou conhecer, a verdadeira cauza das-coizas. Esta definisam recebem os mesmos Peripateticos, aindaque eles a-explicam, com palavras mais oscuras: mas chamem-lhe como quizerem, vem a significar o mesmo. v. g. Saber qual é a verdadeira cauza, que faz subir a agua na siringa, é Filozofia: conhecer a verdadeira cauza, porque a polvora aceza em uma mina, despedasa um grande penhasco, é Filozofia: outras coizas a esta semelhantes, em que pode intrar, a verdadeira noticia das-cauzas das-coizas, sam Filozofia.

Mas como no-conhecer as cauzas das-coizas, principalmente naturais, pode aver ingano; e muitas vezes nos-inganemos, tomando uma coiza por-outra: alem diso como nos-mesmos discursos, com que nos-querem persuadir alguma coiza, suceda frequentemente ingano, cuberto com aparencia de verosimilidade; ao que chamam _Sofisma_, ou _Paralogismo_: daqui vem, que cuidáram os omens, em fugir estes inganos, e descobrir o vicio do-discurso, paraque nam caisemos nele. Isto primeiro comesou, sem arte alguma: mas cazualmente um omem descobrio um erro, outro descobrio outro, e asim os mais. Alguns dos-quais, fazendo uma colesam destas observasoens, fizeram tratados, em que se-pudese aprender, o modo de nam se-inganar. A isto chamáram Logica ou Dialectica: que é muito mais antiga que Aristoteles: mas ele foi o que a-compilou com melhor metodo, a respeito do-seu tempo: aindaque muito imperfeita, se olhamos para o noso. Quem fose o autor desta colesam, notará o estudante, quando ler a istoria da-Filozofia. Os Antigos dizem, que foi Zenam Eleates, que a-ensinou a Socrates: este a Platam: do-qual a recebeo Aristoteles. Mas esta Logica Socratica, era por-outro estilo, e convencia com proguntas. Platam era um pouco mais dogmatico. Comumente se-cre, que Speusippo, e Aristoteles, ambos dicipulos de Platam, guiados polos discursos dele, fizesem no-mesmo tempo, e cada um parasi, esta nova colesam, e acrecentasem muita coiza sua: os Estoicos com o tempo, acrecentáram muitas mais. Seja como for, o cazo é, que os Antigos reconhecèram, que para conhecer, e discorrer sem ingano, sobre as cauzas de todas as-coizas; é necesario observar algumas regras, a que quizeram chamar, _Logica_. Desorteque esta chamada _Logica_, nenhuma outra coiza é mais, que um metodo e regra, que nos-ensina a julgar bem, e discorrer acertadamente. Asimque establecido este importante ponto, fica claro, que se-deve abrasar aquela Logica, que conduz a este fim: e fugir qualquer outra, que nos-desvia dele.

Tendo percebido este ponto, nam pode aver duvida, sobre o cazo que devemos fazer, desta chamada Logica dos-Escolasticos: basta examinar, se o que se-ensina com este nome, é util, ou prejudicial, para julgar, e discorrer bem. Porque se achamos, que nam conduz; saie por-legitima consequencia, que se-deve deixar, e estudar outra coiza mais util. Ora eu creio, que sem grande trabalho se-conhece, que esta Logica vulgar, nam dá nenhuma utilidade, antes cauza suma confuzam. Os Proemiais sam a coiza mais inutil do-mundo. Com a simplez explicasam, do-que é Logica; sabe um estudante quanto basta, para intrar nela, e ser um grande Logico: toda a outra noticia util se-pode aprender, em uma advertencia, a que chamam _notando_. Que a Logica tenha por-objeto, os atos do-intendimento, ou as coizas, ou os modos de saber; nada serve para discorrer bem: o que importa é, ter boas regras, e sabèlas uzar bem.

