Scenas da Foz

Chapter 2

Chapter 23,949 wordsPublic domain

«Apresenta-te ahi na minha janella, e faz-lhe saber, sem grandes rodeios, que estás ferido.

--Será demasiada liberdade...

«Deixa-te d'isso; demasiada liberdade acho eu que é a do preto. Certas mulheres só entendem o que se lhe diz; e em quanto a mim, a nossa visinha é d'aquellas que nem o que se lhe diz entende. Clareza no pensamento e na phrase. Imagina que fallas com a filha d'um teu caseiro. Põe o teu codigo de civilidade ao pé do Genuense e do Quintiliano. Nada de logica, nem de rhetorica. Os principiantes do amor cuidam que é da tarifa devorarem no silencio, antes de se revelarem, as melhores phrases que tinham para convencer. Grande contrasenso. Parecem-se com os caçadores novatos, que atiram á perdiz quando ella vai muito longe do alcance do chumbo. Fia-te em mim, Castro. A mulher que principia a amar tem oito dias de alienação moral. O espirito anda-lhe á solta, e um habil caçador apanha-lh'o, e depois... como sabes do teu Genuense, a alma é uma substancia acommodada para governar o corpo. Pilhada a alma, o corpo, sem governo, é uma nau desmastreada, sem leme, á mercê das ondas.

Espera... ouço-a fallar... Olha...

Ella lá está na janella.

IV.

O meu amigo chegou á janella, e tossiu a tosse especial dos namorados de 1826, que era uma tosse secca, como a do ultimo periodo da tysica laryngéa. Hermenigilda acudiu ao reclamo catarrhoso, e viu risonha a cara do meu amigo Castro, que realmente era um perfeito homem. Retirou depressa os olhos, mas depressa obedeceu com elles ao magnetismo das olhadellas do visinho. Eu cá da minha alcova, por entre os farrapões das cortinas amarellas, estava presenceando o introito comico do acto mais solemne da vida dos povos, que era o casamento então, e hoje são as eleições.

O meu amigo não se despegava do peitoril da janella. A pequena ia e vinha; olhava-o, como a disfarce, lá do fundo da sala, e trazia sempre um terço do olho esquerdo compromettido.

Castro manifestava com o nariz o seu contentamento, empenhando-o na victoria. Assoando-se, trombeteava o som menos amoroso possivel. O nariz, considerado porta-voz do coração, ecco da poesia intima, interprete da linguagem muda da ternura, exerce a mais nobre das missões corporeas, e attinge um elevado grau de perfectibilidade nazal, depois do outro, mais elevado ainda, de espiraculo de defluxo, e absorvente de simonte.

Fui almoçar, e deixei o meu amigo na janella. Quando voltei, estava elle radioso de gloria.

«Então?--disse-lhe eu--quantos graus acima de zero marca o thermometro da visinha?

--Está pegado o namoro.

«Eu vi tudo.

--Mas não viste o melhor. Offereci-lhe uma carta. Ella primeiro disse que não...

«Que não sabia lêr?

--Não, homem: disse que não acceitava. Instei, e, por fim, deu signal affirmativo com a cabeça, e fugiu da janella.

«Oh! é tocante essa fuga! o que faz o pudor! A virginal menina não pôde mostrar a fronte á luz do sol, depois d'uma fraqueza a que a paixão a compelliu!

--Tu estás caçoando!

«Forte scisma a tua! Não póde a gente vestir as suas idéas com as pompas da linguagem! Ora vamos, Bento. É preciso escrever á pequena.

--É um grande embaraço. Não sei como se escreve a esta mulher. Será muito estupida?

«Parece-me que é, e, nesta hypothese, escreve-lhe uma carta muito tola. Queres tu ser o secretario? Eu entro no teu coração e fallo por ti.

--Valeu! nota lá a carta.

«Senta-te, e escreve.

Eu accendi um cigarro, sentei-me de cocoras sobre a minha cama, entrei em espirito no espirito do meu amigo, e dictei a seguinte carta, que offereço como norma aos amadores das Hermenigildas:

«Meu adorado Bem.

«Com o coração em viva brasa, lanço mão da penna tremula para expôr á vossa compaixão o triste sudario da minha alma.

«Os vossos olhos são settas do deus implacavel, que não perdôa a rei nem a vassallos, que abranda o coração da panthera de Java, e enternece as melodias do rouxinol do salgueiro.

«Ferido neste coração, que é vosso, tenho direito a pedir-vos balsamo para a chaga que vossos olhos me rasgaram no peito.

