Scenas da Foz

Chapter 12

Chapter 123,992 wordsPublic domain

--Leocadia, conspiraste contra teu pai. Cuspiste com feia ingratidão na face do amigo que tudo te sacrificou, e até a sua liberdade vendeu a preço do teu bem-estar. Antes de hontem, fallei-te como amigo, esquecendo que era pai. Cuidei que tocára o teu coração, e abençoei o céo por me ter dado um anjo d'amor onde eu poderia ter encontrado uma filha rebelde. A tua docilidade encheu-me de orgulho e alegria, orgulho por ter tal filha, e alegria por vêr tão galardoados os meus sacrificios. Deixáste o meu espirito em paz com as suas tenções. Vi que se realisava o bello futuro que eu planisara para ti, e tamanha confiança puz na tua razão, que eu iria jurar que ninguem teve uma filha mais virtuosa. Enganaste-me, Leocadia, ou eu me enganei com o teu silencio. A vibora, que eu creára no seio, e acabava de afagar, mordeu-me cruelmente, ferindo-me talvez de morte. Em quanto eu velava a tua felicidade, tramavas tu a minha deshonra e a tua... Não me interrompas... é teu pai que falla e te impõe silencio, Leocadia. Premeditavas a tua fugida; trocavas teu pai, que conheces ha dezoito annos, pelo homem que viste hontem; trocavas a tua invejada reputação pela fama que segue á mulher que deixa no limiar da casa paterna abandonada os diplomas da sua virtude. Estás já deshonrada por intenção, filha; mas eu, desgraçado pai, serei ainda a tabua de salvação para ti. Fiz a accusação. Agora vou condemnar-te: estás perdoada; beija a mão do teu juiz, porque a justiça d'um pai tem em si o reflexo da misericordia de Deus.

«Estas palavras tinham-me sob o peso d'uma fascinação dolorosissima. Levei machinalmente aos labios a mão que se me offerecia, e banhei-a de lagrimas. E eu não podia fallar, suffocada por soluços. Fazia-me compaixão o olhar aguado de meu pai; porém... não saberei dizer que terrivel qualidade de sentimentos luctavam em minha alma!... Entre a cabeça e o coração havia uma barreira insuperavel. O coração regeitava o amoroso perdão d'um pai despotico. A cabeça curvava-se diante da magestade das suas cãs, e mais ainda dos seus queixumes. Quando, porém, nesse instante, não senti extinguir-se o odio que me abrasára na manhã desse dia, é porque elle seria eterno, é porque o meu amor a Vasco era immenso, superior ao instincto filial, aos vinculos de sangue, e até á minha propria reputação.

«Não respondi. Cruzei as mãos na face, e não sei que tempo meu pai esperou a resposta. Elle tinha sahido de ao pé de mim, e voltou com um ramo de flores.

«Aqui tens, minha filha--disse elle--o ramo de paz entre nós. Ha-de haver dez annos que te dei um ramo neste mesmo sitio. Foi quando vieste da provincia para entrares no collegio. Olha esse olmo que está atraz de ti e lá verás uma inicial e uma data. Já então scismei aqui muito no teu futuro. Prometti a mim mesmo trazer-te aqui, já senhora, para te mostrar essa data, que marca uma hora das horas attribuladas que só um pai, extremoso e pobre, sabe comprehender. Mal diria eu então que a minha segunda visita a este logar seria solemnisada pelas lagrimas de ambos nós! Repara que eu tambem choro, Leocadia.

«Ergui os olhos timidos para meu pai, e não pude conter-me. O resentimento calou-se um instante. Abracei-o com devoção, e, nesse instante... só o via a elle, só sentia por elle... a imagem de Vasco fugira por não poder vencer as cãs d'um velho soldado chorando...»

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Neste momento, Leocadia suspendeu-se. A sua physionomia macilenta e descarnada pendeu para o seio. Uma lagrima das que vem ferventes do coração desceu-lhe na aridez da face, e sumiu-se logo como fio d'agua em terreno afogueado.

E eu, que nem hoje ainda posso, com animo frio, contar uma vida que me hão-de receber como chimera, chorava tambem.

XIII.

O coronel, com palavras meigas, animára a filha a perguntar-lhe se o pai a violentava a casar com Francisco de Proença.