Aqueles Universais, e Sinais sam coizas indignas de se-lerem: o menos que neles acho, é a inutilidade: o pior é o metodo: parecem a mesma confuzam: e de talsorte embrulham a mente, de um pobre principiante, que nam é facil ao despois, intender bem coiza alguma. Em lugar de facilitarem a um rapaz, a inteligencia das-coizas; o-confundem com uma quantidade de sofismas, e sutilezas, tam fóra de propozito; que eu nam sei, como os mestres nam fazem escrupulo, de perderem tam inutilmente o tempo. Acrecento a isto, a inutilidade: pois para nenhuma parte das-Ciencias serve aquilo. O mais que se-tira dos-Sinais é saber, que as vozes servem, para declarar as ideias da-mente, e os afetos da-alma: e que mediante as vozes comunicamos aos outros, o que intendemos, e queremos. Que as vozes nam excitam nos-que ouvem, as ideias de quem as-profere, por-virtude alguma natural, que tenham para iso: mas porque asim o-determináram, os omens de uma Nasam. Sendo certo que as vozes, que em Portugal significam uma coiza, em outro Reino significam coiza diferente, ou nada significam. Esta é toda a noticia util, que se-tira dos-Sinais: e isto é coiza que se-aprende, em um quarto de ora: tudo o mais que dizem dos-Sinais, sam arengas ridiculas, que espremidas na mam, nam deitam uma gota de doutrina. V.P. que perdeo bastante tempo, com estas arengas; fasa-me a merce de me-mostrar, alguma questam util, entre tantas que no-tal tratado se-incluem: estou certo que, uzando da-sua costumada ingenuidade, me-dirá, que nam acha alguma. De que fica bem claro, que o tal tratado, é somente divertimento de omens ociozos. Nem me-faz forsa que o P. * * * me-disèse um dia, que os Sinais eram o _Apex Philosophiæ_: e o seu P. Colegial * * * me-disèse mui sezudamente, que os Sinais tinham seu uzo na Teologia: poisque na _Trindade_ se-falava, em _priori signo_ &c. nem um, nem outro sabia o que dizia, como as suas respostas mostram: e, aindaque fosem leitores de Filozofia, tinham necesidade, de a-estudar outra vez.

Quanto aos Universais da-Escola, comque se-gasta tanto tempo, nam sam melhores que os Sinais: todos sam talhados, pola mesma medida. Pase V.P. ligeiramente com os olhos, por-aqueles tratados; e me-dirá, o que acha em tantos cadernos. Ali disputa-se mui largamente, se se-dá _Universal a parte rei_, como eles lhe-chamam: se a Unidade de precizam, e Aptidam sejam da-esencia do-Universal: e outras coizas destas, que quando eu as-considero, fico persuadido; que os que falam nisto, nam intendem iso mesmo que proferem. Que bulha nam se-faz, sobre a divizam em cinco especies! que arengas, sobre cada especie em particular! que confuzoens, sobre as precizoens! Ora eu tomára que me-disesem, o que se-tira de todo aquele negocio; e que noticia util para discorrer se-colhe, de todas aquelas confuzoens? Achei muitos, que, despois de alguns anos de Filozofia, e despois de terem defendido concluzoens publicas, e com grande aceitasam; nam sabiam, por-qual razam se-introduzîram os Universais, na Logica. O que digo dos-Universais, deve-se aplicar aos Predicamentos; que uns introduzem na Logica, outros na Metafizica: e sobre os quais se-disputa, com igual fervor.

Os omens mais advertidos entre os Peripateticos, reconhecem a verdade do-que digo, e sinceramente confesam, que se-deviam cortar, estas longuisimas disputas, que para nada servem. Peripatetico, e bem Peripatetico, era o Suares Granatense, o Barreto Portuguez &c. contudo sam do-meu parecer: e o tal Barreto acrecenta[82], que o aumento que se-deo aos Sinais, é vicio dos-Portuguezes. Mas tornando aos Universais, de que falavamos, a unica razam que eles alegam, para introduzirem esta longa arenga de Universais, e Predicamentos; é, porque as propozisoens de que se-fazem os silogismos, constam de predicados universais. Digo pois, se aquilo nam tem mais serventia, que mostrar, que um nome pode ser _universal_, ou _particular_ &c. de que serve aquela arenga sempiterna, que nam conduz para iso? Certamente que, seguindo os seus mesmos principios, tudo aquilo se podia reduzir, a meia folha de papel.

