Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)
Part 14
Nam podem ser ocultos a V. P. os nomes de alguns deles: O _P. Jeronimo Oleastro_, Dominicano Lisboense, que cuido se-chamáse _Jeronimo da-Zambuja_, compoz um comentario Ebraico ao Pentateuco, e cuido que a outros livros mais, se-nam me-engano; poisque averá anos, que vi esta obra. Acho tambem citado um certo _D.Pedro_, Conego Regular, e um Fr._Eitor Pinto_, Jeronimiano, ambos Portuguezes, por-omens mui versados, na lingua Ebraica: ainda-que eu nam poso, formar juizo das-tais obras, porque as-nam-vi. Mas tenho motivo para suspeitar, que fosem omens doutos, vistoque aprendiam as linguas originais, para comentarem a Escritura. Tambem achei um Religiozo meu, quero dizer Observante, chamado Fr._Francisco de S.Luiz_, Lisboense, posterior aos ditos; que floreceo no-tempo do-Concilio de Trento, e alguns anos despois. Este tal compoz em Italia, uma Gramatica Ebreia, com o titulo = _Globus Canonum & Arcanorum Linguæ Sanctæ, & Sacræ Scripturæ_ =: que é um livro bem voluminozo em 4.ᵒ e que dedicou ao Cardial de Medici, impreso em Roma 1586. Este tal autor, (que, segundo diz, fora no-seculo leitor de Leis em Coimbra, e Salamanca; e se-metèra Frade em Espanha) dá a intender, que compuzera o livro em Italia: declarando, que de cincoenta anos aprendèra o Ebraico, que ao despois foram as suas delicias. Onde persuade com muitas palavras, a necesidade da-dita lingua; e se-enfastia, contra os que a-regeitam. Com efeito o omem parece bem informado, da-dita lingua: aindaque caise no-defeito, dos-Gramaticos do-seu tempo; quero dizer, em fazer uma confuzisima e mui enfadonha Gramatica; na qual quiz epilogar, quanto achou em _Elias Levita_, e outros Rabinos: como tambem em vários autores, que o precedèram. Mas este era defeito daquele tempo, em que nam sabiam, que coiza era bom metodo. Contudo é verdade, que o dito P. fez um grande progreso, na dita lingua, em uma idade maior; naqual tambem estudou Teologia: e entre ocupasoens de predicas, e outras semelhantes, segundo diz, nunca deixou, este estudo tam util.
Esta noticia que dou do-tal autor, é porque ignoro, se V. P. tem noticia dele, visto escrever longe de Portugal. Acrecento a este, o _P. Macedo_, Portuguez, e da-mesma Religiam: omem de prodigioza memoria, (aindaque nam de igual juizo) segundo mostrou nas suas famozas concluzoens, que defendeo em Veneza, de que V. P. tem boa noticia: que sabia a lingua Grega, segundo me-diseram alguns dos-seus Religiozos, da-mesma Provincia.
Do-Grego tambem no-seculo 16.ᵒ avia mais noticia, que nam á oje, neste Reino. Polos tempos do-Concilio de Trento, um tal _Joam Vaz_, que foi mestre de Umanidades em Salamanca, sabia bem Latim, e Grego: e no-mesmo tempo _Fernando Soares_, (que compoz uma Gramatica Latina, para uzo do-Duque de Bragansa, impresa em Evora no-ano 1572.) era suficientemente informado, do-Grego. Ajunto a estes, o Bispo _Jeronimo Ozorio_, o qual nam só aprendeo fóra de Portugal Latim bem, mas teve bastante noticia do-Grego, e Ebreo: e podia nomiar alguns outros, que agora nam me-ocorrem. Doque se-segue, que naqueles tempos, os mestres Portuguezes, nam seguiam o parecer, que agora vejo tam comum, deque estas linguas Orientais devam desprezar-se. Onde, com estes exemplos, podiam muitos aplicar-se, a coizas mais utis à Republica. Eu apontei algum exemplo: pode ser que ajam muitos mais, e de linguas peregrinas: porque eu nam escrevo esta istoria.
