Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Part 15

Chapter 153,587 wordsPublic domain

Saie um sermam de asám de grasas a Deus, por-algum grande beneficio concedido; como saude, batalha &c. ou por-alguma asám má castigada, com gloria de Deus; como o roubo do-Sacramento em S.Engracia, Ato da-Fé &c. Intende V.P. que por-mudarem de asumto, mudam de metodo? nam senhor: e a pratica mostra o contrario. O argumento dos-primeiros dois sermoens deve ser, dar grasas a Deus, por-tam especial beneficio: e excitar a piedade dos-Fieis, para que o-louvem, por-este favor que fez. Este é o asumto: e a este fim deve o Pregador dirigir, todos os seus particulares argumentos. Mas iso é o que ele nam faz. O que ele cuida é, buscar algum conceito sutil, e singular, com que posa dizer alguma novidade, e mostrar o seu ingenho. Eu li um sermam do * * * que pertencia a uma destas clases: em que o Pregador, por-querer dizer uma novidade teologica, dise uma erezia: que somente o-nam-foi na sua boca, porque nam intendeo, o que dise: aindaque tivese bastantes anos, ensinado Teologia. La achou porem um S.Padre moderno, que cuido fose S. Bernardo, que lhe-deo materia ao conceito. Mas a verdade é, que o dito S. que frequentemente uza de iperboles, nam dise literalmente, o que ele supoz. Mas fose o que fose, o sermam teve mil aplauzos, e impremio-se com onra * * *. Ja se-sabe, que a saude ou batalha, á-de ser profetizada, na Escritura do-Antigo testamento, ou polo menos do-Evangelho, e com sinais mui particulares: porque segundo estes autores, nam á sermam sem tema sagrado; seja o que for. Se o tema nam calsa bem, nam falta quem o estenda: que este é o comum refugio, de todos estes senhores.

Contou-me pesoa mui verdadeira, que, achando-se em certa Cidade deste Reino, sucedèra, que a molher de um tangedor de rabeca, fazendo voto por-uma infermidade perigoza; quando se-vîra livre, quizera agradecer ao Santo, o tal beneficio, com uma festa estrondoza, e com sermam. O dito amigo conhecia o Pregador: e incontrando-se com ele, dise-lhe: Que tema toma vosè? ao que ele respondeo, Ja tenho escolhido as palavras: _Surge, ascende Bethel; fac ibi altare_ &c. Reproguntou o meu amigo, Que conexam tem iso, com o que vosè quer dizer? ao que o Pregador respondeo seriamente: O texto é otimo: porque que Jacob era rabequista, iso provo eu logo, com dez expozitores. E com efeito o sermam, saio semelhante à promesa.

Eu mesmo asisti uma vez a um sermam, de asám de grasas, porque Deus concedèra chuva, despois de uma grande esterilidade. É necesario advertir, que se-tinham feito varias procisoens, com imagens milagrozas, semque Deus ouvise, os clamores do-Povo. Na ultima, leváram um Cristo com a cruz; e sucedeo, que pouco despois choveo alguma coiza. O meu Pregador, que tinha fama de grande letrado, prometeo mostrar no-sermam, que a chuva nam podia vir, por-outro estilo. E provou isto, com a nuvem de Elias: a qual asimque a pareceo, desfez-se o ceo em tempestades. Mostrou pois, com dois expozitores modernos, que aquela nuvem, era Cristo com a cruz às costas. Faltavam algumas circunstancias, entre as quais era, a da-tempestade seguida; que ca nam tinha exemplo. Remediou o omem a isto, prometendo em pouco tempo, a tempestade. (o que podia seguramente profetizar; porque despois de uma grande elevasam de vapores, uma vez que estes comesam a mover-se, é claro, que ám-de cair) Sucedeo o cazo da-grande chuva: e o meu Pregador, alem da-fama de Orador, saio com a de Profeta; que lhe-frutou muito bem. Os que sabiam pouco, estavam pasmados, da-felicidade de ingenho do-omem: mas um dos-que estavam no-confeso, e tinha pezado bem o sermam, falou-me em diferente maneira. E destes sermoens, pudera eu citar infinitos.

