Scenas da Foz

Chapter 13

Chapter 133,874 wordsPublic domain

Parecia somnambula. Julgal-a-hieis sem idéa, sem vontade, sem consciencia do que fazia. Vestiram-na. Entrou n'uma sege, achou-se ajoelhada no arco d'uma igreja, respondeu umas palavras que lhe ensinaram, e viu-se sosinha com um homem, na sege, onde viera com sua madrasta.

Conduziram-na ao quarto de seu pai. A vida então sahiu do lethargo. Leocadia achou abertos os braços paternaes para recebêl-a. Lançou-se a elles chorando, soluçando, arquejante, abafada por uma agonia, cuja intensidade ella não pôde explicar-me. O que me disse, para eu alcançar com os olhos d'alma a sombra da sua dôr, foi que, abraçando o pai na volta da igreja, se lhe figurara a imagem moribunda de Vasco, fitando-a com um olhar piedoso, em que parecia dizer-lhe: «perdoo-te a morte, Leocadia.»

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O coronel sobreviveu quatro dias aos desposorios de sua filha.

O festim de nupcias foi um funeral.

A noticia do casamento foram as cartas de enterro.

A noiva despiu o vestido branco para se envolver no de crepe que nunca mais despiu.

XVI.

O pinhal do _Pastelleiro_ rumorejava brandamente, assoprado pelo ar da noite. O mar era uma immensa bacia d'aguas mortas. A lua mosqueava-lhe o dorso em escamas lucidas. O archanjo da poesia com o seu cortejo de chimeras volateis, brincava na alamêda das fontes murmurosas, gemia com o piar tristonho das aves queridas da noite, e sentava-se na peanha dos cruzeiros, que a projecção da luz assombrava no chão.

Eu estava profundamente melancolico. E ao pé de mim viera sentar-se Leocadia, na pedra bruta, que ainda hoje vereis, servindo de tranqueira a uma cancella fronteira da casa.

Acabára eu de ouvir o quadro que apenas esbocei no anterior capitulo.

A narradora calara-se, e eu não ousára quebrar o seu religioso silencio.

Eu bem vira que as suas palavras derradeiras eram um como tremulo gemido. Sentira vibrarem-lhe afflictivamente as fibras do coração, como se as ferisse a realidade dos successos que a gentil martyr recordava.

E, por isso, o meu silencio era a expressão da pena, o pasmo em que nos deixa um espectaculo lugubre. Eu tinha em mim todas aquellas imagens, descriptas por ella como quem as entalhára com fogo no coração. Via o altar do tremendo sacrificio, via o leito do agonisante. As feições do coronel, apanhadas pelo regêlo do trespasse, essas, que eu nunca vira, todas se me desenharam na imaginação, sempre fertil de creações funebres. Ao pé de mim estava a heroina desta tragedia, ainda formosa, ainda opulenta de encantos, flôr orvalhada das lagrimas do céo para onde ella mandava continuamente o seu perfume.

Que mulher é esta que eu encontrei na terra, para apertarmos as mãos n'um adeus para sempre?

Que attribulada expiação a da minha alma que só póde chorar as penas d'ella!

Não póde amar-me, não; eu sei que não póde, e offertar-lhe o meu amor seria injuriar a sua saudade!

Para que te encontrei eu, santa!

Estas ultimas palavras fugiram-me, como a revelação d'um sonho. Leocadia tocou-me ligeiramente no hombro, e disse:

«Que é? Não sei o que disse...

--Nada dizia--repliquei eu--Sonhava, minha querida irmã, sonhava. Sabe, minha amiga? Está-me pesando a vida. Não sei o que ha-de ser de mim... quando a perder. Abençoada seja a mão da morte, que baixou a apanhar de entre os felizes do mundo os que vieram com o condão da minha desventura.

«Porque, meu amigo?!

--Porque entre nós ha só de commum a confidencia d'algumas horas, a confidencia que não modera os impetos d'um desgraçado amor...

«Oh! não diga, não diga isso outra vez...--atalhou Leocadia pondo-me a mão nos labios--Tenha pena de mim... Chame-me sua irmã, senão arrependo-me, sinto o primeiro remorso da minha vida...

Beijei-lhe a mão, e murmurei:

--Até ámanhã.

«Sim? até ámanhã? quem sabe se nos veremos! De um momento para o outro posso ser mudada... E eu queria, meu irmão, queria acabar hoje a minha historia. Não sei que presagio me diz que não teremos outra noite assim... Mais alguns minutos... diz-se depressa o que falta... Quer?