Serîa tambem justo, que o estudante com o tempo, aprendèse Francez, ou Italiano, para poder ler as maravilhozas obras, que nestas linguas se-tem composto, em todas as Ciencias; de que nam temos, tradusoens Latinas. Antigamente intendiam os doutos, que era necesario saber Latim, para saber as Ciencias: mas no-seculo pasado, e neste prezente, dezenganou-se o mundo, e se-persuadio, que as Ciencias se-podem tratar, em todas as linguas. Parece-me que com muita razam: porque a maior dificuldade das-Ciencias consiste, em serem escritas em Latim, lingua que os rapazes nam intendem bem. Onde nam só sabem mal a materia, mas o tempo que deviam empregar, em a-estudar, ocupam em perceber a lingua. Com esta advertencia, os Inglezes, Olandezes, Francezes, Alemaens &c. comesáram a tratar todas as Ciencias, em Vulgar. Esta oje é a moda. Os melhores livros acham-se escritos, em Vulgar: e qualquer omem que saiba ler, pode intender na prezente era, todas as Ciencias. Nam que isto seja totalmente, ideia nova: porque me-lembro, ter lido uma carta de _Paulo Manucio_, escrita a _Diogo Hurtado de Mendonsa_ Embaixador Cezareo, dedicando-lhe os livros Filozoficos de Cicero; emque se-diz, que o maior impedimento das-Ciencias é, serem tratadas em linguas estrangeiras, digo, Latina &c. O que o dito _Manucio_, com toda a paixam que tinha à lingua Latina, nam dezaprova. Desorteque ja no-seculo 16.ᵒ, emque o mundo comesou a abrir os olhos, em muitas coizas, pensavam asim: o que porem somente se-executou, nestes ultimos tempos. De certo tempo a esta parte, os nosos Italianos comesáram a seguir, o método dos-Transmontanos. Comesou isto, traduzindo os livros Inglezes, e Francezes: despois, pasáram a compor originalmente. Desorteque quem oje quer ter, muitas noticias boas com facilidade, deve intender Francez, ou Italiano. Este estudo nam pede grande tempo, podendo servir-se dos-livros Latinos, que tem a tradusam literal Franceza; como sam o _Terencio_, e _Oracio_, de Madame _D’Acier_, e de um Jezuita &c. E estes mesmos autores Latinos, se-acham traduzidos em verso Italiano, defronte do-Latim, por-dois omens mui doutos de-Italia. O Italiano é mais facil. Mas nam intenda V. P. que eu sou tam inexoravel, que queira carregar os pobres rapazes, com tanto pezo. nada aponto, que nam vise executar a muitos rapazes: e poso afirmar a V. P. que estes estudos, nam sam dificultozos em si mesmo: o mao metodo os-pinta dificultozos. Contudo nam obrigo: aponto somente a utilidade. Quando o estudante nam se-ache, com este dispozisam, pode rezerválo para tempo mais descansado. Fico às ordens de V. P. como seu criado &c.
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NOTAS DE RODAPÉ:
[29] _Veja-se Ludovicus Cappellus in Arcano punctuationis, contra J. Buxtorf. Filium._
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CARTA QUINTA.
SUMARIO.
_Discorre-se da-utilidade, e necesidade da-Retorica. Mao metodo com que se-trata em Portugal. Vicios dos-Pregadores: que sam totalmente ignorantes de Retorica. Que absolutamente deve deixar o antigo estilo, quem quer saber Retorica._
Finalmente é tempo, de pasar-mos à Retorica: para com ela completar os estudos, das-escolas baixas. Sei que V.P. tem gosto, de ouvir-me falar dos-outros: e me-faz a merce nesta sua dizer, que imprime as minhas cartas, na memoria: mas sei tambem, que de todos os estudos das-Umanidades, de nenhum tem mais empenho, que da-Retorica. Pois se bem me-lembro das-nosas conversasoens, conheci entam em V. P. um ardente dezejo, de me-ouvir falar nesta materia; e de querer instruir-se, dos-particulares estilos de Retorica, e muito principalmente dos-sermoens, de outros paîzes: porque me-dise, que nam lhe-agradava, o estilo deste Reino: o qual muitas vezes seguîra, por-necesidade. Nesta carta direi brevemente, o que me ocorre, sobre os defeitos, e tambem sobre o modo de os-evitar.