Se o sermam é do-dezagravo do-Sacramento, ja se sabe, que somente pregará bem, quem mostrar, que á textos expresisimos, em que se-declara, que no-ano N. sendo Bispo N. Mordomo da-festa N. às tantas oras do-dia, avia suceder a dita coiza. Mas nam basta isto, é porem necesario, algum novo pensamento, que comumente prova tudo o contrario, do-que quer persuadir. E aqui devem intrar, todas as outras circunstancias, que apontámos. Nam se-lembra o Pregador, que o asumto sempre é o mesmo: que é, dar grasas a Deus, por-descobrir, com altisima providencia, os sacrilegos: e com iso mostrar, a sua mizericordia, mansidam, e justisa: e que este asumto sempre se-deve inculcar, variando unicamente as palavras, com mais ou menos ingenho, segundo o cabedal de quem fala. Nam adverte, que faria muito maior impresam, pintar a atrocidade daquele delito, de uma parte; e da-outra, as infinitas virtudes, que Deus quiz mostrar, naquele castigo. Nada disto lembra ao Pregador. o que emporta é, subtilizar bem. Mas o que dali se-segue é, sair o auditorio tam persuadido, da-pouca capacidade do-Pregador, como pouco persuadido, do-que ele determinára persuadir-lhe.

E que nam diz um destes amigos, quando se-lhe-encomenda um sermam de Intrada, ou Profisam de Freira! Aquele sermam nada mais é, doque um panegirico da-eleisam, e perseveransa da-Freira, e outras boas qualidades; acompanhado de uma exortasam, para perseverar na virtude. Isto é o que deve dizer o Pregador: mas isto é o que nenhum diz. O que importa é, mostrar, que esta Freira era tanto do-agrado de Deus, que mandou ao mundo um, ou muitos escritores Sagrados, para lhe-comporem a vida, muitos seculos antes de nacer. Um amigo meu teve a incumbencia, de um destes sermoens: e logo lhe-advertîram, que teria mui boa paga, se acháse na Escritura, toda a vida da-Freira. Ela era Dominicana, e mui devota do-Rozario: tinha sido Pupila alguns anos, no-dito Convento: o sermam era na oitava da-festa do-Rozario. Ele, que somente queria um bom prezente, tomou as palavras do-capitulo IV. do-Cantico: _Veni de Libano sponsa mea, veni de Libano, veni: coronaberis._ Mostrou, que a Freira tivera tres estados, de Pupila, Novisa e Profesa: e que a cadaum conrespondia sua vocasam, e seu _veni_, com que Deus a-chamava, por-boca de Salamam. Que o _Libano_, reprezentava o Mundo, donde Deus a-chamava para o Claustro. _Coronaberis_, explicava a Religiam, que é toda consagrada ao Rozario: e que no-mesmo Rozario, que é uma coroa de rozas, achava o premio da-sua eleisam, e obediencia. Acomodou novamente isto ao Rozario, dividido em misterios dolorozos, gozozos, e gloriozos; cada especie dos-quais conrespondia, aos seus trez estados: o que ele provou, com textos expresisimos. Desorteque a concluzam do-negocio foi, que todas as circunstancias da-vida da-Freira, estavam profetizadas com tanta clareza, por-Salamam; que qualquer cego reconheceria, que aquele texto somente falava, da-Senhora D. Fulana, filha de Fulano, moradora em tal parte, Freira em estoutra, &c. O que eu sei é, que toda esta metafizica frutou, cinco moedas, e um bom prezente: e que as Freiras nam cabiam na pele de contentes. E isto sucede todos os dias: e alguma vez eu o-tenho prezenciado, nestas festas.

Se o sermam é do-Ato da-Fe, comumente declinam para dois extremos: ou nam chegam a dizer, o que devem; ou dizem muito mais, do-que nam devem. O Santo Oficio justamente manda pregar, àqueles omens penitenciados, para os-alumiar na sua cegueira: e esta é uma ideia sacrosanta. Mas eu nam sei, se os tais Judeos ficam persuadidos: o que sei é, que os sermoens que eu leio, nam sam proprios, para os-persuadir. Avemos asentar em primeiro lugar nisto, que estes Judeos Portuguezes, sam ignorantisimos diso mesmo, que querem profesar. Nam sabem mais, senam que o Sabado se-deve guardar: e outras noticias gerais. de lingua Ebraica nada sabem: menos de Caldaica: que sam as duas linguas, em que estam escritos, os ritos e costumes Judaicos. Isto é sem duvida: e quem ouve os procesos, conhece claramente, qual é a sua ignorancia neste ponto. Quanto à ignorancia dos-ritos Judaicos, nam é necesario alegar, testemunhas Orientais, nem ir buscar os Rabinos, _Maimonides_, _Jacob Baal-aturim_, _Joseph Caro_ &c. basta que V. P. leia o _Sigonio_, _Menochio_, _Cuneo_, _Reimero_, _Spencero_, que escrevèram eruditamente, _de Republica Hebræorum_: ou algum dos-outros, que tratáram das-escolas, e ritos, como _Selden_, _Godvvin_ &c. e ficará mui bem persuadido, que estes seus Portuguezes, nam sabem que coiza é ser Judeo: e sam Judeos, mais por-genio depravado, que por-erudisam.

