Scenas da Aldeia

Chapter 4

Chapter 43,956 wordsPublic domain

--Aquella de um demonio que andava ás almas na noite do Natal e que, tendo ido a casa d'umas pessoas que eram muito bôa gente, teve de fugir, porque se arriscava a ficar na certã das filhoses mais rilhado que um torresmo. Lembra-se?

--Ah! Ah! Ah! Bem sei! Bem sei! Essa historia ouviu-a eu contar á minha avó, era eu pequeno. Ha que tempo lá vae isso!... Mas como era o principio? Lembras-te?

--Tambem já não sei! Tu sábel-o, ó João?

O João pareceu despertar d'um sonho.

--O quê?!...

--Em que estavas tu para ahi a scismar, homem? perguntou o pae, risonho e bondoso.

--Eu?... Estava a pensar em... que... Esava a vêr o que amanhã hei-de levar ao Menino Jesus--disse elle sorrindo, admirado da sua inspiração.

--Ora! O que lhe has-de levar? Leva-lhe uma abobora _menina_ e duas ou tres linguiças. Têm muito bôa venda no leilão.

--Eu é que arranjei uma caixinha linda para lhe dar; acrescentou Julia. Não é bonita, Helena?

--Gosto muito d'ella. Mas olha que é preciso metter-lhe qualquer coisa dentro. Amêndoas, por exemplo.

--Ah! É verdade! Não me lembrava!

--Esperem! Eu encarrego-me de arranjar uma coisa para lhe metter, disse do canto Paulo.

--O que é? O que é? perguntou com curiosidade Julia.

--A caixa é muito linda, ou é assim, assim?

--Oh! é toda coberta a setim de duas côres! E com fitas de seda muito chics! Helena que diga.

--A caixinha até é mal empregada no leilão, disse Helena, porque póde ir parar ás mãos de quem a não saiba apreciar e a não estime.

--Bom! disse Paulo com resolução. Pois nesse caso mais graça tem a brincadeira. É uma coisa que vou metter dentro da caixa amanhã de manhã, e que vae fazer rir ás bandeiras despregadas toda a gente que estiver no leilão. Porque, indo fechada, hão-de ter a curiosidade de vêr o que vae dentro. Ella tem chave?

--Tem; vae presa a uma fita. Mas o que é, Paulo?

--É um rato!

--Ah! Ah! Ah! Tiveste bôa lembrança, e...

Na porta da cosinha soaram duas pancadas surdas, e uma voz um tanto aldrabada chamou de fóra:

--Ó tio Alameda! Você não dá um caldo e dormida ao Belbuth?

--Ah! o Belbuth! exclamou Julia batendo as palmas, e erguendo-se pressurosa a abrir-lhe a porta.

Elle entrou, tartamudeando umas «boas noites» e todos o acolheram jubilosamente.

Deixemos o Belbuth conçoando com esta bôa gente e alegrando-a com narrações de episodios da sua longa vida de miseravel, e entremos na casinha modesta da Maria Luiza, que está triste e pensativa...

Triste e pensativa?! A Maria Luiza de ha tres mezes?!

Sim. Essa mesma rapariga, desembaraçada e alegre, que, no arraial do Santo Estevam, supplantara o João da Alameda, o cantador invencivel; a mesma da desfolhada, em que ella gosara o exclusivo do seu abraço, goso momentaneo que foi a origem de mil dissabores.

Na lareira da sua cosinha arde uma pequena fogueira, a cuja claridade a Maria Luiza costura debruçada: e a mãe, já velha, talvez de mais de sessenta annos, com uma roca a tira-colo, faz ainda girar o fuso entre os dedos com facilidade.

As telhas, denegridas do fumo, e as paredes, de egual aspecto, dão um tom de tristeza áquella mansão de paz e socego.

No poste da chaminé, está dependurada uma candeia de lata, cuja luz, nos estertores da agonia, bruxoleante, augmenta a taciturnidade do aposento.

--Vae deitar petróleo naquella candeia, Maria, disse a mãe.

Ella levantou-se, deitou um olhar para a porta, ministrou á candeia o almejado liquido que fez soluçar a luz, tornou a olhar com olhos de anciedade para a porta da cosinha, e voltou á sua costura, dando um suspiro.