--Diga, diga, Leocadia; mas faça um juramento.

«Juramento! qual?

--Qualquer que seja o seu destino, se tiver vida, se tiver um instante seu, lembre-se de seu irmão, escreva-lhe uma palavra, uma só «vivo» só isto... jura?

«Prometto, meu amigo, e não faltarei... E se lhe disser «morro» é que Deus me chamou para ao pé de Vasco...

--Sim, sim, falle-me desse infeliz que a chama, desse amigo que a minha imaginação contrahiu... Morreu, sim?... e que morte!...

«Eu quasi que o vi morrer.

--Viu?! É horrivel, meu Deus!

«Foi assim. Oito dias depois da morte de meu pai, Francisco de Proença perguntou-me se eu queria ir para o campo. Entreguei-me á sua vontade. Minha madrasta desejava sahir de Lisboa, para desafogar da sua saudade. Fomos para uma quinta entre Cintra e Collares.

«Estavamos ahi havia um mez. Thereza, a meu pedido, escrevêra para Lisboa a quem a informasse de Vasco. Disseram-lhe que elle e a mãi estavam a ares em uma das quintas. Eu pedia por elle a Nossa Senhora todos os dias, muitas vezes, e com immensa fé.

«Uma tarde, Francisco de Proença fôra á caça, e eu fui com Thereza passear para a banda de Collares. Havia no caminho uma azinheira, um sitio que respirava saudade, entrei por alli dentro, e fui ter a um portão de quinta, que tinha uma grande arvore. Sentei-me áquella sombra, vendo cahir as folhas, e comparando-as á queda de tantas, de todas as minhas esperanças. Estava assim absorvida, bebendo as doçuras do meu fel, quando o portão se abriu. Estremeci... Era um padre que sahia... o padre capellão de D. Maria Maldonado!

«Elle fixou-me com espanto, e apenas me cortejou; esteve um pouco a olhar-me, e disse:

--A menina não é a snr.ª D. Leocadia?

«Sou, sim, senhor.

--Então que faz por estes sitios?! disse elle admirado.

«Vim a passeio... Moro n'uma quinta perto d'aqui.

--Pois se quer entrar, eu dou parte á snr.ª D. Maria.

«Como!?--exclamei eu--a snr.ª D. Maria Maldonado?!

--Sim, minha senhora, está aqui com o snr. Vasco--disse-me elle--e o snr. Vasco vai dar contas a Deus brevemente.

«Meu Deus! eu não posso lembrar-me do que então disse ou fiz. Entrei n'uma tremura de susto, de terror, de não sei que tormento novo para mim. Conheci que me fugia o entendimento, e a vista. Queria tirar-me d'alli, e não podia; ainda pedi a mão a Thereza, e já não pude dar passada. Desfalleci nos braços d'ella.

«Voltando á vida, que a justiça de Deus não quiz levar-me, achei-me sentada n'um banco de pedra, n'um jardim. Ao pé de mim estava D. Maria. Fiz um esforço por ajoelhar-me aos pés d'ella. Susteve-me; e chorava, meu Deus, como chorava a pobre senhora!

«É a vontade de Deus... disse-lhe eu, que aqui me trouxe. Queria vêl-o, minha querida mãi, diga-lhe que a mão do Senhor me conduziu aqui para receber o seu perdão... Mas eu não sou culpada... Meu pai estava a expirar... Morreria atormentado...» Ai... eu não sei o que disse, entre gemidos... D. Maria olhava-me com ar de compaixão, e consultava os olhos do padre. Este acenava negativamente. Não queria que eu visse Vasco... E eu estava de joelhos aos pés de D. Maria, quando ouvi proferir o meu nome, n'um grito. Olhei... era Vasco, abrindo uma vidraça. Era elle, livido como um espectro vestido de branco, com os olhos abrasados de delirio... A janella cahiu, Vasco desappareceu, e o padre subiu a correr umas escadas, em quanto D. Maria sustinha o meu arrebatamento. «Deixe-me, deixe-me vêl-o!» rogava eu, allucinada, louca de paixão, capaz de matar-me alli, se me não deixassem ir!

«Ao cimo da escadaria, o padre encontrou-se com Vasco. Não o conteve; desceram ambos atropelladamente. E o meu infeliz anjo exclamou: «Vieste para mim, minha esposa?... Eu esperava-te, esperava-te, como se espera a salvação.»

