Chapter 5
Eu, filho do povo, e Graccho em primeira edição nessa época, tinha lido o _Contracto social_ de João Jacques, o Espirito de Helvetius, e a Gazeta de Lisboa, das quaes leituras formei o meu espirito para as luctas tremendas das liberdades patrias, ás quaes fiz serviços de tamanha transcendencia, que, depois de vinte e oito annos de sacrificios, consegui ser nomeado escrivão substituto do juiz eleito na minha terra, de cujo exercicio fui demittido por decreto de vinte e nove de... Olhem que romance este! Já viram uma cousa assim? Se me não refreio o impeto, sahia-me aqui uma correspondencia de victima dos ultimos acontecimentos, mandando suspender o juizo do respeitavel publico!... O leitor, se continua a lêr-me, dá-me provas tão vivas da sua munificencia, tolerancia, e magnanimidade, que eu faltaria aos meus mais sagrados deveres, se, depois desta historia, lhe não contasse outra muito bonita, em que o heroe do romance, depois de amaldiçoar a sociedade que o não comprehende, tem o descoco de fazer-se eleger deputado, e brilha n'uma commissão encarregada de legislar para a importação dos cereaes, e exportação dos bois! Isso é que ha-de ser um romance! E, se lhes parece, comecemo-lo já... ou querem saber no que pararam as intimas sympathias dos nossos amigos Pantaleão, e Bento de Castro?
A fallar-lhes a verdade de Epaminondas, e a do amigo de Platão, dir-lhes-hei que o romance, d'aqui em diante, é curiosamente estopador. Desde que a vida sahe das regiões sublimes do ideal e entra na esphera das mundanidades villãs, o romance espiritualista, como este meu se preza de ser, descahe indispensavelmente para o caustico, torna-se d'uma moralidade bastante equivoca, e não é o mais azado guindaste para içar espiritos de quinze annos ao setimo céo de Santa Thereza de Jesus. As heroinas e até os heroes de mad. de Genlis, se se encontrassem com os meus d'aqui em diante, tapavam olhos e ouvidos. É necessario um curso regular de Parny, de Crebillon, e Pyron, uma iniciação destes fachos precursores dos luminosos dias em que vivemos, para acceitar a philosophia dos seguintes capitulos, que pertencem mais ao homem da vara de cerdos de Epicuro que ao da legião de espiritos ethereos do immortal discipulo de Socrates.
Ejaculado este arroto de erudição, saibamos como Bento de Castro esmerilhou mathematicamente os escaninhos do coração de Hermenigilda.
É muito para saber-se que, desde esse dia, o fidalgo de Celorico de Basto, graças a D. Urraca Munhoz, visitava todos os dias sua prima; mas vinha tomar chá a minha casa, porque Pantaleão usava apenas chá da India quando as indigestões não cediam á terceira emborcadella d'uma botija d'aguardente _ad hoc_.
Em honra d'aquella cabeça de familia, diga-se que a môça andava vigiada, posto que o meu amigo captasse a confiança do sogro, e, o que mais é, as sympathias do preto.
Estavamos no mez d'Agosto de 1826, e o casamento, que devia ser em Amarante, aprazaram-no para o mez de Março.
Bento de Castro contava-me maravilhas da noiva. Cada dia lhe descobria na testa uma estrella boreal de intelligencia. Hermenigilda resolvêra aprender a lêr correntemente, e havia já adverbios de sete e mais syllabas que ella conseguia soletrar melhor que o pai! Eu pasmava angelicamente dos progressos da moça; e devo confessar que, ou fosse resultado de vigilias litterarias, ou predominio do espirito sobre a materia, as carnes succulentas do rosto d'ella emmagreceram de massas pingues, e a epiderme, perdendo a antiga purpura de betarraba, regenerou-se n'um desmaiado meio romantico, meio espinhela-cahida.
Em virtude do que, perguntei ao meu amigo se o calculo differencial e integral, com effeito exercitava e corrigia e rectificava o espirito como geralmente se dizia, e particularmente se demonstrava na pessoa da minha visinha.
Bento de Castro, solemne d'uma continencia digna de melhor sorte, respondeu-me que a virtude era um attributo dos anjos, e os anjos escapam ao olho prescrutador das mathematicas puras e das mixtas. Fiquei nessa occasião sabendo que as mathematicas podiam ser puras e mixtas; mas desconfiando sempre que as do meu amigo eram impuras.
