Triste Fim de Polycarpo Quaresma

Part 7

Chapter 73,978 wordsPublic domain

Ás vezes, o fiel Anastacio seguia-o no descanço e ambos, lado a lado, á sombra de uma fructeira mais copada, ficavam a ver o ar pesado daquelles dias de verão que enrodilhava as folhas das arvores e punha nas cousas um forte accento de resignação morbida. Então, ahi por depois do meio dia, quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar em silencio a vida inteira, é que o velho Major percebia bem a alma dos tropicos, feita de desencontros como aquelle que se via agora, de um sol alto, claro, olympico a brilhar sobre um torpor de morte, que elle mesmo provocava.

Almoçavam mesmo no eito, comidas do dia anterior, aquecidas rapidamente sobre um improvisado fogão de calháos, e o trabalho ia assim ate á hora do jantar. Havia em Quaresma um enthusiasmo sincero, enthusiasmo de ideologo que quer pôr em pratica a sua idéa. Não se agastou com as primeiras ingratidões da terra, aquelle seu morbido amor pelas hervas damninhas e o incomprehensivel odio pela enxada fecundante. Capinava, e capinava sempre até vir jantar.

Esta refeição elle fazia mais demorada. Conversava um pouco com a irmã, contava-lhe a tarefa do dia, consistindo sempre em avaliar a area já limpa.

--Sabes, Adelaide, amanhã estarão as laranjeiras limpas, não ficará nem mais uma touceira de matto.

A irmã, mais velha que elle, não partilhava aquelle seu enthusiasmo pelas cousas da roça. Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com elle, não foi senão pelo habito de acompanhal-o. De certo, ella o estimava, mas não o comprehendia. Não chegava a entender nem os seus gestos nem a sua agitação interna. Porque não seguira elle o caminho dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito... Andar com livros, annos e annos, para não ser nada, que doideira! Scguira-o ao «Socego» e, para entreter-se, criava gallinhas, com grande alegria do irmão cultivador.

--Está direito, dizia ella, quando o irmão lhe contava as cousas do seu trabalho. Não vá ficares doente... Neste sol todo o dia...

--Qual, doente, Adelaide! Não estas vendo como essa gente tem tanta saude por ahi... Se adoecem, é porque não trabalham.

Acabado o jantar. Quaresma chegava á janella que dava para o gallinheiro e atirava migalhas de pão ás aves.

Elle gostava desse espectaculo, daquella luta encarniçada entre patos, ganços, gallinhas, pequenos e grandes. Dava-lhe uma imagem reduzida da vida e dos premios que ella comporta. Depois, fazia indagações sobre a vida do gallinheiro:

--Já, nasceram os patos, Adelaide?

--Ainda não. Faltam oito dias ainda.

E logo a irmã accrescentava:

--Tua afilhada deve casar-se sabbado, tu não vaes?

--Não. Não posso... Vou encommodar-me, luxo... Mando um leitão e um perú.

--Ora, tu! Que presente!

--Que é que tem? É da tradição.

Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala de jantar da velha casa roceira, quando Anastacio veiu avisar-lhes que se achava um cavalheiro na porteira.

Desde que ali se installara, nenhuma visita batera á porta de Quaresma, a não ser a gente pobre do logar, a pedir isso ou aquillo, esmolando disfarçadamente. Elle mesmo não travara conhecimento com ninguem, de modo que foi com surpreza que recebeu o aviso do velho preto.

Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Elle já subia a pequena escada da frente e penetrava pela varanda a dentro.

--Boas tardes, Major.

--Boas tardes. Faça o favor de entrar.

O desconhecido entrou e sentou-se. Era um typo commum, mas o que havia nelle de extranho, era a gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas tinha um aspecto deshonesto. Parecia que a fizera de repente e comia, a mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim como a de um lagarto que enthezoura enxundia para o inverno ingrato. Atravez da gordura de suas bochechas, via-se perfeitamente a sua magreza natural, normal, e se devia ser gordo não era naquella idade, com pouco mais de trinta annos, sem dar tempo que todo elle engordasse; porque, se as suas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras com longos dedos fusiformes e ageis. O visitante falou:

--Eu sou o Tenente Antonino Dutra escrivão da collectoria.

--Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma.

--Nenhuma, Major. Já sabemos quem o senhor é; não ha novidade nem nenhuma exigencia legal.

