Chapter 3
Rompia a manhã no horisonte purpurino do mar, quando eu saltei do leito da insomnia para o meio da rua. Senti que era poeta: alvoreceu-me nessa madrugada o furor das rimas, e, sem vaidade, confesso que escrevi d'uma enfiada vinte e tantas quadras, terminando todas por:
Meu amante coração.
É realmente um vacuo na historia da poesia moderna em Portugal a perda lastimavel do meu primeiro jacto metrico. Se bem me recordo, o meu poema poderia ter uma até duas, mas tres tolices em cada verso, isso posso eu asseverar que não aos poetas contemporaneos, que tem levado o seu talento creador a quatro, cinco, e mais. Como quer que fosse, eu glorio-me de ter feito obra que muitos annos depois encontrei executada, com pequenas correcções, ao som da viola, fazendo as delicias d'um arraial.
Com a aurora da poesia veio a primeira nuvem das decepções amargas do poeta, e vem a ser que, estando eu persuadido que o poeta sahia do vulgar, entrava em convivencia com os sylphos, e, _ipso facto_, dispensava o almoço,--enganei-me redondamente. Ás nove horas e meia, quando o coração parecia ter feito monopolio da vida dos outros orgãos, começaram-me os intestinos a resoar uma symphonia de rugidos, que devia ser a da abertura d'uma opera muito séria. Fui a casa, e aquietei o motim intestinal, como os imperadores romanos aquietavam a canalha: _panem_, mas com manteiga, que os romanos não conheceram; o _et circenses_ traduzi-lh'o em café com leite.
Consummada esta operação mixta, achei-me poeta em duplicado. Fiz um soneto excellente durante a digestão. Era um acrostico a _Vicencia_; mas como Vicencia tem só oito letras, e eu precisava de quatorze, venci a difficuldade, buscando entre os seus appellidos um com seis letras. Encontrei _Raposo_; por consequencia--VICENCIA RAPOSO!
Era um bello soneto, que será publicado na 2.ª edição, para não alterar a ordem delineada da 1.ª Perfilei-me na praia, eram dez horas e vinte e cinco minutos. O coração dava-me cambalhotas no peito, quando a vanguarda de D. Vicencia, composta de paspalhões, appareceu na calçada. Nisto, desponta a cadellinha, que eu amava quanto é possivel amar-se uma cadella que nos proporciona o namoro com a dona. Depois... ELLA!
Então é que foi! Eu já não sabia o que havia de fazer das mãos! Parecia-me que a perna direita era um membro incommodativo. Os hombros encolhiam-se-me, e os braços procuravam, entre todas, a postura mais desengraçada! D. Vicencia cortejou-me de longe, e eu, querendo corresponder-lhe, tirei o chapéo tanto á pressa que me ficou metade do forro em volta da testa, como uma aureola de marroquim vermelho. Attribulado com os sorrisos de quatro petimetres que me estavam ao lado, quiz dar-me uma compostura geral ao corpo para os encarar com sobresenho, e resvalou-me um pé na aresta d'uma fraga. Dobraram a risada os peralvilhos, e eu, emparvecido, cosi-me com uma barraca, desejando n'aquelle instante bifurcar-me na egua ulcerosa do abbade, e demandar o patrio ninho.
Não o quiz assim a minha desventura.
D. Vicencia não testemunhára a minha segunda catastrophe, graças ao cumprimento d'um adventicio. Quando eu me escoava subtilmente por entre as barracas, não pude deixar de envesgar um olho miserando sobre Vicencia. Viu-me! procurava-me com aquelle ar desdenhoso das mulheres espertas, que parecem não querer vêr o homem que mais procuram. Ora, Vicencia, além de esperta, tinha um uso!... Não fallemos disso!
O magnetismo d'aquelle olhar collou-me os pés á areia como os da estatua do idiotismo! Sorriu-me com o mais amavel dos desleixos, brincando com as borlas do seu elegante casaco, roupão, ou como é que se chamava, de castorina côr de rato! Eu tomei a brincadeira das borlas como um acêno, e penso que me não enganei. Este espirito sagaz é uma cousa muito velha em mim!
Fui-me aproximando disfarçadamente. Vicencia, com mais subtil disfarce, deixou o grupo dos senhores donatarios que regougavam as suas tolices habituaes. Foi sentar-se solitaria ao pé d'uma barraca, e eu, tremulo de susto, fingindo quanto pude um animo frio que mais me denunciava, avisinhei-me com o chapéo na mão.