Veremos.
XIV.
_Em que o author, depois de averiguar profundamente as conveniencias inviolaveis, do melindre, resolve não leccionar o publico em mathematicas, embora o seu amigo Bento de Castro assim fique privado de catalogar-se na phalange dos Newtons, Leibnitz, e Descartes; de que resulta ficar o capitulo aqui esganado pela mão da moral._
XV.
O romance tem cousa má!
É a primeira vez que os typos perpetuam o invento escandaloso d'um titulo sem texto! Um critico francez annunciou um romance que, em logar de principiar pelo principio, começava no 2.º volume. O author, respeitador do publico, explicava o contrasenso, dizendo que os romances eram escriptos de modo que tanto fazia ao caso começar do 1.º volume para diante, como do ultimo para traz.
Isto é rasoavel e persuasivo. Porém, incoherencias deste tamanho não se desculpam n'um romance pensado, philosophico, haurido das fontes do coração, da experiencia, e feito expressamente para entrar em quinhão de gloria com as «Reflexões de Phocion» com o «Manual de Epicteto» com os «Excerptos gnomicos de Seneca» com os «Caracteres de la Bruyère» excellentes repositorios de philosophia pratica, que eu hei-de lêr na primeira occasião, porque me dizem que são livros de muito interesse, que ensinam a procurar a felicidade, como agulha em palheiro, na pobreza, na humildade, e na virtude. Mestres d'esta ordem teem sempre uma vida eivada de amarguras: isso é o que eu posso desde já affirmar, sem os ter lido. Phocion soffreu morte dolorosa. Seneca, preceptor de Nero, bem sabem que desastrado remate teve de vida. Epicteto é aquelle escravo do «Thesouro de meninos» que exclama, erguendo a canella partida por uma paulada: «não vos disse eu que m'a havieis de quebrar?» D'onde infiro que os preceptores da felicidade andam sempre de candeias ás avessas com o genero humano, e muitas vezes, com a arte de engranzar capitulos de romance, de modo que a historia vá bem contada, até ao fim, que deve ser onde casa o heroe, ou a heroina morre de tuberculos, no uso de oleo de figados de bacalhau.
João Junior, summamente penhorado pelas attenciosas maneiras com que os seus numerosos amigos teem recebido esta sua primogenita creatura, tem a honra de declarar ao publico, e mais senhores, que o capitulo XIV foi eliminado deste quadro de costumes porque havia n'elle frescura de idêas, phantasia de côres, debuxos copiados da natureza viva, cousas, em fim, tão verdadeiras, tão patriarchaes, tão nuas, que o seu editor, depois de montar os oculos, e sorver duas pitadas conspicuas, disse que não patrocinava com o seu nome um capitulo em que o mencionado supra contava os factos como elles tiveram a impudencia de acontecer.
Em virtude do que, entrei na minha consciencia d'artista, e vim a um accordo com a moral, aspando as doze paginas mais profundamente escriptas do meu romance: doze paginas em que eu fortalecia os habitos da natureza bruta com as doutrinas lucidas dos interpretes mais abalisados dos mysterios do coração; doze paginas salpicadas d'uma erudição exemplificativa que remontava á creação do globo, para provar que o homem e a mulher, sem o intermedio do merinaque, são dous entes homogeneos, duas substancias amalgamicas, dous tomos da mesma obra, duas creaturas em fim dos nossos peccados. N'esse capitulo, naufragado no cachôpo da moral, tinha eu uma gorda nota comprovativa da minha opinião ideologica a respeito de mulheres, rica de historia antiga, em que, sabe Deus com que vigilias, entravam Salomão e Dalila, Pericles e Aspazia, Tibullo e Lesbia, Ovidio e Corina, tudo pessoas que amaram como se ama d'uma até quarenta vezes na vida, com todo o ideal arrobado dos anhelitos da adolescencia, com a fé pura, candida, e immaterial do amor de Voltaire a madame du Châtelet, do amor de Larochefoucault a madame de Lafayete, do amor da minha visinha do terceiro andar, que, ás duas horas da noite, desce, com uma caixa de lumes-promptos, a desandar a chave, que teima em chiar, apesar do azeite prévio, quando um Romeu de capote de mangas lhe assobia a cavatina do «Trovador». Tudo isto, e muitas cousas mais, vinham na nota, que prometto embetesgar na primeira cousa que escrever, ainda que seja um artigo sobre o pulgão da batata.