O escrivão tossiu, tirou um cigarro, offereceu outro a Quaresma e continuou:

--Sabendo que o Major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de vir incommodal-o... Não é cousa de importancia... Creio que o Major...

--Oh! Por Deus, Tenente!

--Venho pedir-lhe um pequeno auxilio, um obulo, para a festa da Conceição, a nossa padroeira, de cuja irmandade sou thesoureiro.

--Perfeitamente. É muito justo. Apezar de não ser religioso, estou...

--Uma cousa nada tem com a outra. É uma tradição do logar que devemos manter.

--É justo.

--O senhor sabe, continuou o escrivão, a gente daqui é muito pobre e a irmandade tambem, de forma que somos obrigados a appellar para a boa vontade dos moradores mais remediados. Desde já, portanto, Major...

--Não. Espere um pouco...

--Oh! Major, não se incommode. Não é p'ra já.

Enxugou o suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fóra e accrescentou:

--Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, Major?

--Muito bem.

--Pretende dedicar-se á agricultura?

--Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a roça.

--Isto hoje não presta, mas noutro tempo!... Este sitio já foi uma lindeza, Major! Quanta fructa! Quanta farinha! As terras estão cançadas e...

--Que cançadas, seu Antonino! Não ha terras cançadas.... A Europa é cultivada ha milhares de annos, entretanto...

--Mas lá se trabalha.

--Porque não se ha de trabalhar aqui tambem?

--Lá isso é verdade; mas ha tantas contrariedades na nossa terra que...

--Qual, meu caro Tenente! Não ha nada que não se vença.

--O Sr. verá com o tempo, Major. Na nossa terra não se vive senão de politica, fóra disso, ba-báo! Agora mesmo anda tudo brigado por causa da questão da eleição de deputados...

Ao dizer isto, o escrivão lançou por baixo das suas palpebras gordas um olhar pesquizador sobre a ingenua physionomia de Quaresma.

--Que questão é? indagou Quaresma.

O Tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria:

--Então não sabe?

--Não.

--Eu lhe explico: o candidato do Governo é o Dr. Castrioto, moço honesto, bom orador; mas entenderam aqui certos presidentes de Camaras Municipaes do Districto que se hão de sobrepor ao Governo, só porque o Senador Guaryba rompeu com o Governador: e--zás--apresentaram um tal Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influencia... Que pensa o Senhor?

--Eu... Nada!

O serventuario do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que, sabendo e morando no Municipio de Curuzú, não se incommodasse com a briga ao Senador Guaryba com o Governador do Estado! Não era possivel! Pensou e sorriu levemente. Com certeza, disse elle consigo, este malandro quer ficar bem com os dous, para depois arranjar-se sem difficuldade. Estava tirando sardinha com mão de gato... Aquillo devia ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as azas daquelle _estrangeiro_, que vinha não se sabe donde!

--O Major é um philosopho, disse elle com malicia.

--Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma.

Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão, mas, desanimado de penetrar nas tenções occultas do Major, apagou a physionomia e disse em ar de despedida:

--Então o Major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é?

--De certo.

Os dous se despediram. Debruçado na varanda, Quaresma ficou a vel-o montar no seu pequeno castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O escrivão afastou-se, desappareceu na estrada, e o Major ficou a pensar no interesse extranho que essa gente punha nas lutas politicas, nessas tricas eleitoraes, como se nellas houvesse qualquer cousa de vital e importante. Não atinara porque uma resinga entre dous figurões importantes vinha pôr desharmonia entre tanta gente, cuja vida estava tão fóra da esphera daquelles. Não estava ali a terra boa para cultivar e criar: Não exigia ella uma ardua luta diaria? Porque não se empregava o esforço que se punha naquelles barulhos de votos, de actas, no trabalho de fecundal-a, de tirar della seres, vidas--trabalho igual ao de Deus e dos artistas? Era tolo estar a pensar em governadores e guarybas, quando a nossa vida pede tudo à terra e ella quer carinho, luta, trabalho e amor...

O suffrageo universal pareceu-lhe um flagello.

O trem apitou e elle demorou-se a vel-o chegar. É uma emoção especial de quem mora longe, essa de ver chegar os meios de transporte que nos põem em communicação com o resto do mundo. Ha uma mescla de medo e de alegria. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas, pensam-se tambem más. A alternativa angustia...

