Chapter 3
O ultimo verso foi quasi abafado por palmas e gargalhadas e dictos dos circumstantes. A Maria Luiza baixou a cabeça, e, com effeito, se fosse á luz do dia, vêr-se-lhe-ia o rosto tingir-se de uma côr purpurina.
Na mesma occasião, um bando de rapazes que, ao approximarem-se do local da desfolhada, se occultaram a ouvir o cantador, aguardando o final dos seus improvisos para o acclamarem, sairam do seu esconderijo e appareceram juntando ao alarido as suas exclamações e motejos inoffensivos dirigidos á Maria Luiza que, na opinião d'elles, encavacara.
--Ora deixem-se d'isso! deixem-se d'isso! Dizia o tio Alameda. Quero que se divirtam, cantem e riam, mas nada de fazer «ir á serra» a ninguem.
Os recem-chegados dispozeram-se todos em volta do monte que já estava reduzido a metade.
No meio da confusão d'aquellas vozes em que sohresaiam as estridulas gargalhadas das raparigas, entre tantos corações jovens que, pondo de parte todas as preoccupações, só cuidavam de dar curso ás catadupas do ardor que d'elles dimanava, havia um coração joven, um coração de quinze annos, amavel como o de um anjo e puro e sensivel como uma camelia de cambraia fina.
Julia, desde o principio da desfolhada, parecera estar alheia a todo o enthusiasmo que reinava em volta de si.
Paulo notou essa abstracção e, pondo de parte as attenções ao seu genio folgazão, perguntou a Julia, com voz terna e compassiva.
--Então a menina para que está sempre assim triste? Nem ao menos agora se alegra? Ha já mais de um mez que está nesta casa, e ainda não houve um dia em que estivesse alegre!
Julia respondeu ás palavras compassivas e ternas de Paulo com um olhar agradecido e ao mesmo tempo tão dôce, que elle, sentindo na sua alma umas vibrações extranhas e no coração umas palpitações que jámais sentira, baixou os olhos como uma creança envergonhada. Á luz da lua, que dera em cheio no rosto de Julia, elle vira-lhe nos olhos duas lagrimas, e nos labios brincar um sorriso candido de reconhecimento; e na expressão desse rosto, no conjuncto das lagrimas com o sorriso angelico desse rosto encantador, Paulo esqueceu-se de si, do logar onde estava, do mundo onde entrara pela porta da infelicidade, e julgou ouvir dentro de si uma musica celeste, de harmonias extranhas; pareceu-lhe que, num sonho, vagueava sem saber por onde, talvez pelas nuvens, e que só via deante de si esse rosto...
Despertou do seu curto êxtase, e olhou para Julia, que sorria para elle, muito mais bella do que d'antes, com os seus cabellos loiros brilhando como fios d'oiro e com os seus olhos azues que pareciam dois ceus pequeninos toldados de nevoas.
--Oh! a menina chora?... pôde elle articular.
--Você, Paulo, parece ter muito bom coração; por isso deve entender que tenho razão para estar triste, quando todos aqui riem e cantam. Você ainda tem pae e mãe?
--Não sei!... murmurou elle quasi imperceptivelmente e profundamente triste.
--Não sabe?!... disse ella verdadeiramente admirada.
--Não, porque nunca os conheci... Julia, intrigada, ficou a olhar para elle. Julgou que estaria gracejando com ella, mas, vendo a sua expressão de verdadeiro pezar, perguntou:
--Então é porque lhe morreram quando você era pequeno?
--Não sei!...
--Você quando para aqui veio que edade tinha?
--Doze annos.
--E até então onde esteve?
--Estive em casa da mulher que me criou. Essa é que me disse que meus paes me tinham abandonado quando nasci...
--Abandonaram-n'o?!... Que corações tão duros! E você não chorou quando ella lhe disse isso?
--Não, porque nunca os tinha conhecido. A ella me habituei a chamar mãe e outra não conheço.
--E você gostava de conhecer seus paes?
--Gostava!... disse elle num murmurio, tão intimamente triste, que Julia não se atreveu a fazer-lhe mais perguntas.
A animação em volta d'elles continuava. Passados momentos, Paulo tomou uma expressão resoluta e disse:
--Já vê a menina que eu tenho mais motivos para chorar, porque sou mais infeliz, e comtudo não choro!
