Chapter 14
«Pensei que fôra deslealmente deshonrado por minha mulher. O meu coração cobriu-se de lucto, o punhal vingativo pedia o sangue da perfida, mas o meu espirito era nobre de mais para sanccionar o assassinio d'uma debil mulher. Quiz matal-a moralmente, e dei-a por morta moralmente para mim. Fiz-lhe graça da existencia, para que o remorso lento me vingasse. Vesti-me de lucto, disse que minha mulher morrêra; e, se alguem me perguntasse particularidades da sua morte, eu responderia que uma campa a separava de mim. O que hoje faz rir a sociedade seria então recebido como um rasgo de heroismo na desgraça. Os maridos atraiçoados achariam em fim a condigna penitencia da perfidia.
--Mas...--alguem lhe disse--tua mulher estava innocente?
A esta pergunta indiscreta Francisco de Proença titubeava, e não sabia se lhe convinha decidir-se pela absoluta innocencia de Leocadia.
Lá se aveio como pôde com os importunos, até que um dia appareceu com sua mulher resuscitada, e encartada no nome e appellidos que teve quando foi viva.
A presença desta pobre senhora foi, só em si, uma accusação contra seu marido. A desgraçada, quando lhe perguntaram, diante de testemunhas, se era mulher de Francisco de Proença, respondeu:
«Dizem que sou.»
--E a senhora não diz o mesmo?
«Eu sou viuva» tornou ella.
--Então qual dos senhores é viuvo? É original a mania d'ambos--replicou o jurisperito, rindo com os circumstantes, em quanto as lagrimas da herdeira millionaria lhe desciam na face purpurina de pejo.
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Não me souberam contar o resto.
O que eu sei é que cinco mezes depois recebi uma carta datada em Londres.
Resava assim:
«Prometti-lhe uma palavra: ella ahi vai: E MORRO. Chore-me.»
_Leocadia._
Em 1834 Francisco de Proença veio a Portugal. Viajára seis annos, e vinha casado, em segundas nupcias, ou terceiras, dizia alguem com a filha d'um correeiro de Manchester.
Está vivo, e velho como eu.
Acabou-se a historia.
FIM.