Chapter 5
--Foi verdade. Como vissem que eu não desistia do meu proposito, quizeram lançar sobre ella nova affronta e fazer com que eu duvidasse da sua honestidade. Para confirmarem o que dizem, fizeram com que um individuo, ou mais do que um, fosse por horas mortas bater á porta de Maria Luiza. Eu todas as noites lá vou, e ella preveniu-me de que, depois de eu sair, hade haver uns dez dias, tinham lá ido bater de mansinho á porta. Espreitei no dia seguinte, mas não vi ninguem. Não fiz mais caso, e passados cinco dias voltaram lá. Eu então, nessa tal noite--foi na vespera de Natal--fui pôr-me de novo á espreita. Passado muito tempo, um embuçado approximou-se, muito cautelloso, e bateu devagar tres pancadas. Ia já a retirar-se, talvez por me não ter visto sair e receando que eu estivesse a espreital-o, mas ainda lhe pude dar uma bastonada, que é para lá não tornar.
--Fizeste mal, filho. Não te devias precipitar d'essa maneira. Isso pode ser-te fatal, porque por vingança, esse homem pode fazer-te peor. Se te certificaste da má intenção d'esse homem e confiavas na seriedade da Maria Luiza, devias deixar correr. Não ha nada melhor que entregarmos certas coisas ao desprezo. As más linguas chegam a cançar-se, e lá vem um dia em que a maledicencia cede o logar ao arrependimento; porque a verdade é como o sol que dissipa as trevas mais espessas. Precipitaste-te, e agora és censurado e tido como desordeiro, e isso é muito penoso para um coração de pae. Dá tempo ao tempo, é um dictado muito antigo; porque atraz da tempestade vem a bonança.
E quando, convencidos da verdade, toda essa gente se calar, faz então o que a tua razão e o coração te aconselharem. Não sou como muitos paes que, possuindo dois palmos de terra, querem que seus filhos casem com quem tenha outro tanto. Não. Eu quero que meus filhos vivam contentes e felizes; e a felicidade não se alcança com a riqueza.
--Obrigado, meu pae! disse João com os olhos marejados de lagrimas, radiante de alegria e ao mesmo tempo commovido. Obrigado pelos bons conselhos que acaba de dar-me e que eu observarei, e pela maneira como attendeu ás minhas supplicas, ainda que outra coisa não esperava da sua bondade!
E, apoderando-se das mãos de seu pae, beijou-lh'as com soffreguidão.
O tio Alameda retirou-se commovido occultando ao filho duas lagrimas que lhe bailavam nos olhos.
VIII
Era n'um domingo do mez de janeiro; varios grupos d'homens estacionavam no adro, depois da primeira chamada do sino para a missa conventual, emquanto outros, já velhos, e algumas mulheres, de todas as idades, entravam religiosamente na egreja.
Dentro d'esta, o velho prior, sentado na sua cadeira, fazia a pratica do evangelho do dia, emquanto no adro, gosando a amenidade do dia alegrado por um sol resplandecente, os outros fieis aguardavam a segunda chamada para a missa.
O tempo deslisava, havia já uma semana, sereno e cheio de doçura. Á quadra invernosa do Natal seguira-se uma quadra toda jovial e alegre: parecia que se tinha antecipado n'aquelle anno a primavera, o que era desmentido apenas por algumas arvores de folhagem caduca que se elevavam tristes e graves como esqueletos, como querendo lembrar á natureza que não era aquella a epocha de ostentar as suas galhardias.
Os dias succediam-se serenos, limpidos e transparentes como taças de crystal, doces como favos de mel; e as noites, tomando uma alegria ficticia para occultar a sua melancholia, pejadas d'um luar magnifico, lembravam os sorrisos repassados de amargura d'uma viuva inconsolavel.
O sino, agitando-se n'um crescente movimento oscillatorio, fez a segunda chamada, e um bando de pombas que estava poisado no espinhaço da egreja espreitando o sol, levantou vôo, ás primeiras badaladas do sino, e foi adejando para os lados do campo.
Ao mesmo tempo um carro de quatro rodas, carregado de malas, puxado por tres alazões, atravessava o adro, absorvendo a attenção de todos.
Ao lado do cocheiro ia sentado um outro homem de trinta e tal annos, typo de brasileiro, a avaliar pelo modo de vestir--fato claro de casimira, e calças d'uma largura de pernas que lh'as permittiria enfiar sem difficuldade com as botas calçadas; parecia alem d'isso, a avaliar pela quantidade de bagagem que o precedia e pela grossura d'uma cadeia de oiro que lhe bamboleava no collete cuja abertura lhe abrangia quasi toda a altura do peito, que era um brazileiro rico.
