Chapter 6
Em quanto, porém, se dava a sangrenta batalha, o meu intrepido Bento estava em casa do nosso amigo Pantaleão, no gôso da mais agradavel fogueira, e do mais saboroso lombo de porco, e da mais fresca moçoila que ainda viram estes olhos que a terra ha-de comer. Ahi se demorou um mez, por causa da convalescença da egua, e foi depois unir-se a Braga ao marquez de Chaves. O marquez d'Angeja sahiu do Porto na pista dos rebeldes, que se entrincheiraram na ponte do Prado, com duas peças d'artilheria. O conde de Villa Flor ataca a ponte, desaloja o inimigo, mata-lhe algumas duzias de homens, e persegue-o até á Ponte da Barca, onde soffre uma desesperada resistencia. Villa Flor dispersa, por fim, á baioneta callada, a divisão do Silveira, mata-lhe trezentos homens, e, entre os mortos, fica moribundo o meu amigo Bento de Castro, com duas baionetadas, salvo seja, no costado.
Recolhido a casa d'um lavrador, foi caritativamente tratado, e de lá me escreveu contando-me as suas desventuras, e pedindo-me que as noticiasse a Pantaleão, visto que duas vezes lhe escrevera, e não houvera resposta.
Fui á Amarante, e soube que o pai de Hermenigilda, desgostoso da funesta sorte das armas fieis, cahira doente de gôta sciatica, e retirára com a familia para uma quinta de Baião, onde não podiam chegar as cartas porque os malhados lh'as interceptavam no correio da Amarante.
Fui a Baião, e, lendo a carta ao attribulado velho, fil-o chorar, e praguejar. Logo alli prometteu á Senhora da Rocha levantar-lhe um nicho no portão da quinta, se seu futuro genro tornasse sãosinho e escorreito para a sua companhia. Pediu-me com grande instancia que o acompanhasse da Ponte da Barca até sua casa, logo que elle se restabelecesse.
Hermenigilda não me pareceu muito afflicta com a triste nova. Quando eu apeei no pateo, vi-a debaixo d'uma larangeira, apanhando no regaço laranjas que o preto, agatinhado na arvore, lhe lançava, e ella comia de cocoras. Dei-lhe, receiando algum desmaio, um ligeiro indicio da desventura do seu Bento, e ella abriu os olhos com a mais estupida impassibilidade, e disse:
«Coitado d'elle! Melhor fôra que não andasse por lá a jogar a tapona com esses herejes!»
Á vista d'isto, a minha vontade era escrever ao meu amigo, e dizer-lhe que seria ignobil o seu enlace com tão estupida creatura. Reservei, para mais tarde, poupal-o a tamanho infortunio, e disse-lhe que Pantaleão o receberia em sua casa como pai, se elle preferia a sua convivencia á de sua familia.
Bento respondeu-me que tencionava convalescer em casa de seu irmão, e passados tres mezes iria definitivamente casar-se, porque havia para isso razões fortissimas.
Estas fortissimas razões, leitor amigo, começou Hermenigilda a sentil-as, quatro mezes depois que sahiu da Foz.
Eram as razões do amor immenso, amor que lhe inturgescia o coração, ampliando-lhe a cavidade thoracica, estendendo-se até ás regiões contiguas, e augmentando-lhe a grossura dos tecidos no local em que as hydropesias, oriundas do amor, perdem grande parte do morbus com o casamento, especie de cura homoeopatica.
Na certeza de que ninguem me entendeu, dou graças á minha esperteza, e continuo a merecer a confiança dos pais de familia.
[2] D. Carlota Joaquina morreu devendo ao conde da Povoa 40 contos; igual quantia a Antonio Esteves da Costa; 20 contos a João Paulo Cordeiro; 40 contos a José Antonio Gomes Ribeiro; e igual quantia a João Antonio d'Almeida. A usura d'estes capitaes pagou-a o thesouro, e as graças em titulos e commendas. D. Carlota era economica até á avareza nos gastos domesticos. Os seus rendimentos da casa da rainha, e outros muitos, sob diversas denominações, eram enormes. Consumiu tudo em tramar guerras civis de que foi alma. Nos ultimos annos da sua vida, tão abstrahida estava no fito das revoluções, que nem da sua propria limpeza curava. O seu trage caseiro era um gibão de chita, e uma fota de musselina na cabeça. Acocorada entre as beatas suas amigas, era costume seu cantar muitas vezes esta quadra:
En porfias soy manchega, Y en malicia soy gitana; Mis intentos y mis planes No se me quitan del alma.
XVIII.
Tudo nos leva a crer que não tarda ahi o desenlace d'este conto. A moral publica, ciosa das suas prerogativas, e dos deveres em que estamos para com ella, nós, os fabricantes de historias, contos, lendas, fabullarios, soláus, e varias outras feições do folhetim--a moral publica, dizia eu, quer que um romance acabe bem. Acabar bem é triumphar a virtude, punir o crime, incitando o coração do leitor á pratica do bem, e ao horror do mal. N'este romance, se tal nome é bem cabido n'uma biographia de personagens ainda vivas, excepto Pantaleão, não ha nada que seduza corações inexpertos, trajando o vicio de gallas seductoras, depravando o paladar com o uso do absyntho das paixões licenciosas. Aqui é tudo posto no seu logar, o vicio apresenta-se maltrapido, ascoso, lazarento de lepra, e parecido com o diabo, de quem é filho. A virtude, vestida com singelas louçanias, enamora as boas almas, amamentando-as no doce favo de seus seios, dulcificando-lhes os nectarios da candida flôr da virgindade, segredando-lhes em fim as delicias juvenis e puras de que tão farto e nedio trazia o coração de Hermenigilda, e outras creaturas da mesma tempera.
SCENAS DA FOZ é um livro d'ouro. Peço licença para dar ácerca da minha obra o meu juizo independente, recto, desataviado de encomios immerecidos, e depurado de emulação mesquinha. O author é quem mais convincente testemunho póde dar da sua obra. Os nossos primeiros litteratos, desde 1830 até 1840, excepto A. Herculano--que escreve sempre com a mira posta na posteridade, e crê, como deve crer, na perpetua florencia da sua reputação--excepto esse, os nossos primeiros litteratos, para se pouparem ás avaliações incompletas das suas obras, escreviam elles as criticas. Os elogios appareciam ao mesmo tempo em quatro gazetas; e tão bem escriptos eram, tão portugueza e elegante a phrase, tão bonito para ver-se o guindaste que topetava com as nuvens a nomeada da obra, que, se os artigos fossem assignados, o thuribulario crear-se-hia uma reputação capaz de correr parelhas com a do idolo. Crearam-se assim muitas nomeadas, que, depois, o consenso universal consolidou; e, se os authores não tivessem o direito congenito de escrever e julgar, muitos dos nomes gloriosos de Portugal estariam hoje nos limbos da velha academia.
Seja permittido a João Junior crear-se uma reputação tambem. O meu romance é a historia do coração humano. É um miudo exame das vicissitudes do espirito, e algumas vezes da materia. É o telescopio que alcança os astros do universo moral. É uma amalgama de historia, de philosophia racional e moral, de geographia e physiologia, a retina finalmente do grande olho da sciencia, que apanha n'um ponto os raios luminosos de todos os conhecimentos humanos. É esta a opinião do leitor illustrado, e tambem a minha.
Sei que tenho detractores, belliscados da inveja, outros brutalmente soêzes, e outros hypocritamente pudibundos. Os primeiros dizem que o meu romance é uma trapalhice, sem nexo, sem logica, sem verosimilhança, nem idéa fundamental, ou nucleo philosophico. São uns pataratas.
Outros, os segundos, acham que o conto está cheio de palavras estrangeiras, e não é tão bonito como as _historias proveitosas_ do Trancoso de que fallava Hermenigilda a Bento de Castro. Estes fazem-me pena.
Os terceiros censuram as licenciosidades de phrase, a desnudez dos vicios, a descautella com que a parte carnal do idealismo humano se mostra aos olhos das leitoras incautas, menores de cincoenta e seis annos. Guardai-vos destes moralistas, pais de familias!
