Scenas da Foz

Chapter 4

Chapter 43,781 wordsPublic domain

Nunca mais fui a casa de D. Vicencia, nunca mais a vi; mas á hora em que o mocho pia no galho do azevinho, ia eu, cheio da minha amargura, sentar-me n'uma collina fronteira ás janellas d'ella, e d'ahi, com um enorme oculo de papelão, conseguia lobrigal-a através das vidraças.

Se quereis saber qual era então a minha angustia, perguntai á onda porque geme, á fonte porque murmura, e á calhandra porque pipila entre as franças de avellanzeira! É que a minha angustia era vaga e mysteriosa como a da onda que geme, a da fonte que murmura, como a da calhandra, e a do calhandro, e de toda a variedade de animaes que tem bico, ou barbatanas, ou tromba, ou labios, ou qualquer orificio respiratorio por onde possam respirar e gemer.

Entrou em mim o demonio do ciume! Quando, pela primeira vez, se hospedou em minha alma virgem esta paixão filha do inferno, como lhe chama Homero, fez-se uma subita mudança na minha natureza. Eu fôra incapaz de entalar o rabo d'um gato, e senti-me propenso a cercear as orelhas a um homem! Levaria tres sôcos sem resistencia para não levar o quarto, com heroismo, e achava-me animado d'esse furor das batalhas, que ceifa louros e cabeças!

Quiz conhecer, encontrar face a face o meu rival, e, para isso, muni-me do cabo d'uma vassoura, estive quasi a experimental-o no cavername da velha, que me queria tolher o passo, guinchando desabridamente, e fui postar-me debaixo da janella por onde o vulto subira.

Depois de duas noites mallogradas, á terceira apparece, entre uma hora e duas da manhã, o nosso homem.

Aqui entre nós que ninguem nos ouve: quando o vi perto de mim, a minha coragem pareceu-me uma cousa muito duvidosa. Deram-me caimbras nas pernas, e senti-me mal do epygastrico! Cingi a mim quanto pude o cabo da vassoura, para que elle não denunciasse as minhas tenções reconsideradas, e, o mais subtilmente que é possivel, fiz uma pirueta, preparando-me para uma retirada honrosa, quando o sujeito me corta a vanguarda, e diz com voz soturna:

«Que diabo estava o senhor alli fazendo?!

--Nada...--regouguei eu.

«Isso não é possivel. O senhor não estava alli para me vêr passar... Não se assuste que eu não lhe faço mal... Diga lá o que me quer.

O timbre agradavel d'estas palavras animou-me.

--Eu ao senhor não lhe quero nada.

«Ora venha cá;--tornou elle--vamos passear e conversar. O senhor chama-se João Junior.

--Seu criado.

«Quiz namorar D. Vicencia.

--Isso lá... é conforme...

«Seja sincero. O senhor fez-lhe versos, versos que eu achei bonitos, e conservo-os na minha carteira, porque talvez ainda me valham se me vir apertado por alguma mulher com a mania de ser cantada em quadras. O senhor está muito verde... Estas mulheres não se conquistam com versos, nem se procuram no principio da vida. O snr. João é provinciano, vem lá da sua quinta com as bucolicas do Rodrigues Lobo na cabeça; e, como não encontrou zagalas toucadas de flores, imaginou que D. Vicencia era uma das tres Graças em uso de banhos. Redondamente enganado, meu amiguinho. Ora agora, façamos um convenio. Quer o senhor que eu lhe deixe livre o campo para as suas escaramuças? Com a melhor vontade...

--Nada, muito obrigado, eu não quero saber de mais nada... O que eu tenho a pedir-lhe é os meus versos.

«Ha-de ter paciencia; mas os seus versos acho-os muito bonitos, e não lh'os dou. Até lhe digo mais: depois que os li, fiquei sympathisando com o author, e tenho feito diligencias por encontral-o na praia, ou em casa de D. Vicencia. Queria dizer-lhe que se não deixe lograr por taes mulheres; queria ensinal-o a viver com esta gente, para o poupar aos desgostos que eu supportei, desde que sahi de minha casa; queria, em fim, ser seu amigo, se o senhor não tivesse n'isso antypathias que vencer.

--Muito obrigado...--mastiguei eu, bem disposto a favor de homem tão franco.