--Como passou a noite, snr. João Junior?--acudiu ella ao meu embaraço.
«Muito obrigado, minha senhora...--gaguejei eu.
--Passou bem, não é assim?
Creio que fiz um tregeito parvo com os beiços, no qual tregeito queria eu significar-lhe que não passára lá grande cousa.
--Então passou mal?--tornou ella.
Uma idéa, distinctamente tola, me acudiu de improviso á mente. Julguei do meu dever não atraiçoar o legitimo sentimento de ternura que ella fizera nascer. Revesti-me da bravura moral que o amor inspira a todos os patetas bisonhos, e respondi bruscamente:
«Quem sonha com o objecto amado não passa bem.»
Nos labios de Vicencia esvoaçou um riso imperceptivel. Ainda hoje me dá muito que pensar aquelle riso! Acho, aqui para nós, que a generosa mulher satisfez com aquelle riso ao estimulo de uma conscienciosa gargalhada.
--Pois o senhor não me disse ainda hontem que não amava?
«É verdade, minha senhora... mas... lá vem a maré...
--Vem a maré?! (disse ella) a que horas virá ella hoje? Tanto queria tomar banho cedo!
Imaginem, pios leitores, com que cara eu ficaria!
VIII.
--Eu não fallava na maré do mar, minha senhora...
«Ah... não? eu pensava...
--Queria eu dizer que... o coração muda d'um instante para o outro.
«Agora entendo! Ora sente-se...
E eu sentei-me, resolvido a ser homem; mas a cadeira era baixinha e eu fiquei virtualmente sentado como um macaco. Quiz accommodar uma perna sobre a outra; mas o meu mestre de rhetorica tinha-me dito que era signal de má criação cruzar as pernas. Desejei n'aquelle momento angustiado ter nascido na Laponia, ou encurtar em corpo na razão directa da pequenez do espirito. Experimentei variadas attitudes: uma vez, ficava-me o pé direito em aleijão; outras, o joelho esquerdo formava com o direito o apice d'um triangulo isosceles. Resolvi, por fim, estender uma perna, e encurvar a outra em fórma de fateixa. Isto em quanto ás extremidades inferiores; mas a anathomia prova que o Creador tambem fez as extremidades superiores para castigo de amantes garraios. A mão direita andou longo tempo em busca de uma posição, desde o seio do collete até ao joelho; por fim, metti-a na algibeira. A esquerda inutilisei-a entre as costas e a cadeira. Definida a minha posição, immobilisei-me nesta caricatura, como se fosse de greda. Desviei as minhas attenções plasticas do corpo, e fiz-me todo espirito, para destruir o mau effeito do involucro.
--Não toma banhos?--disse D. Vicencia, como se eu lhe tivesse aguado as bellas cousas que tencionava dizer-me.
«Sim, minha senhora, já tenho vinte banhos.
--Soffre dos nervos?... É um terrivel padecimento...
«Eu tambem soffro bastante dos intestinos» atalhei eu com toda a ingenuidade.
--Sim? Ainda ha peores enfermidades... As do coração é que não se curam.
«E v. exc.ª padece do coração?--disse eu com sincera condolencia.
--Muito...
«Algum aneurisma?
--Aneurisma moral... que é o peior de todos. O snr. João Junior ha-de soffrel-o tambem quando chegar a sua hora.
«Por em quanto, não sinto dôres de peito, minha senhora. O meu mal é todo de intestinos.
--O coração--tornou ella sorrindo de um modo celebre--o coração tambem é um intestino.
«Ha-de perdoar, minha senhora; mas os intestinos estão por debaixo do estomago. Tenho um tio cirurgião que sabe perfeitamente a anatomia, e nunca lhe ouvi dizer que o coração era um intestino.
D. Vicencia ria desafinadamente. Eu estava um pouco enfiado e corrido deste mau gosto de discutir ás gargalhadas.
«De que se ri v. exc.ª?»--interpellei eu, desarranjando um pouco a minha attitude, que tanta arte me custára, e tanto me custou a restaurar.
--Eu rio-me da boa fé com que o senhor enrista a lança em defesa da anatomia do seu tio. Eu tenho fallado em estylo allegorico. O snr. João Junior sabe perfeitamente o que é allegoria.