Duas velhas já me disseram que eu sou pouco escrupuloso em revelar fraquezas que, postas em letra redonda, affligem a virtude, ou desvendam a innocencia. Valha-me Deus! Porque nos andamos nós a enganar uns aos outros com meia duzia de palavras convencionaes? _Alphonse Karr_ não conhece creanças; o que nós chamamos creanças chama elle _mulheres pequeninas_. A civilisação tem alterado muito o valor intrinseco de certas palavras antiquissimas, como, _verbi gratia_, pudôr, honra, amisade, amor, patriotismo, innocencia, e as demais que o leitor sabe. Eu creio na _innocencia_ das mulheres como synonimo de _pureza_; mas de _simplicidade_, não. O conhecimento precoce dos segredos mais rebuçados da vida é um segundo instincto com que vieram á luz as mulheres do seculo XIX. Eu tenho pedido aos pais que me deixem estudar, no collo, as suas filhas de oito annos, e tiro de seus caprichos pueris inducções que me levam á illusão de que tenho no meu collo as mulheres pequeninas do author de _Les Femmes_.
Certo d'isto, experiente e feito nestas dissecações na alma, zango-me quando as meninas-velhas se picam nos espinhos da verdade--e mais se doem do pungir do espinho que já se lhes não esconde em flores... Lembram-me então aquelles versos de Béranger:
Prudes, qui ne criez plus Lorsqu'on vous viole, Pourquoi prendre un air confus A chaque parole?
Não obrigueis o romancista a escrever os fastos do coração como os chronistas escreviam a biographia dos reis. A historia está dispensada de ser caritativa.
Antes querer, com as fraquezas do proximo, inflammar a phantasia com deslastres inexequiveis, do que premunir a razão contra as realidades; querer ignorar o mal verdadeiro, e ir com ancia através de oito volumes buscar o desfecho d'um romance, que extravasa a medida do mal possivel, é renunciar á verdade, perverter o gosto e a razão, crear um mundo que não existe, arriscar-se a todos os desatinos da excentricidade.
O meu romance não fará mal a alguem, não concitará o fogo d'alguma paixão perigosa, não arrastará victimas ao abysmo, cavado por uma idéa, e coberto de flores pelas seducções do estylo, e sophismas d'uma irreligiosa philosophia.
Não farei, como madame de Stael, pretenciosas Corinas, nem Oswalds melancolicamente piegas.
Não verterei nas almas o nectar libidinoso do _Sophá_ de Crébillon.
Não farei mulheres tão gárrulas, tão bacharelas, tão fortes da sua philosophia como a Heloisa de Rousseau; e ao cabo de contas, tão flexiveis, tão dadas aos lapsos da humanidade, como qualquer costureira que não leu o Plutarcho, nem o Tasso.
Não direi, como Goethe, aos infelizes que se matem; e, se fôr necessario, provarei que Werther foi um tolo, se existiu; Gilbert, Malefilatre, Labras, Moreau, Escousse, Leopold Robert, Larra, Gerard e Nerval, Jorge Arthur[3], não foram mais espertos que o seu modêlo.
O meu romance, em fim, aconselha a todo o mundo que coma e beba e durma o melhor que podér. Protesta contra as paixões sérias, e quer que a humanidade se submetta pouco mais ou menos aos artigos dos estatutos dados pelo Creador a todas as alimarias do universo. Detesta a philosophia que faz os homens maiores ou mais pequenos do que elles são. Abomina os escriptores que precisam enganal-os para engrandecel-os. Sejamos do tamanho que nos deu o primeiro barro: não nos persuadamos que o barro d'uns foi amassado em agua choca, e o d'outros em Champagne. As paixões são de todos; uns cahem n'um tremedal, outros n'um diwan de molas estofadas. Todos cahimos. Cahiu David e Sardanapalo, cahiu Cleopatra e Margarida de Cortona; depois da queda de Hermenigilda, nascida e baptisada em Amarante, não ha nada seguro n'este mundo.
O leitor póde passar em claro este capitulo XVIII, que não diz nada importante. O que vem é de certo o melhor de todos.
[3] Jorge Arthur é um nome portuguez. Suicidou-se em Janeiro de 1849, no Porto, precipitando-se da ponte-pensil sobre o Douro. Tem um monumento no cemiterio do _Repouso_, com o seguinte epitaphio que não diz nada:
Saudade perennal, geme, e avalia Thesouro de que é cofre a sepultura.
Estou escrevendo sobre uma pasta que era a d'elle, e tenho aqui um sinete com duas iniciaes: a sua, e a da mulher que lhe inspirava o amor... da morte. Era um moço de trinta e tantos annos. Tinha talento, e publicou poesias, propheticas do seu destino. Teve muitas elegias; foi muito sentida pelos rimadores a sua morte. Estou-o vendo quando o tiraram, já lacerado, da agua. Era de noite. Eu tinha um archote que lhe projectava no rosto um clarão medonho. Desabotoaram-lhe o casaco; entre o colete e a camisa tinha um boné de velludo preto bordado a matiz. Era uma prenda que não podia legar...
XIX.
Não se me desbotaram da memoria, com o envelhecer de mais de trinta annos, as cores vivissimas d'um quadro que o leitor vai contemplar. As palavras que então se disseram, ainda as ouço; os mais ligeiros gestos, as miudezas menos reparaveis de tal scena, ainda as vejo. Ai! quem me déra nesse tempo! É o caso:
Pantaleão foi uma vez visitado por sua prima D. Mafalda, filha segunda da mui illustre casa dos Maldonados e Leites, de Cabeça de Veado, que tinha seis bispos na familia, todos fecundos, vindo, por consequencia, D. Mafalda a ser quarta neta de um filho sacrilego do ultimo bispo, o qual casou na dita casa de Cabeça de Veado, como consta da Chorographia de Carvalho, e da Historia Genealogica da Casa Real, e, mais miudamente, nas Nobliarchias ineditas de Alão de Moraes, no appellido «Maldonado».
Pois, senhores, esta D. Mafalda, vindo visitar a perna gotosa de seu primo, reparou na nutrição de Hermenigilda, e fez uma carêta de pessoa que sabe de sciencia certa o que são legitimas nutrições, e quando o alargamento dos tecidos, accumulados n'uma região, com detrimento d'outras, é uma pseudo-gordura.
Convicta pela experiencia dos seus annos productivos, D. Mafalda entrou em averiguações, e soube de seu primo que Hermenigilda ia brevemente casar-se com um illustre cavalheiro de Celorico de Basto. Contou-lhe o comêço, e o progresso das relações, excepto o que elle, ainda que quizesse, não poderia contar em estylo oriental.
Iniciada com estes comêços, a velha fidalga chamou sua sobrinha a contas, fechando-se com ella na casa dos presuntos.
«Com que então--disse a velha--tu vaes casar, e não me davas parte?!
--O pai, assim comássim, diz que a tia havia de cá vir...
«E gostas muito do teu noivo?
--Podéra não! Tomára eu já que elle viesse.
«Tambem eu queria que elle viesse em quanto eu cá estou para os deixar casados... Mas, diz-me cá, menina, tu fizeste uma grande loucura em te deixares vencer pela tua paixão...
--Agora fiz! pois eu não havia d'amar com paixão céga meu marido?
«Há cegueiras de cegueiras, Hermenigilda... Ora imagina tu que elle era um malvado que não tornava cá, e te deixava nesse estado?
--Pois eu que tenho? disse Hermenigilda muito sobresaltada, descendo machinalmente os olhos sobre o corpo de delicto, ou delicto do corpo, como quizerem.
«É isso, é isso, menina; não preciso dizer-te mais nada. Agora o remedio é apressar o casamento antes que teu pai vá para Amarante. Aqui ninguem vos visita; mas lá, que vergonha para a nossa familia! É a primeira que acontece na nossa linhagem!... Pois tu...--continuou a velha inexoravel, em quanto Hermenigilda fazia torcidas nas pontas do lenço do pescoço--pois tu cahiste nas fraquezas em que cahem as mulheres da baixa plebe?! Não te lembraste, nessa hora aziaga, que eras filha do fidalgo mais antigo d'Entre Douro e Minho?
--O amor quando é de raiz...--balbuciou a pobre menina, purpuriada como a fèbra do presunto que lhe estava ao pé disputando o carmim.
«Qual raiz nem meia raiz! Se teu pai--exclamou com violencia D. Mafalda--te tivesse mandado aprender commigo a ser uma senhora digna dos appellidos que tens, não cahirias nessa deshonra, que faz estremecer os ossos de teus ascendentes na propria campa! O que dirão os nossos primos da Carraça, e de Ranhados, e Lamas d'Orelhão, sabendo que tu fizeste similhante affronta á nossa jerarchia?
D. Mafalda sahiu arrebatada, e no vivo impeto encalhou n'um torno da caranguejola onde estavam penduradas as brôas d'unto, que longo tempo ficaram badalando. Hermenigilda sahiu cabisbaixa, a procurar a tia para lhe pedir que não dissesse ao pai o mal que o seu _amor de raizes_ lhe fizera.
Era tarde, porém. D. Mafalda, exprobrando amargamente a seu primo, a descautella, e liberdade com que educara a herdeira do seu nome, acabou por dizer-lhe que era urgentissimo o casamento, o mais depressa possivel, a fim de sanar o mais estrondoso escandalo que se tinha dado em nove seculos d'uma honradez a toda a prova na sua linhagem.
Pantaleão, atordoado pelas invectivas, só depois de ouvir a cousa clara como ella era para todos, é que sahiu do torpor, e fez menção de pegar d'um bacamarte para arcabusar a filha.
D. Mafalda susteve-lhe o rancoroso assômo, e pouco e pouco persuadiu-o de que o couce seria mais mortal que a queda. Disse-lhe que escrevesse a Bento de Castro para que immediatamente viesse esposar sua filha. Pantaleão preferiu escrever-me a mim chamando-me a Baião, onde cheguei cinco dias depois desta pathetica scena, que, de certo arrancou lagrimas aos que as podem ainda chorar por motivos de amargurada poesia.
Eu ainda hoje as vêrto caudaes nas rugas da tez, quando me lembro a postura afflicta de Pantaleão no momento em que entrei no seu quarto. Estava de cocoras sobre a cama, lendo a gazeta de Lisboa, e vociferando pragas contra o Saldanha, em quanto o preto tirava os carrapatos d'uma cadella perdigueira que tinha a cabeça na travesseira do amo.
O venerando ancião, quando me viu, mandou sahir o preto, e fallou assim:
«Snr. João, saberá que o seu amigo Bento de Castro é nada menos que um bregeiro!
--Como?! V. exc.ª dá similhante titulo a um cavalheiro que vai ser seu genro?
«É um bregeiro, e se não, faz favor de olhar para minha filha.
--Não entendo! Ja tive o gosto de a comprimentar, e ella nada me disse.
«Repare-lhe n'aquellas ilhargas, snr. João!
--Nas ilhargas! que quer isso dizer?!
«Quer dizer que a minha filha, snr. João, ha-de casar-se já, senão o seu amigo é mandado para o inferno.
--Pois, nesse caso... eu escrevo ao meu amigo...--repliquei eu, sentindo tambem nas ilhargas alguma cousa que poderia fazer-me rebentar na compressão do riso.
Pantaleão, no auge da sua colera, saltou fóra do leito, e trilhou a cauda da cadella, que soltou um ganido funebre. Proseguiu em raiventas apostrophes a Bento de Castro. Accommodou-se um pouco por eu lhe prometter ir pessoalmente fallar-lhe a Celorico, e terminou por sentar-se, outra vez, na cama aparando com uma navalha de barba a callosidade de um enorme joanete do pé esquerdo.
XX.
Fui a Celorico, e descrevi o mais patheticamente que pude a scena lagrimosa que presenceara em casa de Pantaleão. O meu honrado amigo não hesitou, um momento, obedecer aos preceitos do dever. Disse-me que desde muito seria marido de Hermenigilda, se a má fortuna da guerra lhe não tolhesse o uso do corpo, pelos ferimentos graves que recebêra, e a morosa convalescença que lhe custaram. Acrescentou o meu brioso amigo que, obrigado a uma quasi solidão de quatro mezes, reflectira maduramente no que lhe convinha, e podera convencer-se de que o casamento com uma mulher supportavel de espirito, excellente de materia, e rica, era a posição que mais quadrava á sua alma, já desenganada das loucas illusões da mocidade. Com quanto o seu amor a Hermenigilda não fosse muito--disse elle--isso não importava, porque o amor-habito viria com o tempo encher o vacuo das grandes paixões. Louvei, como moralista e humanitario, tão acertado expediente, tão ajuizada philosophia, e fallamos largamente em planos de Bento de Castro, fundados sobre os haveres da noiva. É certo que uma imaginação creadora tanto póde erguer castellos no ar como em Amarante.
N'um dos proximos dias, sahimos de Celorico, e viemos pernoitar a Baião, onde eramos esperados por um extraordinario successo.
Quando chegamos, disse-nos o preto que a menina estava doente, berregando muito. Appareceu-nos D. Mafalda, e disse-me ao ouvido duas palavras, que eu communiquei ao meu amigo.
Pantaleão sahiu do seu quarto, e apenas lobrigou Bento de Castro, que parecia ter-se commovido com a minha revelação, antes de mais nada, exclamou:
«Não esperava isto d'um fidalgo, que ainda é meu parente, snr. Bento! V. s.ª portou-se muito mal, e não é digno de ser meu genro!»
D. Mafalda, prevenida para serenar a colera de seu primo, acudiu aos berros, e disse com senhoril gravidade:
--O mal feito não se remedeia, primo Pantaleão. Do que se tracta agora é de chamar cirurgiões, que a menina está muito doente. O snr. Bento está aqui para remediar o mal que fez.
«De certo, minha senhora--murmurou o meu amigo.
--Pois então--acudiu Pantaleão--trate-se já do casamento.
«Já?! não é possivel!--redarguiu D. Mafalda--A menina está... pois tu não sabes como ella está?!
--E então que tem lá isso?!--replicou o fidalgo--Chama-se ahi o abbade ao quarto, dizem-se as duas palavras, e arruma-se o negocio d'uma vez.
«Eu estou prompto a obedecer-lhe--disse Bento;--mas eu muito queria que a minha noiva não estivesse a soffrer no momento mais feliz da nossa existencia. Se ella estivesse perigosa, em tão triste caso, de certo seria eu o primeiro a lembrar o cumprimento da minha palavra; mas, se por em quanto não ha receio, por que não ha-de o nosso casamento espaçar-se para um dia mais alegre?
--Eu acho que diz muito bem, snr. Bento de Castro...--disse D. Mafalda.
Pantaleão cedeu ás razões do genro, e ás minhas, que tiveram sempre uma tal ou qual preponderancia na opinião dos parvos. Serenou-se a tempestade, e Pantaleão, d'ahi a pouco, estava extasiado ouvindo da bocca eloquente de seu primo as proesas de Silveira, e as esperanças seguras da queda da constituição.
D. Mafalda veio dizer a Bento que a menina, sabendo que elle tinha chegado, ficara em grande alvoroço de alegria, e pedira que lh'o levassem ao quarto, se isso não parecesse mal.
Castro foi ao quarto de Hermenigilda. Parece que lhe deu algumas palavras animadoras e ouviu algumas queixas sentidas da sua demora, e da sua ingratidão. O momento, porém, era improprio para arguições e defezas. Hermenigilda estava pagando á natureza o doloroso preço dos gosos maternaes. Bento sahiu com semblante melancolico, e propoz-me um passeio no pinhal visinho.
«Sabes tu, João, (disse-me elle com poetica ternura) que começo desde já a sentir o amor paternal?
Agora conheço que os prazeres singelos da vida domestica são os unicos de que posso recobrar a minha felicidade perdida.
--Pois, parabens, meu caro Bento!
«Ha nada mais poetico--proseguiu elle, cada vez mais commovido--que o espectaculo dos soffrimentos da mulher amada, no momento em que se lhe desprende do seio o thesouro d'amor que será inexhaurivel de prazeres para mim?!
--Oh! isso é arrebatadamente poetico! Eu pedirei sempre aos santos da minha particular devoção que me não dêem o prazer desse espectaculo; mas se um dia eu vier a ser pai, parece-me que hei-de ser um grande pai, e trarei sempre o meu gordo pequeno bifurcado no pescoço...
«Não podes imaginar o jubilo que me enche o peito...--atalhou o meu amigo, que parecia não ter ouvido os doces prognosticos da minha paternidade--Quem diria que eu viria a ser isto que sou?! Posso hoje esperar metade da minha existencia menos infeliz que a outra. Se Hermenigilda não é a mulher que possa corresponder bem ás precisões da minha alma, o vacuo será preenchido com o amor de meus filhos. Se fôr menina o primogenito, hei-de mandal-a educar em Inglaterra; quero provar que se póde ser uma rica herdeira sem ser estupida. Se fôr um rapaz, oh! então... tu não imaginas o que ha-de ser meu filho!
A pratica demorou-se uma hora nestas pieguices, que o leitor, se é pai de certo perdoa ao meu amigo.
Ia alta a noite, e a brisa fria do norte, cantando nos pinhaes, fazia-me nas orelhas uma sensação desagradavel. Pedi ao contemplativo Castro que fôssemos continuar as doces _réveries_ no nosso quarto.