«E eu rompi n'um choro que era sentir-me morrer. O desgraçado não sabia que eu estava casada!

--Falla, falla!--gritava elle--vens ser minha esposa? fugiste a teu pai? esse tyranno teve compaixão de nós?--Cala-te, meu filho!--exclamava D. Maria... Estás enganado! «Enganado! pois esta não é a minha esposa?!»

«O padre tomou-o pelo braço, e exclamou:

--Não, não é sua esposa... é esposa d'outro que seu pai lhe destinou!--

«Vasco soltou um terrivel grito, levou as mãos á face, e foi cahir nos braços de sua mãi... «Matai-me, meu Deus!» exclamou elle.

«Agora--proseguiu Leocadia arfando convulsivamente--peço-lhe eu que vá, meu amigo, não posso continuar... Estou doente... Adeus... Se eu não podér fallar-lhe, ha-de lêr o resto da minha historia.»

Leocadia entrou encostada ao meu braço em sua casa. Eu fiquei alli não sei que tempo entorpecido. Quando me retirei, alvorecia a manhã.

XVII.

O CARACTER DE FRANCISCO DE PROENÇA.

É preciso virmos procural-o aos nossos ultimos annos.

Em 1828 o homem não era ainda feito á similhança do typo, que mais o encantára, no romance.

Depois de 1834, é que as bibliothecas de novellas entraram por aqui dentro a fecundar este chão bravio, como extravasantes do Nilo.

Era necessario ser-se excentrico, desde o ventre materno, para ser romantico em 1828.

Francisco de Proença representa a vanguarda dos descabellados em Portugal.

Desde criança, merecêra pelas suas escaramuças sanguinarias aos coelhos, o cognome de «Attila de coelheira.»

Em Coimbra, chamavam-lhe o _chevalier sans peur et sans reproche_.

A sua principal mania era o brasão. Estava apparentado com as primeiras casas da monarchia, por um tal Egas, filho de Mem, neto de Fuas, e bisneto de Ruy que acompanhára D. Henrique a Cárquere, a cumprir um voto d'uma perna torcida.

Depois, e em consequencia d'esta mania, tinha um requinte de brios que lhe custou muito puxão d'orelha.

Desafiava a espadão todo o mundo, e quiz mandar um cartel a um doutor octogenario que o reprovou em mathematica.

Na primeira carta a um namoro que tivera assignava-se o _commendador Francisco de Proença_. A menina riu-se, e o fidalgo, no adro d'uma igreja, perguntou-lhe se os trabalhos da cozinha a não deixaram responder.

Tinha destas cousas.

Os seus bens de fortuna não eram o que elle precisava que fossem para sustentar o seu orgulho.

Aceitou a mão da filha de seu padrasto, porque a paixão o acolheu de subito. Leocadia, com o seu desdém, pisára-lhe a soberba. Proença foi vencido pelo desprezo.

Sua mãi, de mais a mais, dissera-lhe que Leocadia era a presumptiva herdeira de dous tios millionarios que tinha na America.

O _dinheiro commercial_ não lisongeava o fidalgo; todavia, esta repugnancia pôde vencel-a o amor.

Casou, e não se póde dizer se tractou bem ou mal sua esposa. Estas differenças são as mulheres que as notam, e Leocadia recebia com tedio disfarçado as amabilidades de seu marido.

Para o não detestar, tinha sempre entre si e elle a imagem de seu pai moribundo, e o crucifixo do juramento.

Leocadia habituára-se a viver fóra do seu corpo... A alma voava livre onde a chamava a saudade; a materia era a victima sacrificada. Deste modo, affazer-se-hia ao captiveiro, sem sondar a indole d'um homem que a chamava sua.

O traço, porém, mais caracteristico da indole romanesca de Francisco de Proença, vai descobril-o um infeliz acontecimento.

Quando Leocadia sahia, encostada ao braço do capellão, o portal da quinta dos Maldonados, Francisco de Proença, vindo da caça, atravessava a azinhaga, assobiando aos perdigueiros.

Leocadia presente-o, e quer esconder-se; mas era tarde. Proença pára estupefacto, e Leocadia pára tambem. O fidalgo, que não conhecia o padre, interroga-o:

«Quem é o senhor?! Como se acha aqui a senhora?!

O padre tartamudeou:

--Eu sou capellão d'esta casa.

