Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Part 29

Chapter 293,631 wordsPublic domain

A Poezia nam é coiza necesaria, na Republica: é faculdade arbitraria, e de divertimento. E asim nam avendo necesidade de fazer versos, ou fazèlos bem, ou nam fazèlos: por-nam se-expor às rizadas, dos-inteligentes. Se eu vise que o estudante, nam tinha inclinasam à compozisam, explicaria brevemente, as leis poeticas; que é uma erudisam separada da-compozisam, e que todos podem aprender; ao menos para intenderem as obras: e o-deixaria empregar, no-que lhe-parecèse. Desta sorte, livres os estudantes daquele cativeiro, podiam empregar-se em coizas utis, e dar outro lustre à Republica. Sei, que nem todos os mestres sam capazes, de escreverem semelhante arte: mas se alguem a-fizese, e se-imprimise; podia ajudar muito a todos. Certo amigo meu, omem mui douto, me-dise um dia destes, que um seu conhecido, avia pouco tempo tinha acabado um manuscrito, polo estilo que dizemos. Eu ainda o-nam-vi: mas formo tal conceito de quem mo-dise, que julgo nam será mao: se o-puder conseguir, nam deixarei de avizar a V. P.

Finalmente com isto acabo esta carta, que ja me-parece longa: aindaque se olho para o que devia dizer, é curta. Tenho dito nela a V.P. o que me-ocorreo sobre uma materia, que averá bastantes anos que deixei: e conseguentemente nam sei se terei satisfeito, a sua expetasam, sobre a Poezia Portugueza: da-qual, como ja protestei, tenho pouca noticia. Mas V.P. que me-obriga a falar, em todas as materias; deve estar preparado, para ouvir coizas boas, mediocres, e algumas mal ditas. E asim agradesa-me somente a boa vontade, e promtidam com que obedeso, ao que me-manda. Deus Guarde &c.

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CARTA OITAVA.

SUMARIO.

_Trata-se da-Filozofia. Mao metodo com que se-ensina, em Portugal. Advertencia das-outras Nasoens, em procurar a Ciencia. Necesidade da-istoria Filozofica, para se-livrar de prejuizos. Ideia da-serie Filozofica. Danos, e impropriedades da-Logica vulgar. Da-se uma ideia, da-boa Logica._

Meu amigo e senhor, Dirá V. P. que eu sou mui preguisozo em responder, e conservar a conrespondencia, com os amigos: mas se-soubèse como eu tenho estado, reconheceria, que nam falto, senam com justificada cauza. Eu sou filho da-obediencia; e esta me-ocupou bastantes dias: a isto se-seguio, a minha costumada indispozisam da-cabesa, que me-impedio ler coiza alguma. Tambem me-lembrou, que tinha remetido a V. P. um proporcionado livro, com o titulo de carta; e que nam lhe-faltava que ler. Agora livre de algum modo, de um e outro impedimento; pego na pena para continuar, o noso comercio literario.

Nas duas ultimas me-pede V. P. com instancia, que me-dilate bem sobre a Logica, e que nam me-poupe, a nenhuma outra parte da-Filozofia. Eu nam sei, se poderei dignamente satisfazer, a curiozidade que V. P. mostra, nestas materias: porque finalmente á muito que dizer nelas; e muitas coizas, que nam am-de agradar: mas finalmente direi. Lembro-me, que na nosa ultima conversasam me-dise V. P. que as escolas de Filozofia deste Reino, necesitavam ainda maior reforma, que as outras: porque o mao metodo das-escolas baixas, alguma coiza se-pode emendar com o tempo: porem uma vez que o estudante comesou a provar, o _ergo_, e _atqui_, e a brincar com eles, e excogitar sofismas, e metafizicas oscuras; de tal sorte se-ocupa, com aquele negocio, que nam é posivel por-lhe remedio: de que nace, a confuzam na Medicina, Teologia, e mais Ciencias. Como V.P. reconhece de antemam esta verdade, me-animo a dizer-lhe sinceramente, o meu parecer.