Fortissimas razões tinha eu para teimar em publicar o meu querido capitulo XIV, visto que era elle o relatorio das miudezas que se deram antes e depois do fatal acontecimento da noite de 25 d'Agosto de 1826, acontecimento grave e complicado, cujo conhecimento seria a chave do meu romance, se o editor ultra-honesto não teimasse em affirmar que o meu romance não precisa de chave para abrir as portas da eternidade. Pedi-lhe que me deixasse, ao menos, contar o facto em estylo levantado, allegorico, metaphorico, ao alcance, apenas, das intelligencias superiores. Nem isso. Estava escripto em estylo oriental, balsamico, todo perfumarias de subtil aroma d'alma, e elle teima em dizer que a alma não tem nariz.
Era assim o meu fragmento:
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E a lua balouçava-se entre as estrellas, nas alturas do ether.
E a brisa do oceano, perfumada de marisco, brincava na praia com a folhinha secca da alga.
E o rouxinol do silvedo trinava a sua cavatina cadenciosa, e sacudia as plumas affagadas por um raio de lua.
Porque era essa a hora augusta dos mysterios, em que nos adros das igrejas reina o terror do silencio, e nos esgalhos seccos do pinheiro assobia o noitibó, medonho de agouros; e nas aguas limpidas dos regatos cardumes de bruxas tomam semicupios e dão gargalhadas de risos maleficos e satanicos.
E o homem de Celorico, sombrio e tetrico como avejão nocturno, roçou a espadua pela padieira da porta, que se abriu.
Era da côr do jacintho o amiculo que lhe envolvia em largas dobras a haste melindrosa.
E a viração da noite, voluptuosa e meiga, beijou-lhe a face como se quizesse disputar á da manhã o prazer de beijar mais frescas rosas.
E a virgem d'alvas vestes transpoz o limiar do seu asylo, encostou a fronte incendida ao braço tremulo do senhor de sua alma, e foi!
Anjo d'Amarante, porque assim te despenhas da tua angelica miryade?
Flôr do Tamega, que nortada rija te desarreigou da balsa?
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E a lua passava no céo, velada e triste, como a Niobe antiga.
E o homem de Celorico, de braço dado com a virgem, como qualquer caixeiro em baile d'Asylo de mendicidade, passou de fronte alta, meditando em seu coração um crime, e adoçando nos labios a tenção damnada que lhe fallava n'alma.
E a vaga longinqua resoava um som cavo e lugubre, como gemido de leão.
Homem! tu és forte como o carvalho gigante da encosta; mas o raio sahiu um dia das profundesas do céo, e o tronco, affronta dos seculos, vergou a fronte, e estalou pelas raizes.
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E a flôr, tocada por labios impuros, e aspirada com avidez sôffrega, pendeu as petalas desmaiadas, e elanguesceu no seio do maldito dos homens de Celorico.
Fôra profundo e arquejante o suspirar d'aquella que as onze mil duvidosamente receberiam no seu gremio, ainda recommendada pelos jornaes!
E a lua, segundo o seu costume, dava tanta importancia a estas cousas, como os dous habitantes mais felizes do globo lhe davam a ella............ etc. etc.
E pouco mais continha a minha descripção em estylo oriental.
É realmente demasiado respeito ás conveniencias privar-se o publico d'um fragmento assim! Não obstante, rasguei-o, protestando jámais querer editor para as minhas obras.
XVI.
Palavras textuaes do meu amigo Bento de Castro da Gama:
«João, arrepende-te de haveres maculado a pureza de Hermenigilda com uma suspeita menos casta.
--Eu! santo nome! pois fui eu que a maculei!?
«Sim, tu contavas-me a historia de tua prima, quando a innocente rapariga brincava com o preto puerilmente.
--Valha-te o senso commum, amigo Bento!--repliquei eu--Que terrivel significação tu déste á minha historia! Poderia eu criminar a simplêza d'um brinquedo que desde creança respeito e absolvo, porque o vejo sanccionado na minha Arte do Pereira, livro didatico, escripto para andar entre mãos da mocidade!...
