Triste Fim de Polycarpo Quaresma

Part 6

Chapter 63,899 wordsPublic domain

Actualmente era elle o encarregado de tratar da aposentadoria do seu antigo discipulo. É um trabalho arduo, esse de liquidar uma aposentadoria, como se diz na gyria burocratica. Aposentado o sujeito, solemnemente por um decreto, a cousa corre uma dezena de repartições e funccionarios para ser ultimada. Nada ha mais grave do que a gravidade com que o empregado nos diz: ainda estou fazendo o calculo; e a cousa demora um mez, mais até, como se tratasse de mecanica celeste.

Coleoni era o procurador do Major, mas não sendo entendido em cousas officiaes, entregou ao Coração dos Outros aquella parte do seu mandato.

Graças á popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza, vencera a resistencia da machina burocratica e a liquidação estava annunciada para breve.

Foi isso que elle annunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da filha. Pediram, tanto elle como D. Adelaide, noticias do amigo e do irmão.

A irmã nunca entendera direito o irmão, com a crise não o ficou comprehendendo melhor; mas a sentira profundamente com o sentimento simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura.

Ricardo Coração dos Outros gostava do Major, encontrara nelle certo apoio moral e intellectual de que precisava. Os outros gostavam de ouvir o seu canto, apreciavam como simples dilletantes: mas o Major era o unico que ia ao fundo da sua tentativa e comprehendia o alcance patriotico do sua obra.

De resto, elle agora soffria particularmente--soffria na sua gloria, producto de um lenço e seguido trabalho de annos. É que apparecera um creoulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era citado ao lado do seu.

Aborrecia-se com o rival, por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser preto; e segundo: por causa das suas theorias.

Não é que elle tivesse ogeriza particular aos pretos. O que elle via no facto de haver um preto famoso tocar violão, era que tal cousa ia diminuir ainda mais o prestigio do instrumento. Se o seu rival tocasse piano e por isso ficasse celebre, não havia mal algum; ao contrario: o talento do rapaz levantava a sua pessoa, por intermedio do instrumento considerado; mas, tocando violão, era o inverso: o preconceito que lhe cercava a pessoa, desmoralisava o mysterioso violão que elle tanto estimava. E além disso com aquellas theorias! Ora! querer que a modinha diga alguma cousa e tenha versos certos! Que tolice!

E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim diante delle como um obstaculo imprevisto na subida maravilhosa para a sua gloria. Precisava afastal-o, esmagal-o, mostrar a sua superioridade indiscutivel; mas como?

A _reclame_ já não bastava; o rival a empregava tambem. Se elle tivesse um homem notavel, um grande literato, que escrevesse um artigo sobre elle e a sua obra, a victoria estava certa. Era difficil encontrar. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão absorvidos em cousas francezas... Pensou num jornal, «O Violão», em que elle desafiasse o rival e o esmagasse numa polemica.

Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma, actualmente recolhido ao Hospicio, mas felizmente em via de cura. A sua alegria foi justamente grande quando soube que o amigo estava melhor.

--Não pude ir hoje, disse elle, mas irei domingo. Está mais gordo?

--Pouca cousa, disse a moça.

--Conversou bem, accrescentou Coleoni. Até ficou contente quando soube que Olga ia casar-se.

--Vai casar-se, D. Olga? Parabens.

--Obrigada, fez ella.

--Quando é Olga? perguntou D. Adelaide.

--Lá para o fim do anno... Tem tempo...

E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações sobre o casamento.

E ella se sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as considerações, impudentes e irritantes; queria fugir á conversa, mas voltavam ao mesmo assumpto, não só Ricardo, mas a velha Adelaide, mais loquaz e curiosa que commumente. Esse supplicio que se repetia em todas as visitas, quasi a fazia arrepender-se de ter acceitado o pedido. Por fim achou um subterfugio, perguntando:

--Como vai o General?

--Não o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Elle deve andar bem, a Ismenia é que anda triste, desolada coitadinha!

D. Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha do General. Cavalcanti, aquelle Jacob de cinco annos, embarcara para o interior, ha tres ou quatro mezes e não mandara nem uma carta nem um cartão. A menina tinha aquillo como um rompimento; e ella, tão incapaz de um sentimento mais profundo, de uma applicação mais seria de energia mental e physica, sentia-o muito, como cousa irremediavel que absorvia toda a sua attenção.

Para Ismenia, era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado de existir. Arranjar outro era problema insoluvel, era trabalho acima de suas forças. Cousa difficil! Namorar, escrever cartinhas, fazer acenos, dançar, ir a passeios--ella não podia mais com isso. Decididamente, estava condemnada a não se casar, a ser tia, a supportar durante toda a existencia esse estado de solteira que a apavorava. Quasi não se lembrava das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do seu nariz duro e fortemente osseo; independente da memoria delle, vinha-lhe sempre á consciencia, quando, de manhã, o estafeta não lhe entregava carta, essa outra idéa: não casar. Era um castigo... A Quinota ia casar-se, o Genelicio já estava tratando dos papeis; e ella que esperam tanto, e fôra a primeira a noivar-se ia ficar maldita, rebaixada diante de todas. Parecia até que ambos estavam contentes com aquella fuga inexplicavel de Cavalcanti. Como elles se riam durante o Carnaval! Como elles atiraram aos seus olhos aquella sua viuvez prematura, durante os folguedos carnavalescos! Punham tanta furia no jogo de confetes e bisnagas, de modo a deixar bem claro a felicidade de ambos, aquella marcha gloriosa e invejava para o casamento, em face do seu abandono.

Ella disfarçava bem a impressão da alegria delles que lhe parecia indecente e hostil; mas o escarneo da irmã que lhe dizia constantemente: «Brinca, Ismenia! Elle está longe, vai aproveitando»--metia-lhe raiva, a raiva terrivel de gente fraca, que corróe interiormente, por não poder arrebentar de qualquer forma.

Então, para espantar os máus pensamentos, ella se punha a olhar o aspecto pueril da rua, marchetada de papeluchos multicores, e as serpentinas irisadas pendentes nas sacadas; mas o que fazia bem á sua natureza pobre, comprimida, eram os cordões, aquelle ruido de atabaques, e adufes, de tambores e pratos. Mergulhando nessa barulheira, o seu pensamento repousava e como que a idéa que a perseguia desde tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça.

De resto, aquelles vestuarios extravagantes de indios, aquelles adornos de uma mythologia francamente selvagem, jacarés, cobras, jabotys, vivos, bem vivos, traziam á pobreza de sua imaginação imagens risonhas de rios claros, florestas immensas, logares de socego e pureza que a reconfortavam.

Tambem aquellas cantigas gritadas, berradas, num rytmo duro e de uma grande indigencia melodica, vinham como reprimir a magua que ia nella, abafada, comprimida, contida, que pedia uma explosão de gritos, mas para o que não lhe sobrava força bastante e sufficiente.

O noivo partira um mez antes do Carnaval e depois do grande festejo carioca a sua tortura foi maior. Sem habito de leitura e de conversa, sem actividade domestica qualquer, ella passava os dias deitada, sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Era-lhe doce chorar.

Nas horas da entrega da correspondencia, tinha ainda uma alegre esperança. Talvez? Mas a carta não vinha, e, voltava ao seu pensamento: não casar.

D. Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Ismenia, commentou:

--Merecia um castigo isso, não acham?

Coleoni interveio com brandura e boa vontade.

--Não ha razão para desesperar. Ha muita gente que tem preguiça de escrever...

--Qual! fez D. Adelaide. Ha tres mezes, sr. Vicente!

--Não volta, disse Ricardo sentenciosamente.

--E ella ainda o espera, D. ADelaide? perguntou Olga.

--Não sei, minha filha. Ninguem entende essa moça. Fala pouco, se fala diz meias-palavras... É mesmo uma natureza que parece sem sangue nem nervos. Sente-se a sua tristeza, mas não fala.

