Scenas da Foz

Chapter 8

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Cahiam as primeiras gottas de chuva, e eu não as sentia. O que eu queria era relampagos; queria o facho sulfureo da tempestade; queria a erupção d'uma cratera; queria o incendio do mundo para vêl-a, maior do que a minha imaginação a creára, maior que o terror d'aquelle quadro!

E a chuva cahia a torrentes. Eu recebi-a impassivel, inabalavel, na face, erguida para a janella, d'onde as trevas já não podiam roubar-me os traços d'ella. N'isto, pareceu-me ouvir a sua voz. O estrepito da chuva do furacão, e dos trovões não me deixavam entendel-a. Pensei que fôra um engano. Ai! não era, não!

«Póde abrir--disse ella--esse portal grande, e recolher-se da chuva.

--Não a sinto, minha senhora--balbuciei eu.

«É impossivel que não esteja muito molhado! Recolha-se que a chuva não pára tão cedo--tornou ella.

--As tempestades do coração não deixam ao corpo sentir as da natureza...

«Como?!--interrompeu ella.

Eu repeti, com medo, as mesmas palavras. Tinha razão para temer. Felismina sahiu da janella, e eu ouvi o descer vagaroso da vidraça.

Estava eu, pois, molhado como um frango que sahiu d'um tanque. A agua encaleirava-se-me pelos canos das botas. Catarata humana, sacudi as jubas, limpei a cara a um lenço que a molhou ainda mais; e, perdida a esperança de tornar a vêl-a, fui para minha casa, estripando charcos, e scismando nas imprudentes palavras com que me denunciára.

Tive uma noite d'insomnia, e um catarrho cujas consequencias ainda hoje sinto. Tomei apenas alguns xaropes de figos e ameixas. Transpirei suffocado entre seis cobertores; não fiz caso d'uma dôr tibio-tarsica, aurora do rheumatismo que hoje me tolhe, (aprendei, mancebos incautos!) e, no dia seguinte, apenas um bello sol mosqueou de betas douradas as costas carunchosas do meu leito de pinho, saltei de cuécas para o sobrado, e meditei de cócaras, no que devia fazer.

A minha tratadeira (pessoa velha, já mencionada no LIVRO PRIMEIRO, a folhas...) veio encontrar-me n'esta attitude, senão romantica, ao menos desambiciosa.

«Credo!---exclamou ella--o senhor está de menores! isso é feitio! Olha que preparo!

--Não fuja, tia Poncia--disse-lhe eu, meditativo e funebre como o fidalgo manchêgo, depois da aventura dos ôdres--Venha cá, tia Poncia, que eu preciso das suas consolações.

«Valha-o Deus!--tornou ella--Suou tres camisas, e pranta-se no meio do soalho com o _cadable_ ao ar!

--Diz bem, tia Poncia, isto já não é senão um cadaver, lançado á margem, exposto aos corvos e abutres das paixões carnivoras.

«Que está ahi a _alanzoar_ o snr. João? Se eu o percebo, cebo! Ora vá-se vestir, ande-me depressa, que está o café prompto, e toca a comer p'ra arrijar.

--Comer, tia Poncia...! O que é comer, sobre a face da terra, quando a vida vegetal paralisou! O meu alimento é o absyntho das lagrimas. Sou o Ugolino da fome do espirito, o Tantalo, o Promotheu devorado pelo abutre incessante.

«Que bruto está o snr. João ahi a dizer? A apostar que lhe fizeram alguma os brutos cá da Foz! Eu sempre tive zanga a esta gente! Está tudo caro pela hora da morte! O carniceiro manda-lhe a gente pedir carne da cernelha, e o berzabum de não sei que diga manda rabada, e quando Deus quer é cada osso que te parto! A lenha isso então é uma ladroeira que clama justiça ao céo! Quatro gravatos que não dão para aquecer uma agua é um patacão. Má breca os tolha!

--Accommode-se lá, tia Poncia. Eu não fallo n'isso. V. m. é mulher experiente, e ha-de aconselhar-me a respeito de certa cousa... Chegue-me cá aquellas pantalonas, e fallaremos.

«Ora diga lá... bacoreja-me que temos patavinice de namoricos. Ora queira Deus que não esteja por ahi alguma como a Vicencia do outro anno que lhe pôz o sal na moleira...