E voluntariamente me deixei ir pelo braço delle até sua casa. Subi, e era dia claro quando nos separamos, amigos para sempre.

Dous annos depois, recebia elle de mim lições de _savoir-vivre_. O meu talento precoce predominou a experiencia d'elle. Um anno de tracto social, decifrou-me enigmas em que Bento de Castro ainda hoje sinca.

Duas palavras mais ácerca de D. Vicencia, e serão ellas sérias e tiradas do coração n'um intervallo de negra tristeza.

A mulher devia ser velha quando não sente o coração... quando já não ama. Vicencia amou até o fim da vida. Amargurado fim de vida devia ser o seu! Nem já flôres desmaiadas lhe escondiam a fronte encanecida. Perdido o brilho, amorteceram-se-lhe os olhos, franziram-se-lhe as palpebras, encorreou-se-lhe o collo, e as mãos, que tão lindas foram, tingiu-as a amarellidão do tempo.

E o coração ainda vivo no involucro muribundo! Era como a flamma que não póde coar-se nos vidros embaciados da velha lampada.

Foi, por fim, motivo de irrisão e mofa, aquella mulher, que, desde os doze até aos quarenta e cinco annos, arrancára coroas de quantas rivaes quiz supplantar!

De todos os seus amantes, eu fui por ventura o mais nobre, e o mais vilipendiado. Embora! Nenhum outro lhe daria o _salve_ compassivo que eu lhe dou, depois de trinta annos.

..........................................................................

Oh vida! vida!............................................................

..........................................................................

Grandes devem ter sido as provações de quem souber tilintar os guizos do histrião para que lhe não ouçam os gemidos!...

Chorar no coração, e rir no espirito...

XI.

Consta do final d'um capitulo, escripto em logar competente deste exemplar romance, que Bento de Castro sahiu de minha casa para entabolar com Hermenigilda o seu primeiro colloquio.

Eu cerrei as portadas da janella, deixando apenas uma fresta onde podesse encaixilhar a orelha direita, sem denunciar a innocente espionagem. Alguns dos meus amigos, orelhudos como Midas, não poderiam fazer outro tanto com o mesmo recato.

Bento foi quem primeiro teve a palavra, e disse:

--É tal o prazer que me enche o coração, amada Hermenigilda, que não posso exprimir-vos quanto por vós sinto, desde o ditoso instante em que vêr-vos e adorar-vos foi obra d'um momento. O sentimento que meu terno peito nutre por vós, acaso ao vosso terá passado?

ELLA.

Eu passei bem, e o senhor?

ELLE (_atordoado como se lhe despejassem de cima um balde_.)

Como passará bem do corpo quem arde em vivas chammas de amor?

ELLA.

O senhor tambem sabe cantar a modinha das _vivas chammas d'amor?_

ELLE.

Nada, não sei.

ELLA.

Minha prima Carlota canta que é um regalinho ouvil-a.

Althea, mimosa Althea Me maltractas com rigor, E eu por ti ardendo sempre Em vivas chammas d'amor.

Pois o senhor não sabia este soneto?

EU (_mentalmente_.)

É d'uma estupidez fabulosa! Ó pobre Bento, como estará a tua alma!... Haverá d'estas mulheres, passados trinta annos? Digo que não, em honra do progresso. Alguns annos mais, e _Paulo de Kock_, e _Pigault Lebrun_, e outros directores espirituaes, traduzidos em vernaculo, darão aos namoros de nossas filhas occasião de ouvirem menos tolices. Os que amarem em 1856, devem passar horas muito agradaveis! As mulheres de então, ricas de prendas espirituaes, saberão dizer _toillette_, _rendez-vous_, _petit-point_, _crochet_, _soirée_, _boucles_, _papier-satin_, _enveloppe_, e outros ornamentos de lingua com que farão a sua maior, mais fecunda, mais grulha e tagarella. Com a superabundancia do idioma, augmentarão as idêas, na razão directa. A psycologia estará no auge. Mestre Spinosa e Kant encarnarão nas costas abauladas da prole de qualquer jarreta. A mulher saberá os escaninhos da alma como a abelha os do cortiço. Não haverá uma só que possa, com acerto, chamar-se tola. Perfeita de espirito, attenderá ás imperfeições corporeas, e descontente da massa insufficiente que o grande Artifice empregou na feitura d'ella, apropriar-se-ha o algodão necessario para que o Creador soffra um quinau. A mulher, correcta e augmentada, em alma e algodão, será o luxo da natureza, a boneca das creanças-decrepitas, o ouro cendrado no cadinho das humanas miserias, o melhor pedaço de carne e osso que Deus creou, a mais flacida aba de algodão e barbas de baleia que as manufacturas celestes podiam dar-nos.