Porque olha ella tão insistentemente, perguntará lá para si o leitor, para a entrada do seu tugurio, e porque toma ás vezes no peito tanto ar, que ao expelil-o, semelha a aragem da tarde a agitar brandamente, em suave murmurinho, as espigas maduras d'uma ceára?

E porque é que tu, leitor ou leitora, vaes algumas vezes, em noites serenas, para a tua varanda ou para o aido, sósinho, a contemplar as estrellas, procurando espalhar, na immensidade do infinito, as mágoas que suffocam o teu peito?

Impressiona-te a concentração do espirito d'essa rapariga que, outrora, sempre de expressão radiante, espalhava em volta de si a alegria, como uma flôr odorifera espalha o aroma pelo ambiente dum jardim?

Segredos do coração.

Sim: o coração, pequeno como é, pratica obras estupendas. Fazer de Maria Luiza de ha tres mezes a Maria Luiza de hoje, é uma obra que eu colloco na ordem dos impossiveis.

Pois o impossivel realisa-se?

Realisa. É um exclusivo do coração.

O pae severo impõe as mais terminantes ordens de reclusão á filha enamorada. Fecha-a na alcôva, e volta com a chave, que colloca, juntamente com a do portão, debaixo da sua cabeceira.

Dorme descançado, porque a janella é alta e, a dar-se a evasão, o gradeamento, difficil de transpôr, torna impossivel a fuga.

O sol, de manhãsinha, ergue-se sorridente de sarcasmo no horisonte e penetra, pelas portadas entre-abertas da janella, na alcova do pae que accorda e leva a mão ao sitio onde guardara, na vespera, a chave do seu thesouro.

--Cá estão! monologa somnolento e carrancudo.

--E ella? a tua andorinha?..., murmura-lhe ao ouvido um raio mais chocarreiro do sol.

Elle despreza a chufa e volta-se para o outro lado, a saborear, descançado, o somno da manhã.

Quando accorda, já o sol vae alto, esfrega os olhos, levanta-se pezado de avareza e vae abrir a porta á sua andorinha...

Oh! decepção cruel! A linda andorinha voou de noite, atravez da escuridão, por esses ares fóra!

É que o coração vôa quando quer. Não tem elle azas?

É um grande artista. Os maiores prodigios que têm assombrado a humanidade são obra sua.

Pegar numa pedra muito tosca e muito dura, desbastal-a a cinzel, dar-lhe a fórma de um homem, polil-a e collocal-a num altar, tornando-a de penedo tantas vezes maltratado em um santo que se venéra, é possivel a qualquer artista.

Polir uma alma... só o coração.

A Maria Luiza d'outr'ora e a Maria Luiza d'hoje, differem entre si como a peccadora de Magdalo differe da penitente que está osculando e orvalhando de lagrimas os pés do Nazareno.

Mas... quem espera ella?

O João do tio Alameda. Aquelle que, num rasgo de generosidade e de amôr, se compadeceu d'ella; porque, desde a noite d'aquella desfolhada em que ella tivera o privilegio de ser abraçada por elle na presença das companheiras que tentaram disfarçar a inveja que lhes causára, a Maria Luiza começou de ser envolvida numa mephitica atmosphera de maledicencia. Esta nasceu da inveja, e a inveja começa por sua vez quando se tem o reconhecimento da inaptidão ou da inferioridade.

Se se podesse obter de um invejoso resposta á pergunta «porque invejas?» elle diria inevitavelmente «invejo porque valho menos».

Mas o invejoso não fica por aqui.

Dado o primeiro passo na senda das depravações, prosegue.

Assim como uma alma cultivada na pratica da virtude e por ella purificada, sente um ineffavel e celeste prazer em praticar novas e consecutivas virtudes, assim um espirito maligno, um coração embotado pelas acções vis, sente um infernal prazer em percorrer a escala das depravações.

_Abyssus abyssum invocat._

Imagine-se um vaso cheio de agua pura, em que se lhe deitam algumas gôttas d'um liquido venenoso. A agua crystallina, que até então poderia dar a vida a quem se debatesse nas ardencias da sêde, affectou-se das propriedades mortiferas da peçonha que, de mollecula em mollecula, foi affectar, com o seu terrivel contacto, o puro liquido.

