Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)
Part 13
Se damos um paso mais atraz, e entramos em Atenas, onde as Artes, e Ciencias tanto florecèram, que dali se-espalháram, polo resto da-Europa; acharemos, que nesta grande escola, até a gente plebeia, polo costume de ouvir orar, e falar bem em publico, aqueles grandes Oradores; tinha aquistado, um tam exquizito gosto da-lingua, que quando os Oradores subiam à tribuna, temiam ofender, com alguma menos boa expresam, orelhas tam delicadas. Avia muitos anos, que o Filozofo _Teofrastro_ abitava em Atenas, e tinha feito um particularisimo estudo, de falar a sua lingua, segundo o dialeto de Atenas: comtudo iso diz a Istoria, que da-pronuncia de uma palavra, conheceo que era estrangeiro uma molher, que vendia legumes em Atenas[28]. Achamos na istoria Grega, mil outros exemplos, que confirmam, quam geral era, o bom gosto da-eloquencia, entre os Gregos. Nas asembleias publicas da-Grecia, em que se-recitavam Poemas, e Istorias ao Povo; sabemos, que muitas vezes regeitáram algumas, por-nam chegarem, à fineza de outras. _Dionizio_ o velho, Rei de Saragosa nam era mao Poeta: vistoque com uma das-suas compozisoens, alcansou o premio, nos-jogos da-Grecia, digo, nos-jogos Olimpicos: mas porque mandára primeiro duas, que nam chegavam ao merecimento, da-terceira, foi escarnecido por toda a asembleia. Deixo outros Antigos.
E, se decemos a estes ultimos seculos, e ao prezente, poso mostrar a V. P. com toda a evidencia, que em Londres, Amsterdam, Leiden, Pariz, Roma, Napoles, Padoa, Bolonha, Piza, e outras muitas partes, onde se-cultivam os bons estudos; os que neles sam instruidos, por-pouco que saibam, aquistam um particular gosto, em todo o genero: e que neses mesmos empregos de Ciencias, e Artes, á infinitos omens excelentes. Do-que manifestamente se-prova, que onde se-ensina bem, sempre á omens grandes: e que onde os-nam-á, é uma prova manifesta, do-mao metodo, de quem ensina.
Tenho dito a V. P., quanto a brevidade de uma carta permite, o que me-parece deve fazer, quem quer saber Latim. Poderia acrecentar outras coizas; mas esas sam somente necesarias, aos que querem ser insignes, nas letras umanas. Para V. P. que é tam versado nelas, o que digo, parece ainda superfluo: e para os-outros, muito mais: vistoque nam acho muitos, que queiram esta gloria, e queiram conseguila, com estes meios. Comque páro aqui: E dezejando a V. P. felicisimas festas, e boas intradas de anos; com todo o corasam me-asino &c.
[Illustração]
NOTAS DE RODAPÉ:
[21] _Adversar. l. 7. c. 19._
[22] As palavras de Furio Albino citado por-Macrobio, sam estas. _Nemo debet antiquiores Poetas ea ratione viliores putare, quod eorum versus nobis scabri videntur. Ille enim stilus maxime, tunc placebat: diuque laboravit ætas secuta, ut magis huic molliori stilo acquiesceret. Itaque minime defuerunt, imperantibus etiam Vespasianis, qui Lucretium pro Virgilio, & Lucilium pro Horatio legerent._ Petrus Crinitus, de Poetis Latinis.
[23] _L.3. v. 248._
[24] _Aeneid. I. v. 67._
[25] _Itaque video visum esse nonnullis, Platonis, & Democriti locutionem, etsi absit a versu, tamen, quod incitatius feratur, & clarissimis verborum luminibus utatur, potius poema putandum, quam comicorum poetarum: apud quos, nisi quod versiculi sunt, nihil est aliud quotidiani dissimile sermonis._ Cicer. de Orat. ad M.B. num.20.