A isto respondeu o pai, mudando de tom:

«Eu, até aqui, empreguei todos os esforços da razão para convencer-te de que a docilidade ao querer d'um pai, que deseja dar-te um futuro certo, não é violencia, é juizo. Ora, se tu, minha filha, queres mudar o nome ás cousas, a obrigação d'um pai é ouvir a sua vontade experiente, e cerrar severamente os ouvidos ao querer irreflectido d'uma criança. Se ha um Deus, que julgue as tolerancias d'um pai com os caprichos d'uma filha, grandes contas eu daria, Leocadia, consentindo-te o alvedrio da escolha entre Vasco da Cunha e Francisco de Proença. Não quero o remorso de tamanha culpa, porque te amo muito, e muito preso a minha dignidade, e a minha palavra. Proença sabe que é teu noivo. Fui eu que lh'o disse, e basta.

«Sou honrado, minha filha; e, como não tenho outra herança a legar-te, faço quanto posso por te deixar em posição de a receberes, e guardares, como eu a recebi e guardei. Á mulher pobre é mais difficultoso manter-se no decoro. Os appellidos de teu pai nada valerão, se os não fizeres resplandecer nesse invejado posto de honra, que se esteia nos bens da fortuna.

«A virtude pobre é uma virtude obscura, que, nestes tempos de egoismo e pompa, se a não soffrea a rédea da religião, troca de bom grado os seus fóros de honra ignorada pela ostentação brilhante do vicio. O que eu tenho querido é rodear-te dos bens passageiros e miseraveis que o vulgo venera para que as tuas virtudes deem assim nos olhos das pessoas que não são vulgo.

«Eu não sou d'aquelles pais, que aconselham a desobediencia aos filhos alheios, e lhes dão um logar na sua sege, cuidando que assim os poupam á deshonra e ao crime... Maria Maldonado...

«Leocadia estremeceu, erguendo piedosamente os olhos para o coronel. Nesse olhar, disse ella que implorára o respeito de seu pai ao amor d'aquella mãi.

«Maria Maldonado--proseguiu elle entendendo o olhar da filha--parece que renegou da virtude que foi até hontem a conselheira de todas as suas acções. Praticou um feito que a desabona, embora seu filho, por ser criança, tenha ido chorar no seio d'ella, como menino amuado pelas travessuras dos irmãos.

«Leocadia, suffocada pelos soluços, apiedou o pai, que não teve animo de continuar. Dando-lhe o braço, passeou com ella, e as poucas palavras que lhe disse eram brandamente conciliadoras. Levou-a para longe da madrasta, cuja aproximação a fizera empallidecer. Pediu-lhe que se esforçasse por não denunciar a scena violenta que se dera entre elles. Leocadia fez quanto podem humanas forças. Mentiu ás averiguações de Proença com um sorriso, que tanto podia ser timidez, como ironia. Gervasio foi prodigo de carinhos a sua filha durante aquelle dia, e lançava um olhar de revez a sua mulher, quando esta, ferida de reflexo no amor proprio de seu filho notava a frieza com que Leocadia lhe acolhia os ditos arguciosos.

Agora me ensina tu, ó musa, o que o coronel Gervasio disse a Maria Maldonado.

Ás dez horas e meia entrou D. Maria na sua sege, e disse a seu filho, teimoso em acompanhal-a de longe, que a não seguisse.

Juntamente com ella, entrou o capellão da casa, padre velho, que resmungára longo tempo contra a crueza de o não deixarem deitar ás nove horas, por causa d'uma expedição em que elle não fôra consultado.

Eram trezentos passos da casa de Vasco á do coronel. D. Maria fez parar a sege defronte do mosteiro de Santa Anna, e foi com o padre collocar-se poucos passos distante da casa de Leocadia.

Esperaram um quarto de hora, sem ouvirem rumor nas portas da casa. Precisamente ao soarem onze horas, um vulto se avisinhou de D. Maria, e ousou metter-lhe a cara, que ella procurava esconder nas costas do padre atrapalhado.

«Não se esconda, snr.ª Dona... (disse o coronel) Não pronunciarei o seu nome, minha senhora, porque ouço sempre com reverencia pronunciar o nome de seu defunto marido, e não quero que possa alguem saber que a mulher do meu general está parada n'uma rua de Lisboa ás onze horas da noite.

