Chapter 7
Estavamos ainda a pé, duas horas depois. De instante, a instante, chegava-nos o ecco d'um gemido agudo. Eu sahia, de vez em quando, a informar-me, e voltava sempre com boas esperanças para o meu amigo. Assistiam ao acto solemnissimo d'um primogenito, um medico de Rezende, um cirurgião das Caldas d'Arêgos, uma parteira de Canavezes, e D. Mafalda, que parecia mais experiente que todos os outros.
Já de madrugada, passeava eu n'um sobrado proximo do quarto em que Hermenigilda acabava de ter o seu feliz successo, como dizem os jornaes, quando annunciam á Europa o nascimento d'um menino gordo, robusto, filho de tal ou tal commendador, que nunca produz, em regra, meninos enfesadinhos.
Tratei de perguntar o sexo do recem-nascido á primeira pessoa que sahiu do quarto: era D. Mafalda. Cousa extraordinaria! A velha fidalga sahiu como assombrada; e á pergunta que lhe fiz, respondeu: «Isto é da gente se benzer!»
--Que diz v. exc.ª, minha senhora?--repliquei eu--É menino ou menina?
«Eu sei cá... Santo nome de Deus!--balbuciou ella.
Sabem o que então me lembrou, não podendo atinar com o spasmo de D. Mafalda? Se o recem-nascido seria um pequenino centauro, uma aberração da natureza, um monstro, um hermaphrodita! Instei com anciedade nas minhas perguntas, e imaginei que D. Mafalda estava douda, quando me disse que o nascido era rapaz, mas...
«Mas o que, minha senhora, queira acabar...
--Mas é preto!--disse ella, escondendo o rosto nas mãos.
Bento de Castro appareceu n'este momento. Contempla a estupefacção de nós ambos. Pergunta se Hermenigilda está perigosa. Eu fico perplexo; mas o vilipendio do meu pobre amigo vexa-me, punge-me, indigna-me até ao fundo d'alma.
Tomo-lhe o braço, tiro-o para o patim da casa, e digo-lhe:
--Manda sellar immediatamente os nossos cavallos.
«Pois que é?!
--Já, já, é necessario sahir já d'aqui...
«Por quem és, explica-te, João.
--E eu pela tua honra te supplico que me não interrogues mais. Vamos apparelhar os cavallos.
Bento de Castro seguiu-me como um somnambulo. Viu-me, na immobilidade do idiotismo, sellar as cavalgaduras. E quando eu lhe disse: «monta!» não se moveu. Era indispensavel tiral-o d'aquelle torpôr. Cobrei animo, e disse-lhe:
«Estás disposto a adoptar o filho de Hermenigilda?...
--Se elle é meu filho...--murmurou elle.
«Qual teu filho?! vamos! monta a cavallo!
--Pois de quem?! Tu queres enlouquecer-me!
N'este instante uma criada dizia d'uma janella para o quinteiro a uma filha da caseira:
«Nasceu um menino.
E a caseira respondia:
--Que seja para boa sorte.
«E a SORTE EM PRETO é a melhor...--murmurei eu, segurando o estribo do cavallo de Bento.
O infeliz comprehendeu-me. Não sei como dizer o que vi na cara de Castro. Partimos.
EPILOGO.
O preto levou sumiço. Eu creio que o esganaram, e enterraram no entulho d'uma mina, que está á esquerda, como quem sahe da porta da cozinha. Quem o esganou não sei, e eu sou muito escrupuloso em aventar supposições de tamanha responsabilidade. O filho do preto levou-o a parteira de Canavezes, e não se sabe o fim que lhe deram. Pantaleão morreu.
Hermenigilda casou com o morgado de Costoias, e é hoje uma das mais respeitaveis senhoras da Amarante. Bento de Castro da Gama já foi tres vezes deputado pelo Minho, e está muito gordo. Eu vou vivendo, como Deus é servido, pasmado do muito que tenho visto.
FIM DO LIVRO PRIMEIRO.
LIVRO SEGUNDO.
DINHEIRO.
LIVRO SEGUNDO.
DINHEIRO.
I.
Em 1835, a 22 d'Agosto, ás 7 horas da tarde, pouco mais ou menos, passeava eu, com a imaginação pelos mundos ideaes de Platão, e os pés sobre o terreno saibroso de um cerrado pinhal, no sitio do _Pastelleiro_, nos suburbios de S. João da Foz.