[26] _Expectatione promissi tui moveor, ut admoneam te, non ut flagitem: misi autem ad te quatuor admonitores, non nimis verecundos: qui metuo, ne te forte flagitent: ego autem mandavi, ut rogarent._ Cicero Epist. famil. _l._9. _ep._ 8.
Quintil.--_Efflagitasti quotidiano convitio, ut libros jam emittere inciperem &c._
[27] _At in his (numeris) si paullum modo offensum est, ut aut contractione brevius fieret, aut productione longius; theatra tota reclamant._ Cicero _l.3. de Oratore n.50_.
[28] Cicero, _de Claris Orator. n.46_.
[Illustração]
CARTA QUARTA.
SUMARIO.
_Necesidade das-linguas Orientais, principalmente Grega, e Ebraica, para intender as letras Umanas: mas muito principalmente, para a Teologia. Modo de as-aprender. Utilidade da-lingua Franceza, e Italiana, para ser erudito com facilidade, e sem despeza._
Meu amigo e senhor, Talvez esperava V. P. que eu nesta carta, pasáse direitamente à Retorica; e comesáse a discorrer sobre aquela materia, que nos-ocupou bastante tempo; e nos-deu ocaziam, para fazer muitas, e mui utis reflexoens. Tambem esa era a minha intensam; se me-nam ocorrese outra coiza, que julgo ser igualmente necesaria: e que nam nos-ocupará, senam uma carta, e nam mui longa. Falo do-estudo das-linguas Orientais: que muitos desprezam, porque nam tem juizo, para conhecer o bom, rezolusam para o-emprender, e metodo para o-conseguir. Eu nam falarei de todas: mas das-duas mais principais, e que todos os omens doutos reputam, que sam sumamente necesarias: e como tais se-ensinam, em quazi todos os estudos, da-Europa culta: tais sam a Grega, e Ebraica.
Sam estas duas linguas em Portugal, totalmente desconhecidas, ainda nas-Universidades: o que é mui observavel: porque Universidade deve compreender, todo o genero de estudos. Os Espanhoes conhecèram muito bem, esta necesidade: e vemos que nas principais das-suas Universidades ensinam, nam só estas, mas outras Orientais. Mas em Portugal observo, que nam á noticia delas. Nese colegio das-Artes, dizem que á uma cadeira de Grego: mas como se a-nam-ouvese, porque nam tem exercicio. Os Seculares, que algumas vezes entram na aula, é para se-divertirem. Os Jezuitas mosos, sam na verdade obrigados, a frequentar por-algum tempo, a dita escola; e nos-dias santos le-se um capitulo de _S. Joam Crizostomo_, ou coiza que o valha: mas como todos estes mosos, estam na opiniam, que aquilo para nada serve; nenhum se-aplica a ela. Despois de quatro anos de estudo, me-dise um, que nam sabia mais, que esta palavra: ό δεος. Achei outro, que sabia o Padre noso, e Ave Maria: e destes acham-se alguns: mas nenhum o sabia escrever derepente. Finalmente nam achei algum, que soubèse explicar, quatro regras de Grego, nam digo eu de algum Poeta, ou coiza dificultoza; mas nem menos do-Testamento Novo, ou algum S. Padre facil. E isto observei ainda naqueles, que tinham sido mestres de Grego: (nam por-falta de capacidade: mas de aplicasam) e fasa V. P. a experiencia, que achará, que nam minto. Os outros todos, ou sejam Regulares, ou Seculares, nam tem mais noticia do-Grego, que do-_Kyrie Eleison_: e do-Ebreo, só conhecem a palavra _Aleluia_, _Amen_, e alguns nomes proprios de omens, ou Cidades, que se acham na Vulgata, ainda-que transfigurados: e contentam-se com esta noticia: Antes rim-se muito, se acazo lhe-dizem, que é um estudo necesario. Mas a verdade é, que aos Teologos é indispensavelmente necesario, sabèlo; senam a todos, ao menos aos que se-internam na Teologia, e a-ensinam. Senam diga-me V. P. se nacèse uma dificuldade, sobre a inteligencia do-texto Ebreo, ou Grego, ou de algum S. Padre; como muitas vezes sucede, conversando com os Erejes, ou disputando entre os Catolicos; a quem se-á-de proguntar? será necesario escrever, a Fransa, Roma, Veneza, Napoles &c. para saber a resposta? que coiza mais vergonhoza! E que diriam aqueles Teologos, se ouvisem, que aqui nam avia, quem os-intendèse? Mas disto falaremos, em outra parte. Por-agora só digo, que asim como ao Teologo é necesario, intender Latim, para ler a Vulgata Latina; asim tambem é necesario, intender os textos Originais, de que esa Vulgata se-tirou.