D. Maria estava em tremuras, como se a surprehendessem n'um crime. As palavras do coronel tinham só o tom urbano a neutralisar-lhes o agro da ironia, e o virulento da reprehensão. O padre estava naturalmente de bocca aberta, como quem diz «eu não dei para isto prego nem estopa.» Não lhe occorria idéa alguma á attribulada senhora, quando o coronel, offerecendo-lhe o braço, disse:

«Não a convido a entrar em minha casa, snr.ª D. Maria, porque em minha casa não está senhora alguma. Se v. exc.ª, porém, me permitte acompanhal-a á sua, ou seguir a sua sege, receberei a honra de lhe dizer duas palavras.

--Aceito o offerecimento...--disse D. Maria reanimada pela confiança que pôz no dom persuasivo das suas palavras sobre a vontade pertinaz do coronel.

Na sege não cabiam tres pessoas. O coronel disse que iria a pé. O padre parecia, por seu silencio, consentir em ir como viera; D. Maria, porém, disse ao padre que cedesse o seu logar.

O capellão sorveu uma pitada de simonte, puxou para as orelhas a gola do seu capote de castorina parda, e lá foi de seu vagar, ruminando philosophicamente aquella diabrura.

Poucas palavras deram um ao outro, na sege. Quando esta parou, ouviram-se passos velozes saltando as escadas. O coronel apeára para dar a mão a D. Maria. Vasco surgia no limiar do portão justamente no instante que sua mãi entrava pelo braço do coronel.

O nosso amigo recuou estupefacto, e soltou uma interjeição de espanto, que tanto podia ser _ah!_ como _oh!_ como _ui!_

Gervasio levou a mão ao boné, e disse risonho:

«Boas noites, snr. Vasco... Acha-me, talvez, muito barbado para noiva?!

D. Maria apertou-lhe o braço, murmurando:

--Não zombe do infortunio, snr. Gervasio... Eu tenho direito a esperar a continuação da sua delicadeza...

«É um direito de que eu a não privarei, minha senhora. Serei delicado com o filho como o fui com a mãi... Por isso mesmo, rogo a v. exc.ª que mande seu filho assistir ás duas palavras que devo dizer-lhe.

--Vem, filho...--murmurou D. Maria, ao mesmo tempo que o coronel estendia affectuosamente a mão a Vasco, bastante pundonoroso para regeital-a.

«Recusa?!--disse o pai de Leocadia, franzindo a testa com sobranceria militar.

--Então, Vasco?!--acudiu D. Maria, movendo o filho a curvar-se com humildade diante do coronel.

«Quer que subamos, snr.ª D. Maria, ou mesmo aqui me escuta?--disse Gervasio com mal disfarçado azedume.

--Não, senhor, subamos. Vens comnosco, Vasco?

«Se minha mãi ordena...

--Ordeno, sim.

Já na sala de espera, o coronel, dispensando entrar na immediata, fallou assim:

«Eu disse com cordial sinceridade ao snr. Vasco, em minha casa, que minha filha, pelo facto de ser minha filha, não podia ser sua mulher. Não lh'o disse com esta rudeza, porque o sentimento que seu filho dedica a Leocadia é respeitavel, em quanto está dentro dos limites que a honra prescreve a cavalheiros que se abonam de appellidos, synonimos da honra e da probidade.

«O snr. Vasco sahiu de minha casa promettendo-me não desmerecer da opinião em que o tive. Maravilhou-me a coragem da virtude em annos tão verdes! Pareceu-me vêr n'este pequeno corpo a grande alma do bravo que lhe deu o nascimento.

«Pesa-me dizer que me enganei, e o snr. Vasco deve esconder a face envergonhada diante de mim, e cortar essa mão que ainda agora hesitou apertar a minha, que lhe offereci com demasiada generosidade, ou pouco brio. Se o pundonor devesse aconselhar a algum de nós o despreso, o despresivel de certo não seria eu, porque o enganado, o atraiçoado não é v. exc.ª, snr. Vasco da Cunha.

«Adiante: e não se estorça, escutando-me, snr.ª D. Maria: eu estou de certo contando a v. exc.ª uma novidade.

--Duvido que meu filho...--interrompeu a pobre mãi.

«Duvida que seu filho?...

--Promettesse a v. exc.ª renunciar ao amor de sua filha...

«Eu não disse tal. Quiz dizer que o filho de v. exc.ª me prometteu desviar as suas attenções de minha filha, de modo que ella não conspirasse contra a minha vontade. Snr. Vasco, isto é exacto?

Vasco não respondeu: lançou a sua mãi um olhar de tortura intima, um olhar que pedia um pretexto para elle sahir d'alli. O que se passava no coração do infeliz moço não sei contal-o. Inferno?... inferno, sim, que nenhuma religião inventou ainda, devia de ser!