--É orgulho? perguntou ainda Olga.

--Não, não... Se fosse orgulho, ella não se referia de vez em quando ao noivo. É antes molleza, preguiça... Parece que ella tem medo de falar para que as cousas não venham acontecer.

--E os paes que dizem a isso? indagou Coleoni.

Não sei bem. Mas pelo que pude perceber, o incommodo do General não é grande e D. Maricota julga que ella deve arranjar _outro_.

--Era o melhor, disse Ricardo.

--Eu creio que ella não tem mais pratica, disse sorrindo D. Adelaide. Levou tanto tempo noiva...

E a conversa já tinha virado para outros assumptos, quando a Ismenia veiu fazer a sua visita diaria á irmã de Quaresma.

Cumprimentou todos e todos sentiram que ella penava. O soffrimento dava-lhe mais actividade á physionomia.

As palpebras estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham mais brilho e expansão. Indagou da saude de Quaresma e depois calaram-se um instante. Por fim D. Adelaide lhe perguntou:

--Recebeste carta, Ismenia?

--Ainda não, respondeu ella com grande economia de voz.

Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num _dunkerque_, veiu atirar ao chão uma figurinha de _biscuit_, que se esphacelou em innumeros fragmentos, quasi sem ruido.

SEGUNDA PARTE

I

NO «SOCEGO»

Não era feio o logar, mas não era bello. Tinha, entretanto, o aspecto tranquillo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte.

A casa erguia-se sobre um socalco, uma especie de degrau, formando a subida para, a maior altura de uma pequena collina que lhe corria nos fundos. Em frente, por entre os bambús da cerca, olhava uma planicie a morrer nas montanhas que se viam ao longe; um regalo de aguas paradas e sujas cortava-a parallemente á testada da casa; mais adeante, o trem passava vincando a planicie com a fita clara de sua linha capinada; um carreiro, com casas, de um e do outro lado, sahia da esquerda e ia ter á estação, atravessando o regato e serpeando pelo plaino. A habitação de Quaresma tinha assim um amplo horizonte, olhando para o levante, a _noruega_, e era tambem risonha e graciosa nos seus muros caiados. Edificada com a desoladora indigencia architectonica das nossas casas de campo, possuia, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com janella, e uma varanda com uma columnata heterodoxa. Além desta principal, o sitio do «Socego», como se chamava, tinha outras construcções: a velha casa da farinha, que ainda tinha o forno intacto e a roda desmontada, e uma estrebaria coberta de sapê.

Não havia tres mezes que viera habitar aquella casa, naquelle ermo logar, a duas horas do Rio, por estrada de ferro, após ter passado seis mezes no Hospicio da praia das Saudades. Sahira curado? Quem sabe lá? Parecia: não delirava e os seus gestos e propositos eram do homem commum embora, sob tal apparencia, se pudesse sempre crer que não se lhe despedira de todo, já não se dirá a loucura, mas o sonho que cevara durante tantos annos. Foram mais seis mezes de repouzo e util sequestração que mesmo de uso de uma therapeutica psychiatrica.

Quaresma viveu lá, no manicomio, resignadamente, conversando com os seus companheiros, onde via ricos que se diziam pobres, pobres que se queriam ricos, sabios a mal dizer da sabedoria, ignorantes a se proclamarem sabios; mas, delles todos, daquelle que mais se admirou, foi de um velho e placido negociante da rua dos Pescadores que se suppunha Attila. Eu, dizia o pacato velho, sou Attila, sabe? Sou Attila. Tinha fracas noticias da personagem, sabia o nome e nada mais. Sou Attila, matei muita gente--e era só.

Sahiu o Major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as cousas tristes de ver, no mundo, a mais triste é a loucura; é a mais depressora e pungente.