Persuadem-se muitos, e alguns mo-confesáram, que só a Vulgata merece autoridade. isto é, porque nam estudáram a materia. Convem todos os Teologos de boa doutrina, que o Concilio Tridentino, quando declarou _Autentica_, a nosa Vulgata; só a-preferio, às outras Vulgatas Latinas: mas nam a-preferio, nem a-comparou com as Fontes, Grega, e Ebraica. De que vem, que estas conservam oje, toda a sua autoridade: e por-elas se-emendou a Vulgata, no-tempo de Sixto V., e Clemente VIII. e ainda oje se-pode emendar, em varias coizas, que nela advertem os omens doutos. E por-este principio fica claro, que pode aver grande utilidade, e necesidade, em consultar as ditas Fontes.
Alem da-Escritura, temos os SS.Padres da-Igreja Grega, que escrevèram na sua lingua. O Teologo todos os instantes tem necesidade, de consultar estes Originais: porque as Versoens nem sempre sam fieis. Muito mais porque nam se-ignoram as controversias, que todos os dias nacem, nas escolas Catolicas, sobre as palavras dos-Padres, e dos-Concilios. Alem diso, o Jurista tem necesidade do-Grego, para alcansar o verdadeiro sentido, de muitas constituisoens Imperiais; que foram escritas em Grego. O Canonista o mesmo: vistoque deve procurar, as fontes da-Diciplina Ecleziastica: a qual pola maior parte, determinou-se nos-Concilios: muitos dos-quais celebráram-se no-Oriente: e ainda algum no-Ocidente, em Grego; como o Florentino no-tempo de Eugenio IV. Tambem para intender, o Decreto de Graciano, que se-funda todo, sobre a antiga Diciplina: e os mesmos PP. Gregos. O Medico tem necesidade do-Grego, para intender as obras, de Ipocrates: para ver o que dise Galeno, e Areteo de Capadocia; que, despois de Ipocrates, foi o melhor Medico dos-seus tempos: e alguns outros. É tambem necesaria ao Medico, para intender a Anatomia, e suas partes, cujos nomes sam Gregos: nam avendo Ciencia, em que se-encontrem mais nomes Gregos: como tambem para intender os nomes, de muitas infermidades. Nisto cuido que convirám sem dificuldade, os mesmos Peripateticos, se quizerem examinar o cazo. Mas eu paso adiante, e digo, que as Letras Umanas, e ainda a mesma Latinidade, nam se-pode intender bem, sem alguma noticia do-Grego. Os Romanos adotáram infinitos termos Gregos: cuja propria significasam nam se-alcansa, sem saber o Grego. As mesmas declinasoens, a dezinencia de muitos Verbos, pedem alguma erudisam Grega. mas isto só o-intende, quem se-familiariza com o Latim.