Se o examinassem de perto, vêr-lhe-hiam coberta a fronte d'um glacial suor. Todo elle tremia como sacudido pelos embates que o coração lhe dava no peito. Uma só idéa, synthese horrivel de todas, o predominava então: o desejo de morrer logo alli.

A infeliz mãi comprehendeu tudo, viu tudo, sentiu tudo!

Pediu licença ao coronel, ergueu-se, tomou a mão do filho, e disse-lhe:

--Vai para o teu quarto, Vasco. Eu não me demoro aqui... lá vou ter já.

Vasco sahiu, curvando ligeiramente a cabeça, quando passava diante do coronel.

«Pobre criança!...» disse comsigo o pai de Leocadia; e nestas palavras dissera tudo o que nós poderiamos dizer e sentir em largos commentarios.

Pobre criança, sim, que não soube erguer a fronte, embora marcada com o stygma da deslealdade, e dizer ao seu accusador e juiz: «mentes» Pobre criança, que não sahiu d'alli a procurar duas testemunhas, que, no dia seguinte, o vissem morrer ás mãos do coronel, ou cravar um florete no seio onde se embalara Leocadia! Pobre criança, que succumbiu, como succumbe a honra ferida pelo remorso, á reprehensão do tyranno que lhe vem diante de sua mãi, lançar em rosto a ignominia da perfidia!

Ausente Vasco, D. Maria voltando-se com senhoril altivez para o coronel disse:

--Pouco mais terá que me dizer, creio eu.

«Pouco mais, minha senhora; mas esse pouco é importante.

--Se é uma censura ao meu procedimento, digne-se omittil-a, por que sou eu a propria que me censuro.

«Então, snr.ª D. Maria, disse tudo. Faltava-me perguntar-lhe se posso viver em paz com a minha familia. Visto, porém, que v. exc.ª se reprehende pela parte inconveniente que tomou nos amores do snr. Vasco, posso retirar-me com a certeza de que fica suspensa a sua correspondencia com a minha filha.

--A minha? interrompeu ella.

«A de v. exc.ª, queria eu dizer.

--E eu digo a v. exc.ª--replicou D. Maria sensivelmente agastada--que sou mulher, e não posso dar ás suas ironias uma resposta condigna.

O coronel soltou um frouxo de riso, cuja intenção é difficil entender. Era um destes risos _subjectivos_, (concedam o epytheto) cuja imagem está dentro da pessoa que ri.

D. Maria, enraivecida pela desconsideração, interrogava-o com um olhar soberbo. O coronel, erguendo do pavimento a espada, e sobraçando-a, inclinou profundamente a cabeça, recuou até á porta, e disse:

«Muito boas noites, minha senhora.»

Ora aqui está o que se passou, até que o coronel entrou no camarote.

XIV.

Quinze dias depois ha um convite para casa do coronel: janta-se, e dança-se; festeja-se o casamento da sympathica Leocadia com o morgado de Sinfães, Francisco de Proença.

Alto lá, senhor romancista! Não se escreve assim um romance. Vossê assim desacredita-se, e ámanhã não tem quem o leia. Quando a gente cuida que está no melhor do romance, o bom do homem, mette-se em duas semanas n'um carril a vapor, e vêl-o ahi vai levado com a historia no sacco de noite, de maneira que uma pessoa, que lhe faz o favor de o lêr, pedindo o livro emprestado, fica sem saber o que fez Leocadia, o que fez Vasco, o que fez a mãi, a madrasta, o noivo, o que fizeram todos, durante quinze dias! Isto é uma escandalosa empalmação!

Senhoras e senhores meus, v. exc.as de certo conhecem muitas meninas na posição de Leocadia. Posição trivialissima, aliás. É uma pobre rapariga a amar um homem pobre; mas tem um pai a querer casal-a com um homem rico. Chora, arrepella-se, promette matar-se, se a morte não vier espontaneamente. O pai teima, o homem rico teima, o homem pobre não póde teimar, ainda que queira. Por fim, a menina faz a vontade ao pai, ao noivo rico, á sociedade torpe, casa e dança por comprazer no dia em que casa, e almoça com pouco appetite, no dia seguinte, com mais algum no outro dia, e assim successivamente, até engordar. Isto é muito simples, e muito rotineiro, não é verdade?