Deitou, ao passar, um olhar de relance, um d'estes olhares com que muita gente, affectando um ar de superioridade, em que transparece, comtudo, a sua imbecilidade recalcada, geralmente, pelo pezo do ouro, vê as pessoas e as coisas que julga n'uma esphera inferior á sua.
Cada grupo ficou fazendo os seus commentarios á _pose_ do pedaço d'asno--de que logo o apodaram--no qual os mais velhos reconheceram o filho da tia Quiteria de Jesus, por alcunha a _bisnaga_.
--Então vocês não se lembram, dizia um homem dos seus sessenta annos aos quatro do seu grupo todos regulando pela mesma edade--d'aquelle garotêlho que a Quiteria _bisnaga_ tinha?
--Ah! sim! Dá uns ares d'elle, dá!
--Pois é este figurão que ahi vae. Andava por ahi á maçã do chão, todo esfarrapado e ranhoso. A mãe pôl-o a servir alli em casa do fallecido pae do Silveira, que era um lavrador rico, como vocês sabem. Esteve lá uns dois annos, se tanto, até que um dia pede dinheiro emprestado ao patrão para ir para o Brazil, na condição de lh'o mandar quando o ganhasse. O patrão disse-lhe: nunca o diabo mais leve; olha, se o ganhares, manda-m'o; e se o não ganhares, fica por intenção da minha alma.
--E ganhou-o bem, logo se vê!
--Ai! teve sorte! No fim de dois mezes mandou-lhe o dinheiro, e mandou-lhe tambem dizer que só voltaria á terra quando estivesse tanto ou mais rico do que elle; que, do contrario, não punha cá mais os pés!
--Ora vejam o que é a sorte!
--É assim! Deu em enriquecer, e mandava sempre uma mezada á mãe.
--Por isso ella anda por ahi muito gaiteira, e já não apparece na feira dos cinco a comprar e vender creação!
--Já não tem necessidade d'isso. Até parece que anda mais nova.
--É verdade! Olha a _bisnaga_! Se ella não tivesse tido a habilidade de arranjar aquelle filho, não tinha agora uma velhice tão mimosa.
--Meu caro... é a sorte. Pois foi para o Brazil ha vinte annos, pouco mais ou menos, pobre como Job, sem saber lêr nem escrever...
--Ora vejam!
--Quero dizer... elle aprendeu lá a lêr, mas isso foi já depois de estar bastante rico. E fez bem. Um homem, com riqueza, sempre precisa de ter alguma instrucção. Mas, quando foi, era um perfeito miseravel. Pois dizem que tem uma bôa fortuna.
--Meu amigo:
«Se fôres ao mar pescar, Que a fortuna te não deixe.»
--Isso, isso! Ah! Ah! Ah!
«Lança as redes, vem-te embora, Quanto mais burro, mais peixe.»
E, batendo-lhe no hombro, disse para os do grupo:
--Vamos para a missa, que deve estar a começar.
* * * * *
Nesse mesmo dia, á tarde, o filho da tia Quiteria de Jesus fazia a digestão do jantar, preguiçosamente espernegado num escabello, saboreando um aromatico charuto, cujo fumo, desenrolando-se serenamente em espiraes na atmosphera, elle contemplava com os olhos indolentemente semi-cerrados.
Estava só, na saleta terrea que lhe servia de triclinio, pois que a cosinha não era, segundo o seu modo de vêr de homem rico, logar apropriado para isso.
A mãe, na companhia d'outra mulher que convidara para a ajudar nos serviços domesticos d'esse dia--dia de gala em casa da tia Quiteria--ultimava as arrumações da sua cosinha onde n'esse dia um frango, uma posta de vitella e outra de carneiro e mais uns guisados, deram ás paredes denegridas a honra de as mimosear com um fumo mais agradavel, impregnado de aromas recendentes que espantaram metade da visinhança.
--Viva, sr.ª Quiteria! disse da porta da cosinha um homem de trinta e cinco annos, com a sua roupa domingueira de saragoça, fazendo uma mesura com o chapéu na mão. Então está contente, hein? Tem cá o seu filho...
--É verdade, Francisco. Como não hei-de estar contente, se ha tantos annos o não via?