Aquella continuação da nossa vida tal e qual, com um desarranjo imperceptivel, mas profundo e quasi sempre insondavel, que a inutiliza inteiramente, faz pensar em alguma cousa mais forte que nós, que nos guia, que nos impelle e em cujas mãos somos simples joguetes. Em varios tempos e lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão nisso no sentimento que se apodera de nós quando, ao vermos um louco desarrazoar, pensamos logo que já não é elle quem fala, é alguém, alguém que vê por elle, interpreta as cousas por elle, está atraz delle, invisivel!...

Quaresma sahiu envolvido, penetrado da tristeza do manicomio. Voltou á sua casa, mas a vista das suas cousas familiares não lhe tirou a forte impressão de que vinha impregnado. Embora nunca tivesse sido alegre, a sua physionomia apresentara mais desgosto que antes, muito abatimento moral, e foi para levantar o animo que se recolheu áquella risonha casa de roça, onde se dedicava a modestas culturas.

Não fora elle, porém, quem se lembrara; fora a afilhada que lhe trouxe á idéa aquelle doce acabar para a sua vida. Vendo-o naquelle estado de abatimento, triste e taciturno, sem coragem de sahir, enclausurado em sua casa de São Cristovam, Olga dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e filialmente:

--O padrinho porque não compra um sitio? Seria tão bom fazer as suas culturas, ter o seu pomar, a sua horta... não acha?

Tão taciturno que elle estivesse, não pôde deixar de modificar immediatamente a sua physionomia á lembrança da moça. Era um velho desejo seu, esse de tirar da terra o alimento, a alegria e a fortuna; e foi lembrando dos seus antigos projectos que respondeu á afilhada:

--É verdade, minha filha. Que magnifica idéa, tens tu! Ha por ahi tantas terras ferteis sem emprego... A nossa terra tem os terrenos mais ferteis do mundo... O milho póde dar até duas colheitas e quatrocentos por um...

A moça esteve quasi arrependida da sua lembrança. Pareceu-lhe que ia atêar no espirito do padrinho manias já extinctas.

--Em toda a parte--não acha, meu padrinho?--ha terras ferteis.

--Mas como no Brasil, apressou-se elle em dizer, ha poucos paizes que as tenham. Vou fazer o que tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho, o feijão, a batata ingleza... Tu irás ver as minhas culturas, a minha horta, o meu pomar--então é que te convencerás como são fecundas as nossas terras!

A idéa cahiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava amanhado e só estirava uma bôa semente. Não lhe voltou a alegria que jamais teve, mas a taciturnidade foi-se com o abatimento moral, e veiu-lhe a actividade mental cerebrina, por assim dizer, de outros tempos. Indagou dos preços correntes das fructas, dos legumes, das batatas, dos aipins; calculou que cincoenta laranjeiras, trinta abacateiras, oitenta pecegueiros, outras arvores fruticferas, além dos abacaxis (que mina!) das aboboras e outros productos menos importantes, podiam dar o rendimento annual de mais de quatro contos, tirando as despezas. Seria ocioso trazer para aqui os detalhes dos seus calculos, baseados em tudo no que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura Nacional. Levou em linha de conta a producção média de cada pé de fructeira, de hectare cultivado, e tambem os salarios, as perdia inevitaveis; e, quanto aos preços, elle foi em pessoa no mercado buscal-os.

Planejou a sua vida agricola com a exactidão e meticulosidade que punha em todos os seus projectos. Encarou-a por todas as faces, pezou as vantagens e onus; e muito contente ficou em vel-a monetariamente attrahente, não por ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso mais uma demonstração das excellencias do Brasil.

E foi obedecendo a essa ordem de idéas que comprou aquelle sitio, cujo nome--«Socego»--cabia tão bem á nova vida que adoptara, após a tempestade que o sacudira durante quasi um anno. Não ficava longe do Rio e elle o escolhera assim mesmo maltratado, abandonado, para melhor demonstrar a força e o poder da tenacidade, do carinho, no trabalho agricola. Esperava grandes colheitas de fructas, de grãos, de legumes; e do seu exemplo, nasceriam mil outros cultivadores, estando em breve a grande capital cercada de um verdadeiro celleiro, virente e abundante a dispensar os argentinos e europeus.