Distrahidamente, de vez em quando, passeava a vista pelas cinco janellas hermeticamente fechadas d'uma casa de campo, pintada de fresco a ocre. Impressionava-me o silencio funebre que rodeava aquella casa, e d'essa impressão, metade poesia e metade curiosidade, nasceu-me o desejo de saber quem morava alli.
Perto da noite, vi abrir-se uma das cinco janellas, e divisei um vulto de mulher, que se demorou alguns instantes olhando para o lado do mar. Ahi começa a phantasia a fazer-me travessuras!
Receoso d'afugental-a, parei para que ella me não ouvisse os passos. O ar mysterioso de tudo aquillo, a hora, o sitio, e sobre tudo esta minha cabeça fertil de crendices visionarias, fizeram-me crêr que tal mulher apparecera então para não ser vista d'alguem, e fugiria se alguem a visse.
Não me enganei. N'um lanço d'olhos, a amante do crepusculo lobrigou-me entre os pinheiros, e sahiu em sobresalto da janella.
«Aquella mulher é necessariamente um romance completo!» disse eu commigo mesmo, e imaginei traça de tornar a vêl-a sem ser visto n'aquella noite. Sahi do pinhal, entrei na estrada que conduz á Foz, retrocedi, através d'uma charneca, e entrei outra vez no pinhal de modo que o ruido dos meus passos se perdesse na grilharia dos grillos e cigarras.
A mulher da casa amarella estava outra vez olhando para o occidente, com a face encostada á palma da mão. D'ahi a pouco escureceu de modo que eu podia pouco avistal-a.
Permaneci muito tempo immovel, encostado a um pinheiro, com os olhos cravados n'aquelle vulto, que eu estava amando, sem conhecer-lhe as feições. Os primeiros fulgores da lua, que se revia no seio do mar, vestiram-lhe o rosto d'um esplendor alvacento: julgal-a-hieis uma estatua de marmore na solidão silenciosa d'uma cidade assolada.
Soaram onze horas no relogio parochial de Lordello. Que saudosa tristeza a d'aquelles sons em hora de tanta poesia! Que estimulo para um coração de cera flexivel a todos os caprichos da phantasia, qual era o meu, por esses tempos!
Onze horas, e eu ainda alli fascinado por aquella mulher, que me não via, que nunca me vira, e eu não veria jámais!
Não se riam da criança que eu era então. Tinham passado trinta annos por mim, mais ou menos tempestuosos, e o coração estava ainda viçoso, florido e esperançoso de fructos que por fim apodreceram antes de sazonarem.
Era aquella a idade das paixões sérias, reflectidas, consideradas. São essas as paixões que lançam raizes, regadas por lagrimas, ao fundo do seio, d'onde só a mão da morte, quasi sempre prematura, póde desarreigal-as.
E por isso aquella mulher do _Pastelleiro_ entrára em minha alma, vaga de tres mezes, porque houvera ahi na face da terra uma virgem reféce e treda que se vendera a um paparreta rico, vindo não sei d'onde, com anneis de brilhantes em todos os dedos das mãos, e joanetes enormes em todos os dedos dos pés... que pés, meu querido padre Santo Antonio! não eram pés; eram miniaturas da Roma das sete collinas gravadas em couro!
Estive muito doente n'essa occasião. Dei sérios cuidados aos meus numerosos amigos, e recobrei lentamente a saude á custa de muita papa de linhaça e oleo d'amendoas doces.
Assim atraiçoado, vilipendiado, ferido no meu amor, no meu orgulho de sabio, nas minhas aspirações de poeta, resolvêra abandonar o céo onde a perfida, nos braços d'um marido indecente, respirava o ar balsamico das flôres que eu cultivára para ella no seu proprio jardim. Viera á Foz fortalecer os nervos frouxos, contar ao oceano as minhas agonias, chorar com a lamentosa Alcione, e apiedar os mexilhões.