Nem cuide V. P. que eu reprovo, toda a sorte de exame, das-propozisoens universais, e particulares: conheso, que iso pode ter seu uzo, e tem utilidade: mas tambem conheso, que se-deve tratar de outra maneira, como em seu lugar direi. Somente condeno muito, o que dizem os Peripateticos; porque nem serve para o intento, que eles propoem; nem para outro algum: confunde as especies, e intendimento dos-rapazes: e é o mesmo a que nos chamamos, perder tempo sem interese algum, e sem saber por-qual razam. Mas prosigamos o curso, da-Logica Peripatetica.

Aos Predicamentos, e Sinais, segue-se o enfadonho tratado de _Enunciatione_, ou Propozisam. Aqui fazem eles infinitas disputas, tam fóra de propozito; que eu fico pasmado. Confundem a propozisam _vocal_ com a _mental_, ou ato do-intendimento: ora disputam de uma, ora de outra: desorteque nam se-pode saber, o que eles querem explicar. Sendo aquele um tratado, que se-deve explicar mui claramente, para intender os seguintes; eles o-fazem com tal negligencia, e confuzam, como quem nam cuidáse neste fim. O melhor que eu acho é, que em vez de proporem as coizas, em que todos convem; disputam tudo o que propoem: e a cada propozisam acrecentam, uma longa cadeia de argumentos; e às vezes tam embrulhados, que um omem adiantado teria trabalho, em lhe-responder. E como á-de o principiante, formar conceito das-coizas, e executar os ditames que le; se ele nada acha, em que todos convenham: mas em cada propozisam acha, quem o-contradiga? Isto è o mesmo, que se um carpinteiro tomáse um aprendiz, e em lugar de lhe-ensinar, como se-á-de servir dos-instrumentos; fizese longuisimos discursos, sobre a diversidade de instrumentos de Carpinteiro: contando-lhe miudamente, que a alguns nam agradam, aqueles instrumentos: que outros escrevem, que se-deviam fabricar de outra maneira: e todo o tempo pasáse com isto.

Este é o grande defeito que eu acho, nestas Logicas: nam buscarem aquelas coizas, em que todos convem, para as-explicar aos estudantes. nam acharem um metodo de ensinar Logica, comesando por-documentos claros, que todos intendam: fugindo todo o genero de disputas, que nam servem para principiantes. Pois este devia ser, todo o seu cuidado: e quem nam pratica este metodo, nam quer ensinar Logica. Isto conhecerá V. P. melhor, olhando para as longas disputas, que eles aqui introduzem, sobre os atos verdadeiros e falsos. Nam é crivel, a confuzam com que aquilo se-trata. nam é menos admiravel, a quantidade de coizas falsas, que ali se-supoem, como se fosem demonstrasoens matematicas. Disputa-se com fervor, se o mesmo ato do-intendimento, posa pasar de verdadeiro, para falso: e outras coizas destas. Isto supoem manifestamente, que o dito ato dura algum tempo, na alma; porque se nam duráse, a questam serîa de nada. Mas isto que eles supoem, é manifestamente falso. Basta olhar, para as muitas distrasoens involuntarias, que um omem tem; para conhecer, que a nosa alma está em continuo movimento de conhecimentos: e que devemos dizer, que ela nam pára em algum juizo, ou ato. Ainda quando nos-parece, que sempre cuidamos na mesma coiza, creio eu que nam perziste, o mesmo ato: mas que a alma muitas, e muitas vezes considera, a mesma coiza: que é o mesmo que dizer, com atos diferentes. A razam disto nam me-parece oscura: pois vejo a violencia, que é necesario fazer ao intendimento, para o-fixar no-mesmo objeto: pois um minuto que nos-descuidamos, ja estamos em outro objeto. E ainda quando nos-parece, que consideramos um só, v. g. um painel; é certo que fazemos muitos atos: pois nam vemos só um ponto, mas diferentes pontos, e partes do-mesmo todo: o que se-faz, com diversos atos. Nam é crivel, com quanta velocidade a alma conhece, e pasa de um objeto para outro. Fazemos todos os instantes mil asoens, que nam advertimos: e contudo é certo, que a alma as-conhece todas: mas falas com tal velocidade, que parece as-nam-conhece. Deste genero é o continuo movimento de pestanas, que nós fazemos; e a alma, por-obediencia da-qual se-faz, o-conhece: e contudo nenhum de nós adverte tal coiza. O que mostra bem, quam veloz é a nosa alma, em pasar de um conhecimento para outro. E sendo isto tam claro, os-Peripateticos, sem fazerem cazo disto, introduzem as suas longas disertasoens, fundadas sobre um suposto falso. Demos-lhe, que seja materia duvidoza; sempre é coiza ridicula, propor como coiza certa um fundamento, que tem tantas aparencias de falsidade: e ocupar o tempo com isto, devendo ensinar outras coizas.