ELLE (_despeitado_).

Não fallemos nas cantigas de vossa prima; o que importa é saber se me tendes um affecto igual ao meu.

ELLA.

Isso lá... veremos. Se meu pai disser que sim...

ELLE.

Pois vosso pái é que vos manda amar?

ELLA.

O que elle diz é o que se faz. Casamentos não me faltam. Tem-me pedido muitos senhores de casa, e se elle diz que não...

ELLE.

Mas, eu não pergunto se quereis casar commigo.

ELLA.

Então?! Se não quereis casar commigo, vindes enganado.

ELLE.

Quero casar comvosco; mas primeiro devo experimentar...

ELLA.

O que?

ELLE.

O vosso coração. Quero ser amado antes de ser vosso marido. Que sentis por mim?

ELLA.

Sinto muito bem, gosto de vos vêr, e se meu pai quizesse, eu de mim tambem queria ser vossa esposa.

ELLE.

A minha carta que impressão vos fez?

ELLA.

Fez-me muita: está muito bonita; parece mesmo que é cousa de livros de historias. Tenho lá em casa, na Amarante, um livro chamado os Cantos de Trancoso, e outro chamado as Aventuras de Theofilos, ou Theofanius, ou uma palavra assim, que trazem muitos palavriados assim.

ELLE (_com a voz suffocada por um vomito moral_).

Boas noites, menina.

ELLA.

Então passe muito bem, até ámanhã, se Deus quizer.

Bento de Castro entrou no meu quarto com as mãos agarradas á cabeça. Eu estava sobre a cama, marinhando com as pernas parede acima, arquejando de riso, rebentando pelas ilhargas, quando o pobre homem entrou.

«Pois tu ouviste?--disse elle.

--Tudo! está vingada D. Vicencia, e eu tambem. Suicida-te, meu infeliz Bento! Um homem que encontrou similhante Hermenigilda, deve morrer de tedio, de vergonha, de raiva, de odio ao genero humano em geral, e ás mulheres em particular!

«Estás enganado--atalhou elle--gosto assim de vêr a estupidez no seu estado de perfeição primitiva. Andava eu morto por encontrar a mulher como ella foi no tempo em que se comiam bolotas e medronhos. Pensas que arrefeci na empreza? Não tenhas medo. É uma mulher deliciosa para um homem que quer casar-se rico, e desligar-se das obrigações que se contrahem matrimonialmente com uma mulher que tem alma. Alli onde a vês, se eu tiver a duvidosa felicidade de a obter do pai, é a unica mulher que me convém. Ha-de ser uma excellente criadora de porcos, e se eu lhe disser que saia da Amarante para viajar commigo dá-lhe um desmaio. Tomaram muitos encontrar a innocencia d'ella! Aquillo é tudo materia pura e estreme como a dá a madre natureza. Eu corto o pescoço, se ella tem resquicio de maldade!

Castro continuava o elogio de Hermenigilda, quando ouviu vozear alto em casa d'ella. Fomos á janella, e vimos Pantaleão embrulhado n'um cobertor com um toco de sêbo acceso na mão, chamando Hermenigilda a grandes berros. Vimol-o chegar, e o pai perguntou-lhe o que estivera ella fazendo n'aquella janella. Hermenigilda negou, e o preto foi chamado para dizer que a ouvira estar fallando com um homem que costumava fazer-lhe acenos da janella fronteira.

Pantaleão, com o cobertor a rastos, solemne como um patriarcha do Levitico, aproximou-se da filha cabisbaixa, deu-lhe um sonoro pontapé, e perguntou-lhe quem era o sujeito que fallava. A desastrada moçoila tartamudeou, e, receosa da segunda carga, disse que elle lhe tinha escripto para o bom fim. O pai disse que queria vêr a carta. Hermenigilda sahiu d'alli; Pantaleão, no accesso da colera, deixou cahir o coto de sêbo, e ficou em trevas.

