Scenas da Aldeia

Chapter 7

Chapter 74,002 wordsPublic domain

O proprio Vouga, correndo por entre duas alas de salgueiros viçosos que se bamboleavam donairosos retratando-se cheios de vaidade na superficie polida das aguas, sorria-se para elles, com um sorriso amargo de despedida, beijando ternamente as franjas da sua ramagem verde que sobre elle se debruçava com carinho.

E tu, maio risonho, deixaste que um branco e puro lyrio que embellezava o teu jardim, roçasse as suas pétalas mimosas na terra negra e immunda!

Maio florido, maio risonho e poetico, porque foste traidor?!...

* * * * *

O coração humano e, em especial, o coração da mulher, é uma fonte de enygmas.

Maria Luiza, a flôr predilecta do jardim do amôr do João da Alamêda, o anjo tutelar dos sonhos doirados d'esse mancebo que nem talvez por pensamentos lhe tivesse profanado a candura, essa mulher que alcançara d'um coração bondoso quanto amôr se pode dedicar a um ideal e quanta dedicação se pode prestar a um ente que vê deante de si o cháos horripilante da desgraça e da miseria--Maria Luiza cedeu ás insidias do brazileiro, vergou á logica revoltante das suas palavras maleficas como a tenra açucena da encosta vergada ao sopro do Aquilão.

Desde então, parece que até a sua casa ficou com um aspecto tristonho, que o rouxinol que, de madrugada e á tardinha, ia cantar para defronte da sua janella, já não sabia canções alegres, e que os cordeirinhos, balando em volta das mães que pastam no campo, já não retoiçam como costumavam.

O triumpho, porém, que o sr. Velloso alcançou, longe de o contentar, foi contra a sua espectativa e contra a nossa, leitor, porque de noite, ao chegar a casa, o sr. Velloso encommendava ao diabo tal triumpho mais a lembrança que o visinho Neves teve quando lhe aconselhou tal coisa.

Nessa noite, ás horas do costume, compareceu á entrevista com Helena, a quem continuava a acalentar com a esperança de dias felizes passados na sua casa nova.

Nessa noite, porém, a demora foi curta.

Allegando uma forte enxaqueca que o tinha apoquentado todo o dia, retirou-se e recolheu a casa onde, fincando os cotovellos sobre a meza, metteu a cabeça entre as mãos, e scismou mais de uma hora.

Parece que não tirou resultado da sua meditação--que era antes uma catadupa de pensamentos que se amontoavam no seu cerebro--porque, levantando-se mal humorado, pôz-se a passear agitado na sua sala de pavimento terreo.

Outra hora assim passou n'estes curtos passeios que, ligados, dariam para cima de uma boa legua, até que resolveu deitar-se.

Se dormiu ou não, é que ainda não sei. Elle o dirá ámanhã ao seu amigo Neves.

--Diabos te levem, dizia elle entrando, logo de manhã cêdo, no alpendre do visinho que, ao vêl-o entrar assim esbafurido, ficou com o machado, com que escavacava uma acha, levantado no ar--diabos te levem mais a lembrança que tu tiveste!

O filho da tia Maria das Neves poisou o machado no chão, e, appoiando sobre o cabo as mãos, ficou a olhar para o brazileiro, sem pestanejar, como quem não comprehendia nada do que ouvia; até que, passados momentos, perguntou, meio parvo, ao brazileiro que passeava apressado d'um lado para o outro no alpendre, retorcendo com uma das mãos o bigode:

--Que lembrança?!

O brazileiro parou, e, olhando para o Neves, respondeu mal humorado.

--Essa lembrança maldita que tu tiveste de eu ir perseguir essa rapariga que, afinal, estava mais pura que a tua lingua e as de toda essa canalha que dizia mal d'ella!

E continuou a passear agitado d'um lado para o outro.

O Neves abriu os olhos e a bocca de espantado, meio aparvalhado, e, depois de seguir machinalmente com a vista, durante um bom meio minuto, os movimentos do brazileiro, gaguejou:

--Mas... Vossa senhoria falla sério?!...

--Antes não fallasse! resmungou o sr. Velloso, como fallando comsigo, e collocando, sem interromper a sua marcha, as mãos atraz das costas.

Seguiu-se um silencio egual, em que apenas se ouvia o ruido dos passos do brazileiro caminhando no pavimento terreo do alpendre.

O Neves tornou a interromper o silencio, perguntando:

--De maneira que a rapariga... não...

--A rapariga estava honrada como as mais honradas! É o que é!

Novo silencio. Foi ainda o Neves quem o interrompeu, dizendo n'uma especie de lamuria, muito pausado e sentencioso:

--Ora vejam vocês como ás vezes uma pessoa padece injustamente!... Quem havia de dizer!... Que ella tinha sido esta, tinha sido aquella, que se portava assim, se portava assado!... Já me não torno a fiar em nada que se diga!

--Pois se tu assim tivesses feito!...

O Neves calou-se áquella observação, feita á maneira de censura.

«Effectivamente, pensava elle comsigo, eu é que fiz mal em o metter em contradanças! Mas... sêbo! Eu não sabia! Nem tenho culpa do que se dizia! Sou culpado e não sou!... Mas... que raio de historia! Que diabo de mal tem isso?»

Foi sob a influencia d'esta ultima reflexão, que quebrou de novo o silencio, dizendo resoluto:

--Afinal... vossa senhoria está para ahi com uns taes incommodos por causa d'uma coisa que não presta para nada! Deshonrou a rapariga, acabou-se! Uma coisa muito natural! Vossa senhoria tambem ficou deshonrado?

O sr. Velloso parou, e, olhando para o visinho, retrucou:

--Tu é que não sabes as coisas. Não é a deshonra que me incommoda! Já não é a primeira, nem a segunda, nem... eu sei lá! O diabo é que a nenhuma fiz promessa, sob minha palavra d'honra, de casar, caso a encontrasse pura, senão a esta. E eu, o que mais prezo neste mundo, é a minha palavra. Depois, ainda que não fosse isto, bastava só o remorso de lançar no desespero esse bello rapaz, sem necessidade nenhuma. Tudo por causa d'essas malditas linguas, que precisavam ser arrancadas, todas as vezes que se põem a fallar da vida alheia!

--Oh! senhor! Mas então...

--Então, o quê?

--Quero eu dizer que...--replicou o Neves coçando na cabeça, contrariado--que, se não quer faltar á sua palavra...

--Sim: e a outra?

E voltou a passear.

--A outra?! Tambem lhe deu a palavra d'honra?

--Não lhe dei a palavra d'honra, mas jurei-lhe por Deus que lhe havia de dar a felicidade, respondeu o brazileiro com voz abafada, sem se deter no seu passeio. E accrescentou--Além d'isso, a essa amo-a devéras!

O Neves, perplexo, olhava para o chão, sempre com as mãos appoiadas no cabo do machado.

--Na verdade, foi uma dos diabos!... E agora, que tenciona vossa senhoria fazer?

--Eu sei lá! Tenho dado voltas á mioleira, que nem sei como não endoideci. Esta noite, quasi que nem preguei ôlho. Se pudesse casar com ellas ambas, casava.

--Mas o melhor é chamal-as a um accôrdo, e não casar com nenhuma...

--Qual accôrdo, nem meio accôrdo! És pateta, homem! Bem se vê que não tens pratica nenhuma de mulheres. Engalfinhavam-se uma na outra, que era o cabo dos trabalhos.

--Que diabo! Se se pudesse chamar essa gente toda a um accôrdo... Contar-lhe tudo, a bôa intenção que vossa senhoria tinha de salvar o rapaz da deshonra... finalmente, um accôrdo é que servia. Vossa senhoria está contra isso, mas é cá a minha ideia, e talvez désse resultado. Porque, combinadas as coisas, tudo ficava em casa, e...

O sr. Velloso parou, e reflectiu; depois respondeu:

--Parece que dizes bem. Contarei primeiramente á Helena o succedido. É uma facada que lhe dou no coração, mas que se ha-de fazer? O diabo é para o contar ao irmão. É capaz de matar a outra.

--Levando-o por bem, não faz nada. É um pobre diabo!

--Bem. Não ha remedio senão fazer isso. Esta só pelos demonios!

--Não foi das melhores, não, sr. Velloso.

--Porque afinal, mesmo que eu deixasse a Maria Luiza, o rapaz, vindo a saber depois a traição d'ella, levava-se dos diabos! Bom: vou até casa. Foste o culpado de tudo isto; mas, como foi na tua ignorancia, perdôo-te. Senão, tinhas de desemaranhar a meada.

--Oh! senhor! Pois eu... estava convencido, porque era tudo cheio! E ainda estou a pensar num caso: como diabo é que o João da Alamêda se conteve, indo lá a casa todas as noites... Tareco impossivel! Mas... ó senhor Velloso! Vossa senhoria não se enganaria?

O brazileiro sorriu-se como um individuo que, perito num assumpto, ouve uma objecção; e, retirando-se, observou:

--Pensas que nasci hontem...

O Neves riu-se por sua vez; e, já sósinho, monologou, respondendo á observação do Velloso:

--Sim... Deves estar mais pratico nessas coisas do que eu...

E, levantando o machado, continuou a sua tarefa.

XIV

No mesmo dia, á tardinha, no campo, o João da Alamêda gradava uma terra que, durante o dia, tinha lavrado. Lançara-lhe a semente e procedia, com a grade, á cobertura dos grãos.

Á frente do gado andava Paulo, de aguilhada ao hombro, com a sóga numa das mãos.

O tempo continuava claro e sereno.

O immenso tapete de flôres que se estendia no campo apresentava já, de onde a onde, uma interrupção: aqui e alli, uma terra, resolvida, sobresaía no meio d'aquella superficie florida como no azul do ceu uma ou outra nuvem pardacenta.

É neste mez que o campo se despe do seu variegado tapete de flôres: mas, em substituição, cobre-se d'uma camada de milho verde que, agitado pelas brizas, nos dá a ideia d'um extenso e placidissimo lago mansamente encrespado pelo vento brando. E no meio d'esse pittoresco lago de verdura--permittam-me a expressão--apparecem, de onde a onde, como bandos de cysnes, ranchos alegres de rapazes e raparigas; elles, despidos dos casacos, com as camisas brancas a lusir entre o verde dos milharaes; ellas, de lenços garridos amarrados graciosamente em volta da nuca fluctuando ao sopro da aragem; todos cantando, sacham o milho pequenino e tenro, desde o despontar do sol até ao crepusculo da tarde. Á hora da sesta, depois da refeição do meio dia sorvida á sombra deliciosa dos salgueiraes, uns estiram-se para dormitar sobre a relva mimosa, outros, collocando-se em circulo, jogam qualquer jogo de regaço, sempre em alegria e folgança honesta; e ainda outros, mais irrequietos e folgazões, saltam para um d'esses bateis que se encontram a cada passo atracados ás margens do Vouga, e vão passear pelo rio.

O João da Alamêda terminou a sua tarefa ao pôr do sol. Collocaram a charrúa e a grade sobre o carro, jungiram as vaccas, e pozéram-se a caminho de casa, Paulo á frente, guiando o carro, e João atraz.

Ao passar á porta da Maria Luiza, João olhou para a janella onde ella, todas as tardes, costumava estar, e não a viu.

--Está talvez lá para o quintal, pensou. Pois vou fazer-lhe uma surpreza!

E, com um sorriso do satisfação, metteu por uma cancella contigua á casa, pé ante pé, esperando encontral-a e rir-se de a vêr surprehendida.

Espreitou para dentro e não viu ninguem. Machinalmente, entrou no pequeno quintal, e parou. Viu a porta, que dava para a cozinha, aberta, e dispunha-se a entrar, quando lhe pareceu ouvir um sussurro de vozes vindo d'um pequeno alpendre que estava ao lado do quintal.

--Ah! Está ali mais a mãe. Pois vou metter-lhes um sustosinho.

E dirigiu-se para lá, com precaução, para não ser presentido.

O alpendre era constituido por um telheiro formado de duas paredes: a do fundo, e a lateral, que era a mesma da cozinha, e no angulo opposto ao formado por estas duas paredes havia um pilar construido de lages. Os vãos entre o pilar e as paredes estavam vedados por taipaes de madeira. Num destes havia uma porta, e João ficou um tanto surprehendido ao vel-a fechada, devendo ser mãe e filha que lá estavam. Mas, de subito, percebeu que uma das vozes era de homem, ao mesmo tempo que o seu coração começou a pulsar precipitadamente.

Avançou até junto da porta, e escutou.

Ouviu a voz de Maria Luiza, compungida, que dizia:

--Sr. Velloso! Que Deus me perdôe o passo que dei! D'hontem para cá, tenho chorado talvez mais lagrimas que em todo o resto da vida. Eu não devia fazer o que fiz. O remorso pesa-me na consciencia duma maneira que não me deixa socegar o espirito.

João da Alamêda agarrou-se com uma das mãos a um barrote, e com a outra esfregou os olhos, como querendo certificar-se de que realmente não sonhava. Livido, os labios tremulos, conservou-se no seu posto a ouvir a mesma voz que proseguia:

--Deve comprehender a infelicidade que me espera, se acaso não tiver piedade de mim, se não cumprir o juramento que me fez!

--Nada mais prezo neste mundo que a minha palavra, Maria, respondeu a outra voz, a do brazileiro.

--Infames! murmurou, com os punhos cerrados, o João, luctando no seu intimo contra a tentação de arrombar aquella porta. Homem infame, e infame mulher! E, voltando-se, desvairado, com os punhos apertando a cabeça, cambaleando, murmurava:

--É assim que pagas tantos sacrificios que fiz por ti, mulher ingrata?! Tanta dedicação, tanto amôr?!...

E, chorando como uma creança, olhou mais uma vez para o alpendre. Depois, como tomando uma resolução, continuou:

--Não! Não quero manchar as mãos no sangue d'um bandido! Que ganho com isso? E, como um ébrio, voltou pelo caminho que tinha tomado.

Era quasi noite, e perto da casa de Maria passou pela mãe d'esta, cuja saudação não ouviu.

Alguns homens que, de volta do trabalho, recolhiam a casa, e algumas mulheres, de cantaro á cabeça, davam-lhe as boas noites, que elle não retribuia.

Tinha sempre, para cada saudação, um dito gracioso acompanhado d'um sorriso; e d'aquella vez passava como um desvairado, o passo vacillante e apressado.

Ficavam-se a olhar para elle por momentos; depois, encolhendo os hombros, continuavam o seu caminho.

João, quando chegou a casa, não tratou de vêr, como era seu costume, se o gado estava recolhido e os utensilios de lavoura que tinham servido nesse dia estavam acondicionados. Entrou na cozinha, deu sorumbaticamente as boas noites, pediu que lhe levassem ao quarto uma escudella de agua mórna para lavar os pés, e, allegando uma violenta dôr de cabeça, despediu-se do pae e recolheu á alcova.

--Queres que te traga a ceia, João? perguntou-lhe Helena quando lhe foi levar a agua.

--Não; não quero. Não me appetece comer.

--Eu não sei o que tens, João! O Paulo diz que não te tinhas queixado no campo de incommodo nenhum. Diz que só se foi que te désse pelo caminho: que ficaste atraz...

--Pois foi no caminho. Olha, vou dizer-te uma coisa, que talvez te não seja muito agradavel, embora pretendas negal-o...

--Que é? perguntou Helena com anciedade.

--É o seguinte: mas digo-to só a ti, para não causar barulho, porque és tu só quem pode fazer o que te peço.

E, esforçando-se por dar serenidade á voz que lhe tremia, proseguiu:

--Esse brazileiro, esse maldito brazileiro que ahi costuma vir, que nunca mais aqui appareça!

--Ah! pois tu...--perguntou Helena, meia aterrada. Não queres que...

--Sim! Que não volte cá mais, para evitar alguma desgraça!

--Ó João! Mas... dize lá: como o soubeste?!--E, entre a anciedade e a surpreza, repetiu--Como o soubeste?!

--Como o soube?! Oh! Essa é boa! Então, pelo que vejo, tu sabial-o, e...

--Então vistel-o sair?!...

--Diabo! Estás a modos... Mas se eu vi o quê?!

--O sr. Velloso... Como não queres que elle cá volte, para evitar alguma desgraça...

--Pois vi! E tu sabial-o, e não m'o tinhas dito!

--Se eu o sabia?! Mas eu não te percebo nem tu percebes a mim!

--Tambem me parece. Mas tu perguntaste-me se eu o tinha visto sair. D'onde?

--D'alli, do alpendre. Pois tu ainda agora disseste tambem que sabias tudo e que tinhas visto...

--Sim... Era isso o que eu queria dizer... E, abafando a colera que, contra o brazileiro, a revelação da irmã lhe suscitara, disse:

--E é por isso que eu não quero que elle aqui volte mais. Vae-te embora, que não paro da cabeça.

--Passa bem a noite, João. Até ámanhã.

--Até ámanhã. E não digas nada disto a ninguem.

--Descança.

João, ao ficar só, sentiu que tinha febre.

Atravez das suas ideias em desordem, só dois vultos divisava distinctos: Velloso e Maria Luisa. Elle, o ladrão da sua noiva, o roubador da felicidade do seu coração, e, para epilogo de tanta malvadez, o pretendente roubador da... O Pretendente?! Quem sabe?! E esta ultima observação saiu-lhe distinctamente expressa por palavras, tal foi o abalo que sentiu dentro em si.

--Ah! Infame! Não! Tu não has-de ficar impune! Hei-de castigar-te de tanta malvadez! Miseravel!...

E, fazendo depois incidir o pensamento sobre a ingrata que calcara tão desapiedadamente aos pés o seu verdadeiro amôr, a sua dedicação extrema, atirou-se, soluçando convulsivamente, sobre a cama, chorando como uma creança.

* * * * *

Nessa noite, Helena prevenia o brazileiro de que era preciso muita cautella com o irmão, que o tinha visto sair d'alli.

--Temo até que elle venha por ahi ainda hoje, Joaquim! Diz que está com uma forte dôr de cabeça; mas, ainda assim...

E o sr. Velloso, que vinha disposto a relatar a Helena os acontecimentos que, desde a véspera, tanto o apoquentavam, achou mais conveniente addiar a confidencia.

--Mas quando hei-de voltar, Helena?

--Não sei... É melhor deixarmos passar dias... O melhor, até, Joaquim, era tu chegares ao pé de meu irmão e dizer-lhe: «descança, João, que a tua irmã vae ser minha mulher». Oh! Joaquim! Quanto eu seria feliz!

--Por estes dias, não, Helena. O motivo, depois t'o direi. Mas confia em Deus, e pede-lhe que nos auxilie para alcançarmos a felicidade.

--Pedir a Deus? Pois Deus póde lá oppôr-se á nossa felicidade, Joaquim? Deus deseja-o, e por isso não precisa que lhe peçam! Só se fôr para metteres a mão na tua consciencia, e...

--És louquiuha, meu anjo. Jureit'o. E que Deus me auxilie no cumprimento do meu juramento.

--Sim. Juraste-me que me havias de dar a felicidade. Queres então que peça a Deus para que te auxilie no cumprimento de tal juramento?

--Quero.

--Pois bem: pedir-lhe-hei... O coração, porém, annuncia-me coisas tão tristes!... Parece-me que nuuca serei feliz a teu lado, Joaquim!

--Se Deus o consentir, has-de ser!

--Mas eu não comprehendo bem as tuas palavras!...

--Não disseste tu que era conveniente que eu me retirasse por causa de teu irmão?

--Sim; mas...

--Mas é que o que te quero dizer, só poderei dizert'o com mais socêgo. Ámanhã, venho cá e...

--Não venhas... Ou antes: esconde-te ahi pela rua, ao largo, e só te approximas se eu abrir a portaria. Então, é porque meu irmão não saiu.

--Bem. Boa noite, Helena.

--Adeus, Joaquim! Até... quando Deus quizer!

XV

No dia seguinte, ao toque das almas, João da Alamêda envergava o seu capote e, pegando no marmeleiro--seu inseparavel companheiro nocturno--saiu de casa. Deu a volta á Herdade, no que gastou cerca de um quarto d'hora, e, na volta, na estrada dos eucalyptos, se se tivesse affirmado bem para um ponto do escuro das arvores, teria notado uma negrura mais densa. Fôra o Velloso que escolhera aquelle ponto para seu posto de observação, donde se descortinava, atravez da negrura daquella noite sem luar, o vulto da casa de Helena, divisando-se no seguimento da estrada esbranquiçada e sobre o fundo do ceu allumiado pelas estrellas.

João passou e, proximo de sua casa, coseu-se com a escuridão do cômoro fronteiro.

O brazileiro, no seu posto, não ousava respirar mais fortemente.

Um silencio sepulchral se seguiu. Nem um sussuro de vento se ouvia nas folhas das arvores.

Passou-se meia hora, e mais outra. As dez horas soaram, lentas e quasi imperceptiveis, na torre de Eiról.

Ás dez e meia, João saía do seu esconderijo e mettia-se em casa.

Um quarto d'hora depois, o brazileiro punha-se tambem a caminho, e nada mais se ouviu na estrada deserta.

* * * * *

O sr. Velloso, com a preoccupação de espirito que lhe causaram estes acontecimentos imprevistos, e consummido no seu intimo por não saber que resolução havia de tomar, pois, emquanto não entrevistasse Helena acerca do succedido, nada poderia resolvêr, faltou á entrevista na tarde do dia seguinte a Maria Luiza.

Esta que, no dia antecedente, occultava a sua mãe as lagrimas que o remorso lhe fazia verter, chorava agora com ella as suas infelicidades, attribuindo a causa das suas lagrimas á ausencia de João, cuja causa não comprehendia.

Sua mãe acalentava-a, insuflando-lhe esperança no amôr de João que, se faltara um dia, algum incommodo lhe sobreviera, porque na vespera, á hora das Ave-Marias, encontrara-o proximo d'alli, quando elle voltava do campo, e não respondera á sua salvação.

--Sentia-se talvez incommodado..., accrescentava.

--A mãe que diz?! Encontrou-o...

--Encontrei-o alli acima.

--Hontem?! E a que horas?... perguntou Maria com expressão de terrivel anciedade.

--Ao toque das Ave-Marias.

E Maria, alanceada por uma suspeita que lhe opprimiu dolorosamente o coração, occultou o rosto nas mãos, debulhando-se em lagrimas.

A esse dia seguiu-se outro de crescente anciedade e soffrimento para Maria Luiza, durante o qual nem fallar ouvia de Velloso, nem de João, de quem se recordava com o coração amargurado e a alma mortificada pelo remorso.

Sua mãe, que ignorava por completo a traição que sua filha perpetrara a João, attribuia as lagrimas de Maria ao soffrimento que lhe devia causar a ausencia de quem não tinha a menor noticia, porque não ousava interrogar ninguem a seu respeito, para se não expor a algum riso ironico; e, não achando outro remedio que pudesse alliviar a afflicção em que a via, resolveu, sem o communicar á filha, ir a casa do tio Alamêda saber da saude de João, pois outro motivo não podia haver que o impedisse de sair, senão a doença.

Custava-lhe muito isso, mas, como João tinha já dito que seu pae não oppunha obstaculo algum á affeição do seu coração, encheu-se de animo, e foi no mais firme proposito de expôr ao tio Alamêda as razões imperiosas que obrigavam o seu coração de mãe a dar aquelle passo, que ao terceiro dia, se dirigiu para lá, eram dez horas da manhã.

Encontrou o velho sentado no alpendre a aparar um pedaço de páu de sobreiro para uma chavêlha.

--Sr. José, Deus vos dê muito bom dia!

--Muito bom dia, sr.ª Rita.

--Deve admirar-se de me vêr por aqui, não é verdade?

--Com effeito, é uma novidade. Ha que annos vocemecê cá não vem! E ha que tempos tambem que a não vejo!

--Não admira... Eu, passo a vida lá em baixo, quasi nunca venho cá para cima...

--E, nem que viesse, tambem me não veria facilmente. Eu não saio do meu aido, porque já não posso, estou velho.

--Está acabado. Velho não. Mas ao menos tem a consolação de viver em socêgo, com os filhos ao pé de si, que lhe querem muito.

--Pois elles, coitados, não têm motivo para me quererem mal. Fiz por elles o que pude...

--Decerto. Foi sempre bom pae para elles. E elles, tambem, têm sido uns bons filhos.

--Graças a Deus... Não sairam dos peores, não senhora.

--Olhe, sr. José: com'assim, para o não estar a maçar mais, vou dizer-lhe o motivo que me trouxe aqui...

--Dirá...

--Sei que o sr. José não é desconhecedor da affeição do seu filho João pela minha filha, e da grande generosidade que elle tem praticado para comnosco, que Deus sabe o que seriamos agora se não fosse o seu bom coração...

--Sei. Elle, coitado, tem um bom coração, lá isso tem! Mas admitto-lhe isso, porque, emfim, parece que a sua filha não é nenhuma ingrata que não reconheça a dedicação d'elle, e não deixa de ser digna d'isso, apezar do que para ahi diziam...

--Linguas do mundo, sr. José! Linguas do mundo! Sabe como é o mundo, e por isso...

--Sim! O mundo inveja sempre a pouca sorte que um pobre tenha! Se é um rico, quanto mais favorecido da sorte, mais venerado é. Emquanto que um pobre...

--Pois é isso mesmo. Ora, como eu lhe ia dizendo, o seu filho ganhou uma grande affeição á minha Maria, e, até hoje, ha já sete mezes, faltou só tres vezes á noite em minha casa, onde a vae visitar: foi na noite de Natal--na noite de ceia--e hontem e ante-hontem. Como faltou estes dois ultimos dias sem nós sabermos o motivo, a rapariga tem-se lá desfeito em chorar, que até me retalha o coração.

--Pois olhe que eu não sei o motivo...

--Então elle não está doente?!

--Não. Ante-hontem á noite é que, ao chegar do campo, queixou-se d'umas fortes dôres de cabeça, e foi-se deitar sem ceia. Mas hontem, logo de manhã, levantou-se e foi para o trabalho.

--Sim?!

--É verdade.