Isto suposto, alguns Pregadores, como o Cranganor, para mostrarem a sua erudisam Rabinica, entram em certas materias dificultozas, e procuram noticias mui particulares, tiradas dos-que impugnáram os Rabinos; para mostrarem aos Judeos, o seu ingano. Copeiam fielmente, toda a noticia que se-lhe-oferece, na tal materia: nam sem se-inganar algumas vezes, como sucedeo ao dito Cranganor; que por-nam ter inteligencia, das-ditas linguas, nem da-istoria Judaica, nem ter nunca aberto o Talmud; servio-se algumas vezes de argumentos, que tem mui boas respostas. (devemos confesar em obzequio da-verdade, que entre os Ebreos ouveram sempre, omens mui doutos, que propuzeram tais dificuldades sobre a Escritura, que fazem suar muitos Catolicos doutisimos, para lhe-responder. onde sem exquizita erudisam, é melhor nam tocar, semelhantes materias) Finalmente à forsa de ajuntarem noticias, em lugar de um sermam, fazem um tratado _Contra Judæos_. O que digo, com boa paz do-dito Arcebispo, e seus apaixonados: porque nam quero diminuir-lhe a estimasam: mas somente trazelo para exemplo, do-que aponto.

O que se-segue daqui é, que com todo este trabalho, nem fazem sermam, nem podem persuadir; pois nam proporcionam as provas, ao asumto. Porque inculcar erudisam Rabinica, a omens totalmente ignorantes destas materias, é manifestamente zombar do-seu emprego, e do-auditorio: e tanto vale isto, como se lhe-pregasem em Persiano, ou discorresem em diferente materia. Alem diso, á grande diversidade, entre uma disputa, e um sermam; entre uma disertasam, e uma exortasam: e perde o seu tempo e a sua fama, quem confunde estes dois nomes, e o significado deles. Ora eisaqui tem V. P. o que fazem estes, com quererem dizer muito.

Os outros, que asima apontamos, seguirem diversa estrada, nam sei se os-chame, mais condenaveis. Estes sam aqueles, que querem pregar aos Judeos, polo estilo dos-outros sermoens, com conceitos sutis, e pensamentos exquizitos. E nam é necesario muito para intender, que se os Catolicos Romanos, que estudamos aquela doutrina, que eles inculcam; os-nam-intendemos, e nos-dezagradam muito; que coiza sucederá, aos Judeos? Ouve às vezes V. P. propor um asumto, que parece ao intento: segue com o pensamento, o Pregador no-seu discurso: e quando nam se-precata, este o-dezempára, e infere uma consequencia tal, que obriga a rir. Seguro a V. P. que, tendo lido alguma coiza nesta materia, e tendo observado muito; somente neste genero achei, um sermam Portuguez, que se-pudese ler: aindaque tambem carregava no-silogismo, e intrava bem dentro na Metafizica: mas foi o que vi menos mao.

Mas, colhamos as velas, parece a V. P. que este modo de pregar é louvavel, ou toleravel? parece-lhe, que está fóra da-jurisdisam, de uma arrezoada critica? O nam proporcionar as provas ao auditorio, ou seja dizendo-lhe, o que eles nam chegam a intender; ou falando-lhe com ideias, de que ninguem se-pode persuadir; é erro da-primeira esfera. Temos outro modo de pregar, aos Ebreos idiotas, deixando de parte, toda a verdade especulativa, e servindo-se unicamente, de exemplos sensiveis: os quais, bem discorridos, produzem efeitos, que talvez se-nam-alcansam, com erudisam mui exquizita.