Eu verdadeiramente nam sei, se as escolas de Filozofia deste Reino, tem pior metodo, que as escolas baixas: sobre iso avia muito que dizer: o que sei porem é, que nestes paîzes nam se-sabe, de que cor seja isto, a que chamam boa Filozofia. Este vocabulo, ou por-ele intendamos _ciencia_, ou com rigor gramatico, _amor da-ciencia_; é vocabulo bem Grego nestes paizes. Verá V. P. que se-dá este nome, a coizas bem galantes: Universais, Sinais, Proemiais, e outras coizas destas. Os pobres rapazes pasam os seus trez e quatro anos, lendo arengas mui compridas: e saiem dali, sem saberem o que lèram, nem o com que se divertîram. Falo do-estilo das-Universidades: porque o das-outras escolas é o mesmo, quanto à materia; e ainda pouco diferente, quanto à dispozisam.

No-primeiro ano se-pasa com dois tratados, a que chamam _Universiais, e Sinais_; cadaum dos-quais terá quando pouco, os seus 20. cadernos, de duas folhas: e ja vi mestre, que ditou 40. cadernos, somente de _Universais_. No-segundo ano acabam-se os _Sinais_: e parte do-ano fala-se muito, em _Materia Primeira_, e _Cauzas_; ao que chamam Fizica. No-terceiro ano estudam-se _Intelesoens_, _Noticias_, _Topicos_, e algumas questoens de _Metafizica_, digo do-Ente em comum: e com estas quatro, e as duas do-primeiro ano, se-faz o Bacharel. No-quarto explica-se um tratado, a que chamam _Gerasam e Corrusam_: e avendo tempo, outro a que chamam de _Anima in communi_. Despois fazem concluzoens, nas ditas materias, ou semelhantes: que é um ato em que muitas vezes sucede, que o defendente nam tem, argumento algum. Segue-se o Licenciado, que é um exame sobre as 6. materias do-Bacharel, com mais outras que apontamos: e temos o omem graduado, Filozofo.

Se isto pode ser bom metodo; se tais materias podem formar, um bom Filozofo; eu o-deixo considerar, aos pios leitores. Progunte-lhe V. P. aqueles Universais, e Sinais, de que coiza servem, quando se acaba a Filozofia. Diga-lhe que lhe-apontem, em que parte da-Teologia sam necesarios: que dogma se-explica com tal doutrina: fasa-lhe outras proguntas destas, e verá que limpamente lhe-confesam, que tudo aquilo morre com a escola. Se repetir a progunta em outras materias, concluirá o mesmo. E eisaqui tem V.P. o que significa Filozofia, nestes paîzes.

Mas isto serîa nada: o melhor da-festa está, na satisfasam com que ficam, de terem estudado tudo aquilo. Se alguem lhe-contradiz um ponto; se alguem quer tomar o trabalho de lhe-mostrar, que nada daquilo vale um figo; ou que Aristoteles nam falou naquele sentido; ou que a Filozofia se-deve tratar de outra maneira; e que asim a-tratam naqueles paîzes, que dam leis ao mundo, em materia de erudisam; e ainda em Roma, nas barbas do-Papa &c. acabou-se tudo, e vem o mundo abaixo com gritarias. A tal propozisam é uma erezia, contraria diametralmente à Escritura, e às definisoens dos-Concilios, e Padres; e ao costume da-Igreja Catolica; que canonizou as obras de Aristoteles, e tambem a doutrina dos-Arabes. Galilei, Descartes, Gazendo, Newton, e outros destes que a-nam-seguîram, cheiram a Ateistas; ou polo menos estam um palmo distantes, do-erro. Estas Filozofias só reinam, em paîzes de Erejes. Os estrangeiros que defendem isto, sam quatro bebados, que impugnam o que nam intendem, e nam intendem o que proferem. Isto, e outras coizas semelhantes, tenho eu ouvido algumas vezes.