--É verdade, Paulo. Você tem razão. Não torno a chorar! Hei-de agora esforçar-me por ser alegre como você.
--Ena! cá está uma! gritou, vibrante, a voz de João que, em pé, empunhava uma espiga vermelha. Um abraço! Vou já dar um abraço a cada uma!
Fôra a Maria Luiza que atirara, a occultas das suas companheiras, uma maçaroca ás mãos do João.
Este dispunha-se a abraçal-as e ellas, com intenso gaudio intimo, preparavam-se para receber o seu abraço.
Porque, afinal, não havia alli nenhuma que não sentisse o seu fraco pelo João do tio Alameda. Pois se elle era um rapaz forte que nem um tirante e com um coração como o de uma pomba! E que bem elle cantava! Depois, juntava a todos estes dotes um bom par de geiras que já herdara da mãe e outras tantas que o pae lhe havia de deixar.
Ora, um rapaz assim não era mal empregado na Maria Luiza, uma pobretona, sem um palmo de terra? As outras assim pensavam, e com alguma razão.
As leis da attracção da riqueza são as mesmas dos corpos celestes. «A materia attrae a materia na razão directa das massas e na inversa do quadrado das distancias» disse Newton. Esta lei rege as riquezas, com a differença porém, que na gravitação universal não ha excepção alguma do que resultaria algum cataclysmo que nos dava que contar; e na lei das riquezas ha as suas excepções, de quando em quando.
Antes as não houvesse, porque se evitariam grande desgraças. O pobre, embora inspire paixão ao rico, nunca este o olha como um ser egual a si. Nas mulheres, pelo menos, que é onde a vaidade humana se concentrou mais impetuosa, o amôr pelo pobre não é mais que um passatempo ephemero, um capricho que se evola ao embate das primeiras reflexões em que a vaidade serviu de juiz.
Póde ella, em virtude duma mais pronunciada sensibilidade do coração, submetter-se a esse capricho. Mas um coração d'esses é tão difficil de encontrar como as perolas no oceano Atlantico.
Não admira, pois, que a affeição do João pela Maria Luiza não inspirasse ciumes ás suas companheiras. Ellas riam-se no seu intimo da illusão em que a rapariga parecia andar, e, maliciosamente, occultavam-lhe os seus pensamentos, aguardando a desillusão da sua _doidice_, como lhe chamavam.
Todas com intenso gaudio intimo, se preparavam para receber o abraço do João da Alameda, disse eu.
Elle dirigiu-se á Maria Luiza, emquanto ia dizendo:
--Começo por ti, rapariga, já que estás aqui mais perto. As outras que vão esperando.
E depois cantarolou:
--Chuchem agora no dedo, Mas é tudo sem maldade: São apenas brincadeiras, Tudo proprio d'esta edade.
E voltou para o seu logar.
Os rapazes acclamaram e bateram palmas.
--«Bella partida!» diziam de todos os lados. Ellas, encolhendo os hombros desdenhosamente, ruminavam o seu despeito, fingindo não darem importancia ao caso.
No rosto de algumas deslisou um sorriso contrafeito, e, entretanto, a desfolhada terminou.
* * * * *
O sol, no hemispherio opposto, tinha já brilhado no zenit dos nossos antipodas quando começou a retirada dos nossos personagens.
Na eira, desoccupada com presteza depois da desfolhada, dançara-se alegremente na mais dôce expansão d'aquellas almas inflammadas do ardor da mocidade.
A lua, recolhendo ao seu leito, convidou o nosso jovial bando a seguir-lhe o exemplo.
Na retirada, formaram-se varios grupos alguns dos quaes foram cantando pela estrada fóra; outros, cedendo o logar do enthusiasmo da mocidade á maledicencia, ventilavam, atravez o fôsco prisma da inveja, o caso da Maria Luiza.
--E que vos parece?! dizia, contraindo os labios em signal de surpresa e admiração, ás suas tres companheiras a Joanna Mulata, que, tão proxima do João como a Maria Luiza, não podera levar em paciencia que elle preferisse esta a si. E a lambisgoia d'aquella Maria Luiza, hein? Um mocetão d'aquelles, gostar d'uma delambida assim!
--Ora! Vocês tambem fiam-se em boas!
--Pois decerto! dizia a terceira. Que pretende ella d'elle?
--O que pretendeu, segundo ouvi dizer, inventou a quarta.
--Sim?!