--Decerto, decerto! Pois eu queria vê-lo, porque a gente gosta sempre de vêr as pessoas do nosso tempo de rapaz... Elle é capaz de fazer que me não conhece... Deus Nosso Senhor deu-lhe sorte; enriqueceu, emquanto que eu, sempre...
--Não digas isso, homem! O meu Joaquim não é d'esses. Olha: entra para alli, que lá o encontras.
O nosso novo personagem era o visinho mais proximo da sr.ª Quiteria (é necessario agora dar-lhe senhoria, em honra do dinheiro do filho); era um antigo companheiro do brazileiro, inseparaveis no jogo do pião e na procura de ninhos. Vivia só com sua mãe, a tia Maria das Neves, que corrêra logo a dar os parabens á sua visinha e as boas vindas ao filho, a quem achou muito desconhecido mas muito bom, com muito boa côr, que não parecia até vir de terras brazileiras.
Elle abriu a porta que dava para a salita, e, lançando um olhar meio perscrutador, meio timido, para dentro, perguntou da porta:
--Ó senhor Joaquim! Que bons olhos o vejam!
--Ah! és tu, Francisco? perguntou phleugmaticamente, sem se mexer, o brazileiro. Entra, homem. Entra, e senta-te ahi mesmo nessa mala.
--Ora então, com sua licença. Pois eu, sabendo que vossa senhoria tinha chegado, mal parecia que não viesse visital-o, porque, sempre foi um rapaz com quem brinquei muitas vezes; lembra-se, sr. Joaquim, quando jogavamos o pião?...
--Ah! sim! sim! interrompeu o _bisnaga_ com expressão de desdem.
--Depois, pensei lá commigo: elle sempre se ha-de lembrar de mim ainda, embora eu seja pobre e elle esteja rico...
--Arranjei uns patacos, é verdade. Não é muito, mas... contentar.
--Teve sorte! Teve sorte! É porque Deus lhe achou merecimentos para isso. Ah! quem o viu e quem o vê! Quando nós iamos á cata de ninhos, acolá por...
--Ah! sim! sim! Olha lá uma coisa: tu não fumas?
--Fumo...
E, puxando por um _kentuk_, ajuntou:
--É que eu não queria... faltar ao respeito...
--Ah! sim! Deixa lá isso; fuma este charuto. E deu-lhe um que tirou do bolso do casaco.
O filho da tia Maria das Neves pegou cautelosamente com dois dêdos no charuto que o brazileiro lhe offerecia, contemplou-o com um sorriso mixto de parvoice e de contentamento, e metteu uma das extremidades na bôcca.
--Espera lá, homem! É preciso aparal-o. Por onde diabo querias tu que saisse o fumo?
E deu-lhe um canivete, mostrando-lhe, para exemplo, o seu charuto, que tirou da boquilha de aros de oiro.
O Francisco cortou uma das extremidades ao charuto, e, depois de o metter na bôcca, puxou d'um phosphoro de pau, dos que vulgarmente se chamam de _espera gallego_ por causa da grande demora do enxofre entrar em combustão, e, raspando-o nas calças de saragoça, com elle accendeu o charuto.
Entretanto, a _bisnaga_ recebe a visita, na cosinha, de varias visinhas que a vêm felicitar pelo alegrão que a vinda do seu Joaquim lhe veio dar.
Este, abrindo a bôcca n'um cantarolado bocejo, pergunta ao seu antigo companheiro, que mais parece um servo que um antigo amigo dos tempos de rapaz:
--Olha lá uma coisa: a respeito de _pequenas_, como vae isso por ahi?
E ao dizer isto, piscava velhacamente um olho.
--Ha por ahi uns peixões bem bons!
--Sim?
--Conheceu a tia Joanna Maneta?
--A tia Joanna Maneta?... Ah! aquella mulher que uma vez nos queria... Bem sei, bem sei. Então?
--Então, tem lá uma cachopa de estalo, ahi dos seus vinte e dois annos!
--E será facil de...
--Ai! Ai! Ai! Isso é só chegar-lhe!--e esfregava, um de encontro ao outro, os dêdos pollegar e index. Fazem-se finas, os diabos! Ha por ahi um par d'ellas que não vão assim com duas razões! Querem só que os rapazes lhes fallem em casorio. Mas vossa senhoria não precisará de muito trabalho. Isto de mulheres, cheirando-lhe a dinheiro... se não é uma é outra. Porque ha por ahi bastantes! Mas obra fina, d'aqui de traz da orelha, tem lá o tio Alameda!
--Alguma filha geitosa, hein?