Proguntava eu em certa ocaziam a um mestre, que me-parecia bom omem; e cujo defeito cuido que era, nam malicia, mas ignorancia: Tem V.P. lido nos-originais, a doutrina de Descartes, Galilei, Gazendo, Newton tem examinado fundamentalmente, os que explicáram melhor, a doutrina do-primeiro; como o P. Malebranche, o Baile, o Regis, o Le Grand: ou os que expuzeram a de Gazendo, como o Saguens, Maignan &c.? diz, Nam senhor. Observou, continuei, polo menos as objesoens, que o P. Genari Dominicano propoz ao Saguens, e Monsieur Arnaldo ao P. de Malebranche em outro sentido; com as respostas destes ultimos? diz, Nem menos. Muito bem: pois diga-me, intende V.P. na sua conciencia, que pode ser juiz nesta materia, sem ter examinado, as razoens de ambas as partes: e muito mais formar uma censura tam rigoroza, como é condenar a religiam, dos-que seguem esta Filozofia? Respondeo o omem: Na verdade eu nam sou informado, da-materia: mas tenho ouvido dizer muito mal dela, a outros mestres, de quem eu formo conceito. Maravilhozamente: mas diga-me, continuava eu, tem V.P. certeza, que eses tais examinasem o que digo; ou, aindaque o-examinasem, que julgasem sem paixam, e fosem capazes de decidir o ponto: porque sem isto deve-me conceder, que nada provam? Diz, Eles alegavam certas palavras, de que eu inferi, que os-tinham visto. Mas, proseguia o dialogo, poderá V. P. mostrar-me, que dogma se-destrue, com esta nova doutrina? Os acidentes Eucaristicos, e todo o sistema da-Grasa. Muito bem: vistoiso temos, que as _fórmas acidentais_ no-sentido de Aristoteles, sam de fè? diz, sem duvida. Vistoiso, ou na Escritura, ou por-tradisam nam interrompida, digo, polo consenso de todos os Padres, definisoens de Concilios, ou Igreja Romana, estará determinado isto: porque eu nam reconheso outros principios, para fundar propozisam de fé. Mas atreverseá V. P. a mostrar-me, esa declarasam? Declaro, que eu tambem sou catolico Romano, e creio que na Eucaristia está Cristo, debaixo dos-acidentes de pam, e vinho: o que digo é, que os tais acidentes nam sam fórmas, no-sentido peripatetico: e disto é que peso, esa declarasam de fé. Concluio ele dizendo: Iso nam poso eu fazer, porque nam tenho visto a materia. Bem, respondi eu, pois pesa V. P. a um dos-seus amigos, que lhe-descubra esta revelasam, ou decreto; e entam falaremos sobre o particular: porque agora tem pozitivo impedimento.

Este dialogo podia-se repetir, com mais alguns acrecimos; e executar-se com algumas pesoas, que ouso falar nestas materias, com tanta satisfasam; como se soubesem o que dizem, e intendesem a materia, de que falam. Eu tive alguns ratos de divertimento, conversando com alguns destes mestres. Eles confundem, todos os autores modernos; e sem mais exame os-acuzam, dos-mesmos erros: e com estranha dialetica os-condenam, de ignorancia. Como se um omem doutisimo, nam pudese uma vez, dizer um despropozito! Os que tem erudisam exquizita, sabem que no-mundo ouve um Descartes: e algum deles, mais raro que mosca branca, leo alguma coiza, dos-_Principios_, ou _Meditasoens Metafizicas_. E aqui é ela: sobe à cadeira, e vomita mais decizoens, contra o pobre Descartes; doque ele nam dise palavras: E sem examinar, se ele é seguido em tudo, intende que tudo o que Descartes dise, foi, e é recebido, com a mesma venerasam; e sam todos obrigados, a seguilo. Em certa jornada que eu fiz, incontrei em uma estalagem um Religiozo * * que tivera a felicidade, de ler Descartes: o qual, conhecendo que eu era Estrangeiro, introu logo na materia: e todo o tempo que durou á ceia, empregou ele em provar, que, segundo os principios do-tal Filozofo, a Eucaristia estava somente, nos nosos olhos. Veja V. P. como este intendia bem, a doutrina dos-Cartezianos! Mas eu que vinha cansado do-caminho, e com fome; para abreviar a disputa concedi tudo, e meti-me na cama. Nam acho melhor modo de responder, a esta sorte de gente.