Mas, para abreviar este exame, pase V. P. comigo, ao tratado de _Priori resolutione_. Na primeira parte se-disputa eternamente, sobre os termos, e diversos modos, com que significam as coizas. Isto explicado bem com clareza, e brevidade, podia servir ao estudante de alguma coiza: mas iso é o que eles nam fazem: e todo o tempo pasam em disputar, se o verbo _Est_ pode ser termo; e outras galantarias destas. O que dizem das-Propozisoens, da-sua Conversam, das-Modais, é tam embrulhado, e tam inutil; que nam sei, que pior coiza se-posa dizer. Seguro a V. P. que ja achei Peripateticos, que ingenuamente me-confesáram, que a maior parte daquelas coizas eram inutis.

Mas sem grande trabalho, cuido que mostrarei a V. P. que tudo aquilo, que nestas escolas se-disputa, se-deve totalmente pór de parte. apontarei uma unica razam, que compreende o _Priori, e Posteriori_, da-Logica vulgar. Examine V. P. com toda a atensam, quanto se-disputa naquelas duas partes da-Logica, e fasa-me a merce de notar mui distintamente, algumas coizas. 1.^a Se o que ali se-disputa, é materia inteligivel. Cuido, que a resposta será clara, se olhar-mos para o que sucede nos-estudantes: pois é certo, que despois de muitas, e muitas explicasoens, comumente nam intendem, o que ali se-diz. Apelo, para o que cadaum experimenta em si, e para o que os mestres experimentam, nos-dicipulos. Sei polo contrario, que os meninos intendem muito bem as coizas, se lhas-explicam bem: e sabem dar razam do-seu dito. v.g. se diserem a um rapaz: _Aquele ramo que ves naquela porta, é sinal que ali se-vende vinho: porque em todas as partes em que se-vende vinho, se-costuma pòr aquele sinal; porque asim determináram, os nosos antigos_: estou certo, que á-de intender facilmente, o que lhe-dizem. Ora fale-lhe V. P. por-estas palavras: _Aquele ramo é sinal ex instituto do-vinho: que se-constitue na razam de sinal, por-um respeito de dependencia do-ato da-vontade, que o-deputou para significar vinho: polo que se-distingue do-sinal natural, que se-constitue, por-um respeito de independencia_: Despois de toda esta arenga filozofia, o tal rapaz intenderá muito menos, o que lhe-dizem, doque se lhe-falasem em Caldeo. De que vem, que ainda as coizas que se-deviam dizer, se-dizem de um modo tal, que nam se-intendem. Isto é quanto ao modo de se-explicar: pasemos à materia.