É. Então de que se espantam, se eu lhes digo que uma mulher, de carne e osso como v. exc.as, fez o que v. exc.as fizeram, viram fazer, ou farão?

Alto lá! tambem eu digo. A minha pobre Leocadia, se hoje vivesse, e lesse essa pagina infanda que ahi fica, cobril-a-hia de lagrimas de remorso por me haver feito seu confidente. Perdôa-me, minha santa amiga! Eu tive-te um instante suspensa por uma hypothese cruel sobre o charco em que patinham muitas georgianas de chinellos, que por ahi se vendem para o harem de sujos pachás, que ao passarem a linha, lavaram a cara dos ferretes de sangue com que sahiram do açougue humano.

Se eu fizesse uma criminosa omissão de tuas lagrimas, o mesmo seria pisal-as, Leocadia.

Se eu te rebaixasse a transigires com o dinheiro de teu marido, mascarando-te com a obediencia filial, daria comtigo regalo e galardão a estas mulheres de almoeda, que, na alma, não valem mais que as de Babylonia, e no corpo não valem tanto.

Não, espirito que me vês da tua gloria, eu contarei as tuas lagrimas; e, se não rasgo as paginas que escrevi, estremal-as-hei por um traço negro das que tu me segredaste nas fugitivas noites em que este gemer do mar, que ouço agora, vinha casar um murmurio melancolico á tua narração.

XV.

Leocadia era vigiada por toda a familia. Triste, sombria, e taciturna, causava suspeitas ao coronel, que postára militarmente o auxiliar, de sentinella, no pateo, de dia e de noite.

Quasi sempre no seu quarto, Leocadia meditava fugir. Não achava, porém, o exito feliz dos seus planos. A fuga pela porta, unica evasiva que tinha, era impossivel. Desanimada, toda a sua valentia moral reservou-a para dizer «não quero» logo que seu pai a mandasse vestir-se para ir receber a benção nupcial. Firme neste proposito, esperava, com coragem e juramento de morrer, a hora da lucta horrivel, a formal desobediencia, todas as torturas que podesse inflingir-lhe o pai irritado.

Tinham decorrido dous dias depois do passeio a Campolide, quando uma antiga criada, que já o fôra da primeira mulher de Gervasio, voltou da provincia, onde fôra visitar os seus parentes. Esta criada era aquella Thereza, que eu vi na Foz.

A situação de Leocadia melhorou, porque Thereza chorava com ella, aconselhando-lhe ao mesmo tempo obediencia a seu pai. O coronel, tambem amigo da velha criada, pedia-lhe que desvanecesse com suavidade do coração de sua filha uma paixão que fazia a infelicidade de todos.

Thereza não podia tanto. Conheceu as intenções da menina, e disse-as ao coronel, affirmando-lhe que ella se deixaria matar, mas casar, não.

Depois de cinco dias de desgostos para o pobre pai, e de irritações orgulhosas da madrasta, e suspeitas más de Francisco de Proença, e continuadas lagrimas e reclusão de Leocadia, o coronel queixou-se de violentas dores de cabeça, e febre.

Apenas se recolheu á cama, Leocadia foi sentar-se á cabeceira do seu leito. Quando os medicos disseram que se declarava uma febre maligna, o sobresalto operou uma subita mudança nas maneiras de Leocadia.

O sentimento desvaneceu-se. Quantas caricias uma boa filha tem no coração todas ella empregou para adoçar as amarguras do pai enfermo.

O coronel queixou-se de serem desgostos moraes, causados por ella, os que o tinham levado áquelle extremo. Leocadia lançou-se aos braços febris de seu pai, pedindo-lhe perdão, e voltou-se a Nossa Senhora, promettendo sacrificar-se ao homem que lhe destinavam se seu pai recuperasse a saude. O coronel não ouvira o voto, mas adivinhou o silencio de sua filha.

Ao setimo dia a febre recrudesceu. Eram curtos os intervallos da lucidez que o delirio lhe consentia. N'um d'esses intervallos, o enfermo chamou sua filha, e disse aos assistentes que se retirassem.

Pungentes palavras foram estas:

«Leocadia, creio que morro. Deixo-te, minha filha, n'um mundo que não conheces. Parto, e tu ficas só. Quando eu fechar os olhos, fecharam-se para sempre os unicos olhos que te viam com amor. Ficas sem parentes. De tua mãi, ninguem já vive. De teu pai, tens dous tios no Brazil, que te não conhecem. Que farás tu, filha, quando me levantarem morto desta cama?