A Retorica naceo na Grecia, como todos os outros melhores estudos: e de la se-espalhou, polas mais partes da-Europa. É mais moderna, que a Gramatica: mas teve a mesma origem. Querendo os omens na Grecia, persuadir aos Povos, varias coizas; foi necesario que observasem, como eles se-persuadiam: e quais eram os meios, comque se-moviam, as paixoens do-animo. De que naceo esta arte, a que chamam Retorica: que é quazi tam antiga, como a Filozofia; quero dizer, que comesou a florecer, despois da-metade do-quarto milenario. Agradou esta erudisam aos Romanos, que se-reguláram polo mesmo metodo: e tanto se-entregáram a ela, que, se nam excedèram aos Gregos, na ciencia; sem duvida excedèram-nos na aplicasam, e exercicio: porque na verdade chegáram a namorar-se, da-sua galantaria, e utilidade. Dos-Romanos a-recebèram os outros Povos, e Nasoens: entre as quais as que mostráram mais juizo, aplicáram-se a ela com cuidado, polos mesmos motivos.
E, na verdade, nam á coiza mais util, que a Retorica: mas nam á alguma, que com mais negligencia se-trate, neste Reino. Se V.P. observar, o que os mestres ensinam nas escolas, achará, que é uma embrulhada, que nenhum omem, quanto mais rapaz, pode intender. Primeiramente, ensinam a Retorica, em Latim. Erro consideravel: porque nada tem a Retorica, com o Latim: sendoque os seus preceitos compreendem, e se-exercitam em todas as linguas. Daqui nace o primeiro dano, que é, que os rapazes nam a-intendem, porque ainda nam intendem Latim: e nace tambem o primeiro engano, que é, persuadirem-se os ditos rapazes, que a Retorica só serve, para as orasoens Latinas. Asim me-respondèram muitos, nam sò rapazes, mas tambem sacerdotes. Do-que eu conclui, que saiem da-Retorica, como nela intráram: e examinando as Retoricas, que eles aprendem, fiquei tambem persuadido, serem elas tais, que nam podiam produzir, outro fruto.
E, valha a verdade, nam só os rapazes que estudam, mas nam sei se os mesmos mestres, vivem persuadidos desta razam: porque observo, que falando-lhe muito, em exemplos Latinos, nam se-servem dos-vulgares, para mostrar o artificio da-Retorica. Como se os preceitos só servisem, para compor Latim, e orasoens estudadas: ou como se nas linguas vulgares, nos-discursos familiares, nam pudesem ter lugar, os preceitos da-Arte! E com isto ficam novamente persuadidos os estudantes, que só para orasoens Latinas, serve a Retorica.
Mas por-pouco que se-examine, o que é Retorica, acharseá, que é _Arte de persuadir_: e por consequencia, que é a unica coiza, que se-acha, e serve no-comercio umano; e a mais necesaria para ele. Onde quem diz, que só serve para persuadir na cadeira, ou no-pulpito; conhece pouco, o que é Retorica. Confeso, que nos-pulpitos, e cadeiras faz a Retorica gala, de todos os seus ornamentos: mas nam se-limita neles: todo o lugar é teatro para a Retorica. Nam agrada um livro, se nam é escrito com arte: nam persuade um discurso, se nam é formado com metodo. finalmente uma carta, uma resposta, todo o exercicio da-lingua, necesita da-diresam da-Retorica. A mesma Filozofia, serve-se utilmente da-elegancia. A Teologia tem necesidade dela; porque (como adverte um omem douto) nam pode explicar as verdades espirituais, que sam o seu objeto, senam vestindo-as de palavras sensiveis, com que as-persuada. A Lei ou Civil, ou Canonica, nam se-pode dispensar, da-Retorica. Como á-de orar um Advogado, informar o Juiz, defender o Reo; se ele nam sabe, em que lugar devem estar as provas, ou de que prova á-de servir-se, para aclarar a verdade da-sua cauza, e excitar os afetos do-Juiz? Como á-de compor uma escritura, se ele nam sabe, o metodo de a-tecer, de dilatar os argumentos, e servir-se das-suas proprias razoens?