--É verdade! E vocês não viram, inventou ella de novo, aquella grande descarada dar-lhe um beijo quando elle a abraçou?
--Sério?!
--Deu! Eu vi! Não admira, pois, que, segundo as famas que correm, elle se mostre assim para com ella. São rapazes! o que querem é...
--Pois decerto!
--E faz elle muito bem! Quando ellas são assim, é bem feito!
--Que grande descarada!
--Cara sem vergonha!
VI
Natal, eu te saúdo!
Quer a tempestade ruja lá fóra com indomavel fúria ameaçando prostrar as oliveiras tristes e a chuva fustigue e amarelleça as brancas e innocentes camelias do meu jardim; quer um sol claro e resplandecente e benefico paire no firmamento alegrando a natureza durante o dia, e á noite um docél azul marchetado de meigas estrellas se desenrole por sobre a minha fronte--eu amo-te, óh! Natal!
Amo-te, quer rias como uma creança loira perseguindo uma borbolêta que saltita de flôr em flôr, quer chores como um velhinho, acabrunhado pelos annos e de dorso curvado, chorando, sobre o netinho que acaricia no regaço, lagrimas de saudade!
És bello quando ris; mas o teu sorrir é forçado porque a tua alma é triste: e a tristeza encanta-me. Por isso eu amo-te.
És meigo e terno quando choras, porque as tuas lagrimas são sinceras, são o desabafo de mil amarguras, de mil saudades. E as lagrimas são uma doçura tão intima, e tão celeste! Por isso eu adoro-te.
Amo-te nas aguas frias do Vouga que corre melancholicamente lá em baixo por entre os salgueiros entristecidos; amo-te nas arvores despidas de folhagem destas collinas; na monotonia destas varzeas e destas lezirias, e na atmosphera tépida da cosinha do bom lavrador que olha com carinho a familia reunida em volta da lareira; amo-te, finalmente, em tudo o que, inspirando tristeza e melancholia, segreda á minha alma attribulada mil poêmas de amôr, mil recordações da minha infancia!
Viver de esperanças é um viver de incertezas e de decepções; cada dia que desponta é um sorrir velhaco e traiçoeiro cuja hypocrisia a nossa alma incauta e offegante não vê.
Viver de saudades e um viver mais suave, mais santo; é um viver, por assim dizer, morto, porque a nossa alma, com o ultimo golpe, já não tem alento para novas esperanças e decepções; o sol já não tem aquella expressão pérfida que nos ludibriava, e cada dia que passa é uma conta do rozario das nossas recordações que a nossa alma alanceada percorre orando e offerece ao Creador.
E tu vives de recordações e de saudades. Oh! Natal! Viver santo, viver celeste!
Ha mil novecentos e oito annos que uma creança, tenra e mimosa como os nenuphares do poetico Jordão, veio lançar sobre a humanidade obcecada os raios da luz vivissima que jorrava de seus olhos celestes. Nas miseras palhas onde nasceu essa creança--tão pobre como a mais pobre de todas as creanças, podendo, se quizesse, ser a mais opulenta--tu nasceste tambem: tiveste o mesmo leito, e o recem-nascido bafejou-te com o halito vivificante da sua bocca divina.
E desde esse momento, não obstante o rolar dos seculos, conservaste sempre a frescura innata que recebeste d'esse halito sacrosanto. O teu nome, envolvido duma auréola fulgente de luz divina, é proferido com amôr por todos que têm no peito um coração que soffre.
E tu viverás sempre, oh! Natal! emquanto no mundo houver uma mãe que beije com ternura o pimpolho fecundado no seu ventre e existir um infeliz; que chore uma lagrima!
* * * * *
O dia de Natal amanhecera triste e soturno.
Atravez da escuridão que desapparecia lentamente, o vulto d'um casarão se desenhava ao fundo do adro, semelhante a um gigante enorme, muito velho já, com uma das mãos levantada para o ceu, numa attitude de misericordia.
Era a egreja com a sua torre.
Que velhinha! Que velhinha!...
Nas suas paredes, cobertas de lichens, ella está recordando com mágoa as innumeras intempéries que têm zurzido o seu dorso, e, extenuada, profundamente abatida, parece impetrar do céu a piedade que dos homens ingratos não tem conseguido obter...
O dia amanheceu triste e sombrio, ia eu a dizer.
Durante a noite tinham caido grandes e consecutivas bátegas de agua, e o ceu, como que cançado, apresentava um aspecto soturno.