«Pois não sei?--repliquei eu com ar de triumpho--_Allegoria est tropus_... V. exc.ª sabe latim?
--Não, não sei.
«Eu traduzo: Allegoria é o tropo, por meio do qual se mostra nas palavras uma cousa differente da que se tem no pensamento, empregando todavia, para designar esta ultima, outra que com ella se assemelhe. Ha duas especies de Allegoria, que são: a _total_, e a... V. exc.ª ri-se? Cuida que eu estou a mentir?
--Não cuido; peço-lhe que não repare nos meus risos. Eu estou folgando de ouvir um sabio...
«Sabio, não digo; mas ainda não ha tres mezes que eu estudei o meu Quintilliano...
--E sabe-o de cór... Qual é o seu destino? tenciona ser frade?
«Não, minha senhora... Eu parece-me que não sirvo para a vida ecclesiastica. Meu pai quer que eu seja frade Bernardo; mas eu... acho que não se póde ser bom frade, quando se fazem versos.
--Pois o senhor é poeta?
«Tenho minha tal ou qual inclinação para isso.
--Ha-de dar-me uma amostra da sua musa. Tem algum poema escripto na Foz, cantando o Neptuno, e as deusas do mar?
«Ainda não escrevi nada sobre Neptuno; mas se v. exc.ª ordena, farei uns versos a esse assumpto. Hoje escrevi eu umas quadras e um soneto, que deixei em casa.
--Deixou em casa? que pena! Não se lembra de alguns versos?
«Não, minha senhora.
--Qual foi o motivo?
«O motivo... o motivo...--gaguejei eu, esfregando os dedos da mão esquerda na palma da mão direita--O motivo... bem sabe v. exc.ª qual foi...
--Eu!... não sei! Talvez a bravura com que o senhor salvou a minha cadellinha!...
«Qual cadellinha!? Ora! não fallemos n'isso... Os versos foram feitos... a v. exc.ª
--A mim?! Dobrada razão para lh'os pedir. O que me pertence não póde ser retido, em seu poder, sem meu consentimento. Vá já buscar os meus versos, snr. João Junior, e leve-m'os a minha casa, sim?
Ergui-me da infernal cadeira radioso de gloria! Da praia a minha casa não vi ninguem. Caminhava sobre flores d'um perfume embriagante. Tudo me parecia azul-celeste. O coração dava encontrões na estreita bocêta do peito. Cheguei a persuadir-me que estava curado dos intestinos.
Fatalidade! O extremo d'um grande prazer é um desgosto. Procurei os meus versos que deixára sobre a banca, e não os vi. Corro á cozinha, e interrogo uma velha, que me acompanhára de casa. Pergunto-lhe pelos meus poemas, e ella arregala os olhos enviezados de marroquim, sem saber o que eu procuro. Insto pelos meus papeis, e a incendiaria diz-me que, á mingua de carqueja, accendera o fogão com uns papellitos que achára sobre a mesa.
Senti a cruenta precisão de matar esta velha! Injectaram-se-me os olhos de idéas assassinas. Traquinaram-me os queixos convulsivos de raiva. Entrou em mim o _delirium tremens_... Foi a imagem de Vicencia que me salvou... se não... ai da velha! e ai de mim tambem!
Sahi, fui-me empoleirar no penedo mais hirsuto dos Carreiros, bebi a longos tragos a inspiração, reproduzi as idéas da poesia supplementar á carqueja, e outras novas suggeridas por um novo ardor. Ó poder do genio! Cento e vinte versos, repartidos em quadras, a inspiração ejaculou d'um vomito! Escriptos a lapis, trasladei-os em papel de peso na loja d'um tendeiro. Corri a casa de D. Vicencia. Annunciei-lhe a catastrophe da 1.ª edição, que a fez rir muito. Deixei-a lêr mentalmente a segunda, e não ousei procurar no semblante d'ella a denuncia da sensação que lhe faziam.
Lido o poema, D. Vicencia, séria, magestosa, e commovida, sentou-se, fez-me sentar, por um gesto, junto de si, e murmurou estas palavras que nunca, através de trinta annos, pude esquecer:
--O senhor fez-me rir hoje; mas os seus versos fazem-me pensar com mais seriedade do que eu queria. O senhor é uma criança de coração, annunciando talento e infortunio. É um innocente que fará rir, antes que o ensinem a chorar... Agradeço os seus versos, os seus sentimentos, e o offerecimento do seu coração.