O discurso de um omem despido de todo o artificio, nam pode menos, que ser um Cahos. Poderá ter boas razoens: excogitar provas mui fortes: mas se as-nam-sabe dispor com ordem, quem poderá intendèlo? quem se-persuadirá delas? A dispozisam das-partes, dá nova alma ao todo: convida a conhecer as proporsoens: mostra a relasam e dependencia, que umas tem das-outras: coloca na sua justa proporsam, o que de outra sorte nam se-poderia intender. Os diamantes, os rubis, e outras pedras preciozas sam belas, e servem de grande ornamento: mas segundo o lugar em que estam. Encastoadas com artificio, mostram toda a sua galantaria, e dam novo lustre à mesma prata, e oiro que as-rodeia; e ornam muito as pesoas, que as-trazem: postas porem sem ordem em um monte, ou misturadas com outras pedras, nam parecem preciozas, mas ou pedras groseiras, ou cristais. Os astros, que compoem a beleza do-Universo, nam tem em si mesmos, beleza alguma: mas a proporsam os-faz vistozos. Quem vise a Lua de perto, acharia um globo, sem diversidade alguma deste terreste: o mesmo digo, dos-outros planetas opacos. Quem examináse de vizinho o Sol, nam veria mais, que uma fogueira: o mesmo digo, dos-outros igneos. Mas todos estes vastos globos, postos na sua justa proporsam, fazem tal efeito, mostram tam extraordinaria beleza; que é um famozo argumento, para ver, a suprema mam que os-criou. O Sol posto no-centro do-Universo, segundo a ipoteze (que agora suponho) de Copernico, dá luz aos mais planetas, alma ao Mundo, vigor à terra, utilidade aos omens, e gloria ao seu criador. Se se-chegáse mais vizinho a nós, queimaria tudo: e acabava-se o Mundo. E eisaqui o efeito, da-boa proporsam e ordem.
Um omem douto advertidamente chamou à Retorica, a _Perspetiva da-razam_: porque na ordem inteletual faz o mesmo, que a Perspetiva, nas distancias locais. Em uma taboa liza, ideia a pintura um palacio, com imensa profundidade: e muitas vezes com tal artificio, e tam semelhante ao natural, que se-enganam os olhos. Nam sam as cores que originam, esta delicioza equivocasam; porque com uma só cor, se-consegue o mesmo intento: mas a dispozisam das-partes, o saber pór cada uma na sua justa distancia, o saber-lhe dar as sombras, com proporsam da-arte, produz este maravilhozo efeito: e faz que eu veja, reconhesa, e admire, o que de outra sorte nam poderia ver. Este mesmo é o cazo da-Retorica. Ela tem forsa tal, que me-obriga a descobrir, o que eu de outra sorte nam verîa. Os materiais podem ser simplezes, as razoens mui singelas; mas a dispozisam delas fará efeitos tais, que sem ela nam se-conseguiriam. eu verei, e intenderei, o que sem ela nam é facil intender. Ora de toda esta doutrina se-conclúe, a extensam da-Retorica: porque sendo ela a que dá alma, a todos os discursos; e novo pezo, a todas as razoens; fica claro, que tem lugar em toda a parte, em que se arrezoa e discorre.
Dirmeám, e ja mo-diseram alguns, que este discurso é dirigido, a introduzir um estilo afetado nas conversasoens; e carregar todos com o pezo, de falar por-_tropos_ e _figuras_: nam proferir discurso, que nam seja segundo as regras da-arte: cuja afetasam é pior, que falar sem Retorica. Mas esta objesam é igualmente distante, da-boa razam, que do-meu intento; e é unicamente fundada, em nam saber, que coiza é Retorica. Permita-me V.P. que eu me-dilate alguma coiza, neste particular, para explicar o que digo, o que devo, e livrar a muita gente, deste prejuizo.
Os rapazes, que estudam nestes paîzes, nam sabem nada de Retorica, porque lha-nam-ensinam: Os que sam adiantados, e continuáram os estudos, sabem ainda menos; porque bebèram principios, tam contrarios à boa razam, que ficam imposibilitados, para se-emendarem. Em todo este discurso protesto, que nam falo daqueles omens, que com raro juizo, e fina critica se-dezenganáram, das-preocupasoens comuas, e seguem outra estrada: dos-quais eu conheso alguns: falo somente do-Comum, e falo fundado nas suas obras: nas quais se-reconhece a verdade, de quanto digo. Estam todos persuadidos, que a Eloquencia consiste na afetasam, e singularidade: e, por-esta regra, querendo ser eloquentes, procuram de ser mui afetados nas palavras, mui singulares nas ideias, e mui fóra de-propozito nas aplicasoens. Tem V.P. mui belo exemplo nos-sermoens: que eu, para maior clareza, dividirei em varias especies.