O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mysterio, e traz, além de noticias geraes, bôas ou más tambem o gosto, um sorriso, a voz das pessoas que amamos e estão longe.

Quaresma esperou o trem. Elle chegou arfando e se extirando como um reptil pela estação afóra á luz forte do sol no poente. Não se demorou muito. Apitou de novo e sahiu a levar noticias, amigos, riquezas, tristezas por outras estações além. O Major pensou ainda um pouco como aquillo era bruto e feio, e como as invenções do nosso tempo se afastam tanto da linha imaginaria da belleza que os nossos educadores de dous mil annos atrás nos legaram. Olhou a estrada que levava á estação. Vinha um sujeito... Dirigia-se para a sua casa... Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o homem que caminhava com pressa... Quem era? Aquelle chapéo dobrado, como um morrião... Aquelle fraque comprido... Passo miudo... Um violão! Era elle!

--Adelaide está ahi o Ricardo.

II

ESPINHOS E FLORES

Os suburbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em materia de edificação de cidade. A topographia do local, caprichosamente montuosa, influiu de certo para tal aspecto, mais influiram, porém, os azares das construcções.

Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Ha algumas dellas que começam largas como «boulevards» e acabam estreitas que nem viellas; dão voltas, circuitos inuteis e parecem fugir ao alinhamento recto com um odio tenaz e sagrado.

Ás vezes se succedem na mesma direcção com uma frequencia irritante, outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervallo coheso e fechado de casas. Num trecho, ha casas amontoadas umas sobre outras numa angustia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.

Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. Ha casas de todos os gostos e construidas de todas as formas.

Vai-se por uma rua a ver um correr de «chalets», de porta e janella, parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma casa burgueza, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezzaninos gradeados. Passada essa surpreza, olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau a pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e columnas de estylo pouco classificavel, que parece vexada e querer occultar-se, diante daquella onda de edificios disparatados e novos.

Não ha nos nossos suburbios cousa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades européas, com as suas villas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamisadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aquelles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os ha, são em geral pobres, feios e desleixados.

Os cuidados municipaes tambem são variaveis e caprichosos. Ás vezes, nas ruas, ha passeios, em certas partes e outras não; algumas vias de communicação são calçadas e outras da mesma importancia estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre um rio secco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguella de trilhos mal juntos.

Ha pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes empanem o brilho do vestido; ha operarios de tamancos; ha peralvilhos á ultima moda: ha mulheres de chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quasi sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa.

Alem disto, os suburbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no namoro epidemico e no espiritismo endemico; as casas de commodos (quem as supporia lá!) constituem um delles bem inedito. Casas que mal dariam para uma pequena familia, são divididas, subdivididas, e os minusculos aposentos assim obtidos, alugados á população miseravel da cidade. Ahi, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miseria paira com um rigor londrino.

Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita taes caixinhas. Além dos serventes de repartições, continuos de escriptorios, podemos deparar velhas fabricantes de rendas de bilros, compradores de garrafas vasias, castradores de gatos, cães e gallos, mandingueiros, catadores de hervas medicinaes, emfim, uma variedade de profissões miseraveis que as nossas pequena e grande burguezias não podem adivinhar. Ás vezes num cubiculo desses se amontoa uma familia, e ha occasiões que os seus chefes vão a pé para a cidade por falta da nickel do trem.

Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de commodos de um dos suburbios. Não era das sordidas, mas era uma casa de commodos dos suburbios.

Desde annos que elle a habitava e gostava da casa que ficava trepada sobre uma collina, olhando a janella do seu quarto para uma ampla extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos. Vistos assim do alto, os suburbios têm a sua graça. As casas pequeninas, pintadas de azul, de branco, de óca, engastadas nas comas verde-negras das mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali, um coqueiro ou uma palmeira, alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho das ruas põe no panorama um sabor do confusão democratica, de solidariedade perfeita entre as gentes que as habitam; e o trem minusculo, rapido, atravessa tudo aquillo, dobrando d esquerda, inclinando-se para a direita, muito flexivel nas suas grandes vertebras de carros, como uma cobra entre pedrouços.

Era daquella janella que Ricardo, espraiava as suas alegrias, as suas satisfações, os seus triumphos e tambem os seus soffrimentos e maguas.