Eu certamente nam sou Carteziano, porque me-persuado, que o tal sistema em muitas coizas, é mais ingenhozo, que verdadeiro: mas confeso a V. P. que nam poso falar no-tal Filozofo, sem grandisima venerasam. Este grande omem, na Matematica foi insigne, e inventou algumas coizas, até ali ignoradas; e promoveo outras com felicidade. Em materia de Filozofia, acho que foi inventor, de um sistema novo. Isto nam parece nada, aos ignorantes: mas aos omens que intendem, qual é a dificuldade de inventar, e inventar com tanta propriedade; que ainda despois de descubertas as machinas, grande parte das-experiencias esteja da-sua parte; é sinal de um ingenho elevadisimo, e de grande criterio. Alem diso ele foi o primeiro, que abrio a porta, à reforma dos-estudos: pois aindaque Bacon de Verulamio, e Galileo Galilei, tivesem indicado o metodo, de fazer progresos na Fizica; e alguns outros os-fosem imitando; é certo porem, que Descartes foi o primeiro, que fez um sistema, ou inventou ipoteze; para explicar todos os fenomenos naturais: e por-este principio, abrio a porta aos outros, para a reforma das-Ciencias. E aindaque em tudo nam acertáse; é tambem certo, que se ele nam fose o primeiro, os outros nam teriam cuidado, de emendar os seus erros, e de adiantar os estudos, como estam oje.

Onde com todos estes principios, nam poso sofrer, que omens totalmente ignorantes da-materia; e que nam sabem de Descartes mais, que o nome; e aindaque o-leiam, nam tem olhos para o-intender: ainda asim tam indignamente o-tratem; e injuriem um omem, de quem eles nam seriam capazes, de serem amanuenses. Se estes censores tivesem lido, a istoria das-Ciencias, e do-restablecimento delas, desde o Concilio de Trento a esta parte; formariam diverso conceito destas coizas: e nam vomitariam tantos improperios, contra os modernos Filozofos: como eu vejo todos os dias, em varios autores, que podendo mostrar, o seu merecimento; o-perdem todo, quando entram a falar nestas materias, com tanta seguransa, como os que as-tem bem estudado. Dizem mil falsidades, que nunca sucedèram: fingem definisoens, que nunca se-sonháram: confundem a doutrina revelada, com as opinioens da-Escola: e querem que os SS. PP. aprovasem profeticamente, a Escolastica; que se-inventou alguns seculos, despois d’eles mortos. Esta é a celebre cantilena destes mestres, principalmente deste Reino: A qual provèm, da-grande ignorancia em que se-vive, da-Istoria antiga, e moderna, e dos-estilos dos-outros paîzes: do-pouco conhecimento que tem, de livros: e finalmente de quererem ser mestres, em uma materia, em que ainda nam foram dicipulos.