De todos os argumentos, que se-oferecem para persuadir, a extinsam da-Antiga igreja, deve o orador escolher, os menos embrulhados; e persuadilos, com a forsa da-sua eloquencia. Niso é que consiste a arte, em dilatar os argumentos, que nam sam reconditos. A vinda de Cristo ao mundo, é oje bem clara: e para o-ser mais, é necesario ter cuidado, em dispor os-argumentos, e fugir das-sutilezas. Nam á verdade mais notoria, que a existencia de um Deus: e é observasam dos-melhores Filozofos, e Teologos, que os antigos Padres para a-provarem, nam se-serviam de sutilezas inauditas: mas contentavam-se com a prova mais trivial, que é, a existencia do-Mundo, e principalmente deste noso globo terreste. Esta unica prova, bem explicada e esmeusada, convenceo o intendimento umano muito mais, doque nam fizeram, despois do-undecimo seculo, todas as sutilezas dos-Dialeticos: e ainda oje os melhores Filozofos asentam, que só nela nam se-acham sofismas. Isto é ao que nós chamamos, saber conhecer o merecimento das-provas, e saber manejar a eloquencia. Mas os nosos Pregadores, intendem o contrario: e só cuidam em procurar ideias, que a ninguem tenham ocorrido: e por-iso nacem aqueles sermoens, de que o mundo Literario se-ri.

A outra especie de sermoens, em que com mais facilidade, se-dizem despropozitos, sam os Panegiricos de Santos. Esta especie compreende, muitas sortes de sermoens: nos-quais á infinitas coizas, que condenar. Ouvirá V. P. coizas, que cauzam orror. v.g. Devem pregar um sermam de S. Antonio: em que deviam referir, as virtudes do-Santo: ilustrálas com o artificio da-Retorica; para animar os fieis a imitálo. Mas isto, que era a obrigasam do-Panegirista, parece coiza mui trivial, aos Pregadores modernos. Julgariam que ficavam dezacreditados, se-dizesem só esta verdade. É necesario levantar machina: e fazer uma trepesa, composta de mil ridicularias. Dividem pois o sermam, nas-trez partes solitas: em cada uma das-quais prometem provar coizas, que nada tem de verosimel. v.g. Que S. Antonio nam foi omem, mas anjo: e a este seguem-se outros pontos, damesma especie. Concluem pois, que se a Fé nam estudáse cautelas, chegariam a dizer, que se equivocava com Deus. Eu tenho ouvido isto, algumas vezes: e contou-me pesoa de muita autoridade, que ouvira ele mesmo, em certa Cidade do-Reino, propor estes trez pontos: Que o Santo de que pregava, era grande omem: grande anjo: e grande Deus. e que tudo isto avia de sair, do-Evangelho. E segurou-me a dita pesoa, que, ouvindo isto, saîra da-igreja, sem querer esperar polas provas: tam escandalizado ficou!

Lembra-me ao intento, o que escreve um autor, mui acreditado em Portugal. Pregava ele de S. Antonio, com o costumado tema, _Vos estis lux mundi_: e querendo dizer alguma coiza singular, tirou este asumto: ==_Que uma vez que S. Antonio naceo em Portugal, nam fora verdadeiro Portuguez, se nam fora luz do-mundo. porque o ser luz do-mundo nos-outros omens, é só privilegio da-Grasa: nos-Portuguezes, é tambem obrigasam da-Natureza_==.Pareceo-me argumento nam só singular, mas inaudito, querer fazer que os Portuguezes, fosem Apostolos por-natureza: muito mais, porque se o Pregador prováse o que prometia, tam longe estava, de fazer ao Santo um Panegirico, que lhe-preparava uma Satira: e desmentia com as suas provas, aquelas singularidades, que queria descobrir no-Santo: pois quando muito se-diria, que pregava de todos os Portuguezes. Com esta opiniam examinei as provas: as quais se-reduziam a isto. Que Cristo constituira os Portuguezes, Apostolos das-Nasoens estrangeiras: e que asim o-prometèra, a El-Rei D. Afonso I. e, como se nam ouvèse, quem negáse tal coiza, chama-lhe _verdade autentica_. A isto acrecenta, uma profecia de S. Tomé, (nam sei em que archivo a-achou) que os Infieis se-conquistariam na India, com as armas de Portugal: nam com as de ferro, mas com as do-escudo, que sam as Quinas: as quais Cristo, diz ele, deu aos Portuguezes, por-armas. E como S. Antonio era Portuguez, avia conquistar Infieis, como fez: e avia conquistálos com as Quinas: que nam só de Portugal, mas tambem sam as armas, da-minha Religiam.