Quanto pois ao estudo do-Grego, e Ebraico, nam é ele tam embarasado, como o-pintam. Os Mestres podiam brevemente dar, alguma noticia do-Grego: nam se-cansando em explicar, todos os preceitos de Gramatica (este é o defeito de muitos Profesores). Basta ao principio saber, as declinasoens, e conjugasoens, sem falar nos-dialetos. as anomalias podem-se deixar; e basta que com o tempo se-observem, quando se-vai lendo. As outras partes da-Gramatica basta velas uma vez, para as-saber procurar, quando será necesario. Despois, toma-se um autor, que tenha junto a versam Latina: e em cada voz se-deve observar, se é raiz, ou nam: e, quando duvidar, procurálo no-Dicionario. Em um mez, ou dois, pode conseguir, bastante noticia destes principios. Despois, com o socorro do-Dicionario, e da-versam, deve comesar a explicasam, de algum autor facil. Os Istoricos, e Prozadores devem ser preferidos, aos Poetas; como mais dificultozos. Um omem douto ensina, que se-deve seguir este metodo. 1.ᵒ Ler os Estratagemas de _Polyeno_, que sam mui claros: os Dialogos de _Luciano_, e principalmente os Characteres Ethici, de _Teofrasto_; que é elegantisimo. 2.ᵒ os dois famozos Istoricos, _Xenofonte_, e _Erodoto_: que encerram as delicadezas, e grasa, da-lingua Atica. 3.ᵒ a estes podem seguir-se _Tucidides_ Istorico; _Isocrates_, e _Demostenes_ Oradores; e _Platam_, Filozofo o mais eloquente, e culto da-Antiguidade. Quem chegar a intender bem estes, tenha a consolasam, que sabe bem Grego. Pode-se aprender alguma noticia, dos-costumes Gregos, nas obras de _Ubbo Emmius_, e _Joannes Meursius_, que sam os que melhor explicáram, as antiguidades Gregas. Outros querem, que se-comece polo _Evangelho de S. Lucas_, e _Atos dos-Apostolos_; ou polas fabulas _de Esopo_: despois _Luciano_, _Erodoto_, _Xenofonte_, _Isocrates_: e no-fim _Omero_, e _Plutarco_, e alguma coiza de _Demostenes_. Um, e outro destes metodos se-pode seguir: mas agrada-me mais o primeiro. O principal ponto está, que nestes principios, quando se-acham lugares dificultozos, deve-se pasar adiante: e ler os autores saltiados, por-nam enfastiar os rapazes.
Sobre os Poetas, nam me-canso em dizer muito: porque quem tem noticia da-lingua, tem ja bastante luz para ver, como se-á-de regular, na sua lisam. Concordam os omens da-profisam, que o melhor Poeta, e mais claro é, _Aristofanes_: mas é bastantemente obceno. Onde, quem nam souber ler tais coizas, sem perigo; deverá pasar a _Omero_, e _Esiodo_, que sam os mais facis entre os Eroicos, e que se-servem de expresoens, mais claras. Verdade é, que nestes Poetas, á uma dificuldade nam pequena, que consiste, na variedade de dialetos, e inflexoens, e mudansas de palavras, proprias-dos Poetas: mas a isto se-supre com o Dicionario, que explica distintamente, estas palavras. Aconselham os doutos, que, antes de ler Omero, leia-se o _Everhardo Feithio_==_Antiquitates Homericæ_: no-qual ele descreve a istoria, dos-tempos Eroicos, de que trata _Omero_. Dos-Poetas Eroicos pode-se pasar, aos Bucolicos, que sam _Moscho_, _Bion_, _Theocrito_; para aprender o dialeto Dorico, em que escrevem: servindo-se do-pequeno Dicionario, de _Schrevelius_. A melhor edisam destes autores é, a de _Daniel Heinsio_: em que, alem das-deste, se-acham tambem as notas, de _Scaligero_, e _Casaubon_. Despois pode ler, os Poetas Tragicos: entre os quais os mais facis, e judiciozos sam, _Euripides_, _e Sophocles_: porque os outros, só os-podem intender, os que sam bem praticos da-lingua. E como suponho, que o estudante neste tempo, (isto nam se-faz nas primeiras escolas: mas quando um é ja adiantado no-Latim) terá ja noticia, das-leis da-Poezia; pode, lendo estes autores, ir descobrindo, e bebendo na sua fonte pura, as grasas da-Poezia, em todos os generos.
