Scenas da Aldeia

Chapter 6

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--Ó patrão! Então o tio Francisco das Neves disse-lhe essas coisas?!

--Pois tu vinhas ahi, rapaz?!... Diabo! Nem me lembrava de ti, homem. Não digas do que ouviste, percebes?

--Sim senhor.

--Tudo aquillo que eu vinha a dizer, é como se ninguem o ouvisse...

--Não ha duvida, patrão.

X

O Francisco da Neves tornou-se o confidente do filho da sr.ª Quiteria de Jesus.

Com uma dedicação quasi servil que, geralmente, todos os imbecis prestam áquelles que, graças á plutocracia, têm o dom de os fascinar como um individuo, com o poder soporifero, hypnotisa a sua victima, o filho da tia Maria das Neves passou, por assim dizer, a exercer as funcções d'um cão fiel, prompto a defendel-o na primeira arremetida que lhe fizessem. Com uma differença, porém: o cão serve seu amo a troco do alimento que lhe dá, e o Neves dedicou-se ao Velloso de corpo e alma, imbecilmente, com a dedicação dos espiritos boçaes que se inclinam, sem mesmo saberem nem procurarem saber o motivo, a uma causa.

Confidente dos seus mais importantes negocios, elle estava ao facto das ninharias mais abjectas da vida intima do brazileiro.

--Francisco, disse-lhe este apenas chegou de casa do tio Alameda, após o que foi logo procurar o visinho--parece-me que estou apaixonado pela filha do Alameda.

--Vossa senhoria falla serio?! Onde a viu?

--Estive lá em casa esta manhã, e até me deram de almoçar. O velho é um bello homem, coitado. Mas o filho é que me parece pouco de brincadeiras! E é por isso que venho prevenir-te para que haja toda a cautela no negocio.

--Pois então vossa senhoria, gostando assim, como acaba de dizer, da rapariga, ainda tem coragem de...

--És pateta! Mais motivos ha para desviar o rapaz. Eu gosto da irmã a valer. Sou até capaz de casar com ella: por isso tenho a obrigação de pugnar pela honra da minha futura noiva. Percebes?

--Perfeitamente. Diz vossa senhoria que...

--Digo que vou empregar os esforços para que o filho do Alameda deixe a tal Maria Luiza. Mas agora é preciso tento no jogo!--E, fallando mais confidencialmente, continuou--Eu vou, primeiro que tudo, vêr se engano a Helena. Não sei se me comprehendes...

--Muito bem. Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria sempre tem uma arte!

--Entretanto, vae vendo se despersuades o rapaz do que lhe disseste. Dize-lhe agora que fizeste aquillo, sómente para o rallar, que é para elle não andar de pé atraz commigo.

--Percebo muito bem.

--Depois... eu te direi, quando as coisas estiverem em bom caminho, o que has-de fazer.--E ajuntou com um sorriso malicioso:--E é mais uma sôpa que se molha... Porque a Maria Luiza ainda não é má de todo!...

--Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria tem uma arte! Tem uma arte!... É capaz de as levar todas a fio!...

--Pois tu não sabes, homem, que o dinheiro faz tudo? Acaso serei mais bonito do que os outros? Não! Ha até por ahi caras muito melhores do que a minha. Mas... bem vês que hoje o mundo não olha a formosuras... Isto em questões d'esta ordem. Mas, como te ia dizendo, tu, agora, nem mais um pio dás sobre o caso: só dizes ao filho do Alameda que aquillo foi um gracejo da tua parte...

--Sei muito bem.

--Que é para eu cá dispôr as coisas á minha vontade.

--Já está mais que percebido.

--Eu agora vou fazendo umas visitas a miudo lá a casa do Alameda, e a rapariga, que não parece desgostar de me lá vêr, ir-me-ha assim ganhando uma certa amizade... um certo amôr... até que...

--Vossa senhoria lá arranja! E, quando fôr preciso farejar...

Ainda bem que o filho da tia Maria das Neves reconhecia--ou talvez o dissesse instinctivamente!--a cathegoria do seu baixo mister.

XI

Fins d'abril, em plena primavera que, depois d'uma pequena quadra de chuva, decorria garbosa e sorridente como uma creança.

Era uma noite serena e sem luar, apenas allumiada pela luz tibia das estrellas.

Um socêgo religioso repousava sobre a aldeia, apezar da hora pouco adeantada da noite--eram nove e meia.