Meia duzia de linguas depravadas infectaram tambem com a peçonha da maledicencia as linguas restantes da freguezia; e a honestidade da Maria Luiza, como a flôr branca da açucena açoutada pelo vento cortante da tempestade que não consegue prostral-a no lodaçal que ameaça conspurcar as suas petalas de pura cambraia, foi maltratada pelo vento cortante d'essa maledicencia.

João comprehendeu a situação de Maria, e não hesitou em collocar ao abrigo do seu peito essa flôr que, por sua causa, tinha sido exposta ao rigôr das intempéries.

--Maria--disse-lhe a mãe depois de um muito prolongado silencio; são horas de deitar. O João não vem cá hoje decerto, o pae talvez o não deixe sair, porque, nesta noite, todos os paes querem a familia reunida em volta de si.

--Mas vá a mãe deitar-se, que eu espero ainda um pouco. Falta-me além d'isso ainda aqui uma bainha, e entretanto acabo-a. Talvez não falte...

Como deve ser ditoso ter esperança num coração que nos ama!

Deve ser tão ditoso esperarmos num coração que nos estremece, como penosa deve ser a deseperança num coração que idolatramos.

João amava Maria Luiza; ella bem o sabia, porque não ha ninguem que melhor leia nos olhos do homem apaixonado do que a mulher amada. E a mulher sabe, por instincto, que um homem não tem a habilidade com que ella finge um sentimento que está longe de possuir.

O João não havia, pois, de faltar. Não tinha elle sido sempre pontual em vir ministrar ao seu coração o alento de que tanto necessitava para não desesperar de viver?

Que significavam tres mezes de constantes provas de amôr, de tantas promessas e juramentos que no auge da sua paixão, elle lhe fizera, traduzindo no olhar incendiado todo o fogo que lhe devorava o peito?...

Uma lufada mais forte de vento soprando nas arvores da rua arrancou-a á sua profunda meditação e fel-a olhar para a porta. Olhando depois em volta, viu-se só. Engolfada nos seus dôces pensamentos, nem notara a retirada de sua mãe.

O vento continuava sussurrando lá fóra, semelhante ao gemer do mar, e a porta já gasta da choupana rangia ao embate de cada rajada mais forte.

No sino da egreja de Eirol soaram onze longinquas e monótonas badaladas que Maria Luiza contou em crescente anciedade do seu coração impaciente.

--Onze horas!... Já tão tarde!... E elle sem vir!...

Ficou perplexa, a olhar para o sobrado, e estremeceu ao som de tres leves pancadas na porta.

Com certeza que não era o bater de João que ella tão bem conhecia, porque o coração começou a pulsar-lhe violentamente e ella, sem se levantar, perguntou, entre admirada e sobresaltada:

--Quem bate a esta hora?!

Em resposta, ouviu o ruido de uma bastonada applicada talvez á cabeça d'um homem, a seguir um gemido, e após isso a fuga de duas pessoas que se perseguem.

E nada mais ouviu, que as pulsações agitadas do seu coração sobresaltado e o sussurro do vento a soprar nas arvores do caminho e nos salgueiros sobranceiros ao Vouga.

VII

Tres dias depois, o tio José da Alameda recebia a visita da snra. Joaquina das Dôres, uma creatura, que, á semelhança de mais meia duzia, frequentava diariamente a egreja na _perfeita_ observancia dos preceitos do Divino Mestre.

Estas creaturas, umas verdadeiras corujas sempre mettidas pela egreja, tanto se servem da lingua para orar a Deus como para murmurar do proximo, assoalhando tôrpemente a vida intima de cada um. Não distinguindo, atravez da imbecilidade que lhes turva o cerebro, o grau de torpeza e abjecção que encerra o procedimento de vasculhar os actos menos meritorios que outrem pratique, não alcançam ao mesmo tempo a quanta belleza de virtude encerraria o seu procedimento se, em vez de auxiliarem a conspurcação da vida alheia, lhe tecessem louvores, ainda que immerecidos, tratando de occultar-lhe as manchas sob o pó bemdito da caridade.

A snra. Joaquina das Dôres era uma d'essas creaturas, que não pudera soffrer que um rapaz tão bom, tão sympathico, fosse arrastado tão cedo, e sem necessidade, ao bando dos renegados.

--Nada! dizia ella comsigo, tomando a resolução de se dirigir a casa do tio Alameda; isto não póde ser! O pae precisa de sabel-o, para desviar o filho do caminho do peccado em que anda!