Uma coiza porem é necesario advertir, nam só aos dicipulos, mas tambem aos mestres, porque neste defeito caiem muitos profesores publicos: e vem aser, que nam se-cansem em mandar compor, aos pobres rapazes: porque esta lingua, que oje é morta, nam é necesario falála, basta intendèla com facilidade. Encontram-se muitos, que explicam aos rapazes, trez, ou quatro regras de Grego, e obrigam-nos a compor, paginas inteiras. Onde vem a cair no-mesmo defeito, que em outra carta ja dise, (falando da lingua Latina) de quererem, que os rapazes sejam mestres, naquela materia, na qual nam chegáram ainda aser, dicipulos. Em uma palavra: a experiencia ensina, que é absolutamente necesario, intender Grego: e que é inutil, o escrevèlo; quando um omem nam está empregado em coizas, que o-pesam.
Sobre as Gramaticas, á oje tantas, que é superfluo, que eu diga coiza alguma. Muitos sam apaixonados, pola de _Clenardo_, com as notas de _Antesignan_: porque nela se-acha com facilidade, o que só com grande trabalho se-busca, em outros livros: e tambem ensina o uzo da-Gramatica, reduzindo-a aos preceitos gerais: o que ilustra muito o intendimento. Mas oje asentam todos, que a de _Lanceloto_, a que chamam de _Porto real_, é a mais facil, e as reflexoens mais solidas. mas é em Francez, ou Italiano, e nam é para o cazo. Alem destas, á infinitas mais modernas, que sam mui boas, e Latinas. Um amigo noso compoz a Gramatica Grega, e Ebraica, cada uma em duas folhas de papel grande, com uma clareza inimitavel, para um principiante. Procuro que a-imprima, para utilidade dos-Portuguezes. é sem duvida a mais facil, que tenho visto nesta materia. No-cazo que o estudante nam tenha, quem o-aconselhe, na eleisam de livros; deve sempre apegar-se a uma Gramatica, das-mais modernas, e mais breves: principalmente compostas por-alguns seculares, Inglezes, Olandezes, Alemaens, e alguns Francezes. Porque como estes nam seguem as leis, que obrigam alguns Regulares, a nam se-desviarem, dos-seus antigos metodos; procuram sempre, melhorar no-metodo, e na inteligencia: como a experiencia me-tem mostrado. E nestas letras Umanas é sem duvida, que os Seculares excedem muito, aos Regulares.
Sobre o Dicionario, parece-me que o estudante deve servir-se, do-_Scapula_, que costuma reduzir todos os _derivados_, à sua _raiz_. Isto ao principio cauza dificuldade, porque se-ignora, que coiza os _derivados_ acrecentam, sobre _a raiz_; para os-poder separar, e procurar no-seu lugar. Mas neste cazo basta procurar, no-fim do-Lexicon, a voz como se-acha; que ali se-ensina, de que raiz vem, e aonde se-deve procurar. E desta sorte aprende um omem, o verdadeiro modo de separar os _derivados_ das-suas _raizes_: e fica com a inteligencia, de uma quantidade de termos: coiza que vale infinitamente nesta lingua. Se o estudante pouco a pouco aprendèse de memoria, as _raizes_; facilitaria muito este estudo, e intenderia mais depresa os _derivados_. O ponto todo está em nam deixar totalmente este estudo, por-todo o decurso da Latinidade, e Retorica: porque aindaque sò expliquem, duas regras cada dia, no-cabo de um ano, adianta-se muito.