Na aldeia, os homens têm por norma a natureza: levantar com o sol e recolher com elle. Não ha o bulicio nocturno confuso e ás vezes estonteante dos grandes centros, com os seus pontos de reunião e cavaqueira nos cafés, casinos e theatros. Chegada a noite, cada lar é um cenaculo de alegria, paz e amôr, e sómente ás vezes, quando nas noites longas de inverno podem dispôr de algum tempo de distracção, juntam-se, até ao toque das almas, meia duzia de homens numa ou noutra loja, onde ouvem lêr o jornal que o lojista assigna. «As noites dão para tudo», dizem então. É ahi, nas lojas, e nas casas de barbeiro, ao sabbado, que se estabelecem os principaes pontos de reunião--os nucleos da ingenua cavaqueira do povo d'aldeia, onde se ventilam os successos occorridos que mais impressionaram a curiosidade publica.

Era uma noite serena e sem luar, e nem a mais leve aragem fazia mover as folhas das arvores. A amplidão do ceu, recamado de myriades de estrellas, parecia um immenso campo cheio de flôres.

A portaria do alpendre da casa do tio José da Alamêda abriu-se cautelosamente, e um vulto, espreitando para a rua, se desenhou na sombra.

Em seguida um outro vulto--o vulto d'um homem encapotado--se deslocou do escuro do cômoro fronteiro, e approximou-se.

--Boa noite, menina Helena, disse, a meia-voz, o homem, ao approximar-se.

--Boa noite, sr. Joaquim, respondeu timidamente a voz dôce de Helena.

--Não sabe, não pode calcular a satisfação que me dá, accedendo aos desejos do meu coração, que ha tanto tempo ambicionava expandir-se, que ha tanto tempo suspirava por traduzir por palavras o fogo que o apoquenta e que só tenho podido exprimir por olhares!

--Senhor Joaquim, deve tambem calcular, attendendo á gravidade do passo que dei comparecendo á entrevista que prometti, que o meu coração não é insensivel aos sentimentos que vossa senhoria diz ter por mim, e que me parece ter lido nos seus olhos: a não ser que eu me engane, porque não tenho experiencia do mundo...

--Helena da minha alma! Oh! eu amo-a muito, muito! Prouvera a Deus que da sua parte houvesse para commigo egual affecto!

--Ha! Talvez mais...

--Oh! Não diga isso!--E, tomando-lhe as mãos, continuou com ardor crescente--É fazer uma injustiça ao meu amôr por si, que não tem limites!...

--Será o que diz... não duvido. Mas deve attender a que, para eu dar este passo, devia haver da minha parte uma grande lucta do coração com a razão, em que esta ficou vencida por aquelle...

--Sim: comprehendo isso, e oxalá que eu tenha a felicidade de poder mostrar-lhe o meu reconhecimento de forma que possa satisfazer as aspirações do meu coração!

--Isso, senhor, só depende de si. Eu, uma mulher que pela primeira vez sente o perfume das flôres do amôr que o calôr dos seus olhos teve o poder de fazer desabrochar, outra coisa não desejo que a minha felicidade, que consiste em gozar, na companhia do ente por quem o meu coração suspira, a vida inteira.

--É esse tambem o meu desejo, Helena. Por esse mundo por onde andei, vi muitas mulheres, muitas das quaes algumas extremamente formosas. Mas agora, Helena da minha alma, daria todas ellas, todas, por si só!

--Oh! Nunca ha-de ser tanto assim, respondeu ella candidamente, com um sorriso. Eu, uma simples mulher do campo, valerei mais que todas essas...

--Vale, para mim! Nem eu mesmo sei explicar o motivo d'esta minha transformação. Acredite-me, Helena! Eu amo-a muito, muito!

E, com as mãos d'ella enleadas nas suas ia dominando, a pouco e pouco, transmittindo-lhe o calôr que o inflammava, aquelle anjo tão bello e tão candido, que pela primeira vez ouvia aquelle linguagem que lhe echoava nos ouvidos como uma musica celeste, causando-lhe no seu intimo sensações até ahi desconhecidas, d'uma indizivel suavidade.

--Não acredita, Helena? perguntava elle, apertando nas suas mãos febris as mãos tremulas d'ella.

--Acredito. Eu tambem o amo muito...