E fôra com a consciencia em vias de satisfazer-se por ir praticar um acto dum _valôr altamente humanitario e divino_, como era o de conduzir uma ovelha ao redil, não lhe pezando, porém, o remorso de que, para o conseguir, tinha de sobrecarregar de injurias outra alma lançada ao desprezo pelo sopro horripilante da maledicencia, que se dirigiu a casa do tio Alameda.

--Em que posso ser-lhe util, snra. Joaquina? perguntou o velho com o seu sorriso de bondade á beata.

--Quero fallar-lhe em particular, snr. José. É um negocio de muita importancia que lhe quero communicar.

--Sim?! Queira então vir aqui para a sala, para que ninguem nos oiça.

Entraram, e a beata, limpando o nariz adunco a um enorme lenço tabaqueiro, tomou uma expressão de affectada piedade, e, sentando-se, a um signal do velho, cruzou as mãos sobre os joelhos, dizendo:

--Snr. José! Deus Nosso Senhor, quando andou pelo mundo feito homem, prégou a sua religião e indicou o caminho que nós deviamos seguir para nos salvarmos. Com os seus exemplos e as suas palavras que ficaram escriptas e foram passando de bôcca em bôcca, a sua religião chegou até nós e continuará seguindo emquanto no mundo o espirito do mal não deixar de dar geração. Muitos acereditam nas palavras dos santos padres, a quem Deus encarregou de o representar no mundo e de fazer respeitar a sua religião. Outros não acreditam em nada d'isso, e esses são os réprobos condemnados ás penas eternas. Mas o nosso dever, o dever de todo o bom christão, é, por meio das boas obras e dos bons conselhos, chamar ao caminho do ceu esses perdidos na escuridão do peccado.

E quando nós temos obrigação de chamar ao caminho do dever esses que nasceram já debaixo da protecção do demonio (a snra. Joaquina fez o signal da cruz,) muito maior obrigação temos de conduzir ao caminho da bemaventurança os que, tendo sido bons christãos, se deixaram seduzir pelas imposturas do demonio (aqui fez outra cruz e a sua voz, mais inflammada, dava fifias como uma corda de rebeca mal calcada pelo arco).

O tio Alameda ouvia-a muito attento, não comprehendendo onde a beata queria chegar. Não a interrompeu, e ella, sorvendo uma pitada, continuou, mais moderada:

--O snr. José desculpe-me de eu não começar logo a expôr-lhe o caso...

--Eu, na verdade, não sei onde quer chegar, senhora...

--Eu me explico. Espero que tomará na devida consideração as minhas palavras, pois que, tratando-se de seu filho...

--De meu filho?!... Que fez elle?

--O seu filho, snr. José, vae numa vida muito má! Numa vida que lhe fará perder a sua alma se vocemecê, com a auctoridade de pae, se não oppusér...

--Mas explique-se, por Deus, sr.ª Joaquina!

--Olhe, snr. José: o senhor conhece aquella rapariga chamada Maria Luiza que, segundo as famas que tem, não é das mais honestas?

--Conheço! Eu conheço a Maria Luiza!

--Pois o seu filho anda mettido com ella já vae para tres mezes; e isso fica muito mal a um rapaz como elle, filho d'um homem tão temente a Deus. Reprehenda-o, snr. José, reprehenda-o! É uma bella alma que se perde. Além d'isso, dizem que anda tão cégo por ella, que vae todas as noites lá a casa...

--O meu filho?! O meu João?!

--É verdade, sr. José. E tão desavergonhada é a filha como é a mãe, que consente poucas vergonhas lá em casa. É preciso que elle mude de vida, que já anda muito nas bôccas do mundo! E anda tambem em muito maus lençóes, porque, na vespera do Natal do Redemptor--aqui baixou a voz, fallando com calôr e vehemencia, e meneando os braços nuns gestos disparatados--espancou um rapaz que ia a passar á porta dessa tal Maria Luiza!

--Na verdade, sr.ª Joaquina, custa-me acreditar que meu filho faça isso!

--Pois é verdade, sr. José. O pobresinho de Christo ia a passar muito socegado da sua vida, quando sentiu uma forte bordoada na cabeça, que o ia matando. E matava-o, se não foge. Ora vocemecê não ha-de querer que seu filho ande assim nas bôccas do mundo por causa de uma mulher perdida.