--Ora olhe, tia Poncia... ha uma mulher que não pertence a este mundo.

«Coitadinha! rezemos-lhe por alma! foi por ella que tocaram hontem os sinos a defuntos?

--Não me córte o discurso. Esta mulher vive...

«Ah! sim? inda bem, inda bem!

--E V. m. a dar-lhe! Ouça, e falle quando dever responder. Esta mulher vive n'uma casa aqui perto da Foz; tem comsigo uma criada; não tem homem nenhum: não apparece de dia, só se vê de noite a fallar com as estrellas...

«Anjo bento! isso é bruxêdo! Cruzes, canhoto! Terá ella fadario?

--Fadario tem V. m. de toleima, tia Poncia! Vive commigo ha tantos annos, e parece que está cada vez mais tonta!

«Quem? eu! tonta eu, porque lhe digo as verdades, snr. João! Eu não lhe disse que a Vicencia era uma trapalhona, que lhe dava volta ao miôlo!? Diga, snr. Joãosinho, quando V. m. andava atraz da filha do letrado, com a beiça cahida, não lhe disse eu que a rapariga, ás duas por tres, se lhe apparecesse marido com chelpa era como se nunca nos vissemos!? E agora queria que eu lhe dissesse mundos e fundos d'uma feiticeira que só apparece de noite a dizer anzonices ao sete-estrello!? Deixa-me benzer, e Deus me tenha da sua mão, e mais a V. m. que o vi nascer e desde que anda por cá á sua vontade arranja sempre bruxêdo que o tolhe. Sabe que mais, snr. João? Coma e beba e tome os seus banhos, que é ó que veio; o mais leve o diabo, Deus me perdôe, as mulheres, e quando houver de casar arranje filha de lavrador que saiba amanhar a vida, e não olhe para estas fuinhas da cidade que parecem mesmo o peccado!

Tia Poncia disse muitas outras cousas razoaveis. Exhaurida a torrente, foi buscar o café, e pediu-me que pendurasse no pescoço uma figa de azeviche, e uma conta que fôra tocada no corpo do martyr S. Cyprianno--tudo para vencer os sortilegios da bruxa, contra quem a minha pobre Poncia, durante o almoço, proferiu um discurso, intermeado de orações _ad rem_.

V.

Fui, nas tres noites immediatas, ao pinhal do Pastelleiro, esperei a apparição até ás onze horas, mas nenhuma das janellas se abriu jámais! Pude, uma vez, encontrar a caseira: perguntei-lhe se a senhora se retirára, ou estava doente, respondeu-me que a tinha visto na varanda todas as tardes, acrescentando que a porta travessa, por onde eu entrára na quinta, uma tarde, fôra trancada por ordem da snr.ª D. Felismina. Esta providencia apertou-me o coração, e feriu a susceptibilidade do meu amor-proprio.

Á quarta noite, demorei-me até depois da uma hora, suppondo que Felismina appareceria mais tarde, certa de não ser importunada no seu colloquio amoroso com as estrellas. Eu queria dizer-lhe que me perdoasse o atrevimento de ter sido indiscreta testemunha dos seus extasis: pedir-lhe-hia que não se privasse desse poetico prazer, porque eu não viria alli mais, ainda que essa privação me custasse torturas de saudade. O coração offendido tem destas generosidades. É sempre a fabula das uvas e da raposa... Nessa quarta noite, pois, seria hora e meia, quando tres vultos, vindos do lado de Lordello, passaram defronte da casa de Felismina, e fallaram baixo entre si. Abafei a respiração para me não denunciar, e senti o prazer de encontrar as minhas pistolas que machinalmente mettera nas algibeiras. Os vultos eram homens de jaqueta, e chapéo desabado. Um d'elles trazia uma escada de mão, e os outros pareceram-me armados de paus.

Em quanto elles observavam, cosidos com a parede, a segurança das portas, avisinhei-me eu da estrada, e colloquei-me, sem ser sentido, a distancia d'um tiro de pistola. Vi pôr a escada a uma columnata do patim, que formava para o caminho uma pequena varanda. Vi um dos tres marinhar lestamente por ella; porém, resvalou da aresta do balaustre, e viria abaixo com o homem, se os companheiros a não sustentassem a prumo. Não obstante, este movimento fez rumor, e uma das janellas foi subitamente aberta.