«Que casa é essa?

--De uma minha amiga--balbuciou Leocadia.

«É admiravel que eu não conheça as amigas da senhora! Como se chama essa amiga?

O padre, aterrado pelo olhar soberano de Proença, disse:

--É a snr.ª D. Maria Maldonado.

O cavalheiro fixou attentamente sua mulher. Leocadia não levantava os olhos do chão. A surpreza reduziu-a ao silencio, que confessa o crime, e é já em si um principio de penitencia.

«Vamos, senhora!--disse Proença.

Decorreram tres dias, sem que Leocadia visse seu marido. Procurou-o, deliberada a convencêl-o da sua innocencia com a sincera historia do seu amor áquelle homem. Proença soubera tudo de sua mãi, e furtava-se ao encontro com sua mulher.

Ao quarto dia, Leocadia foi avisada, da parte de seu marido, que preparasse o seu bahú para viajar, com elle, no dia seguinte. Ella pediu uma entrevista a Francisco de Proença. Respondeu-se-lhe que lá fóra teriam sobejas occasiões. Replicou a infeliz que não podia, que estava muito doente. Disse-se-lhe que em toda a parte havia uma sepultura.

A comitiva dos viajantes era unicamente Thereza. Esta criada convinha ás intenções do marido.

Desembarcaram na Madeira. Durante a passagem, Leocadia nunca pôde prender a attenção de seu marido dous segundos.

Quinze dias depois do desembarque, Francisco de Proença apresenta-se, pela primeira vez, em rigoroso lucto diante de sua mulher.

--Quem lhe morreu?!--perguntou ella.

«A senhora!

--Como?! está delirando!

«Quem morreu foi minha mulher--» tornou elle com uma visagem ridiculamente tragica.

--Pois se morri, eu vou morrer--disse ella com angelica mansidão--o Senhor receba a minha alma.

«A sua alma condemnada ha-de continuar a existir n'um corpo impuro.

--Não quero entender a injuria--disse ella com firmeza--Antes a morte.

«Morreu para mim; mas ha-de viver para o remorso. Eu sou viuvo, senhora. Em Portugal ha-de saber-se que eu sou viuvo. A que foi mulher de Francisco de Proença, terá de hoje em diante outro nome. A senhora jámais dirá que eu sou seu marido: o punhal está sobre o seu seio esperando que essa palavra lhe passe os labios. Dou-lhe a vida, porque vejo o coronel moribundo que me supplica este heroismo...

--E eu não aceito a graça--interrompeu Leocadia...

«Pois então, ha-de supportal-a como castigo. A senhora tem uma mesada, para viver onde queira, com tanto que a sua companhia unica seja essa criada que foi de sua mãi. Tenho a generosidade de conceder-lh'a; mas, senhora, repare que eu vou mostrar em Portugal a certidão do seu obito. No dia em que me desmentir, matei-a!

Leocadia pendeu a cabeça para o seio, e murmurou, sem lagrimas:

--Como quizer, senhor. Agora deixe-me em paz.

«Ainda não. Na provincia de Traz-os-Montes tenho um casal, situado entre quatro montanhas: Quer habital-o?

--Sou sua escrava, senhor.

«Sabe que de hora em diante perdeu o nome que tinha?

--O que quizer, mas não posso ouvil-o.

«Nem eu vêl-a mais; porque minha mulher morreu!»

E retirou-se, solemne e sonoro nos passos, como a estatua de D. João Tenorio.

Aqui está o que se chama um homem romantico e uma mulher desgraçada.

XVIII.

Se bem me lembro, já disse que Leocadia é o nome que a mulher de Francisco de Proença adoptou, desde a scena do anterior capitulo.

No decurso do romance, conservei esse nome, e já agora conserva-lo-hei até final. Podéra ter-lhe dado pseudonimo; mas tão leal quero ser á verdade, que, a não poder, por melindre e respeito, dizer o seu verdadeiro nome, escrupulisei na invenção de outro.

Leocadia, pois, sahiu da Madeira para Lisboa. No mesmo navio viera Francisco de Proença, que, em todo o tempo da viagem, não deu signal de ser ao menos relação de Leocadia. Sahiram para o Porto no primeiro hiate. D'aqui, D. Leocadia e Thereza foram para a provincia. O morgado de Sinfães appareceu-lhe na despedida. Terriveis e de eterna condemnação foram as suas palavras: «Vá, sombra da mulher morta! vá, e veja sempre diante de si o punhal, que lhe espera nos labios uma palavra só... o meu nome, o nome de seu marido viuvo!»