--Oh! muito!... muito!... Vós, as mulheres, sabeis tão bem fingir um sentimento que não tendes, que não sei se a hei-de acreditar!

--Pode acreditar. Por Deus lhe juro que o amo. Mas peço-lhe que falle mais baixo, porque Deus me livre que alguem ouvisse!

--Não tinha duvida! Que me importa o mundo? Helena hade ser a minha mulher, em breve o mundo o verá! Sim! Nesse caso, que importa que nos vissem?

--Falle mais baixo, senhor. Pode vir meu irmão, e pensar... Deus nos livre que elle viesse dar comnosco a estas horas a fallar!

--Sim. Tem razão. Podia formar máus juizos e seria perigoso.--E, baixando a voz e approximando do rosto d'ella o seu, murmurava-lhe palavras ternas ao ouvido, que ella ouvia como num cicio dulcissimo.--Helena, meu amôr! Dizes que me amas! Isso dar-me-ia tanta felicidade, que o julgo quasi impossivel! Se eu fosse pobre, talvez acreditasse no que dizes. Ahi está para que serve o dinheiro! Para nos lançar o coração no desespero! Helena! Juras que me amas?

--Juro!...

A sua voz era trémula; e elle, tendo-lhe lançado um braço á roda do pescoço, com os labios collocados ao ouvido d'ella, murmurava-lhe com meiguice:

--E juras amar-me sempre?

--Sempre!...

--E muito? Tanto como eu a ti?

--Sim! respondia ella com a voz apagada, completamente dominada por aquelle braço que lhe paralisava as forças d'animo e as physicas.

Elle então depositou numa das faces d'aquelle anjo que se lhe abandonava inconscientemente, um beijo ardente de impudicicia, semelhante a um salpico de lama que caisse numa das pétalas dum alvissimo lyrio.

E nada mais se ouviu, senão o arrastar surdo e quasi imperceptivel da portaria que se fechava occultando á exigua claridade da estrada as sombras unidas d'aquelles dois seres apaixonados--um, com um sentimento todo ideal, todo celeste; outro, com um sentimento todo terreno, todo lubrico................................................................... .......................................................................... ..........................................................................

A lua erguia-se no horisonte melancholica e triste, quando a portaria se abriu, inundando o alpendre um jorro de luar.

Helena estremeceu, e, apertando fortemente o braço de Joaquim, exclamou:

--O luar não te parece hoje mais sombrio e a lua mais tristonha, Joaquim?!

--Tontinha! Até me parece mais alegre! Olha como ella sorri! Está-nos annunciando um paraiso de felicidades.

--Deus te ouça. Mas parece-me vêr no rosto da lua uma expressão de tamanha melancholia!

--Ora! Havemos de ser muito felizes. Olha: a minha casa--a nossa casa!--d'aqui a tres ou quatro mezes fica prompta. Depois viveremos lá juntinhos; iremos passear por aquelles caminhos do outeiro, á tardinha; e havemos de ir, á noite, para a janella ou para o jardim, que hei-de mandar fazer, vêr nascer a lua a sorrir-se para nós.

--Oxalá que sim! Deus te ouça! E juras-me que farás a minha felicidade?

--Helena! Juro-te, pelo Deus que me protegeu durante muitos annos por esse mundo além, que hei-de fazer a tua felicidade!

E, depositando-lhe um beijo na fronte, disse:

--Adeus. Até ámanhã.

--Adeus Joaquim!

Helena conservou-se á porta até ver desapparecer o vulto do seu bem-amado numa curva da estrada.

Suspirou, olhou outra vez para a lua, e, ao voltar para dentro, ouviu o piar lugubre d'uma ave nocturna.

Estremeceu, e, fechando a portaria, murmurou estarrecida:

--Jesus! Não sei o que o coração me adivinha!...

XII

E Maria Luiza?

Maria Luiza vive feliz na companhia de sua mãe, na reclusão da sua casinha, aonde, todas as noites, o João da Alamêda vae levar ao seu coração o balsamo suavissimo da esperança.

Que importa que o vento sopre frigido e impertinente lá fóra, se temos dentro de casa o lume acariciador que nos salvaguarda do rigor das intemperies?

Mas, como succede a tudo neste mundo, as linguas maledicentes foram affrouxando, e Maria Luiza começa a ser envolvida no esquecimento, que é para ella d'um prazer indefinivel.

«Elles tanto hão-de fallar, que hão-de cançar!» dizia-lhe o João, sempre que ella, contristada, procurava na doçura das suas palavras animadoras refrigerio para as mágoas que a affligiam.

E com effeito, ella, ao sair de manhã a buscar á loja a sua provisão diaria, já não ouve os dichotes com que a principio alguma bôcca menos polida lhe feria os ouvidos e que muitas vezes lhe faziam marejar de lagrimas os olhos. A torrente do enxurro foi affrouxando de impetuosidade; e agora, já de quando em quando lhe sôa ao ouvido um «adeus» pronunciado com um certo acanhamento, com uma especie de arrependimento.

Os vaticinios do tio Alamêda iam-se realisando--á tempestade segue-se a bonança; a verdade é como o sol que dissipa as trevas mais espessas.

Mas a verdade ainda se não patenteava e apenas se iam notando uns certos retrahimentos de animo nos emprehendedores d'essa nefasta cruzada que, longe de se inspirar em sentimentos humanitarios e altruistas ou obedecendo aos principios dum dever e virtude civicos, inspirava-se, vergonhosa e torpe, no vil sentimento da inveja.

Comtudo era já um symptoma de justiça. Esta viria, no tempo devido, a occupar o seu logar, e Maria Luiza começava a sentir as delicias de um proximo regresso á vida alegre, de um lento resurgimento ao convivio das suas amigas em cujo olhar já lia o arrependimento.

E Maria, neste desanuviar do horisonte, antevê já um paraizo de delicias, muito distante, mas para o qual ella se encaminha a passos de gigante. No dissipar, ainda que lento, dos densos nevoeiros que lhe toldam o horisonte, ella sente nascer em si uma alma nova, e no ceu azul, outr'ora carrancudo e tempestuoso, ella pensa vêr um sorriso despretencioso e ingenuo, como que annunciando-lhe não sómente o regresso á vida de outr'ora, mas um mundo desconhecido, uma vida de fausto...

Ella afugenta da sua imaginação taes devaneios, e refugia-se então na meditação das palavras do seu João, a sua unica esperança, a sua vida, porque foi elle, durante seis mezes, a sua vida, e continuará a sêl-a... Sim! Continuará a ser a vida de Maria Luiza! Que importa as fanfarrias do sr. Velloso com o seu dinheiro? Poderá ella olvidar, num momento, seis mezes de dedicações, seis mezes que são todo um protesto eloquentissimo d'um coração apaixonado? Não! Maria Luiza não póde ouvir-te, ó novo Creso da modesta aldeia, onde dardeias mundos e fundos com que pretendes fascinar, com o brilho das tuas libras, o olhar ingenuo e inexperiente d'este santo povo!

Maria Luiza repudiar-te-ha! Olha como ella recebe, com a alma querendo chispar-se em jactos de luz pelos olhos, o seu João!

Elle delinéa, em palavras animadas da mais firme esperança, o seu futuro--o futuro de ambos!--risonho como o sol ao nascer, lindo e aromatico como um campo coberto de flôres.

E ella ouve, extasiada, essas palavras que para si valem como se viessem da bocca d'um profeta.

--Maria! tinha-lhe dito ha tres mezes, radiante de jubilo, o seu João--Meu pae pediu-me hoje explicação d'uns ditos que lhe foram assoprar. Disseram-lhe que eu te amava apaixonadamente, e que era mal empregado em ti. Convenci-o de que o enganaram. E elle--que coração d'oiro!--acreditou-me; prometteu-me até dar o seu consentimento para eu casar comtigo. Mas disse-me que deixassemos passar primeiramente a tempestade, que havia de serenar como serena o mau tempo que Deus manda. Beijei-lhe as mãos em signal de reconhecimento; e vi-lhe nos olhos duas lagrimas! Que coração aquelle!

--É como o teu, João!

--É melhor, é melhor que o meu. Depois, contei-lhe tambem que todos os sabbados ia ao celleiro buscar o milho que te trago; e elle, não só me perdoou, mas ainda elogiou o meu procedimento. Já vês que, com um pae assim, não devemos pensar senão em sermos felizes. Quando essas linguas malvadas deixarem de fallar, então... verás! verás!

* * * * *

Maria Luiza estava um dia sentada a costurar á janella da sua casinha. Era á tardinha, principios de maio. Pelo campo ouviam-se aqui e além os balidos dos cordeiros retoiçando em volta das mães, e o mugir das vaccas jungidas á canga puxando pacientemente a charrua que rasgava a terra, e as vozes dos lavradores incitando os animaes ao trabalho, e os cantares alegres das creanças que guardavam as ovelhas.

Maria Luiza está mergulhada no turbilhão dos seus pensamentos, sem prestar attenção a toda esta harmonia do campo, nem ás melodias d'um rouxinol que canta em frente da sua janella.

Mas o rouxinol interrompeu a sua cantilena. Seria despeitado pelo desprezo da Maria Luiza? Não; porque esta tambem d'ahi a momento estremeceu, cortando o fio aos seus pensamentos. Estremeceu á voz de um homem que a saudava da rua.

--Olá! menina! Boa tarde!

Olhou e viu na sua frente um homem bem vestido, sympathico, sorrindo para ella.

Ella reconheceu-o, porque respondeu, um tanto admirada, mas com a mesma expressão sorridente:

--Boa tarde, sr. Velloso!

--Oh! conhece-me, e eu não tenho a honra de a conhecer!

--Quem o não conhece nesta terra, senhor? Numa terra de pobres, um rico é bem conhecido, respondeu ella sempre com o sorriso a brincar-lhe nos labios.

--Numa terra de pobres!... Sim! Terra pobre de dinheiro, mas rica de formosuras.

--Não percebo bem o que vossa senhoria quer dizer..., respondeu um tanto embaraçada.

--Quero dizer que tenho aqui encontrado mulheres formosas como em parte alguma por onde tenho andado. Vou para um lado, encontro uma rapariga bonita! Vou para outro, encontro uma ainda mais bonita! Vou para alli, outra mais bonita ainda! Venho para aqui, e encontro a menina, mais bonita que todas as outras!

--E vae por ahi abaixo, e encontra outra mais bonita que todas...

--É impossivel. Parece-me que a escala das mulheres formosas parou aqui. É impossivel mesmo que continue... A menina desculpe-me o atrevimento com que me dirigi a si, sem a conhecer, mas...

--Oh! senhor! Não tem nada que...

--Mas é que eu, com franqueza o digo, não pude resistir á vontade de contemplal-a mais detidamente que por um simples relance. Fiquei impressionado com os seus encantos. Eu costumo dizer o que sinto e perdôe-me se a offendo com a minha franqueza.

--Oh! Não diz nada que me offenda. São umas mentiras tão sem valor, que...

--Creia! isto é do coração. Trabalho tinha eu em chegar ao pé de todas as mulheres de que gostasse e dizer-lhes: «a menina é bonita!» Não! Agora é que realmente fiquei devéras impressionado, e não pude resistir á vontade de contemplal-a por momentos, já que não poderei contemplal-a todas as vezes que quizer, durante toda a vida. E então havia de estar pasmado no meio do caminho, a olhar para si sem dizer palavra? Digo então o motivo da minha admiração.

--É uma questão de pachôrra...

--Não é, creia. É uma sympathia que a menina me inspirou. Não é uma simples curiosidade ou pachorra, como diz, o contemplal-a por a sua belleza ter despertado a minha attenção. É que realmente no seu todo ha não sei quê que captiva; e parece que quanto mais tempo aqui estou, mais captivado fico! Vou-me então embora, para não ter de ficar aqui toda a vida.

--Oh! snr. Velloso! Seria melhor que mentisse menos; retrucou ella sempre com o mesmo sorriso.

--Ahi está como são as coisas no mundo! Muitas vezes um homem serve-se de mil embustes que são acreditados como as palavras do Evangelho; e eu agora, dizendo o que realmente sinto, sou considerado um impostor!--E accrescentou, com expressão ficticia de pezar--Mas não admira, porque, segundo o mesmo Evangelho, Christo só fazia bem e dizia verdades, e comtudo foi castigado como o maior dos embusteiros e como um grande criminoso...

--Peço-lhe perdão, se o offendi; eu não queria chamar-lhe impostôr. Queria sómente dizer que, embora as suas palavras tivessem um fundo de verdade--atreveu-se ella a dizer--não deixavam comtudo de ter os seus enfeites para... para se tornar talvez mais agradavel...

--Ora ainda bem que faz um pouco de justiça aos meus sentimentos. Alguma justiça... não toda a que elles têm direito. Mas...

--É melhor mudarmos de conversa, ou retirar-se, sr. Velloso, porque sinto que minha mãe chegou agora a casa e...