Eu estava em ancias por saber se estes homens eram ladrões. Felismina deu-me a certeza da minha suspeita, e inspirou-me arrojos de bravura. Apenas ella appareceu na janella, e bradou: «Thereza, Thereza, chama o caseiro!» eu saltei d'um pulo á estrada, e disparei sobre o grupo uma pistola. O resultado do tiro foi maravilhoso! Os ratoneiros davam saltos de corça por aquella estrada fóra, deixando a escada, e uma fouce encavada n'um pau.

Em casa de Felismina ia grande reboliço. Ouviam-se os grasnidos de Thereza, os latidos dos cães, e os gritos ameaçadores do caseiro. Ella, porém, não sahira da janella, presenceando a fuga dos salteadores.

Radioso de heroismo, fui debaixo da janella de Felismina, e disse-lhe:

«Não se assuste, minha senhora; eram tres miseraveis ladrões que fugiram a um homem só.»

A este tempo, abriu-se a porta-de-carro, e o caseiro appareceu em fralda, com um bacamarte engatilhado. Vendo-me, veio direito a mim na melhor disposição de m'o despejar na cabeça, quando Felismina bradou: «Os ladrões já fugiram; foi esse senhor que os fez fugir.»

O bravo em fralda poz a arma em descanço. A mulher, com o saiote vermelho pelos hombros, reconheceu-me, e disse para a janella: «Este senhor é aquelle que andou outro dia na quinta.» O silencio de Felismina provava que ella não carecia d'esta novidade.

Contei então o que presenciara do pinhal visinho. O caseiro interrompeu-me grosseiramente, perguntando-me o que fazia eu por alli áquella hora. Tartamudeei na resposta. Felismina, porém, atalhou, pedindo-me que não fizesse caso da rustica pergunta do caseiro. O boçal desfez-se em satisfações, e instou para que eu bebesse uma pinga d'aguardente porque estava fria a noite. Não respondi ao offerecimento, que fez rir Felismina; despedi-me com palavras muito delicadas da senhora; soceguei o animo aterrado de Thereza; e fui para minha casa, cheio de gloria, d'alegria, e de esperanças. A gloria era uma tolice: sou eu o primeiro a confessal-a; mas as esperanças alegres fundavam-se na opinião elevada que Felismina faria de mim. Não era só defendel-a dos salteadores; era estar alli, defronte da sua janella, ás duas horas da noite, como guarda vigilante da sua tranquillidade, com os olhos fitos na cupula celeste que a cobria, expiando a imprudencia de lhe haver dito algumas palavras apaixonadas. Isto devia impressional-a.

Contei, em casa, esta aventura á minha Poncia, que me esperava ainda a pé. Aqui é que foi o benzer-se e tregeitar de mulher sábia em agouros e feitiços. Quiz-me convencer de que tudo aquillo eram artimanhas da bruxa; e saltou-me ao pescoço para vêr se eu tinha a figa de azeviche. Não a encontrando, chamou-me herege, e não me deixou sem eu pendurar o bento guizo no pescoço. Deitando-me, pareceu-me que o ar do quarto estava impregnado d'um cheiro acre, que era mais forte na cama. Erguendo o travesseiro, encontrei um mólho d'arruda, e um alho que tem na Flora popular, um adjectivo desgraçado. Eram exorcismos da tia Poncia, que tinha em menos conta o nariz quando se tractava de curar a alma d'um possesso de bruxedos. Atirei o deposito de hervanario á rua, e consegui adormecer embalado pelas minhas esperanças.

No dia seguinte, seriam onze horas, estava eu na praia, esperando a maré, quando vi Thereza, procurando alguem entre os grupos. Palpitou-me o coração! Serei eu quem ella procura?... Sahi-lhe como por acaso ao encontro, e ella, que mal me vira na quinta, olhando-me perplexa, parecia esperar que eu a conhecesse. Dei-lhe um ar de riso, Thereza fez-me signal que a seguisse. Parou na praia dos Inglezes, olhou em redor com desconfiança, e disse-me:

«Aquella senhora manda-lhe agradecer muito o que V... fez esta noite; e pede-lhe que faça o favor de lhe dizer que a porta travessa da quinta foi fechada porque não havia remedio senão fechal-a.»

Eu fiquei-me a olhar para a velha, pasmado da segunda parte do recado! Thereza, sempre sobresaltada, ia retirar-se sem resposta, quando eu, caminhando com ella, lhe disse:

--A porta da quinta foi fechada para eu lá não entrar?

«Foi, sim, senhor, porque... não lhe posso dizer mais nada. A senhora o que quer é que V... saiba que por vontade d'ella não foi que a porta se fechou; em fim, ha cousas que se não podem dizer. A snr.ª D. Felismina custou-lhe bastante a mandar fechar a porta; mas, se se soubesse.... Adeusinho, meu senhor... que tenho medo que me conheçam.--»

Não esperou resposta.

Fiz mil conjecturas, e nenhuma só que se aproximasse da verdade. Desafio o leitor mais esperto para que anteveja a solução deste problema.

VI.

O segredo picava-me a curiosidade; todavia, o coração era o que menos treguas dava á minha ancia.

Ao escurecer desse mesmo dia passei no Pastelleiro. Vi, de relance, Felismina através da vidraça. Levei ainda a mão ao chapéo para cortejal-a; mas ella não esperou a cortezia. Estanciei nas visinhanças d'aquelle sitio, até alta noite; e só depois das onze horas pude vencer a resistencia magnetica que me lá prendia.

Passando, outra vez, defronte da casa, vi uma janella corrida, e um vulto n'ella. Eu passava tão subtilmente que Felismina só me viu quando eu estava em frente d'ella. O encontro fôra uma surpreza para mim. Muitas cousas imaginára eu dizer-lhe, encontrando-a; mas esqueceram-me todas. Parecera-me facil e até natural perguntar-lhe a causa de me ser prohibida delicadamente a entrada na quinta; achava do meu dever, depois do recado pela criada, examinar o que fizera eu para merecer similhante prohibição; porém, chegado o ensejo feliz de saber tudo, pareceu-me atrevimento dirigir-lhe a palavra sem ella m'a consentir.

A perplexidade durou alguns minutos, e Felismina esperava que eu me sahisse d'ella d'um modo muito contrario. Nada lhe disse, segui o meu caminho, e confesso que me sentia tremer. O coração tem cousas!...

O arrependimento veio logo com a reflexão. Retrocedi por outro caminho, e entrei no pinhal. Estava ainda aberta a janella; mas desoccupada. Esperei muito tempo, animando-me a fallar-lhe, quando ella tornasse. Avistei dous vultos, e senti despegar-se-me o coração do peito. Não podia distinguir se um d'elles era homem; e receava, aproximando-me, causar-lhe desgosto, se por desgraça ao pé d'ella estivesse um amante.

Que desafogo senti eu, quando conheci a voz gosmenta da criada! Escutei, e ouvi-as fallarem de ladrões. Thereza dizia que se não salvava se estivesse alli muito tempo, e promettia um arratel de cêra á Senhora da Luz, se os ladrões não tornassem a assaltar a casa. Acrescentou ella: «Se não fosse aquelle destemido rapaz, a estas horas estavamos nós feitas em pedaços, sem confissão, nem sacramentos.»

Felismina fallava tão baixo, que toda a minha attenção foi baldada. Por fim, disse a criada: «Menina, não esteja muito tempo ao relento da noite. Eu vou-me deitar, que passei em branco a outra noite; se sentir alguma cousa, chame, que eu acordo logo, se Deus quizer, e o meu padre Santo Antonio, que nos tenha da sua benta mão.»

Felismina sahiu com a criada, e o quarto illuminou-se de repente. Era a primeira vez que eu via tanta luz áquella hora. Conjecturei que a timida senhora, receando outra assaltada, quizera com a luz obstal-a. Eu contemplava-a a ella, que atravessava passando, por diante da luz, com ligeiros passos. Achava-me resolvido a fallar-lhe, fosse qual fosse o exito. Acerquei-me da casa, para encurtar á minha timidez o tempo da reflexão. É verdade que me não occorria uma só das bellas idéas com que de dia compozera o meu exordio; porém, atido ao improviso do coração, iria esperando que ella, com uma só palavra, esperançosa ou desanimadora, me sangrasse a veia da eloquencia.

Effectivamente, apenas Felismina surgiu na janella, estava eu seis passos distante. Diga-se a verdade: formigaram-me umas caimbras nas pernas, e estive, vai não vai, a rodar sobre os calcanhares, e fugir antes de ser conhecido! Li, ha pouco tempo, em um romance de Alphonse Karr, uma imagem que pinta exactissimamente a minha situação n'aquelle instante. Um tal _Estevão_, em presença d'uma tal _Magdalena_, não podendo vencer o susto do primeiro encontro, _faz um esforço como um homem que fecha os olhos para saltar um fôsso_. É bem dito isto; não se diz melhor o arrebatado movimento que eu fiz para chegar debaixo da janella onde Felismina, immovel, parecia esperar-me como se tivesse a certeza da minha ida.

«Boas noites, minha senhora» disse eu: era o mais frivolo que podia dizer, depois d'uma investida tão vehemente.

--Boas noites--murmurou ella com voz abafada e tremula.

«V. exc.ª conhece-me?--tornei eu, querendo dar á pergunta um tom melodioso, que o meu sobresalto tornava rispido e sêcco.

--Parece-me que é a pessoa que hontem...

«Sim, minha senhora, sou a pessoa que hontem teve a felicidade de estar perto desta casa... quando foi necessario livrar v. exc.ª d'um susto...

--Devo-lhe um grande favor--atalhou ella, não menos agitada que eu--e por isso mesmo é que hoje mandei a minha criada...

«Eu não pude entender a sua criada, minha senhora; e espero que v. exc.ª me diga se eu devo pedir-lhe perdão...

--De que?!

«Da imprudencia que fiz entrando sem licença na quinta...

--A causa do meu recado não foi a sua imprudencia, foi, é, e será sempre... a minha desventura... Tem V. a bondade de espreitar á fechadura do portão, que não vão andar pelo quinteiro os caseiros... Seria uma desgraça, se o vissem, ou escutassem...

Espreitei, e não vi nem ouvi signal de gente. Tornando, Felismina acabava de apagar a luz, e estava já na janella.

Mal sabem que prazer me deu o ar de mysterio que ella dava assim á nossa entrevista nocturna! O amor, quanto mais recatado, mais amor. Ama-se mais n'um colloquio, por noites de completa negridão, que á luz das serpentinas dos bailes, e ao clarão d'um bico de gaz, que, nestes tempos malditos da poesia, vos dá á cara do namoro do primeiro andar uma côr sulphurea e phantasticamente prosaica.

Não faço agora ácerca do gaz uma dissertação, porque me sinto abalado pela memoria das seguintes palavras que a mysteriosa mulher me disse, logo que eu voltei de espionar o quinteiro:

--O senhor de certo me não conhece...

«Não, minha senhora: apenas sei o seu nome; todavia, se me deixasse dizer como eu a conheço...

--Queira dizer...

«Conheço-a como se conhece a mulher que se ama ha muitos annos; como se conhece a omnipotencia de Deus sem se conhecer a sua essencia divina; como se confessa a existencia dos anjos, sem nunca se terem mostrado aos homens na sua fórma celestial; como se conhece a possibilidade de encontrar a perfeita ventura, sem nunca a ter experimentado; como se conhece, pela luz que derrama, a existencia do sol, sem poder fital-o nas alturas do céo.»

Ainda disse muitas outras maneiras de conhecer sem conhecer; porém, não disse todas quantas sabia, e quantas estudára em casa (penso que foi no _Renegado_ de Arlincourt não estou bem certo), e lhe teria dito se ella me não interrompesse com vehemencia:

--Bem se vê que não me conhece pela maneira que me falla...

«Como?! explique-se por quem é, snr.ª D. Felismina!

--_Felismina!_ (disse ella, sorrindo) Cada vez me convenço mais de que me não conhece... Sabe que me chamo Felismina, porque lh'o disse a caseira, não é verdade?

«Sim, minha senhora.

--Pois bom é que não saiba mais que o meu nome...

«E não devo esperar outra revelação da sua boa alma? Não sou eu já o depositario d'alguns segredos que v. exc.ª confia das estrellas? A mulher que pedia aos anjos o anjo que elles lá tem...

--Não me surprehende...--tornou ella vivamente commovida--Eu sei que me ouviu; ouvi tambem os seus versos; pareceu-me um sonho tudo o que n'aquella noite aconteceu. Se eu tivesse a certesa de que o homem que cantava era tão infeliz como eu sou, e vertia lagrimas de tão dolorosa saudade como as eu chorava então...

«Que faria a esse homem?