Felizmente para mim entrou gente na sala.
O capitulo seguinte não sei se terei a coragem de escrevêl-o! Vou lêr alguns das _Confissões de J. J. Rousseau_ para me animar.
IX.
Era em uma dessas noites em que o amor se pendura dos raios argentinos da lua-cheia. O dorso do mar, sereno e suspiroso, scintillava em escamas de prata. Na quebrada dos montes fronteiros, onde a lua não diffundia o seu clarão, perpassavam luzinhas magicas, tremulas e subitaneas, que, ao cabo de contas, vinham a ser as candeias dos lavradores que subiam do redil para os casebres, ou desciam dos casebres para onde elles queriam, cousa de que não faço questão.
E eu fitára os olhos no horisonte do occeano, terrivel e magestoso; quadro indecifravel desde o cháos, provocação eterna ao orgulho do verme chamado homem; gigante inquieto que submerge no seio, d'um sorvo apenas, a taboinha juncada de soberbos tyrannos da terra, que lá se confundem com a folhagem das algas, boiantes sobre a garganta dos abysmos. E o meu espirito, desatado do poste vil chamado corpo, pairou nas alturas do céo, voejou de mundo para mundo, librou-se na paragem luminosa das chimeras, e desceu por fim sobre a imagem de D. Vicencia.
Eram dez horas da noite.
Sahi de minha casa, com a phantasia arrobada de delicias, e achei-me machinalmente debaixo d'um caramanchão de faias e loureiros que abobadavam uma janella aberta no angulo do jardim de D. Vicencia.
Os raios da lua, dardejando sobre a copa do miradouro, matisavam-na de tremula folhagem de prata, e vinham, filtrando por entre os rotulos da janella, mosquear a relva como a pelle da zebelina. Era muito para ver-se tudo isto que eu, exacto retratista da natureza, vou pintando de modo que o leitor parece-lhe que o está vendo. É o que se quer.
Sentei-me defronte desta como gruta de fadas, e imaginei o que ha mais bello em Ossian, em Hoffmann, e nos contos orientaes, que eu, com vergonha o confesso, não tinha visto, nem vi depois; mas, nestes ultimos tempos, é preciso ser grande alarve para não saber tudo isto e muitas cousas mais, lendo os folhetins dos meus amigos, sabedores de tudo, conhecedores de todos os nomes distinctos, á excepção do Lobato, e do Madureira, menos euphonicos que Macpherson, Goethe, Klopstock, e outros, que elles conhecem, como eu, dos catalogos da bibliotheca _Charpentier_.
Estava eu, pois, nesta idealisação de todos os meus cinco sentidos, divinisando aquella gruta, onde de tarde vira Vicencia com a face voltada para o sol-poente, apoiada com geito encantador na mão eburnea.
Devo, para desarmar a critica, protestar contra o epitheto _eburnea_. Entrou commigo a peste litteraria dos modernos torneiros de paragraphos. Arredondar o periodo é a condição imposta pela tyrannia do gosto ao escrevinhador laureado. Eu canto o que escrevo; e, se a toada me destoa no tympano, desmancho a oração em partes, ajusto-as de novo, calafeto-as de artigos, e pronomes, e conjunções, o mais afrancezadamente que posso, e sahe-me a cousa um pouco inintelligivel, mas harmoniosa como um clarinete de romeiro de S. Torquato de Guimarães.
_Com geito encantador na mão eburnea_: reparem que é um verso hendecasyllabo. Quem ha ahi que arredonde melhor um periodo, sem desnaturar a lingua, nem alastrar o verso de cunhas que resabem a estrangeirice?
Tudo isto veio adrêde (eu traduzo: _á-propos_) para dizer que, estando eu com os olhos embevecidos nas melenas das faias, abriu-se subitamente a janella, e a lua deu de chapa na radiosa cara de D. Vicencia.
Viu-me, e não me conheceu: ia retirar-se quando eu, ainda absorto na apparição, tossi o mais melicamente que pude. Vicencia deu ares de conhecer-me. Eu, invocando todos os potentados da minha alma (não seja sempre _potencias_) para vencer o acanhamento, murmurei:
«Sou eu...
--É o snr. João?
«É verdade, minha senhora.
--Então que faz por aqui?! versos?
«Estava a admirar a natureza, minha senhora.
--E admiravel que ella está!