--Eu retiro-me. E peço-lhe que não fique fazendo fraco conceito das minhas palavras. Se sympathisar com uma pessoa é crime, peço-lhe humildemente perdão... e adeus!...

--Adeus, sr. Velloso.

--Bem! Isto não correu mal! ia o brazileiro dizendo com os seus botões.

E, sorrindo, continuou:

--Isto de mulheres!... Pellam-se porque as gabem! E, com franqueza, o demonio da rapariga não é peste nenhuma! Por isso o rapaz deu em embeiçar com ella! Tem uns modos agradaveis, um sorriso muito ingenuo,.. Nem parece o que dizem. Mas... as mulheres são impostôras como o diabo. Nem que eu as não conhecesse! Oh! conheço-as tão bem como a mim mesmo! Ou talvez melhor, porque muitas vezes não sei o que quero, e o que ellas querem sei eu muito bem... Com mais duas ou tres palestras, sônda-se a coisa; por demais é fingir-me apaixonado e prometter-lhe uma vida de fidalga. Prometter-lhe-hei até casar com ella, pois que duvida ha n'isso? Dir-lhe-hei que fiz uma promessa de casar com uma mulher pobre de quem gostasse, se a sorte me ajudasse. Valeu! Que bella ideia! E o rapaz, quando o souber, que se cale com a roupa. É para bem d'elle... e meu!--accrescentou com um sorriso velhaco. Ah! Velloso! Velloso! Não ha mulher que te resista!...

E caminhava cheio de contentamento, em direcção ao campo, rindo-se sósinho, como um idiota.

O sol declinava, quasi a submergir-se. Uma dôce penumbra começava já a inundar o campo, e aqui e alli, bandos de meigas ovelhas, barregando, eram apartadas em manadas por pequenos guardadores que, de chibata ao hombro, se punham a caminho de casa, assobiando ou cantando, precedendo os rebanhos.

--Ora vamos cá dar uma passeata pela fresca até ao campo, monologou o sr. Velloso, espraiando a vista pela planicie, empertigando-se e affrouxando o andar, de mãos nos bolsos das calças.

Uma creança de oito annos, pobremente vestida, mas com uns olhos cheios de vivacidade, conduzia uma manada de ovelhas e, ao passar pelo brazileiro, interrompeu a cantilêna que vinha assobiando, e disse:

--Adeus!

O sr. Velloso respondeu á salvação cheia de candura da creança com um quasi imperceptivel e mal humorado «adeus», resmungando em seguida:

--Que raio de costume! Podem esquecer-se de comer. Mas de incommodarem as pessoas com estes impertinentes «adeus» que nada significam e que não se esquecem! E os filhos já vão pela mesma toada!... Que raio de costume!

O sol escondera-se e a penumbra ia-se tornando cada vez mais espessa; uma suave nebrina se evolava mansamente sobre o Vouga.

O sr. Velloso parou num sitio ensombrado pela ramagem d'um espêsso salgueiral, onde dois caminhos se cruzavam; puxou de um charuto que accendeu, e retrocedeu.

Ouviam-se os balidos das ultimas ovelhas que recolhiam aos apriscos, e as Ave-Marias soaram, lentas e cheias de ternura, nos sinos da egreja.

--«Trindades na aldeia são horas de ceia», dizem elles por cá. E não ha remedio senão dizer e fazer como elles, quando não chamam-me figurão.

Quando passou á porta de Maria Luiza, a janella estava fechada. Parou alguns instantes em frente da porta, e ouviu uma toada de duas vozes distinctas que se alternaram.

Approximou-se e escutou. Mãe e filha rezavam o terço.

XIII

Maio florido, maio encantador e poetico, porque foste traidor?!...

Um sol cheio de vida espalhava-se por estas collinas verdejantes bafejadas por uma briza fagueira e meiga, semelhante ao halito da bôcca d'um anjo. Cada despontar do sol era precedido de uma longa e pittoresca symphonia executada por milhares de gargantas de passarinhos chilreantes, alegres como creanças. Estes outeiros, elevando-se garbosamente em ondulações suaves, eram tablados do mais colorido e pittoresco scenario--o magnificente scenario pintado pela mão da natureza, ao ar livre, com ramagens reaes e pujantes de seiva e frescura, debaixo d'um ceu offuscante de belleza.

Tudo era poesia, tudo era amôr.