Ao longe, para o oriente, a serra do Caramulo, na negrura das nuvens que sobre ella se encastellavam num espesso e elevado nimbo, parecia elevar-se muito alta.
Os eucalyptos da alameda contigua ao adro eram encrespados pelo soprar, em pequenas lufadas, do vento do sul, e por sobre a aldeia repercutiam-se, com maior intensidade para o norte, as ondulações sonoras que partiam do sino que chamava os fieis para a missa da manhã.
Á esquina do adro, o Facca, abrindo uma das portas da loja, olhou sombrio para o ceu pardacento e resmungou:
--Hum!... Temos mais môlho!...
Uma mulher, encafuada num mantelête, conduzia uma pacifica vacca que puxava a uma carroça. Acampou no adro e, depois de ministrar á vacca uma ração de pasto, affastou uma das extremidades do tolde que cobria a carroça, deixando a descoberto uma parte da sua mercadoria, que consistia em hortaliças.
Á entrada do recinto que cerca a egreja, uma outra mulher, collocando no chão um cêsto de castanhas cosidas e uma ceira de figos, sentou-se num pedregulho, á espera de freguezes.
O sachristão abriu a porta principal da egreja, e d'ahi a pouco tempo, embrulhadas em chales pretos, duas beatas, semelhantes a duas almas penadas, depois de, ao passarem pelas vendedeiras da hortaliça e dos figos, mastigarem, numa linguagem cantarolada, um «Deus vos dê muito bom dia!», entraram, benzendo-se seraphicamente, com o pé direito na egreja.
Dentro d'esta, encantadoramente recostado num presepio collocado num dos altares do lado direito, o Menino Jesus sorria, pequenino e nú, com um sorriso infinitamente bom e amavel. Deitada graciosamente num presepio todo engalanado e alumiado, essa pequenina estatua divina estendia os braços, n'uma alvura de jaspe, como querendo abraçar a humanidade inteira num amplexo de amôr divino e paternal.
Ao lado do altar estava um grande cesto destinado a receber as offertas de pequeno lóte.
Os fieis começaram a affluir ao templo.
O velho prior...
--Que bom homem que elle era! Que candura d'alma se reflectia sempre naquellas pupillas que se fixavam nos nossos olhos cheias de amôr e affabilidade! Com que bondade me pousava a mão na cabeça, era eu pequeno, afagando-me com palavras de indizivel doçura que só as sabe pronunciar quem tem uma alma predestinada que encontra o bello ideal na contemplação das tres perfeições naturaes--creanças, musica e flores!
Elle appareceu, com a expressão jovial de sempre, envolvendo num olhar carinhoso todo o ambito da egreja com as pessoas que já lá estavam, e ajoelhou na escada do altar-mór, inclinando humilde e religiosamente a cabeça encanecida.
Assim permaneceu um quarto d'hora; depois, o capellão veio, já a egreja estava cheia de gente, paramentado e abrindo alas docemente por entre o povo que enchia a capella-mór.
Depois da missa, elle revestiu-se d'um pluvial e dirigiu-se para o altar onde o Menino Jesus estava reclinado no seu presepio.
O sachristão abriu a umbella emquanto o sacerdote pegava no Menino, e o povo começou a entoar o Bemdito.
Todos então, homens e mulheres, affluiam a depositar um osculo de amôr, acompanhada d'uma genuflexão, nos pésinhos, que pareciam pinhões, d'essa pequenina estatua que o padre segurava cautelosamente e com respeito nas mãos, acompanhando cada genuflexão que faziam d'um «Natus est nobis».
Finda a adoração, que durou cerca de meia hora, o adro regorgitava de gente que aguardava o leilão das offertas.
Um homem dos seus quarenta annos, de aspecto agradavel, subiu para uma das extremidades do muro que veda o recinto em volta da egreja, e, pegando numa abóbora, exclamou, sorridente:
--Vale bem sete vintens! Para mais, e não para menos!... É massiça e deve ter pouca pevide! Isto para filhoses, é de estalo!
--O dia das filhoses foi hontem.
--Todos os dias e todas as noites se fazem filhoses. Eia! Está em sete vintens!...
--Oito! gritou um do lado.
--Oito vintens! repetiu o pregoeiro. Oito! Oito! Oito! quem dá mais?... Oito!...
--Nove!
--Nove vintens! Não ha coisa mais barata! Eu não a fazia nem por nove mil reis!
--Mas comial-a de graça, mesmo assim crúa!
--Coma-a você. Não sou seu irmão. Nove vintens!... Nove!... Nove... uma. Nove... duas. No...
--Cento e oitenta reis! gritou um, meio chocarreiro.
--Cento e oit...--Vá p'r'ó diabo! São os mesmos nove vintens. Quem dá mais? Nove... uma. Nove... duas. Nove...
--Abóboras?
--...tres!--Vá p'rá missa.--Assentem alli ao snr. Manuel da Silveira.
Vieram depois mais aboboras, cujo leilão decorreu sempre no meio de inoffensivas zombarias do mesmo theor.
Cebôlas, borôas, garrafas de vinho fino, pés de porco, tudo appareceu no leilão.
--Ora até uma gallinha cá appareceu! Cinco tostões! Se ninguem a comprar fico eu com ella.
--Para comer, ainda hoje, mais a sua Francisca, hein?...
--Tomaria você que eu o convidasse tambem. Cinco tostões!
--Seis!
--Seis tostões! Está pezadinha. Seis tostões e meio a mim!
--Sete tostões.
--Sete! Mau! Já não fico com a gallinha!
--Veja se tem ovo. Se tiver, dou mais dez reis.
--Não metto o dedo onde você costuma metter o nariz. Sete tostões! Sete! Sete tostões, uma. Sete... duas. Sete... sete... tres! Acolá ao tio Manuel Joaquim.
Chegou a voz ás quinquilharias e brinquedos. Appareceu um caixinha coberta de setim, fechada.
--Que linda caixinha! dizia o pregoeiro mirando-a por todos os lados. Parece que foi feita por mãos de fada! Não vale menos de cinco tostões. Está fechada e deve ter qualquer coisa bôa cá dentro!
--Abra! Abra! Queremos saber o que tem dentro!
--Querem saber?! Comprem-na! Vale bem cinco tostões e... e... tres--vá lá!--pelo que tiver.
--Nove tostões! gritou de longe uma rapariga.
--Ah! Estás com o olho nella? Não que ella é bonita, lá isso é! Nove tostões!... Nove tostões!...
--E meio, disse o snr. Silveira.
--Nove tostões e meio! Só o setim vale o dinheiro. Depois, isto cheira a... cheira a não sei ao quê que tem cá dentro...
--Dez tostões! repetiu a mesma rapariga.
--Estás morta por ella, diabo! Deixa estar, que se a não comprares, hei-de dar-te uma caixinha mais linda que esta. Dez tostões!
--Mais um vintem, disse o snr. Silveira.
--Dez tostões e um vintem! berrava o pregoeiro, mostrando a caixa para todos os lados.
--Onze tostões! gritou de novo a rapariga.
--Estás desesperada! Onze tostões!...
--E meio!
--Onze tostões e meio!
--Mil cento e cincoenta! gritou outro zombeteiramente.
--Falle claro, se quizer que o entenda. Onze tostões e meio! Eh! rapariga? Então tu?
--Um quartinho! disse ella.
--Um quartinho. Vá lá! Um quartinho! Quem mais dá? Isto deve ter amendoas dentro. Pelo cheiro... com certeza. Um quartinho! Um quartinho, uma. Um quartinho... duas! Que linda! Que linda! Até é uma pena ir para as tuas mãos, rapariga! Um quartinho...
--Tres!
--...tres!--Não preciso cá de ponto.--Acolá para aquella cachópa.
A linda caixinha passou de mão em mão até á compradora.
Todos admiravam as côres garridas do setim que a cobria, e apinhavam-se em volta da rapariga, anciosos por saber o que encerraria a caixa.
Presa a uma fita estava uma chave que foi applicada á fechadura. Todos, em bicos de pés, aguardavam a surpreza.
A chave deu volta... A rapariga levantou a tampa e de dentro saltou uma coisa que poz em murmurinho todos os que se apinhavam em redor.
Era um rato.
* * * * *
Retrocedamos á vespera do Natal, á noite da conçoada--a noite tradicional da confraternisação de todos os corações que, ligados pelo sangue e pelo amor, se reunem para, na santa simplicidade aldeã, offerecerem em holocausto a Deus, concretisado na pessoa d'um infante prestes a descer á terra, o que de mais puro e sincero ha nos seus corações transbordando do mais acendrado amôr divino.