A Gramatica Ebraica é muito mais facil, que a Grega. Antigamente escreviam os Ebreos, sem vogais: e o verdadeiro modo de pronunciar, pasava de pais a filhos, por-tradisam: e ainda oje a Biblia, que se-conserva nas suas sinagogas ou escolas, costuma escrever-se sem vogais, como eu vi muitas vezes. Mas despoisque os Ebreos, tornáram do-cativeiro de Babilonia, e, com permisam de _Artaxerxes Longimano_, restablecèram, a Igreja Judaica, e todos os ritos da-sua antiga religiam: entam, segundo se-prezume, se-inventáram os ditos pontos, ou vogais. Certa coiza é, que nese tempo os Ebreos, tinham perdido a sua lingua, e só intendiam a Caldeia. Onde nas sinagogas, que entam se-introduzîram, era necesario, que um interprete explicáse em Caldeo, as palavras da-Biblia, que outro proferia e lia em Ebreo. E como uma lingua morta, nam se-pode aprender, nem ensinar, sem vogais; fica claro, que os doutores, que com Esdras publicáram, uma edisam correta da-lei, os-inventáram, para poderem ensinála, aos que ignoravam a lingua. É porem provavel, que entam somente inventasem, as cinco vogais: e nam tantas, como ao despois se-uzáram. Esta noticia conservou-se, nas escolas dos-Gramaticos, ou escolas de ler: (entre os Ebreos avia escolas de Gramatica; e outras de Teologia) mas nam nas escolas de Teologia: porque os omens doutos, que ja sabiam a lingua, nam necesitavam diso. Mas despois da-ultima destruisam de Jerusalem, no-ano 70. de Cristo, tendo-se espalhado os Ebreos, por-todo o imperio Romano; e muito principalmente, despois da-dispersam que tiveram, no-tempo de Adriano; acrecentando-se todos os dias as _tradisoens_, foi necesario escrevèlas, para se-poderem conservar na memoria, e chegarem a todos. Isto fizeram eles, polos anos de Cristo 150.: cujo libro chamam _Misná_; que é um corpo de toda a doutrina dos-Ebreos, ritos, ceremonias, e religiam. A esta fizeram dois comentarios: um em Babilonia, polos anos de Cristo 300.: outro em Jeruzalem 200. anos quazi despois. E deste Comento, e da-_Misnà_, se-compoem os dois _Talmudes_, que ainda oje temos.
Isto suposto, vendo os doutores, que os _pontos_ dos-Gramaticos eram utis, para conservar a antiga maneira de ler; adotáram os ditos _pontos_, e comesáram a servir-se deles, pouco mais ou menos, no-seculo quinto de Cristo. Muitos suspeitam, que se-deve isto aos doutores, da-escola de _Tiberiades_. Seja como for, o que sabemos de certo é, que desde ese tempo, comesáram a escrever certos sinais, debaixo, e desima das-consoantes; paraque todos os Ebreos, pronunciasem as vozes Ebraicas, segundo a antiga tradisam. De entam para cá é, que á noticia expresa, das-vogais[29]. Mas como os Ebreos sempre foram misteriozos; para ocultar o verdadeiro sentido do-texto Ebreo, inventáram tanta vogal que nam se-le, entre outras que se-lem; que esta é oje a maior dificuldade, desta lingua. Umas vezes a mesma vogal le-se: outras, nam se-lé: umas vezes converte-se em outra; e talvez nam se-converte: e isto embarasa muito os principiantes.