Ainda agora estava elle lá, debruçado no peitoril, com a mão em concha no queixo, colhendo com a vista uma grande parte daquella bella, grande e original cidade, capital de um grande paiz de que elle a modos que era e se sentia ser, a alma, consubstanciando os seus tenues sonhos e desejos em versos discutiveis, mas que a plangencia do violão, se não lhes dava sentido, dava um que de balbucio, de queixume dorido da patria criança ainda, ainda na sua formação...

Em que pensava elle? Não pensava só, soffria tambem. Aquelle tal preto continuava na sua mania de querer fazer a modinha dizer alguma cousa, e tinha adeptos. Alguns já o citavam como rival delle, Ricardo; outros já affirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros, e alguns mais--ingratos!--já esqueciam os trabalhos, o tenaz trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em pról do levantamento da modinha e do violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro.

Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infancia, daquella sua aldeia sertaneja, da casinha dos seus pais, com seu curral e o mugido dos vitellos. E o queijo? Aquelle queijo tão substancial, tão forte, feio como aquella terra, mas feraz como ella tanto que bastava comer delle uma pequena fatia para se sentir almoçado... E as festas? Saudades... E o violão, como aprendeu? O seu mestre, o Maneco Borges, não lhe predissera o futuro: «Irás longe, Ricardo. A viola quer teu coração».

Por que então aquelle encarniçamento, aquelle odio contra elle--elle que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma, o suco, a substancia do paiz!

E as lagrimas lhe saltaram quentes dos olhos afóra. Olhou um pouco as montanhas, farejou o mar lá longe... Era bella a terra, era linda, era magestosa, mas parecia ingrata e aspera no seu granito omnipresente que se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das arvores.

E elle estava ali só, só com a sua gloria e o seu tormento, sem amor, sem confidente, sem amigo, só como um deus ou como um apostolo em terra ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova.

Soffria em não ter um peito amado, amigo em que derramasse aquellas lagrimas que iam cahir no solo indifferente. Por ahi, lembrou-se dos famosos versos: _Se choro... bebe o pranto a areia ardente_...

Com a lembrança, elle baixou um pouco o olhar á terra e viu que no tanque da casa, um tanto escondida delle, uma rapariga preta lavava. Ella abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o seu peso, ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro á pedra, e recomeçava. Teve pena daquella pobre mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua côr. Veiu-lhe um afflux de ternura e, depois, poz-se a pensar no mundo, nas desgraças, ficando um instante enleiado no enigma do nosso miseravel destino humano.

A rapariga não o viu, distrahida com o trabalho; e se pôz a cantar:

_Da doçura dos teus olhos A brisa inveja já vem_

Era delle. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquella pobre mulher, abraçal-a...

E como eram as cousas? Elle recebia lenitivo daquella rapariga; era a sua humilde e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe então á memoria aquelles versos do padre Caldas, esse seu antecessor feliz que teve um auditorio de fidalgas:

_Lereno alegrou os outros E nunca teve alegria_...

Enfim era uma missão!... A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se pôde conter:

--Vai bem, D. Alice, vai bem! Se não fosse porque eu lhe pedia _bis_.

A rapariga estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse:

--Não sabia que o senhor estava ahi, senão não cantava na vista do senhor.

--Qual o que! Posso garantir-lhe que está bom, muito bom. Cante.

--Deus me livre! Para o senhor me _criticar_...

Embora insistisse muito, a rapariga não quiz continuar. As maguas pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. Veiu ao interior do quarto e pôz-se á meza na tenção de escrever.

O seu quarto tinha o mobiliario mais reduzido possivel. Havia uma rede com franjas de rendas, uma mesa de pinho, sobre ella objectos de escrever; uma cadeira, uma estante com livros, e, pendurado a uma parede o violão na sua armadura de camurça. Havia tambem uma machina para fazer café.

Sentou-se e quiz começar uma modinha sobre a Gloria, essa cousa fugace, que se tem e se pensa que não se tem, alguma cousa impalpavel, incolhivel como um sopro, que nos alancêa, queima, inquieta e abraza como o Amor.

Tentou começar, dispoz o papel, mas não pôde. A emoção tinha sido forte, toda a sua natureza tinha sido lavrada, baralhada, com a idéa daquelle furto que se queria fazer ao seu merito. Não conseguiu assentar o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir a musica zumbir no ouvido.

A manhã ia alta. As ciganas defronte chilreavam no tamarineiro desfolhado; começava a esquentar e o céo estava de um azul ligeiro, tenue, fino. Quiz sahir, procurar um amigo, espairecer com elle, mas quem? Ainda, se o Quaresma... Ah! O Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe conforto e consolo.

É verdade que ultimamente esse seu amigo achava-se pouco interessado pela modinha; mas assim mesmo comprehendia o seu proposito, os fins e o alcance da obra a que elle, Ricardo, se propunha. Ainda se o Major estivesse perto, mas tão longe! Consultou as algibeiras. Não chegava a dous mil réis a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um passe e iria. Bateram á porta. Traziam-lhe uma carta. Não reconheceu a letra; rasgou o envelope com emoção. Que seria? Leu:

«Meu caro Ricardo--Saude--Minha filha Quinota casa-se depois de amanhã, quinta-feira. Ella e o noivo fazem muito gosto que V. appareça. Se o amigo não estiver compromettido com alguem, agarre o violão e venha até cá tomar uma chavena de chá comnosco--Seu amigo Albernaz».

O trovador, á proporção que lia, ia mudando de physionomia. Até então estava carregada e dura: quando acabou de ler o bilhete, um sorriso brincava por toda ella, descia e subia, ia de uma face a outra. O General não o abandonara; para o respeitavel milhar, Ricardo Coração dos Outros ainda era o rei do violão. Iria e arranjaria passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um pouco o violão, demoradamente, ternamente, agradecidamente como se fosse um idolo bemfazejo.

Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o ultimo brinde havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas em pequenos grupos. D. Maricota vestia seda malva e o seu busto curto parecia ainda mais abafado, mais socado, naquelle tecido caro que parece requerer corpos elegantes e flexiveis. Quinota estava radiante no vestido de noiva. Ella era alta, de feições mais regulares que a irmã Ismenia, mas menos interessante e mais commum de temperamento e alma, embora faceira. Lalá a terceira filha do General, que já se ageitava a moça, tinha muito pó de arroz, estava sempre a concertar o penteado e a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem cotado e esperado. Genelicio dava o braço á noiva, encasacado numa casaca mal talhada, que punha bem á mostra a sua gibosidade, e caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz.

Ricardo não os viu passar, pois ao entrar, a fila estava no General, mettido num segundo uniforme dos grandes dias, que lhe ia mal como a farda de um guarda nacional endomingado; mas, quem tinha um ar importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o Contra-Almirante Caldas. Fôra padrinho e estava irreprehensivel na sua casaca do uniforme. As ancoras reluziam como metaes de bordo em hora de revista e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua face e pareciam desejar com ardôr os grandes ventos do vasto oceano sem fim. Ismenia estava de rosa e andava pelas salas com o seu ar dolente, com o seu vagar, com os seus gestos lentos, dando providencias. O Lulú, o unico filho do General, impava no seu uniforme do Collegio Militar, cheio de dourados e cabellos, tanto mais que passara de anno, graças aos empenhos do pai.

O General não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o trovador os cumprimentou, agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse um--_sou muito feliz_...--deitando a cabeça de lado e sorrindo para o chão, sorriso que encheu de immenso transporte a candida alma do menestrel.

Deram começo as dansas e o General, o Almirante, o Major Innocencio Bustamante, que tambem viera de uniforme, com a sua banda roxa de honorario, o Dr. Florencio, Ricardo e dous convidados outros foram para a sala de jantar palestrar um pouco.

O General estava satisfeito. Sonhava ha tantos annos uma cerimonia daquellas em sua casa e emfim pela primeira vez via realizado esse anceio.

A Ismenia foi aquella desgraça... O ingrato?... Mas para que recordar?

Os cumprimentos se repetiram.

--É um rapagão, o seu novo genro, disse um dos convidados novos.

O General tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro, e emquanto o limpava, respondeu, olhando com aquelle geito dos myopes:

--Estou muito contente.

Por ahi pôz o pince-nez, endireitou o truncelim e continuou:

Creio que casei bem minha filha: rapaz formado bem encaminhando e intelligente.

O Almirante acudiu:

--E que carreira! Não é por ser meu parente, mas com trinta e dous annos escripturario do Thezouro, é cousa nunca vista.

--O Genelicio não está no Tribunal de Contas, não passou? perguntou Florencio.

--Passou, mas é a mesma cousa, replicou o outro convidado novo, que era da amizade do recem-casado.