Sei, que a maior parte dos-Omens, vive mui satisfeita, dos-estilos, e singularidades do-seu paîz: mas nam sei, se á quem requinte este prejuizo com tanto exceso, como os Espanhoes, e Portuguezes. Observo, que os Francezes, Inglezes, Olandezes, que nam sam dos-que tem pior opiniam, e com razam, de si; aproveitam-se com todo o cuidado, dos-excesos que lhe-levam, as outras Nasoens. Os Francezes, mandam muita gente a Roma, para se-aperfeisoarem na Architetura, Escultura, Pintura; e em tudo o que pertence, às antiguidades Romanas. Sabem que estas artes, se-conserváram sempre em Roma, com distinsam: reconhecem, que os Romanos posuem o melhor, que neste genero nos-deixou a Antiguidade; e pode fugir à barbaridade, dos-incendios de Roma: e asim mandam lá os omens mosos e inteligentes, para beberem o bom gosto, da-Antiguidade. Muitos Senhores Inglezes, Olandezes, Francezes, Alemaens, que correm o mundo, para formarem os costumes; demoram-se tempo bastante em Roma, e nas principais Cidades de Italia; para observarem escrupulozamente, todas as antiguidades Romanas: e verem com os seus olhos aquilo, de que estam cheios os livros. Eu acompanhei alguns deles, que faziam estas observasoens; e os-achei sumamente instruidos, nas antiguidades Gregas, e Romanas: e com dezejo exorbitante, de verem com os seus olhos, e aprenderem o que nam sabiam: e faziam gloria de estudar, o que ignoravam. Polo contrario vejo, que os nosos Italianos se-aproveitam bem, das-belas edisoens de livros, e outra erudisam exquizita, que se-acha nos-livros, destas nasoens Ultramontanas: e que ainda em materias de Ciencias, se-regûlam polo metodo, das-Universidades de Sorbona &c. das-Academias Regias de Londres, Pariz, S. Pietroburgo, &c. por-conhecerem, que ali se-exercitam melhor; e dali saiem as melhores obras.

Isto é verdadeiramente conhecer, o merecimento de cada coiza. Mas observo tambem, que este metodo é ignorado nas Espanhas, e mui principalmente em Portugal: onde vejo desprezar, todos os estudos Estrangeiros, e com tal empenho; como se fosem maos costumes, ou coizas muito nocivas. Lembro-me a este intento, da-istoria do-Espanhol de Amsterdam. Nela viviam em uma estalagem, um Espanhol, e um Cavalheiro Florentino. Retirando-se este um dia a caza, proguntou ao Espanhol, que lhe-parecia Amsterdam: a belisima dispozisam da-Cidade no-material, e formal: a liberdade do-trato, contida dentro dos-limites do-justo: emfim ia-lhe repetindo uma por-uma, todas as singularidades de Amsterdam; e sobre cada uma lhe-proguntava, o que lhe-parecia. Mas o Espanhol, abanando a cabesa, nam respondia palavra. Até que o Florentino enfadado lhe-dise: Valha-me Deus, só vosé a-de ser singular neste mundo, nos-seus gostos; e só a um Espanhol nam á-de agradar, uma Cidade como Amsterdam, em que todos tem tanto que admirar? A isto respondeo o Espanhol mui laconico: _Vaya, para pintada_. Esta mesma resposta, com pouca diferensa, me-tem dado alguns, em outras materias. Quando se-vem obrigados com exemplos a reconhecer, que os Estrangeiros lhe-levam, consideravel exceso; respondem rindo, que asim é: mas que somente é, em coizas inutilisimas.

Isto suposto acho, que o melhor modo de dezinganar esta gente, e mostrar-lhe os seus prejuizos; é, por-lhe diante dos-olhos, uma breve istoria, da-materia que tratam: e persuado-me, que este é o mais necesario prolegomeno, em todas as Ciencias. Creia V. P. que com esta noticia, poupa-se muito trabalho, e muito estudo: adianta-se um omem muito, na inteligencia da-materia: e só asim fica capaz, de ouvir o que deve, e dezinganar-se por-simesmo. Asimque intendo, que por-esta istoria se-deve comesar. Nam digo, que o estudante deva saber, as opinioens de todas as setas de Filozofia; mas ao menos quando comesáram: quais foram as mais famozas: em que coiza comumente se-distinguiam: e como se-continuáram.