Não podemos vêr nem ouvir o desenlace da scena.

«O peor é que a minha carta está assignada!--disse Castro.

No dia seguinte, disseram-me, quando me levantei, que Pantaleão estava na janella desde o romper do dia.

Fui á janella, e fiz-lhe, como costumava, a minha cortezia, posto que elle correspondia com desagrado á minha civilidade, desde que me viu fazer á moça varias bugigangas.

Fitou-me com terrivel catadura, e disse:

«Ó su amigo, diga lá a esse borra-botas que por ahi vem, que eu sou homem de lhe tirar a collada pelas costas, ouviu?

--Ouvi perfeitamente, porque o senhor tem um excellente pulmão--disse-lhe eu, disposto a jogar insolencias com o senhor de Fregim e coutos de Riba-Tamega.

«Diga-lhe lá que se tornar a desinquietar minha filha, mando-lhe moer o espinhaço.

--Faz o senhor muito bem... Com que então o tal maroto desinquieta-lhe a filha!

«Vossê está a mangar commigo?

--Deus me defenda! Eu estou protestando contra aquelle tratante que desinquieta meninas, e faz da minha casa o palladium das suas patifarias. O direito paternal é o mais sagrado de todos os direitos. V. exc.ª tem carros de razão em quanto sustentar o decoro dos lares, e mantiver immaculada a prosapia illustrissima de que borbulhou.

Pantaleão olhava para mim, alongando os beiços e franzindo a testa. Eu prosegui:

--Mas, a fallar a verdade, eu não sei se v. exc.ª tem razões assaz fortes para tamanha zanga. O sujeito que namora sua filha é filho segundo de uma illustre casa de Celorico de Basto. Por _Gamas_, pertence ao venerando tronco do que dobrou o cabo das Tormentas, como consta de João de Barros, Lucena, Camões, e da historia genealogica da casa real. Por _Castros_, descende por bastardia d'um irmão d'Ignez de Castro, que veio casar a Celorico, e houve quatro filhos de D. Mecia da Gama, um dos quaes foi dom abbade em Tibães, outro foi prior-mór de Christo, o terceiro morreu em Alcacer-Kibir, e o quarto morreu em cheiro de santidade, e está inteiro. Já vê v. exc.ª que o amante de sua filha não é qualquer borra-botas, como o senhor lhe chamou, no auge da sua iracundia paternal. O que o senhor deve é indagar se é honesto o intuito d'este amor: e caso o seja, apressar o enlace matrimonial.

«Eu não preciso conselhos!--bradou irado Pantaleão--Se elle quer casar com minha filha, peça-m'a, e eu lhe direi o que me parecer; mas não me ande cá a rentar pela porta.

--N'esse caso--redargui eu--direi ao meu amigo o que deve fazer para captivar a benevolencia de seu illustre sogro. Elle irá pedil-a, conforme o estylo, e v. exc.ª, depois de ratificar as informações que eu tive a honra de dar-lhe ácerca da celebrada genealogia do meu amigo, consentirá que elle entre no tronco da sua familia, como o regato no oceano.

Parece incrivel, mas Pantaleão encarava-me com suave aspecto. A seriedade conspicua e grave com que eu solemnisei a galhofa, achou acolhimento digno na soez capacidade do mirifico ornamento da Amarante e povos adjacentes. Dignou-se perguntar-me quem eu era. Respondi que não podia apresentar-me com appellidos benemeritos da sua estima, por isso que descendia d'uma honesta familia de lavradores, a qual havia fundadas razões para suppôr-se que descendia do primeiro homem, e não tinha outros documentos, além de suspeitas, com que provar a sua antiguidade.

Pantaleão achou-me razão, e disse-me que o rei Vamba fôra lavrador, para consolar-me da minha baixa condição, acrescentando que sua magestade el-rei D. Diniz, fôra amigo dos lavradores.

Era para vêr-se a pratica affectuosa em que demoramos uma boa hora, finalmente interrompida pela apparição de Bento de Castro, que vinha espantado da cordura com que nos travamos.

Pedi licença para receber o meu amigo. Contei a este o acontecido, e dei-lhe os emboras do bom andamento em que, tão imprevistamente, se achava o seu consorcio.

Castro, palpitando d'alegria, a primeira cousa que lhe lembrou foi que não tinha casaca para solemnisar a sua primeira visita ao pai da noiva. Remediado com a do boticario da terra, que fizera uma para assistir ás exequias de D. João VI, o meu amigo, n'esse mesmo dia, ás quatro horas da tarde, procurou Pantaleão, com o fim tres vezes honesto de lhe pedir sua filha.

Quando, porém, entrava no pateo, olhou machinalmente para dentro d'um postigo d'uma casa terrea, e viu Hermenigilda sentada n'uma caixa de pau de pinho, comendo figos. Ao pé d'ella estava o preto partindo uma melancia.

Horrivel mysterio!

XII.

Não tarda, leitor pio, leitor indulgente, leitor benevolo, leitor honesto que paga, leitor honrado que não lê de emprestimo, não tarda ahi uma enfiada de lances estupendos, que lhe arranquem interjeições de pasmo, e lhe afervorem o desejo de abraçar o author!

Deixei o seu espirito em tribulações de curiosidade, no anterior capitulo, onde Hermenigilda apparece comendo figos ao pé do preto, no momento em que o meu amigo Castro ia, escada acima, pedil-a ao pai. Chamei «horrivel mysterio» ao mais natural dos actos--uma mulher a comer figos!--Dei ao acontecimento uma importancia que tem feito pensar o leitor ancioso. Vão vêr porque. O que, por ora, posso acrescentar, porém, é que Bento de Castro recuou um passo, entreteve-se alguns instantes indeciso, e, por fim, resolveu espreitar o que se passava no quarto.

Ao lado da pequena fresta havia no estuque esboroado uma greta propicia. O meu amigo espreitou, e viu o seguinte, de que lavro acta para eterna memoria:

1.º Viu Hermenigilda acabar d'engolir um figo, e atirar o pé do mesmo á cara do preto.

2.º Viu o preto tregeitar uma careta festiva, e atirar á cara rúbida de Hermenigilda um bocado do coração da melancia.

3.º Viu a menina tomar do chão uma das rodellas de casca da dita melancia, e assentar com ella uma sonora sulipa na carapinha do preto.

4.º Viu o preto, com as belfas gotejando sumo, aggredir a espadua da morgada, e vingar-se imprimindo-lhe uma palmada em cheio nas ultimas vertebras lombares.

5.º Viu engadelharem-se, com grandes risadas, as innocentes creaturas, e teve a gloria de presenciar a victoria da sua amada, que atirou com o preto ao chão, e fugiu.

Satisfeito d'estas cinco visões, por isso que lhe não faltaram receios d'uma sexta, setima, e oitava, o meu amigo, tranzido d'espanto, perdeu a cabeça, e se havia de subir, desceu os dous degraus que o separavam da rua, e entrou em minha casa.

Contou-me as suas observações importantes, commentou-as com admiravel perspicacia, e acabou dizendo que renunciava o projecto do casamento, e me pedia encarecidamente que não divulgasse o seu louco intento, e dissesse ao pai da innocentinha que elle não queria casar.

Cousa, porém, admiravel! Bento de Castro dissimulava uma zanga interior, que eu não ouso chamar ciume, porque não quero dar ao meu amigo um rival tão vilipendioso. É, porém, desgraçadamente certo que o pobre moço, vendo que eu não defendia a innocencia do espectaculo que elle vira, tentou defendêl-o, perguntando-me se aquelles brinquedos não seriam por ventura honestos e singelinhos. Eu, que sempre fui d'uma boa fé estupidamente santa, reforcei a conjectura do meu amigo, recordando-lhe umas passagens que já contei ao leitor, ácerca d'uma minha prima, que por ahi fica archivada a paginas....

«Parece-me que não devo desamparar o meu posto, sem outras provas...» disse elle.

--Eu tambem entendo que não... Tu nada tens que perder, se te conservares na espectativa.

«E ha uma prova mathematica que eu posso conseguir, a unica verdadeiramente que desvanece ou confirma todas as minhas suspeitas.

Eu não entendi, nem averiguei o genero de mathematicas applicaveis á questão; mas o meu amigo, confiado em seu systema, resolveu continuar namoro com Hermenigilda, ainda que tivesse de abonar-se ao pai com promessa de casamento.