A desgraçada quiz ajoelhar-se aos pés do seu verdugo. Proença repelliu-a com um tregeito de escarneo e asco.

Leocadia foi viver no casal de seu marido. Era uma habitação mal reparada, sumida entre quatro montanhas.

Apenas chegou, foi recebida respeitosamente por um caseiro, que a reputava irmã bastarda, ou rapariga das affeições de seu amo solteiro. Leocadia perguntou a este homem porque estava a pedra de armas coberta de negro: respondeu o caseiro, se ella ignorava que tivesse morrido a esposa do fidalgo! Leocadia abraçou-se á criada, chorando, e disse: «É verdade... essa desgraçada morreu...»

O caseiro reparou n'isto, e disse á mulher que havia o quer que era de historia nos modos da senhora que viera lá de por ahi abaixo.

Leocadia entrou na cama, que lhe mostraram, e disse a Thereza que a sua ultima paragem antes da sepultura era alli.

Foi um chorar d'ambas de cortar o coração aos caseiros, que as escutavam.

Era rapido o deperecer de Leocadia. Não se erguia do leito, e pedia a Deus um paroxismo curto. O caseiro communicava para o Porto ao patrão o estado da senhora. Não recebia resposta.

Um dia, porém, appareceu na aldêa um homem que procurava D. Leocadia, com ordem de Francisco de Proença. Este homem diz ser medico. Examina a enferma, e diz-lhe que, por ordem da pessoa que alli a domina, deve immediatamente entrar n'uma liteira com a sua criada; e acompanhal-o. Leocadia, quasi exanime, obedece, sem saber a quem, nem para que fim.

A liteira, depois de sete dias de jornada, parou no alto de S. João da Foz, no sitio do Pastelleiro, onde eu, João Junior, encontrei Leocadia para ouvir de seus labios convulsos de gemidos essa historia triste, que eu tive a impiedade de conspurcar com algumas facecias de estragado gosto.

O que ella me não contou é o que me disse Thereza, alguns annos depois, quando sua ama já era defunta, e o acaso m'a deparou n'um recolhimento, em uma villa de Traz-os-Montes.

Attendam agora, que ahi vai pendurar-se o romance no prégo philosophico com que o intitulei: DINHEIRO. Vai-se tractar de dinheiro, leitoras espirituosas; prestem-me a sua benevola attenção.

Uma tarde passava eu no Pastelleiro; sahiu-me ao encontro a caseira da quinta, e deu-me a triste nova de ter sahido, na madrugada d'aquelle dia, a senhora para não tornar. Um homem novo, acrescentou a caseira, viera buscal-a, e descera com ella pelo braço a escada, fallando-lhe com muito bom modo. Agora vou fallar de mim um pouco.

Eu fiquei esthetica e plasticamente parvo!

Quem seria o homem?! O marido, de certo, não, porque o marido, até ao dia em que falláramos, estava viuvo, e não tratava de resuscitar a mulher. Seria a historia lamuriante uma logração á minha boa fé?! Seria ella uma visionaria, uma douda, ou, peor que tudo, uma destas mulheres desabusadas que mangam dos poetas da minha força?

É impossivel! Leocadia deve ser necessariamente um anjo! É o marido que a arrasta pelos cabellos ao cepo do martyrio. Alguem lhe disse que eu vinha aqui, e o malvado não comprehendeu que eu era o sacerdote da mais santa das amisades.

E, no afôgo da minha saudade, embrenhei-me por aquella bouça que lá verdeja ao fundo, enchi meu coração de tenebrosas angustias, e pedi aos meus olhos o chorar do desafôgo.

Inutil, inutil foi o meu rogar, porque a minha dôr era como o encravar do estilete que não sangra; eu tinha dentro o brazido do deserto, sem gotta de pranto; era uma contricção de matar, uma abafação em que os pulmões, batendo contra o coração, pareciam espedaçar-se.

E porque? É que eu amava muito aquella martyr, muito, com o amor tres vezes immaculado do poeta. Não esperava d'alli senão a religiosa affeição da victima paciente ao consolador que dera a sua vida inteira por um dia de ventura para ella. Mais nada; porém, este pouco é o ar, o tempo, a luz, a bemaventurança do desgraçado que encontrou na terra uma mulher como Leocadia, e uma paixão como a minha.