--Oh! de estalo! Isso é o que ha de melhor por estas redondezas. Mas está nova!...
--Que edade tem?
--Deve andar pelos seus desenove. Se tanto! Além d'isso, era uma grande desfeita ao velho, que é muito respeitado, e quer-lhe como á luz dos olhos.
--Isso de desfeita é o menos. O diabo é ella ser menor.
--Pois é isso... Ah! a proposito do tio Alamêda! Não sei se vossa senhoria sabe que elle, além d'essa rapariga, tem um filho ahi dos seus vinte e quatro a vinte e cinco annos?
--Não sabia, mas fico sabendo.
--E vossa senhoria lembra-se da tia Rita Serôdia?
--Hum! Não me reccordo, não.
--Bem, é a mesma coisa. Pois uma filha d'essa tal Serôdia, uma rapariga toda espevitada e geitosa, cantava ao desafio com qualquer, que era um gosto ouvil-a! O tal filho do tio Alameda tambem canta muito bem; é até chamado o rei dos cantadores, porque por estes sitios e arredores, não ha ninguem que se lhe compare. Qualquer que se fosse bater com elle, era derrota certa. Ora essa tal filha da Serôdia, e que se chama Maria Luiza, deu em ir cantar sempre com elle; em todas as festas onde appareciam os dois, ahi estavam em frente um do outro! Até algumas vezes ella vencia-o, mas dizia-se que era elle que o fazia de proposito. Mas mais tarde é que se soube que o rapaz dava o cavaco por ella, tanto que se tem feito os esforços para o retirar, porque dizem que casa com ella, e não ha meio; e é porque, segundo consta, a rapariga é mal empregada n'elle, porque se portava mal, e, além de elle ser um bello rapaz, estimado de todos, dá um desgosto ao pobre velho do pae, que não faz ideia. Ora por estas razões, é uma obra de caridade desviar o rapaz d'alli. Isto de mulheres, vossa senhoria sabe-o melhor do que eu, porque tem corrido mundo, em lhe cheirando a riqueza, illudem-se como ratos!
--Ah! Ah! Ah! Queres então dizer que, com duas arrastaduras de aza e outras tantas promessas...
--Ora nem mais! Além d'isso, não é mau petisco! E como anda toda inchada por o rapaz andar assim pela beiça, sabendo toda a gente o que ella foi, era bem feito.
--Oh! diabo! Mas é preciso fazer isso com geito. Não vá o rapaz fazer alguma...
--Isso fica por minha conta! Com geito tudo se arranja. Sou amigo do rapaz, começarei a metter-lhe em cabeça que a rapariga anda a perder a cabeça com vossa senhoria, que nem sequer ainda pensou n'ella, e, finalmente, quando vossa senhoria começar a entrar em combate, ella, com certeza, não resiste, e então eu direi ao rapaz se fôr preciso, que foi ella até que se entregou a vossa senhoria. Verá depois como elle até me agradece o cuidado que tive em lhe abrir os olhos.
--Bem. Arranja lá as coisas, e, quando fôr occasião, mostra-me a rapariga. Agora ouve lá uma outra coisa: não ha por ahi quem queira vender uma propriedade bem situada, que seja fertil, isto é, com agua em abundancia, e onde se possa fazer uma casa?
--Falla-se que o Lopes vae vender aquella casa com a propriedade que fica aqui nesta rua, á beira da estrada, mesmo á esquina da viella da Nóra. É um aido grande, tem boa agua, e está num sitio lindo, donde se vê o campo todo...
--Pois isso é que me convinha comprar.
--Se vossa senhoria quer, vamos ter com elle, e, se o homem estiver resolvido...
--Paga-se-lhe bem e...
--E arranja-se tudo á surrelfa; escusa de a annunciar.
--Pois é isso. Vamos então lá.
IX
Estava-se no principio da primavera, a quadra em que a natureza, banindo a melancholia em que estivera mergulhada durante alguns mezes, começa a vestir-se de galas. As arvores que, na nudez dos seus ramos, só inspiravam tristeza, começam a revestir-se d'uma folhagem pequenina e tenra, e os passaritos, passeando d'umas para as outras, chilreando, cantando, juntam a sua alegria á alegria da natureza, parecem inebriados com tanta doçura.
Era num dia limpido da primavera, ás sete horas da manhã--uma manhã de agradabilissima frescura, clara, serena, animada por um sol cheio de vida e sorridente, pairando no ceu azul e coando-se atravez da atmosphera d'uma extrema limpidez--uma d'estas manhãs cheia de vida que, gosadas na aldeia, teriam o dom sobrenatural de inocular no animo d'um desvairado o gosto pela vida de que estivesse prestes a desfazer-se.
O tio José da Alameda, sentado no muro da sua eira, contempla o aido com um sorriso de amargura e satisfação. Contempla as arvores rejuvenescendo de encantos, muitas das quaes elle plantou e outras lhe foram legadas por seus paes; faz passear a sua memoria pelos tempos passados, recordando, com amarga saudade, esses tempos ditosos que foram para nunca mais voltar, e, na sua profunda abstracção, estremece á voz d'um homem que, por detraz de si, o chama.
--Viva, sr. José! Está gosando a frescura da manhã, hein?
Elle voltou-se, e viu na sua frente o filho da sr.ª Quiteria de Jesus, de arma ao hombro, trajo de caçador, chapéu molle derrubado e cheio de orvalho.
--É verdade, sr. Joaquim Velloso. (O Velloso, tomou-o elle por lhe parecer um nome pomposo que se casava bem com a sua situação). Então anda caçando, logo de manhã?
--Saí a dar um passeio matutino, eram cinco horas. Dei uma volta alli pelas Chans, e matei dois melros, que trago aqui na bolsa. Apenas para me entreter e gosar a manhã que está muito linda, e fazer vontade ao almoço. Entrei por aqui dentro sem pedir licença...
--Ora essa! Não precisa! Quando quizer, não só o meu aido está ás suas ordens para passear, mas tambem a minha casa está sempre aberta para o receber.
--Muito obrigado! Muito obrigado!
--Olhe: vamos até lá e descança um pouco. Entretanto faz-se o almoço e...
--Oh! sr. José! Muito obrigado pela franqueza!
--Obrigado pela franqueza! Essa não é má! Nem pelo almoço eu quero que me fique obrigado...
--Mas deve comprehender que tambem devo ter o meu á espera em casa, e...
--Mas tambem comprehendo que, depois de uma passeata d'essas, deve trazer bom appetite; e como a sua casa ainda fica distante...
--Oh! senhor! Nesse caso, obriga-me a almoçar duas vezes...
--Olhe que não faz mal nenhum! Eu, quando era da sua edade, era capaz de almoçar tres vezes. O senhor desculpe-me a franqueza com que lhe fallo...
--Oh! nem nisso se deve fallar. E já que assim quer, terei hoje o prazer de almoçar na sua amavel companhia.
--Vamos lá. Se estamos com ceremonias, não saimos d'aqui hoje.
E o velho, travando-lhe do braço, encaminhou-o para casa, que ficava a cerca de cem metros.
Conversando e parando a cada passo, o tio Alameda ia-lhe fallando da agricultura d'aquelle anno, que promettia não ser fecundo, de pouca novidade, pois que, se assim continuava o tempo, sem chuva, ter-se-ia um anno de fome; applicou o adagio «se não chover em março e abril, venderá el-rei o carro e o carril».
--Olhe o sr. Velloso: ha um dictado que diz «em março queimou a velha o maço; em abril queimou o carril; uma cama que lhe ficou, em maio a queimou; e ainda lhe ficou como um punho, que o queimou em Junho».
O brazileiro ria-se dos dictos do tio Alameda, e interrompia as suas considerações sobre a agricultura, de que não percebia nada, com monosyllabos, acênos de cabeça e breves repetições do que ia ouvindo. Por fim, a conversa incidiu sobre coisas de que já podia fallar, e, como quasi todos os individuos que, tendo nascido na lama, se vêem um dia deitados em leitos fôfos e voluptuosos e gostam de alardear os seus haveres, elle fallou dos seus negocios, das transacções dos seus capitaes, dos seus projectos da vida futura que tencionava passar, na aldeia onde nasceu, fallou da compra da propriedade ao Lopes, onde andava já a construir uma casa, etc., etc.
Por fim, chegaram, ao cabo de uma boa meia hora, a casa do tio Alameda.
--Helena! chamou o velho ao chegar a casa. O sr. Velloso almoça hoje comnosco. Prepara-lhe o almoço.
Helena viera lesta ao chamamento do pae e recebeu com um encantador sorriso o seu hospede que, levando a mão ao chapeu, a cumprimentou com uma mesura envolvendo-a num olhar de sympathia.
O tio Alameda conduziu-o á sala, onde conversaram emquanto Helena, coadjuvada por Julia, prepara um succulento fricassé com ovos e linguiça.
Ás oito e meia chegavam João e Paulo do trabalho, jaqueta ao hombro, as calças empoeiradas.
--Helenasinha, perguntou João entrando alegremente na cosinha; está prompto o almoço?
--Sim senhor.--E acrescentou a meia voz: temos cá hoje um hospede para almoçar.
--Um hospede? E quem é?
--O brazileiro, o sr. Velloso.
--O sr. Velloso?! E a que proposito vem esse homem almoçar hoje cá?!
--Oh! parece que não ficaste contente! respondeu contristada. Estás zangado com elle, João? perguntou com visivel anciedade.
--Não, não estou. Mas parece que tu... parece que te preoccupas muito com elle?
--Ora! Isto é geito meu, respondeu com um sorriso; e, para occultar uma leve vermelhidão que lhe tingiu as faces, o que não passou despercebido ao irmão, affastou-se, dizendo:
--Ah! que já me ia esquecendo o estrugido!
Entretanto, Julia ia estendendo sobre a mesa a toalha, sorrindo angelicamente para Paulo que a contemplava apaixonadamente com o rosto entre as mãos e os cotovellhos apoiados sobre a meza...................... ..........................................................................
Terminado o almoço, o sr. Velloso despedindo-se cortezmente e muito reconhecido pelas deferencias com que aquella excellente gente o tractara, e intimamente jubiloso pela retribuição de olhares ternos com que galanteara disfarçadamente Helena prometteu voltar uma vez por outra, fazendo ao mesmo tempo com antecipação o convite para irem egualmente á sua casa nova, logo que estivesse concluida.
--Isso ainda leva uns mêzitos, dizia o tio José. Segundo dizem, vae ficar uma obra bôa, e...
--Tambem me custa a modica quantia de tres ou quatro contos!
--Meu amigo! Trabalhou, para agora gozar. É porque Deus lhe achou merecimentos para isso.
O sr. Velloso encolheu ou com modestia ou com desdem os hombros, e, estendendo a mão ao velho, cumprimentou com uma venia a familia.
--Pois faz-me um grande favor em vir por aqui bastantes vezes para me entreter, dizia-lhe o velho, apertando na sua mão rugosa a mão macia do brazileiro. Um velho como eu, que já não pode ir trabalhar, estima sempre que lhe façam companhia, mórmente pessoas delicadas como o sr. Velloso.
--Afinal, continuou, voltando para dentro depois que o brazileiro partiu--dizem que é muito cheio de presumpção e vaidade. Não acho! Parece-me até muito boa pessoa! Muito cortez, delicado e parece ter muito bom coração. Parece muito bom sujeito.
--Parece muito bom sujeito, parece! repetiu quasi machinalmente, como num echo, Helena.
Paulo e Julia, a quem não passaram de todo despercebidos os olhares incendiados que o sr. Velloso deitava a Helena, trocaram um sorriso; e João, pegando no casaco, pôl-o ao hombro, e pondo-se a caminho, precedido de Paulo, murmurava comsigo:
--Será muito boa pessoa, será! Pode até ser um santo! Mas... não vae á minha missa! Aquelle olhar não indica coisa boa!... E então a lôrpa da minha irmã a modos de... Isto de mulheres!... Ora faça elle alguma, e verá quanto peza um marmelleiro!... Pensa talvez que ainda está no Brazil? Experimenta! Experimenta, que o cacete t'o dirá!...
E caminhando alguns momentos silencioso, continuou, monologando, num intelligivel crescendo:
--Vêm para ahi com uns poucos de contos, ganhos sabe Deus como, e, sem se lembrarem que já foram uns pelintras, uns miseraveis, fazem-se então uns pedaços d'asnos que pensam terem o rei na barriga!... Ora vem para cá com as tuas basófias, que eu te ensino como se bate um lombo!... Tem então lá um palerma d'um visinho, mais chapado que um portão de ferro, que--Ah! Ah! Ah! até dá vontade de rir!--me vem dizer «que tome conta na Maria Luiza, que anda tôla pelo _bisnaga_! Que era só elle fazer um gesto, que a rapariga era d'elle! Que Deus me livrasse de elle tomar a peito fazer-me alguma desfeita!» Que grande bruto me saiste, Francisquinho das Neves! Que se livre mas é elle! Ah! Ah! Ah! A Maria Luiza! Que dois brutos me sairam o _bisnaga_ e o Neves! Este, embruteceu com o dinheiro; o outro, embruteceu talvez pela grande vontade d'elle! Ah! Ah! Ah!