--Fizera-o meu confidente; dera-lhe o mais que posso dar-lhe: a minha fé... a amisade santa dos infelizes áquelles que se compadecem... Não queira saber quem sou; essa sua esteril curiosidade o mais que póde é trazer-me desgostos novos, e eu mal posso soffrer o peso dos que tenho sobre o meu coração para jámais se alliviarem...

«E o coração não lhe diz que eu serei um homem digno das suas confidencias? e que, em troca, poderei fazer-lhe quantos serviços, até com risco da existencia, podem ser feitos a uma pessoa que soffre?

--Nada póde. O circulo de ferro em que a minha vida está apertada, não póde ser quebrado por humanas forças. Podendo eu mover a sua compaixão, dar-lhe-hia grandes penas, por não poder valer-me. O coração diz-me que fallo com uma alma nobre e generosa; é o coração que lhe falla com tanta franquesa e simplicidade. Tambem eu estou conversando com V. como se o conhecesse, ha muito. Isto parece providencial; mas não vá a minha sina fatal enganar-me.

«Enganal-a...--interrompi eu, com exaltado resentimento.

--Enganar-me, sim, não se offenda, que não tem razão para isso. Eu posso julgar muito natural e innocente este curto conhecimento que temos; e d'aqui seguirem-se grandes desgostos, como se elles fossem a expiação d'um crime... Deixe-me pedir-lhe um favor, sim?... o senhor promette não voltar aqui?

«Se prometto não voltar aqui?!» respondi eu, aturdido da voz segura com que a pergunta me era feita.

--Sim, senhor: é necessario que acabem neste instante as nossas curtas relações. V. vai convencido de que encontrou uma mulher muito infeliz; eu fico tambem convencida de que encontrei um cavalheiro muito generoso. Não podemos ser nada um para o outro; e tão grande é a dôr que eu sinto desta certesa... que, por compaixão de mim propria, não quero habituar-me á sua voz.

«Só por compaixão de si mesma?--atalhei eu, sinceramente commovido--Não será antes pena de mim?

--De que? Se algum de nós ha-de soffrer... serei eu, pobre mulher, que não tenho distracções, e de qualquer pequena saudade faço uma grande dôr... tal é o condão da minha desgraçada sensibilidade.

«E não podemos ser nada um para o outro... disse v. exc.ª... Nem sequer _irmãos_?

--Deus sabe que precisão eu tenho d'um amigo... quantas vezes eu lhe peço uma alma sensivel, como premio do muito que tenho penado, muda e virtuosa... Desculpe-me esta fraquesa; será temeridade dizer tão afoutamente que a minha virtude é o unico esteio em que me amparo... Creia-me, se poder.

«E porque não hei-de eu crêl-a, minha senhora? que fez v. exc.ª para que eu desconfie da sua virtude? Julgo-a infeliz, déra a minha vida para suavisar as penas da sua; presumo que a sua existencia aqui, tão erma da vida que se ama na sua idade, deve ser o desfecho d'um lance muito desventuroso. Podesse eu entrar no segredo do seu desgosto, snr.ª D. Felismina, e pediria á Providencia os dons que me faltassem para lhe acudir.

--Não póde, não póde...--interrompeu ella soluçando--O mais que póde é compadecer-se.

«E não é a compaixão um lenitivo?

--É, nem eu já agora tenho direito a outras consolações; porém, não imagina os resultados tristes que póde dar esta nossa innocente entrevista, se fôr muitas vezes repetida. Creia que sou vigiada, e serei martyrisada se alguma vez se descobrir a sua vinda. Vá comprehendendo o melindre da minha infelicidade...

«E por ventura, já me fiz suspeito aos olhos d'alguem?

--Creio que não. A estas horas estaria eu amargamente punida do meu delicto... Creia que sobre o meu seio está suspenso um punhal ameaçador.

«Como?!--interroguei eu, sentindo pela espinha dorsal os calafrios da bravura, e não sei que outros calafrios, metade de Amadis de Gaula, e metade de D. Quixote de la Mancha.--Como?! pois ha, para vergonha da minha especie, um braço de homem que ouse levantar um punhal sobre uma victima tão resignada!

--Falle baixo, senhor... Tenho mêdo que o escutem... Repare que não haja luz n'uma casa que está ao fundo do quinteirão. Quem sabe se os caseiros estão comprados? Veja, veja.