«Muito admiravel, admirabilissima! muito bonita é a natureza!
--Eu tambem quiz ver o mar onde a lua se espelha tão poeticamente! Mas a noite vai arrefecendo; e eu receio muito as constipações á beira-mar. Se me dá licença, recolho-me...
«Pois eu ainda fico... Estou gostando muito desta encantadora noite... Quem ama, não tem medo ás constipações...
Estas palavras proferi-as com certa entonação de despeito, e fiquei satisfeito da minha veia epigrammatica. Vicencia, porém, redarguiu:
--O logar é incompetente para fallar d'amores. Quem nos visse aqui a deshoras suspeitaria de nós. Nada de escandalos, snr. João Junior. Venha cá ámanhã, e então me dirá o effeito que lhe fez o poetico espectaculo desta formosa noite; mas... se valho alguma cousa na sua vontade, peço-lhe que se recolha, e não queira privar-se de me ver ámanhã, constipando-se hoje... Promette ir?
«Sim, minha senhora...
--Então, boas noites.
E fechou o rotulo, mais depressa, por sentir passos na extremidade da travessa, que era de pouquissima passagem.
Eu permaneci quieto no meu sitio, meditando, triste, na indifferença gélida com que fôra recebido, em hora tão romantica, tão mysteriosa! N'isto, passou por mim um vulto. Era o homem, cujos passos a fizeram fugir com mais presteza.
O tal vulto, ao perpassar por mim, mediu-me d'alto abaixo, afrouxando o piso. Olhou para a janella de Vicencia, e fixou-me de novo. Deu alguns passos, e retrocedeu... Confesso que já não estava contente!
O encapotado foi até á extremidade do bêcco, e voltou. Parou diante de mim, e disse por debaixo do capote, em ar de tyranno de tragedia:
--Que quer vossê aqui?
«Não quero nada...--gaguejei eu.
--Pois então, mude-se.
Eu demorava um pouco a execução do mandado solemne de despejo, quando o homem recalcitrou:
--Mude-se, ou eu o ajudo a mudar.
A ajuda, pelos modos, era uma pranchada de chanfana, que o nosso amigo deixou vêr por debaixo da fimbria do capote. Dispensei o auxilio offerecido, e retirei-me cozido com a parede, scismando nas bellezas appensas a uma noite de lua cheia á beira mar.
Ao cabo da viella parei, sustido por um pensamento negro. «Será aquelle homem um amante de Vicencia?!»
O ciume deu-me intrepidez, quero dizer--a intrepidez de parar e esconder-me d'onde podesse espreitar a scena mais escandalosa de que o leitor tem noticia!
A janella abriu-se. Era Vicencia... conheci-lhe a voz! Não sei o que ella disse que fez rir o meu rival. Ouvi o soido de ferro que raspava no peitoril da janella! eram os ganchos d'uma escada. Ouvi o som cavo do embrulho de cordas a cahir na terra. Vi o maldito subir, coar-se pela janella, recolher a corda... e... maldição! maldição!...
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E, desde essa noite nefasta, a minha fronte pendeu abatida como cabeça de estatua que um raio fulminou.
Contei as minhas amarguras á vaga gemente, e acordei os eccos das solidões compadecidas.
Como Fausto, como Manfredo, e como Werther, perguntei ao Creador se a vida não era uma grande patacuada.
O demonio do suicidio segredou-me as delicias do aniquilamento.
Quiz tentar contra a minha existencia, e vacillei longo tempo na escolha do instrumento.
Queria um genero de morte novo, maravilhoso, inaudito, e memorando!
A pistola, o punhal, o laço, a asfixia, o verdete eram já n'esse tempo expedientes muito safados.
Em cata d'um morrer distincto, habituei-me á dôr. Vivi, se vida póde chamar-se este mixto de funcções animaes em que predomina o almoço, o jantar, e a ceia.
Não se conhecia então o instrumento de suicidio que a sociedade actual inventou: O ARTIGO DE FUNDO.
X.