O tio Alameda ouvia, pensativo, e extremamente penalisado, a narração da beata.

Esta continuou, dando ás suas palavras um tom mais mellifluo e repassado da mais revoltante hypocrisia:

--Reprehenda-o, sr. José, reprehenda-o! Deus nos livre que o sr. prior o saiba, que é capaz de mandar dizel-o para o bispo, que lhe lança alguma excommunhão! E o peor mal é d'elle, que condemna a sua alma ás penas eternas.

O tio José da Alameda limpou duas lagrimas que lhe rolavam pelas faces; e, meneando tristemente e com desalento a cabeça encanecida, e pondo as mãos num gesto de supplica, levantou os olhos para o ceu, exclamando com amargura:

--Meu Deus! Não permittaes que estes poucos cabellos brancos que me restam sejam manchados nos ultimos dias da minha vida pela deshonra de meu filho! Levae-m'o antes, meu Deus! ou levae-me a mim primeiro!

* * * * *

--Que viria cá fazer aquella beata? perguntou Paulo a Julia, ao vêr retirar-se a sr.ª Joaquina, muito satisfeita pelo _dever de consciencia_ que acabava de cumprir.

--Não sei. Esteve na sala a fallar com o patrão, e este appareceu com as lagrimas nos olhos.

--O diabo da velha! Não veio fazer coisa bôa, pela certa.

O curto dialogo foi interrompido pelo ruido do passo cadenciado do tio Alameda.

Elle appareceu, a physionomia contristada, o olhar velado por uma profunda angustia que lhe opprimia a alma.

--Pae? chamou Helena. O jantar está prompto.

--E o João onde está?

--Está no alpendre. Vae chamal-o, Paulo.

Durante o jantar, o tio Alameda esforçou-se por conservar uma expressão de contentamento; pela sua parte, João parecia nunca ter estado tão alegre. Depois da refeição, o pae chamou-o a occultas da familia, e disse-lhe:

--Meu filho: tenho um pedido a fazer-te. E é de tamanha importancia o que te quero pedir, que a tua desobediencia abreviaria os poucos dias de vida que me restam.

Fallava com uma tão pronunciada amargura, que João, prevendo o fim que elle queria attingir, e commovido mais pelas más impressões que seu pae teria colhido de quaesquer mexericos que lhe houvessem trazido (porque não lhe escapára a vinda da beata) do que pelas palavras do pae, respondeu, resoluto como o homem que espera o golpe que lhe vão vibrar:

--Sabe, meu pae, quanto o amo; e sabe tambem que tenho sido sempre um cumpridor fiel dos deveres de um filho para com seu pae, em tudo obediente...

--Sei tudo isso, meu filho; e sei tambem que o erro que praticas é na tua bôa fé.

--O erro que pratico?! E que erro é esse, meu pae?

--Praticas o erro de dar, sem necessidade que fallar ao mundo. Ora eu, que tenho de dar contas a Deus dos bons ou maus conselhos que dei aos filhos, quero prevenir-te de que andas por máu caminho. Muda de vida, filho da minha alma, se queres dar-me alguma felicidade no fim da minha velhice!

--Meu pae: sei ao que se refere, disse elle, com os olhos humildes no chão. Pois isso são contos do mundo, que...

--Mas o mundo é o grande juiz dos nossos actos, e o escandalo é um grande peccado!

João levantou resignado os olhos para o pae, e disse:

--Não me importa o que diz o mundo, porque tenho a consciencia tranquilla e a convicção de proceder bem. Diga-me, pae: se uma pessôa, por sua causa, se visse desprezada de toda a gente e na maior indigencia porque ninguem lhe dava um pedaço de pão a ganhar, o meu pae, que tinha sido o causador de toda aquella desgraça, o que fazia?

--Soccorria-a...

--E não lhe importava o mundo, com a sua má lingua?

--Mas que relação tem isso com o caso de que se trata?

--É exatamente a mesma coisa. Oiça-me, meu pae, porque vou fallar-lhe com o coração nas mãos. Pela alma de minha mãe, d'essa santa a quem eu tanto queria e cuja memoria para mim é sagrada e a quem meu pae idolatrava, acredite as minhas palavras, porque vou expôr-lhe toda a verdade.