N'este estado d'alma era perigoso provocar as sensações do amor. A chaga era d'aquellas que se curam homoeopathicamente, e eu de certo não conheço argumento que mais aproveite ao systema de Hahnemann. Os que dizem que a homoeopathia é a medicina que abrange ambos os dominios, o da materia e o do espirito, definiram-na de modo que só a má fé poderá ridiculisal-a, não lhe reconhecendo a efficacia em enfermidades d'alma tão graves como era então a minha. As mulheres são essencialmente homoeopathicas, e basta que ellas o sejam para que o novo apostolado se consolide. Ninguem como ellas se cura tão depressa das molestias d'alma por suppuração d'amor. Eu creio que as valvulas no coração da mulher não são simplesmente peças mechanicas da circulação sanguinea. Em breve tenciono dar á luz um livro de physiologia, em que prometto provar que o coração feminino tem uma valvula por onde sahe um amor, e outra que simultaneamente se abre á entrada d'outro. Com estas duas valvulas e um pouco d'impudor, fórma-se a mulher á laia d'aquella que me trahiu.
Acabem as divagações.
Ouvi ainda baterem as doze horas, sem poder furtar-me á prisão magica d'aquella mulher. Afigurou-se-me que ella se movera da attitude melancolica em que estivera tres horas. Não me enganei. Ouvi o ranger da porta no interior da casa, e um clarão subito illuminou o quarto. O vulto magestoso da mulher sobresahiu no horisonte de luz, em pé, com as costas voltadas para fóra. Escutei, apenas, o murmurio d'algumas palavras que duas pessoas trocavam, e pareceu-me, pelos ademanes, que a mysteriosa tambem fallára. A luz demorou-se dous minutos, se muito. Com a escuridade, a minha visão amada voltou á sua posição, na janella. Eu, espero que me creiam, estava idealmente tolo por tudo que via, e imaginava.
Não pararam aqui as visões estupendas.
D'ahi a pouco escondeu-se a lua. Da parte do mar soprava uma aragem que rumorejava nas ramas dos pinheiros um som soturno, que parecia o ecco da vaga longinqua. A frouxa claridade das estrellas dava aos montes magestade mais impressiva, um colorido mais triste, um encanto de mais para a minha alma, alli captiva do espectaculo mais grandioso que o acaso podia deparar a um espirito de poeta de força maior.
Maravilha!
Uma voz angelica, trémula como um longo gemido, mas melodiosa como o suspirar de brisa por entre flores, e o murmurar de fontinha no cristal da taça, uma voz que ainda hoje me entra no tympano da alma, uma voz que nunca mais sahiu da memoria do meu coração... foi a voz que ouvi... era ella cantando, era o anjo que segredava ás estrellas as magoas do seu exilio, era a fada que invocava as magicas apparições da noite, era o espirito aerio, como o não sonharam Wieland, Hoffmann, nem Goethe, a descer das regiões ethereas para encher a terra das harmonias santas que foram a linguagem humana antes da queda da primeira mulher.
Extatico, alheado, eu não podia recolher ao coração, ao mesmo tempo, a letra e o canto. O hymno, variado de modulações divinas, talvez improvisado, musica para mim d'uma arrebatadora originalidade, continuava. Habituado ao spasmo da primeira sensação, tentei distinguir as palavras, e apenas pude recolher dous versos com ligação.
Dai esmola d'amor á desgraçada, Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
Houve uma longa suspensão. Os olhos da minha alma viram aquella mulher enxugando as lagrimas. Soou ainda outra vez a melodia triste, cada vez mais triste, mais trémula, mais ferida dos tons, ora brandos de adoravel melancolia, ora frementes como gritos abafados. Por fim, faltava a tristeza augusta do silencio da noite para proferir as ultimas notas d'aquella aria no gemido das selvas, no cicio da folhagem, no susurro das correntes, e no manso espriguiçar da onda sobre as algas dos rochedos.
Calou-se o canto. Fugiu-me a visão. Fechou-se a janella. E eu pendi a cabeça triste sobre o seio, e perguntei aos espiritos da noite se não era aquella a mulher dos meus sonhos de trinta annos.
A natureza ouviu-me em silencio.
Porque não ha-de a natureza responder ás perguntas dos tolos que ella faz?!
II.
No qual tempo, tocava eu viola franceza, com alguma graça, e a minha mania creadora era compôr trovas elegiacas, ao sabor da minha amargura, e cantal-as acompanhadas de arpejos melancolicos. A minha voz, era um soffrivel _baritono sfogato_. Principiei cantando lições da semana santa, a duas vozes. Aprendi, depois, o cantochão, cheguei a cantar n'uma missa de cinco vozes em côro d'aldeia, e com estes rudimentos consegui tirar da viola franceza harmonicos de que ainda hoje se falla em S. Gonhedo, e Trabanca de Panellas.