A Filozofia é o conhecimento das-coizas, que á neste mundo; e das-nosas mesmas asoens, e modo de as-regular, para conseguir o seu fim. Em todos os Povos do-mundo, e em todos os tempos achamos omens, que mais ou menos se-aplicáram, a estas coizas. Mas o noso estudante nam é necesario, que suba tam alto: basta que conhesa, os Filozofos da-Grecia. Toda a Filozofia Grega se-dividio ao principio, em duas setas; de que nacéram. todas as outras: estas duas sam a _Jonica_, e _Italica_. A Jonica fundou Thales Milesio, um dos-sete Sabios da-Grecia; o qual, como diz Diogenes Laercio, naceo 640. anos antes de Cristo. Foi grande Astronomo, Geometra, Filozofo, e escreveo muito de Fizica. Teve varios dicipulos, que se-ensináram sucesivamente: Anaximandro, Anaximenes, Anaxagoras, Archelao, e Socrates. Este Socrates foi aquele grande omem, que encheo de admirasam a Antiguidade: e alguns dos-nosos SS. PP. se-empregáram, na sua defeza. Socrates teve muitos dicipulos, que fundáram escolas separadas. Aristipo fundou a escola _Cirenaica_, Phedo a _Eliaca_, Euclides a _Megarica_, Antistenes a _Cinica_: da-qual naceo a _Estoica_, que foi famoza: porque Menedemo ultimo profesor da-Cinica, foi mestre de Zenam, que fundou a Estoica. Damesma escola de Socrates tendo saido Platam, fundou a _Academica_. Cadauma destas escolas se-diversificava nas opinioens: o que é necesario, que o estudante advirta.

Platam foi o mais insigne discipulo, de Socrates: naceo 428. anos antes de Cristo: e foi o primeiro que compreendeo, as trez partes da-Filozofia. Na Fizica seguia os sentimentos, de Eraclito, que se-reputava o melhor Fizico: na Metafizica seguia em tudo, a Pitagoras: e no-Moral, e Politico seguia a doutrina, de Socrates; poisque somente ao Moral, este se-aplicára. A escola de Platam se-dividio em duas, _Academica_, e _Peripatetica_. A primeira continuou os dogmas de Platam: donde vem, que Platonicos, e Academicos significam a mesma coiza. Nela sucedeo a Platam, seu sobrinho Speusippo; a este Xenocrates, Polemon, Crantor, e Crates. A Crates sucedeo Archesilao dicipulo de Crantor, e tambem de outro Filozofo chamado Pyrrho: do-qual Pyrrho aprendeo, um novo metodo de filozofar; com o qual fundou a _Academia Media_, que durou até Carneades. Este ultimo, fazendo nela alguma reforma, instituio a _Academia Nova_; que durou até Antioco: que foi o ultimo dos-Academicos, e foi mestre de Marco Tullio Cicero. A _Peripatetica_ fundou Aristoteles, dicipulo de Platam. Diz Cicero, que somente se-diversificava da-Platonica, nas vozes; mas nam nos-sentimentos e opinioens. Dava Aristoteles as suas lisoens, no-Liceo: e continuou a escola nos-seus sucesores, até Diodoro; que se-conta por-ultimo Peripatetico: desorteque ja nos tempos de Cicero, esta escola se-achava mui descaida.

A outra seta de Filozofia, a que chamam _Italica_, foi fundada por-Pitagoras, naquela parte de Italia, a que chamáram _Magna Grecia_. Este Pitagoras florecia 564. anos antes de Cristo: e despois de longuisimas perigrinasoens, para aprender; se-estableceo em Crotona Cidade de-Calabria: e ensinou com grande aplauzo, a Filozofia. Esta seta foi famozisima, pola frequencia dos-ouvintes, e pola sua durasam. Dela nacèram varias: a _Eleatica_, que uns atribuem a Xenocrates, outros a Democrito. Anaxarcho ultimo dos-Filozofos Eleaticos, foi mestre de Pyrrho, que fundou a seta _Pyrrhonica_, ou _Sceptica_. Tambem da-_Eleatica_ saio a _Epicureia_, uma das-mais celebres setas da-Antiguidade; e talvez a que durou mais: pois no-segundo seculo da-Igreja, ainda estava em flor. Estes sam os diversos ramos, da-seta _Italica_. Tambem um seculo despois de Cristo comesou outra, a que chamáram _Ecletica_, a qual teve bastantes dicipulos. O seu principal instituto era, nam jurar nos-dogmas de nenhuma seta: mas tirar de todas, o que parecia melhor. De alguns destes ainda temos as obras: o ultimo foi Damascio. Esta seta agradou muito aos Padres, dos-primeiros seculos da-Igreja; porque parecia a mais racionavel.