O velho, commovido e silencioso, sentou-se num banco; e o filho continuou, com um olhar firme em que transparecia toda a verdade das suas palavras:

--Meu pae lembra-se d'aquella noite, em outubro, quando fizemos a nossa ultima desfolhada em que todos os que nella tomaram parte se divertiram, e quando eu, nas minhas cantigas, fiz uma referencia inoffensiva á Maria Luiza? As amigas d'ella, as quaes de amigas só tinham o nome, riram-se do pouco sangue-frio com que ella ficou ao ouvir a cantiga. Troçaram-na muito, e eu então, quando encontrei uma espiga de milho vermelho, tratei de recompensal-a e ao mesmo tempo castigar as trocistas. Prometti correr a roda, dando um abraço a cada uma, como é costume. Abracei, porém, a Maria Luiza, e sentei-me. Ficaram todas, como se costuma dizer, achatadas, mas eu levei tudo a rir. Pois foi isso o bastante para essas linguas damnadas começarem a levantar falsos testemunhos á pobre rapariga, cuja reputação foi maltratada; porque, a sua honestidade, tomaram muitas dellas possuil-a! Pensavam talvez que eu me deixava levar por esses zumbidos de varejeiras! Mas enganaram-se! Porque eu, que conheço ha muito a Maria Luiza e sei que o seu porte foi sempre honesto, não me deixei levar por cantigas d'essas invejosas que nunca tiveram nada que dizer d'ella senão depois d'essa occasião!

«Continuei a estimal-a, e mais ainda que antigamente. Confortava-a quando a via, e a tristeza da rapariga, antes tão alegre, impressou-me muito. Contava-me as suas desditas, e eu comecei a sentir cá dentro uma certa necessidade de a vêr todos os dias para a animar, e, quando fallava com ella, sentia-me mais satisfeito. Disse-me que nenhuma casa a recebia onde pudesse ganhar o sustento para si e para sua mãe que já não podia trabalhar pura viver; e quando, com as lagrimas nos olhos, ella me disse que se via na necessidade de abandonar esta terra para procurar outra onde pudesse trabalhar para ganhar o sustento para as duas, eu, meu pae, senti dentro do meu peito não sei o quê que me fez humedecer os olhos, e disse-lhe que não se apoquentasse, que eu olharia por ellas.

«Agora, meu pae, é occasião de eu lhe fazer uma declaração, que ha muito desejava fazer-lhe, mas...--e ao mesmo tempo pedir-lhe perdão do meu procedimento:--eu, todos os sabbados, tenho tirado do celleiro tres alqueires de milho que lhe entrego para ellas, com o producto, não morrerem á fome... Perdôe-me, meu pae, e consinta que continue a soccorrer aquellas infelizes com o pão de cada dia!

O velho envolveu o filho num olhar de ternura, e, suspirando satisfeito, disse:

--Perdôo-te, porque praticaste uma obra de caridade, o que, comtudo, não devias ter feito, sem m'o participares. Essa franqueza devial-a ter tido ha mais tempo para commigo, que me não opporia a isso. Mas tambem é preciso que uma pessôa não se deixe levar só pela bondade do seu coração, que muitas vezes nos não deixa vêr certas coisas que... Emfim, é preciso sempre raciocinar e vêr...

--Meu pae! A Maria Luiza é honesta!--interrompeu o filho com vehemencia. Essa rapariga padece por minha causa; e por isso tenho a obrigação de a defender da desgraça que a ameaça. E digo-lhe mais ainda, meu pae: a minha estima por ella converteu-se em amôr, e este em paixão. A minha resolução é salvál-a por completo da deshonra com que quizeram maltratal-a!

--Que dizes?! Pois tu queres...

--Quero casar com ella, meu pae. A Maria Luiza está innocente, ia jurál-o pelas cinzas de minha mãe. É uma victima das linguas invejosas.

--Já te disse, filho, que ha coisas que o nosso bom coração encara debaixo d'um aspecto e a razão debaixo d'outro. Não me opponho a nenhum casamento que meus filhos queiram fazer, mas o que eu quero é a minha honra acima de tudo...

--A sua honra não soffre nada com isso, e a minha dignidade exalta-se. Cumpro um dever de consciencia e do coração.

O tio Alameda ficou pensativo por alguns momentos; depois, placidamente, disse:

--Mas consta-me que ha dias, de noite, espancaste um homem que passava ás onze horas á porta d'essa rapariga. Foi verdade?