Era pois, lugubre o meu cantar como o do captivo de Israel, saudoso das margens do seu rio.
E, na noite seguinte á da minha visão, eu fui sentar-me entre os pinheiros, com a harpa das angustias debaixo do braço, esperando a hora desejada em que os espiritos desciam a pousar nos labios daquella espiritual mulher.
Presenciei o mesmo espectaculo da noite anterior: a mesma attitude, a mesma luz, e á mesma hora o canto funebre e as palavras dulcissimas de tristeza.
Eu tambem fui poeta, e improvisava, na exuberancia do amor, endeixas sentidas, que nunca pude reproduzir com animo frio sobre uma tira de papel. A fada acabava de cantar os dous versos tão lindos:
Dai esmola d'amor á desgraçada, Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
E eu feri as cordas do meu alaúde nos tons mais lugubres d'um preludio, e cantei:
Neste ermo, triste, e só, e abandonada Quem desta alma o gemer escutará? Dai esmola d'amor á desgraçada, Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
A mulher estava de pé; erguera-se com impeto; buscara nas trevas o mysterio d'aquella surpresa. E eu continuei, tremendo com o receio de a ver:
São horas mortas; vem, ó meiga fada, E um beijo para o céo leva de cá. Dai esmola d'amor á desgraçada, Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
Ella estava immovel, ainda; e eu sentia a fronte calcinada ao fogo do estro. O _Deus_, _ecce Deus_ do famoso poeta, experimentei-o então. Tumultuavam-me n'alma os pensamentos radiosos. As cordas da cithara, febris como eu soltavam vertiginosas harmonias em melancolica toada. Era a hora das expansões e eu prosegui:
Teu canto amargo ouvi, sombra adorada! Meu hymno, triste, como o teu dirá: Dai esmola d'amor á desgraçada, Ó anjos, que o seu anjo tendes lá.
Á ultima palavra desta quadra, sumiu-se a visão; mas a janella ficou aberta. Decorreu uma longa hora. As orlas do mar arraiavam-se da luz da aurora. A flôr da giesta, as margaritas do prado, e a candida florescencia da urze recebiam nas suas urnas o aljofar do céo.
E a janella ainda aberta.
Aclarou-se a manhã: eu não despregava os olhos anciosos da janella vasia, da escuridão interior da casa. Na perplexidade de sahir do saudoso sitio, vi desenhar-se no fundo escuro um vulto vestido de branco, vaporoso como as tenues nuvens do oriente que se rarefaziam ás primeiras lufadas do sol que ia nascer.
Ver-me-ia ella?
Oh! de certo viu! O coração bateu-me no peito. Lancei-lhe um olhar de quem dá um adeus e pede uma piedosa saudade. Atravessei os pinhaes por longos desvios da estrada; entrei no meu quartel, onde tudo me parecia negro e indigno de mim.
Que dia aquelle! Que côr tão linda a da atmosphera! que azul tão encantador o do mar!
Como todas as mulheres me pareceram feias, e todos os homens importunos!
Ó amor, fonte caudal de ephemeras alegrias, quando tornarás a orvalhar esta alma arida!
III.
O sol deitara-se no seu leito de purpura, quando eu entrei no pinhal do Pastelleiro. A anciedade não me deixava esperar a noite. As janellas estavam fechadas. O amor nascente é tão melindroso, pueril, e timido, que receia desagradar até com o pensamento ao idolo da sua concentrada adoração. Eu temia destruir o meu tal ou qual prestigio apparecendo de dia áquella mulher, que poderia adorar-me no silencio da noite, na hora das lagrimas, em presença das estrellas.
Mas o amor arrebatado tem affoutesas que tiram animo da mesma timidez.
A mulher não apparecia. O crepusculo da tarde vinha descendo das cumiadas das serras. Eu não podia reprimir a ancia do coração: precisava vêl-a, e dizer-lhe, no silencio da surpresa, que amor de vida ou morte ella me inspirava.