Encomenda-se um sermam v.g. de Exequias, de um General. O meu bom Pregador mostra aqui, todo o seu ingenho, e eloquencia. Saie logo um texto da-Escritura, para tema: e á-de ser do-testamento Velho, porque á-de ser profetico. No-sermam mostra o Pregador, que estava revelado, na escritura da-Antiga igreja, que aquele General avia fazer famozas asoens: e nam só asoens _in genere_ eroicas, mas especialmente estava revelado, que avia ganhar a batalha do-Canal, ou das-Linhas de Elvas. E isto estava profetizado, com tanta individuasam, que nam se-podia dezejar mais. Despois, vai recolhendo as outras profecias, da-vida daquele General. Mostra, que a batalha de Saul contra os Filisteos, era figura da-grande batalha, que o seu eroe ganhou. Se sucedeo, que nesta batalha algum piquete, dése principio à asám; se era em partes montuozas; nam deixa de observar, que tudo iso tinha ja sucedido a Jonatas, e ao seu escudeiro: onde vem, que até aquela circunstancia, estava profetizada. Pasa adiante, e comesa a levantar, e requintar pensamentos. Diz, que o seu eroe, era maior que Saul, nam só de corpo, mas tambem de animo: que era mais afortunado que David: mais prudente que Salamam: E se nam á logo um texto claro, com que se-prove isto, nam falta um expozitor, que diga uma palavra, da-qual o Pregador conclue manifestamente, que o texto nam se-pode intender, de outra sorte.
Daqui pasa um pouco mais para baixo. Mostra, que Alexandre Magno, em sua comparasam, era um ridiculo: que o seu eroe tinha um corasam, ao menos, como metade da-America: que fez coizas, que a ninguem vieram à imaginasam: e que somente a ele se-pode aplicar o, _Siluit terra in conspectu ejus_. Se tem alguma noticia de-Istoria, nam deixa de mostrar, que Julio Cezar, Paulo Emilio, Quinto Fabio, Anibal, Pirro, &c. podiam ser seus dicipulos. E outras coizas destas, que se o dito General fose vivo, e as-ouvise, nam podia deixar de envergonharse, de tal panegirico. Isto quanto ao asumto. Quanto à dispozisam: Despois de um grande exordio, e comumente improprio, divide o sermam em trez pontos: raras vezes em dois: rarisimas conclue com um só discurso. Promete mostrar em cada um, que o seu eroe teve uma singularidade, a maior do-mundo: o que tudo quer tirar, da-Sagrada escritura. Pede a grasa, paraque Deus lhe-inspire, o que deve dizer, em materia de tanta importancia: e prosegue o sermam, na fórma dita.
Se pois as exequias sam de Molher, saie logo, o _Mulierem fortem quis inveniet?_ e nam a-tendo achado o Sabio, afirma ele, que a gloria de achar esta mulher, estava rezervada à sua diligencia. E, aindaque a Senhora fose Religioza, e de animo pacifico; nam pode deixar de intrar, o fato de Judita; em que ele mostra, que a dita Senhora é Judita: a sua espada eram as diciplinas, e cilicios: Olofernes era a figura do-mundo, que ela matou, e prostrou com facilidade, &c. Mas como na escritura Antiga, á poucos exemplos de molheres eroicas, recorre logo à Nova, e la vai buscar, a Molher do-Dragam, e outras destas figuras. Finalmente, discorre das-virtudes da-dita Senhora, polo estilo das-do-General.
Nam me-negará V.P. que esta é a pratica deste Reino: porque lhe-mostrarei, muitos livros impresos, em que se-acham estes sermoens; e de omens que tiveram, e conservam grande fama. Progunto agora: acha V.P. que isto é pregar? que é saber discorrer? que é ser eloquente? Em primeiro lugar, o tema da-Escritura, e as provas tiradas dela, sam erro de toda a considerasam. Estes Pregadores nam devem ter lido, o concilio de Trento[30], que proibe, uzar das-palavras sagradas, aplicadas a coiza profana: nam devem saber, que é expresamente proibido, explicar a Escritura, senam segundo a expozisam, dos-SS.PP. da-Igreja. Concedo, que um expozitor moderno, disèse alguma propozisam, que se-pudese aplicar ao asumto: por-iso ei-de seguila? quantos destes expozitores, nam vemos todos os dias, que nam sabem o que dizem? que omem prudente faz cazo, de semelhantes escritores, que nam fundam a sua expozisam, na doutrina da-Igreja? Despois diso, quem poderá defender aquelas provas, tiradas da-Escritura? Ou quer o Pregador dizer, que os fatos da-Antiga igreja, eram figura do-seu asumto; e esta é uma propozisam temeraria, por-nam lhe-dar outro nome; e contraria à comua doutrina dos-Padres, e da-Igreja: ou nam se-persuade disto; e nam se-livra da-censura, fulminada por-muitos canones, por-abuzar imprudentemente, de palavras sacrosantas. Porque eu nam acho, que semelhante aplicasam seja outra coiza mais, que aplicar com grande irreverencia, umas palavras santas, a um sentido, para que nam foram proferidas: e a um sentido indigno, profano, e falso: que é o mesmo, que condena o Concilio.