--Meu pai!--exclamou Leocadia com vehemente afflicção--meu querido pai, não pense que morre...

«Morro, filha, morro; e, se a minha agonia fôr trabalhosa, é o coração que se despedaça, separando-se de ti... Sem ti, morria tranquillamente. Estou cançado, porque nunca soube o que era a felicidade nesta vida; a da outra... a da outra, meu Deus, vós sabereis se eu a mereci com a paciencia... Leocadia, queres que eu acabe em paz, que eu expire abençoando-te?

--Sim, sim, meu pai... quero que viva, abençoando-me!--bradou ella, beijando-lhe as mãos afogueadas.

«Então, filha, cumpre a minha vontade. Liga-te a esse homem que te ha-de estimar, porque eu lh'o pedirei á minha ultima hora. Tu has-de ser feliz com elle; has-de olhal-o sempre como o amigo que teu pai moribundo te escolheu. Se elle te der algum motivo de soffrimento, quem os não tem neste mundo?! Se soffreres, offerece-me as tuas dores e eu virei em espirito agradecer-te o sacrificio. Serás então consolada, filha, pela memoria de teu pai, que pensava fazer-te venturosa, embora se enganasse. Responde-me, Leocadia... Casas com Francisco de Proença?

Leocadia tirou das entranhas um gemido, um soluço suffocante, e com elle uma palavra que parecia a ultima da vida que vai n'ella:

--Sim...--disse ella.

O coronel, vencendo a fraqueza com grande esforço, pôde ainda sentar-se no leito, alongando os braços para ella. A filha sustentava no hombro a cabeça esvahida do enfermo, e refrigerava-lhe com lagrimas a mão convulsa.

Seguiram-se minutos de silencio. Ouvia-se apenas o soluçar de ambos.

O coronel desprendeu-se dos braços da filha, e pendeu a cabeça para o travesseiro. O sangue batia-lhe vertiginoso nas frontes. As palpebras cerraram-se. Phrases interrompidas sahiam-lhe dentre os labios seccos e quasi immoveis. Leocadia, assustada, chamou gente. A madrasta, vendo o lethargo do marido, voltou-se para a enteada e disse com rancor:

«Quem mata meu marido é a senhora!

Veja a que estado o reduziu! É uma parricida snr.ª D. Leocadia!

Ha-de dar terriveis contas a Deus de ter arrastado seu pai á sepultura... É uma filha amaldiçoada!»

Leocadia, não teve animo para responder-lhe. Pôz os olhos em seu pai, e disse-lhe em seu coração: «Vós bem sabeis que não é verdade o que ella diz!» e sahiu, apertando a cabeça com as mãos.

A medicina cobriu de causticos o doente. Os tormentos deram-lhe com a irritabilidade uma vida de emprestimo. Dous dias se seguiram de esperanças, porque o delirio era menos frequente, e alguns instantes de dormir tranquillo vieram reparar-lhe as forças.

O coronel chamou a filha, tendo ao pé de si Francisco de Proença, e sua mãi.

Á cabeceira d'elle estava um crucifixo e duas luzes. Eram os preparatorios para o recebimento da extrema-uncção. O enfermo pedira um confessor, que se achava já no quarto.

«Aproxima-te desta cruz, Leocadia--disse elle com energia--snr. Francisco de Proença, eu entrego-lhe, minha filha. Comprehende o senhor a valia deste thesouro que lhe entrego? Sabe como eu queria que o senhor amasse esta creatura?

--Amal-a-hei quanto se póde amar nesta vida... disse Proença, sentindo eriçarem-se-lhe os cabellos, commovido pela religiosidade do acto.

«Minha filha, ajoelha diante de Deus que nos escuta, e pede-lhe que faça duraveis os bons sentimentos no coração de teu esposo, e que te faça a ti sempre digna d'elles.

Leocadia ajoelhou, e Francisco de Proença, arrebatado pelo bello funebre do lance, ajoelhou a par com ella.

E oravam todos mudamente. O coronel tinha as mãos erguidas. O padre confessor, quebrou o silencio, erguendo-se, e tomando as mãos de Leocadia.

«Estão accesas as luzes do altar.

A menina prepare-se, que eu quero ter o jubilo de ser o ministro deste sacramento! Que união de tão bom agouro... Vamos, filhos.»

O frade graciano enchia a poesia santa do grupo!

Leocadia sahiu com sua madrasta.