Apenas Pantaleão sahiu a tomar banho, Hermenigilda appareceu na salêta, e disse a Castro, por acenos, que o pai lhe tinha batido por causa delle; e convidava-o a ir fallar-lhe debaixo do muro do quintal, em quanto o pai estava fóra.

Castro annuiu. Quando sahia, disse-me:

«Estou quasi convencido de que aquella mulher tem um grande defeito, que é ser idiota. É tão innocentemente lorpa que não conhece o desaire de brincar com o preto. Este convite é prova da sua innocencia, não achas?

--Acho que sim, meu amigo. Em todo o caso não te esqueças das tuas provas mathematicas, que eu não sei o que são; mas muito estimo que ellas te aproveitem, para eu ficar sabendo que as mathematicas servem de alguma cousa.

Castro demorou-se, e veio dizer-me que a mulher parecia outra: e se me não disse que a achou espirituosa, quiz que eu me persuadisse de que era possivel educar aquelle espirito.

Eu combinei na idéa do meu amigo, e elle, contente do meu accordo, contou-me o que passára com ella. Disse-lhe elle que, no acto de a ir pedir a seu pai, a vira brincar na loja com o preto. Respondeu ella que o preto fôra criado com ella, vindo pequenino d'um reino onde seu tio Simão fôra governador, bispo, ou não sei que me não lembra agora, mas é de presumir que fosse bispo do Congo. Acrescentou ella que seu pai lhe dissera que, se queria casar com o sujeito que a namorava, elle não se oppunha, porque estava cabalmente informado do illustre nascimento do noivo, e até desconfiava que fosse seu parente, por casamento de D. Urraca Munhóz, celebrado em 1121, ficando assim aparentados os Gamas de Celorico com os Viegas e Themudos da Amarante, como constava dos foraes de Cima-de-Villa, Ranhados, São Gonhedo, e Galafura: do qual consorcio nasceram D. Brites, que morrêra em Arouca, dama da rainha Santa Mafalda, e sua irmã Soror Violante, que morreu santa em Lorvão d'uma indigestão de toucinho, n'aquella celebre noite em que lá pernoitou a celebre abbadessa de Holgas, D. Branca. Em consequencia do que, o meu amigo Bento de Castro resolveu não entregar n'aquelle dia a casaca ao boticario, attenta a reconsideração do seu precipitado plano, por causa de umas suspeitas tão injuriosas para a mulher que lhe sahira ao encontro na carreira da vida.

Já então se diziam estas tolices.

XIII.

Bento de Castro foi, finalmente, pedir a mulher ao pai. Pantaleão recebeu-o com agrado, e convenceu-se de que era seu remoto parente, em virtude do tal casamento celebrado sete seculos antes. Fallou-lhe na politica do dia, e arrancou-lhe o grato manifesto dos seus principios constantemente dedicados ao movimento de 30 d'Abril de 1824. Pantaleão prorompeu em elogios a D. Carlota Joaquina, e jurou pela espada de seu nono avô, governador de Masagão, que os constitucionaes haviam envenenado o rei, dizendo que recebêra de canal puro o segredo da morte do cirurgião Aguiar, do medico barão de Alvayasere, e do cosinheiro Caetano, todos envenenados pelos malhados. Acrescentou s. exc.ª, que seu primo, marquez de Chaves, fomentava em Traz-os-Montes, de combinação com Fernando VII, a queda da carta, e a restauração do throno e do altar, dos principes christãos, e extirpação das heresias. Como prova de ser informado por infalliveis oraculos, mostrou uma carta do seu particular amigo e primo visconde de Canellas, e outra, não menos convincente, do padre Albito Buela.

Bento de Castro--digamol-o sem desdouro seu--era ardente correligionario de seu futuro sogro. O meu amigo era, n'essa época, extremamente chato do intellecto, e em negocios da republica não via meia pollegada adiante do nariz. Seus tios frades, e seu irmão morgado--aliás excellentes creaturas--uns em nome da religião, outros da ordem, e todos dos seus interesses, fizeram-lhe conceber odio á liberdade, á revolução, e aos principios subversivos da sociedade proclamados em 1820, por meia duzia de estupidos como Ferreira Borges, e Fernandes Thomaz.