Pareceo duro ao Pregador dizer, que os Indios se-aviam conquistar com as _Quinas_, e nam com as espadas: mas a isto, achou ele genuina solusam, na saida que os Ebreos fizeram, do-Egito. Pondéra, que, sendo-lhe proibidas as armas, diga a Vulgata[32]: _Armati ascenderunt filii Israel de terra Aegypti_==. Examina pois, que armas eram estas: e logo as-acha, no-original Ebreo, que diz: _Ascenderunt filii Israel quini, & quini_== A sim, diz o Pregador, saîram os Ebreos com _quinas_; pois esas lhe-servirám de armas, _ascenderunt armati_. Confirma isto, com as cinco pedras de David, das-quais afirma, que eram as cinco chagas de Cristo, tiradas da-torrente do-seu sangue, com as quais derrubou o gigante. Esta é a virtude das _quinas_. Por-iso S. Antonio seguio as bandeiras das-_quinas_, para mostrar que era Portuguez, derrubando com elas, o Filisteo da-Erezia. Até aqui o Pregador.

Esta em sustancia é a primeira prova do-dito sermam; na qual achará V. P. materia, para mil reflexoens. Deixo as istoricas, pois é bem claro, que sam mui ligeiras provas, para afirmar tal paradoxo. Esta aparisam ao Rei D. Afonso: a redoma de vidro cheia de olio, que veio do-Ceo a Clodoveo: e outras destas coizas, que se-acham nas istorias, sam boas para divertir rapazes: e os Criticos as-conservam todas, no-mesmo armario, em que guardam as penas da-Fenix. Mas nam poso perdoar-lhe, a má interpretasam, e aplicasam do-texto. Este autor certamente nam leo o texto Ebreo, ou se o leo, nam o-chegou a intender: porque o texto diz uma coiza, muito diferente, doque ele supoem. É verdade, que o texto Ebreo serve-se de uma palavra,[33] que em Latim quer dizer, _Quintati_: como se diseramos, de _cinco em cinco_: mas este modo de falar nam é proprio; é translato, e deduzido do-estilo belico. Donde vem, que explicando os antigos Ebreos, a dita expresam, asentam todos que quer significar, _armados_. Só diversificam, para explicar particularmente, a forsa da-dita palavra. _Kimchi_ diz asim: _Cingidos de armas, na quinta costa._ outros explicam: _Cingidos com cinco generos de armas._ _Sepharadi_ verte: _Quinque turmis ascenderunt, sub quatuor vexillis. Nam Moises cum senioribus Israel, in medio quatuor turmarum manebat._ Alem diso, todos os omens mais doutos na lingua Ebreia, expondo a dita expresam, despois de porem o termo proprio e literal, que é _Quintati_, acrecentam, id est, _Accinti_, _Expediti_: que é o mesmo que, _Armati_, _Parati_. Desorteque com grandisima advertencia, o tradutor da-Vulgata dise, _Armati_. E quer dizer o Ebreo, que os Israelitas saîram armados, e em fórma de batalha; promtos para acometerem, e se-defenderem. E isto é coiza certa, entre os doutos.

O que suposto, veja V. P. que parentesco tem isto, com as _quinas_. Alem diso, suponhamos que verdadeiramente se-devia intender, de _cinco em cinco_: que tiramos daqui para o intento? poderia dizer o texto, que îam _quini, & quini_: mas nunca dise: _ideo armati, quia quini & quini_: e é pesima Logica aquela, que de duas coizas sem conexam, tira tal consequencia. Tambem é falso dizer, que os Ebreos saîram dezarmados: quando lemos o contrario: pois nam só as batalhas que deram, mas as obras que fizeram no-campo, mostram bem, que nam só armas, mas toda a sorte de instrumentos, leváram do-Egito. Ja nam falo na aplicasam da-profecia, a S. Antonio: pois se S. Tomè falou das-Indias, que tem isto que fazer, com S. Antonio, que pregou na Europa? Nam falo nas pedras de David, cuja aplicasam tem tanta proporsam, como á entre um, e cinco.

Isto que unicamente disemos, basta paraque V.P. intenda, o conceito que se-deve fazer, de semelhantes sermoens: os quais nada mais sam, que um mero jogo de palavras, sem verdade, nem verosimilidade alguma: e que se-desfazem em vento, quando, se-examinam de perto. Eu parei no-primeiro ponto: avia ainda quatro que examinar: mas eses deixo eu, à sua considerasam. Ora intende V.P. que o Santo fica elogiado, com tal panegirico: que o auditorio ficará persuadido: que o Orador merece ser louvado, por-tal sermam? Sei a resposta que V.P. me-á-de dar, porque sabe dar às coizas, a sua justa estimasam: mas nem todos sam do-seu parecer. e apostarei eu, e V.P. nam mo-negará, que mais gente estuda, polo tal autor, doque pola Escritura, e SS. Padres.