«Mas o que faz a Arte do Pereira ao nosso caso?!
--Faz muito: pois já te esqueceu o _pueri ludunt_? os meninos brincam? e posto que lá não diga _utriusque coloris_, d'ambas as côres, infiro que ser um branco e outro preto não destróe a regra da boa latinidade. Logo que se dá nominativo e verbo, tanto faz que os meninos sejam...
«Cala-te, importuno!--atalhou o meu delicioso Bento, eliminando-me da alcôfa um pão e um canto de queijo Chester.--Fica na certeza de que a minha consciencia está socegada, tranquilla...
--O mesmo não pódes dizer do estomago...--acudi eu, vendo o precipicio aberto ao meu queijo que descia, ao passo que da consciencia do meu amigo subia o protesto contra as suspeitas indignas da pureza de Hermenigilda.
Bento de Castro proseguiu exarando provas que me não deixaram a menor suspeita de que a noiva podia, sem que o pudôr lhe carminasse o rosto, desapertar o cinto virginal, á laia das esposadas de Lacedemonia, ou entrar na camara nupcial sem o receio da lampada nocturna, que tantos sustos deu á primeira mulher de Jacob.
Estava eu, pois, admirando a infallibilidade das mathematicas, quando Pantaleão, chamando-me da sua janella, perguntou-me se o meu amigo alli estava. Bento appareceu logo, um pouco sobresaltado--bem sabia elle porque, melhor que eu--e Pantaleão, com semblante rubicundo e prazenteiro, disse-lhe que tinha grandes cousas a contar-lhe.
O meu amigo foi, contente do aspecto feliz do seu futuro sogro. Era o seguinte o que elle queria.
Pantaleão acabava de receber carta d'um seu irmão, official superior do regimento 24 de Bragança, noticiando-lhe a acclamação do rei absoluto, e a prisão do bispo, e o triumpho certo da religião; recommendava-lhe que sahisse immediatamente da Foz, e fosse levantar guerrilhas em Amarante, que deviam unir-se em Villa Real ás forças do primo Silveira.
Pantaleão estava ebrio de patriotismo! dava vivas ao rei absoluto, e chamou a filha para tomar parte do enthusiasmo do seu esposo.
«Vamos a saber, continuou elle--aqui não ha que replicar! O primo Bento vem já comnosco para cima, e vai ajudar-me a levantar os povos, e fica sendo o capitão dos vassalos fieis! Se é realista ás direitas, vá amanhar a mala, e amanhã de manhã vamos embora. Que diz a isto, primo?
--Eu digo que estou prompto. Já agora a nossa sorte é commum.
«Pois então, eu vou dar ordens.
Pantaleão sahiu da sala, e o meu amigo, tanto quanto pude enxergar, afagava as bochechas rosadas de Hermenigilda, que entrára na sala, escarlate como a flôr da romanzeira. Não seria facil decidir se fôra mais linda antes, se depois que o pejo lhe coloriu a tez.
Um amante feliz gosa delicias, saborêa prazeres celestes n'essa encantadora vergonha! Bento de Castro, inclinado para o seio d'ella, devia dizer-lhe palavras de tal doçura que a pudibunda moça, requebrando o collo de puro jaspe, parecia, como a sensitiva, encolher-se ao beijo voluptuoso da borboleta! (Como isto sahiu engraçado e arredondadinho! É a minha especialidade, leitores.)
O meu amigo deu-me parte da sua sahida, cheio de contentamento. Disse-me que me avisaria a tempo de eu ir assistir ao seu matrimoniamento. Prometteu-me arranjar-me em Amarante uma mulher com uma casa soffrivel para ficarmos visinhos. Partiu no dia seguinte, e realmente deixou-me saudades, que depois de trinta annos se conservam ainda em meu coração fistulado de desgostos, cheio de fezes agras, sujo do sarro das paixões, e coberto d'uma crusta de musgo petrificado pelo gêlo dos desenganos acerbos, sendo o mais pungente de todos a certeza, a que vim, de que o homem não é, como disse Platão, um animal implume, nem a sombra d'um sonho, como disse Pindaro, nem o rei da creação, como disse Moysés, nem animal racional, como dizem alguns philosophos, que se excluem, vistas as muitas irracionalidades que escrevem. O homem, em quanto a mim, é um pedaço d'asno! A ultima palavra da sciencia acabo eu de proferil-a agora.