Com que alegria elle foi para lá! Quasi não teve saudades de sua velha casa de S. Januario, agora propriedade de outras mãos, talvez destinada ao mercenario mister de lar de aluguel... Não sentiu que aquella vasta sala, abrigo calmo dos seus livros durante tantos annos, fosse servir para salão de baile futil, fosse testemunhar talvez rixas de casaes desentendidos, odios de familia--ella tão boa, tão doce, tão sympathica, com o seu tecto alto e as suas paredes lisas, em que se tinham encrustado os desejos de sua alma e toda ella penetrada da exhalação dos seus sonhos!...

Elle foi contente. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro contos de réis por anno, tirados da terra, facilmente, docemente, alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser empregado publico, apodrecer numa banca, soffrer na sua independencia e no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidemico, sustentar-se de maus alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta, livre, alegre e saudavel?

E era agora que elle chegava a essa conclusão, depois de ter soffrido a miseria da cidade e o emasculamento da repartição publica, durante tanto tempo! Chegara tarde, mas não a ponto de que não pudesse antes da morte travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade das terras brasileiras. Então pensou que foram vãos aquelles seus desejos de reformas capitaes nas instituições e costumes: o que era principal á grandeza da patria estremecida, era uma forte base agricola, um culto pelo seu solo uberrimo, para alicerçar fortemente todos os outros destinos que ella tinha de preencher.

Demais, com terras tão ferteis, climas variados, a permittir uma agricultura facil e rendosa, este caminho estava naturalmente indicado.

E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras, em flôr, olentes, muito brancas, a se enfileirar pelas encostas das collinas, como theorias de noivas; os abacateiros, de troncos rugosos, a sopesar com esforço os grandes pomos verdes; as jabuticabas negras a estalar dos caules rijos; os abacaxis coroados que nem reis, recebendo a uncção quente do sol; as abobreiras a se arrastarem com flores carnudas cheias de pollen; as melancias de um verde tão fixo que parecia pintado; os pecegos veludosos, as jacas monstruosas, os jambos, as mangas capitosas; e dentre tudo aquillo surgia uma linda mulher, com o regaço cheio de fructos e um dos hombros nu, a lhe sorrir agradecida, com um imaterial sorriso demorado de deusa--era Pomona, a deusa dos vergeis e dos jardins!...

As primeiras semanas que passou no «Socego», Quaresma as empregou numa exploração em regra da sua nova propriedade. Havia nella terra bastante, velhas arvores fructiferas, um capoeirão grosso com camarás, bacurubús, tinguacibas, tibibuyas, munjólos, e outros specimens. Anastacio que o acompanhara, appelava para as suas recordações de antigo escravo de fazenda, e era quem ensinava os nomes dos individuos da mata a Quaresma muito lido e sabido em cousas brasileiras.

O Major logo organizou um museu dos productos naturaes do «Socego». As especies florestaes e campezinas foram etiquetadas com os seus nomes vulgares, e quando era possivel com os scientificos. Os arbustos, em herbario e as madeiras, em pequenos tocos, seccionados longitudinal e transversalmente.

Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as sciencias naturaes e o furor auto-didacta dera a Quaresma solidas noções de botanica, zoologia, mineralogia e geologia.

Não foram só os vegetaes que mereceram as honras de um inventario; os animaes tambem, mas como elle não tinha espaço sufficiente e a conservação dos exemplares exigia mais cuidado, Quaresma limitou-se a fazer o seu museu no papel, por onde sabia que as terras eram povoadas de tatús, cotias, preás, cobras variadas, saracuras, sanãs, avinhados, colleiros, tyês, etc. A parte mineral era pobre, argillas, arêa e, aqui e ali, uns blocos de granito exfoliando-se.