Tu viste, saudosa Poncia, que pranto ardente arou as minhas faces, no estio da existencia!

Nos tectos cavernosos do meu quartel reboaram longo tempo os eccos dos meus soluços.

Os meus dentes cerraram-se, como os do condemnado nas trévas inferiores, e tres dias e tres noites a minha lingua não encanou o bolo alimenticio.

A restea do sol de Setembro, mosqueando o taboado carunchoso do meu quarto, vinha pallida como a luz betuminosa dos infernos dantescos.

A brisa da tarde nunca mais se retouçou louçã pelas corollas das boninas tremulas.

Negra como a minha saudade, era negra a tunica funeraria de que a natureza se vestiu.

Diz tu, ó Poncia, se me viste comer ou beber durante oito dias, contados da data em que a minha alma se despegou d'aquella alma gentil que se partiu do Pastelleiro.

É verdade que passados esses oito dias, obedeci ao despotismo da natureza vegetativa, e ás instancias impertinentes da minha consternada Poncia.

O resultado foi sinistro: sobre uma paixão calamitosa uma indigestão pertinaz!

Convalesci com jejuns dignos d'um S. Simão Stelita, e depois... amei perdidamente uma tal Catharina... Isto é outra historia, que ha-de vir depois. Os meus continuados amores tem sido para mim um systema de medicina, por que diz o grande poeta:

Que o veneno espalhado pelas vêas Curam-no ás vezes asperas triagas.

Eu curo-me sempre assim. Em 1828 era eu mais homoeopatha que o proprio Hahnemann.

XIX.

Agora vai explicar-se tudo, e acaba-se o conto.

É o caso:

Lembre-se o leitor que o coronel Gervasio tinha dous irmãos ricos no Brazil, ambos solteiros. Estes homens negociavam em brilhantes, e, na ultima das suas excursões ao centro do imperio, foram assassinados por salteadores, deixando um grande capital sem testamento.

Do Rio de Janeiro vieram logo averiguadores a Portugal para comprarem a opulenta herança. Souberam em Lisboa que os herdeiros proximos, o coronel, ou sua filha, tinham morrido sem successão.

Francisco de Proença estava então no Porto, e mais d'um amigo lhe repetiu os pesames da fatal viuvez, que o privava d'alguns milhões.

Aqui está o nosso homem em embaraços de uma terrivel originalidade, ao passo que uma chusma de parentes remotos de sua mulher se habilitam pressurosamente!

A resurreição de Leocadia será possivel? A herança compensará a zombaria com que a sociedade vai entrar no segredo dos seus ridiculos brios?

Não foi longo o interrogatorio que o tragico viuvo se fez. Feito o escrutinio, os votos a favor da resurreição tinham a maioria. Proença resolveu arrancar sua mulher dos limbos, e para isso mandou á provincia o medico e a liteira.

Leocadia, como vimos, é conduzida ao Pastelleiro, e espera ahi tres mezes a primeira visita de seu marido, depois de ter assignado algumas procurações, cuja significação ella não entendeu. Francisco de Proença fôra a Lisboa tractar de habilitar sua mulher.

Julgaram-no doudo porque a morte da filha do coronel era caso decidido para as relações de ambos; e como o viuvo teimava em affirmar que era casado, protestando apresentar sua mulher viva em presença de testemunhas que a conhecessem de vista, a opinião da justiça foi que viesse a Lisboa a supposta defunta, e ao mesmo tempo se averiguasse na ilha da Madeira se alli, em tal mez, d'aquelle anno de 1828, fallecera a mulher de Francisco de Proença.

O estranho successo foi estimulo de estrondosas gargalhadas na capital. Havia grande ancia de conhecer o milagroso parvo, cujas anedoctas de Coimbra reviveram com salgadas ampliações.

Os mais sisudos commentadores do estranho caso queriam, por amor da moralidade, que se devassasse o tumulo de Leocadia, e dissesse ella, visto que resuscitou, que morte fôra aquella de sete mezes, onde estivera, e de que supplicios viéra resgatal-a a herança de seus tios.

O thaumaturgo não ousava apparecer na orda das suas relações. Ninguem, se o conhecia, podia encaral-o com os labios seriamente fechados. O apupado marido da mulher redeviva queria explicar a algum dos mais impertinentes averiguadores do mysterio, aquella especie de catalepsia de sete mezes, e então dizia: