Triste Fim de Polycarpo Quaresma

Part 8

Chapter 83,895 wordsPublic domain

De facto, Genelicio tinha arranjado a transferencia e não fôra só isso que o decidira a casar-se. Tendo escripto uma--«Synthese de Contabilidade Publica Scientifica»--viu-se, sem saber como, cumulado de elogios pela _imprensa desta capital_. O Ministro, attendendo ao merito excepcional da obra, mandou-lhe dar dous contos de premio, tendo sido a edição feita á custa do Estado, na Imprensa Nacional. Era um grosso volume de 400 paginas, typo dôze, escripto em estylo de officio, com uma basta documentação de decretos, e portarias, occupando dous terços do livro.

A primeira phrase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente synthetico e scientifico, fôra até muito notada e gabada pelos criticos, não só pela novidade da idéa, conto tambem pela belleza da expressão.

Dizia assim: «A Contabilidade Publica é a arte ou sciencia de escripturar convenientemente a despeza e receita do Estado».

Além do premio e da transferencia, elle já tinha promessa de ser sub-director na primeira vaga.

Ouvindo tudo isso que tinham dito o Almirante, o General e os convidados novos, o Major não pôde deixar de observar:

--Depois da militar, a melhor carreira é a de Fazenda, não acham?

--Sim... Bem entendido, fez o Dr. Florencio.

--Eu não quero falar dos formados, apressou-se o Major. Esses...

Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando a primeira phrase que lhe veiu aos labios:

--Quando se prospera, todas as profissões são boas.

--Não é assim tanto, obtemperou o Almirante, alisando um dos favoritos. Não é para desfazer nas outras, mas a nossa, hein Albernaz? hein Innocencio?

Albernaz levantou a cabeça como se quizesse apanhar no ar uma lembrança e depois replicou:

--É, mas tem os seus percalços. Quando se está numa trapalhada, fogo daqui, tiro dali, morre um, grita outro como em Curupaity, então...

--O Sr. esteve lá, General? perguntou o convidado amigo de Genelicio.

--Não estive. Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão... Não imaginam o que foi--Você sabe, não é Innocencio?

--Se estive lá...

--Polydoro tinha ordem de atacar Sauce, Flores a esquerda e _nós_ cahimos sobre os Paraguayos. Mas os malandros estavam bem entrincheirados, tinham aproveitado o tempo...

--Foi _seu_ Mitre, disse Innocencio.

--Foi. Atacamos com furia. Era um ribombar de canhões que mettia medo, bala por todo o canto, os homens morriam como moscas... Um inferno!

--Quem venceu? perguntou um dos convidados novos.

Todos se entreolharam admirados, excepto o General que julgava a sabedoria do Paraguay excepcional.

--Foram os paraguayos, isto é, repeliram o nosso ataque. É por isso que eu digo que a nossa profissão é bella, mas tem as suas _cousas_...

--Isso não quer dizer nada. Tambem na passagem de Humaytá... ia dizendo o Almirante.

--O senhor estava a bordo?

--Não, eu fui mais tarde. Perseguições fizeram com que eu não fosse designado, porque o embarque equivalia a uma promoção... Mas, na passagem de Humaytá...

Na sala de visitas as dansas continuavam com animação. Era raro que alguém viesse lá de dentro até onde elles estavam. Os risos, a musica, e o mais que se adivinhava não distrahiam aquelles homens das suas preoccupações bellicosas.

O General, o Almirante e o Major enchiam de pasmo aquelles burguezes pacificos, contando batalhas em que não estiveram e pugnas valorosas que não pelejaram.

Não ha como um cidadão pacato, bem comido, tendo tomado alguns vinhos generosos, para apreciar as narrações de guerra. Elle só vê a parte pittoresca, a parte por assim dizer espiritual das batalhas, dos encontros; os tiros são os de salva e se matam é cousa de sómenos. A Morte mesmo, nas narrações feitas assim, perde a sua importancia tragica: 3.000 mortos, só!!!

De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a guerra, a cousa ficava edulcorada, uma guerra «bibliothèque rose», guerra de estampa popular, em que não apparecem a carniçaria, a brutalidade e a ferocidade normaes.

Estavam Ricardo, o Dr. Florencio, o exacto empregado como engenheiro das Aguas, aquelles dous recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos, boquiabertos e invejosos diante das proezas imaginarias daquelles tres militares, um honorario, talvez o menos pacifico dos tres, o unico que tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira--quando D. Maricota chegou, sempre diligente, activa, dando movimento e vida á festa. Era mais moça que o marido, tinha ainda inteiramente pretos os cabellos na sua cabeça pequena, que contrastava tanto com o seu corpo enorme. Ella vinha offegante e dirigiu-se ao marido:

--Então, Chico, que é isso? Ficam ahi e eu que faça sala, que anime as moças... P'ra sala todos!

--Já vamos D. Maricota, disse alguém.

--Não, fez com rapidez a dona da casa, é já. Vamos, seu Caldas, seu Ricardo, os senhores!

E foi empurrando um a um pelo hombro.

--Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o senhor... Está ouvindo, _seu_ Ricardo!

--Pois não, minha senhora. É uma ordem...

E foram. No caminho o General parou um pouco, chegou-se a Coração dos Outros e perguntou:

--Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma?

--Vai bem.

--Tem-lhe escripto?

--Ás vezes. Eu queria, General...

O General suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez que começava a cahir, e perguntou:

--O que?

Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta. Depois de uma ligeira, hesitação, respondeu de um jacto, com medo de perder a s palavras:

--Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir vel-o.

O General esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabello e disse:

--Isso é difficil, mas você appareça lá, na repartição, amanhã.

E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros accrescentou:

--Estou com saudades delle, depois tenho certos desgostos... O senhor sabe: um homem que tem nome...

--Vá lá amanhã.

D. Maricota appareceu na frente e falou agastada:

--Vocês não vêm!

--Já vamos, fez o General.

E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:

--Aquelle Quaresma podia estar bem, mas foi metter-se com livros... É isto! Eu, ha bem quarenta annos, que não pego em livro...

Chegaram á sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas molduras douradas, furiosos retratos a oleo de Albernaz e da mulher; um espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava completa. Da mobilia não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço aos dansantes. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas sobrecasacas e muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janella, Ricardo pôde ver a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim; só de lá os curiosos, os _serenos_, podiam ver alguma cousa da festa. Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O General contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador...

A moça, a famosa filha do Lemos, dispoz-se a cantar. Foi ao piano, collocou a partitura e começou. Era uma romanza italiana que ella cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bem educada. Acabou. Palmas geraes, mas frias, soaram.

O Dr. Florencio que ficara atraz do General, commentou:

--Tem uma bella voz esta moça. Quem é?

--É a filha do Lemos, do Dr. Lemos da Hygiene, respondeu o General.

--Canta muito bem.

--Está no ultimo anno do Conservatorio, observou ainda Albernaz.

Chegou a vez de Ricardo. Elle occupou um canto da sala, agarrou o violão, afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar tragico de quem vai representar o Oedipo-Rei e falou com voz grossa: «Senhoritas, senhores e senhoras». Parou. Concertou a voz e continuou: «Vou cantar «Os teus braços», modinha de minha composição, musica e versos. É uma composição terna, decente e de uma poesia exaltada». Seus olhos, por ahi, quasi lhe sabiam das orbitas. Emendou: «Espero que nenhum ruido se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão instrumento muito... mui...to _dê li ca do_. Bem».

A attenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebuado, macio e longo, como um soluço de onda; depois, houve uma parte rapida, saltitante, em que o violão estalava. Alternando um andamento e outro, a modinha acabou.

Aquillo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens. As palmas foram ininterruptas. O General abraçou-o, Genelicio levantou-se e deu-lhe a mão, Quinota, no seu immaculado vestido de noiva, tambem.

Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu á sala de jantar. No corredor chamaram-n'o: Sr. Ricardo, Sr. Ricardo! Voltou-se. Que ordena minha senhora? Era uma moca que lhe pedia uma copia da modinha.

--Não se esqueça, dizia ella com meiguice, não se esqueça. Gosto tanto das suas modinhas... São tão ternas tão delicadas... Olhe: dê aqui a Ismenia para me entregar.

A noiva de Cavalcanti approximava-se e, ouvindo falar em seu nome, perguntou:

--Que é, Dulce?

A outra explicou-lhe. Ella aceitou a incumbencia: e, por sua vez, perguntou a Ricardo com a sua voz dolente:

--_Seu_ Ricardo, quando é que o Sr. pretende estar com D. Adelaide.

--Depois de amanhã, espero eu.

--Vai lá.

--Vou.

--Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma carta...

E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado.

III

GOLIAS

No sabbado da semana seguinte áquella em que a filha do General recebera como marido o grave e giboso Genelicio, gloria e orgulho do nosso funccionalismo publico, Olga casara-se. A cerimonia correra com a pompa e a riqueza acostumadas em pessoas de sua camada. Houve uns arremedos parisienses de _corbeille_ de noiva e outros pequenos detalhes chics, que não a aborreceram, mas que não a encheram lá de satisfação maior que as noivas communs. Talvez nem mesmo essa ella tivesse.

Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua vontade. Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquelle acto, mas, apparentemente, nenhuma vontade extranha á sua influira para isso. O marido é que estava contente. Não seria muito com a noiva, mas com a volta que a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo medico, cheio de talento nas notas e recompensas escolares, via diante de si uma larga estrada de triumphos nas posições e na industria clinica. Não tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal titulo um fóral de nobreza, equivalente áquelles com que os authenticos fidalgos da Europa brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros _yankees_. Apezar de ser seu pai um importante fazendeiro por ahi, em algum logar deste Brasil, o sogro lhe dera tudo e tudo elle aceitara sem pejo, com o desprezo de um duque, duque de plenamentes e medalhas, a receber homenagens de um villão que não _roçou os bancos de uma Academia_.

Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso titulo, o pergaminho; é verdade que foi, não tanto pelo titulo, mas pela sua simulação de intelligencia, de amor á sciencia, de desmedidos sonhos de sabio. Tal imagem que delle fizera, durara instantes em Olga; depois foi a inercia da sociedade, a sua tyrannia e a timidez natural da moça em romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que ella, de si para si, pensava que se não fosse este, seria outro a elle igual, e o melhor era não adiar.

Era por isso que ella não ia para a igreja, em virtude de uma determinação certa de sua vontade, embora sem perceber o constrangimento de um commando fora della.

Apezar da pompa, esteve longe de ser uma noiva magestosa. Não obstante as origens puramente européas, era pequena, muito mesmo, ao lado do noivo, alto, erecto, com uma physionomia irradiante de felicidade; e, desse modo, ella desapparecia dentro do vestido, dos véos e daquelles atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar, De resto, a tua belleza não era a grande belleza--aquella que nós exigimos das noivas ricas, segundo o modelo das estampas classicas.

No seu rosto, nada de grego, desse grego authentico on de pacotilha, ou tambem dessa magestade de opera lyrica. Havia nos seus traços muita irregularidade, mas a sua physionomia era profunda e propria. Não só a luz dos seus grandes olhos negros, que quasi cobriam toda a cavidade orbitaria, fazia fulgurar o seu rosto mobil, como a sua pequena boca, de um desenho fino, exprimia bondade, malicia e o seu ar geral era de reflexão e curiosidade.

Ao contrario do costume, não sahiram da cidade e foram morar em casa do antigo empreiteiro.

Quaresma não fora á festa, mandara o leitão e o perú da tradição e escrevera uma longa carta. O sitio empolgara-o, o calor ia passar, vinha a época das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-se de suas terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou dous, era como se começasse a desertar da batalha.

O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da horta. A visita de Ricardo veiu distrail-o um pouco, sem desvial-o comtudo, de seus afazeres agricolas.

Passou um mez com o Major, e foi um triumpho. A fama do seu nome precedia-o, de forma que todo o municipio o disputava e festejava.

O seu primeiro trabalho foi ir á villa. Ficava a quatro kilometros adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de rodagem, se assim se póde chamar um trilho, cheio de caldeirões, que subia e descia morros, cortava planicies e rios em toscas pontes. A villa!... Tinha duas ruas principaes: a antiga, determinada pelo velho caminho de tropas, e a nova, cuja origem veiu da ligação da velha com a estrada de ferro. Ellas se encontravam em _T_, sendo o braço vertical o caminho da estação. As outras partiam dellas, as casas juntavam-se urbanamente no começo, depois iam espaçando, espaçando, até acabar em mato, em campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova, Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da rua Marechal Deodoro, partia a da Matriz, ia ter á igreja, ao alto de uma collina, feia e pobre no seu estylo jesuitico. Á esquerda da estação, num campo, a praça da Republica, a que ia dar uma rua mal esboçada por espaçadas casas, ficava a Camara Municipal.

Em um grande parallepipeto de tijolo, cimalha, janella com sacadas de grade de ferro, puro estylo mestre de obras. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edificios da mesma natureza das pequenas communas francezas e belgas da idade média.

Ricardo entrou num barbeiro da rua Marechal Deodoro, salão Rio de Janeiro, e fez a barba. O figaro deu-lhe informações a villa e elle se deu a conhecer. Havia certos circumstantes, um delles tomou-o a seu cargo e dahi em pouco estava relacionado.

Quando voltou para a casa do Major já tinha convite para o baile do Dr. Campos, presidente da Camara, festa que teria logar na quarta-feira proxima.

Chegara sabbado e fora passeiar á villa domingo.

Tinha havido missa e o trovador assistiu a sahida. A concurrencia nunca é grande na roça, mas Ricardo pôde ver algumas daquellas moças do interior, lymphaticas e tristes, ataviadinhas, cheias de laços, descendo silenciosas a collina em que se erguia a igreja, espalhando-se pela rua e logo entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de reclusão e tedio. Foi na sahida da missa que lhe apresentaram o Dr. Campos.

Era o medico do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de «aranha» com a sua filha, Nair, assistir o officio religioso.

O trovador e o medico estiveram um instante conversando, emquanto a filha, muito magra, pallida, com uns longos braços descarnados, olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua. Quando elles partiram, ainda Ricardo considerou um pouco aquelle rebento dos ares livres do Brasil.

Á festa do Dr. Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e a alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas gozava a sua victoria. Se bem que o Major tivesse abandonado o violão, ainda continuava a prezar aquelle instrumento essencialmente nacional. As consequencias desastrosas do seu requerimento em nada tinham abalado as suas convicções patrioticas. Continuavam as suas idéas profundamente arraigadas, tão sómente elle as escondia, para não soffrer com a incomprehensão e maldade dos homens.

Gozava, portanto, a fulminante victoria de Ricardo, que indicava bem naquella população a existencia de um residuo forte da nossa nacionalidade a resistir ás invasões das modas e gostos estrangeiros.

Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os partidos. O Dr. Campos, presidente da Camara, era quem mais o cumulava de homenagens. Naquella manhã até esperava um dos cavallos do edil, para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a Quaresma, que ainda não tinha partido para o eito:

--Major, foi uma boa idéa vir para a roça. Vive-se bem e pode-se subir...

--Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são extranhas todas essas cousas.

--Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos offerecem, não devemos rejeitar, não acha?

--Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de commandar uma esquadra.

--Até ahi não vou. Olhe, Major: eu gosto muito de violão, mesmo dedico a minha vida ao seu levantamento moral a intellectual, entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: «Seu Ricardo, Você vai ser deputado», o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo perfeitamente que não podia mais desferir os threnos do instrumento? Ora, se não! Não se deve perder vasa, Major.

--Cada um tem as suas theorias.

--De certo. Outra cousa. Major: conhece o Dr. Campos?

--De nome.

--Sabe que elle é presidente da Camara.

Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança, O menestrél não notou o gesto do amigo e emendou.

--Móra daqui a uma legua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavallo passeiar com elle.

--Fazes bem.

--Elle quer conhecel-o. Posso trazel-o aqui?

--Pódes.

Um camarada do Dr. Campos, neste instante, entrava pela porteira trazendo o cavallo promettido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora dous, pois, além do Anastacio, que não era bem um empregado, mas aggregado, admittira o Felizardo.

Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores tinham attenuado a temperatura.

Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi caminhando por entre aquelle rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e passaros. Esvoaçavam tyês vermelhos, bandos de colleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas negras no verdor das arvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos campos, no momento, parece que tinham sahindo á luz, não sómente para a fecundação vegetal mas tambem para a belleza.

Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e fôra para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo. Era este um camarada magro, alto, de longos braços, longas pernas, como um simio. Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma apparencia de fraqueza muscular, não havia ninguem mais valente que elle a roçar. Com isto era um tagarella incansavel. De manhã, quando chegava, ahi pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do municipio.

O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado do norte do sitio, que o capão invadira. Obtido elle, o Major plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervallos batatas inglezas, cultura nova em que depositava grandes esperanças. Já se fizera a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma, porém, não lhe quizera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno, eliminando delle os principios volateis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus mais grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miudos e folhas, elle removia para longe, onde então queimaria em coiváras pequenas.

Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos; mas promettia dar um rendimento maior ao plantio.

Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se distrahir. Ha quem cante, elle falava e pouco se incommodava que lhe dessem ou não attençâo.

--Essa gente anda accesa por ahi, disse Felizardo logo que o Major chegou.

Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, attendia-lhe a conversa, raras não. Anastacio era silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e, de quando em quando, parava, considerava, numa postura hieratica de uma pintura mural thebana. O Major perguntou ao Felizardo:

--Que é que ha, Felizardo?

O camarada descançou o grosso tronco de camará no monte, limpou o suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante:

--Negocio de politica... Seu Tenente Antonino quasi briga hontem com _seu dotô Campo_.

--Onde?

--Na estação.

--Porque?

--Negocio de partido. Pelo que ouvi: seu Tenente-Antonino é pelo _governadô_ e _seu dodô Campo_ é pelo _senadô_... Um sarcêro, patrão!

--E você, por quem é?

Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleiava o tronco a remover. Anastacio estava de pé e considerou um instante a figura do companheiro palrador. Respondeu afinal:

--Eu! sei lá... Urubu pellado não se mette no meio dos coroados. Isso é bom p'r'o _sinhô_.

--Eu sou como você, Felizardo.

--Quem me dera, meu _sinhô_. Inda _traz-antonte_ ouvi _dizê_ que o patrão é amigo do _marechá_...

Afastou-se com o pau; e, quando voltou Quaresma indagou assustado:

--Quem disse?

--Não sei, não _sinhô_. Ouvi a modo de _dizê_ lá na venda do hespanhol, tanto assim que _doutô Campo tá_ inchado que nem sapo com a sua amizade.

--Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma... Conheci-o... E nunca disse isso aqui a ninguem... Qual amigo!

--_Quá_! fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrão _tá_ é varrendo a testada.

Apezar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquella cabeça infantil a idéa de que elle fosse amigo do Marechal Floriano. «Conheci-o no meu emprego»--dizia o Major: Felizardo sorria grosso e por uma vez dizia: «_Quá_! o patrão é fino que nem cobra».

Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer aquillo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insinuações pela manhã... Elle tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel, incapaz de lhe estar armando laços para passar máos momentos; os enthusiasmos delle, entretanto, junto á vontade de ser bom amigo, podiam illudil-o e fazel-o instrumento de algum perverso. Quaresma ficou um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em breve, porém, esqueceu-se e a preoccupação dissipou-se. Á tarde, quando foi jantar, já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra alguma de cogitações por parte delle.

D. Adelaide, sempre com a sua _matinée_ creme e saia preta, sentava-se á cabeceira; Quaresma á direita e á esquerda, Ricardo. Era a velha quem sempre puxava a lingua do trovador.

--Gostou muito do passeio, Sr. Ricardo?

Não havia meio della dizer _seu_. A sua educacão de _senhora_ de outros tempos, não lhe permittia usar esse plebeismo generalizado. Vira os pais, gente ainda fortemente portugueza, dizer _senhor_ e continuava a dizer, sem fingimento, naturalmente.

--Muito. Que logar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é que se tem inspiração.

--E elle tomava aquella altitude de arroubo: uma physionomia de mascara de tragico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada abafada.

--Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma.

--Hoje acabei uma modinha.

--Como se chama? indagou D. Adelaide.

--«Os labios da Carola».

--Bonito! Já fez a musica?

Era ainda a irmã da Quaresma a perguntar. Ricardo levava agora o garfo a boca; deixou-o suspenso entre os lábios e o prato e respondeu com toda a convicção:

--A musica, minha senhora, é a primeira coesa que faço.

--Has de nol-a cantar logo.

--Pois não, Major.