Eu, João Junior, não soffro os romancistas que pulam d'um capitulo para outro, de modo que o romance tanto faz principial-o detraz para diante como de diante para traz. Classico em toda a extensão da palavra, respeito a arte antiga, admiro a boa ordem das _Pastoris_ de _Longus_, do _Jumento_ de _Lucius de Patras_, e outros venerandos monumentos da arte adulta, cuja leitura não aconselho áquelles que dormem as suas horas, sem o recurso do láudanum. Com quanto Aristoteles, Horacio, Pope, e Boileau não legislassem para o romance, eu, sincero venerador da arte que ensina a fazer os primores d'arte, trabalho, quanto em mim cabe, por introduzir no romance as tres unidades de Aristoteles. E aproveito a occasião para certificar aos principiantes n'este esperançoso ramo de litteratura, que é bom saber um bocado de Aristoteles, depois de ter lido duas comedias de Scribe, a _Dama das Camelias_, e--se o principiante fôr extremamente estudioso--o _Chatterton_, o _Bug Jargal_, afóra a immensa erudição que vem no La Place. Com estes seis volumes, uma capacidade mediocre abrange todas as ramificações da sciencia humana, e póde, se um editor martyr o ajudar, aos quarenta annos, ter produzido quarenta volumes.
Os meus quarenta annos já lá vão ha muito; mas, se Deus me der mais dez, prometto encher o vasio que sempre deixa na terra um grande nome. É este o primeiro livro com que brindo a humanidade; mas tão maduramente pensado elle vai, tanto tempo o choquei, antes do parto, no utero intellectual, que, se me não logra a vaidade, começo por onde muitos acabam.
A logica com que os capitulos anteriores vão coordenados, a naturalidade das transições, o alinho das fórmas em harmonia com a substancia, a intima alliança da esthetica com a plastica, a artistica rigidez com que os caracteres se pintam, e, sobre tudo, a pureza, a elegancia, o atticismo, a propriedade da linguagem, portugueza de lei como os portuguezes d'esta nossa afortunada época, tudo isso, e outras louçanias que omitto, por preguiça, provam que eu, João Junior, conheço Aristoteles; e, se nunca o li, maior habilidade revelo; tenho o sexto sentido, o _illuminismo_, que tambem não sei bem o que é. Pelo que, muito importa que o leitor saiba
_Quem era o homem da escada de ferro, o que elle por lá fazia áquellas horas, e de como o author, depois de trinta annos, chora por D. Vicencia, e o mais que a este respeito se disser, como do capitulo melhor se verá._
Deveis de saber, leitores pudicos, que D. Vicencia Raposo, quando chegou á Foz, sentiu, na presença do occeano, rejuvenescer-se o coração, desenrugar-se-lhe a alma, e esvoaçarem-lhe de redor candidos amorinhos. _Souvent l'onde irrite la flamme_, disse Corneille, e D. Vicencia, aspirando o ar nitrico do mar, cobrou vigor de peito, e com o vigor novo readquiriu as necessidades velhas, as illusões de 1801, as realidades de 1809, e até o amargo prazer de experimentar os desenganos de 1819, época da sua fatal decadencia.
Resolvida a amar, Vicencia espartilhou-se o mais angustiosamente que pôde, distribuiu nas faces, um pouco encortiçadas, dous escropulos de alvaiade com outros tantos de carmim, e foi passear até Carreiros.
O primeiro homem que viu geitoso era um cadete de cavallaria, bem apessoado, bizarro de cintura, sadio de bochechas, e lesto de maneiras, requebros, posturas, e varias outras momices que dão nos olhos da mulher disposta a amar.
D. Vicencia era vistosa e farfalhuda. Meneava-se tregeitando com tamanha volupia, que eram poucos os dous olhos da cara para a vêrem! O cadete não podia ser indifferente á provocação, e azado era elle para segurar a fortuna pelos cabellos. Menos parvo que eu, sacou do peitilho da fardeta o seu lenço branco, e deu ao nariz notas diplomaticas para iniciar o namoro. Houve de parte a parte correspondencia nazal, e já n'essa tarde o afortunado cadete foi apresentado a D. Vicencia.
Saibam desde já que o meu rival era... são lá capazes de adivinhar!... Bento de Castro.
Depois d'aquella negregada scena do bêco, será ocioso dizer-lhes que o meu achaque de intestinos recrudesceu; aliás, para evitar os olhos da perfida, ter-me-hia retirado a curar o coração no abrigo dos meus velhos, que todas as semanas me recommendavam que rezasse as minhas contas, e não fizesse asneiras. A gravidade do mal não me deixava assentar no albardão, apesar de doze semicupios! Era-me forçoso testemunhar a minha derrota, assistir aos funeraes ignobeis do meu primeiro amor.