Respondem alguns, que isto quando muito prova, que a aplicasam nam é boa; por-ser de coiza sagrada, a uma profana: mas nam prova, que no-sermam nam se-observáram, os preceitos da-Oratoria. Mas esta mesma resposta mostra, que nam intendem, que coiza é Retorica. Se a Retorica é arte de persuadir, quem mais se-persuadio com provas, que nam fazem ao cazo? Que omem de juizo á-de intender, que aquele General foi grande, porque Saul o-foi tambem? que parentesco tem uma coiza, com outra? E como a obrigasam daquele panegirista seja, mostrar, e engrandecer, as virtudes do-seu eroe; todas as provas que tirar da-Escritura, nam concluem para o seu intento. Conheso, que alguma vez se-pode alegar, um paso da-Escritura, damesma sorte que se-cita um paso, da-istoria Profana: porque a istoria da-Escritura, tambem na materia de Politica ensina muito: mas neste sentido nam se-servem, os Oradores deste Reino, como é coiza notoria: porem sim, no-sentido de profecia. Se pois aquele paso, nada faz ao cazo, com que razam o-alega? Pode-se chamar Orador, um omem que se-funda em razoens, que nam conduzem, para o seu intento? Temos ja, que a este omem falta, a principal parte de Orador, que é _Inventio_: o saber buscar razoens proprias, para o seu intento, e que pròvem o que ele quer. Peca logo na aplicasam: e niso mesmo peca, contra a Retorica.
Suponha V.P. que da-outra parte estava outro Orador, que respondèse aos argumentos. suponha que o cazo sucedia no-Egito, aonde antigamente se-expunham os cadaveres, diante dos-juizes, para serem julgados. Um publico acuzador, referia todos os defeitos, e respondia aos louvores, que nam eram fundados. Se o omem era de boa fama, dava-se a sentensa a seu favor, e enterrava-se com onra e panegirico, acompanhado de grandes louvores do-Povo: se era condenado, privava-se de sepultura, e a sua memoria ficava abominavel[31]. Que coiza julga V.P. que diria o noso Pregador, neste cazo? parece-me, que ficaria convencido de falsidade, o Orador; e envergonhada a fama do-eroe, que ele nam soubera defender.
Ora esmeuce V.P. as mais partes daquele sermam, e verá quantas faltas de Retorica, ali se-incontram. Que má dispozisam dos-argumentos! que arrastada confirmasam das-provas! Isto é supondo, que o paso que ele cita, tenha alguma semelhansa, com o que quer provar. Mas nam ve V. P. quantas coizas os Pregadores inculcam, que de nenhum modo se-seguem, do-texto? Este é o segundo ponto, que nam me-parece de pouco momento, nesta materia: e isto melhor se-conhece, quando querem esquadrinhar, as palavras dos-Profetas, ou dos-livros cientificos. Primeiramente tomam umas palavras troncadas, (que se fosem inteiras, eram contrarias ao asumto) e delas deduzem o seu pensamento. E que diz V.P. a este modo de comentar? parece-me que isto é aquilo mesmo, a que, em bom Portuguez, se-chama, impostura: porque é tirar pensamentos de um texto, que nam diz tal coiza. Despois, recorrem a um expozitor, ou S. Padre, o qual talvez guiado do-furor do-seu zelo, ou com exceso retorico, dise alguma propozisam, que, para nam ser erezia, é necesario tomála muitos furos abaixo, do-que soa: no-que concordam todos os Criticos, e Teologos. Aqui o meu Pregador, sem perder nem menos uma silaba, traduz a propozisam como se-acha: e nela Levanta uma machina de paradoxos, com que pertende provar, coizas mui verdadeiras, e sezudas. Nam cito exemplos, porque falo com V.P. que sabe mui bem, de quem eu falo. E averá quem me-negue, que isto é faltar à Retorica? averá quem se-atreva a dizer, que isto é saber elogiar? Se os argumentos sam verdadeiros, sempre sam fóra do-asumto: se o-nam-sam, nam deixam de ser imposturas: e nam sei qual destas, é pior falta de Retorica. Mas prosigamos o exame, e vejamos o que fazem, nos-outros asumtos.