O mesmo autor em outra parte, devendo pregar de S. Bartolomeo, e sucedendo isto em uma Cidade, em que se-estava para eleger, um grande Prelado, que nam tinha conexam com a festa; tomou por-tema estas palavras, _de S. Lucas_: _Elegit duodecim ex ipsis, quos & Apostolos nominavit_: e em vez de pregar de S. Bartolomeo, pregou das-obrigasoens das-eleisoens: sem dizer em todo o corpo do-sermam, uma só palavra de S. Bartolomeo. No-ultimo paragrafo, lembrou-se da-sua falta: e, para remediar o cazo, diz mui secamente, que tudo o que disera, se-devia aplicar, ao dito Santo. Porque sendo ele o sexto Apostolo, estava no meio, que é o lugar de mais autoridade: E a razam disto era, porque conrespondendo ele à 6.^a pedra da-nova Jeruzalem, que era o _Sardio_; esta no-Racional de Aram, era a primeira: onde ficava claro, que o sexto Apostolo, devia ser o primeiro. Acha nova semelhansa entre S. Bartolomeo, e o _Sardio_: porque esta, segundo Plinio, é de cor de carne viva: e conseguintemente, um belo retrato de S. Bartolomeo, que ficou em carne viva, e sem pele. E tornando das-peles vivas, às eleisoens, acaba o sermam, damesma sorte que o-comesou.

Progunto agora: que outra coiza avia ele dizer, se pregáse das-eleisoens? Nam ignora V.P. que os sermoens panegiricos, pertencem ao genero _demonstrativo_; e quem jamais pode sofrer, que um Orador, que deve elogiar Pedro, faláse de Paulo? Julga V.P. que se-pode chamar justa digresam, nam falar uma palavra no-asumto, para se-meter em materîa alheia; e que por-titulo nenhum pertencia ao Pregador? Mas examinemos ese pouco que diz, de S.Bartolomeo: eu nam acho ali coiza, que nam seja inverosimel. Aquilo de querer, que S. Bartolomeo fose criado Apostolo na 6.ᵃ eleisam, é falso; porque tal nam diz o Evangelho. O que eu acho no-Evangelho é, que Cristo, despois do-jejum de 40. dias, pasando defronte de Joam, e dizendo este: _Ecce Agnus Dei_: dois seus dicipulos seguîram Cristo: um deles era André, que incontrando de tarde, seu irmam Simam, o-conduzio a Cristo. No-dia seguinte Cristo chamou Filipe: e este, incontrando Natanael, convidou-o para seguir Cristo. Pouco despois, tornando Cristo de Cafarnaum, tornou a chamar Simam, e André; que provavelmente se-tinham apartado de Cristo, para exercitarem o seu oficio: e nunca mais se-apartáram dele: e no-mesmo caminho chamou Jacob, e Joam. Se pois Natanael é o mesmo que Bartolomeo, como alguns doutos modernos[34] conjeturam, com muito fundamento; em tal cazo é o 4.ᵒ eleito: ou o segundo, fazendo outra contra. Se Natanael é diferente de Bartolomeo, como diz S. Agostinho[35], e Gregorio Magno[36], neste cazo devemos confesar, que nam sabemos, quando foi chamado Bartolomeo. O certo é, que o Evangelho nam explica, circunstancia alguma da-sua vocasam, e da-sua vida, com o nome de Bartolomeo. Nem menos da-Istoria temos, como morreo Bartolomeo; avendo grande disparidade de pareceres: aindaque a mais comua é, que morrèse esfolado. O motivo que teve o Pregador foi, ver que em S.Lucas, despois das-ditas palavras, nomeia-se em 6.ᵒ lugar Bartolomeo: e asim intendeo, que foram todos eleitos, naquela ocaziam. Um bocadinho que soubèse mais de Istoria, lhe-pouparia este erro, tam censuravel em um Teologo. Mas aindaque isto asim fose; nam bastava para lhe-chamar, a 6.ᵃ eleisam, por-ser uma só: e muito menos deveria esta circunstancia, dar materia a um sermam.