Estas sam as diferentes setas, da-antiga Filozofia. Destas a Academica, Estoica, Pyrrhonica, Epicureia, e Peripatetica, duráram na Grecia com pouca diferensa, até o tempo de Augusto, quero dizer, até Cristo. Nos-ultimos dois seculos da-Republica Romana achamos, que os Romanos comesáram a estudar, a Filozofia. Nam que eles fundasem setas, como os Gregos; mas iam estudar à Grecia: ou serviam-se em Roma dos-Gregos, que vinham à Italia: e seguiam quem uma, quem outra seta de Filozofia Grega. Pola maior parte eram Academicos, e Estoicos: alguns foram Epicureos: rarisimo Peripatetico. Os livros de Aristoteles, que ele deixára a Theophrasto seu discipulo, este os-deixou a Neleo: os erdeiros do-qual, para os-roubar à curiozidade d’El-Rei de Pergamo, de quem eram suditos; o qual procurava livros, para a sua Biblioteca; os-enterráram: d’onde foram cazualmente tirados, polos seus decendentes; que os-vendèram a Apellico Ateniez, quazi todos comidos da-umidade. Onde, para se-copiarem, foi necesario encher, todos os vazios da-corrusam: com o que sensivelmente se-alteráram, as opinioens. Despois da-morte de Apellico, Silla Ditador Romano os-transportou de Atenas, para Roma; e se-entregáram a Tirañio, para os-emendar, e dispor em melhor ordem. E tendo-se feito muitas copias, sem as conferir com os originais; foi pior o suceso em Roma, que nam tinha sido em Atenas. Comesou entam a ser conhecido melhor, este Filozofo: e os Romanos comesáram a fazer uzo, principalmente das-suas doutrinas politicas. Entre os Filozofos Romanos singularizou-se Cicero; ouveram tambem alguns outros, de que ainda temos as obras. Até que finalmente, com a ruina do-Imperio no-Ocidente, se-arruinou tambem, a noticia das-Ciencias.

Nos-principios do-VIII. seculo de Cristo, os Principes Arabes dicipulos de Mahomet, os quais uzurpáram grande parte da-Africa, Azia, Grecia, Espanha, e Sizilia; nas invazoens que fizeram, nas Cidades da-Grecia, entre os roubos com que se-recolhèram, foram alguns dos-livros dos-seus autores. E agradando-se destes estudos, fizeram em modo, que Almanon Califfo ou Imperador Saraceno, no-ano 820. mandou pedir ao Imperador de Constantinopoli, aonde as Ciencias ainda se-conservavam; os melhores livros Gregos; os quais se-mandáram traduzir em Arabio. Nam sendo o genio dos-Arabes inclinado a Poetas, Istoricos, e Oradores; somente se-aplicáram aos Filozofos, e Matematicos: e entre eles escolhèram trez, que foram, Aristoteles, Ipocrates, e Galeno. Aplicáram-se a estas Ciencias; e principalmente à Chimica, Magia, Geometria, Algebra, e Fizica. Fundáram Universidades em Tuniz, Tripoli, Fez, Marrocos, e algumas partes da-Espanha: d’onde saîram alguns omens insignes, para aquele tempo: Entre os quais se-singularizou Averroes; o qual na Universidade de Cordova, fez o seu grande comento, sobre Aristoteles, no-meio do-seculo duodecimo.