Intendido isto, o metodo de aprender o Ebraico é, a prender a conhecer, e unir as letras, e proferir as disoens: porque a pronuncia diligente somente é necesaria, aos que querem falar, nam aos que somente a-querem intender. Deixando ao principio, aquela infinidade de excesoens, sobre a mudansa de pontos, &c. deixados os infinitos acentos, que para nada servem: basta ter noticia, das-regras gerais, para saber ler, e pronunciar facilmente. Daqui pasa-se às declinasoens dos-Nomes, e seus diversos estados. A maior dificuldade está, nos-Verbos: porque tem terminasam masculina, e feminina, o que ao principio parece imbarasado: aindaque com o tempo, ajude muito para intender, com quem, e de quem se-fala; se com omem, ou com molher. Deve pois saber distintamente, quais sam os verbos _quiescentes_, e _defetivos_. As anomalias deles podem-se deixar, porque se-aprendem com o uzo. Esta lingua nam tem sintaxe particular: e todos os idiotismos aprendem-se em meia ora. Daqui deve pasar a ler a Biblia, tendo sempre prezente um Dicionario, v.g. o Compendio Hebraico Chaldaico de _Buxtorfio_. É utilisimo servirse do-texto Ebreo, com a versam literal de _Pagnino_, correta por-_Montano_: porque alem-de que se-aprende, a propria significasam dos-vocabulos, tem à margem, boas notas de Gramatica, e aponta as _raizes_. O que ajuda muito um principiante, principalmente se a-quer buscar, no-Lexicon: e é muito necesario saber, quais sam as raizes, para ter suficiente noticia, da-lingua. Com o tempo observa-se a Sintaxe da-lingua, e os idiotismos, ou maneiras proprias de se-explicar, diferentemente das-outras linguas: o que se-reduz a poucos pontos, e se-aprende do-contexto.
Os livros que primeiro se-devem ler, sam os mais facis, como o Pentateuco, os livros dos-Juizes, e Reis, Paralipomenon. Os Profeticos, e Sapienciais podem rezervar-se, para outro tempo, por-serem mais oscuros. Mas para intender estes livros, é necesario preparar-se com a lisam, das-antiguidades Ebraicas. O Senhor de _Fleury_ publicou um tratadinho, dos-costumes dos-Israelitas, em Francez, que tambem se-acha em Italiano: que me-parece proporcionado, para um principiante: e é escrito com grande atensam. Podem tambem servir, a _Politia Judaica_==_de Bertramo_: _Respublica Hebræorum_==_de Sigonio_, _ou de Cuneo_; que sam muito boas. Nam aponto livros de maior erudisam, porque nam servem, para estes principios. Se a isto que dizemos, ajuntar cada dia, a lisam de um capitulo da-Escritura, e consultar nas coizas em que duvidar, a versam Grega dos-LXX.; ou as Concordancias de _Conrado Kirker_; poderá conseguir facilmente, bastante noticia da-lingua Ebraica. Isto digo, para um principiante: porque para os Teologos de profisam, a seu tempo direi, que mais é necesario, nesta materia. Este estudo, como tambem o da-lingua Grega, uma vez que se-intendeo, pode continuar-se em dias alternados, por-todo o tempo dos-outros estudos, sem perturbasam alguma: porque a estas linguas basta consagrar, as oras menos preciozas do-dia.
Isto é, o que muita gente nam intende, ou nam quer intender, nestes paîzes: porque quando nam tem, outra razam que dar, alegam a dificuldade da-dita lingua, e a pouca utilidade, que dela se-tira: aqual nam basta, para compensar o trabalho, que se experimenta em aprendèla. Seguro a V. P. que com grande admirasam minha, ouvi isto a alguns, de quem formára bom conceito; e que totalmente se-desvaneceo, com este discurso. Nam acho que falasem asim, alguns antigos-Portuguezes, que cuido sabiam um pouco mais, do-que estes, que agora respondem asim: antes polo contrario acho, que alguns Religiozos antigos, aplicáram-se a estas linguas com cuidado, e por-iso sam mais conhecidos, no-mundo literario, do-que estes, com quem prezentemente conversamos. Eu atribûo isto, à maior comunicasam que entam avia, com os doutos das-Nasoens estrangeiras: pois só acho vestigios de maior erudisam, quando a este Reino vinham ensinar, os Estrangeiros: ou quando os Portuguezes îam aprender, e ensinar, fóra dele. Polo contrario despoisque se-deixou, este comercio literario, vejo as coizas mui mudadas.