Acabado esse inventario, passou duas semanas a organizar a sua bibliotheca agricola e uma relação de instrumentos metereologicos para auxiliar os trabalhos da lavoura.

Encommendou livros nacionaes, francezes, portuguezes; comprou thermometros, barometros, pluviometros, hygrometros, anemometros. Vieram estes e foram arrumados e collocados convenientemente.

Anastacio assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que tanta cousa, tanto livro, tanto vidro? Estaria o seu amigo patrão dando para pharmaceutico? A duvida do preto velho não durou muito. Estando certa vez Quaresma a ler o pluviometro, Anastacio, ao lado, olhava-o espantado, como quem assiste a um passe de feitiçaria. O patrão notou o espanto do criado, e disse:

--Sabes o que estou fazendo, Anastacio?

--Não _sinhô_.

--Estou vendo se choveu muito.

--Para que isso, patrão? A gente sabe logo _de olho_ quando chove muito ou pouco... Isso de plantar é capim; pôr a semente na terra, deixar crescer e apanhar...

Elle falava com a sua voz molle de africano, sem _rr_ fortes, com lentidão e convicção.

Quaresma, sem abandonar o instrumento, tomou em consideração o conselho de seu empregado. O capim e o matto cobriam as suas terras. As larangeiras, os abacateiros, as mangueiras estavam sujos, cheios de galhos mortos, e cobertos de uma medusina cabelleira de herva de passarinho; mas, como não fosse época propria á póda e ao corte dos galhos, Quaresma limitou-se a capinar por entre os pés das fruteiras. De manhã, logo ao amanhecer, elle mais o Anastacio, lá iam, de enxada ao hombro, para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo; o verão, estava no auge, mas Quaresma era inflexível e corajoso. Lá ia.

Era de vel-o, coberto com um chapéo de palha de côco, atracado a um grande enxadão de cabo nodoso, elle, muito pequeno, myope, a dar golpes sobre golpes para arrancar um teimoso pé de guaximba. A sua enxada mais parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento agricola. Anastacio, junto ao patrão, olhava-o com piedade e espanto. Por gosto andar naquelle sól a capinar sem saber?... Ha cada cousa neste mundo!

E os dous iam continuando. O velho preto, ligeiro, rapido, raspando o matto rasteiro, com a mão habituada, a cujo impulso a enxada resvalava sem obstaculo pelo solo, destruindo a herva má; Quaresma, furioso, a arrancar torrões de terra daqui, dali, demorando-se muito em cada arbusto; e, ás vezes, quando o golpe falhava e a lamina do instrumento roçava a terra, a força era tanta que se erguia uma poeira infernal, fazendo suppor que por aquellas paragens passara um pelotão de cavallaria. Anastacio, então, intervinha humildemente, mas em tom professoral:

--Não é assim, _seu majó_. Não se mette a enxada pela terra a dentro. É de leve, assim.

E ensinava ao Cincinato inexperiente o geito de servir-se do velho instrumento de trabalho.

Quaresma agarrava-o, punha-se em posição e procurava com toda a boa vontade usal-o da maneira ensinada. Era em vão. O _flange_ batia na herva, a enxada saltava e ouvia-se um passaro ao alto soltar uma piada ironica: Bemtevi! O Major enfurecia-se, tentava outra vez, fatigava-se, suava, enchia-se de raiva e batia com toda a força; e houve varias vezes que a enxada, batendo em falso, escapando do chão, fel-o perder o equilibrio, cahir, e beijar a terra, mãe dos fructos e dos homens. O pince-nez saltava, partia-se de encontro a um seixo.

O Major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia á tarefa que se impuzera; mas, tanto é em nossos musclos firme a memoria ancestral desse sagrado trabalho de tirar da terra o sustento de nossa vida, que não foi impossivel a Quaresma acordar nos seus o geito, a maneira de empregar a enxada vetusta.

Ao fim de um mez, elle capinava razoavelmente, não seguido, de sol a sol, mas com grandes repousos de hora em hora que a sua idade e falta de habito requeriam.