«Ingrata serieis, amada Hermenigilda, se mostrasseis indifferentes á dôr, os olhos que tamanha dôr causaram! Não! é impossivel que nesse peito de alabastro, ninho dos prazeres, se aninhe a vibora da ingratidão!

«No vosso angelico sorriso, ó cara amada, pousou a minha felicidade, que, ha muito, busco, por toda a parte, como andorinha que perdeu o trilho aerio da sua patria, e ficou erma e só na região das neves...»

--Ella não entende isto!--exclamou o meu amigo!

«É justamente o que nos convém. Se ella entendesse isto, faria da carta dous papelotes, e mandava-te á fava. Continúa:

«Eu sou como o viajante nos desertos da Mezopotamia, ardente de sede, pedindo a cada miragem uma gotta de agua, e bebendo candeias accesas nos raios do sol oriental!

--Isto parece-me asneira!--replicou o amanuense--_Bebendo candeias!_ Viu-se já um similhante disparate!

«Pois tu queres que ella te entenda, ou não?

--Quero que entenda: é boa a pergunta!

«Pois se tu lhe disseres que bebias no deserto linguas de fogo em logar de candeias accesas, entender-te-ha ella melhor? Candeias sabe ella perfeitamente o que são; e linguas, em quanto a mim, só conhece a de porco e a de vacca. Se me pões contraditas ao libello, recolho a inspiração, e deixo-te nas trevas. Escreve lá:

«Nos meus sonhos...

_Entre parenthesis._ Este estylo hoje é rançoso, e qualquer caixeiro o escreve sobre o mostrador, entre uma ceira de figos de comadre e tres achas de pau campeche; n'aquelle tempo, porém, em 1826, era necessario ter um talento creador para espetar a phrase na região do sublime. Eu fui um dos apostolos deste estylo; e glorio-me de ter feito escóla. Vieram depois os imitadores, sem critica nem gosto, e asnearam de modo que venceram o passo que vai do sublime ao ridiculo.

«Escreve lá, Bento de Castro.

«Nos meus sonhos, tenho visto muitas vezes uma visão vestida de nuvens coradas de luz, calçada de estrellas, coroada com o arco iris, sentada na lua, com o sol engastado no peito, e o globo terraqueo a seus pés. Ereis vós, Hermenigilda! Apenas vos vi, reconheci-vos como o molosso reconhece o dono, e a rola o ninho, e a lebre a cama, e a truta a acolheita.

«Vêr-vos, e não amar-vos, seria morrer de vêr-vos; e amar-vos sem vêr-vos, só eu pude; e que faria eu depois ao vêr-vos, senão amar-vos!?

--Acaba depressa com isto!--interrompeu o meu amigo--Vêr-vos, não vêr-vos, amar-vos, e vêr-vos, e não amar-vos... que diabo de embrulhada é esta!?

«Tu és um tolo!--redargui eu--Está explicado o segredo da tua nullidade perante as mulheres. Tens trinta annos, e todas as tuas conquistas reduzem-se á filha do chapelleiro de Braga. Podias ter um nome em Portugal, se ao teu patrimonio, quasi dissipado, e á tua excellente figura, quasi em decadencia, juntasses um pouco de estylo. Todo a conquistador deve ter um arsenal bem fornecido de bombas phraseologicas. A idéa não é que persuade uma mulher, é a palavra. O que tu chamas _embrulhada_, meu patavina, é o melhor que se póde dizer quando não ha nada que se diga.

--Suppomos---replicou elle--que esta mulher não me entende?

«Certo disso estou eu.

--O que se segue é não me responder, porque receia que eu me ria da sua ignorancia.

«É justamente o que te convem, tolo.

--Que me convem!

«Sim; convem-te que não responda, porque não respondendo, falla-te. Que lucras tu com a correspondencia epistolar desta mulher?

--Parece-me que pensas bem!... Tu és um grande homem! Ora anda lá, diz mais alguma asneira.

«Onde estavamos nós?

--Estavamos no _vêr-vos e não vêr-vos, amar-vos e não amar-vos_...

«Ah! já sei... põe lá:

«Cesar foi, viu, e venceu. Eu vim, vi, e fui vencido! Maravilhosa coincidencia de constrastes, Hermenigilda querida!

«Mas é tão dôce ser escravo, subdito e fiel vassallo vosso! Quereis vós ser a rainha desta alma? Governai-a com o vosso sceptro de amor; subjeitai-a aos decretos e leis regias dos vossos soberanos olhos; regei esta monarchia com o absolutismo despotico da vossa augusta vontade.

«Se não quereis responder-me, senhora, dai-me n'um sorriso o signal de que acceitaes preito e homenagem do vosso mais humilde feudatario,

_Bento de Castro da Gama._»

O meu amigo, a meu pedido, fechou a carta em coração, e postou-se na janella. Hermenigilda appareceu. A carta foi-lhe mostrada; ella fez menção de recebel-a. Castro sahiu, roçou-se pela porta, lançou-a no pateo, e tornou para a minha janella.

Hermenigilda não apparecia: estava naturalmente estudando os jeroglificos druidicos da carta.

O preto, porém, veio á sala, e fez uma careta medonha ao meu amigo.

V.

A careta do preto fez pensar o meu amigo tão seriamente que desde logo resolveu imprimir-lhe em qualquer parte quatro pontapés homericos.

Eu combati o projecto com a logica da prudencia, fazendo vêr ao pundonoroso Castro que a careta do preto era uma dessas innocentes caretas que a natureza patusca ensinava aos macacos. Convencido zoologicamente da aproximação das duas especies, visto que a careta era de instincto, o amante fogoso de Hermenigilda prometteu levantar de sobre a cabeça do negro, não direi a espada de Damocles, mas a bota de montar com espora de prateleira, seu calçado favorito.

Mais do que as minhas razões, a presença da visinha aquietou os impetos cavalheirosos do meu amigo. Eu puz-me á espreita. Vinha jubilosa, com cara de paschoas, um ar de alegria lôrpa, e a expressão mais significativa de que não entendêra palavra da carta arripiada.

Castro, sem ser acanhado, parecia um tolo, sorrindo com ella.

«Pergunta-lhe se responde» disse-lhe eu cá de dentro.

O meu amigo esperou o ensejo d'uma olhadura, fez menção de escrever na palma da mão esquerda, tregeitou com a cabeça uma pergunta, e ella de lá respondeu que não. Castro fez um bico de ternura dolorida, encolheu os hombros em ar de paciencia, e vestiu o semblante com uma visagem melancolicamente sandia.

«Pergunta-lhe se falla» tornei eu cá do meu centro de operações.

--Podeis fallar-me?--disse elle, improvisando com as mãos um ridiculo porta-voz.

Ella fez-se desentendida, e o meu amigo levantou nota e meia á pergunta:

--Se podeis fallar-me...

Hermenigilda não respondeu ainda, e Castro ia de certo interrogal-a com toda a franqueza dos seus pulmões, quando viu, lá ao fundo da salêta, reluzirem os olhos do preto, como duas carochas em carvoeira. Como se não podesse supportar o magnetismo hediondo d'aquelles olhos, recolheu-se para dentro, murmurando:

--Eu quebro a cara ao preto! La está o patife a espreitar-me.

Eu estava de pachorra para tranquillisar a raiva do meu brioso amigo. Fiz-lhe vêr que os grandes triumphos custavam grandes heroismos de paciencia. Lembrei-lhe Annibal agatinhando as agruras dos Alpes; Colombo jogando o sopapo com a tripulação; Bonaparte comendo farinha de pau no deserto das piramides, etc. O meu amigo succumbiu perante os exemplos da historia, e resolveu tolerar com paciencia todas as caretas do preto.

«A ti o que te convem--disse-lhe eu--é relacionares-te com o Pantaleão. Tu não conheces o Miguel das Infuzas?

--Quem é o Miguel das Infuzas?

«É um fidalgo do Porto, grande genealogico.

--Não conheço na nobliarchia portugueza esse appellido _Infuzas_.

«Tambem eu não; mas o appellido é acquisição feita pelo tal Miguel. Chamam-lhe o _das Infuzas_, porque elle, amador das artes, viu duas pequenas infuzas de prata n'uma ceia explendida dada ao general do Porto, e quando a occasião lhe foi propicia acondicionou-as o melhor que pôde nas algibeiras da casaca. Passado tempo, o proprietario das infelizes lobrigou-as em casa d'um usurario, e sabendo que o erudito genealogico as pozera no prego, divulgou o feito do illustre neto dos Teives e Couceiros e Moscosos. D'ahi em diante, a classe media associou as infuzas aos appellidos deslumbrantes do fidalgo, que continua a esmerilhar na genealogia do proximo um casamento desigual de quinto ou sexto avô, para, nos seus momentos de soberba aristocratica, mostrar aos primos uma nodoa na arvore deste ou d'aquelle que ousa chamar-lhe primo.

«Aqui tens o maior amigo de Pantaleão. Eu não posso apresentar-te porque não pertenço á roda, como sabes; mas tu que és irmão de morgado, procura-o com o fim de esclareceres uma duvida sobre o teu oitavo avô. Logo que fallares em oitavo avô, o homem manda-te sentar, e pergunta-te onde estás hospedado.

--E que diabo hei-de eu dizer-lhe do meu oitavo avô?!

«Inventa qualquer toleima... por exemplo: queres saber se teu oitavo avô instituiu uma capellania; queres saber se teu oitavo avô casou com a segunda ou terceira filha dos senhores de Panoias; queres saber se o teu oitavo avô foi casado com a tua oitava avó. Ha trinta mil cousas a saber d'um oitavo avô, pois não ha!

--Mas eu sei cá quem foi o meu oitavo avô?

«Isso elle t'o dirá. É capaz de te descobrir um joanete que elle tinha no pé esquerdo. Conseguido o primeiro passo, pergunta-lhe se uma senhora da tua familia é exacto ter casado, ha 327 annos, na casa de Villar de Gaivotas, d'onde elle se diz muito parente. Consegue que elle te chame primo, e eu corto ambas as orelhas, se tu não casares com Hermenigilda, apesar de todas as caretas do preto.

--Tu nunca fallas serio, João! Devéras entendes que eu falle ao homem?

«Hoje, se é possivel. Isto são favas contadas. O Miguel das Infuzas vem jantar, todos os domingos, com o primo Pantaleão, e tu és apresentado no proximo domingo.

Castro foi á janella dispensar um sorriso a Hermenigilda.

Com grande espanto meu, a rubra menina, sem ser provocada a fallar, disse, affectando muito receio de ser ouvida:

«Posso fallar-vos daqui da janella, depois que meu pai e minha mãi estiverem deitados.

--A que horas?

«Ás nove.

--Ás nove!?--replicou elle maravilhado.

«Sim, sim,» tornou ella, e desappareceu.

--Isto vai bem!--exclamou Castro--Mas ás nove horas! tão cedo!

«Teu futuro sogro, meu amigo, segundo me disse a creada dos calcanhares gretados, come o seu caldo requentado ás sete horas, arrota até ás oito, deita-se ás oito e um quarto, adormece ás oito e meia, e ás nove é uma massa bruta, inerte, inamovivel. Bom é que vás sabendo o programa do teu futuro em casa do fidalgo d'Amarante. Ás oito horas has-de estar no thalamo conjugal com o barrete de retroz por cima das orelhas, e ás nove has-de resonar o mais estupidamente possivel, fazendo um dueto com tua mulher.

--Estás enganado!--replicou elle--Se eu casasse com ella, pensas que me ia degradar na Amarante? Isso sim! Eu quero viajar á custa de minha mulher, e dar-lhe-hei a honra de me acompanhar. Que póde viver a mãi de Hermenigilda? Dous ou tres annos, quando muito. Logo que ella se resgate da gotta, está a filha de posse d'uma excellente casa. A do pai ella virá quando vier, e virá sempre a tempo de me dourar as cadeias. Queres tu viajar comnosco?

«Oh! pois não hei-de querer!? Havemos de ir a Vallongo, dia de Santo Antonio, e quando reunires ambas as casas de modo que possas cortar por largo, iremos a Vianna, á Senhora da Agonia! Que bello futuro!

--És um pateta!--redarguiu lisongeiramente o meu amigo.--Não se póde fallar serio comtigo! Vamos ao caso: visto que ella me falla ás nove horas, é escusado procurar a protecção do Miguel das Infuzas.

«Pateta és tu! Sem o Miguel das Infuzas não fazes nada. Se o teu fim fosse seduzir Hermenigilda, convinha-te sustentar o namoro clandestinamente, evitando relações com o pai. Mas tu queres casar, e casar com brevidade; precisas ser admittido ao gremio da familia; dar ao teu namoro um ar de honestidade boçal; cabecear com somno todos os dias, meia hora ao pé da noiva; jogar a bisca de nove com tua sogra, e representares, em fim, de palerma até ao dia em que se cruzarem definitivamente as raças. Não deixes, portanto, de procurar o Miguel das Infuzas. Vê o que ella te diz hoje, e ámanhã vai ao Porto saber alguma cousa do teu oitavo avô.»

Castro foi á janella trocar com Hermenigilda dous gatimanhos alvares, como são todos os gatimanhos preliminares d'uma grande asneira.

VI.

Ás nove horas em ponto, Bento de Castro sahiu de minha casa, e plantou-se debaixo da janella do snr. Pantaleão. Eu apagára a luz, e espreitava pelos buracos da cortina o introito do _rendez-vous_. Espreitava, e escutava, não por mera curiosidade, porque não sou curioso, mas por utilidade propria, visto que me tinha encontrado em grandes apertos de eloquencia nos primeiros encontros com trinta e oito mulheres.

O leitor casto--(para não ser sempre _pio_), que chegou aos cincoenta annos sem experimentar os apuros de namorado na sua primeira entrevista, está muito longe de imaginar o que é uma agonia séria!

Eu, João Junior, em quem a Europa reconhece um espirito superior e mais um bocadinho, recordo hoje com vergonha a plangente figura que fiz, ha quarenta annos, diante dos meus namoros.

A primeira mulher que amei era uma dama de alto nascimento, que tivera bastante influencia no quartel general de lord Wellington, e jogára, por causa d'um ajudante d'ordens do mesmo, o sopapo com uma viscondessa celebrada, cujos dentes, que foram bellos, passaram com os meus para o dominio da historia.

Esta dama, com os seus quarenta annos bons, era ainda formosa, e fallava admiravelmente sobre quasi tudo, e com especialidade sobre a acção immoral que a revolução franceza exercera, por tabella, nos salões lisbonenses. Dizia ella, com um riso sarcastico nos finos labios, que os inglezes vieram executar em Portugal as theorias livres da França. Acrescentava que o fardamento dos officiaes de Beresford conseguira das mulheres lusitanas, raça das Brites, e das Vilhenas, o que os romances de Voltaire, não poderam fazer.

Ora vejam que tal era a primeira mulher que me trouxe pela mão o travesso Cupido, que n'aquelle tempo estava no ministerio!

Foi aqui justamente na Foz que eu a vi, rodeada de satellites sufficientemente parvoinhos para perderem o centro de gravidade e cahirem no espaço infinito dos conquistadores aleijados.

Fiz-me importante aos seus olhos por lhe salvar uma cadellinha que escorregára do _penedo d'Apollo_ ao mar. Apenas a vi em ancias, despi o casaco, metti-me até ao peito na agua, apanhei a cadellinha, que a ressaca levava para o mar, e, como Camões,

Dos procellosos baixos escapado,

vim lançar no regaço da afflicta dama a cadella gemebunda.

Fui bonito, como vêem, para casa! A nobre senhora quiz recolher-me no seu quartel, e eu, sem dar tempo a reiterados rogos, nem agradecer-lh'os, porque os queixos faziam uma traquinada diabolica, metti-me á cama, onde transpirei tres dias, bebi dez garrafas de tizana; puz no peito um arnez de pez de Borgonha, e ao cabo d'uma semana fui deixar um bilhete á exc.ma dona da cadella, que mandára saber de mim todos os dias duas vezes.

Encontrando-me na praia, disse-me ella com muito agrado:

«Eu não me satisfaço com o seu bilhete. Sou mais ambiciosa. Quero que me dê o gosto de ir passar alguns momentos a minha casa, onde se joga, e ri, e conversa, depois d'um mau chá. Hoje poderei contar com a honra da sua visita?

--Oh minha senhora!...

«Não me deixe na duvida. Meus manos querem ter o gosto de o conhecer... (Em 1819 era assim que se dizia a um homem da minha roda. Hoje os manos de s. exc.ª, querendo conhecer-me, procuravam-me em minha casa. Que progresso immenso em quarenta annos!)

«Não nos falte! (proseguiu ella gesticulando seductoramente). Por me ter feito um grande favor, não se segue que me prive d'outros.

--Oh minha senhora!...

«Um grande favor, sim! Mal sabe o amor que tenho a esta cadellinha. É ingleza... foi-me enviada por um general britannico das minhas relações de infancia. (_Nota_: s. exc.ª tinha recebido a cadella em 1812; tinha ella então _trinta e dous annos_... que _infancia_! e que relações!) Calcule o impagavel serviço que recebi...

--Oh minha senhora!

Nunca pude passar desta apostrophe palerma: _oh minha senhora!_

Que idéa fará esta mulher da minha intelligencia? perguntava eu ao outro _eu_.

Com effeito, na noite desse dia apresentei-me em casa da exc.ma snr.ª D. Vicencia dos Anjos Albergaria Raposo Cogominho etc.

(Parece-me que vai sahindo grande estopada a historia! Já agora, leitor, não queiras que eu perca duas tiras de papel, escriptas debaixo da inspiração saudosa dos tempos ridiculos!) Apenas entrei, fui rodeado de caras desconhecidas. Vi muita velharia femea sentada a um canto da sala. Fui lá fazer os meus comprimentos, e apenas uma se dignou bamboar um pouco a cabeça. As outras perguntavam á dona da casa quem era eu. Este _quem é_ ignominioso passava de bocca em bocca, já depois que D. Vicencia dissera alto e bom som: «O snr. João Junior é o salvador intrepido da minha cadellinha.» Ser João, e salvar cadellas não era habilitação bastante para ser apresentado.

Deu-se-me pouca importancia; apenas o capellão me veio perguntar quem era, d'onde era, que modo de vida tinha.

O orgulho começou a picar-me, e eu respondi que era o que fôra antes de ser o que era. Que nascera em qualquer parte onde o acaso me fizera nascer. Que o meu modo de vida era viver de modo que podesse rir-me dos tolos que o acaso do nascimento fizesse mais tolos do que eu.

O capellão ficou atonito deste trocadilho insulso, e fêl-o mais parvo do que era, revelando-o aos hospedes de D. Vicencia.

Ella, porém, viera sentar-se ao meu lado, e animou-me a eloquencia com as liberdades da sua conversação.

Fallou-me no amor, e parecia mais bella, acalorada com o enthusiasmo deste grande assumpto. Perguntou-me se tinha amado, e se lhe fizera a ella o sacrificio de privar a minha amante d'alguns instantes felizes.

Respondi que apenas sahira da minha aldeia vinte dias antes, pela primeira vez, e não sentira ainda o que era amor.

«Sim!?--atalhou ella, abrindo muito os olhos scintillantes.

--Sim, minha senhora.

«Um coração virgem! É crivel! Qual será a feliz mulher que se aqueça ás primeiras chammas da sua alma?

Esta metaphora pareceu-me magnifica e fez-me impressão! Se lhe respondesse, diria necessariamente uma futilidade chôcha. Calei-me, e, se bem me recordo, córei.

Se dispensam saber o resto, não leiam o capitulo seguinte.

VII.

Pouco depois, tres morgados das margens do Tamega vieram sentar-se ao pé de D. Vicencia, e começaram a fallar de cavallos. Discutiu-se a pulmoeira d'uma egua ingleza, e os alifafes d'um alasão de Alter. D. Vicencia fallou d'um urco inglez que era o mimo quadrupede do quartel general do Beresford, e datou precisamente que em metade do seculo XVIII florescera o tronco d'um cavallo pigarço que lhe morrera d'um aguamento na estalagem de Vallongo.

Eu assisti estupidamente silencioso á pratica destes dignos Plutarcos de cavallos illustres. Se quizesse dar o meu obulo para a conversação, poderia apenas apresentar as minhas averiguações sobre quatro mataduras d'uma egua em que viera, graças á benevolencia prestante do meu abbade.

Á meia noite, um tio de D. Vicencia, conego da sé patriarchal, principiou a resonar a um canto da sala. A trombeta nazal do distincto ornamento da igreja era o signal do despejo. A nobreza destes reinos principiou a sahir, e eu, depois de quatro curvaturas, correspondidas por quatro mesuras de alto a baixo, em que era soberanamente ridicula D. Vicencia, fui para o meu quartel, scismar na mulher, á luz d'uma bugia.

Devo confessar que me não sahia das orelhas o ecco destas dulcissimas palavras: «qual será a primeira mulher que aqueça as primeiras chammas da sua alma?» Esta honra de fogareiro, concedida pelos melhores quarenta annos que meus olhos viram, alvoroçou-me o sangue, e tirou-me a vontade da ceia, dôce amiga que até então me embalava nos sonhos deliciosos d'um Vitellio de meia tigella.

Vi duas vezes a mulher, em sonhos. Não sei porque, mas o sonho com a mulher que póde amar-se, essa casta idealisação em que o material do corpo não entra, faz que a gente accorde amando-a, revendo-a através da nuvem esvaecida do sonho, desfigurando-a por uns contornos vaporosos, que o leitor nunca viu, se Deus lhe fez o favor de lhe dar uma alma bem chata, do que lhe dou os meus sinceros parabens.