Rodeei a pequena quinta da casa amarella. Achei, ao longe, uma pequena porta, que abria para um matagal. Buli tremendo no ferrolho, e a porta deixou-se abrir. Dei um passo vacillante dentro da quinta, e vi a fachada trazeira da casa, uma longa varanda de pedra, e duas mulheres, uma sentada, a lêr, outra fiando. Reconheci-a! era ella a que lia. As pernas senti-as tremer frouxas e como vergando ao peso do tronco. O sangue em lume subiu-me em borbotões ás fontes, quiz esconder-me, e não pude. O latido d'um cão denunciou-me aos olhos da mulher que fiava. Não sei o que ambas se disseram. É certo que a velha, sustendo o rodopio do fuso, perguntou-me, em sinistro falsete, quem procurava eu.
Engasguei-me, tartamudeando não sei que desculpa. A velha redarguiu, em quanto a moça, já de pé, cravando-me os olhos immoveis, parecia increpar-me a audacia de profanar o seu santuario.
Respondi:
--Não procuro alguem; andava passeando, e cuidando que não incommodava, entrei por aquella porta com intenção de vêr esta quinta.
«Então vocemece--tornou a velha--está a banhos?
--Sim, senhora--respondi eu com muita meiguice, abençoando a curiosidade de todas as mulheres, e particularmente a d'aquella que me proporcionava uma demora justificada.
«A quinta tem pouco que admirar... (disse a filha dos meus sonhos). Mas, tal qual é, está ás suas ordens.--
Leitor, se tóma rapé, sôrva uma pitada, e dê-me attenção, que eu não lh'a dispenso na mais insignificante virgula do que vai lêr.
A mulher que acaba de fallar, com um timbre de voz só comparavel ao seu canto, era um milagre de formosura, como eu a entendo, como eu a tinha sonhado, como eu a tinha organisado das bellesas dispersas em quantas mulheres bellas encontrára.
Eram negros os cabellos, ornamentos dignos d'uma fronte larga.
Negras as sobrancelhas, ajuntando-se na base do nariz mais fino e transparente que inventaram os pinceis famosos que, de seculo em seculo, apparecem para completar as formosuras que a natureza nos dá incorrectas.
Olhos da côr dos cabellos, rasgados, nem morbidos nem vertiginosos, menos serenos que a limpidez do lago, e mais amortecidos que o vulgar dos olhos negros.
Pallida, muito pallida, sem mancha de rubôr, sem beta d'outra luz que não seja a que os brandões mortuarios reflectem no crepe da eça.
Era magra de faces, sem que se lhe vissem as proeminencias malares, especie de balisas que se levantam naturalmente onde acaba a formosura.
Devia ser muito delicada e breve a construcção ossea d'aquella mulher, que no melindroso das fórmas exteriores, mostrava ser apenas o involucro material d'um grande espirito.
A pequenina bocca era assombrada por um buço aveludado, que sobresahia a custo do fundo pallido em que parecêra plantal-o n'um beijo o amor das voluptuosidades, filhas do coração, e desconhecidas á sensualidade grosseira.
Airosa, no primor da estatuaria, as largas vestes casavam ás fórmas as caprichosas ondulações, de modo que as bellezas occultas pareciam desafiar a imaginação mais fertil para vencel-a com a realidade.
Estes fugitivos traços ficaram-me indeleveis na memoria. Creio que o leitor mais imaginoso não creará com elles no mundo dos phantasmas a sombra sequer da minha heroina. O pincel cahiria desanimado na presença della; que fará a penna, sempre desobediente ás vagas expressões da alma! Não sei pintal-a d'outro modo. Tenho-a ha tantos annos ao pé de mim, sempre no logar da minha sombra, rindo e chorando commigo, entoando-me sempre em voz sepulchral os dous fatidicos versos:
Dai esmola d'amor á desgraçada, Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
Sempre a voz, sempre a imagem, em tudo, por toda a parte, e não sei descrevêl-a, nunca pude arrancal-a da palheta dos artistas mais lucidos, d'aquelles que comprehenderam o aspecto melancolico de Camões, e o adivinharam, d'aquelles que idealisam a formosura correcta, respingando-a nas Heloisas, nas Leonores, nas Fornarinas! Ai! o meu ideal foi deste mundo, e a arte não póde restituir-m'o!
O que és tu, sciencia humana! Pintor, subtilisa a tua alma com a lucidez magnetica, e dá-me o retracto d'aquella mulher, que eu dou-te a immortalidade morrendo abraçado ao teu milagre, á tua segunda creação!.... ..........................................................................
Não soube responder ao offerecimento de... Como se chamava aquella mulher? Vamos sabêl-o. D'alli perto, está uma camponeza segando herva. Vou fallar com esta mulher, de modo que me não vejam da varanda; receio magoal-a, se ella suspeita da minha indiscreta curiosidade... Ainda bem que não sou visto.