Penetremos em casa do tio José da Alameda.
Antes de passarmos á cosinha, detenhamo-nos alguns momentos na sala, para contemplarmos um pequeno altar, profusamente allumiado, com um presepio onde um Menino Jesus parece estar suspenso numa nuvem de camelias brancas, tão brancas, tão puras, como pura era a alma de quem com tanto carinho e desvelo as collocou alli.
Fôra Julia quem se encarregára da confecção do altar, em que gastou duas horas.
Colhêra, no pequeno jardim que estava entregue aos seus cuidados, as camelias mais brancas e menos damnificadas pela frieza das chuvas, e alli, naquelle altar, as collocára uma por uma, pacientemente, com um angelico sorriso nos labios e nos olhos uma ternura em que se traduzia a candura da sua alma.
Ao terminar a sua tarefa, corrêra, cheia de contentamento, a chamar todos os da casa para verem a sua obra.
--Muito lindo! Está muito lindo! dizia-lhe o tio José, passando-lhe paternalmente a mão pela cabecita loira. Dou-te os meus parabens por teres tanta habilidade.
--Logo, depois de ceia, vimos para aqui fazer serão? perguntou, radiante, Julia.
--Decerto! Havemos de vir fazer companhia ao Menino Jesus até á meia noite, que é para elle ser sempre muito nosso amigo! Agora vamos para a cosinha, emquanto a ceia se faz.
E ella deitou a correr aos saltinhos, adeante d'elle.
O coração sempre é um grande artista! Aquella creança, ha tres mezes ainda, tão triste, tão pensativa... Oh! o amôr! o amôr!...
É que Paulo e Julia amam-se.
Lançadas no berço da orphandade, essas duas almas, como dois infelizes que se encontram no mesmo caminho, contaram as suas maguas, compadeceram-se mutuamente, comprehenderam-se, deram-se as mãos, acalentaram-se, amaram-se e proseguiram juntas, não já pelo caminho agreste que as martyrisava, mas por uma vereda em que os espinhos tem a suavidade das rosas, em que já não ha agruras, onde tudo são madresilvas e violetas rescendendo um aroma inebriante. Esqueceram as desditas passadas para gozarem, juntos, os beneficios d'esta nova phase que a Providencia lhes deparou; e, junto d'esses dois lyrios, transportados d'uma encosta arida para a beira d'um fresco arroio, nasceu uma trepadeira de flores odoriferas, que os enleou, ás quaes flores um anjo, transformado em uma abelha, vem diariamente haurir o dôce nectar e o leva ao seio de Deus...
Paulo e Julia amam-se com um amôr todo ideal; amam-se com aquelle amôr dos corações predestinados que amam uma só vez na vida.
Occultando, o mais possivel, aos olhares estranhos a impulsão que os anima um para o outro, esses corações, quando sós, estudam-se mutuamente, em conversas banaes, conversas de creanças apaixonadas que não se atrevem a manifestar-se o seu amôr; mas nesse natural retrahimento, nessa timidez que os retem muitas vezes em silencio sem ousarem quebrar o encanto que sentem na contemplação mutua das suas almas, durante esse silencio em que cada um d'elles só ouve o ruido do pulsar do seu coração, as suas almas fallam, entendem-se, estudam-se, amam-se cada vez mais...
Penetremos tambem na cosinha.
A formosa Helena prepara, sobre a meza tôsca, a massa para as filhoses; com as mangas do vestido arregaçadas deixando vêr os seus bem torneados braços até ao cotovello, falla e ri com a sua peculiar jovialidade.
Na lareira, em volta d'uma fogueira onde arde um grande cepo, estão sentados o tio José, Julia, João, e, na extremidade do banco, Paulo.
O tio José entretem a familia com historias alegres que fazem rir todos, excepto o João que, com o olhar fito num ponto do brazido, parece alheio ao que se passa em volta de si. De vez em quando, despertando da sua abstracção, olha para o pae, passeia o olhar em roda, e volta a mergulhar-se nas suas reflexões.
--Ó paesinho! diz Helena ao pae, que acaba a narração d'um conto; isto está quasi prompto: agora é preparar a certã e fazêl-as. Mas, emquanto as faço, o pae ha-de contar aquella historia tão engraçada que nos contou o anno passado.
--Que historia?... Eu já me não lembro do que contei hontem...