Eu tenho lido tudo quanto está escripto a respeito do homem, e, se não fosse o pequeno embaraço de me esquecer tudo o que li, tencionava explanar, com methodo e arranjo scientifico n'este capitulo, verdades eternas de que ninguem faz caso por isso que são eternas, e tudo que é eterno não quadra ao nosso gosto voluvel, irrequieto, e caprichoso.
O homem, na minha opinião, é um cabide, e mais nada. O que a mão da boa ou má fortuna dependura n'elle é que distingue a creatura de Deus entre os seus irmãos. Não ha substancia de homem: ha só fórma de homem. Ora a fórma está no involucro, desde os andrajos inçados de herpes até aos arminhos recamados de brilhantes.
Ahi fica debique para os philosophos. As grandes idéas encubam cincoenta annos, disse Napoleão. Em 1907 a minha idéa estará na consciencia da posteridade.
Quando se perguntar o que é o homem, responder-se-ha: é um cabide.
XVII.
Sigamos Bento de Castro, á frente da sua guerrilha, composta de cento e tantos homens, erguidos como um só homem ao primeiro grito, e quasi todos caseiros e foreiros de Pantaleão.
Bento de Castro, radioso de gloria, entrava em Villa Real, quando o primo Silveira, a quem ia recommendado, á frente d'um destacamento de caçadores 9, proclamava o snr. D. Miguel rei absoluto. O nosso amigo coadjuvava os gritos do marquez de Chaves, quando a soldadesca, instigada pelos officiaes, prorompeu em chufas e insultos ao commandante enthusiasta.
Silveira, receoso de que o prendessem, porque os officiaes gritavam «amarrem esse doudo!» deu de esporas ao cavallo, e desamparou o meu pobre Bento, que se viu em pancas. Os bravos da sua hoste, era para vêr como elles largavam os tamancos por aquellas ladeiras da Senhora de Almudena! Os gritos animadores do chefe perdiam-se entre os apupos dos soldados, que arremeçavam pedradas ignominiosas ás canellas nuas dos fugitivos.
Bento achou-se só, sobre uma possante egua do seu futuro sogro, e vacillou muito tempo entre seguir o marquez de Chaves, ou as suas tropas, que desappareciam por detraz das collinas de Mondrões, caminho do Marão.
Venceu a honra; e o meu amigo, a toda a brida, pôde alcançar o Silveira a uma legua distante de Villa Real, na estrada de Chaves.
O marquez era estupidamente corajoso. A derrota moral que vinha de soffrer, não lhe arrefecêra o animo!
Queria elle chamar ás armas o povoleu das aldêas suburbanas de Villa Real, e accommetter de noite os soldados rebeldes. Bento de Castro, envergonhado da fuga, applaudiu o alvitre, e foi o primeiro a pendurar-se na sineta d'uma capella em Banagouro, tirando por ella com o frenesi das batalhas, e pedindo ao badalo a eloquencia do punhal de Bruto.
Correram ao alarma o tio Francisco do Quinchoso, o tio Thimotheo da Fraga, João do Reguengo, e Zé da Brigida dos Chãos, alferes da bicha, e cavalleiro do habito, alcançado por ter morto na serra do Mesio dous francezes em 1812.
Silveira sentou-se sobre o cabeçalho d'um carro, instaurou conselho militar, e, antes de proclamar, perguntou se seria possivel arranjarem-lhe um salpicão frito com ovos, e uma garrafa de vinho. João do Reguengo apressou-se a chamar sua mulher, que substituira o meu amigo na sineta, e mandou-a amanhar uma boa fritada de salpicões e ovos.
N'este comenos chega um postilhão de Villa Pouca de Aguiar com um officio para o marquez. Silveira não entendia a letra de sua mulher, e pediu a Castro que lêsse. Era a marqueza de Chaves noticiando a revolução de caçadores 7, e chamando a toda a pressa seu marido para a coadjuvar no movimento revolucionario. O marquez deu vivas á marqueza, ao bravo batalhão, ao rei absoluto, e não esperou os salpicões, nem congratulou o patriotismo do padre Bento Tamanca que acabava de sahir da capella, de cruz alçada, chamando o povo ás armas.
O meu amigo teve a honra de cumprimentar a marqueza de Chaves, que veio ao encontro de seu marido, sobre um valente murzello, floreando a espada, e latindo guinchos de sedicioso enthusiasmo.
A marqueza era a mulher mais feia das cinco partes do mundo. Em França denominavam-na: «o panorama da fealdade.» Tinha um aspecto só comparavel a si mesmo. Rolavam-lhe nas orbitas dous olhos vêsgos, que não eram olhos quando os incendia em viva braza o ardor da guerra. O trom das espingardas, nas refregas a que delirantemente se arremeçava, faziam n'ella o effeito do zumbido na orelha do cerdo: silvava assobios terriveis de colera, e animava os soldados, umas vezes com um «arre p'ra diante» outras vezes chamava-lhes _filhos_.
«Quem é este mocetão?--perguntou ella ao marido, fitando Castro.
--É ainda nosso primo, pelo que me diz o nosso primo Pantaleão da Amarante.
«É valente?--replicou ella.
--Desejo mostrar valor--respondeu Castro.
«Sabe jogar a espada?
--Fui cadete de cavallaria.
«Defenda-se lá d'um sexto!--disse a marqueza, e recocheteou com o cavallo para entrar em combate.
Bento não ousou levar mão á espada; mas ella instou, fazendo parar o estado maior, que se compunha d'alguns capitães móres, e meia duzia de mancebos das principaes familias d'aquelles sitios. Castro obedeceu com repugnancia. A marqueza fez agilmente quatro botes, e, ao quinto, o meu desastrado amigo tinha uma solemne pranchada no pescoço, que foi motivo para que a marqueza, triumphante, especie, de Jeanne d'Arc, mais digna d'um Voltaire zombeteiro do que fôra a outra, mostrasse quatro ordens de dentes cahoticos, cariados, esqualidos, impossiveis! Os espectadores felicitaram-na pela sua destreza, e, o caso é que o ditoso Castro, por se deixar bater, recebeu da marqueza, com a lição d'esgrima, provas inequivocas da satanica sympathia da mestra.
Tropa e guerrilhas acampadas em Villa Pouca d'Aguiar seguiram a estrada da fronteira, e internaram-se em Hespanha. Antes, porém, de sahirem, subiu ao pulpito da igreja parochial o padre Alvito Buela, e trovejou uma obra prima da eloquencia dos Chrysostomos e Athanasios, em que levou á evidencia quanto era grato a Deus cortar as orelhas aos jacobinos de 1820, herpes venenosas que fermentaram no sangue putrido de Gomes Freire.
Os revoltosos entraram em Hespanha com a marqueza á frente; e o inepto consorte d'esta amazona recebeu, por intervenção de D. Carlota Joaquina, abundante numerario para manter o animo perplexo dos desertores. Os soldados, quando o soldo se demorava, costumavam cantar esta copla:
Com dinheiro, pão, e vinho Sustenta-se o Miguelzinho, Sem dinheiro, vinho, e pão Sustenta-se a Constituição.
A _Megera_ de Queluz, como então os malhados denominavam a viuva de D. João VI, informada pela marqueza de Chaves, a quem ella chamava a sua _Jeanne d'Arc_, igualando o filho dilecto a Carlos VII, empenhava-se até ao extremo da usura para espalhar a mãos largas o preço porque tão caras ficaram á nação as refregas dos Silveiras, dos Varzeas, e dos Canellas.[2]
O Silveira era doudo pela banca portugueza; e o meu amigo Bento de Castro, destro burlista n'este ramo dos conhecimentos humanos, empalmou em poucos dias ao marquez e aos fidalgos do quartel general uns seis mil cruzados com que resolveu ir viajar, se o _deus_ d'Ourique não favorecesse a causa do marquez de Chaves.
Os revoltosos foram protegidos em Hespanha, e receberam armas, e auxilio de forças, para repassarem as fronteiras.
Chegaram á Amarante em 15 de Dezembro, e foram repellidos ahi pelo brigadeiro Claudino.