«Pertence áquella familia que mora alli?» perguntei eu.
--Não, senhor; sou caseira d'esta quinta, e aquella familia alugou esta casa pelo S. João.
«D'onde é a tal familia, póde dizer-me?
--Não lhe sei dizer. Parece-me que são lá de cima da provincia. Quem alugou a casa foi um senhor que veio cá sósinho, e não tornou a apparecer.
«Seria marido d'ella?» interrompi com sobresalto.
--Não tinha geito d'isso; e se fosse marido, a criada fallava-me d'elle.
«E que diz a criada?!
--Pouco mais de nada; e eu, como não sou intromettida, tambem não pergunto. Elles vivem na sua casa, e eu vivo na minha.
«E como se chama a tal senhora?
--É a snr.ª D. Felismina, e a criada é Thereza.
«E ella não toma banhos?
--Nunca sahe de casa de dia; algumas vezes sahe de noite, mas não passa do pinhal, ou vai até lá abaixo áquella moita de carvalhos.
«Desculpe-me tanta pergunta, e em paga do seu bom modo ha-de ter a bondade de acceitar-me uma pequena quantia para um lenço.
A mulher, maravilhada, acceitou não sei que, de que a amabilidade do rosto immediatamente se resentiu. Devo confessar que a minha generosidade foi tão interesseira quanto a seguinte pergunta vai denuncial-a:
«V. m. vai áquella casa?
--Só lá vou á tarde buscar a lavagem para os cevados.
«E quem lhe faz os recados?
--Vem todas as manhãs um homem do Porto trazer-lhe as compras; pouco se demora, e sahe sem vêr a senhora. Foi elle que me disse que nunca a vira, nem sabia quem era; mas que seu amo o mandava todos os dias trazer o mantimento, com ordem de não fallar a ninguem. Em quanto a mim--concluiu a informadora, pondo á cabeça o cesto da herva--em quanto a mim, anda aqui mandinga, por mais que me digam.--
Disse adeus á mulher, e voltei pela mesma direcção até á pequena porta. Não vi Felismina, nem a criada.
Era quasi noite. A minha existencia phantastica ia recomeçar.
IV.
Do poente desennovellavam-se rôlos de nuvens pardacentas que se acastellaram sobranceiras á Foz. Pouco a pouco, distenderam-se pela superficie do céo, formando uma abobada de chumbo, onde não luzia a crispação de uma estrella. Estava, pois, medonha a noite, e os urros do oceano vinham de longe a gemer na praia um lugubre lamento. Cruzavam-se de norte a sul successivos relampagos, e o trovão bramia do nascente, menos retumbante que o mugido das vagas. As franças dos pinheiros ramalhavam com impetuosas sacudidellas d'uma nortada supita.
E eu, immovel e sereno como o archanjo das tempestades, contemplava este espectaculo grandioso, nos visos do Pastelleiro. De vez em quando observava a massa escura da casa de Felismina. Pareciam-me fechadas as janellas. Pobre cantora d'amarguras, não era aquelle o seu lindo céo, povoado d'estrellas, que lh'as ouviam! A brisa, que bebia dos labios d'ella as endeixas tristes, indo-se pelos valles a dizel-as aos eccos, fugira espavorida ao açoute do bulcão do mar. Talvez que a timida senhora, de joelhos com a aterrada Thereza, estivesse resando a _Magnificat_ e jaculatorias a Santa Barbara! Alli, sósinha, na crista de um monte, tão visinha dos raios, cercada de trovões, transida de pavôr... não a verei hoje!
Assim pensava eu, resolvido a não esperar o aguaceiro da nuvem prenhe que, sobranceira a mim, superava em negrura as outras.
Antes, porém, de deixar o saudoso sitio, quiz satisfazer a um desejo pueril, a uma d'essas criancices ditosas de que o coração se emancipa quando os cabellos alvejam, ou a alma amadurece temporamente,--o que é peor ainda... Fui ao pé da casa, muito ao pé, quasi rente com a parede, e... á luz d'um relampago... vi-a! vi-a... era ella, debruçada no peitoril da janella!
Outro relampago... Estava ainda! não me fugiu, não se moveu, tinha os olhos mergulhados nas trevas onde me vira.